...e depois, com bigodes de leite, pedem mais paciência e esforço ao povo, que a "vaca 'tá seca".
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sábado, 23 de maio de 2015

MAO COMO AS COBRAS


'Mao A História Desconhecida' é talvez, pela sua dimensão e anos de aturada pesquisa, a obra da vida de Jung Chang e do seu marido Jon Halliday. Objectivo, desconstruir o grande embuste que Mao criou sobre si próprio, e que contagiou tanta gente por essa Europa fora, na década de sessenta: o mito sobre o 'poder popular', a aliança entre os camponeses e operários para a tomada do poder, a sintonia entre o partido e as aspirações do povo.
Mao afinal era outro, e só não era um ditador como os outros, porque era um ditador pior que os outros, fazendo do seu Mestre Estaline, como bajuladoramente o tratava, um menino de coro.

Sobressai da biografia o Terror sobre todos, desde o seu politburo (que foi variando) até à base da pirâmide social - que manteve, bastante achatada, já que a igualdade era apenas discursiva.
Todos sabiam que, numa penada, podiam ser acusados de proprietário rural, anti-bolchevique, espião, contra-revolucionário, direitista ou conspirador. Além das delações e autocríticas obrigatórias (e não és leal de não tiveres nada a contar...), arranjar provas não era complicado, a tortura era formalmente recomendada e os detidos eram como as cerejas, uns traziam outros. Um kafkiano Mao justificou o método: caso as vítimas fossem incapazes de aguentar a tortura e faziam confissões falsas, isso provava que eram culpadas, pois 'como é possível que revolucionários leais façam confissões falsas para incriminar outros camaradas?'
Claro está, as condenações eram públicas, para hipertrofiar a humilhação do condenado e para avisar a plateia, atenção!, podes ser tu o próximo. Recorrer da decisão era uma possibilidade legal, mas uma impossibilidade prática - sendo a dúvida sobre o 'discernimento' do partido uma ofensa, o resultado seria o agravamento da pena.
Aliás, as purgas metódicas (e os líderes locais que não eliminassem uma certa percentagem pré-determinada de pessoas seriam eles próprios punidos por deslealdade) começaram bem antes de Mao conquistar a China e atingiam os seus próximos - Mao confessou que, na década de 40, não esmagara só 80%do partido, 'foram de facto 100% e através da força'.
Obviamente, a rotação no topo do partido era estonteante, sendo saneados todos os companheiros com opiniões próprias ou (na cabeça de Mao) com ambições pessoais - ora eliminados de forma definitiva, ora repescados após a submissão completa e enquanto essa acefalia se mantivesse, sujeitos a regulares humilhações e ameaças.
Outros métodos de Mao para eternizar-se no poder são inespecíficos: sofrendo vários revezes na sua escalada, através de votação dos seus pares, Mao rotulou o voto de 'ultrademocracia' e aboliu essa prática, logo que pode; nada podia escapar ao seu radar, desconfiava de todos e só a sua palavra contava, chegando a escrever ao seu n.º 2 da época, que pensava estar excessivamente autónomo, 'Todos os documentos só podem ser emitidos depois de eu os ter visto. Caso contrário, são inválidos. Tem cuidado'*.

Sobre o líder militar, o livro é elucidativo: Mao nunca esteve na frente da batalha, fugia ao combate, tomava medidas erráticas e suicidas - milhares de soldados foram premeditadamente enviados para a morte, para Mao descartar potenciais concorrentes.
Quanto à empatia com o povo, é lapidar a frase do grande líder, a lembrar Maria Antonieta: 'Só têm folhas de árvores para comer? Então que seja' (na guerra civil, recomendou que os seus soldados esfomeados estacionados na Manchúria que se alimentassem de girinos!). Mao foi indiferente às dezenas de milhões de chineses que morreram** de fome, a quem foi confiscou quase todo o cereal, óleo ou carne de porco... para doações (a países mais ricos, como a Hungria ou a Albânia), exportação ou compra de armas.
Enquanto Mao queria quase todo o cereal , dizendo que o povo não ficava 'sem comida durante todo o ano - apenas 6... ou 4 meses', altos funcionários pediram-lhe mais vagar no esbulho alimentar, invocando a consciência. Mao respondeu 'É melhor que tenham menos consciência. Alguns dos nossos camaradas têm demasiada misericórdia, não têm brutalidade suficiente, o que significa que não são tão marxistas (...) Nesta questão, não temos na verdade! O marxismo é brutal a esse ponto.' Uma maldade à altura de Vlad, o empalador, não?
Mao queria o cereal para comprar armas e estimou quanto dava para ir 'às compras' - vai daí, mandou triplicar a produção. Fazia os orçamentos assim, não percebia absolutamente nada de economia (como reparou o conselheiro-mor russo) e queixava-se que os relatórios dos ministérios tinham 'apenas listas e números monótonos, e nenhuma história.' Risível, não fossem as consequências graves dessa ignorância...
Não será surpresa num ditador, Mao não gostava de socializar de perto com as massas, e foi desde o começo paranoico com a sua segurança e o pavor de ser assassinado.
Nem a imagem do desapego ao luxo era verdadeiro: Mao usava sapatos velhos porque eram confortáveis (mandava os guarda-costas usarem o calçado novo, para moldá-los), gostava de almofadas usadas (mas os remendos feitos em Xangai eram mais caros que comprar novas); só comia peixe fresco, mandando vir peixes vivos em caixas oxigenadas, pescados a centenas de quilómetros de distância; 'sugeria' visitas a algumas regiões, obrigando à construção de mansões adequadas, mas depois mudava de ideias e, algumas, nunca chegou a estrear; via filmes estrangeiros e lia muitos livros, mas acusou todas as formas de arte - óperas, teatro, artes populares, música, pintura, escultura, dança, cinema, poesia e literatura - de serem 'feudais ou capitalistas, e decidiu acabar com elas, pois o povo devia ser ignorante e era precisa a política de 'manter as pessoas estúpidas'. Para tratar do assunto, Mao começou por acicatar a violência civil ('Pequim não está suficientemente caótica...', queixou-se), pelos adolescentes Guardas Vermelhos, contra professores, artistas e intelectuais - o embrião da Revolução Cultural.
E que dizer dum homem que abandona, obrigando as mulheres a fazer o mesmo, vários filhos recém-nascidos, não querendo saber mais deles?
O livro é bem fundamentado, bem escrito e bem traduzido. Se este cheirinho não convenceu os apreciadores de história e lê-lo, a culpa é minha.

* Faz lembrar o absolutista Luís XVI, que disse aos seus ministros ´Peço e exijo que nenhuma norma seja aprovada a não ser por minha ordem'. 
** À pala das purgas, da fome (cujo pico resultou da política do 'grande salto em frente', com 22M de mortos só em 1960) e dos campos de trabalho durante a Revolução Cultural, estima-se que foram mortos 70 milhões de chineses. Nada de inquietante para Mao, como provam algumas tiradas: 'As mortes têm benefícios, podem fertilizar os solos', 'Trabalhando desta forma, metade da China pode muito bem ter que morrer', 'Não se inquietem tanto com uma guerra mundial, no máximo, morrem pessoas' ou '[um eventual ataque nuclear à China] é apenas uma grande pilha de pessoas a morrer'.
 

sábado, 25 de abril de 2015

PARABÉNS POR MAIS UM ANINHO



EU GOSTO DA DEMOCRACIA.
EU GOSTO DE VOTAR.
EU GOSTO DESSE CONCEITO,
O DIREITO DE TODOS,
MESMO TODOS E DE FORMA IGUAL,
PODERMOS PARTICIPAR NA DECISÃO.
HÁ MUITOS MAS E NEM SEMPRE É ASSIM,
DIRÃO (CERTAMENTE) OS CÍNICOS,
MAS O QUE É HOJE ELEMENTAR, 
FALTOU AQUI 'HÁ ATRASADO',
COMO SE DIZ POR ESTAS BANDAS.

Ass: cidadão de gosta
que lhe peçam a opinião

domingo, 19 de abril de 2015

UM CIGARRO E UMA SANGRIA, NÃO SABES O BEM QUE TE FAZIA

 
Damião de Góis testemunhou acerca das virtudes curativas do tabaco, na Crónica do Felicíssimo Rei D. Manuel (1566-1567), 'de cuja virtude poderia aqui por coisas milagrosas de que eu vi a experiência, principalmente em casos desesperados, de apostemas, úlceras, fístulas, caranguejas, pólipos, frenesins e outros muitos casos'.
O médico Zacuto Lusitano, em obra póstuma de 1657, entendeu que o tabaco curava casos de alopécia e de epilepsia. António Cruz, cirurgião do Hospital Real de Todos os Santos, Morato Roma, frei Manuel de Azevedo e João Curvo Semedo defenderam o seu uso para curar maleitas desde feridas, chagas e mordeduras a 'acidentes uterinos'. Pelo menos a partir de 1767, o tabaco passou a integrar os gastos despendidos com um doente mental internado no Hospital da Misericórdia de Évora.
Visão História, Abril 2015

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

A MALDIÇÃO DOS PRIMOGÉNITOS


D. Pedro V previa morrer cedo, porque tinha escapado à maldição dos Braganças: o 11º monarca da 4ª dinastia foi o primeiro varão primogénito a chegar ao trono.
De facto, Pedro morreu (já viúvo) aos 24 anos, e dos 3 sucessores, só um primogénito chegou a rei - Carlos -, o único monarca lusitano a ser, oficialmente, assassinado por um súbdito.

A saber:
Primogénito de João IV (8 filhos), Teodósio morreu com 19 anos; subiram ao trono Afonso VI (6º filho, 3º varão) e o irmão Pedro II (7º filho, 4º varão).
Varão primogénito de Pedro II (11 filhos), João morreu aos 18 dias; subiu ao trono João V (3º filho, 2º varão).
Varão primogénito de João V (11 filhos), Pedro morreu com 2 anos; subiu ao trono José I (3º filho, 2º varão), que teve 4 filhas, sendo a primogénita Maria I.
Varão primogénito de Maria I (7 filhos), José morreu aos 17 anos; dado o desaparecimento de João (nado-morto) e João Francisco (morreu com 24 dias), subiu ao trono João VI (4º filho, 4º varão).
Varão primogénito de João VI (9 filhos), Francisco morreu aos 6 anos; subiram ao trono os outros 2 varões, Pedro IV (4º filho) e Miguel I (7º filho).
Pedro IV (14 filhos) guardou o 1º varão para o trono brasileiro e passou o trono à sua primogénita Maria II, combinando o matrimónio da petiza com o seu irmão Miguel, para evitar uma guerra civil (não houve casório, houve guerra).
Dos 11 filhos de Maria II, foram reis os 2 mais velhos, Pedro V e Luís I.
Luís teve 2 filhos, varões, e passou o torno ao primogénito, Carlos.
Carlos foi assassinado com o seu primogénito, Luís Filipe, sendo sucedido por Manuel II, o último da dinastia reinante - e da linhagem, pois não deixou prole.
p.s.: recorda-se, João IV descende dum bastardo do rei João I (Afonso, 1º duque de Bragança) e era neto de Catarina, pretendente ao trono em 1580 (por ser neta por varonia de Manuel I, que não era filho de rei - o pai era o 5ª filho de D. Duarte e o avô-materno era o 4º filho de João I). 

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

REALMENTE


Nove soberanos europeus em Windsor, no funeral de Eduardo VII, 1910
 
Em pé, da esquerda para a direita: Haakon VII (Rei da Noruega), Ferdinand I (Czar da Bulgária), Manuel II (Rei de Portugal e dos Algarves), William II (Kaiser da Alemanha, Rei da Prússia), Geórgios I (Rei da Grécia) e Albert I (Rei da Bélgica)
Sentados, da esquerda para a direita: Alfonso XIII (Rei de Espanha), George V (Rei do Reino Unido e dos domínios britânicos, Imperador da Índia), Frederik VIII (Rei da Dinamarca)

Christian Frederik Karl Georg Valdemar Axel (Charlottenlund 1872-Oslo 1957),  Casa de Schleswig-Holstein-Sonderburg-Glücksburg

Ferdinand Maximilian Karl Leopold Maria of Saxe-Coburg and Ghota (Viena 1861-Coburg 1948), Casa de Saxe-Coburg-Ghota *

Manoel Maria Filipe Carlos Amélio Luís Miguel Rafael Gabriel Gonzaga Xavier Francisco de Assis Eugénio de Bragança Orleães Sabóia e Saxe-Coburgo-Gotha (Lisboa 1889-Londres 1932) **

Friedrich Wilhelm Viktor Albrecht von Preußen (Berlin 1859-Doorn Holanda 1941), Casa de Hohenzollern (primo direito de Eduardo VII)*

Christian Wilhelm Ferdinand Adolf Georg of Schleswig-Holstein-Sonderburg-Glücksburg (Copenhaga 1845-Salónica 1913), Casa de Oldenbug ***

Albert Léopold Clément Marie Meinrad (Bruxelas 1875-Marche-les-Dames BE 1934), Casa de Saxe-Coburg-Ghota (casa materna Hohenzollern-Sigmaringen)

Alfonso León Fernando María Jaime Isidro Pascual Antonio de Borbon y Habsburgo-Lorena (Madrid 1886-Roma 1941) **

George Frederick Ernest Albert (Londres 1865-Norfolk 1936), Casa de Saxe-Coburg-Ghota

Christian Frederik Vilhelm Carl (Copenhaga 1843-Hamburgo 1912), Casa de Schleswig-Holstein-Sonderburg-Glücksburg (tio-avô de Jorge V)
 
* abdicou ** deposto *** assassinado

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

SALAZAR, O GUARDADOR DE REBANHOS

A 19.3.1933, o povo referendou a nova constituição portuguesa. Com as suas especificidades: só votaram os 'chefes-de-família', as abstenções (487.364) contaram como votos a favor, entregar apenas o boletim com a pergunta 'aprova a constituição política da república portuguesa' valia como um sim (719.364 votos) e ser contra obrigava a escrever 'não' no papel (5.995).
Salazar admitira no ano anterior que “Embora o povo não esteja, na sua grande maioria, apto para votar em perfeita consciência o texto completo da Constituição, o seu voto tem um significado político que não é lícito desprezar: é um voto de confiança nos dirigentes.” 
Na véspera do plebiscito, o ditador proclamara "São escuros e temerosos os tempos que correm por todo o Universo. Por toda a parte terá de buscar-se a salvação na existência de Governos estáveis e fortes, que, livres do partidarismo e parlamentarismo desordenados, norteados pelas ideias superiores de justiça e de elevação patriótica, apoiados na consciência dos bons cidadãos e na disciplina e honra da força armada, exercem acção vigilante, vigorosa, profundamente reformadora (…) votai pelo futuro de Portugal”. Essa ameaça nós-ou-o-caos foi bem plasmada nos cartazes da campanha.
 
A Constituição de 1933 (rotulada no DN, 3 dias após o referendo, como “uma Constituição liberalíssima sob a égide da Santíssima Trindade”) mereceu o seguinte comentário de Fernando Pessoa:
“Mais valia publicar um decreto-lei que rezasse assim:
Artigo 1. António de Oliveira Salazar é Deus;
Artigo 2. Fica revogado tudo em contrário e nomeadamente a Bíblia. Ficava assim legalmente instituído o sistema que deveras nos governa, o autêntico Estado Novo - a Teocracia pessoal.”



terça-feira, 12 de agosto de 2014

JOÃO JOSÉ DE FREITAS


A frase que achei perfeita para ajaezar o título deste blogue - a rês pública (com acento circunflexo) - é de João José de Freitas.
Sabia que o advogado transmontano (Carrazeda de Ansiães 1873 - Entroncamento 1915) tinha sido um republicano dos 4 costados, participando na revolta portuense de 31 de Janeiro - sendo-lhe vedado por 2 vezes o acesso à docência pela sua posição política. Pelo seu soundbite, imaginava uma espécie de Catão, um estóico que norteava todas as suas acções pela moral e nobreza mais elevadas.
Resolvi saber um pouco mais sobre a personagem, e tive uma surpresa, o seu fim foi inflamado (como a sua vida), mas teve pouco de nobre.
Adepto da ditadura de Pimenta de Castro (apoiada pelo seu Partido Evolucionista e pela União Republicana, contra o Partido Democrata,  maioritário no parlamento), JJF ficou possesso com o resultado da revolta de 14.5.1915, que depôs o governo (levando, por arrasto, o presidente Arriaga), e mais ainda pela indigitação do novo chefe de governo, João Chagas, com quem estava desavindo, talvez desde que este demitira o seu irmão mais velho do cargo de governador civil de Bragança (curiosamente, ou não, JJF fora o antecessor do António Luís de Freitas).
Na madrugada de 17 de Maio, JJF entrou num comboio parado na Barquinha e descarregou 5 tiros em João Chagas (3 dos quais acertaram-lhe de raspão na cabeça, perdendo o olho direito). O então Senador foi dominado, alvejado com uma carabina por um GNR e demoradamente linchado pela multidão, com tiques de malvadez - consta que até lhe deram fel a beber.
Parece que a ética republicana era uma coisa talvez demasiado belicosa.  

sábado, 28 de junho de 2014

EFEITO BORBOLETA

 
Faz hoje 100 anos, às 10.45 da manhã, o servo-bósnio Gravilo Princip aproveitou a passagem do arquiduque Francisco Fernando Carlos Luís José Maria por Sarajevo e alvejou o herdeiro do império austro-húngaro, que incluía parte dos balcãs.
Passaria pela cabeça do nacionalista que a morte do sobrinho da princesa Sissi espoletaria uma série de eventos, e que depois de um mês certinho de beligerância diplomática (com a Áustria a responsabilizar a Sérvia pelo sucedido, com alguma razão), começava uma guerra que se espalharia da europa aos 5 continentes?
Imaginaria o rapaz de 19 anos que a sua pontaria levaria à morte de 10 milhões de civis e de 9 dos 70 milhões de militares mobilizados, pessoas que não tinham nada a ver com o assunto e nem sequer sabiam onde era a Bósnia: portugueses e espanhóis, brasileiros e costariquenhos, neozelandeses e australianos, indianos e rodesianos, japoneses...**
Faria ideia que, ao fim de 4 anos, a europa seria retalhada, com a implosão do império austro-húngaro (dividido em Áustria, Hungria, Checoslováquia, Jugoslávia - bingo para Princip! - e integração de territórios na Roménia e na restaurada Polónia), o ocaso do império otomano (ficou a Turquia, foi-se parte da arábia, a França abocanhou a Síria e o Líbano, o Reino Unido ficou com a tutela da Palestina  e do Iraque; a Albânia e o Kuwait já tinham 'partido' em 1913), o downsizing do império alemão (perdeu as colónias e de 13% do seu território para a França, Bélgica, Dinamarca, Checoslováquia, Polónia e Lituânia) e a mutilação do império russo (independência da Finlândia e dos estados bálticos, entrega de territórios à Roménia e à Polónia)?
Imaginaria ele que, em 1918, a Rússia fosse comunista (adeus Romanov) e a Alemanha, a Áustria, a Hungria republicanas (adeus Hohenzollern e Habsburgos), seguidas pela Turquia em 1922 (adeus sultão)?
Sonharia ele que a humilhação da Alemanha levaria a outra guerra (na verdade, o 2º round), 20 anos depois, e que depois dela a sua Jugoslávia estaria sujeita ao amplexo de Estaline? 
Soubesse Gravilo os 'danos colaterais' dos seus tiros, faria o mesmo?
E se o motorista de Francisco fosse por outra rua**, ou Princip apanhasse um resfriado e ficasse nesse dia em casa, a caldos de galinha?
E se tivesse fraca pontaria?
 
* de um lado, a Alemanha, a Áustria-Hungria, a Bulgária e o império otomano, do outro o império britânico, a França,  a Bélgica, a Sérvia e a Roménia, a Rússia, a Itália (inicialmente na Tríplice Aliança), a Grécia, Portugal, os E.U.A., o Japão e o Brasil.
** quase um acaso: o arquiduque e a mulher escaparam nessa manhã a outro atentado com uma granada, resolveram visitar as vítimas no hospital e, depois, perderam-se a caminho do hospital, passando na rua onde estava Princip.  
 
 

sábado, 17 de maio de 2014

EICHMANN EM JERUSALÉM


'O problema, no caso de Eichmann, era que havia muitos como ele, e que estes muitos não eram perversos nem sádicos, pois eram, e ainda são, terrivelmente normais, assustadoramente normais. Do ponto de vista das nossas instituições e dos nossos valores morais, esta normalidade é muito mais aterradora do que todas as atrocidades juntas, pois ela implica (como foi dito inúmeras vezes em Nuremberga pelos réus e pelos seus advogados) que este novo tipo de criminoso, sendo, na realidade, um hostis humani generis, comete os seus crimes em circunstâncias tais que lhe tornam impossível saber ou sentir que está a agir erradamente.' A.H.
 


Eichmann em Jerusalém, sobre o nazi raptado em Buenos Aires e julgado em Israel por (entre 15 acusações) crimes contra a humanidade, é talvez o livro menos filosófico de Hannah Arendt, que insistiu que a obra era uma reportagem e não um ensaio de filosofia. 
O subtítulo do livro, A banalidade do mal, foi entendido por alguns como uma contradição face ao conceito do 'mal radical' (historicamente sem precedentes, em que as pessoas são supérfluas) crismado no seu livro anterior, As Origens do Totalitarismo. A própria Arendt admitiu que mudara de opinião e não falava mais de mal radical, preferindo outra abordagem (mais compreensiva?), o facto dos 'maus' serem pessoas que, noutras circunstâncias, seriam normais e até respeitáveis. De facto, Arendt tinha a 'consciência de que também nós [os judeus], em circunstâncias idênticas, poderíamos ter agido mal'.
Arendt formula A questão, 'quanto tempo é necessário para que uma pessoa normal vença a sua inata repugnância pelo crime' e avança com uma pista, um truque de Himmler: orientar os instintos piedosos não para os outros, mas para si próprio - em vez de dizer "Que coisas horríveis eu fiz aos outros!", os assassinos diriam simplesmente "Que coisas horríveis tive eu de presenciar no cumprimento do meu dever, quão pesada é a minha missão!".
E o povo, pá? Arendt avança com uma explicação pontuada de ironia: da mesma forma que, num país civilizado, existe a tentação para violar as leis, que vertem a consciência colectiva (como o não matarás), talvez a esmagadora maioria dos alemães se sentisse tentada a violar as leis, no caso as ordens do Führer (como o matarás), mas tinham aprendido a resistir à tentação.
A escritora traz à liça outra questão, a faculdade de julgar: numa espécie de looping moral, em que os crimes eram legais, toda a 'sociedade respeitável' havia sucumbido a Hitler e as máximas morais estavam embaciadas, exigia-se que as pessoas 'fossem capazes de distinguir o bem do mal, mesmo quando não tinham para os guiar, nada além da sua própria faculdade de ajuizar, e esse mesmo juízo se encontrava em total contradição com a opinião unânime de todos os que os rodeavam'. Às ovelhas tresmalhadas, Arendt chama 'os raros homens que foram suficientemente "arrogantes" para se fiarem apenas no seu julgamento pessoal'. 
 
Voltando a Eichmann, ele não era suficientemente arrogante para dizer não - admitiu no tribunal que poderia arranjar um pretexto para mudar de função, como outros fizeram, mas sempre achou que essa atitude seria 'inadmissível' e mesmo naquela altura não a considerava 'digna de admiração'... (uma hierarquia de valores bem baralhada, num regime em que "A minha Honra é a minha Lealdade", simbólico lema das S.S.). Mais disse que a desobediência declarada seria 'impossível' e 'impensável'.
Arendt não viu em Eichmann um homem intrinsecamente mau, nem o achava estúpido, mas um zeloso burocrata, uma pessoa pouco letrada, falha de reflexão ('pura e simplesmente nunca teve consciência do que estava a fazer', escreveu, com demasiada benevolência) e vítima da sua gabarolice. Na sua opinião, o Obersturmbannführer (tenente-coronel) era directamente apenas responsável pela logística da emigração e, depois, da deportação dos judeus para o seu 'destino final', tendo-lhe sido atribuídas em tribunal responsabilidades que não teve.
 
Arendt dedica parte do livro ao pecado original do rapto do réu noutro país, à justiça dos 'vencedores' e à legitimidade do tribunal israelita (fazendo eco dos defensores dum tribunal internacional), em particular quanto à legitimidade territorial. A verdade é que Eichmann nunca teria um julgamento justo no seu país de adopção, sempre generoso com os nazis, ou na compreensiva Alemanha (a título de exemplo, Emanuel Schafer, pela morte de 6280 mulheres e crianças sérvias, foi condenado a 6,5 anos de prisão - 9 horas por cada vítima gaseada em furgões).
Apesar disso, e das inúmeras críticas ao julgamento, Arendt concordou com a pena de morte, e propôs o seu veredicto: '(...) A política não é um infantário; em política, obediência e apoio são uma e a mesma coisa. E como o senhor apoiou e executou uma política que consistia em não partilhar a Terra com o povo judaico e os povos de várias outras nações - como se o senhor e os seus superiores tivessem o direito de decidir quem deve e quem não deve habitar a Terra - pensamos que ninguém, nenhum ser humano, pode querer partilhar a Terra consigo. É por esta razão, e só por esta razão, que o senhor deve ser enforcado.'
 
p.s.: Será o mal (no caso, o holocausto) a negação de Deus? Um tal de J. L. Mackie referido na introdução dos editores) foi peremptório, as preposições 'Deus é omnipotente', 'Deus é infinitamente bom' e 'o mal existe' são contraditórias e não podem coexistir as três. A única escapatória, o livre-arbítrio, não satisfaz: se o homem é livre para decidir, Deus criou algo que não pode controlar.

Auschwitz, de Mieczyslaw Stobierski
Deutsches Historisches Museum (Berlin)
 

sábado, 26 de abril de 2014

Noticiário RTP do dia 25 de Abril de 1974


 
O telejornal da RTP do 'dia inicial inteiro e limpo', como lhe chamou Sophia de Mello Breyner, é um documento histórico único: uma maratona, com declarações repetidas, intercaladas por música (primeiro, um conservador Beethoven, depois um mais arrojado Vinícius de Morais), sem guião - a lembrar o telejornal da guerra do golfo, com novidades às pinguinhas e a 'encher chouriços'.
Curioso, um Fialho Gouveira a fumar cigarros, uns a seguir aos outros, e o seu entusiasmo crescente, confirmando-se a irreversibilidade do coup: já era tudo camarada.

terça-feira, 22 de abril de 2014

O GRUMETE SALGUEIRO MAIA

A propósito dos 40 anos do 25 de Abril de 1974, num encontro no Posto de Comando da Pontinha, em Lisboa, onde foi instalado o controlo das operações do MFA, 2 dos quatro militares de Abril presentes manifestaram a sua discordância com a ideia de Manuel Alegre, de trasladar o corpo de Salgueiro Maia para o Panteão Nacional.
“O espetro político pegou no capitão Salgueiro Maia e transformou, 'santificou' o capitão Salgueiro Maia, que foi um tipo importantíssimo, que teve um papel que está descrito em todo o lado, mas passou para 2.º, 3.º, 10.º plano, esquecendo-os, Melo Antunes e Vítor Alves. Esses estão completamente afastados. O Salgueiro Maia concentra as atenções e o heroísmo. É um ícone. E agora querem pôr o ícone no Panteão”, declarou o major na reserva Sanches Osório. Para ele, a classe política elevou a símbolo da Revolução dos Cravos um executante, esquecendo os estrategas do plano, e, apesar de “imensa consideração pelo Salgueiro Maia”, que, afirmou, “não está em causa”, assim como não está a importância que o papel desempenhado pelo capitão teve para o sucesso da operação, Sanches Osório não deixou de fazer a comparação: “É a mesma coisa que dizer ao comandante de uma lancha: você fez um trabalho notável e nós agora vamos condecorar o grumete”.
“É antipático e impopular o que eu acabo de dizer, mas é o que eu sinto”, acrescentou.
O general Garcia dos Santos considerou a ideia da trasladação "um profundo disparate", afirmando que a transformação de Salgueiro Maia num ícone e o seu “endeusamento” como “figura máxima” da revolução explicam-se com o facto de ter morrido novo, ainda “em capitão”: “Está a ser levado a pontos que não justificam, porque há figuras que nunca mais foram chamadas a ocupar o lugar que, de facto, deviam ter em todo este processo”, citando também Melo Antunes e Vítor Alves.
 
O corpo de Salgueiro Maia deve estar onde está, em Castelo de Vide, por uma razão apenas, foi isso que ele quis expressamente*: caso tivesse voto na matéria, também lhe desagradaria a ideia de Alegre.
É verdade que a recusa de cargos (membro do Conselho da revolução, adido militar numa embaixada à escolha, governador civil de Santarém, membro da casa militar da PR) e uma morte precoce são românticas, e que houve protagonistas não menos importantes. Não sei se, nesta espécie de campeonato, Salgueiro Maia tem primazia face aos 'estrategas', mas sei que foi Salgueiro (com 29 anos), e não outros, que se expôs aos canhões da fragata colocada no Tejo (capitaneada pelo pai de Louçã) e dos chaimites do regime, e mostrou o peito às forças acantonadas no quartel do Carmo. E, caso o dia tenha corrido mal, Otelo O Cérebro podia ter sido preso, e Salgueiro O Bravo podia ter sido morto.
Mas a imagem da lancha é interessante: imaginemos de um lado o general que arrasta, com um rodo, soldadinhos de chumbo sobre um mapa gigante, e do outro o sargento que lidera o grupo de assalto às trincheiras inimigas - do sucesso do primeiro dependem muitas vidas, do sucesso do segundo dependem menos destinos, mas um é o próprio. Se a medalha for por bravura, condecore-se o grumete.

* Determino que desejo ser sepultado em Castelo de Vide, em campa rasa, e utilizar o caixão mais barato do mercado, o transporte do mesmo deve fazer-se pelo meio mais económico, de preferência em viatura militar. Durante o funeral somente a presença dos amigos a quem peço para entoarem "Grândola Vila Morena" e "Marcha do M.F.A." (testamento de 28 de Junho de 1989)

Meus senhores, como todos sabem, há diversas modalidades de o Estado se organizar: há os estados socialistas, os estados ditos comunistas, os estados capitalistas e há o estado a que chegámos. Eu proponho acabar com o estado a que chegámos! De maneira que, quem quiser vir comigo, vamos para Lisboa e vamos acabar com isto. Quem for voluntário, sai e forma. Quem não quiser sair, fica aqui!
Discurso de Salgueiro Maia na parada da Escola Prática de Cavalaria, madrugada de 25/04/1974


 
 




 
 

domingo, 20 de abril de 2014

OS ÚLTIMOS FILHOS DO IMPÉRIO

'Há uma dimensão estrangeira em mim, muito improvável, porque tendo crescido apenas com memórias portuguesas e tendo em muitos dos momentos tido a sensação de que sou o mais convencional dos portugueses, era constantemente levado a perceber que havia uma dimensão estrangeira na minha identidade. Enquanto não voltei à terra onde nasci, eu senti-me adiado.'
 
Tendo sido 'Retornado', reconheço como minha a história contada hoje na revista do Público, Os últimos filhos do Império. Porém, como não tinha sequer 3 anos quando embarquei num Jumbo, a caminho de Lisboa, não tenho recordações pessoais dessa ruptura, se expurgadas as memórias próximas, ou quaisquer sentimentos de perda: tirando a vontade de regressar à terra natal, foram as palavras de Valter Hugo Mãe (mais novo que eu 10 dias) que mais sentido me fizeram - de certa forma, somos uns sem-terra.
 
 

quarta-feira, 9 de abril de 2014

PRRRREC

'O que há de certo modo tranquilizador, no meio do ambiente de confusão que muitas vezes emerge, é que a dita confusão é mais aparente que real. A menos que se diga, pelo contrário, que a confusão é tão confusa que nem conseguimos identificar-lhe a verdadeira dimensão.', dizia-se no DN de 27.1.75.
 
Bom resumo da barafunda do Processo Revolucionário em Curso (PREC), nesse ano vertiginoso de 1975. O que hoje parece um filme divertido - só fumaça, que o povo é sereno -, foi na verdade uma encruzilhada perigosa.
As eleições para a assembleia constituinte, a 25/4, foram um duche gelado para as forças 'progressistas'. No início da campanha, o MES avisava que 'as eleições favorecem as forças reaccionárias' e defendia ser 'fundamental criar o poder operário popular', e o premonitório Sottomayor Cardia lembrava a revolução russa e a perenidade da sua assembleia constituinte (nessas eleições, os mencheviques e os socialistas revolucionários tiveram 62% dos votos, e os bolcheviques 25%), perante o avanço de Lenine & Cª (2/4). Dias depois, Vasco Gonçalves diz que 'Não podemos perder por via eleitoral aquilo que tem custado a ganhar ao povo português' (8/4), no que é seguido por Rosa Coutinho, 'a consulta a um povo pouco esclarecido não pode comprometer o processo revolucionário' (11/4).

No rescaldo das eleições (PS 37,9%, PPD 26,4%, PCP 12,5%, CDS 7,6%, MDP/CDE 4,1%, MES 1%, UDP 0,8%, LCI 0,2%), a amuada LCI afirma que 'As eleições não são via de reforço da luta dos trabalhadores e correspondem a um período de ilusões na classe operária sobre as possibilidades de passagem pacífica ao socialismo' e o MES, pela boca de Augusto Mateus (sim, esse), reclama que 'As eleições são inoportunas no actual contexto do avanço do processo revolucionário' (26/4)
Numa entrevista (gravada) a Oriana Fallaci, e depois negada, Cunhal é cristalino: 'As eleições para mim não têm qualquer importância, nenhuma mesmo (...) Se pensa que o PS com os seus 40% e o PPD com os seus 27% compõem a maioria, está a cometer um erro. Eles não têm a maioria (...) a Assembleia Constituinte certamente que não será um órgão legislativo e não será uma Câmara de deputados (...) Prometo-lhe que em Portugal não haverá qualquer parlamento' (27/6).
No estertor dos seus governos, Vasco Gonçalves reitera que 'não existe lugar para uma democracia burguesa em Portugal' (29/8).
Já em contramão, Rosa Coutinho explica 'Ser-se revolucionário de acordo com as maiorias é um contra-senso. Um revolucionário pode ter que estar durante muito tempo com as minorias esclarecidas' (5/10).      
 
No campeonato do esquerdismo, a UDP achava de si própria 'não é um partido de extrema-esquerda, é de esquerda e à nossa esquerda não há mais esquerdas. Para além de nós, só de direita' (28/2) - o MRPP chamava social-fascistas aos comunistas (moderados por razões tácticas, e refreados pelos soviéticos, que queriam manter a détente na europa), com a mesma ligeireza que Spínola, em 74, chamava forças contra-revolucionárias aos 'irresponsáveis esquerdistas'. O PPD participava em manifestações de apoio à nacionalização da Banca e dos seguros (18/3) e Mário Soares lembrava que a nacionalização da Banca estava no programa do PS, mas não do PCP (27/3).
O PPD aplaudiu as nacionalizações anunciadas em Abril, confiando que se traduzissem 'no início de uma autêntico socialismo e não no capitalismo de Estado' (16/4); Marcelo R. Sousa via no PPD um 'partido à procura de um lugar à esquerda', aquando da escolha dum substituto para Sá Carneiro,  e o novel líder, Emídio Guerreiro, pretendia  um 'partido francamente de esquerda' (25/5) - porém, como disse alguém, as bases dos partidos estavam mais à direita que os líderes, e os seus eleitores mais à direita ainda. No 1º congresso da JSD, cartazes de Marx e Engels compunham o cenário, e foi escolhido como hino a Internacional (1/6), e o PPM tinha a sua Juventude Monárquica Revolucionária.  
Embriagados (ou temerosos) pela alegria revolucionária, no congresso da CIP, os empresários advogaram a 'distribuição da riqueza' (10/7).    
 
E o povo, pá? O povo, ou parte dele, vivia em clima de pré-guerra civil: colocação de bombas à esquerda e à direita, barricadas em Lisboa e Rio Maior (um no passarán com mocas), destruição de sedes partidárias, invasão de herdades e de casas, cerco do parlamento, mortos (sim) e feridos, confrontos e petardos em comícios. A animosidade chegou ao ponto de, na Madeira, se escrever 'Vem à manifestação do PPD. O trânsito nas estradas é livre, se os comunistas te impedirem de passar, passa por cima deles' (2/8).
A igreja, que antes vedara aos católicos dar o voto a partidos incompatíveis com uma concepção cristã (12/4), fazia agora os seus comícios, recusando uma 'igreja algemada' e exigindo 'autoridades mandatadas pelo povo como seus representantes e não como tutores' (10/8). 
 
A ponderação era privilégio de poucos, como Melo Antunes, falasse ele de pão ('não vai haver milagres porque ninguém dispõe de fórmulas mágicas para resolver o problema da economia portuguesa', 21.2), ou falasse de política, esperando que 'existam reservas de lucidez para destrinçar entre o possível e o quimérico, entre a utopia demagógica, paralisadora e, consequentemente, funesta e o senso do real, o suicídio a que o aventureirismo conduz e o enfrentamento honesto, ainda que impopular, das circunstâncias. O país está emocionalmente exausto' (DN, 8/3).
Para a vitória dos moderados, houve 2 personagens fulcrais, fiéis da balança: o Presidente Costa Gomes (sub-secretário de Estado de Salazar e CEMGFA de Caetano, by the way), cerebral, equilibrista entre campos antagónicas (embora suspeito de simpatia pelo PCP), avesso a decisões, tímido apoiante dos mais fortes, a cada momento; Otelo, um radical errático, fã de Fidel, defensor das colunas populares, ora autorizando a participação de militares numa manifestação onde se defendeu a dissolução do governo e da assembleia e a instalação duma ditadura do proletariado (17/7), ora contra o governo de Vasco Gonçalves, ora apoiante da distribuição de armas ao povo, ora contra o documento dos 9, ora negociando com os seus autores, ora faltando ao 25/11, o derradeiro combate da sua esquerda popular. Como diria Eanes, sendo um homem da extrema-esquerda, Otelo nunca assumiu coerentemente o que seria a estratégia dessa área, a que se somava a sua incoerência ideológica.
 
Quanto às colónias, além do patrocínio de uma das partes em conflito, considerava-se que tudo devia ser feito para facilitar a integração de Timor na Indonésia (terá dito o companheiro Vasco), pretendia-se uma descolonização rápida, e os retornados eram corpos estranhos nas suas* terras e na metrópole - 'Se eles comeram a carne, agora que roam os ossos', terá dito o PM Pinheiro de Azevedo, enquanto eles se manifestavam com cartazes onde se lia 'Trabalhar não foi crime nem roubo'.
Anos depois, o lúcido Melo Antunes reconheceu que 'o processo da descolonização foi das coisas mais difíceis, mais dramáticas e mais trágicas que aconteceram em Portugal',  mas também já havia dito antes que 'não há descolonizações bem feitas', porque 'não houve, ou não há, boas colonizações'.

notas sortidas de 1975 O Ano do Furacão Revolucionário, João Céu e Silva

* Rentes de Carvalho (em Portugal A Flor e a Foice), conta que, em Abril de 1974, um apaziguador Agostinho Neto declarava em Londres 'Evidentemente que quando digo o nosso povo são todos os que nasceram em Angola e se consideram angolanos. Os pretos, que tradicionalmente são considerados africanos e os brancos que estão há cinco séculos no nosso continente e no nosso país.'

1914-2014

 
A HISTÓRIA NÃO SE REPETE, MAS RIMA.
Mark Twain

A Rússia imperial abocanha um bocado da Ucrânia, e quer estraçalhar o resto, perante uma indignação ocidental à Chamberlain.
Irlanda, Portugal, Grécia e Chipre têm tutores.
A Bélgica vive uma desirmandade latente.
A Catalunha e a Escócia querem a independência.
A Alemanha über alles manda na europa.
Contra a imigração, a barricada.
A extrema-direita está pujante em vários países e é vista sem temor pelos eleitores da direita e da esquerda.
As hostes euro-cépticas crescem a olhos vistos.

sexta-feira, 28 de março de 2014

EXPRESSIONS POPULAIRES

Os franciús invadiram Portugal por 3 vezes, e 3 vezes foram escorraçados. Assentaram arraiais por pouco tempo (mesmo esse, foi demasiado), mas deixaram uns souvenirs, que pegaram de estaca na linguagem popular.
Jean Andoche Junot comandou a primeira invasão, uma espécie de blitzkrieg: entrou por Idanha-a-Nova, em 17/11/1807, acelerou pela margem direita do Tejo e chegou a Lisboa no dia 30... a tempo de ver a armada portuguesa, com a corte, a sair da barra do rio - ficou 'a ver navios'.
O governador-geral, entretanto nomeado duque de Abrantes (duc d'Abrantès), procurou esquecer o desaire com uma vida faustosa, entre caçadas, festas e idas ao teatro - viveu 'à grande e à francesa'.
O forró não durou muito: o povo sublevou-se em Junho, os ingleses vieram dar uma mãozinha (paga com língua de palmo) e, no final do verão quente, o exército napoleónico deu de frosques. Não sem que Junot levasse tudo o que conseguiu carregar (nas fragatas emprestadas pelos ingleses, que os derrotaram), incluindo obras de arte - foi 'de armas e bagagens'. A pressa em zarpar, essa, crismou a expressão 'despedida à francesa'.
Na comitiva de Junot, veio Louis Henri Loison, mau como as cobras, famoso pelas pilhagens e pelo seu gosto em torturar, por vezes até à morte, inúmeras pessoas. Má sina tinha quem fosse apanhado pelo general, que perdera o braço esquerdo num acidente de caça - muita gente 'foi para o maneta'.

Partida da corte de D. João VI, 29-11-1807 (Henry L'Évêque, 1815) 



 

sábado, 22 de fevereiro de 2014

REGRAS DO FUTEBOL DE RUA

Nazaré 1958, Gerard Castello Lopes

1º - O gordo é sempre o Guarda-redes ...
2º - O jogo termina quando todos estão cansados
3º - Embora o jogo esteja 20 a 0, “quem marcar, ganha!!”
4º - Não há árbitro
5º - Só se marca falta se for muito claro, ou se sair alguém a chorar
6º - Não há fora-de-jogo
7º - Se o dono da bola se chateia…acaba o jogo
8º - Os melhores jogadores não podem jogar na mesma equipa e são eles que escolhem o resto da equipa
9º - Ser o último a ser escolhido é a maior humilhação
10º - Nos livres directos, a barreira vai estar sempre perto da bola
11º - A partida tem uma pausa quando passa um adulto ou uma senhora com um bebé
12º - A partida para quando a bola entra pelo vidro de alguma casa, café, carro… ou quando passa um camião, autocarro ou carro. Se for motas ou bicicletas… segue o jogo
13º - São inimigos eternos os jogadores do bairro mais perto
14º - Os que não sabem dar um pontapé na bola, são suplentes ou quanto muito… defesas
15º - Se chegam os mais velhos, temos que sair do campo, mas não, sem protestar primeiro
16º - Há sempre um vizinho que não te deixa jogar ou que ameaça que te fica com a bola
17º - Se se aposta alguma coisa, jogamos como se fosse uma final
18º - As balizas são duas pedras, ou latas, mas vai haver sempre uma equipa que tem a baliza mais pequena
19º - Quando uma equipa marcar um golo de chapéu, a equipa adversária vai gritar sempre “FORA”( para que o golo não seja validado)
20º - Os foras são marcados com o pé e é possível atirar contra um adversário e seguir a jogada(foras “à cigano”)
21º - Num penalty, o gordo sai sempre da baliza e quem defende é o melhor jogador

em http://voosdopardal.blogspot.pt/2013_10_01_archive.html

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

ESTADO NOVO - MACEDÓNIA

I
Se é por patriotismo, bora lá.

II
É proibido proibir
(pormenor, 15% da multa é para o bufo; 2º pormenor,
o castigo para funcionários públicos era a dobrar, uma novidade)


III
uma tolice, mas sempre havia especial
consideração pelas professoras


IV
'Portugal pode ser, se nós quisermos, uma grande e próspera Nação.
Uma mentalidade nova fará ressurgir Portugal', ensinava-se aos petizes.
Hoje a doutrinação patriótica já não é feita nos cadernos escolares
(o CR7 não conta), mas em pins colocados nas lapelas de fatos risca de giz.
O que continua é a promessa de um Homem novo.







sábado, 4 de janeiro de 2014

UM PEQUENO LAPSO

 
Podia ser conhecido como Fidalgo Cavaleiro da Casa Real, Moço Honorário da Real Câmara Municipal do Porto, Comendador das Ordens de Cristo e da Rosa (do Brasil), Presidente da Associação Comercial do Porto, Presidente da Associação Comercial de Beneficência, fundador do Club Portuense.
Podia estar associado à construção do Palácio de Cristal. Podia ser lembrado pelas festas opulentas dadas no seu palacete na Invicta, pela sua riqueza acumulada no Brasil, onde viveu até aos 30 anos, ou pelas suas ações beneméritas.
Não, Guilherme Augusto Machado Pereira (1822-68) ficou conhecido por um erro: no diploma em que Pedro V lhe atribuiu um grau nobiliárquico, em 1861 - talvez o apogeu da sua existência -, trocaram-lhe a ordem dos apelidos, e o 1º Visconde de Pereira Machado passou a ser o 'visconde de trás para diante'.

sábado, 21 de dezembro de 2013

2013 ESPREMIDINHO


Personagem do ano:
o Papa que veio do fim do mundo
 
Palavras do ano:
IRREVOGÁVEL (decisão de consciência de Paulo Portas)
NARRATIVA (a versão dos outros, segundo J. Sócrates)