Da última vez que verifiquei, a violação do correio era exclusiva de ditaduras.
p.s.: para partilhar a notícia no Facebook, o jornal online tem uma pequena condição, é necessário aceitar 'a nossa politica de cookies, dentro e fora do facebook, para personalizar conteúdos, adaptar e avaliar anúncios'.
São todos uns alcoviteiros 😁
"Para certos republicanos a República tem sido um pé de cabra com que vêem aumentando os seus haveres." Senador João de Freitas, histórico republicano, in Boletim parlamentar do Senado, 11-06-1913
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quarta-feira, 4 de julho de 2018
sábado, 21 de fevereiro de 2015
FRIENDHOOD
quarta-feira, 3 de dezembro de 2014
terça-feira, 4 de novembro de 2014
SE ME CALO, REBENTO
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| Les Chouchouteuses, Montreal |
- Bom dia Ti Joana.
- Bom dia vizinha, nem imagina a desgraça.
- Diga, diga.
- Então não é que o Zé Bolotas deu um tiro na cabeça...
- Quem, o da cooperativa?
- Esse mesmo. E deixa uma menina com 10 anos, coitadita.
- Olhe, que Deus o tenha. Espere um bocadinho, que tenho um tacho ao lume.
- Deixe 'tar, tenho pressa. Vemo-nos na missa.
- Até lá.
A velhota ajeitou o lenço preto - ia negra da cabeça aos pés, como um corvo - e seguiu junto à parede, para evitar a canícula. Pouco durou a caminhada, até à porta seguinte.
Noc, noc, noc.
- Olá comadre, tão cedo na rua?
- Não me diga nada, 'tou tão apoquentada.
- Então?
- Ainda não sabe do Zé Bolotas? Conto-lhe porque é praticamente da família...
De acordo com o Daily Mail (uma espécie de Correio da Manhã da velha Albion), um estudo da universidade holandesa de Groningen, publicado no 'Personality and Social Psichology Bulletin', concluiu que a coscuvilhice é uma coisa natural e que até promove a autoestima dos participantes, por comparação com a desgraça alheia. E, digo eu, confere uma importância momentânea (ou, pelo menos, atenção) a quem conta.
Tão natural ontem, como hoje. Mas, se ontem, era preciso calçar as socas e percorrer as soleiras das portas, para disseminar com recato e à vez as más-novas, ou fazê-lo por atacado no tanque comunitário ou na mercearia, hoje basta postar no facebook, essa arma de divulgação massiva*, que dá menos trabalho (tão simples quanto imponderado) e causa mais estardalhaço, ou não fosse o FB um gigantesco megafone... também audível pela menina do Zé Bolotas!
* O trocadilho é fraquito, mas a evolução do poder bélico até serve de analogia: se ontem lutava-se à espadeirada, um adversário de cada vez, com ousadia e afã, hoje usa-se um drone: o esforço é o de um clic no botão, atinge mais gente (incluindo baixas civis), à distância, não há remorsos, e nem é preciso tirar as pantufas.
quinta-feira, 28 de agosto de 2014
UMA JOÃO CATATAU DA AUTO-ESTIMA
Em 2006, quando chegou aos 50 anos, a escritora/colunista Regina Brett enumerou numa crónica as 45 lições que a vida lhe ensinara (entretanto, acrescentou mais 5).
Girl's talk! Um homem reduziria tudo a 4 lições: releva, faz-te à vida, agradece o que tens e carpe diem.
Repito aqui a lista 'ousa-ou-sê-prudente-conforme-a-situação' por 2 frases com laracha. Cá vai:
1. A vida não é justa, mas ainda assim é boa.
2. Quando estiveres na dúvida, dá apenas o próximo pequeno passo.
3. A vida é demasiado curta para perdermos tempo a odiar alguém.
4. Não te leves tão a sério. Ninguém mais leva.
5. Paga as tuas facturas do cartão de crédito todos os meses.
6. Tu não tens que ganhar todas as discussões. Concorda em discordar.
7. Chora com alguém. É mais curativo do que chorar sozinho.
8. Está tudo bem se ficares zangado com Deus. Ele aguenta.
9. Poupa para a reforma começando com o teu primeiro salário.
10. Quando se trata de chocolate, a resistência é em vão.
11. Sela a paz com o teu passado para que não estrague o presente.
12. Não faz mal deixares os teus filhos verem-te a chorar.
13. Não compares a tua vida com a dos outros. Tu não tens ideia como é a vida deles.
14. Se uma relação tem que ser um segredo, tu não deverias estar nela.
15. Tudo pode mudar num piscar de olhos. Mas não te preocupes; Deus nunca pisca os olhos.
16. A vida é demasiado curta para longas choradeiras. Ocupa-te a viver, ou ocupa-te a morrer.
17. Podes ultrapassar tudo, se te ocupares com o presente.
18. Um escritor escreve. Se quiseres ser escritor, escreve.
19. Nunca é tarde demais para ter uma infância feliz. Mas a segunda depende de ti e de mais ninguém.
20. Quando se trata de ir atrás do que tu amas na vida, não aceites um não como resposta.
21. Acende as velas, põe lençóis bonitos, usa lingerie elegante. Não os guardes para uma ocasião especial. Hoje é especial.
22. Prepara-te bastante, depois deixa-te levar pela corrente.
23. Sê excêntrico agora, não esperes ficar velho para usar roxo.
24. O órgão sexual mais importante é o cérebro.
25. Ninguém é responsável pela tua felicidade além de ti.
26. Encara cada "chamado desastre" com estas palavras: Daqui a cinco anos, isto vai importar?
27. Escolhe sempre a vida.
28. Perdoa tudo a todos.
29. O que as outras pessoas pensam de ti não é da tua conta.
30. O tempo cura quase tudo. Dá tempo ao tempo.
31. Independentemente se a situação é boa ou má, irá mudar.
32. O teu trabalho não vai cuidar de ti quando adoeceres. Os teus amigos vão. Mantém o contacto.
33. Acredita em milagres.
34. Deus ama-te pelo que Deus é, não pelo que tu fizeste ou deixaste de fazer.
35. O que não te mata torna-te realmente mais forte.
36. Envelhecer é melhor do que a alternativa - morrer jovem.
37. Os teus filhos só têm uma infância. Torna-a memorável.
38. Lê os salmos. Eles abarcam todas as emoções humanas.
39. Sai à rua todos os dias. Milagres estão à espera em todos os lugares.
40. Se todos jogássemos os nossos problemas numa pilha e víssemos os dos outros, pegávamos os nossos de volta.
41. Não analises a tua vida. Aparece e faz o melhor dela agora.
42. Desfaz-te de tudo o que não é útil, bonito ou agradável.
43. Todo o que realmente importa no final é que tu amaste.
44. A inveja é uma perda de tempo. Tu já tens tudo o que precisas.
45. O melhor está para vir.
46. Não importa como te sintas, levanta-te, veste-te e aparece.
47. Respira fundo. Isso acalma a mente.
48. Se não perguntares, não recebes.
49. Produz.
50. A vida não vem embrulhada num laço, mas ainda assim é um presente.
sexta-feira, 4 de julho de 2014
O CÉU É O LIMITE
'Não há honestidades possíveis.
Ou há honestidade ou não há.'
António Lobo Antunes
As coisas não são assim tão simples.
Esta frase fez-me lembrar uma discussão a que assisti há uns tempos. Um dos comensais criticava um conhecido com um cargo dirigente, que, por conivência ou complacência, aceitava as malfeitorias dos seus pares e do primus da administração. O outro 'contendor' defendia o amigo, chegado, afirmando que este era sério, e que a acusação era muito injusta.
É possível terem ambos razão. Quem tenha a ambição - o que em si não é um defeito - de chegar longe na carreira numa empresa, na administração pública ou (mais ainda) na política, é obrigado a ponderar todas as suas posições públicas e privadas, em actos ou omissões, entremeando o conceito certo-errado com o parâmetro 'conveniente', tendo em vista o seu percurso individual. Nada mais é a preto e branco, as cautelas são XXL e há outras boundaries, seja essa pessoa um arrivista sem carácter, seja essa uma pessoa competente e genuinamente 'boa' - ambas terão que tolerar muita, digamos, coisa malcheirosa.
Em suma, a escalada tem um preço, o olfacto.
terça-feira, 8 de abril de 2014
REWIND
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| Newsies at Skeeter Branch, St. Louis. Lewis Hine, 1910 |
20-vinte-20 anos. Há quanto tempo não se viam.
E tinham sido tão amigos, daqueles inseparáveis, siameses. Durante anos seguidos, milhares de tardes e de noites. A história de um era a história do outro, as brincadeiras, as bebedeiras, os matrecos, as noitadas, os desamores.
Chegou o dia em que a geografia os apartou. Foram-se encontrando, a intervalos crescentes - mas era como se tivessem estado juntos na véspera -, até que nunca mais se viram. Houve ainda uns telefonemas no Natal, uma chamada para celebrar a paternidade de fresco, outra por um motivo esquecido, e pronto.
Até que, um dia, veio uma chamada: 'Vou aí no Sábado, jantamos?'
O entusiamo infantil foi atravessado pela dúvida: Como pôr em dia 20 anos? Como encher 2 horas, depois de mostrar a família no telemóvel, resumir o currículo e falar do divórcio duns amigos em comum? Tanta quilometragem no contador, já não eram os catraios de outrora, seriam estranhos ou, pelo menos, alheios um ao outro?
O abraço foi apertado, tanto quanto permitiam as suas barrigas, cadastros do tempo.
- Então, pá? Como é que estás?
- Tirando o fútil, tornei-me no pesadelo do Álvaro de Campos: casado, quotidiano e tributável*. E tu?
- Nã. Quero saber tudo, tim-tim por tim-tim. Comecemos por 1995.
Nesse dia, voltaram atrás no tempo, e a história de um voltou a ser a história do outro.
Também partilharam a ressaca, pois os fígados já não eram os mesmos.
* Lisbon Revisited, 1923
segunda-feira, 31 de março de 2014
RELATIVIZA
Depois de 48 anos atrás das grades, um homem condenado à morte foi libertado há dias, no Japão. Em todo o mundo, ele foi o prisioneiro que passou mais tampo (acima de 30 anos) no corredor da morte - sem poder falar com outros presos, ver televisão ou ler livremente.
Iwao Hakamada tem 78 anos e foi provavelmente preso por engano, acusado de matar o patrão, a mulher e os 2 filhos, incendiando depois a casa da família. Preso em 1966, condenado à morte em 1968 e com pena confirmada em 1980, Hakamada sempre insistiu que foi forçado pela polícia a assinar a confissão, ao fim de 20 dias de espancamentos. Novas provas e testes de ADN (de sangue encontrado em amostras da alegada roupa do assassino) indicam que o homem estará inocente - foi libertado e aguarda novo julgamento.
Hakamada sofre de doença mental (a espera pelo enforcamento teve consequências, e começou a mostrar-se confuso e desorientado, enchendo as cartas enviadas à família com rabiscos sem sentido) e mostrou-se apático aquando da saída da prisão - consta que, quando o advogado lhe deu a notícia, 'pareceu entender, mas não expressou nenhuma alegria com a notícia'.
Pormenor sádico, no Japão, a pena de morte é executada sem aviso - o homem viveu décadas a acordar todos os dias, sem saber se esse era o último. E sem culpa nenhuma.
Face ao exposto:
Triste porque não conseguiste nota para medicina?
Triste porque não conseguiste nota para medicina?
Chateado porque o salário não chega?
Danado com o teu chefe?
Possesso porque erraste um número no euromilhões?
Amor não correspondido?
Colérico com uma vida madrasta?
Relativiza.
sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014
VAI-SE ANDANDO
A maioria das sondagens não surpreende, antes confirma o que já julgamos saber. A revista do Expresso de 9.11.2013 disseca um inquérito a mais de 1200 indígenas, realizado à volta duma questão, são os portugueses felizes? Dado inicial, Portugal está no 85º lugar, em 156 países, no ranking do último Relatório Mundial da Felicidade da ONU.
Eis alguns resultados:
- 67,1% diz-se (muito)feliz e 6,7% (muito)infeliz - e, oh, o optimismo desce com a idade. 25,8% dos inquiridos respondeu assim-assim, a recordar o típico vai-se andando (por vezes substituído por um resignado nunca pior), que não é só um 'cumprimento de tarifa', serve para espantar a inveja e a má fortuna, ou ainda para evitar uma resposta demorada, que o interlocutor não pediu. A esse propósito, e da saudade, a revista recorre a Eduardo Lourenço, que disse ter a alma portuguesa uma 'melancolia feliz'.
- 34,3% afirma que os portugueses são (muito)felizes e 24,9% julga que são (muito)infelizes, i.e., os inquiridos julgam-se mais felizes que os outros.
- 43,8% acha que o dinheiro que possui não chega para ser feliz e 39,1% diz que bastaria ter mais dinheiro para ter a felicidade que deseja. Porém, o dinheiro (2,9%) é ultrapassado pela saúde (87,9%) e pelo amor (8,7%) como o factor mais importante para a felicidade da amostra.
- acerca da hipótese que os deixaria mais felizes, 33,9% os homens e 42,2% das mulheres escolheu ter filhos felizes e saudáveis, enquanto 17,8% dos homens e 9,3% das mulheres preferiu um emprego de que gostem e ganhem bem (saúde e um relacionamento feliz foram opções com resultados similares para ambos os sexos, com cerca de 33% e 12%)
- quanto à fase em que se é mais feliz, a opção maioritária das mulheres foi a infância (29%) e dos homens foi a etapa dos 20 anos (24,4%) - ramboia!
- 17,4% acha dá mais felicidade definir objectivos, 33,5% lutar por eles, 23,8% alcançá-los e 17,3% saboreá-los (a resposta certa...).
- sobre o que os deixa logo mais felizes e bem-dispostos, algumas das 17 preferências são estar com filhos e netos (63,7%), falar/estar com amigos (50,7%), fazer sexo (20%, um bissectriz entre 31,4% dos homens e 9,5% das mulheres), ver televisão (16,5%, iupi!), ir trabalhar (12,6%, sem nada melhor para fazer) ou estar sozinho (5,2% de anacoretas).
- 67,7% acham que ter filhos é condição sine qua non para se ser feliz, e 72,8% diz que os filhos nos fazem muito ou estupidamente felizes (desce de 80% no escalão 18-34 anos, para 62% depois dos 65 anos)
- Os problemas dos amigos afecta nada na felicidade pessoal de 8,9% dos inquiridos; os problemas dos familiares afecta nada a felicidade de 5,17% da amostra.
- 33,8% afirmou que o exercício físico regular os deixa (muito)felizes, mas os que ficam infelizes são 22,7%. À parte, 48,6% nunca praticou com regularidade.
- 6,4% acham a beleza muito importante para se ser feliz. Daaaaa.
- 4,8% dos homens e 13,9% das mulheres tomam regularmente ansiolíticos ou antidepressivos, mesmo que, dentro destes, 14,5% ache que fica na mesma e 2,9% pior.
Mais informação: metade do nível de felicidade é genética, 10% deve-se às circunstâncias e o resto a características como o autocontrolo; estudos recentes mostram que muito poucas experiências nos afectam positiva ou negativamente mais que 3 meses.
Como disse, quase tudo expectável, mesmo a quantidade de gente para quem o desporto não traz alegria (como eu os compreendo), a diferença entre marte e vénus, ou o valor atribuído ao dinheiro, mais ou menos revelado, conforme a questão é posta.
Agora, 1 em cada 20 tem a franqueza de admitir que os problemas da família não faz, sequer, uma comichão na sua felicidade... Deve haver muita partilhas mal resolvidas!
- 17,4% acha dá mais felicidade definir objectivos, 33,5% lutar por eles, 23,8% alcançá-los e 17,3% saboreá-los (a resposta certa...).
- sobre o que os deixa logo mais felizes e bem-dispostos, algumas das 17 preferências são estar com filhos e netos (63,7%), falar/estar com amigos (50,7%), fazer sexo (20%, um bissectriz entre 31,4% dos homens e 9,5% das mulheres), ver televisão (16,5%, iupi!), ir trabalhar (12,6%, sem nada melhor para fazer) ou estar sozinho (5,2% de anacoretas).
- 67,7% acham que ter filhos é condição sine qua non para se ser feliz, e 72,8% diz que os filhos nos fazem muito ou estupidamente felizes (desce de 80% no escalão 18-34 anos, para 62% depois dos 65 anos)
- Os problemas dos amigos afecta nada na felicidade pessoal de 8,9% dos inquiridos; os problemas dos familiares afecta nada a felicidade de 5,17% da amostra.
- 33,8% afirmou que o exercício físico regular os deixa (muito)felizes, mas os que ficam infelizes são 22,7%. À parte, 48,6% nunca praticou com regularidade.
- 6,4% acham a beleza muito importante para se ser feliz. Daaaaa.
- 4,8% dos homens e 13,9% das mulheres tomam regularmente ansiolíticos ou antidepressivos, mesmo que, dentro destes, 14,5% ache que fica na mesma e 2,9% pior.
Mais informação: metade do nível de felicidade é genética, 10% deve-se às circunstâncias e o resto a características como o autocontrolo; estudos recentes mostram que muito poucas experiências nos afectam positiva ou negativamente mais que 3 meses.
Como disse, quase tudo expectável, mesmo a quantidade de gente para quem o desporto não traz alegria (como eu os compreendo), a diferença entre marte e vénus, ou o valor atribuído ao dinheiro, mais ou menos revelado, conforme a questão é posta.
Agora, 1 em cada 20 tem a franqueza de admitir que os problemas da família não faz, sequer, uma comichão na sua felicidade... Deve haver muita partilhas mal resolvidas!
quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014
TU QUERES É CUMBÍBIO
A vozearia é atordoadora. A confusão pode dar uma ideia de Babel.
Tratam-se simultaneamente todos os assuntos; as transições fazem-se com uma rapidez, que surpreende e embaraça os próprios interlocutores; atenção que se desvie um segundo, é perdida; não encontra depois já o diálogo onde o deixou; às vezes a conversa generaliza-se; momentos depois, distribui-se em especialidades por diversos grupos; mais tarde generaliza-se de novo; em certas ocasiões, todas as bocas falam, cada um se escuta a si; noutras algum orador consegue por instantes fazer-se escutar de todos, até que um aparte, um incidente, um gesto, restabelece a independência primitiva. Dão-se também verdadeiros encruzamentos de conversas; o dos pés da mesa responde ao dito que ouve ao da cabeceira, enquanto os que intermédios se entretêm de outros objectos; é um baralhar de palavras, em que a custo se tira a limpo a expressão do pensamento.
Uma Família Inglesa, Júlio Dinis 1868
É isto uma boa refeição, uma jantarada de amigos, a vozearia caótica, os nano-brindes (como escreve Dinis, não se admitem longos speechs, porque é sempre mais expressivo o gole que entra, do que a frase que sai, até porque, devendo dar-se a primazia ao mais sábio, é o vinho que a merece), o tilintar de copos, as conversas entremeadas, as lembranças passadas, as combinações futuras com a duração da alcoolémia, as farpas à desgarrada.
A comida, pelo menos para mim (que só quero é cumbíbio, nas palavras dum comparsa), é pormenor.
É isto uma boa refeição, uma jantarada de amigos, a vozearia caótica, os nano-brindes (como escreve Dinis, não se admitem longos speechs, porque é sempre mais expressivo o gole que entra, do que a frase que sai, até porque, devendo dar-se a primazia ao mais sábio, é o vinho que a merece), o tilintar de copos, as conversas entremeadas, as lembranças passadas, as combinações futuras com a duração da alcoolémia, as farpas à desgarrada.
A comida, pelo menos para mim (que só quero é cumbíbio, nas palavras dum comparsa), é pormenor.
quarta-feira, 8 de janeiro de 2014
FILHOS E CADILHOS
Ter um filho ingrato é mais doloroso
do que a mordedura de uma serpente!
William Shakespeare, Rei Lear
Volta-não-volta, digo aos meus herdeiros pedinchões 'Tanta coisa e, no fim, pões-me num lar'. Na brincadeira (espero), mas há quem se queixe de ingratidão e, entre eles, a quem saiu A fava.
Cruzei-me há dias com um senhor que tem 5 filhos. Perguntei-lhe por um deles, que já não via há meses:
- Ah, esse não tem estado por aqui, só vem buscar o ordenado. Ele e a irmã são uns bandidos, roubaram-me uns milhares largos - uma pessoa cria os filhos e depois é assim que eles agradecem. O único que presta é o mais velho.
- Mas não foi esse que, há uns anos, lhe quis bater?
- Foi, tentou-me [es]faquear. Mas a gente perdoa tudo aos filhos...
A esse filho pródigo, ouvi eu tratar o pai por 'o velho', com um esgar nada carinhoso. Há pouco tempo.
Parece estória de novela, mas tristemente não é.
Alguém imagina, quando vê um bebé indefeso pela primeira vez, ou uma criança a aninhar-se no seu colo, com medo do escuro, que a vida seja uma implacável betoneira e esse filho se torne num bandido - como uma folha alva e imaculada que começa a ser preenchida com um b-a-ba ternurento e certinho e acaba cheia de gatafunhos furiosos.
Acresce, o que não é de somenos, a dilacerante dúvida do desafortunado progenitor - se, por erro ou omissão, no todo ou em parte, contribuiu para essa metamorfose.
domingo, 5 de janeiro de 2014
CROMOS
A esplanada estava quase vazia (a suspensão da chuva fora tão clemente quanto inesperada), apenas eu e, duas mesas adiante, 3 homens - um deles, com um bigode mal semeado, a disfarçar a tenra idade, e 2 mais velhos, que se revelaram tão síncronos como as pernas dum CR7 sonâmbulo.
- Então, o natal foi bom?, perguntaram ao mais novo.
- Foi na Lixa, com a família toda. O meu tio Mário ensinou-me mais um ditado, daqueles que só ele conhece, 'Dos outros, diz bem ou nada'.
- Ora aí está um provérbio que ninguém consegue cumprir, retorquiu um dos outros. Algum tempo nesta empresa e vais ver que, numa equipa tão grande, inevitavelmente quase toda a gente tem algo a apontar a quase toda a gente, mesmo que no geral as pessoas sejam catitas. E então, começou a contar pelos dedos:
- Além do engraxador e o informador...
- Ele quer dizer delator, meteu uma bucha o outro, pelos visto não tão aborto com o seu ipad.
- ... que não contam, são espécimes à parte, há o que chega atrasado e o que tem pressa para zarpar, o desleixado e o stressado, o desconfiado controlador, o que se julga mais sério que os outros...
- Mas haverá alguém que não se julgue sério?
- ... o picuinhas e o porreiro (o que nem sempre é bem uma qualidade, depende da função), o simpático-pouco-profissional e o seu negativo, o que se faz de coitadinho. Mais, hum..., o nómada que trota dum lado para o outro sem fazer nada, ou o sedentário que magnetiza em cadeiras e deixa a labuta para os outros...
- Em zoologia, a borboleta e ostra.
- ... o que 'delega' só até à parte da assinatura, o moralista com cúpula vítrea, o desbocadamente sarcástico, com uma subtileza de paquiderme, ou o outro com a avareza intelectual do conselheiro Gama Torres.
- Cá faltava um bocadito de erudição, não baralhes o rapaz. É uma pessoa que guarda as suas sábias opiniões, porque as não tem.
- Depois há os que acumulam, ou que têm facetas tão exacerbadas que mais parecem personagens de ficção ou caricaturas do Bordalo - uns cromos.
Enquanto os ouvia, iam-me passando caras conhecidas pela cabeça, tão estereotipado era o catálogo.
- O mais engraçado é que ninguém se enxerga (incluindo este que te fala), às vezes são os atrasados crónicos os mais atentos à pontualidade alheia. Bem, falta-me alguém no retrato de família?, perguntou o predicante.
- Tu.
- Bem, nas costas dos outros, vês as tuas, e com ce'teza também falam de mim, que estou longe do nirvana... Na melhor das hipóteses, eu e aqui o Zé somos umas velhas carcaças insurrectas e maledicentes, assim como o Statler e o Waldorf dos marretas...
- Fala por ti.
- ... ahã. As outras hipóteses, prefiro não saber, por razões de sanidade mental. Este é um dos casos em que a ignorância é antidepressiva.
- Imagina, uma terapia de grupo com pentotal sódico... seria o armagedão.
Eu (vai-se a ver, também um cromo), que de popular só tenho (tinha) o partido, acenei mentalmente: livra...
sexta-feira, 27 de dezembro de 2013
TIRA OS COTOVELOS DA MESA
![]() |
| State dining room, Buckingham palace |
- Bom apetite.
- Já não se diz bom apetite.
- Ah, não?
- Não. É démodé. Li isso há dias, comprei um livro de ética.
- Etiqueta.
- Sim, etiqueta.
Foi um lapsus linguae engraçado, porque agrilhoado a outro equívoco, a confusão entre educação e etiqueta, assim chamada porque os burgueses recebiam um anexo (estiquette) ao convite para a corte, com algumas regras a seguir na presença do Rei-Sol. De facto, educação até está mais perto da ética, que da etiqueta: da mesma forma que o inquisidor pode ser mais pecador que o ateu, os comedores de batatas podem ser mais bem educados, no trato com os outros, que a nobreza (outra confusão entre nome e adjectivo) que come caviar e sabe usar talheres de escargots.
sexta-feira, 8 de novembro de 2013
STRIKE BACK
A greve é um direito, e exercê-lo ou não é uma decisão pessoal e intransmissível, tomada sem ânimo leve e sempre isenta de censura. Já as opiniões têm o seu interesse sociológico.
Fui a 2 escolas e esperei que elas abrissem, até levar os miúdos para o ATL. Ali encontrei outro pai a 'descarregar' o seu par de petizes, possesso: 'Já devia estar na Maia, e ainda aqui estou. Direitos, há todos, mas deveres são poucos!', rematou enxofrado. Tá bem, greve atrapalha, os funcionários públicos repetem-nas (com prejuízo, pois perdem o salário, há que sublinhar) e existe uma fractura entre eles e os trabalhadores privados, que lhes têm pouca estima. Mas, pormenor, o desabafo vem duma pessoa casada com uma enfermeira, e já se sabe como as greves são bem sucedidas nos hospitais.
Depois, as justificações: uma administrativa disse-me que até fazia greve, se todos fizessem - o argumento não é destituído de qualquer sentido, mas, se todos pensarem assim, ninguém falta.
Outro senhor explicou que não faltara porque 'não serve de nada' (até aí, tudo bem), 'e se der algum resultado positivo, serve a todos' (temos parasita).
Um apontamento final para elogiar dois slogans, dignos de marketeer, 'Achas que já está bom para fazeres greve, ou vais esperar mais um bocadinho?' e 'Quem não para consente'.
sábado, 26 de outubro de 2013
OLHÓ JORNAL
Há muitas razões para frequentarmos um café, ser perto, ser a escolha de amigos, ter pouco barulho, ter (ou não) espaço de fumadores, ter jornais.
A minha eleição é um café próximo de casa, grande, onde posso sentar-me longe dos outros clientes, evitando o tac-tac de conversas alheias, e ler o jornal. A maioria dos cafés da região tem o JN, mas este também tem o CM, o Público e, aos sábados, o Expresso. A variedade evita que fiquemos em 'lista de espera' e, sorte a minha, os jornais mais procurados são o JN e o Correio da Manhã, pelo que costumo encontrar o Público (e o Expresso) no escaparate.
A fidelidade ao estabelecimento tem a desvantagem dos outros clientes habituais tomarem a liberdade de fazer conversa, quando estamos (dado o tempo limitado da estada) totalmente embrenhados no scan da gazeta. Mas uma das últimas abordagens permitiu validar a minha explicação para as diferentes tiragens.
Disse o senhor, com aquele ritmo paciente de reformado, cabelo cinza alcatroado com brilhantina, dedos amarelecidos a escorar uma beata 'no casco':
- Não tem aí o correio da manhã, não?... É o meu preferido... Os outros trazem muito paleio, este traz é coscuvilhices, dá para animar.
Circulação 3º bimestre 2013, média por edição (dados APCT)
CM - 114.750
DN - 24.833
Expresso- 93.519
I - 5.514
JN - 70.005
Público - 29.074
Sábado - 64.014
Sol - 25.193
Visão - 85.023
terça-feira, 22 de outubro de 2013
E É PARA QUEM QUER
'Oferta de emprego na clínica XPTO:
* Medico/a-Veterinário/a com menos de 30 anos de idade
* Com pelo menos 3 anos de experiência em Clínica de Animais de Companhia
* Tenha realizado estágio no estrangeiro e em Hospital Veterinário Português
* Disponibilidade para horário completo, rotativo e com urgências
* Viatura própria e residência na região
* Domínio em processador de texto e folha de cálculo
* Elegível para estágio profissional.
Envio de curriculum para geral@clivetxpto.com'
A - Ora bem, tem que ser muito novo, ter já uma experiência invejável, imensa disponibilidade e aceitar ser estagiário. O salário logo se vê. Sinal dos tempos.
B - Não. Sinal de falta de tempo para ter vergonha na cara.
A - Não é questão de vergonha, mas quando a lei da oferta e da procura pende para o lado do empregador, há quem queira 'o rabinho lavado com água de rosas'.
B - Não tenhamos medo das palavras. Sou a favor da economia de mercado. O conceito de procura abundante versus oferta medíocre não me é estranho. Não conheço as pessoas em questão. Não conheço as suas circunstâncias. Talvez não deva julgar. Mas trata-se aqui de um enorme enema rectal de essência de rosas!
C - Se alguém faz essa oferta é porque sabe que vai encontrar candidatos com esses requisitos: não preciso de pagar 2000€ a uma pessoa que não faz urgências, nem trabalha ao fim-de-semana, se posso pagar 1500€ a outro que se desunha. O mal foi terem aberto tantas faculdades, há veterinários a mais e depois têm que aceitar o que houver.
No fundo, os 3 veterinários têm razão, mesmo C, que (adivinharam) é dono duma clínica.
sexta-feira, 23 de agosto de 2013
OS CANALHAS TAMBÉM TÊM AMIGOS
Emprestaram-me um livro sobre a última criada de Salazar, que retrata o ditador doméstico. Vinha sublinhado, e constatei que eu não marcaria nenhuma dessas passagens, mas muitas outras - o proprietário do livro, que tem Salazar em boa conta, interessou-se por pormenores do homem, a mim interessou o político, pouco empático.
Tirando os santos (e ainda não me cruzei com nenhum), as pessoas são é um somatório de facetas, e só parte destas é meritória. Como a luz, que refratada, se divide, todas as pessoas têm violeta, anil, azul, verde, amarelo, laranja e vermelho. Só que em doses desiguais e alguns são mais luminosos.
E podemos apontar o dedo a uma pessoa e gostar genuinamente dela na mesma, como aquele amigo preguiçoso, o outro que se atribuí uma certa liberdade narrativa (i.e., gosta de inventar, para tornar as estórias mais suculentas) ou aqueloutro com carreira política, que o obriga a uma plasticidade e a uma coerência muito próprias - amizade é aceitação.
Da mesma forma que um político pode ser desleal com a mulher e sério com os eleitores, ou o contrário, uma pessoa pode ser egoísta com uns e generosa com outros, ser belicoso com uns e afectuoso com outros, ser honesto com uns e roubar outros (por amoralidade, cleptomania ou necessidade), pétreo com uns e divertido com outros, impiedoso com uns e coração-mole com outros, glacial com uns e apaixonado com outros. Ou com os mesmos, em alturas diferentes, que o digam as mulheres de Henrique VIII.
Mas todos, todos, têm amigos, mesmo o maior facínora tem quem lhe aprecie a companhia. Afinal, toda a gente é amiga de toda a gente, não é?
um belicoso na sua casa na montanha bávara, Berghof
Com a Sra. Albert Forster, Berghof, finais de 30s
apartamento na chancelaria
quinta-feira, 18 de julho de 2013
O BOM SELVAGEM?
Karen Wynn, psicóloga de Yale, fez algumas experiências com crianças e bebés de 3 a 6 meses, concluindo que as crianças nascem com noções de bem e de mal, e com preconceitos - tudo por selecção natural e instinto de sobrevivência:
1. Um tigre de peluche tenta abrir uma caixa com brinquedos e um cão de camisola amarela dá uma ajuda; a cena repete-se e um cão de camisola azul impede o intento. Apresentados os 2 cães a bebés, mais de 3/4 deles escolhem o cão 'simpático'.
2. Um de 2 coelhos não devolve a bola que o tigre deixou cair; a seguir, o coelho 'mau' tenta abrir a caixa dos brinquedos, um dos cães ajuda e o outro fecha-a. 81% dos bebés escolheu o peluche que 'castigou' o coelho mal-comportado.
3. Terceira situação, dá-se a escolher 2 taças com cereais diferentes. A grande maioria dos bebés escolhe o peluche que 'gosta' da taça com os seus cereais preferidos (o seu 'semelhante') - e, a seguir, escolhe o cão que impede o peluche que preferiu os outros cereais (o 'outro'), de abrir a caixa dos brinquedos.
4. As crianças escolhem alternativas de 'recompensas' emparelhadas para si e para um miúdo que, alegadamente, chegará mais tarde. Pois as crianças mais novas preferem receber menos fichas, se ainda assim ficarem com mais que o outro (por exemplo, 2-1 em vez de 4-4). Aos 8 anos, a maioria escolhe as opções mais igualitárias, a partir dos 9, opta pelas alternativas mais generosas com o outro.
Conclusão: Rosseau estava enganado, porque o homem não é uma criatura boa por natureza, corrompida pela sociedade; Maquiavel e Hobbes estavam enganados porque diziam que o homem é mau por natureza; Kant estava enganado, ao achar que o homem nasce sem moral.
sexta-feira, 31 de maio de 2013
A COPA DA ÁRVORE
Van Gogh, c. 1888
'Girassóis, são uns girassóis, sempre virados para a luz, 'tão sempre bem com o chefe, seja ele qual fôr.', protestava alguém no outro dia. 'Eu sei, estão sempre a dar nas vistas, à volta do chefe, mesmo que trabalhem pouco e mal', arengou outro. 'O pior é que ainda dizem mal dos outros e o meu chefe 'emprenha pelos ouvidos' - é tipo uma piscina, em que nos apoiamos nos outros para ter a cabeça de fora', disse o terceiro. Foram abertas as hostilidades: toda a gente à volta da mesa conhecia colegas assim, e foi logo tema de prosa.
Imaginem dois colegas quase-quase iguais, com uma pequena diferença no instinto de sobrevivência: Dupont aproveita as ocasiões para dar nas vistas perante o chefe, e ainda lhe diz mal de Dupond ao chefe. Dupond não dá o troco, e não há contraditório.
Acham que o chefe vê os dois como iguais, mesmo que Dupond seja mais trabalhador? Nãã, manda a natureza que ninguém resista à bajulação*, e por vezes o chefe não discerne que quem lhe diz mal do seu antecessor, dirá mal dele no dia em que sair - arrivista não é leal, por inerência.
Conclusão, o chefe prefere Dupont, e até lhe perdoa algumas falhas (as que Dupont não consegue esconder, ou passar a culpa), porque este até lhe vai contando o que se passa. Tudo é pior se o emprego for competitivo, ou o chefe for mais belicoso. Aí, com o tempo, o dito passa a ter cada vez menos 'fontes' e a saber apenas o que alguns querem contar, por interesse do mensageiro, ou que julgam que ele quer ouvir.
E pronto, o sugestionável chefe fica com uma noção filtrada da realidade. Compete-lhe ver a floresta e não as árvores, não é? Pois, mas vê de cima, repara nas copas mais vistosas, e não distingue um embondeiro dum eucalipto.
Dizem.
* permita-se um toque de erudição: escreve Maquiavel n' O Príncipe, acerca dos lisonjeadores, 'Os homens comprazem-se tanto consigo próprios e têm ideias tão lisonjeiras a seu respeito que dificilmente escapam a esta praga'.
segunda-feira, 15 de abril de 2013
TÁS NA MESMA
Acontece a muito boa gente, será sinal de temperança. Ou de estupidez.
Escrevi eu, a uma amiga de adolescência, daquelas que a vida atirou para longe 'Não há uma Inês, haverá tantas quantas as pessoas que a conhecem. E a que eu conheço pode até já não existir. Foi esse o assunto da nossa última conversa ao vivo, vão uns 8 anos (tchhh!), quando me disseste “não mudas nada”: é exactamente o contrário, tanta quilometragem depois, o motor é outro, a centralina e as suspensões já não são de origem, ainda que a carroçaria só tenha uns riscos (a metáfora podia ser melhor, se eu percebesse patavina de mecânica).
Acho que é mais isto.
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