...e depois, com bigodes de leite, pedem mais paciência e esforço ao povo, que a "vaca 'tá seca".
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quinta-feira, 23 de março de 2017

Egogeometria


      Eu sou a soma 
      de todos os meus dias.
      Eu sou a bissectriz 
      entre como eu 
      e os outros me vêem.
      A.C.

sexta-feira, 31 de julho de 2015

PANCADAS DE MOLIÈRE

 
'Ao elenco da minha peça', foi o brinde que ouvira no repasto da véspera, a rematar um embargado discurso dedicado ao grupo de velhos amigos. Na altura, parecera-lhe ser o vinho a falar, mas agora, enquanto escanhoava a cara, aquilo fazia algum sentido, apesar, ou por causa, da cabeça enevoada como o espelho. 
As pessoas, pensou, são figurantes na 'nossa' peça, escrita a várias mãos (sim, rapaz, temos menos poder no guião do que pensamos): uns escolhidos por nós, outros presentes no casting original (ah, que saudades da avó!); uns protagonistas da história, outros personagens secundárias do enredo; uns heróis, outros vilões; estes com direito ao palco do abrir ao descer do pano, aqueles importantes num ou dois actos, aqueloutros com actuações brilhantes em apenas algumas cenas.
Bem, talvez fosse melhor estancar as sequelas das 5 lâminas da gillette fusion (uma revolução no mundo dos barbeados, diz a publicidade, e não há revolução sem mortes e feridas...), tomar um guronsan e deixar-se de filosofias baratas.
Amélia C. em Bocas de Cena

terça-feira, 29 de abril de 2014

DESTE UM PULO

A minha boneca é teenager daqui  2 dias. A aceitação de roupa e calçado como prendas (uma ideia que repudiava, há pouco tempo) é prova que está a encetar mais uma etapa, que se sucedem num piscar de olhos.
Paradoxalmente, com os 'degraus' cada vez mais espaçados, os adultos dão passos de bebé, e os miúdos passos de gigante - se bem que, dizer que parece que foi ontem que nasceram, é claramente um exagero, como malfadadamente provam as nossas fotografias da época.
O mai' novo também 'mexe', está a acabar a primária. Os paizinhos foram todos arregimentados por uma homónima para comprarem uma bicicleta ao professor. Podia discorrer sobre o consumismo, o viver acima das possibilidades, et caetera, mas fico-me por uma comparação: no meu tempo, dava-se um desenho ao professor, agora dá-se um quadro de carbono.
   

domingo, 21 de julho de 2013

PENITÊNCIA


Uma pedra nos rins; uma pneumonia; uma mistura de calmantes e antidepressivos (a ponto de o 'distraído' não conseguir destrancar a porta da wc); um ataque de asma; uma febre alta dum executivo vindo de áfrica (ocupado, à vez, com 2 telemóveis XXL).
Cinco pacientes (vem de paciência, presumo) a partilharem uma tarde de sábado, numa sala de observações dum hospital privado.
Mundo pequeno, 2 deles vivem no mesmo prédio há 10 anos e nunca tinham trocado mais que bons dias. Tiveram oportunidade de recuperarem, eu e o sr. do 3º andar (é, vim embora sem nos apresentarmos).
Fiquei a saber que ambos temos uma amiga em comum, que trabalhava comigo e agora trabalha com ele, numa prisão. A conversa começou comme il faut, sobre as maleitas.
Aqui tratam-me melhor do que me trataram no S. João, e é mais barato, contou. Bem, é mais barato para nós, mas para o Estado não, retorqui. Olhe, eu também ando a pagar um submarino que não comprei, matou a conversa.
Disse que engordara 40 kg desde que deixara de fazer desporto, e que tivera de desmarcar uma caminhada na serra (um desporto violento, quanto a mim) por causa das dores. Aí passámos para o 'microcosmos' penitenciário, como lhe chamou: perguntei se não podia usar o ginásio da cadeia, em horas 'mortas', mas o sr. do 3º andar disse que não: o ginásio, apetrechado como os melhores, é só para os reclusos, como os 3 médicos em permanência, o dentista, os psiquiatras e os psicólogos - que eles têm muitos problemas a resolver (ironia).
Fiquei também a saber que 'as crianças das escolas podem jogar à bola no cimento, mas o campo dos reclusos tem que ser em resina sintética, o piso custou €50.000, ouviu bem', que 'eles tratam-se bem: jogam playstation, fazem desporto, vêm televisão, têm aulas de ioga e de teatro, ao fim de 2 anos de cama-comida-e-roupa-lavada estão recuperados para a sociedade, vão embora nos seus bmw e vão gastar o dinheiro que juntaram'.
Sobre a reinserção na sociedade, que é o suposto motivo primeiro da clausura, o sr. do 3º andar também opinou: não só os bons filhos (amiúde) à casa tornam, como, em 20 anos, conheceu várias gerações das mesmas famílias, com avós, filhos e netos a partilharem o ofício, o cadastro e a cantina. E o bairro social: o sr. do 3º andar estranha que as gerações se sucedam sem que o filhos consigam melhorar de vida e abandonar os bairros.
O curioso é que os 130 kg de guarda prisional disseram tudo com a voz baixa e pausada (também, as dores vetavam-lhe qualquer exuberância), com algo irónica bonomia e sem qualquer animosidade.
Não diria que é uma perspectiva redutora, porque vista por dentro e mastigada durante muitos anos. É mais uma visão desencantada ou céptica do seu universo. Não que o sr. do 3º andar não tenha apreço pelos seus presos: 'espero que continue a haver muitos, preciso de pagar a casa'.

p.s.: seguem-se, creio, mais 10 anos de bons dias e um upgrade intimista, então essa saúde? 

sábado, 15 de junho de 2013

SUPERVISÃO PARENTAL

De acordo com o ministro alemão Schäuble, a falência grega foi gerida com o método da tentativa e erro - afinal, o mesmo processo usado na educação dos miúdos. 2 exemplos.
 
O meu garoto não foi convocado para o último jogo de andebol da mini-temporada por 'entre outras coisas*, ser arisco' - termo benigno usado por uma meiga treinadora que trata as lesões com um abracinho, que significa refilão. Disse ainda que o míudo se queixa que não lhe passam a bola, mas que até passam, quando ele faz o que lhe diz.
A caminho de casa, tentei convencer a criança a não desistir já do desporto, fazer 3 ou 4 coisas e ver o resultado: primeiro, não corras de costas para a bola, desmarca-te e não faças placagens como quem pede desculpa; segundo, e recorrendo ao 'confia em mim, eu sei porque já aprendi', obedece e não resmungues, mesmo que não concordes - na altura podes ficar chateado, mas ficas a ganhar.   
Acabei de dizer isto e ouvi um rouco claxon interior: faz-me impressão que os pais não ajam como ensinam aos filhos - essencialmente derivações de respeito pelos próprios e pelos outros, como não roubar ou mentir, ser leal e trabalhador, bla-bla-bla - e o 'baixa a bolinha' é exactamente o contrário do exemplo que lhe quero dar, 'costas direitas'. 

Não há nada, mas nada, mais saboroso que ver no rosto dum filho a satisfação plena, qual Kate Winslet na proa do barco. Vi isso esta semana, quando a minha filha de 12 anos ganhou o seu segundo telemóvel, após uma campanha bem sucedida, à conta duma lacrimejante e sentida tristeza perante a crueldade do universo: então já não podia substituir o seu telemóvel táctil com 2 anos (que, pormenor, funciona como no primeiro dia)? Resultado, a compra foi aprovada por maioria qualificada, com o voto vencido olimpicamente ignorado.
Primeira lição: pode amar-se uma criança dizendo sim, e pode amar-se dizendo não. Segunda lição, (pensamos que) vivemos numa era de abundância, em que tudo é descartável.
Por isso, as 2 fotos seguintes são verdadeiras galhetas na consciência: o sorriso rasgado de um orfão austríaco (Werfel de sua graça) a quem a cruz vermelha americana ofereceu, não um 2º telemóvel, mas os primeiros sapatos novos; um rapaz inglês sentado nas ruínas duma loja bombardeada, deliciado, não com uma psp, mas com um mero livro ('A história de Londres').  

* ter herdado o meu jeito para o andebol

LIFE magazine, 1946



Londres, 8.10.1940 (Associated Press)
 

quinta-feira, 9 de maio de 2013

PATACA A TI, PATACA A MIM

Há algumas coisas que o meu pai dizia que nunca esqueci, à conta da repetição: 'amigos, amigos, são os de infância e a família', 'nada se cria, nada se perde, tudo se transforma' (começavam assim demoradas prelecções, cada vez que lhe pedia ajuda num tpc) e 'uma geração faz dinheiro, a segunda conserva e a terceira gasta'. Ainda estou para saber que geração me calhou a mim, mas vá.
De qualquer jeito, é interessante como o 'graveto' sai das famílias de forma inesperada, e cai em mãos alheias, em vez de passar para irmãos ou filhos. Exemplos?
. Era uma vez 3 irmãos abastados, os 2 rapazes casaram com a mesma senhora, viúva essa que tornou o terceiro marido um herdeiro muito feliz.
. Era uma vez um rapaz tão estróina, que a previdente (?) avó, para o petiz não se desfazer da propriedade que herdara, conseguiu passá-la para o seu nome e depois deixá-la em herança a uns sobrinhos dela, com o usufruto do neto (morreram ambos no espaço de um mês).  
. Era uma vez uma viúva que passou a posse da casa do primeiro marido para o novo campanheiro, que morreu primeiro e deixou a propriedade à uma irmã açoreana.
Mas, à pala duma cósmica lei das compensações, mesmo que desequilibrada, pode acontecer o inverso, como uma casa lisboeta ser deixada por uma fidalga (açoreana, lá está) aos sobrinhos do marido, com uma história peculiar: aí, no n.º 25 da Travessa André Valente, morreu Barbosa de Bocage. 
 
Descerramento da lápide no centenário da morte de Bocage
Foto de Joshua Benoliel,  1905

Foto de Eduardo Portugal


 
 

terça-feira, 19 de março de 2013

FILHO DE PEIXE


'Insistes em
andar a direito,
mas a vida
é feita de curvas'
J. E.



Sobre o pai, escreveu Lobo Antunes que os mortos 'alteram-se conforme se altera a imagem que temos, desde a aparência ao temperamento, entendemo-los melhor, ficamos em paz com eles, sem ressentimentos nem zanga, criaturas ao mesmo tempo verdadeiras e mitificadas cuja lembrança adquire uma perspectiva doce, envolta numa espécie de halo de ternura, isto depois dos julgamentos terríveis da nossa parte, tanta amargura, tanta impiedade'.
Por isso, E. deixou os pensamentos sobre o pai marinarem durante meses, antes de se pronunciar.

Dizia o pai que o avô era um dândi (outro estrangeirismo obsoleto que usava, como gasoil e restaurant) e que a sua carteira parecia um fole, ora cheia, ora vazia. Procurou ser a sua antítese, acima de tudo era um provider.
Senhor do seu nariz, foi sempre respeitado, era o Sr. doutor (antes de toda a gente ser doutor) apelido apelido. E ficou ofendido quando no hospital lhe chamaram apenas sr. António.
Caso fosse escritor, E. diria que ele era sanguíneo. Colérico e teimoso (a expressão 'enxertado em corno de cabra' batia certo com o seu ruminante signo, para quem acredita nisso), para ele só havia duas maneiras de ver as coisas, a dele e a errada. Situação que os demais, com os anos, aprenderam a gerir com omissões ou a 'fazer sala'.
Mais era parco nos elogios e nos afectos: prova nº 1, nunca deu um beijo, estendia a bochecha. Dizem que era assim por formação, e porque rumou cedo a colégios longe do carinho doméstico. Ou porque se deixara encarcerar pela própria imagem e um simples afago já não era natural, ainda que lhe apetecesse - é, não amava abertamente, mas não havia dúvidas do seu amor e dum, aqui e ali, orgulho pelos filhos. O certo é que não criou cumplicidades com a prole.

O que pode uma pessoa deixar a um filho? O nome, uns 'tarecos', o ofício e o exemplo. E essa checklist, em maior ou menor grau, cumpriu.
Como um carimbo, passou a rigidez dos princípios (burilada no que chamou lirismo), a importância em honrar o nome e a assinatura, o pragmatismo, a noção de que as obrigações vêm antes dos direitos, a distracção (chamaram-lhe fiscal do ar, porque não reparava em ninguém na rua), a cara de poucos amigos, a crueza das suas opiniões, o não gastar o que não se tem, nem tudo o que se tem.

A penúltima conversa que E. e o pai tiveram, foi um conselho: não te lamentes, faz-te à vida. E não pregava como frei Tomás: teve vários empregos e várias vidas, em cada hemisfério, em cada uma das 3 mulheres. Poderia usar o termo 'solução de continuidade' (que encerra um paradoxo, as 2 palavras têm um sentido e juntas significam ferida, lato sensu), pois no seu caminho foi cheio de interrupções e fracturas, mas teve que resolvê-las e continuar - quaisquer que fossem as guinadas, seguir em frente, marchar, marchar.
Quando se viram pela última vez, ambos sabiam que provavelmente o era. E. esperou ouvir um derradeiro ensinamento do pai, um balancete, a última lição dessa cathedra vitae de 8 décadas. Nada disso, antes ouviu um recado prosaico e pragmático: vê se o dinheiro [que vos deixo] não se gasta numa penada. Conseguiu ser desconcertante como sempre e previsível como de costume.

Foi feliz? Mesmo que tenha feito o que achou ser seu dever e o que a redutora consciência lhe ditava, mais feliz deve ter sido o seu hedonista progenitor.

notas soltas
Tinha mau coração. E maus pulmões. E maus rins, para não falar em hiperplasias várias (foram tantas as ameaças da Ceifeira, que parecia viver de créditos). A anarquia orgânica começou no dia em que se reformou e se sentou num cadeirão de pele, durante os 10 anos seguintes - estou para aqui, dizia. Logo ele, que sempre mandou, deixou de controlar o próprio corpo, dia a dia mais agrilhoado a uma garrafa de O2, e acabou dependente dos outros para as necessidades mais elementares.
Ao esvaziar gavetas - sacos e sacos pretos com revistas, papeis, agendas e cartões de visita, para o papelão fagocitar -, E. descobriu que também as suas grávidas gavetas não vão interessar a mais ninguém. 

domingo, 14 de outubro de 2012

ÓDIO AOS COLONOS?




       PROVÍNCIA DO UÍGE, AOS 5 DE JULHO DE 1976

         Exmª Prezada Senhora:
        Saudações e votos que desejo a minha Senhora.
Esta carta quer que vá te encontrar de uma ampla saúde
juntamente a família de casa.
        Eu cá seu cozinheiro de nome Augusto Sertão
estou de saúde graças a Deus. Sobre a sua carta que me
envias-te recebí amávelmente a qual respondo-a, e re-
cebí a quantia de escudos que me envias-te a quantia de
150$00 (cento e cinquenta escudos) e a qual fiquei mui-
to grato.
        Enviu muitos cumprimentos a família de casa o
seu marido as crianças e os outros que te rodeiam em
comum.
        Termino aqui eu seu cozinheiro não tenho muito
que rogar somente saudações.

                 Subscreve o íntimo cozinheiro
             Augusto Sertão

                 2 abraços fortes que o enviu.
              
               Daqui é tudo     ( Chau chau chau )

.

terça-feira, 15 de maio de 2012

A DEBANDADA


Dulce Maria Cardoso nunca deixou de ser retornada (diz ela) e resolveu escrever O RETORNO, um livro sobre o 'regresso dos nacionais' - não os bem-sucedidos, 'esses seriam bem-sucedidos em qualquer parte do mundo, porque eram fortes e capazes', mas os outros.
Fala sobre aqueles que 'voltaram' a um país onde muitos nunca tinham estado, com frutas exóticas como as cerejas e um frio para o qual não estavam preparados.
Fala da fuga atabalhoada, como qualquer cenário de guerra (é preciso desespero para um pai furar uma multidão e empurrar literalmente os filhos para dentro de um avião, para pô-los a salvo do perigo - logo haveriam se se encontrar!), quando alguns se agigantam e outros revelam a sua pequenez, quando uns levam muito do que têm e outros deixam o pouco que juntaram - surpresa, havia lá ricos, pobres e remediados.
Fala da saudade dos seus países, onde deixaram (quase) tudo, excepto a memória.
Fala no acolhimento sobranceiro dos portugueses da metrópole, fosse na escola, fosse no que era mais próximo da palavra casa - como no caso do menino, alojado num hotel, que viu a piscina ser esvaziada por ordem da comissão de trabalhadores, pois piscina não era para 'essa gente'.
É, dizer que a integração correu bem é um exagero para muitos. Os portugueses ultramarinos eram mais empreendedores e desempoeirados, talvez porque estavam mais longe da Praça do Império, e tiveram que se fazer à vida e começar de novo (por exemplo na produção pecuária, ou em churrasqueiras, que não havia cá), mas nem todos foram casos de sucesso - houve uma apneia colectiva, e parte daquele meio milhão ainda guarda sequelas.

Ofereci este livro à minha mãe, nós também fizemos parte da lista do IARN (instituto de apoio ao regresso dos nacionais). Tinha 3 anos e não guardo nostalgias, mas ela lembra-se e não gostou - de deixar lá toda a sua vida, e da arrogância de quem cá encontrou.
E ignorância: a uma senhora que lhe perguntou 'Vocês trazem paludismo, não é?', respondeu 'Não, trazemos raiva!'. A dita hipocondríaca não entendeu a ironia...

p.s.: também os carros fizeram parte da história d'O Retorno. Em '74, o meu pai foi a Paris buscar um Renault 17 branco, um coupé raríssimo em Portugal. Um ano depois, no meio da debandada, ouviu num café um desconhecido dizer que precisava levar a família para Luanda, mas não tinha como. 'Ouça, o senhor precisa de carro, e eu preciso que o meu chegue a Luanda, a tempo de embarcá-lo. Leve-o e deixe a chave em tal sítio'. Assim foi, e um mês depois o R17 seguiu com outros 2500 carros num cargueiro sueco chamado Nopal, a caminho de Lisboa.
Ainda podia ter vindo outro: o dono dum stand queria desfazer-se dos carros e ofereceu-nos um alfa romeu, mas a oferta foi recusada, seria mais um problema a resolver...   

quarta-feira, 21 de março de 2012

sábado, 19 de novembro de 2011

EU CONFESSO, ANDO METIDO NA BRANCA


Há umas semanas, fui 'caço' num inquérito telefónico da marktest, aceite contra a promessa de ser rápido, quebrada pelo interminável número de perguntas, entremeadas por sucessivos 'tá quase'.
Assunto, recordação de marcas e supermercados.
Primeiro, tive uma branca - não me lembrava de nenhum anúncio (na imprensa, tv, rádio ou mupi) sobre bebida alguma. Com várias ajudas, lá fui rebuscando um anúncio duma bebida de pacote amarelo, com um actor a dançar numa praia, seguido dum monte de gente, mas a marca...
Depois foi o bombardeamento sobre os supermercados: na escolha da loja, qual é a importância da proximidade, exposição dos produtos, preços, promoções, descontos, cartões de pontos, organização, ajuda dos funcionários, etc, etc. Mensuração: muito, bastante, nem muito-nem pouco, pouco, muito pouco.
Respondi quase sempre nem muito-nem pouco. Para responder por atacado, expliquei à monocórdica menina:
- Olhe, sou cada vez menos sensível a publicidade ou a marcas, infelizmente agora ando metido na linha branca: azeite é, gasóleo intermarchê, feijão continente, pneus sem marca, papa pingo doce, ice tea jumbo. Acho que dá para avançar várias questões, pode ser?
- Muito bem. Agora, o pagamento dos sacos plásticos, importa muito, bastante, nem muito-nem pouco, pouco, muito pouco?
E lá continuou a flagelação.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

ERA UMA VEZ, NUM REINO MUITO DISTANTE...



Dizem que a preocupação é quase patológica no primeiro filho e vai diminuindo com os seguintes. As minhas irmãs nasceram numa clínica privada em Luanda (12 contos e meio, ainda existem os recibos) e o terceiro – eu – nasceu no hospital local da terrinha, o Lobito.
Mas enfim, sempre me contaram que tive a sorte de nascer num cenário de fábula, cercado de flamingos branco-rosados, no meio de mangais, e que uma fada (o médico) previu que estava fadado para general (como se vê…e nem os meus miúdos ponho em sentido).
Quando fiz 40, calhou saber a verdade toda.
O hospital estava erguido no meio dum pântano (há quem lhe chame lagoas), com flamingos, sim, mas infestado de mosquitos, fora e dentro dos quartos, como uma praga bíblica. A tal fada não ligava muito ao facto, porque os insectos também tinham o direito a existir. O hospital era sui generis, à noite havia mosquitos mas nenhuma enfermeira, e era polivalente: o meu pai chegou a operar lá um cão, coadjuvado pelo cirurgião (de graça Acácio Coelho) e por pela renitente anestesista.
Nada poético. Vai-se a ver, quando chegar aos 50, ainda revelam que me tiraram da Roda:)

Outros tempos: quando acusei vontade de sair, os meus pais telefonaram aos meus avós para virem de Benguela, deixaram a porta da rua aberta e avisaram o guarda-nocturno que as minhas irmãs estavam a dormir.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

FOLLOW-UP


- Olá. Queria uma lixa, por favor.
Eu e o sr. da loja fitámo-nos por uns momentos, olhos nos olhos como num duelo de cowboys, à espera que o outro desenvolvesse a conversa.
- Para quê?
- Para lixar umas madeiras.
- Qual é o número que quer?
- Há de quantos a quantos?
- Há 50, 60, 100...
- A lixa mais fina tem o número mais baixo?
- Não, é o contrário. Quer uma 100?
- Ok. Levo 4.
E pronto. Lixei a mesa, ficou com um look 'casual red'. E, lá tinha que ser, comecei a pintar uma cadeira, mas ficou cheia de grumos - desconfio que devia ter deixado o pincel em diluente... Literalmente, que se lixe.
A empreitada do resto da 'mobília' foi ganhando ritmo, com o aumento da 'experiência' e o decréscimo da preocupação com o resultado - os meus valores são espirituais...
Ao som de Janis Joplin, custou menos.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

TRABALHO D´HOMEM


Diário dum jeitoso para a bricolagem
Tenho uma varanda ampla, onde nos sentamos para fumar. Em tempos, o meu cunhado sentou-se numa das cadeiras ao sentar-se e ela cedeu aos seus encantos calóricos. Fiz anos e quiseram levar-me ao IKEA para comprar outra. Quando lá cheguei, já estava escolhido: um conjunto de mesa, 2 cadeirões e uma cadeira corrida, em madeira.
- Não sei se a minha mulher aceita uma 'mobília' lá em casa, sem ter voto na matéria.
- Não sejas maluco, já tirei as medidas à tua varanda, cabe, e onde é que arranjas isto tudo por 99€?
Veio a mobília de jardim. A minha mais-que-tudo disse 'gosto', mas a maneira como respondeu (que os cônjuges têm o exclusivo de entender) fez soar o meu alarme, oh-oooh! Há coisas que os cônjuges têm o exclusivo de entender.
Bem, eu nunca teria aceite caso soubesse que não era uma prenda chave-na-mão e tivesse conhecimento das 'instruções' a tempo: é necessário pôr um produto para proteger da chuva e do sol, todos os anos - disse o meu cunhado depois de aparafusar o lego todo.
Fui comprar o dito: um monte de opções, acetinado, envernizado, teca, mogno, incolor, interior, exterior, interior/exterior. Levei à final duas latas, incolor para interior/exterior e mogno intempéries exterior. Para a invernia portuense, comprei o intempéries, claro.
Nada claro. Acabei de pintar a mesa (com um resultado algo adolescente), e não sei se continuo: por ora tenho 3 cadeiras castanho-pálido, discretas, e uma mesa vermelho-cerejeira.
O meu amor está quase a chegar e eu vou-me disfarçar de papel da parede...

p.s.: Li as instruções, é suposto dar 3 demãos. ahahah.
p.p.s.: Se alguma vez tiver um jardim, vai ter relva sintética e cadeiras de restaurante chinês, plastificadas.

terça-feira, 26 de julho de 2011

OS MEUS AVÓS SÃO MELHORES QUE OS TEUS


Os avós nunca partem, é o título dum texto (Tabu, 22.7.2011) a propósito do Dia dos Avós, 26 de Julho, também dia de Sant'Ana, a mãe de Maria.
Aí, Lídia Jorge conta que as lembranças da avó são "toques de amor que nós trazemos na mochila das reservas boas da nossa vida".
Assino por baixo.

Um casamento unia as famílias dos meus avós maternos, a assim se conheceram, na Arriaga. Namoraram em Alcântara, onde o meu avô se cruzava com uma Amália teenager a vender limões. Depois foram para África, onde ele foi Intendente, tipo responsável administrativo das terras.
Passávamos as férias grandes na casa deles em Lisboa, um andar antigo (numa das janelas, alguém riscou 1869) e gigantesco - a casa de baixo era uma pensão, dá para imaginar o tamanho -, com tectos altos de estuque e um sapateiro (o Sr. Francisco) no átrio do prédio. É impressionante a quantidade de bites que guardamos no arquivo morto, como a amnésica "peixa" do Nemo e o seu 'sidney, wallaby street', ainda sei a morada, rua vieira da silva, 119, 2º dto.
As viagens eram, claro, todos a dormir em cima uns dos outros, não havia cintos de segurança.
Não nos enchiam de prendas, eram poupados como todos nesse país a preto e branco: lembro bem a minha avó, ao regressar da rua, sentar-se à escrivaninha com a sua parker cinza a assentar os gastos todos numa agenda, parcela a parcela - herdei o móvel, a caneta e o hábito.
Lembro o fascínio das escadas rolantes do Grandella, o eléctrico 19 e os autocarros verdes de 2 andares, e recordo os mimos, as farpas do chão de soalho catadas nas mãos, os dentes arrancados a cordel, a permissão "de quando em vez" para ir buscar rebuçados à caixa verde (que, muitos anos depois, ainda conservava o cheiro) ou os Santo Onofre à mesa-de-cabeceira da bisavó, ou para comer colheradas de açucar amarelo do boião; relembro a lata de tostas e o chá de limão, a espera em frente ao grão da tv, pelo início da antena, os serões com a minha avó a fazer casacos de lã, numa cadeira de palhinha, as mini-formas de bolos para os lanches da bonecada, as rodelas de cenoura a boiar na sopa. Dias simples.
E quando vínhamos embora (ou quando eles abalavam no seu carocha), lá as 3 criancinhas choravam – como fazem os meus filhos agora, quando a avó e as tias vão embora…

Nunca os vi amuados um com o outro, a discutir ou levantar a voz, o que não sucede(u) nas gerações seguintes. Disseram um dia que não queriam ficar cá quando o outro partisse, e o grande arquitecto fez-lhes a vontade, sem pré-aviso: há 24 anos, tiveram um acidente de carro à entrada do Cartaxo (para onde se tinham mudado 1 mês antes, tinham ido mudar os BIs), ele morreu dois dias depois, pelas 6 da tarde, ela foi uma semana inteirinha depois dele, à mesma hora.
Claro que gostava que a história fosse diferente e eles tivessem cá ficado (muito) mais tempo.
Mas houve um prémio de consolação: aos 15 anos, as pessoas ainda não têm sombras, os nossos avós sabem tudo, são uns heróis sem calcanhares de Aquiles, com quem gostamos de passar o tempo, a ouvir estórias antigas, jogar krapô ou batalha naval, antes de passarmos a preferir estar com os amigos. Sem problemas, sem defeitos e fraquezas, sem as maleitas da velhice (essa kriptonite), sem precisarem eles de ajuda.
Assim, vejo-os como via aos 15 anos. Imaculados. Luminosos. Perfeitos.
Como nunca conheci outrém.

E agora, um brinde aos avós:
..

terça-feira, 14 de junho de 2011

AH, NÃO TINHA REPARADO

 

LEVAI A SÉRIO TUDO O QUE QUISERDES,
EXCEPTO VÓS PRÓPRIOS.
Rudyard Kipling

Fernando Pessoa escreveu que "O poeta é um fingidor, finge tão completamente que chega a fingir que é dor, a dor que deveras sente".
Não é o meu caso, percebo tanto de poesia como Jesus de finanças, e não tenho a opacidade como defeito - ou virtude. Quem tenha a paciência de "folhear" este blogue fica a saber tudo o que acho, sem remorso e quase de forma exibicionista. Como um daqueles senhores que abrem a gabardine e expõem as "vergonhas" a quem passa na rua.
Chega para me dar a conhecer? Parece que não, é uma espécie de com a verdade me enganas.

Há dias, a bonita Dora disse-me "Vi o teu blogue, é giro, pena que sejas monárquico". Há meses, um dirigente do BE quis ser meu amigo no facebook quando viu um comentário meu, pensando provavelmente que eu seria um deles (brrrr), ou estaria em ponto de rebuçado para ser "doutrinado". Nos primórdios dum blogue colectivo onde participei, parece que fui considerado por um colérico "cliente" como cabecilha duma sinistra facção esquerdista-gay - mas fiz o pleno, depois fui acusado de reaça ultramontano, aquando da votação da proposta, por escrever que o casamento gay não me dizia respeito. E, no trabalho, vêem-me como um desbragado sindicalista.

Porquê o engano, pergunta-se este proclamado republicano e habitual votante do CDS?
Apesar de ser aborrecidamente convencional (junto aos autos o post nº 1), sou o que se chama heterodoxo - em minha defesa, só nos livros é que as pessoas não são um somatório de incoerências, e ainda bem. Dá-se ainda o caso de não ter posições inequívocas sobre todos os assuntos e, desgraça minha, ainda não domino a ironia, de forma a mostrar que estou a usá-la...
É tudo isso, ou enfado, prestam pouca atenção.
Hum, sou visto na diagonal.
.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

UPS!!!

Miguel Guilherme organizou, com outro actor, uma radialista, um professor (húngaro) e o fundador duma agência de viagens, uma sessão de storytelling, no Museu da Água. Resumindo, contam estórias pessoais à plateia de desconhecidos, com uma intimidade própria dum jantar de amigos ou de natal.
Uma das estórias de Ana Colaço misturava tristeza e comicidade: contou ela que o marido foi hospitalizado com uma doença grave. Quando os médicos lhe disseram que o marido estava a morrer, Ana fez duas coisas: telefonou à família e amigos próximos do marido, para que se pudessem despedir, e foi comprar à pressa um pijama, porque não queria que a última lembrança que as pessoas retivessem fosse a imagem dele em bata.
Durante a romaria de visitas, Ana reparou que a olhavam duma forma estranha quando saíam do quarto, mistério que só foi desfeito quando entrou no quarto, para contar ao marido a boa notícia, os médicos tinham descoberto o problema e ele ia sobreviver: "estava escuro, vejo o que os outros tinham visto antes, o Luís quase morto e cheio de fantasmas fluorescentes à sua volta". Má escolha para o padrão do pijama.

Eu também tenho uma estória embaraçosa (bem, são muitas, mas fico por esta), e tem a ver com a escolha inadequada (e, juro, sem segunda intenção) de livros para oferecer.
No primeiro natal depois dos meus pais se separarem, vai para 1/4 de século, e o meu pai ter ido viver sózinho, dei-lhe uma saga de Gabriel Garcia Marquez, 100 anos de solidão. Apanhei uma vergonhaça quando reflecti, mas não aprendi nada: uns anos depois, ofereci à sua (estimável e estimada) companheira um livro de Günther Grass, meses antes de ser nobelizado. Azar, chamava-se A Ratazana.
Duas vezes com a pata na poça, e deixei de oferecer-lhes livros.
Discos, tirando qualquer requiem, discos são inofensivos.
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segunda-feira, 2 de maio de 2011

A MINHA VIDA NÃO É ISTO (parte 3)


Há uma expressão em Latim, ego sum ignavus, própria para pessoas como eu e o meu cunhado, significa eu sou preguiçoso. Quer dizer, não é bem isso, ambos partilhamos a crença que o desporto faz mal, aleija e, nalguns casos, chega a matar. O nosso único exercício é espiritual, os 2 quietinhos a dizer mal (há tanto por onde pegar), como os velhos dos marretas.
Ora, costumamos fazer a festa de anos da "minha mai' velha" em casa e, para distrair 20 e tal crianças, eu e ele participamos numa partida (anual) de futebol com os gaiatos. Ontem repetimos a graça, e esquecemos a regra "dos 5 metros de cada vez" que evita a dolorosa produção de ácido láctico em atletas como nós.
Conclusão, eu hoje andava a arrastar-me no trabalho, e expliquei a razão a um colega (que comete a suicida irresponsabilidade de fazer passeios de bicicleta de 80 km...). "Tá ver a ver que faz bem", disse-me ele, eu respondi "Bem? Faz é mal, doem-me as pernas".
À noite, disse à minha mais-que-tudo que queria telefonar ao meu companheiro de infortúnio, para saber como ele tinha passado. "Já falei com eles. O rapaz estava na cama, 'tá todo empenado".
Agora, só daqui a um ano. Se o Grande Arquitecto nos der saúde.
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domingo, 20 de março de 2011

A MINHA VIDA NÃO É ISTO


A Inês fez há tempos uma mini-prova de equitação. Não ligou aos repetidos avisos da assistência para por os pés nos estribos, o cavalo virou e ela foi em frente. Caiu. As dores nas costas e no pescoço aumentaram no dia seguinte e, por descargo da consciência, levei-a à clínica.
Fomos atendidos por uma médica entradota, presumo que reformada a fazer um biscate "para ter para os alfinetes", loura platinada e cujo baton já não alinha com os lábios, tipo mariana-do-circo.
A meio da consulta, atendeu a empregada, com quem discutiu uma fuga de óleo do carro e a quem pediu para cozer o frango (sem sal) para o cãozinho. Foi o mote para o monólogo: cão idoso, idas ao veterinário (uns ricos!, não saáa do hospital sem lá deixar mais de 200€, agora arranjei uma clínica ao pé da farmácia não-sei-quantos que me leva 8€). Quando respondi que era veterinário, mas não era rico, aproveitou para perguntar sobre raças de cães para fazer companhia ao seu geriátrico canídeo.
Depois a razão da consulta desviou-a para os equídeos: um colega cirurgião estético ia todas as semanas à Holanda ver os cavalos que lá tem - esses são outros que ganham rios de dinheiro, agora todas querem por botox!
Prescreveu radiografias, a tirar no piso inferior: "eu até sei ver, mas peça ao radiologista para dar uma olhada, eles querem é fazer pouco".
O interessante da história é que a "physica" nunca tocou na paciente.
Minto, tocou para lhe dar um beijo à saída, recomendando mais cuidado no cavalo: "Oh amorzinho, não te esqueças de por os pés nos PEDAIS".   

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

A MEIAS


Eu e a Susana começamos a namorar há, fez ontem, 18 anos. O namoro é adulto e já pode tirar a carta. Estatisticamente, já vai sendo uma idade generosa.
Como em todos os casos, a “criança” começa a gatinhar, tudo é novidade, tudo se desculpa e há apenas 2 necessidades a preencher, alimentação e mimo. Depois aprende-se a andar, à custa de joelhos esfolados, mas sopra-se e “Já passou!”. Crescendo, há que estudar e fazer trabalhos de casa, com o tempo aprende-se a saber “encaixar”.
É uma mutação: imaginem (imaginem, porque não é o caso!), o “ai o meu amor range os dentes a fazer óó…” evolui para “não faças barulho, deixa-me dormir” e, muito mais tarde, não se diz nada, porque a audição já não é o que era.
Mais que um património físico (a meias com o BPI!!!), há muita história comum. Em tudo que o aconteceu nestes 18 anos, de bestial e de besta, porque houve de tudo, estivemos lá os dois.
Ah pois, há coisas que se aprende cedo, como “sim-pode-querer-dizer-não”, ou quando se deve “fazer de morto”, por exemplo quando a namorada tem mau acordar e qualquer palavra (uma que seja!) até chegar à faculdade, pode gerar uma confusão. Graças a deus, este é uma das coisas que a Susana melhorou com a idade.
Bem, tenho que admitir que a Susana também teve que acomodar os meus, 2 ou 3, nanomicropequenos e médios defeitos...