...e depois, com bigodes de leite, pedem mais paciência e esforço ao povo, que a "vaca 'tá seca".
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quarta-feira, 20 de abril de 2016

NINGUÉM É PERFEITO




'- É uma criatura encantadora e graciosa - respondeu o Sr. Bob Sawyer. - E, tanto quanto sei, só tem um defeito. Acontece, infelizmente, que esse defeito é ter mau gosto. Ela não gosta de mim.'
Os cadernos de Pickwick, Charles Dickens

sábado, 23 de maio de 2015

MAO COMO AS COBRAS


'Mao A História Desconhecida' é talvez, pela sua dimensão e anos de aturada pesquisa, a obra da vida de Jung Chang e do seu marido Jon Halliday. Objectivo, desconstruir o grande embuste que Mao criou sobre si próprio, e que contagiou tanta gente por essa Europa fora, na década de sessenta: o mito sobre o 'poder popular', a aliança entre os camponeses e operários para a tomada do poder, a sintonia entre o partido e as aspirações do povo.
Mao afinal era outro, e só não era um ditador como os outros, porque era um ditador pior que os outros, fazendo do seu Mestre Estaline, como bajuladoramente o tratava, um menino de coro.

Sobressai da biografia o Terror sobre todos, desde o seu politburo (que foi variando) até à base da pirâmide social - que manteve, bastante achatada, já que a igualdade era apenas discursiva.
Todos sabiam que, numa penada, podiam ser acusados de proprietário rural, anti-bolchevique, espião, contra-revolucionário, direitista ou conspirador. Além das delações e autocríticas obrigatórias (e não és leal de não tiveres nada a contar...), arranjar provas não era complicado, a tortura era formalmente recomendada e os detidos eram como as cerejas, uns traziam outros. Um kafkiano Mao justificou o método: caso as vítimas fossem incapazes de aguentar a tortura e faziam confissões falsas, isso provava que eram culpadas, pois 'como é possível que revolucionários leais façam confissões falsas para incriminar outros camaradas?'
Claro está, as condenações eram públicas, para hipertrofiar a humilhação do condenado e para avisar a plateia, atenção!, podes ser tu o próximo. Recorrer da decisão era uma possibilidade legal, mas uma impossibilidade prática - sendo a dúvida sobre o 'discernimento' do partido uma ofensa, o resultado seria o agravamento da pena.
Aliás, as purgas metódicas (e os líderes locais que não eliminassem uma certa percentagem pré-determinada de pessoas seriam eles próprios punidos por deslealdade) começaram bem antes de Mao conquistar a China e atingiam os seus próximos - Mao confessou que, na década de 40, não esmagara só 80%do partido, 'foram de facto 100% e através da força'.
Obviamente, a rotação no topo do partido era estonteante, sendo saneados todos os companheiros com opiniões próprias ou (na cabeça de Mao) com ambições pessoais - ora eliminados de forma definitiva, ora repescados após a submissão completa e enquanto essa acefalia se mantivesse, sujeitos a regulares humilhações e ameaças.
Outros métodos de Mao para eternizar-se no poder são inespecíficos: sofrendo vários revezes na sua escalada, através de votação dos seus pares, Mao rotulou o voto de 'ultrademocracia' e aboliu essa prática, logo que pode; nada podia escapar ao seu radar, desconfiava de todos e só a sua palavra contava, chegando a escrever ao seu n.º 2 da época, que pensava estar excessivamente autónomo, 'Todos os documentos só podem ser emitidos depois de eu os ter visto. Caso contrário, são inválidos. Tem cuidado'*.

Sobre o líder militar, o livro é elucidativo: Mao nunca esteve na frente da batalha, fugia ao combate, tomava medidas erráticas e suicidas - milhares de soldados foram premeditadamente enviados para a morte, para Mao descartar potenciais concorrentes.
Quanto à empatia com o povo, é lapidar a frase do grande líder, a lembrar Maria Antonieta: 'Só têm folhas de árvores para comer? Então que seja' (na guerra civil, recomendou que os seus soldados esfomeados estacionados na Manchúria que se alimentassem de girinos!). Mao foi indiferente às dezenas de milhões de chineses que morreram** de fome, a quem foi confiscou quase todo o cereal, óleo ou carne de porco... para doações (a países mais ricos, como a Hungria ou a Albânia), exportação ou compra de armas.
Enquanto Mao queria quase todo o cereal , dizendo que o povo não ficava 'sem comida durante todo o ano - apenas 6... ou 4 meses', altos funcionários pediram-lhe mais vagar no esbulho alimentar, invocando a consciência. Mao respondeu 'É melhor que tenham menos consciência. Alguns dos nossos camaradas têm demasiada misericórdia, não têm brutalidade suficiente, o que significa que não são tão marxistas (...) Nesta questão, não temos na verdade! O marxismo é brutal a esse ponto.' Uma maldade à altura de Vlad, o empalador, não?
Mao queria o cereal para comprar armas e estimou quanto dava para ir 'às compras' - vai daí, mandou triplicar a produção. Fazia os orçamentos assim, não percebia absolutamente nada de economia (como reparou o conselheiro-mor russo) e queixava-se que os relatórios dos ministérios tinham 'apenas listas e números monótonos, e nenhuma história.' Risível, não fossem as consequências graves dessa ignorância...
Não será surpresa num ditador, Mao não gostava de socializar de perto com as massas, e foi desde o começo paranoico com a sua segurança e o pavor de ser assassinado.
Nem a imagem do desapego ao luxo era verdadeiro: Mao usava sapatos velhos porque eram confortáveis (mandava os guarda-costas usarem o calçado novo, para moldá-los), gostava de almofadas usadas (mas os remendos feitos em Xangai eram mais caros que comprar novas); só comia peixe fresco, mandando vir peixes vivos em caixas oxigenadas, pescados a centenas de quilómetros de distância; 'sugeria' visitas a algumas regiões, obrigando à construção de mansões adequadas, mas depois mudava de ideias e, algumas, nunca chegou a estrear; via filmes estrangeiros e lia muitos livros, mas acusou todas as formas de arte - óperas, teatro, artes populares, música, pintura, escultura, dança, cinema, poesia e literatura - de serem 'feudais ou capitalistas, e decidiu acabar com elas, pois o povo devia ser ignorante e era precisa a política de 'manter as pessoas estúpidas'. Para tratar do assunto, Mao começou por acicatar a violência civil ('Pequim não está suficientemente caótica...', queixou-se), pelos adolescentes Guardas Vermelhos, contra professores, artistas e intelectuais - o embrião da Revolução Cultural.
E que dizer dum homem que abandona, obrigando as mulheres a fazer o mesmo, vários filhos recém-nascidos, não querendo saber mais deles?
O livro é bem fundamentado, bem escrito e bem traduzido. Se este cheirinho não convenceu os apreciadores de história e lê-lo, a culpa é minha.

* Faz lembrar o absolutista Luís XVI, que disse aos seus ministros ´Peço e exijo que nenhuma norma seja aprovada a não ser por minha ordem'. 
** À pala das purgas, da fome (cujo pico resultou da política do 'grande salto em frente', com 22M de mortos só em 1960) e dos campos de trabalho durante a Revolução Cultural, estima-se que foram mortos 70 milhões de chineses. Nada de inquietante para Mao, como provam algumas tiradas: 'As mortes têm benefícios, podem fertilizar os solos', 'Trabalhando desta forma, metade da China pode muito bem ter que morrer', 'Não se inquietem tanto com uma guerra mundial, no máximo, morrem pessoas' ou '[um eventual ataque nuclear à China] é apenas uma grande pilha de pessoas a morrer'.
 

terça-feira, 19 de maio de 2015

NÃO QUERO NADA DE TI(?)

Alfons Mucha, 1899
Moët & Chandon Crémant Impérial



Escuta-me piedosamente.

Escuta-me piedosamente.
Não vale a pena amar-me não,
Mas o que o meu coração sente -
Ah, quero que te passe rente
À ideia do teu coração...
 
Quero que julgues que podias
Se quisesses, amar-me. Só
Saber isso consolaria
Minha alma erma de alegria...
Ter a certeza do teu dó!...
 
Teu dó, o teu quase carinho...
Qualquer sentimento por mim...
Que não me deixasse sozinho...
Eu posso construir um ninho,
Com o pouco que me vem de ti...
Eu tenho de mim tanta pena
Queria ao menos que tu também
Viesses ter pena serena
Não de mim mas da minha pena,
Essa pena que ninguém tem.

Fernando Pessoa, 1917

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

PASSA AÍ A PIMENTA


'Família é prato difícil de preparar. São muitos ingredientes (...) Há famílias doces. Outras, meio amargas. Outras apimentadíssimas. Há também as que não têm gosto de nada, seria assim um tipo de Família Dieta, que você suporta só para manter a linha. Seja como for, família é prato que deve ser servido sempre quente, quentíssimo. Uma família fria é insuportável, impossível de se engolir (...) Aproveite ao máximo. Família é prato que, quando se acaba, nunca mais se repete.'
Em O Arroz de Palma, de Francisco Azevedo

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

LOBO ANTUNES, COMME D'HABITUDE

 
 
 
O Público de hoje traz uma entrevista a António Lobo Antunes, na senda de todas as anteriores: o escritor não se importa de falar de si próprio - infalivelmente, misturando vaidade e autocomiseração -, da família (sobre as origens maternas modestas, diz 'o meu brasão só tem enxadas') e de Deus, recordando a resposta de Voltaire quando lhe perguntaram qual a sua relação com Deus, 'Cumprimentamo-nos, mas não nos falamos' - como sempre, Lobo Antunes despeja uma enxurrada de citações, que retém como uma esponja.
Qual Cassandra, infeliz com a sua vidência, ALA acha esta sua capacidade um infortúnio: 'A minha memória é terrível. Tenho uma memória péssima, lembro-me de tudo'.
 

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

UMA QUESTÃO DE PERSPECTIVA


A VIDA É COMO A VOZ:
OUVIMOS A NOSSA
COM A GARGANTA
E A DOS OUTROS
COM OS OUVIDOS.

ad. ANDRÉ MALRAUX
LA CONDITION HUMAINE

Há Metafísica Bastante Em Não Pensar Em Nada

O que penso eu do mundo?
Sei lá o que penso do mundo!
Se eu adoecesse pensaria nisso. 
   
Que ideia tenho eu das cousas?
Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?
Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma
E sobre a criação do Mundo?
Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos
E não pensar. É correr as cortinas
Da minha janela (mas ela não tem cortinas).

O mistério das cousas? Sei lá o que é mistério!
O único mistério é haver quem pense no mistério.
Quem está ao sol e fecha os olhos,
Começa a não saber o que é o sol
E a pensar muitas cousas cheias de calor.
Mas abre os olhos e vê o sol,
E já não pode pensar em nada,
Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos
De todos os filósofos e de todos os poetas.
A luz do sol não sabe o que faz
E por isso não erra e é comum e boa.

Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores?
A de serem verdes e copadas e de terem ramos
E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,
A nós, que não sabemos dar por elas.
Mas que melhor metafísica que a delas,
Que é a de não saber para que vivem
Nem saber que o não sabem?

«Constituição íntima das cousas»...
«Sentido íntimo do Universo»...
Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada.
É incrível que se possa pensar em cousas dessas.
É como pensar em razões e fins
Quando o começo da manhã está raiando, e pelos lados das árvores
Um vago ouro lustroso vai perdendo a escuridão.

Pensar no sentido íntimo das cousas
É acrescentado, como pensar na saúde
Ou levar um copo à água das fontes.
O único sentido íntimo das cousas
É elas não terem sentido íntimo nenhum.

Não acredito em Deus porque nunca o vi.
Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
Sem dúvida que viria falar comigo
E entraria pela minha porta dentro
Dizendo-me, Aqui estou!

(Isto é talvez ridículo aos ouvidos
De quem, por não saber o que é olhar para as cousas,
Não compreende quem fala delas
Com o modo de falar que reparar para elas ensina.)

Mas se Deus é as flores e as árvores
E os montes e sol e o luar,
Então acredito nele,
Então acredito nele a toda a hora,
E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.

Mas se Deus é as árvores e as flores
E os montes e o luar e o sol,
Para que lhe chamo eu Deus?
Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar;
Porque, se ele se fez, para eu o ver,
Sol e luar e flores e árvores e montes,
Se ele me aparece como sendo árvores e montes
E luar e sol e flores,
É que ele quer que eu o conheça
Como árvores e montes e flores e luar e sol.

E por isso eu obedeço-lhe,
(Que mais sei eu de Deus que Deus de si próprio?),
Obedeço-lhe a viver, espontaneamente,
Como quem abre os olhos e vê,
E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes,
E amo-o sem pensar nele,
E penso-o vendo e ouvindo,
E ando com ele a toda a hora.

Alberto Caeiro, O Guardador de Rebanhos, 08.03.1914

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

EU SOU UMA DE MUITAS HIPÓTESES

Francisca Ferreira da Costa, 1.9.1919
 
EU SOU EU E A MINHA CIRCUNSTÂNCIA,
E SE NÃO A SALVO A ELA, NÃO ME SALVO EU.
José Ortega y Gasset, Meditações do Quixote
 
 
Armando Vara disse que a sua sentença tinha mais a ver com a sua circunstância que com os factos, provando a sua iniciação à filosofia, na pessoa de Ortega y Gasset. 
A primeira oração da frase de OyG é a mais sumarenta, e bem podia ser traduzida por 'eu sou uma de muitas hipóteses', porventura antagónicas.

* Antes do filósofo, já um escritor de aventuras dissera algo semelhante, numa entrevista de Rudyard Kipling publicada no From to Sea, em 1889: para Mark Twain, 'quando uma pessoa se detém a pensar, a religião, a formação e a educação não são garantia de nada perante a força das circunstâncias que movem o homem'.
 

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

EM PRIMEIRA MÃO


Este livro é uma óptima escolha, mesmo para quem não seja fã da época: excelente enredo para qualquer novela, tem drama e horror, traição e amor, assassinatos e suicídios, parricídios, matricídios e infanticídios, ascensão e queda, bons e maus. Tudo acompanhado por sonhos, presságios,  acontecimentos premonitórios certeiros e milagres (Vespasiano curou em cego e um coxo, palavra!).
Para os outros, não há livro sobre a Roma antiga que não refira ou cite 'As Vidas dos Doze Césares' de Suetónio. Assim sendo, nada melhor para um simpatizante dessa época, do que 'ir à fonte'. 
Claro está que não se pode acreditar em tudo*, a história oral é equívoca, Suetónio não assistiu às estórias (nasceu no final, ou mesmo depois, do principado de Nero) e os cronistas oficiosos, como Fernão Lopes, tendem a contar a história a gosto do seu  amo e a tomar partidos (ex., o autor afirma que César abusou do poder e 'mereceu ser assassinado').
Porém, se alguém tinha acesso aos documentos existentes, era ele, que foi superintendente das bibliotecas públicas de Roma, responsável pelos arquivos e chefe da chancelaria imperial, tendo sob a sua alçada toda a correspondência oficial.

Ali aparecem, em primeira mão, frases de César tantas vezes repetidas, como 'Andemos para onde nos chama os desígnios dos deuses e a iniquidade dos nossos inimigos. A sorte está lançada.', quando passou o Rubicão, 'Vim, Vi, Venci', sobre a conquista do Ponto, no nordeste da Turquia, ou 'Porque considero que os meus devem estar isentos não só do crime, mas também da suspeita', justificando o divórcio de Pompeia, com razão acusada de adultério (frase depois alterada para 'a mulher de César não basta ser honesta, tem que parecê-lo').
Lá também parecem 2 conhecidas frases de Augusto ('Apressa-te lentamente - mais vale um chefe prudente que temerário' e 'Deixei uma cidade de mármore onde encontrei uma de tijolos') e um curioso ditado sobre a celeridade das coisas, 'mais depressa do que se cozem espargos', bem como o verso duma tragédia, 'Que me odeiem, desde que me temam', usada por Tibério (trocando temam por respeitem) e Calígula, depois glosada por Maquiavel e Napoleão  - no caso de Tibério, o seu caracter cruel era já conhecido em criança, pelo menos pelo seu mestre de retórica, que o descreveu como 'lama diluída em sangue'.
Permita-se-me mais um exemplo: 'o dinheiro não tem cheiro' foi a explicação prática que Vespasiano deu ao filho, quando este se indignou pela imposição duma taxa sobre as latrinas públicas.
 
Um iniciado não fica surpreso com a endogamia dos césares - a elite casava-se várias vezes e entre si, como Octávio e Pompeu, que desposaram as filhas um do outro -, que pode explicar as suas taras:  Tibério organizava bacanais com crianças, Calígula tratava uma irmã como esposa legítima e prostituiu as outras 3, Tibério e Nero tinham relações mal resolvidas com a mãe - no caso de Nero, antes de mandar matar a mãe (após 5 'acidentes' gorados), parece que tinha relações incestuosas com ela.
Nesse campeonato, Calígula leva a taça: mandou recolher as melhores estátuas gregas de deuses e substituir as suas cabeças pela dele, e quis tornar cônsul o seu cavalo Incitato, a quem ofereceu um estábulo de mármore e marfim, mais um palácio mobilado e com escravos. Mas Nero perde no photofinish: não era esquisito, abusava de 'rapazes de nascimento livre' (supõe-se que Suetónio não veria mal se fossem escravos) e casou-se formalmente com um rapaz que castrara; fazia turnés em concursos de música e teatro, com um nervosismo desproporcionado - a plateia não só ficava até ao fim (o recinto era encerrado durante a sua actuação), como obviamente ganhava a competição. Aliás, a vitória, sempre: mesmo desistindo a meio, como fez numa corrida de carros num jogos olímpicos, foi coroado.   

Um iniciado também já sabe como era perigosa a vida dum imperador: Júlio César foi assassinado, o fim de Tibério talvez tenha sido apressado pelo sobrinho Calígula, que foi assassinado como o seu sucessor Cláudio, envenenado pela 5ª mulher Agripina (a 3ª mulher, Messalina, teria já conspirado contra ele), mãe de Nero, que pediu ajuda ao secretário para matá-lo, depois das suas patéticas tentativas de suicídio; o seu sucessor Galba foi assassinado, seguiu-se o suicida Otão e depois Vitélio, também assassinado, como o 3º dos flávios. Dos 12, só Augusto, Vespasiano e Tito (o único incensado pelo historiador) não tiveram um fim 'apressado'.  
Para sobreviver, vários Césares eliminaram os adversários potenciais (Tibério e Germânico, Calígula e Gemelo, Nero e Britânico, Otão e Pisão). De facto, Calígula e Cláudio só lá chegaram porque sobreviveram às purgas 'fazendo-se de mortos' (o caracter titubeante de Cláudio, que era pau-mandado das mulheres e dos seus libertos, é bem expresso numa sua sentença judicial, 'Opino como aqueles que têm razão'). Também Galba tentou não dar nas vistas como governador da Hispânia, para não suscitar a inveja de Nero, repetindo que ninguém podia ser chamado a prestar contas por não ter feito nada.  
Nesse aspecto, e pagando com a vida, Júlio César foi diferente: era magnânimo com os adversários derrotados e, ao contrário de Pompeu, declarou seus amigos quem se abstivesse na guerra civil.  
 
Suetónio enumera vários casos para retratar os imperadores como humildes, ponderados, clementes ou cruéis. Tendo um poder quase divino, o mesmo César dava a vida ou a morte conforme o humor do momento, como um vulgar capricho - Calígula bem respondeu à avó que o recriminara, 'Lembra-te de que posso tudo e tenho poder sobre todos'.
As sentenças podiam ser tão irreflectidas que Cláudio mandava convidar para jogar dados pessoas que não apareciam... porque as mandara matar na véspera. Os mais próximos estavam mais expostos ao risco de vida, incluindo a parentela e os senadores, alvo de grandes purgas, através de exílio, execução ou intimação ao suicídio. Os motivos eram tão graves como ter 'um semblante severo' ou criticar a equipa de carros de que o imperador era adepto... porque tinham-no feito para atacá-lo pessoalmente.
Comum a quase todos, começavam por deplorar os exageros do antecessor, 'perdendo-se' durante o reinado, incluindo numa crescente voracidade fiscal: exemplo, Tibério recusou inicialmente a aumentar os impostos, porque 'um bom pastor tosquia as suas ovelhas, não as esfola', mas acabou por cessar isenções fiscais, provocar testamentos a seu favor e confiscar fortunas sob os pretextos mais absurdos.
Ali são descritos manias (um édito de Tibério proibia as pessoas de se aproximarem dele) e alguns hábitos cruéis, como a dizimação de coortes menos bravas (i.e., a execução de 1 em cada 10 soldados) ou o castigo de parricidas, atirados ao rio dentro de um saco de couro com um cão, um galo, uma cobra e um macaco.  
 
Surpresa, surpresa, César tinha os membros bem torneados e o rosto um pouco cheio, ao contrário da imagem esguia desenhada por Albert Uderzo, era apodado de bissexual promíscuo (Curio, num discurso, trata-o como 'o marido de todas as mulheres e a mulher de todos os maridos') e, num aperto 'lançou-se ao mar e nadou duzentos pés, até ao navio mais próximo, mantendo a mão esquerda levantada para não molhar os escritos que levava' - o famoso naufrágio de Camões foi uma curiosa coincidência (a história repete-se), ou falta de imaginação?

* a versão sensacionalista de Suetónio, de que Nero mandou incendiar Roma, porque os edifícios eram feios e as ruas estreitas, é contrariada pelo historiador Tácito (mais reticente em veicular os diz-que-disse mais picantes, e mais brando com Messalina, por exemplo), que terá razão - o imperador nem estava na cidade, e foi expedito no plano de combate às chamas.  

A Morte de César, 1959-67, Jean-Léon Gérôme

Proclamando Cláudio Imperador, 1867, Sir Lawrence Alma-Tadema
(Cláudio escondeu-se atrás dum reposteiro, para fugir aos guardas que mataram
o sobrinho Calígula; descoberto, não foi eliminado, mas feito imperador)

Escultores na Roma Antiga, 1877, Sir Lawrence Alma-Tadema

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

ODE


             Para ser grande, sê inteiro: nada
             Teu exagera ou exclui.
             Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
             No mínimo que fazes.
             Assim em cada lago a lua toda
             Brilha, porque alta vive.


              Ricardo Reis, 14.02.1933

domingo, 27 de julho de 2014

O REI VERDE

Há uns meses, fui praticamente intimado a ler O Rei Verde por uma amiga, que diz ser um dos livros da sua vida (comprou outro, depois do 1º, que emprestou, ter-se perdido).
O livro do escritor francês Paul-Loup Sulitzer, de 1984, é tão improvável como o seu curriculum: dedicado à alta finança, Sulitzer já era milionário aos 17 anos, com negócios nem sempre limpos - como o escândalo Angolagate.
De que fala o livro, que o autor diz ter 80% de verdade? De Reb Michael Klimrod, um rapaz judeu, sobrevivente dum campo de concentração, que chega a NY em 1950, sem um tostão; ao fim de 6 dias, funda uma companhia de distribuição de jornais, em 6 meses tinha 58 empresas (pedia dinheiro emprestado dando como garantia os bens que ia adquirir, i.e., que ainda não tinha), e em 10 anos era o homem mais rico do mundo, tendo participações em quase tudo o que mexia. Usando testas-de-ferro, quase ninguém sabia que ele existia.
Um Rei verde, um empório gigante com pés de barro, uma teia opaca de empresas em cascata, empréstimos com garantias inexistentes, ambição e poder. Porque diabo é que me lembrei do livro agora?

domingo, 8 de junho de 2014

OS TRANSPARENTES DE ONDJAKI


          - temos técnicas muito avançadas, veio gente de fora e tudo, tá tudo controlado pelo governo
          - você acredita nesse governo?
          - não tenho outro para comparar

O título do livro, materializado numa das personagens (demasiado aérea para o meu gosto) e metáfora da gente caluanda, é um adjectivo bem esgalhado, e a Luanda desnudada por Ondjaki até bate certo com a cidade que nós, primos afastados, imaginamos.
Lá está a alegria epidérmica, o cidadão 'geneticamente preparado para aderir à festa, não importando tanto os seus precedentes explicativos nem as suas futuras consequências, mas sim a intensa homenagem ao torpor humano dessa hora chamada presente'.  
Lá estão os polícias que complicam para depois descomplicar, mediante a 'justa' gratificação, ou os presuntivos fiscais que vão passando, para ver como vai o negócio, recebendo o 'cumbú' para não verem oficialmente como vai o negócio (ele próprio pouco oficial).
Lá está a comissão instaladora, que serve para os seus membros se instalarem.
Lá estão os expedientes e o desenrasca, que os tugas esqueceram por lá: ´tudo dá errado há muito tempo, não te preocupes, depois a gente dá um jeito, esse é o modo angolano de ir fazendo as coisas, se fizéssemos logo tudo bem havia inúmeras desvantagens, primeiro parecia que o trabalho era fácil e rápido, depois não tínhamos hipótese de brilhar com as correções, entendes?'  
Lá está a sabedoria dos mais-velhos, com outra imagem para o bater das asas da borboleta, 'mexem na raiz da árvore e pensam que a sombra fica no mesmo lugar...'.
Lá está a guerra civil, sempre presente, mas mesmo para quem a não viveu.
Lá estão os governantes 'atentos' aos anseios da sociedade civil, encarnada em 'empreendedores' com apetites pela coisa pública (no caso, a privatização da água, também apetecida por cá).
Lá está um presidente eterno (como as neves do Kilimanjaro) e omnipotente, que determina 3 dias de luto nacional pela morte da camarada Ideologia e 'declara inteiramente cancelado o tão esperado eclipse total' do sol (ou desvisitação por algumas horas) - com sucesso, diga-se.

          - mas quem manda em tudo isto?
          - gente muito superior.
          - superior... como Deus?
          - não. superior mesmo! aqui em Angola há pessoas que estão a mandar mais que deus.

sábado, 24 de maio de 2014

FAÇA O FAVOR DE SE INSTALAR

'- cipel? nunca ouvi falar. algum serviço, banco, ou coisa mesmo do Partido?
- não. é... comissão instaladora do petróleo encontrável em Luanda...
- nunca ouvi falar
- mas Luanda também tem petróleo?
- qual petróleo, você não leu bem?...
- então, ali diz petróleo... encontrável... em Luanda. Luanda é aqui
- mas antes não dizia da «comissão»?
- sim, comissão instaladora
- então, até eu que sou cego costumo ouvir notícias na rádio. comissão instaladora é aquela que vai instalando..., e você fica à espera que ela instale
- e não instala?
- instala, só que você não vê a instalação, é uma comissão para alguém se instalar mesmo'


este aperitivo do romance 'os transparentes' do angolano Ondjaki cai que nem ginjas na nomeação dos 3 novos comissários instaladores/instalados do governo. já os tectos salariais, ousaria citar o grande timoneiro de massamá, parecem acima das nossas possibilidades.
 

sexta-feira, 23 de maio de 2014

READ MY LIPS


Em suma: os partidos comportaram-se como se comportam em toda a parte: um pouco de quermesse, muita demagogia, discursos baralhados. Não faltaram também as promessas solenes a que, através dos séculos e em todos os países, nos têm habituado os políticos. Promessas que mais tarde não necessitam de ser cumpridas, uma vez que, com o passar do tempo, «as circunstâncias mudam». Em Direito Civil «o acto de fazer promessas com a intenção de prejudicar os direitos doutrem» tem o nome de fraude e é punível pela lei. Mas em política, quem promete com a intenção fraudulenta de não cumprir escapa lindamente à sanção, pois a culpa é dos «tempos» que são outros quando deviam ter permanecido os mesmos; ou das circunstâncias, que levianamente «mudam».
É assim que, «involuntariamente», os políticos faltam à palavra que, quando é dada «com solenidade e a mais profunda convicção», deve despertar em cada um de nós o mesmo reflexo com que nos defendemos de um facínora ou de um vigarista.
Rentes de Carvalho, Portugal A Flor e a Foice, 1975

sábado, 17 de maio de 2014

EICHMANN EM JERUSALÉM


'O problema, no caso de Eichmann, era que havia muitos como ele, e que estes muitos não eram perversos nem sádicos, pois eram, e ainda são, terrivelmente normais, assustadoramente normais. Do ponto de vista das nossas instituições e dos nossos valores morais, esta normalidade é muito mais aterradora do que todas as atrocidades juntas, pois ela implica (como foi dito inúmeras vezes em Nuremberga pelos réus e pelos seus advogados) que este novo tipo de criminoso, sendo, na realidade, um hostis humani generis, comete os seus crimes em circunstâncias tais que lhe tornam impossível saber ou sentir que está a agir erradamente.' A.H.
 


Eichmann em Jerusalém, sobre o nazi raptado em Buenos Aires e julgado em Israel por (entre 15 acusações) crimes contra a humanidade, é talvez o livro menos filosófico de Hannah Arendt, que insistiu que a obra era uma reportagem e não um ensaio de filosofia. 
O subtítulo do livro, A banalidade do mal, foi entendido por alguns como uma contradição face ao conceito do 'mal radical' (historicamente sem precedentes, em que as pessoas são supérfluas) crismado no seu livro anterior, As Origens do Totalitarismo. A própria Arendt admitiu que mudara de opinião e não falava mais de mal radical, preferindo outra abordagem (mais compreensiva?), o facto dos 'maus' serem pessoas que, noutras circunstâncias, seriam normais e até respeitáveis. De facto, Arendt tinha a 'consciência de que também nós [os judeus], em circunstâncias idênticas, poderíamos ter agido mal'.
Arendt formula A questão, 'quanto tempo é necessário para que uma pessoa normal vença a sua inata repugnância pelo crime' e avança com uma pista, um truque de Himmler: orientar os instintos piedosos não para os outros, mas para si próprio - em vez de dizer "Que coisas horríveis eu fiz aos outros!", os assassinos diriam simplesmente "Que coisas horríveis tive eu de presenciar no cumprimento do meu dever, quão pesada é a minha missão!".
E o povo, pá? Arendt avança com uma explicação pontuada de ironia: da mesma forma que, num país civilizado, existe a tentação para violar as leis, que vertem a consciência colectiva (como o não matarás), talvez a esmagadora maioria dos alemães se sentisse tentada a violar as leis, no caso as ordens do Führer (como o matarás), mas tinham aprendido a resistir à tentação.
A escritora traz à liça outra questão, a faculdade de julgar: numa espécie de looping moral, em que os crimes eram legais, toda a 'sociedade respeitável' havia sucumbido a Hitler e as máximas morais estavam embaciadas, exigia-se que as pessoas 'fossem capazes de distinguir o bem do mal, mesmo quando não tinham para os guiar, nada além da sua própria faculdade de ajuizar, e esse mesmo juízo se encontrava em total contradição com a opinião unânime de todos os que os rodeavam'. Às ovelhas tresmalhadas, Arendt chama 'os raros homens que foram suficientemente "arrogantes" para se fiarem apenas no seu julgamento pessoal'. 
 
Voltando a Eichmann, ele não era suficientemente arrogante para dizer não - admitiu no tribunal que poderia arranjar um pretexto para mudar de função, como outros fizeram, mas sempre achou que essa atitude seria 'inadmissível' e mesmo naquela altura não a considerava 'digna de admiração'... (uma hierarquia de valores bem baralhada, num regime em que "A minha Honra é a minha Lealdade", simbólico lema das S.S.). Mais disse que a desobediência declarada seria 'impossível' e 'impensável'.
Arendt não viu em Eichmann um homem intrinsecamente mau, nem o achava estúpido, mas um zeloso burocrata, uma pessoa pouco letrada, falha de reflexão ('pura e simplesmente nunca teve consciência do que estava a fazer', escreveu, com demasiada benevolência) e vítima da sua gabarolice. Na sua opinião, o Obersturmbannführer (tenente-coronel) era directamente apenas responsável pela logística da emigração e, depois, da deportação dos judeus para o seu 'destino final', tendo-lhe sido atribuídas em tribunal responsabilidades que não teve.
 
Arendt dedica parte do livro ao pecado original do rapto do réu noutro país, à justiça dos 'vencedores' e à legitimidade do tribunal israelita (fazendo eco dos defensores dum tribunal internacional), em particular quanto à legitimidade territorial. A verdade é que Eichmann nunca teria um julgamento justo no seu país de adopção, sempre generoso com os nazis, ou na compreensiva Alemanha (a título de exemplo, Emanuel Schafer, pela morte de 6280 mulheres e crianças sérvias, foi condenado a 6,5 anos de prisão - 9 horas por cada vítima gaseada em furgões).
Apesar disso, e das inúmeras críticas ao julgamento, Arendt concordou com a pena de morte, e propôs o seu veredicto: '(...) A política não é um infantário; em política, obediência e apoio são uma e a mesma coisa. E como o senhor apoiou e executou uma política que consistia em não partilhar a Terra com o povo judaico e os povos de várias outras nações - como se o senhor e os seus superiores tivessem o direito de decidir quem deve e quem não deve habitar a Terra - pensamos que ninguém, nenhum ser humano, pode querer partilhar a Terra consigo. É por esta razão, e só por esta razão, que o senhor deve ser enforcado.'
 
p.s.: Será o mal (no caso, o holocausto) a negação de Deus? Um tal de J. L. Mackie referido na introdução dos editores) foi peremptório, as preposições 'Deus é omnipotente', 'Deus é infinitamente bom' e 'o mal existe' são contraditórias e não podem coexistir as três. A única escapatória, o livre-arbítrio, não satisfaz: se o homem é livre para decidir, Deus criou algo que não pode controlar.

Auschwitz, de Mieczyslaw Stobierski
Deutsches Historisches Museum (Berlin)
 

sexta-feira, 18 de abril de 2014

GABO SE FUE

Gabriel Garcia Marquez 1927-2014
Prémio Nobel 1982

PORTUGAL ESTÁ CONDENADO A SENTAR-SE,
DE SAPATOS ROTOS E CASACO REMENDADO,
NA MESA DOS MAIS RICOS DO MUNDO.
 
LISBOA É A MAIOR ALDEIA DO MUNDO.
 
escritos de 1975

quinta-feira, 27 de março de 2014

IDAS A BANHOS

 
A partir dos finais do século XVIII, era comum as pessoas mergulharem na Junqueira e em Santa Apolónia, devido às alegadas propriedades curativas do rio. Na verdade, era mais garantido que apanhassem doenças, ou não fosse o Tejo a casa de banho da cidade: a excitação de poderem chapinhar na água fazia esquecer as calhandreiras, que despejavam os bacios poucos metros ao lado.
A moda [do turismo balnear, iniciado na Inglaterra, por volta de 1750] enraizou-se em Lisboa nos primeiros anos de 1800. Entre Junho e Setembro, era comum ver famílias inteiras em romaria matinal na direção do Tejo, acompanhados pelos criados, que lhes transportavam as pesadas roupagens de ir ao banho e as toalhas. As praias da Junqueira e de Santa Apolónia, nos dois extremos da cidade, eram as estâncias mais populares.
Logo de manhã, o rio fervilhava de barcas de banhos, alugadas pelas famílias mais ricas (esses botes, chamados catraios, eram usados durante o resto do ano para transportar gente entre as duas margens do rio). Chegados à praia, os veraneantes subiam a bordo e o barco navegava apenas uns metros, para que não se perdesse o pé. Os homens despiam, na proa da embarcação, os trajes de cerimónia e vestiam um colete de lã e calções compridos, e atiravam-se à água, onde esperavam pelas mulheres, que mudavam de roupa dentro de uma espécie de tenda feita com lençóis, montada na popa. Idealmente, trocavam os complicados vestidos e desconfortáveis corpetes por decorosas vestes de banho que lhes cobriam o corpo todo - e de lã grossa, para não deixar que a água moldasse a roupa ao corpo. Na margem, praticamente ao lado destas chiques farras de gente com sangue azul, dezenas de miseráveis calhandreiras despejavam no rio os seus potes cheios de... chamemos-lhes impurezas. Os matadouros a montante, perto do Terreiro do Paço, acrescentavam o seu quinhão, atirando carcaças e outros restos de animais para o rio.
Já as senhoras que viviam em moradias à beira-rio, com jardins até à margem, entravam na água com uma corda atada à cintura e  outra ponta presa a um armário dentro de casa, para não se deixarem levar pela correnteza. Mergulhavam rapidamente e regressavam a casa. Já os pobres que gostavam de imitar os ricos mas não tinham dinheiro para alugar um barco banhavam-se nas praias de areia de Pedrouços e da Cruz da Pedra. Nesses locais havia, à beira da água, tendas para as mulheres se mudarem e nadadores-salvadores, armados com cordas, para acudir a quem precisasse de auxílio.
Um escritor inglês louvava os mergulhos das mulheres lisboetas, se não fosse assim, nove em cada dez mulheres de Portugal nunca experimentariam outra ablução depois do baptismo - nem uma simples passagem com uma toalha molhada pela cara, de manhã.
Histórias do Tejo, Luís Ribeiro (ad.)

quinta-feira, 13 de março de 2014

PARA MALES DE AMOR, PRIMA 2

Boulevard Diderot, 1969, Henri Cartier-Bresson
 
- A alma padece de mui variadas formas. Temos os pruridos da dúvida, doença crónica dos filósofos que procuram a certeza; hipertrofias de crenças, mal frequente aos vinte anos; aneurismas de aspirações, muito vulgares em bacharéis formados; icterícias de desespero, nos chefes de família numerosa; fracturas de carácter, nos homens políticos; luxações do senso comum, nos poetas; paralisias de ociosidade, nos empregados públicos; dispepsias de indignação, nos contribuintes; noli me tangere de susceptibilidades, nos deputados flutuantes; convulsões de entusiasmo, em afilhados de ministros; marasmos de desalento, em pretendentes sem protecção; cancros de exigências, em diplomatas indispensáveis; epilepsias de ciúmes, nos maridos; e as cataratas de amor, em...
- É a doença de Carlos, é a doença de Carlos.
Carlos moveu-se com impaciência.
- Pois é terrível doença - continuou o orador. - Vejamos. Causas: - É hoje inquestionável que esta espécie de cegueira procede de ordinário da exposição do doente ao fogo e esplendor de uns olhos e ao hálito embalsamado de uns lábios de mulher. Para evitar o contágio, construíram-se em tempos vários estabelecimentos higiénicos  que chamaram conventos. (...)
- Os sintomas são variados. Em geral o doente tem fisionomia de parvo característica; no intervalo dos acessos cai em uma espécie de beatífica idiotia, da qual nem os cáusticos o arrancam. Nos paroxismos chega a arrepelar os cabelos, a amarrotar o colarinho, a soltar gritos, que bolem com a vaidade dos tigres, e a arrulhar de maneira que causa o desespero dos pombos. Nos casos mais fortes, a doença toma um carácter de malignidade e o doente faz-se poeta. Nesse estado, o médico perde as esperanças e reclama os sacramentos... do matrimónio.
- E o tratamento? E o tratamento? - perguntaram alguns, rindo.
- A higiene é tudo, meus amigos; mal vai se a profilaxia não atalhou a moléstia.(...) Recomendo a gastronomia, porque as funções do estômago e do coração são antagonistas.
Júlio Dinis, Uma Família Inglesa   

sexta-feira, 7 de março de 2014

PORTUGAL É NOSSO!?

Carte des Royaumes de Congo, Angola et Benguela Avec les Pays Voisins. 1754, Jacques Bellin
'A maior desgraça de uma nação pobre é que em vez
de produzir riqueza, produz ricos.' Mia Couto

Não me passava pela cabeça vir a comprar um livro escrito a seis mãos, sendo duas delas as de Francisco Louçã. Explicação, tirando uns parágrafos com uma prosa mais ideológica, podia ser escrito por Paulo Morais, José Gomes Ferreira ou qualquer jornalista paciente... que não trabalhe no Sol, no I, na Sábado, no Correio da Manhã, no Jornal de Negócios, no JN, no DN, no Record, n' O Jogo ou na TSF - publicações com accionistas angolanos (sobra a Impresa, onde já têm um pézinho de 3,21%, e o Público de Belmiro, agora agarrado a Isabel dos Santos na Zon-Optimus e no Continente Angola).
Não que 'Os donos angolanos de Portugal' traga alguma cacha, 'apenas' desfaz longas meadas dum intrincado novelo, identificando os donos do dinheiro angolano e os seus interlocutores lusitanos.
Não é que sejam muitos, dum lado ou de outro: do lado de lá, a família e a corte restrita de José Eduardo dos Santos, com generais, brigadeiros, membros das suas casas civil e militar, vice-presidentes e ministros em funções; do lado de cá, a banca, umas dezenas endogâmicas de políticos contratados para a constelação empresarial luso-angolana (assim como o procurador do DCIAP responsável por inquéritos relacionados com Angola...) e grandes empresários* que precisam de financiamento ou querem instalar-se em Angola e têm que oferecer metade do negócio a 'parceiros' locais - não é preciso escolher muito, é um número reduzido.
Já a entrada em bancos, petrolíferas, jornais, a editora Babel, conserveiras (Bom Petisco e Pitéu), quintas vinícolas, clubes de futebol (o Sporting e os 2 Vitórias), empresas de telecomunicações, o terminal portuário de Setúbal, construtoras, cerâmicas (pobre Viúva Lamego) e no estúdio da Tobis, deve-se ao enriquecimento alquímico**: que fazer aos muitos milhões gerados por Santos & associados (nas palavras do PR, uma 'acumulação primitiva de capital' que deve ser adequada à realidade africana), precavendo a hipótese do poder político fugir de controlo, quanto Santos arrumar as botas? Não basta empilhá-los num cofre, as contas bancárias podem sempre ser congeladas. Procure-se um país carente de capital, arranjam-se umas pechinchas (que ainda conferem alguma respeitabilidade), a fortuna é reciclada/legitimada e o pé-de-meia está protegido.
Não sei qual o termo adequado, cleptocracia, oligarquia ou partidocracia. Certo é que a leitura é um pouco nauseante, e faz lembrar aquela história do 'parece m..., cheira a m..., sabe a m..., ainda bem que não pisei'.
Lê-se numa penada.

* O mais calejado é Américo Amorim, que tem uma receita infalível, é sócio da filha do PR angolano no BIC, e partilha o Banco Único com o filho do PR moçambicano.
** Exemplo de contas esquisitas: diz o FMI que, entre janeiro e outubro de 2011, apenas 1/4 dos lucros da Sonangol (a nave-mãe) entrou no tesouro angolano, o destino do resto teve uma explicação tão sumária quanto insuficiente. 
  









quinta-feira, 6 de março de 2014

ALEXANDRE O'NEILL III. SENTENÇAS DELIRANTES...

Gerard Castello Lopes, Lisboa 1957

Sentenças delirantes dum poeta para si próprio em tempo de cabeças pensantes

1
Não te ataques com os atacadores dos outros.
Deixa a cada sapato a sua marcha e a sua direcção.
O mesmo deves fazer com os açaimos.
E com os botões.         
 
2
Não te candidates, nem te demitas. Assiste.
Mas não penses que vais rir impunemente a sessão inteira.
Em todo o caso fica o mais perto possível da coxia
.
 
3
Tira as rodas ao peixe congelado,
mas sempre na tua mão.
Depois, faz um berreiro.
Quando tiveres bastante gente à tua volta,
descongela a posta e oferece um bocado a cada um.
 
4
Não te arrimes tanto à ideia de que haverá sempre
um caixote com serradura à tua espera.
Pode haver. Se houver, melhor...
Esta deve ser a tua filosofia.
 
5
Tudo tem os seus trâmites, meu filho!
Não faças brincos de cerejas
sem te darem, primeiro, as orelhas.
Era bom que esta fosse, de facto, a tua filosofia.
 
6
Perguntas-me o que deves fazer com a pedra que
te puseram em cima da cabeça?
Não penses no que fazer com. Cuida no que fazer da.
É provável que te sintas logo muito melhor.
Sai, então, de baixo da pedra.
 
7
Onde houver obras públicas não deponhas a tua obra.
Poderias atrapalhar os trabalhos.
Os de pedra sobre pedra, entenda-se.
Mas dá sempre um «Bom dia!» ao pessoal do estaleiro.
Uma palavra é, às vezes, a melhor argamassa.
 
8
Deves praticar os jogos de palavras, mas sempre
com a modéstia do cientista que enxertou em si mesmo
a perna da rã, e que enquanto não coaxa, coxeia.
Oxalá o consigas!
 
9
Tens um glorioso passado futurível,
mas não fiques de colher suspensa,
que a sopa arrefece
.
 
10
Se tiveres de arranjar um nome para uma personagem
de tua criação, nunca escolhas o de Fradique Mendes.
A criação literária não frequenta o guarda-roupa,
muito menos quando a roupa tem gente dentro.
 
11
Resume todas estas sentenças delirantes numa única
sentença:
Um escritor deve poder mostrar sempre a língua portuguesa.
 
Alexandre O'Neill, A Saca de Orelhas