...e depois, com bigodes de leite, pedem mais paciência e esforço ao povo, que a "vaca 'tá seca".

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

OS NÚMEROS

Menos conhecida que a Fundação Champalimaud, a Fundação Francisco Manuel dos Santos dedicou-se às Ciências Sociais, sob a batuta de António Barreto. O seu trabalho mais visível é uma base de dados de acesso público, a PORDATA, que apresenta uma série de estatísticas oficiais desde 1960, e a edição duns livrinhos à venda a 3-5 euros, de modo a que qualquer um possa adquiri-los.
Já saíram 3, um sobre o ensino de português, outro sobre fiscalidade (de Saldanha Sanches) e, o primeiro, sobre 5 décadas de mudanças em Portugal. Justamente intitulado “Portugal: os números”, escalpeliza uma enormidade de dados sobre uma variedade de assuntos, resistindo à tentação de interpretá-las politicamente.
O que fiz foi condensar parte da informação em algumas tabelas. Cada uma delas daria pano para mangas, pela quantidade de informação: é caso para dizer que cada parcela vale por si. Mas o mais relevante é que se confirmam crenças e desfazem mitos.
Factos confirmados, há mais velhos, menos filhos, as famílias são mais pequenas e têm composição diversificada, casa-se menos e não é para toda a vida (número, 4 divórcios por cada 10 casamentos); houve um progresso notável na saúde, educação e cultura, no que diz respeito a acessibilidade, recursos humanos e gasto público.
O PIB aumentou muito (septuplicou desde 1980, esquecendo a inflação…), mas o crescimento é cada vez mais lento. Porém, os gastos sociais tiveram um crescimento exponencial, a um ritmo muito superior ao crescimento da riqueza nacional e atingindo valores insuportáveis de manter (número, rácio activo/pensionista cai de 5 para 1.7) – chegámos tarde ao estado social e ele está em vias de atrofiar. E cai o mito que o “centrão” desmantelou as "so called" conquistas de Abril e pretende acabar com o Estado Social.
O falhanço maior da democracia, a meu ver, foi a justiça, e os números são cruéis. Não só na justiça fiscal – 40% das empresas declaram prejuízo -, mas na justiça geral:
muito mais recursos humanos e financeiros, muito mais litigância, processos cada vez mais demorados, um sistema que não dá vazão. E sem justiça, não há nada.








quinta-feira, 14 de outubro de 2010

A MEIAS


Eu e a Susana começamos a namorar há, fez ontem, 18 anos. O namoro é adulto e já pode tirar a carta. Estatisticamente, já vai sendo uma idade generosa.
Como em todos os casos, a “criança” começa a gatinhar, tudo é novidade, tudo se desculpa e há apenas 2 necessidades a preencher, alimentação e mimo. Depois aprende-se a andar, à custa de joelhos esfolados, mas sopra-se e “Já passou!”. Crescendo, há que estudar e fazer trabalhos de casa, com o tempo aprende-se a saber “encaixar”.
É uma mutação: imaginem (imaginem, porque não é o caso!), o “ai o meu amor range os dentes a fazer óó…” evolui para “não faças barulho, deixa-me dormir” e, muito mais tarde, não se diz nada, porque a audição já não é o que era.
Mais que um património físico (a meias com o BPI!!!), há muita história comum. Em tudo que o aconteceu nestes 18 anos, de bestial e de besta, porque houve de tudo, estivemos lá os dois.
Ah pois, há coisas que se aprende cedo, como “sim-pode-querer-dizer-não”, ou quando se deve “fazer de morto”, por exemplo quando a namorada tem mau acordar e qualquer palavra (uma que seja!) até chegar à faculdade, pode gerar uma confusão. Graças a deus, este é uma das coisas que a Susana melhorou com a idade.
Bem, tenho que admitir que a Susana também teve que acomodar os meus, 2 ou 3, nanomicropequenos e médios defeitos...

OPÇÕES DOS HOMENS DO LEME


2 notícias no mesmo jornal: o Estado deve 7 milhões de euros às câmaras, para pagar despesas de acção social nas escolas, e pagou desde Janeiro 6,2 milhões de euros de pensões a 300 políticos...
Depois espantem-se que o povo anda irritado... A impressão geral é que até se faz um esforço, mas se passar a haver pudor no gasto público e houver resultados. Para tudo ficar na mesma, não. E o que parece é que, mesmo com esta sucessão de apertos, o barco continua a meter água.

Mas, como a legislação é também a história das nações, veja-se o que fica para a história sobre o que prendia a atenção dos líderes de Portugal e da Europa a 12-09-2010:
1. O Governo publica a Resolução do Conselho de Ministros nº 80/2010, que "Prorroga o prazo para a apresentação das propostas no âmbito do concurso público de reprivatização do BPN - Banco Português de Negócios”, a saber, não consegue desfazer-se do banco que resolveu segurar em fase de falência fraudulenta, e vai (vamos) ficar com o prejuízo.
2. Já a Comissão europeia publica o “Regulamento (UE) n.o 905/2010 da Comissão, de 11 de Outubro de 2010, que altera o Regulamento (CE) n.o 1580/2007 no que respeita aos volumes de desencadeamento dos direitos adicionais para os pepinos, as alcachofras, as clementinas, as mandarinas e as laranjas”. O José Manuel tá ocupado é com as mandarinas.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

O BASÍLIO HORTA BATEU-ME


Há dias, apareceu um deputado cartaxense na televisão. Expliquei aos miúdos, aquele senhor é irmão do marido da irmã do teu padrinho. Perguntaram-me então, e tu, já apareceste na televisão?

Fiz um rewind de 20 anos ao meu arquivo morto e respondi, na televisão não, mas apareci num jornal: um candidato a presidente da república – levando uma tareão (70.35 contra 14.16%) – foi a vila real fazer um comício no cinema e eu fui. Apareço numa fotografia em 1º plano com um autocolante na testa. O senhor candidato até me deu um estaladão, querendo dar-me uma palmadita de amizade, quando passava à saída pela massa de jovens com bandeiras.
Tão perto doutro político estive 5 anos antes, em 85, quando um desconhecido Cavaco Silva percorreu o Ribatejo numa camioneta cheia de adolescentes. Nessa altura, dizia nos palanques “NÓS vamos fazer”, mas 2 anos depois já falava na 1ª pessoa do singular, “eu fiz”. O momento em que reparei nisso, num comício em Santarém, foi o fim da nossa bela amizade…
A propósito, nessa mesma noite cruzámo-nos na caravana automóvel com um senhor que ficou literalmente eufórico quando gritámos o seu nome, pois só os mais atentos sabiam quem era um tal de Mira Amaral.

Esses são tempos irrepetíveis, quando as eleições eram uma festa: colávamos cartazes (era legal, na altura), distribuíamos autocolantes no mercado e andávamos por Lisboa de pé, em cima dos autocarros, a agitar bandeiras ou chapéus-palhinha de plástico do Freitas do Amaral, nas mais memoráveis e renhidas eleições desde 1974.
Quem diria que este senhor tinha uma síndroma vestibular e foi caindo para a esquerda, até ser ministro de Sócrates... Isso deve pegar-se nas candidaturas centristas a presidente, o Basílio também anda agora por essas bandas. Arrrhg.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

HAVIA BANDEIRAS MAIS GIRAS...

Feita a revolução, houve que encontrar 4 novos símbolos nacionais: uma moeda, um hino, uma imagem e uma bandeira.
A MOEDA escolhida para substituir o real foi o escudo, alternativa já usada em alguns reinados, sendo o último o de João VI. Oficializada a 5/11/1911, durou até 2002, quando chegou o euro. Cada escudo equivalia a 100 centavos e a 1000 réis. Quem não se lembra que o pão custava 2 "mérreis", ou que uma coisa inútil não valia uns mérreis de mel coado?
O HINO foi fácil, pegou-se na música de Alfredo Keil (inspirada n’A Marselhesa) e no poema de Henrique Lopes de Mendonça, criados 20 anos antes, aquando do ultimato inglês. Uns cortes aqui e ali, troca-se bretões por canhões e já está.
A homologação na assembleia ocorreu a 19/06/1911.

A história do BUSTO da república é a menos conhecida das 3. Não passou à história a obra vencedora do concurso lançado em 1911, da autoria de Francisco dos Santos, que apresentava uma mulher mais elegante, mais parisiense. O busto que ficou para a posteridade foi a do 2º classificado, Simões de Almeida (sobrinho) e tinha seios mais fartos. Em comum, o barrete frígio, tipicamente português… A musa foi uma alentejana de Arraiolos, chamada Ilda Pulga (1892-1993).

Falta a BANDEIRA. 10 dias após a revolução, o governo escolheu uma comissão para projectar a nova bandeira. O grupo – que incluía Columbano Bordalo Pinheiro e João Chagas - inspirou-se (natural ou descaradamente) nas bandeiras dos centros republicanos e das sociedades secretas que tinham participado na revolução, a maçonaria e a carbonária.
Eis os motivos apresentados para a escolha, no relatório então produzido: o vermelho "cor combativa e quente, é a cor da conquista e do riso. Uma cor cantante, ardente, alegre. Lembra o sangue e incita à vitória"; o verde "cor da esperança e do relâmpago, significa uma mudança representativa na vida do país"; a esfera armilar é o símbolo dos Descobrimentos Portugueses, a fase mais brilhante da nossa História, portanto deve aparecer na bandeira; o escudo com as quinas deve continuar na bandeira como homenagem à bravura e aos feitos dos portugueses que lutaram pela independência; a faixa com sete castelos também deve permanecer porque representa a independência nacional.
O Governo aceitou a proposta, mas fez algumas alterações, sendo a nova Bandeira Nacional aprovada a 29/11/1910 e homologada pela Assembleia Constituinte a 11/06/1911.
Mas houve mais 27 propostas, algumas delas mais bonitas (voto na 11), outras disparatadas, outras difíceis de costurar, ora mantendo o azul e branco, ora optando pelo verde-rubro, à americana, à francesa, à commonwealth, com o losango ou a bola brasileiros, estilo sul-americano, com caravelas, louros, barretes frígios e até baralhos de cartas.
A alternativa mais mediática foi a de Guerra Junqueiro, que defendia as cores originais: "A bandeira nacional é a identidade duma raça, a alma dum povo, traduzida em cor. O branco simboliza inocência, cândura unânime, pureza virgem. No azul há céu e mar, imensidade, bondade infinita, alegria simples. O fundo da alma portuguesa, visto com os olhos, é azul e branco."

Estandarte do Grande Oriente Lusitano
Bandeira da carbonária
1º projeto da comissão oficial, 29/10/1910

OS OUTROS PROJECTOS
1. Guerra Junqueiro
2. Comissão Portuense
3. José Pereira de Sampaio (Bruno)
4. António Augusto Macieira
5. Alexandre Fontes
6. Rigaud Nogueira
7. António Arroyo
8. Augusto Jorge Fernandes Casanova
9. Joaquim António Fernandes
10. Salvio Ratto11. Alfredo Pinto da Silva
12. Alvitre de Carvalho Neves
13. Delfim Guimarães e Roque Gameiro
14. Francisco Ferreira Marques
15. Albano Ferreira
16. Henrique Lopes de Mendonça
17. António M. de Sousa
18. Aníbal Rodrigues
19. A.P.S.
20. professor de ensino livre21. J. S. Ferreira
22. J.A.E.S.23. Jacinto de Rosiers24. Projecto Racional de Conciliação25. Álvaro A. da Silva Foito
26. Alvite Duarte Alves G. Leal27. Eduardo Álvaro da Silva

COM CORPINHO DE 120


Finalmente chegou o dia. 100 aninhos redondinhos, uma idade provecta.
Cá por mim, a ideia de ter um Rei não incomoda muito, há-os em muitos países, sem que daí venha mal ao mundo.
Só há uma diferença entre a monarquia e a república: cá, não há ninguém que não seja escolhido por outros. É que aqui não se herdam títulos. Uma pequenina diferença.
Um brinde! Ouçamos o hino.

domingo, 3 de outubro de 2010

TRAGAM A MARMITA

A lei proíbe o sector privado de diminuir salários de forma unilateral. Mas o Estado pode.
E pode mais, pode contratar mais de 75 auxiliares educativos e assistentes operacionais - que, veja-se, descobriu estarem em falta este ano – para as escolas, por um salário bruto de 3 euros/hora.
É fazer as contas, vezes 4 horas/dia, dá 264€/mês. E como é part-time, não há direito a subsídio de refeição. Mai’ nada.
Eta patrão bom!

sábado, 2 de outubro de 2010

PIOR QUE TÁ NÃO FICA


O PS finalmente desistiu duma lei ad hominem e retroactiva para legalizar a situação do Vice-PGR, cuja manutenção no cargo é ilegal – e logo na procuradoria-geral, exactamente onde é suposto velar pelas leis.
Questionado pela oposição sobre o facto do Senhor estar há 3 meses ilegal, respondeu Ricardo Rodrigues, vice da bancada do PS, o pilha-gravadores e membro do conselho superior de segurança interna, “Não sei, não tenho nada a ver com isso”.
Pergunta: Afinal quem tem? Onde isto chegou...

Um dia destes, ouvimos o Sr. Engenheiro Sócrates a dizer, sobre o buraco onde estamos metidos (com a sua ajuda nos últimos 5 anos), "Não sei, não tenho nada a ver com isso". Ou, repetindo o Cristiano Ronaldo, “Perguntem ao Queirós!!!

p.s.: o PM disse ontem à RTP que não haverá medidas adicionais em 2011 - como diz sempre isso na véspera de cada paulada, quem ainda acredita nele?

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

ISTO PROMETE!!!


20 meses após os únicos aumentos reais da função pública da última década e da descida do IVA em 1%, 1 ano após capitular nas avaliações/progressões dos professores, semanas depois do Tribunal de Contas explicar como o Estado esbanja metodicamente milhões nos contratos com privados, 1 semana após descongelar as progressões dos polícias, apenas 1 dia após o ministro da Economia insistir que o TGV avança daqui a meses… porrada da grossa - à hora de jantar, refeição estragada - em aviso a duas vozes, Sócrates responde e passa a palavra a Teixeira.
Curiosamente, hoje joga o Benfica na Champions, e o último grande aumento de impostos foi anunciado no dia em que essa gente ganhou o campeonato.
A avaliação do Jerónimo podia adivinhar-se, “uma brutal ofensiva sobre os trabalhadores”.

Vamos por partes. Melhoria na receita (eufemismo para assalto fiscal): aumento do IVA em 2% para 23% (era 17% há 7 anos, alguém se lembra?), aumento das taxas na justiça (que justiça!) e na administração interna, aumento em 1% nos descontos para a Caixa Geral de Aposentações, um imposto especial para a banca – a única medida consensual, a ver se é verdade… - corte nos benefícios fiscais (em particular no IRC, disseram). Teixeira dos Santos acrescentou a transferência do fundo de pensões da PT, com 2100 milhões de euros, para pagar os 2 submarinos contratados em 2004 – esqueceu-se é de dizer que o concurso dos submergíveis é do tempo do Guterres, e que esse fundo não é um presente, é um depósito que obriga a dividendos nas próximas décadas…
Diminuição na despesa: diminuição de contratados pelo Estado, na comparticipação de medicamentos e exames médicos, no ADSE, na despesa com ajudas de custo e horas extraordinárias; proibição de acumulação de salários e pensões (vá lá), corte de 5% na massa salarial (entre 3.5 e 10%, para os afortunados que ganham mais de 1500€ brutos), congelamento dos investimentos públicos em 2010, pensões e progressões nas carreiras, eliminação dos 4º e 5º abono de família.

Conclusões:
1. Sou rico. Porque eu a a Susana ganhamos juntos mais de 629€, adeus abono de família.
2. Sou sortudo. Funcionário público, vou receber menos, descontar mais, ter menos comparticipações e pagar mais impostos e portagens. Isto depois de, há 3 meses, já ter passado a pagar mais IVA e IRS.
3. Sou ingrato. Almeida Santos disse “feliz é o país que tem um governo capaz de tomar medidas impopularíssimas como estas”.
Pois.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

NA MESMA COMO A LESMA


Quando o poeta António Nobre foi ao consulado de Paris e se confrontou com o preço duma certidão, o cônsul Eça de Queirós (sim, o que inventou o Conselheiro Acácio) referiu-se assim ao Estado que representava “Este Estado é um ladrão! Vamos a ver se posso torcer-lhe o artigo (da lei), aplicando-lhe outro mais em conta”.

Por essa altura, em 1892, o ministro da Fazenda Oliveira Martins agravou impostos, cortou admissões na FP e reduziu os salários dos funcionários (até 20%), sem protestos. Dixit “Isto nem forças tem para se sublevar. O cáustico dos impostos e deduções quase que foi recebido com bênçãos. Somos um povo excelente cujo fundo é a fraqueza bondosa e uma grande passividade.”

2 pequenas histórias sobre Portugal. A mesma opinião sobre o Estado, ao mesmo tempo que lhe "damos a volta". A mesma apatia com que apertamos o cinto.
Tudo muda para tudo ficar na mesma, não é?

terça-feira, 21 de setembro de 2010

FALTA-ME QUALQUER COISA



Talvez tenha deixado de fumar hoje.
Eu e a Susana fomos a uma clínica numa vivenda incógnita no Porto. Como o tratamento passa por hipnose, ela ‘tava com medo de dizer baboseiras na consulta. Como íamos os 2 parar no mesmo dia, eu receava que o stress a dobrar acabasse numa “Guerra das Rosas”, lembram-se do filme?
É suposto uma hipnose ligeira (grau 3 em 10, ouvimos e lembramos tudo) conseguir que os cigarros nos saibam mal e substituir a vontade de fumar por beber água – a ser verdade, vou rebentar, água já eu bebo aos litros.
Não sei se estive semi-hipnotizado. Abri os olhos antes do tempo, sem deixar o psicólogo completar a frase “vai abrir os olhos..... quando disser 3”, mas voltei a fechá-los sem que o senhor desse por nada, e fui muito obediente até ao fim. O nome também não ajudou, o Doc ia-me tratando por Dr-António-Luís e não há uma alminha que me trate assim, como é que o Id vai ligar?
Estávamos autorizados a divagar sobre o que nos desse na gama enquanto o Inconsciente – ou O Encoberto, como D. Sebastião – assimilaria as suas vagarosas palavras. Mas eu não deixei a mente correr, ouvi com fervorosa atenção tudo o que o Doutor disse, fazendo figas que conseguisse “dobrar” o Id, porque o consciente não estava convencido dos resultados duma terapia em que se ouve, sussurra e pausadamente, “não vais vencer porque tu és apenas um rolinho de erva embrulhado em papel, é o que tu és".
Depois, mea culpa, falar em alcatrão a depositar-se no fígado não impressiona quem examina diariamente entranhas a animais, qual oráculo romano, e visualizar a imagem do “fumo espesso” do cigarro até é uma imagem atractiva.

Esta é a minha terceira – e última, qualquer que seja o desfecho – tentativa para deixar de fumar. À primeira, na Nãofumomais, comprei 3 frasquinhos de gotas e choques eléctricos nas orelhas (que melhor exemplo para os meus gaiatos, sobre o malefício do tabaco, pagar para ser electrocutado!!!) por 300€. 10 meses livre – atípicamente, pouco engordei, não senti mais energia e fôlego, nem melhorei o paladar ou o faro –, capital amortizado. E num fatídico sábado de manhã, praia de Varzim, Expresso, café... e 1 cigarro. Era só 1, claro.
A segunda, com comprimidos Champix, estava a correr bem até ter uma avaria muito improvável na minha vida, que mui me irritou, e a caixa ficou a meio. Todas as pessoas que conheço deixaram de fumar com esse tratamento, à excepção da minha mãe – “a vontade de fumar não passou”, não contava que tivesse que fazer por isso.

P.S.: À hora em que escrevo, não estou com a boca pastosa, sonolento, mais paciente ou sem preocupações (tábemtá!), nem tenho sede, como prometeu o Freud da Rua da Constituição. Mas não fumo enquanto me lembrar que paguei. E beyond, espero.

sábado, 18 de setembro de 2010

UM HÓSPEDE DE LUXO

Em 1534, o reino unido mudou de religião, porque Henrique viii quis divorciar-se e trocar uma católica por uma protestante, cortar-lhe a cabeça e voltar atrás, até à última das 6 mulheres o fazer outra vez mudar de crença. Isto tudo, deixando milhares de corpos pelo caminho. Por causa da volubilidade passional dum homem, passou a haver outra “fé”, termo agora usado por Isabel ii.
Esta é a primeira visita oficial dum papa ao país, desde então. O governo inglês aceitou pagar metade da visita de Estado. Ao todo, por uns 3 dias, 14 milhões de euros!!!! Uma pregação bem cara, não acham?

É legítimo que a igreja tenha, expresse e pugne pelas posições sócio-morais que julga correctas, o seu azar é que cada vez menos gente lhe liga.
Há dias, o Santo Padre voltou a afirmar que a Igreja não aceitará as novas formas de família, if you know what I mean. E, volta não volta, reduz-se o sexo à procriação – tirando uns padres (não representativos da organização, enfatizo) que adoram meninos com cara de anjo – e lá vem a cruzada contra o aborto. Se calhar é por isso tudo que o papa me faz sempre lembrar a música antiguinha dos Monty Python intitulada “every sperm is sacred".

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

AINDA NÃO!!!



Tá tudo a bater nos quarenta. Taça-taca-taca, uns atrás dos outros. Às dezenas, neste ano e no próximo, a sair dos trinta, em que somos só “crescidinhos”, uns pós-jovens a quem se ainda desculpam os disparates. O que vale é que vamos acompanhados.
Na verdade, tem a mesma importância da passagem do ano, é só mais um dia: não acordamos com “cruzes” ou cãs. Mas não deixa de ser um selo (de lacre, digo eu), uma passagem, um número sonante – é um número demasiado drástico para a idade que eu tenho...
Aos 40, é oficial e irreversível: somos senhores – embora não o sintamos ou ainda não nos apeteça sê-lo. Devo dizer que, assim de repente, não sei onde estará a ternura dos quarenta: mais uns pozinhos e metade já cá canta, ou adaptando Mário de Andrade, temos tanto passado* quanto futuro. E menos tonicidade cutânea, já agora.
E não venham com a história da sabedoria, razão tem Tom Sheppard, “penso que a idade é um preço muito alto que temos que pagar pela maturidade”.
E dadas tantas as decisões que já tomámos – a dedicação na escola (a primeira e mais importante escolha), aquele curso, aquele primeiro emprego (ou a recusa dum outro), viver naquela terra, casar naquela altura com aquela pessoa, ter filhos –, é caso para dizer alea jacta est, os dados foram lançados! E fica sempre o SE, pois apenas uma pequena mudança na rota podia ter resultados irreconhecíveis, um professor obeso de Viseu podia ser hoje um espadaúdo médico na Somália. Quem viu os filmes “O efeito borboleta” ou “Duas vidas” compreende o que quero dizer.
Enfim, dá para perceber que não me está nada a apetecer. Há dias esteve cá em casa um miúdo que suspirava “faço anos em Novembro, falta tanto…” e eu respondi “eu faço 40 daqui a um ano e falta tão pouco, deixa o tempo correr devagarinho”. Ninguém tá bem com a sorte que tem.

* Quantas vezes dizemos entre amigos “não te lembras de…” e é algo com quase um quarto de século, uma boa talhada de tempo?

A GERAÇÃO SEGUINTE



Não a despropósito, “Uma no bravo e outra da ditadura” é o novel documentário-filme de André Valentim Almeida, sobre a geração nascida por alturas do 25 de Abril. Uns 4-5 anos mais nova que nós, que “já estávamos em algum lugar no 25 de Abril”, como diria o herman.
Também eles são do tempo em que havia menos de tudo: estradas, marcas, canais de tv, jogos, até restaurantes étnicos. Eles foram os últimos a entrar mais ou menos rapidamente no mercado de trabalho, os últimos que “cresceram a ver as mesmas coisas”: havia 1 canal e ½ e a televisão era o centro da casa (com dias e horas, o telejornal demorava 30 minutos, dava a novela e o filme começava às 9.30 – uma horário de jeito), todos viam o mcgyver e aquele carro comandado por um piroso que dizia kit-te-necessito, todos assistiam à votação de Faro no festival das canção. Enfim, todos partilhavam um “património de referências comuns” – nesse aspecto, era uma geração monolítica.
Padecendo de saudosismo precoce, são os últimos que se lembram vagamente de antiguidades como o beta e o vhs, os telefonemas na cabine, as calças boca-de-sino, o calcanhar do Madger: “Passaram da idade da pedra para a supermodernidade"* disse Hugo Mãe, e nem o mais crente acreditava que todos teriam pc e que todos os computadores iam estar ligados - "é uma geração que não é completamente antiga, mas também não é completamente moderna, como aqueles cidadãos sem-pátria” definiu Pedro Mexia.
A geração pisang ambom, como lhe chama Pedro Ribeiro (pois esse tantum verde era a bebida mais radical que havia), a quem foi permitido ser infantil até muito tarde, teve mais anos de escola para tentar chegar a ter tanto como os pais, privatizou a felicidade e substituiu as grandes aspirações e causas da democracia e liberdade (a maioria dos pais não as tinha, mas isso é outro rosário…), por problemas banais da vidinha de cada um – mas isso é bom!, é sinal que os grandes problemas estão resolvidos, acha João Pereira Coutinho.
Bem, é 1 hora de película. Vá, abdiquem dum episódio de novela ou do CSI.

* O sentimento não é original. O escritor Ramalho Ortigão sentiu o corte com o passado, em 1887: “Dir-se-ia que os nossos pais morreram para nós muito mais completamente do que morreram para eles os seus avós e os seus bisavós, levando consigo, ao desaparecerem, tudo quanto os rodeava na vida: a casa, o jardim, a rua que habitavam.”

terça-feira, 14 de setembro de 2010

A JESSICA ISABEL E A CONSTANÇA


Hoje foi o 1º dia de escola do meu mai’ novo, ontem foi a apresentação. Naturalmente, o que o pai espera é que a turma seja homogénea, para que eles aprendam o mais possível. Não é.
A escola pública é de facto um nivelador social, uma bimby que mistura pobres e ricos, filhos de iletrados e infantes de doutorados, bairros sociais e condomínios privados, C&A versus D&G. No “meu” 1º D, uma feirante queria saber como podia impedir a mãe da criança de levá-la à saída, pois o companheiro tem a guarda da petiza, e uma executiva queria saber se podia ser a ama (presente na reunião) da Constança a levá-la para casa…
Aliás, os papás desta futura debutante devem ter saído a correr à procura de vaga no Luso-Francês, depois de verificarem que a sua asséptica donzela, de trança irrepreensível, terá 4 ou 5 parceiros ciganos.
O que deixou os pais todos de queixo caído foi saberem que o 1ºD também é 4ºD: além dos 16 caloiros, há 8 miúdos do 4º ano, que “não estão ao mesmo nível” dos outros, eufemismo para deviam-chumbar-mas-é-muito-complicado. Conforme a versão, as profs das 4as classes borregaram à última hora ou o Sr. Director Regional de Educação não aceitou turmas pequenas e, em vez de repetirem o 3º, vão para o 1º. A lei permite turmas mistas, mas isto não serve a ninguém, nem aos iniciados, nem ao professor, nem aos humilhados “finalistas”. O prof recomendou que não levassem lápis do mickey&Ca para os miúdos não se distrairem, mas dar 2 matérias à vez já não dispersa!
E a escola? Bem, a escola está incluída no grande investimento público da renovação do parque escolar, abre daqui a ano e meio. Por ora, a escola é um grupo de contentores encavalitados num gaveto emprestado pelo Belmiro.

Antes isso que fechar, como uma das 700 encerradas este ano (à Jogos sem Fronteiras, Lamego lidera com 21). Candidatas a ganhar pó ou a serem reconvertidas em restaurantes (Milfontes), juntas de freguesia (Paredes), jardins-de-infância (Lamego), centros de dia para idosos (Chaves), ranchos de folclore, clubes de caçadores, igrejas (Odemira), museus (Caldas da Rainha), centros de Novas Oportunidades, ou habitação (Amarante). Casas giras!!!
Parece-me é que ninguém quer viver onde não trabalha e onde os filhos não estudam, o interior continuará a definhar. Acho.
A medida talvez acabe por ser positiva, faz-me é alguma confusão que uma hora diária de autocarro a milhares de crianças com 6 anos seja menos importante que o stress causado a uma loba e 3 crias perante a visão de torres eólicas e cabos de alta tensão – parando há quase 2 anos um investimento de 600M€ da Ventinvest (consórcio liderado pela Galp) entre Armamar e Moimenta da Beira, a aguardar autorização do Ministério do Ambiente. Ironicamente, prós lados de Lamego.

sábado, 11 de setembro de 2010

PÕE NA CONTA!!!


Desde o início do ano, a dívida pública aumentou 2,67 milhões de euros à hora (o ritmo cresceu para 5 milhões/hora em Julho). A esta velocidade, a autorização parlamentar para aumentar este ano a dívida em 17.400 milhões de euros esgotou-se a 1 de Setembro.
Estamos alegremente a acelerar para o desfiladeiro. E, no estio, o povo não liga, quase assobia a cantilena “sr. Condutor, se bater não faz mal, vamos todos para o hospital…”
A pessoa a quem, indignado, li os números, não levantou os olhos do seu livro. Talvez pense que não há nada a fazer, e o que não tem remédio remediado está, ou pense “enquanto o pau vai e vem, folgam as costas”, até ao próximo apertar de cinto, aumento de impostos, taxação de SCUT. Que sera sera!
Esta notícia recordou-me a Ferreira Leite, que nos alertou para a deriva do Estado, qual Cassandra – embora a senhora esteja longe da imagem da grega, com longos cabelos enovelados e seios sensuais, vestindo uma toga e com pulseiras nos antebraços nus.

Nas previsões do World Economic Outlook, publicado pelo FMI em Abril, espera-se que o PIB português seja ultrapassado em 2015 por 11 países: Egipto, Nigéria, Malásia, República Checa, Roménia, Hong Kong, Chile, Israel, Irlanda, Filipinas e Singapura. Vá, alguns desses países têm muita gente, mas e a Roménia?
Também há previsões para o PIB per capita, que anula as diferenças populacionais. Aí são 6 os países que passam à nossa frente: a mesma República Checa (com população semelhante), Coreia do Sul, Taiwan, Bahrein e Omã. Asiáticos, ou petróleo, tá explicado. Não há que ter vergonha.
Ah, esquecia-me dum país. Porque raio é que vamos ser ultrapassados por Trinidad e Tobago?

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

STAY CALM!!!


31/08/2010
Situação: explode um dos motores num avião australiano, ardendo durante 20 minutos. Passageiros assistem em pânico, quem acredita (e quem não acredita lá muito, mas vale tudo) reza.
Ao fim de algum tempo, ouve-se a voz do comandante "Senhores passageiros, como calculam, temos estado atarefados aqui na cabina. Mantenham-se tranquilos, estamos preparados para resolver o problema. Claro que já lidámos com uma situação destas, mas foi em simuladores".
Não será a melhor forma de acalmar o povo, dizer que já resolveram casos destes, mas era a brincar...