Receita para um Trump tropical: barra-se a forma com ódio a Lula, envolve-se o sindicato de votos teológico de Emir Macedo com anabolizantes, junta-se uma pitada de soluções instantâneas para problemas complicados, coroe-se com uma cartucheira e leve-se às redes sociais. Já está.
"Para certos republicanos a República tem sido um pé de cabra com que vêem aumentando os seus haveres." Senador João de Freitas, histórico republicano, in Boletim parlamentar do Senado, 11-06-1913
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sábado, 13 de outubro de 2018
sexta-feira, 5 de dezembro de 2014
VERDADE VERDADINHA
'QUEM NÃO ESTÁ NA MESA, ESTÁ NO MENU.'
Alfredo Valladão, professor da Escola de Relações Internacionais de Paris, dissertava sobre os BRIC na 1ª Conferência de Lisboa (Fundação Gulbenkian, 3.12.2014), mas a sua frase é tão abrangente quanto intemporal.
quarta-feira, 5 de novembro de 2014
A FAMÍLIA ESTÁ PRIMEIRO
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| presidenciais 2012 |
1. Ministro das finanças: Carlos Lopes, marido da irmã da primeira-dama Ana Paula dos Santos.
2. Ministro do Ensino Superior, Adão do Nascimento, sobrinho do presidente José Eduardo dos Santos.
3. Vice-presidente da República, Manuel Vicente, enteado da falecida irmã do presidente.
4. Secretário de Estado da Habitação, Joaquim Silvestre, irmão da primeira-dama.
5. Secretária do Presidente para Assuntos Particulares, Avelina Dos Santos, sobrinha do Presidente, filha do seu irmão Avelino Dos Santos.
6. Administrador do Fundo Soberano, Zenu dos Santos, filho do presidente.
7. Secretário-geral da casa militar, Catarino Dos Santos, sobrinho do presidente, filho do seu irmão Avelino dos Santos.
8. PCA da EPAL, Leonildo Ceita, primo da primeira-dama.
9. PCA da ENANA, Manuel Ceita, primo da primeira-dama.
10. PCA do Banco de Comercio e Industria (BCI), Filomeno Ceita, primo da primeira-dama.
11. Director do Instituto Nacional de Estatística, Camilo Ceita, primo da primeira- dama.
12. PCA da MECANAGRO e da GESTERRA, presidente da Federação Angolana de Hóquei em patins, Carlos Alberto Jaime Calabeto, sobrinho/primo do presidente.
13. Governador do BNA, José Massano, amigo pessoal e ex-colega de Isabel Dos Santos, filha do presidente.
14. Vice-governador do BNA, Ricardo De Abreu, compadre e amigo pessoal de Isabel Dos Santos, filha do presidente.
15. Ministra de Comercio, Rosa Pacavira, sobrinha da esposa de Avelino Dos Santos, irmão do presidente.
16. Administrador da TAAG, Luís Dos Santos, irmão do presidente.
17. PCA da ANIP, Maria Emília Abrantes Milucha, mãe da Tchize e Zé Dú dos Santos (Korean Dú), filhos do presidente.
18. TPA 2 entregue à Semba comunicações, empresa de Tchize e Corean Dú, filhos do presidente.
19. PCA da Sonangol, José Francisco de Lemos, primo da primeira-dama.
Falta aqui Isabel Dos Santos, a filha do presidente. Considerada pela Forbes a 1ª bilionária de África (a revista afirma que a fortuna de mais de 3000Md. 'vem de ficar com uma parte de empresas que querem estabelecer-se em Angola ou da providencial assinatura do pai numa lei ou decreto'), a empresária abriu em 1997 o seu primeiro negócio, o luandense Miami Beach Club, e daí expandiu a actividade ao petróleo, exploração mineira (diamantes), hotelaria, comunicações, retalho e cimentos. Em 2013, afirmou ao Financial Times 'Tive sentido para os negócios desde muito nova'. A maioria do dinheiro está aplicada no estrangeiro, incluindo Portugal, onde Isabel é acionista da PT, Zon, BPI, BIC GALP.
* informação recolhida no FB
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| presidenciais 2012 |
quarta-feira, 23 de julho de 2014
COME E CALA

...ou um dia negro, uma diplomacia cinzenta, uma via verde e dinheiro branqueado.
Teodoro Obiang Nguema
Mbasogo,
uma espécie de soba moderno considerado por alguns pior ditador que Robert
Mugabe (bom exemplo, o ‘dono’ do Zimbabué foi suspenso da Commonwealth em 2002 e resolveu sair no ano seguinte), depôs o tio genocida em 1979, condenou-o há
morte e prometeu acabar com anteriores práticas repressivas.
O 8º governante mais rico do mundo manda na Guiné
Equatorial (GE) há 35 anos, com uma mão de ferro (é acusado de mortes ilegais
por parte das forças de segurança, sequestros sancionados pelo Governo, tortura
sistemática de presos, detenções arbitrárias e impunidade), mas muito ágil – em
2003, para evitar a corrupção por funcionários públicos, tomou conta do erário
e ‘guardou’ meio bilião de dólares em contas suas e da família. A propósito, são ministros o irmão e um filho de Obiang, e o vice-presidente da GE é o seu primogénito, que acumula com embaixador na UNESCO, um estatuto afortunado – a imunidade impede a sua detenção em França e nos EUA, por suspeitas de desvio de fundos e branqueamento de capitais. Pode assim passear pelas mansões ultraluxuosas espalhadas pelo mundo – os seus haveres incluem uma casa de 6 andares na Avenue Foch, outra em S. Petersburgo (com 2 Bugatti) e outra ainda em Malibu (com 1400 m2 e 36 carros, incluindo 7 Ferrari, 5 Bentley, 4 Rolls Royce e 2 Maybach) e a luva de diamantes de Michael Jackson.
80% dos 800.000 guineenses estão no limiar da pobreza, com um rendimento médio diário de 1 dólar. Mas a GE, graças ao caldeirão de petróleo onde assenta, tem uma riqueza per capita igual à do Reino Unido.
Dito isto, hoje é um dia glorioso para a diplomacia internacional, a Guiné Equatorial tornou-se membro de pleno direito da Comunidade de Países de Língua Portuguesa. As questões são muitas.
Foi à primeira? Não. Portugal torceu diplomaticamente o nariz à
entrada da GE para membro da CPLP, em 2010 e 2012, porque o país não fala
português e tem uma visão peculiar sobre democracia e direitos humanos. À terceira
foi de vez, porque, explicou ontem Passos Coelho, ‘Seria, penso eu, muito
negativo que Portugal permanecesse de forma resiliente opondo-se a esse
alargamento. Creio que isso conduziria Portugal a um isolamento no seio da
Comunidade de Língua Portuguesa que não é aquilo que Portugal deseja com
certeza (…) Uma vez que foram avaliadas, as instituições e os estados não podem
ter duas palavras, não podem estabelecer um conjunto de condições um dia e
depois passado um ano ou dois virem a definir outras condições.’ Trocado por
miúdos, não valia a pena fazer finca-pé, e a GE até fez progressos no que estava
comprometida.
Fez mesmo? Obiang não proibiu a pena de morte, apenas decretou uma
moratória, e declarou em 2011 o português a 3ª língua oficial (a seguir ao espanhol - a GE foi a única colónia africana de Espanha, cedida por nós em 1778 - e
ao francês, que também não é falado), num país onde essa língua é, e continuará a ser, falada apenas pelos 500 portugueses
que lá vivem - aliás, o anúncio da entrada na CPLP, no site oficial da GE, é feito em inglês, francês e espanhol, o que é simplesmente 'cuspir no prato'. Quanto à democracia, os partidos são legais no país, mas as
eleições são consideradas fraudulentas pelos observadores internacionais e só 1
dos 100 deputados não é do partido de Obiang, que tem repetido os mandatos de
presidente (o último iniciado em 2009) sempre com votações superiores a 97% - em
2002, teve mesmo 103% num círculo eleitoral.Quem mais intercedeu pela entrada da GE? Os 2 países que mandam efectivamente na CPLP, Brasil e Angola. Curiosamente, as assinaturas dos seus chefes de Estado são as únicas a faltar, JES e Dilma não apareceram em Timor - curiosamente, O caso em que Portugal batalhou contra a realpolitik -, apesar da data ter sido adiada por causa da Presidenta (menos entusiasta que Lula no ingresso da GE).
Qual o interesse de aceitar um Estado-pária? Para o próprio,
respeitabilidade, e países-irmãos onde ‘caiar’ o capital acumulado; para os outros
membros, a GE tem muito dinheiro para pagar a jóia de entrada (ex., 100M€ no BANIF) e ter garrafa no clube,
e negócios para oferecer – com cautela e caldos de galinha (um empresário
italiano fez uma sociedade com os Obiang e foi preso e torturado depois de
reclamar que o dinheiro desaparecera).
Há outro argumento mais altruísta, Cavaco Silva afirmou que o acolhimento da GE 'é a melhor forma de contribuir para a melhoria do respeito pelos direitos humanos naquele país e para a constituição de instituições verdadeiramente democráticas', salientando com o exemplo da Coreia do Norte, que 'o isolacionismo nunca conduziu à democracia e ao respeito pelos direitos humanos'. E o colaboracionismo?, perguntarão os cépticos.
Há outro argumento mais altruísta, Cavaco Silva afirmou que o acolhimento da GE 'é a melhor forma de contribuir para a melhoria do respeito pelos direitos humanos naquele país e para a constituição de instituições verdadeiramente democráticas', salientando com o exemplo da Coreia do Norte, que 'o isolacionismo nunca conduziu à democracia e ao respeito pelos direitos humanos'. E o colaboracionismo?, perguntarão os cépticos.
A CPLP tem algum interesse para quem não fala português? Foram
admitidos hoje como observadores associados à Namíbia, Turquia, Geórgia e
Japão, que se juntam ao Senegal e à Ilha Maurícia.
Os outros membros da CPLP são irrepreensíveis? A Guiné-Bissau é
tida como um narco-Estado, onde os golpes de Estado se sucedem, e Angola tem um
presidente eterno, cuja família e amigos acumulam a riqueza do país.
Portugal é exigente nas relações externas? Não, deu-se bem com Chavez e com Kadhafi, e é 'amigo' de Estados onde existe pena de morte, os EUA e China - com os padrões da europa, só a europa. E, como disse um ex-MNE, na política externa, os interesses estão acima da moral.
Portugal é exigente nas relações externas? Não, deu-se bem com Chavez e com Kadhafi, e é 'amigo' de Estados onde existe pena de morte, os EUA e China - com os padrões da europa, só a europa. E, como disse um ex-MNE, na política externa, os interesses estão acima da moral.
Em jeito de conclusão destas P&R, poder-se-ia parafrasear Clinton, é a
geoeconomia, estúpido.
p.s.: proposta peregrina,
alguns membros querem uma espécie de espaço Schengen para as elites económicas
da CPLP, uma espécie de via verde de capitais. Desta, Portugal pode escapar,
alegando normas da UE
sábado, 16 de novembro de 2013
UM REGIME MADURO
Existem uns cogumelos fantásticos em Caracas.
Nicolás Maduro viu Hugo Chávez no metro (o falecido já havia encarnado num passarinho e falado com ele), criou o vice-ministério da suprema felicidade social, decretou o Natal a 1 de novembro, e ordenou o saque de lojas, perdão, a venda de electrodomésticos a 'preços justos'.
Ontem, o parlamento venezuelano concedeu-lhe, por 1 ano, o direito a legislar por decreto. 'Pera aí, isso é a definição de ditadura, não é?
Nicolás Maduro viu Hugo Chávez no metro (o falecido já havia encarnado num passarinho e falado com ele), criou o vice-ministério da suprema felicidade social, decretou o Natal a 1 de novembro, e ordenou o saque de lojas, perdão, a venda de electrodomésticos a 'preços justos'.
Ontem, o parlamento venezuelano concedeu-lhe, por 1 ano, o direito a legislar por decreto. 'Pera aí, isso é a definição de ditadura, não é?
domingo, 14 de outubro de 2012
ÓDIO AOS COLONOS?
PROVÍNCIA DO UÍGE, AOS 5 DE JULHO DE 1976
Exmª Prezada Senhora:
Saudações e votos que desejo a minha Senhora.
Esta carta quer que vá te encontrar de uma ampla saúde
juntamente a família de casa.
Eu cá seu cozinheiro de nome Augusto Sertão
estou de saúde graças a Deus. Sobre a sua carta que me
envias-te recebí amávelmente a qual respondo-a, e re-
cebí a quantia de escudos que me envias-te a quantia de
150$00 (cento e cinquenta escudos) e a qual fiquei mui-
to grato.
Enviu muitos cumprimentos a família de casa o
seu marido as crianças e os outros que te rodeiam em
comum.
Termino aqui eu seu cozinheiro não tenho muito
que rogar somente saudações.
Subscreve o íntimo cozinheiro
Augusto Sertão
2 abraços fortes que o enviu.
Daqui é tudo ( Chau chau chau )
.
sábado, 17 de setembro de 2011
ACHTUNG! IDENTIFIQUE-SE
AS BANDEIRAS DOS PAÍSES
PECADORES DA DÍVIDA
PODERIAM SER COLOCADAS
A MEIA-HASTE
NOS EDIFÍCIOS DA UNIÃO EUROPEIA.
Gunther Oettinger, alemão Comissário Europeu da Energia
Bild, 9/9/2011
E que tal passarmos a usar uma braçadeira???
"somente para judeus", Áustria 1938
Keystone/Hulton Archive/Getty Images
gueto de Kovno, Lituânia 1944
United States Holocaust Memorial Museum
judenrat, conselho judaico
Os judeus eram obrigados a usar em público a estrela de David, numa braçadeira ou presa na roupa.
Nos campos de concentração, triângulos identificavam os presos: amarelo para judeus, vermelhos para presos políticos, roxo para objectores de consciência como testemunhas de Jeová, rosa para homossexuais, verde para criminosos, castanho para ciganos, preto para lésbicas e mulheres "anti-sociais" (como grevistas e feministas...), azul para emigrantes. As letras geralmente indicavam a raça ou nacionalidade. (avidanofront.blogspot)
ilustração de livro infantil, Alemanha 1936
títulos "os judeus são a causa do nosso infortúnio" e "como o judeu trapaceia"
United States Holocaust Memorial Museum
livro infantil "o cogumelo venenoso"
United States Holocaust Memorial Museum
segunda-feira, 31 de janeiro de 2011
CAI O NARIZ À ESFINGE?
Anda para aí um rebuliço das arábias.
No Líbano não é de agora, anda há décadas no fio da navalha, com o poder partilhado por cristãos maronitas, sunitas e xiitas (dividindo respectivamente os cargos de presidente, 1º ministro e porta-voz do parlamento), um ascendente sírio e a incómoda vizinhança israelita. Agora foi corrido o PM Saad Hariri, que se recusou a renegar a investigação dum tribunal internacional sobre o assassinato do seu pai há 5 anos (era então PM), que aponta para a mão do Hezbollah. Este, apoiado pela Síria e pelo Irão, roeu a corda, saindo da coligação governamental e promovendo outro PM.
Depois foi a Tunísia, com a sua revolução do Jasmim: ditador há 24 anos, Ben Ali fugiu à pressa e viu-se grego para arranjar poiso - a França (ex-colonizadora) negou-lhe asilo, dias depois de tentar segurá-lo no poder. Motivos directos: a revelação pela wikileaks dum poder corrupto e a auto-imolação dum jovem comerciante, a quem foram confiscadas as mercadorias. Razão: um povo muito jovem (e são os jovens que se rebelam), parte dele com formação, sem esperança de emprego - que quer pão e, já agora, liberdade.
Provou-se como é mais fácil do que parece derrubar regimes autocráticos e aparentemente sólidos, quando o povo se junta e não cede: foi assim no bloco de leste, é agora no norte de África. Ainda foi nomeado novo governo, mas o povo recusou-o, porque incluia ex-ministros de Ben Ali. E o partido islamista Ennahdah, que teve (via independentes) 17% de votos na última eleição meia-livre, em 1989, pode chegar agora ao poder.
Os egípcios viram e gostaram, também quiseram. E foram para a rua, e tornearam a desactivação dos telemóveis, do twitter e do facebook, e morreram (125 até hoje), e desobedeceram aos recolheres obrigatórios, e reclamam, e não querem que o poder passe dinasticamente para Mubarak junior, como estaria previsto.
O octagenário pai, no poder desde 1981, demorou a reagir (o que pode ter sido fatal!), demitiu o governo, prometeu reformas e nomeou um vice-presidente (o chefe dos serviços secretos), mas já não chega. El Baradei, nobel da Paz pelo seu serviço na agência atómica, é o rosto da oposição, mas ora está em prisão domiciliária, ora está em parte "incerta". A UE pede eleições livres, Obama fala grosso e exige ao telefone mudanças sociais e políticas.
Ironia: o país é governado pelo Partido Democrático Nacional, que nada tem de democrático, e quem luta pelos direitos civis é a Irmandade Muçulmana (dando apoio social à população, como o terrorista Hamas na palestina). Cameron expressou o receio que o maior país muçulmano do mundo se torne num novo Irão: pede apenas "um pouco mais de democracia".
Hoje há uma prova de fogo, com a promessa dum milhão de manifestantes no Cairo. O exército promete não abrir fogo e diz compreender os protestos "legítimos" - prepara-se para apear o ditador, mas manter o poder?
Semelhanças entre a Tunísia e o Egipto: regimes autoritários aceites como interlocutores pelo Ocidente, que reagiram à sublevação popular com o bloqueio da internet e dos telemóveis - sem sucesso, pois as manifs também se combinam com telefones fixos - e correm o risco de ser substituídos por governos de cariz religioso, o que não augura nada de bom - a Deus o que é de Deus, a César o que é de César.
Diferenças: o regime tunisino era mais civilista (e o exército confraternizou com o povo, como na revoulção dos cravos), enquanto no Egipto é o exército que manda. Não cai sem dar luta, ou pode não cair, como o Irão, que vacilou há 1 ano.
No Iémen, também Saleh (no poder há 32 anos) se confronta com um levantamento popular, com cheiro a jasmim e com o povo secundado pela Irmandade Muçulmana (parece uma holding...). Mas pouco se fala, o país é mais pequeno e fica mais longe.
Ah, a Jordânia e a Argélia também foram "perfumadas".
domingo, 19 de dezembro de 2010
KISSINGER E A PORTEIRA

O José António saraiva tinha uma crónica no Expresso em que acertava sempre, porque fazia um prognóstico e o seu contrário: fulano vai ganhar, mas também vai perder, sicrano está certo, mas também está errado, a decisão é boa, mas faz mal...
É assim que eu vejo o WikiLeaks.
É perigoso e errado publicitar quais os lugares considerados mais sensíveis para a segurança dos Estados, dirigindo-lhes os holofotes. Assim como é mais próprio de alcoviteira a divulgação de considerandos sobre a vida privada ou do carácter de políticos - que interessa o gosto do Berlusconi por boas companhias? Há ainda que ter em conta que algumas das informações podem não ser verídicas, é suposto 'checá-las' – e alguns jornais conseguiram provar a impossibilidade de algumas delas estarem correctas.
Mas há o outro prisma: confirma-se que a diplomacia (no caso, americana) também se faz com o “diz-que-disse” e conversas de alcova, que a linguagem é pouco polida - o candidato do BE/PS é chamado de Alegressaurius - e que a análise é tão profunda como a dum treinador de sofá, pois o retrato que chega a Washington é bem desfocado: desde quando é que Portas é um líder altamente respeitado (tirando os seus eleitores)?
Confirma-se ainda que a realpolitik de Henry Kissinger está vivinha da silva: já não se apadrinham golpes de estado (?), mas seguram-se regimes corruptos e autoritários em troca de negócios ou apoio logístico-militar. Um exemplo apenas: a embaixada no Usbequistão afirma que a família do presidente é fulcral no crime organizado da Ásia central, mas a prioridade é manter a aliança, pois o país é usado como plataforma logística na guerra do Afeganistão. Outro Noriega, décadas depois.
sábado, 16 de janeiro de 2010
VAI PARA A TUA TERRA

Acabei de ler a entrevista do grande Mário Crespo, um conservador heterodoxo como eu não me importava de ser.
Gostei particularmente da parte onde relata a saída intempestiva do Ultramar e do seu “ainda hoje não gosto de bagunça”.
Identifiquei-me com a sua história, existe uma espécie de espírito de grupo.
Sou o que se chama um retornado.
Em miúdo ouvi muitas histórias de gente, como os meus pais (nativos de Angola) e avós, que tiveram que desarmar a tenda de repente: olha, pega na trouxa e desaparece. Deixas o emprego e a casa (com sorte, levas o recheio e o carro) e vai-te embora! Chegas a Lisboa, arranjam-te uma pensão e vais para a bicha da roupa e dos cobertores dados por uma coisa chamada IARN (instituto de apoio ao regresso de nacionais*). Ah, o dinheiro que levares não vale nada**!
Com pena minha, esqueci as histórias quase todas (lembro que o meu pai recusou um Alfa que um gajo com um stand ofereceu, não o conseguia trazer) e gosto de ler relatos como o desta entrevista.
Gostei particularmente da parte onde relata a saída intempestiva do Ultramar e do seu “ainda hoje não gosto de bagunça”.
Identifiquei-me com a sua história, existe uma espécie de espírito de grupo.
Sou o que se chama um retornado.
Em miúdo ouvi muitas histórias de gente, como os meus pais (nativos de Angola) e avós, que tiveram que desarmar a tenda de repente: olha, pega na trouxa e desaparece. Deixas o emprego e a casa (com sorte, levas o recheio e o carro) e vai-te embora! Chegas a Lisboa, arranjam-te uma pensão e vais para a bicha da roupa e dos cobertores dados por uma coisa chamada IARN (instituto de apoio ao regresso de nacionais*). Ah, o dinheiro que levares não vale nada**!
Com pena minha, esqueci as histórias quase todas (lembro que o meu pai recusou um Alfa que um gajo com um stand ofereceu, não o conseguia trazer) e gosto de ler relatos como o desta entrevista.
Imaginam meio milhão de pessoas em migração/exílio – uma debandada, quando não uma fuga – expulsas da terra onde nasceram e mandadas para outro “clima” (em todos os sentidos), para uma terra que mal - ou sequer – conheciam? Esses não foram recambiados para a “metrópole”, porque nunca lá tinham estado.
A integração até foi bem sucedida e todos refizeram a vida, mas fica nuns a saudade, noutros um sentido de injustiça pelo corte quase epistemológico nas suas vidas - que eram boas, as pessoas eram felizes.
A maioria acha que a descolonização foi apressada e sem aviso, o poder vigente – marcadamente ideológico – não cumpriu o que prometeu à maralha e não acautelou o processo de passagem de poder. Mais, não só depôs armas, como ainda apoiou movimentos de libertação em detrimento de outros. Houve um sentido de abandono.
Tudo isso burilado explica o asco da maioria deles por Mário Soares, julgo que então ministro dos negócios estrangeiros, a quem se atribuem responsabilidades.
E explica que o CDS tenha subido dos 7 para uns míticos 16% em 76. Como bom chefe-de-família, o meu pai disse à minha mãe "tú vais votar neste", motivo suficiente para ela se tornar eleitora do PSD...
A integração até foi bem sucedida e todos refizeram a vida, mas fica nuns a saudade, noutros um sentido de injustiça pelo corte quase epistemológico nas suas vidas - que eram boas, as pessoas eram felizes.
A maioria acha que a descolonização foi apressada e sem aviso, o poder vigente – marcadamente ideológico – não cumpriu o que prometeu à maralha e não acautelou o processo de passagem de poder. Mais, não só depôs armas, como ainda apoiou movimentos de libertação em detrimento de outros. Houve um sentido de abandono.
Tudo isso burilado explica o asco da maioria deles por Mário Soares, julgo que então ministro dos negócios estrangeiros, a quem se atribuem responsabilidades.
E explica que o CDS tenha subido dos 7 para uns míticos 16% em 76. Como bom chefe-de-família, o meu pai disse à minha mãe "tú vais votar neste", motivo suficiente para ela se tornar eleitora do PSD...
Acontece ainda que os retornados era muita gente (por defeito, 6% da população nacional e 11% em Bragança), com camaradagem e iniciativa, mais desempoeirada - porque mais longe da saia de Salazar - e nem sempre foi bem recebida pelos portugueses de primeira, que ou os achavam exploradores de pretos, ou achavam que vinham partilhar o bolo.
Vim de lá com quase 4 anos, não me lembro de nada e, por isso, não tenho nostalgias. Essa parte da história familiar raramente me ocupa a cabeça.
Sempre que o faço, lembro-me dum "caro colega" (termo algo usado na minha classe profissional) que, na brincadeira, nos chamava portugueses de segunda.
Não levava a mal. Não tenho qualquer ressentimento ou vergonha, apenas muito respeito por quem, com a minha idade, teve que começar tudo de novo, assim-num-repente. É coisa que me ia custar...
Como disse uma vez Marques Leandro (ex-secretário de Estado), essa gente substituiu o estigma de retornado em título de que muito se orgulham.
Não posso acabar sem declarar que eu sou a favor das independências dos “países-irmãos”. Sem hesitação alguma.
* Com Director, subdirector e 3 vogais e um conselho consultivo com uns 10 vogais. Agora a graça é que não eram pagos - eram outros tempos, onde é que isso se via agora?
** Lembro-me dum molho de notas angolanas, que ainda existe algures guardado. Simplesmente, dum dia para o outro, perderam o valor comercial.
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