...e depois, com bigodes de leite, pedem mais paciência e esforço ao povo, que a "vaca 'tá seca".
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quinta-feira, 30 de outubro de 2014

CHOP SUEY DE BACALHAU

 
Depois da LEN, a Enelgias de Portugal, a EDP Lenováveis Poltugal, a Compagnie Génélale des Eaux Poltugal, a Fidelidade (canina) e umas casas-visto-na-mão, é a vez da Espílito Santo Saúde e, não talda, a Efacec.
A pleço de patacas.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

DOBRE A FINADOS?


Factos deste 5 de Outubro:
1. A bandeira foi hasteada 'de pernas para o ar', como o país - alguém brincalhão ou sinal do Olimpo? No código militar, a bandeira ao contrário indicava um território tomado pelo inimigo e um de pedido de socorro...
2. A vê-la subir estavam os presidentes da República, do parlamento e da câmara da capital. Talvez pela primeira vez, o primeiro-ministro não apareceu, fazia falta em Bratislava.
3. Também pela primeira vez em democracia, os discursos não foram públicos, mas reservados a convidados (no Pátio da Galé) - havia atiradores na cobertura dos edifícios e a polícia impediu as gentes de chegarem à praça do município.
4. Desde que lá chegou, Cavaco abria os jardins de Belém e recebia os indígenas neste feriado. Hoje não, por motivos económicos.
5. Foi a última vez que o dia da implantação da República é feriado.

Duarte de Bragança fala hoje ao país e é apresentado um manifesto da Causa Real. Os monárquicos acham que 'o país está à beira de um abismo' e que só 'a instituição real permite devolver o futuro aos portugueses'. Pois... é tudo uma questão de fé, como a crença do governo em que o bombardeamento fiscal dará frutos.

sábado, 11 de junho de 2011

PORTUGALIDADE


NUNCA É POSSÍVEL ENCONTRAR O CULPADO:
É SEMPRE A SEXTA PESSOA NUM GRUPO DE CINCO.

Fernando pessoa, sobre os portugueses

Neste dia de Portugal, nem de propósito, Cavaco Silva lamentou o "menosprezo dos poderes públicos pela realidade do interior", a sua desertificação - tornando Portugal "um país desequilibrado, um território a duas velocidades" -, o abandono rural e a progressiva auto-insuficiência alimentar.
Estou baralhado. Não foi este homem-betão, PM durante 10 anos e PR durante 6,  um dos principais capatazes das políticas europeias que atrofiaram a agricultura e as pescas, a troco de cheques-jipes?  
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quarta-feira, 18 de maio de 2011

CONVERSAS DA TRETA


Numa linha de produção, entre o tagarelar das máquinas, as conversas são como as cerejas.
Hoje, de Fátima (é um milagre, Mila, é um milagre!) e do Strauss-Khan passou-se para as novas oportunidades, daí para o aborto, depois as touradas, a pesca, o trabalho e o país.

O meu companheiro de labuta resolveu dizer achava mal que a IVG não pagasse taxa moderadora, ao contrário duma perna partida, e que era contra o aborto. É tema para usar pinças, cada qual tem a sua opinião e pronto. Apenas me meti com ele, "isso não é coisa que diga um Homem de esquerda".
Retorquiu que era contra tirar qualquer vida.
- Então também é contra a tourada. [escapatória para mudar de assunto]
- Não.
- E contra a caça?
- Isso não conta, é para comer.
- Comer é um efeito secundário, a caça é para sair cedo de casa com os amigos, falar de mulheres, cravejar animais de chumbo, mandar os cães apanharem os bichos e voltar para casa com os coelhos pendurados no atrelado da toyota, para mostrar aos outros, tipo a minha-pilinha-é-maior-que-a-tua.

Bem sei que é uma descrição redutora, mas não é factualmente falsa.
Voltámos ao Sócrates (recorrente), a obrigações e deveres, e veio uma reclamação, a sua mulher professora gasta o papel e a impressora de casa, porque a escola não tem "consumíveis", blábláblá, e saiu-se com "eu não devo nada ao Estado, o Estado é que me deve a mim".
Tive então uma epifania, a frase resume a "Portugalidade": eu não devo (e só se for tolinho é que dou, se não for obrigado), o Estado é que (me) deve.
Se um político ousasse repetir Kennedy e dissesse "não perguntem o que o vosso país pode fazer por vocês, mas o que vocês podem fazer pelo vosso país", era vaiado.
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segunda-feira, 9 de maio de 2011

PORTUGAL VS. FINLÂNDIA

A Câmara de Cascais mostrou um filme, nas Conferências do Estoril, que circulou furiosamente na net, uma mensagem aos finlandeses que estão relutantes a participar no empréstimo a circular. Com falhas: quem inventou a bússola e a vela latina foram os árabes, Napoleão conseguiu mesmo invadir o país (por 3 vezes, mas foi repelido) e a abolição (parcial) da escravatura ocorreu 10 anos mais tarde, em 1761. Pormenores. 
Agora veio a resposta, simpática.



quarta-feira, 4 de maio de 2011

BEM-ME-QUER, MAL-ME-QUER


78.000.000.000€
a juros com (taxa variável) durante 3 anos*

Foi revelado hoje, mais que o programa eleitoral do PS, PSD e CDS, um verdadeiro, minucioso e calendarizado PROGRAMA DE GOVERNO imposto ao "nosso" Protectorado e a ser vigiado de perto pelo FMI e pela UE, não vá o menino fazer m...
Passámos pois a ter tutores, a quem o governo tem que prestar contas quase trimestralmente e pedir autorização quando quiser efectuar algum aumento sensível da despesa, como o aumento do salário mínimo - assim ficou combinado.

Que mais se negociou (lol) e aparece no Memorando de 34 páginas assinado a 3 de Maio, às 13:40?
* Congelamento de salários e pensões (excepto as mais pequenas) até 2013
* Introdução de imposto nas pensões acima dos 1500€ mensais (este parece o nosso número cabalístico, a partir do qual se é considerado abastado - afinal, pouco acima do salário mínimo francês ou irlandês)
* Redução do subsídio de desemprego para 18 meses (mas o mínimo para aceder ao subsídio desce de 15 para 12 meses) e um limite de 1048.05€ mensais - sem perda de direitos adquiridos; positivo, os trabalhadores independentes passam a ter direito ao subsídio d desemprego
* Melhoria da mobilidade laboral (é cínico pensar que isso quer dizer despedimentos mais baratos?), mais fácil despedimento por inadaptação, redução da indemnização para 20 dias/ano - metade paga pelo patrão, metade pelo trabalhador (?)

* Redução da taxa social única, alterações do IVA (incluindo a subida de 6 para 23% no gás e luz), cortes duradouros na despesa, aumento de impostos que não afectem a competitividade
* Aproximação entre os sistemas contributivos das ilhas e do continente (redução de 30% para 20%)
* Redução do IMT, aumento do IMI, ISV e imposto sobre  o tabaco, criação dum imposto especial sobre a electricidade
* Redução das deduções com saúde e seguros privados (em 66%), educação e habitação
* Congelamento/eliminação de isenções, benefícios e incentivos fiscais, limite à dedução de perdas
* Tomada de medidas "concretas" no combate à fraude e evasão fiscais, e mudança da legislação com vista a reforçar a auditoria fiscal e a capacidade do fisco actuar em todo o território, incluindo as zonas isentas (estarão a pensar na zona franca da Madeira?); unificação de serviços do ministério das finanças (ao detalhe a que chegaram, parece que é competência do parlamento)
* Criação duma equipa de juízes para despachar processos fiscais acima de 1M€
* Suspensão de novas PPP, reavaliação das 20 mais importantes em vigor, aumento da sua monitorização e melhoria dos relatórios (transparência?)
* Disponibilização de 12.000M€ (parte do empréstimo total) para a banca, mas quem aceitar é obrigado a uma reestruturação
* Aceleração da venda do BPN até Julho, a qualquer preço

* Redução de serviços públicos
* Redução anual de 1 e 2% de trabalhadores, respectivamente na administração central e na administração regional/local (7000 trabalhadores/ano); redução de 15% dos dirigentes da administração central e organismos públicos até Dezembro, e da administração local até Junho de 2012
* Limite nas transferências para os governos regionais, autarquias e empresas públicas
* Nas empresas públicas, redução de 15% dos custos operacionais relativamente a 2009, e de 5% dos custos variáveis (cartão de crédito, por exemplo) até 2014
* Fecho de 20% das repartições fiscais e aumento dos auditores para 30% do pessoal, através da recolocação de trabalhadores, até ao final de 2012
* Fortalecimento da informação de terceiros par apoiar a auditoria a contribuintes (morreu o sigilo bancário)
* Redução dos 308 municípios e 4259 juntas de freguesia, antes das próximas eleições autárquicas (a medida mais explosiva - ninguém quer prescindir do seu concelho, jamais um cartaxense aceita ser scalabitano, por exemplo)
* Até Dezembro deste ano, publicação dum levantamento de todas as entidades públicas, incluindo associações, fundações e outros organismos em todos os níveis da administração pública, que permitirá ao Governo decidir quais deverá encerrar ou manter; até Julho de 2012, legislação que regulamente estas entidades

* Racionalização do currículo e rede escolar (mega-agrupamentos), autonomia das escolas com prestação de contas, podendo os resultados escolares ser um dos critérios de desempenho, redução de pessoal, centralização de compras, corte no financiamento de escolas privadas com contratos de associação - poupança estimada de 195M€ em 2012 e 175M€ em 2013
* Aumento tas taxas moderadoras da saúde e eliminação de isenções
* Poupança de 550M€ na saúde: redução de 50% da comparticipação orçamental no ADSE e sub-sistemas, corte de 20% nas convenções com privados, redução em 33% com custos em transporte de doentes, definição pelos hospitais dum "calendário vinculativo e ambicioso" para liquidar todos os pagamentos em atraso, racionalização da rede hospitalar com redução de quadros (corte de 100M€ em 2011, 100€ em 2012 e mais 5% em 2013), redução na despesa com medicamentos (de 1.5 para 1% do PIB, até ao fim de 2013), redução em 20% das horas extraordinárias até 31.12.2013 através de horários flexíveis, critérios transparentes de selecção de gestores e administradores
* Privatização até Dezembro da REN, EDP, das seguradoras da CGD e, se houver condições, da TAP; privatização da CPcarga e linhas suburbanas da CP, empresa que deve ganhar "independência total" (preços livres?)
* Eliminação das golden shares, como a da EDP e PT

* Defesa: proibição de novas despesas e corte de 10% de pessoal até 2014
* Justiça: resolução em 2 anos do problema da pendência dos processos em tribunal, a começar com uma auditoria até Junho e um roteiro da reforma até Setembro; racionalização de custos, reestruturação de tribunais e aceleração do novo mapa judiciário; novo sistema de gestão em 2 tribunais-piloto; mobilidade especial dos oficiais de justiça; agilização de despejos de 18 para 3 meses; fusão de pequenas execuções de dívida e cobrança de custos adicionais a devedores pouco cooperantes, reforço do número de agentes de execução e melhoria da resolução alternativa de litígios, para libertar juízes e tribunais  (só falta reduzir as hipergarantias jurídicas que fazem perpetuar, até à prescrição, processos de quem pode pagar).

Curto e grosso, detalhado e conhecedor, doloroso e, esperemos, eficaz. E aparentemente preocupado com o crescimento e a competitividade, escaldada que a troika está com os casos da Grécia e da Irlanda.
Cumprir este programa (na prática, um cronograma) será tão difícil como caminhar sobre brasas ou, pior, lâminas de barbear.
Efeitos colaterais assumidos pela troika, recessão nos próximos 2 anos e subida da taxa de desemprego até 13% no final de 2013. O governo que vier vai penar, mas está espaldado em cada apertão - a culpa é do FMI!!! O País vai penar, os portugueses vão empobrecer e a classe média será uma ficção. Vai ser uma festa para os "Homens da Luta".

* o FMI vai cobrar juros de 3.25% nos 3 primeiros anos, subindo depois para 4.25% (mas é variável), a UE vai aplicar uma fórmula, mas ainda precisa saber que juros vão pagar quem se financiar para nos emprestar o dinheiro (a bem dizer, intermediários); o volume do empréstimo é menor que os da Grécia (110mM€) e da Irlanda (85mM€)
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sexta-feira, 8 de abril de 2011

A LEI MENDONÇA


Nos tempos da ministra Leonor Beleza, deu brado uma lei que tinha uma vírgula fora do sítio, deturpando "inadvertidamente" a legislação a favor de alguns. A história que me contaram hoje é dessa altura, e ficou conhecida por Lei Mendonça.
Um senhor, responsável pela elaboração de processos para pagamento de indemnizações, reparou que o colega estava a usar valores desactualizados: "Olha, o valor das indemnizações desceu, estás a usar números errados nas contas", informou. 
O outro sorriu e respondeu: "Tenho aqui na pilha um processo do Mendonça, vais ver que o valor antigo [mais alto] vai ser reposto."
O primeiro não acreditou. Teve por isso, dias depois, que refazer os cálculos de todos os processos que tinha em mão, porque a nova tabela foi suspensa durante algum tempo (o "necessário"), pagando temporariamente indeminizações mais vultuosas.
Agora tem piada, mas imaginam-se a viver numa altura assim, em que as leis eram feitas ad hominem? O que vale é que, passados 20 anos, estamos mais civilizados e as coisas não se passam assim..

P.s.: Conheci um Mendonça, não sei se o mesmo, muito poderoso: mãos calejadas, pele tisnada, cabelo puxado para trás com brilhantina, sobretudo pelos ombros e fato às riscas com mau corte, acompanhante um pouco atrás.
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quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

EU É QUE CENSURO *


Portugal é o País que mais gasta proporcionalmente no euromilhões. Vai daí o governo vai dar-nos a “graça” de termos mais um sorteio por semana - a troco de um imposto pelo devaneio, claro. É como uma Happy Hour numa reunião dos AA.
Tem sido uma saga, uma novela interminável (passe o pleonasmo), a descoberta sincopada de mais um modo de arrecadar receita. E funciona, a receita fiscal subiu 15% em Janeiro, comparando com o mês homólogo.
O que espanta é que as coisas não melhoram. Números frescos, a inflação média foi de 1.7%, em Janeiro foi de 3.6% (valor mais alto desde 2006); os juros da dívida a 10 anos atingiram hoje o recorde desde a entrada no euro, 7.6% ; a despesa corrente primária – apesar do corta-corta-corta! – conseguiu subir em 2010, 400 milhões acima da meta prevista.
Pièce de résistance, o número-tonelada: a dívida pública subiu, desde 2004, de 82.000 para 150.000 milhões de euros. Pim!
E vamos andando: o governo a virar o bolso das calças, a desencantar receitas e cortar mais umas coisas (agora, a 'propina' pública por turma), todos a cada mês mais endividados e taxados, e as empresas pouco lucrativas ‘tadinhas (as grandes não contam, já não são nossas): diz o Expresso que o IRC em 2010 rendeu 4591,5 milhões de euros, apenas 3 vezes mais que o imposto do tabaco, que deu ao Estado quase 1428,7 milhões. A solução está naquela música do Abrunhosa, “o que é que temos que fazer?”, talvez f…umar.
Ou então convencemos o Bono a iniciar uma campanha tipo Give Portugal a Chance. Aceitam-se mecenas.

Desculpem a acrimónia, ainda estou de ressaca desde o último “novo salário”: em Junho aumentou o IRS e respectiva retenção (20€), em Dezembro acabou o abono (22€), agora aumentou a Caixa geral de Aposentações e desceu o salário de funcionário público (67€), é fazer as contas. Não fosse o prejuízo ser quase o dobro (a minha cara-metade teve igual racionamento na receita), o pormenor de haver uma coisa que responde por inflação e as coisas serem mais caras, o gasóleo ter subido 30% nestes 2 anos (mas o petróleo desceu 40%, desde o pico de Julho de 2008) e adivinharem-se mais “medidas” no futuro próximo, que já sabemos o que querem dizer e não são boas notícias – não fosse isso, e eu estaria hoje mais tolerante.

* O PC disse ponderar e o BE adianta-se, marcou hoje uma moção de censura (5 dias depois de considerar "sem resultados práticos" a eventual moção dos comunistas) para daqui a um mês. Sócrates diz que é competição com PC, favor à direita que tem política à FMI (como se ele não...) e que a esquerda radical tem ódio sectário ao PS. BE diz que apoia a esquerda quando é esquerda, e que prática do PS não é de esquerda. Pois.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

FAZER PELA VIDINHA


O "sensato" conselho de Cavaco Silva para comermos e calarmos de modo a que "os nossos credores" não se zanguem connosco e nos castiguem com juros cada vez mais altos espelha uma cultura salazarenta de conformismo que, sendo muito mais antiga que Cavaco, ele representa na perfeição, até nos seus, só na aparência contraditórios, repentes de arrogância.
Quando Cavaco nos recomenda que amouchemos pois "se nós lhes [aos 'nossos credores'] dirigirmos palavras de insulto, a consequência será mais desemprego para Portugal", tão só repete, adaptada à actual circunstância, a "sensata" e canónica fórmula do "Manda quem pode, obedece [ no caso, cala] quem deve".
Trata-se de uma atávica cultura em que a vida é vidinha, a crítica deve sempre ser "construtiva" e colaborante, os trabalhadores, por suave milagre linguístico, se tornam "colaboradores" (e se colaboracionistas melhor ainda) e servilismo e acriticismo são alcandorados a virtudes cívicas. Porque é assim que se faz pela vidinha, de joelhos.
Estejamos, portanto, gratos às "companhias de seguros, fundos de pensões, fundos soberanos, bancos internacionais e cidadãos espalhados por esse mundo fora" que nos emprestam dinheiro a juros usurários, pois eles apenas querem o nosso bem. E, como o bom Matateu numa famosa entrevista a Baptista Bastos, digamos tudo o que quisermos, excepto dizer mal, "porque [cito de cor] Matateu não diz mal de ninguém".

Manuel António Pina in JN 30-12-2010
n.r.: não sei se concordo com MAP (de quem sou fã), mas achei um dos parágrafos bem apanhado, à Guerra Junqueiro.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

PAGA E NÃO BUFA???


Há muitas razões para se participar na greve geral de 24/11, e muitas explicações para não o fazer.
Uma amiga esclareceu “fiz todas as greves dos professores no ano passado, e a maralha depois foi votar no Sócrates, quando ele voltou a ganhar prometi não fazer mais greves”. Tá certa.
Um colega respondeu “não vou deixar que o governo me retire mais um bocado do meu salário, já chega”. Há até um lado positivo, os grevistas do Estado vão ajudar a controlar o défice, são milhões de euros que o governo vai poupar por não pagar o dia aos grevistas – é uma espécie de reedição ao contrário daquele dia que o Vasco Gonçalves instituiu em 1975, em que todos os portugueses trabalhariam de graça em prol do país. E ainda vai tudo aproveitar para fazer compras pró Natal, põe a economia a carburar.
Uma operária justificou-se com um “não ganho o suficiente para prescindir dum dia de salário” e uma colega minha explicou “a greve não serve para nada, fica tudo na mesma”.
Terão todos a sua razão.
Mas conhecem a expressão “
cala e não bufa”? O povo paga a crise, mas ou come-e-cala, ou reclama do preço. A greve é isso, é a alternativa mais ruidosa – das não violentas – para bufarmos.

... enquanto isso, o Estado é zeloso:
. A administradora da Fundação Guimarães Cidade Europeia da Cultura (onde o trabalho é intenso e altamente qualificado, presumo) resolveu reduzir o salário em 30%... para 10000 euros mensais.
. Um assessor dum ministério acumula o salário principesco com o subsídio de desemprego recebido por atacado para fundar uma empresa que não iniciou actividade.
. A assessora de imprensa da ministra da saúde ganha mais que a ministra, vários milhares de euros mensais.
. O PS votou uma alínea do orçamento que isenta da redução salarial o sector empresarial do Estado, dadas as suas especificidades…
. 5 milhões de equipamento de segurança chegam depois da cimeira da nato, a razão da sua compra.
. Parece que somos fiadores da Irlanda, se ela não pagar o empréstimo de 1500M€, a gente paga ahahaha.
. A pièce de résistance, Timor – um dos países mais pobres do mundo, a quem Portugal ajuda há anos – pondera investir parte do seu fundo petrolífero na nossa dívida pública. Amor com amor se paga. Não têm vergonha?

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

OS NÚMEROS

Menos conhecida que a Fundação Champalimaud, a Fundação Francisco Manuel dos Santos dedicou-se às Ciências Sociais, sob a batuta de António Barreto. O seu trabalho mais visível é uma base de dados de acesso público, a PORDATA, que apresenta uma série de estatísticas oficiais desde 1960, e a edição duns livrinhos à venda a 3-5 euros, de modo a que qualquer um possa adquiri-los.
Já saíram 3, um sobre o ensino de português, outro sobre fiscalidade (de Saldanha Sanches) e, o primeiro, sobre 5 décadas de mudanças em Portugal. Justamente intitulado “Portugal: os números”, escalpeliza uma enormidade de dados sobre uma variedade de assuntos, resistindo à tentação de interpretá-las politicamente.
O que fiz foi condensar parte da informação em algumas tabelas. Cada uma delas daria pano para mangas, pela quantidade de informação: é caso para dizer que cada parcela vale por si. Mas o mais relevante é que se confirmam crenças e desfazem mitos.
Factos confirmados, há mais velhos, menos filhos, as famílias são mais pequenas e têm composição diversificada, casa-se menos e não é para toda a vida (número, 4 divórcios por cada 10 casamentos); houve um progresso notável na saúde, educação e cultura, no que diz respeito a acessibilidade, recursos humanos e gasto público.
O PIB aumentou muito (septuplicou desde 1980, esquecendo a inflação…), mas o crescimento é cada vez mais lento. Porém, os gastos sociais tiveram um crescimento exponencial, a um ritmo muito superior ao crescimento da riqueza nacional e atingindo valores insuportáveis de manter (número, rácio activo/pensionista cai de 5 para 1.7) – chegámos tarde ao estado social e ele está em vias de atrofiar. E cai o mito que o “centrão” desmantelou as "so called" conquistas de Abril e pretende acabar com o Estado Social.
O falhanço maior da democracia, a meu ver, foi a justiça, e os números são cruéis. Não só na justiça fiscal – 40% das empresas declaram prejuízo -, mas na justiça geral:
muito mais recursos humanos e financeiros, muito mais litigância, processos cada vez mais demorados, um sistema que não dá vazão. E sem justiça, não há nada.








terça-feira, 5 de outubro de 2010

COM CORPINHO DE 120


Finalmente chegou o dia. 100 aninhos redondinhos, uma idade provecta.
Cá por mim, a ideia de ter um Rei não incomoda muito, há-os em muitos países, sem que daí venha mal ao mundo.
Só há uma diferença entre a monarquia e a república: cá, não há ninguém que não seja escolhido por outros. É que aqui não se herdam títulos. Uma pequenina diferença.
Um brinde! Ouçamos o hino.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

NA MESMA COMO A LESMA


Quando o poeta António Nobre foi ao consulado de Paris e se confrontou com o preço duma certidão, o cônsul Eça de Queirós (sim, o que inventou o Conselheiro Acácio) referiu-se assim ao Estado que representava “Este Estado é um ladrão! Vamos a ver se posso torcer-lhe o artigo (da lei), aplicando-lhe outro mais em conta”.

Por essa altura, em 1892, o ministro da Fazenda Oliveira Martins agravou impostos, cortou admissões na FP e reduziu os salários dos funcionários (até 20%), sem protestos. Dixit “Isto nem forças tem para se sublevar. O cáustico dos impostos e deduções quase que foi recebido com bênçãos. Somos um povo excelente cujo fundo é a fraqueza bondosa e uma grande passividade.”

2 pequenas histórias sobre Portugal. A mesma opinião sobre o Estado, ao mesmo tempo que lhe "damos a volta". A mesma apatia com que apertamos o cinto.
Tudo muda para tudo ficar na mesma, não é?

sábado, 11 de setembro de 2010

PÕE NA CONTA!!!


Desde o início do ano, a dívida pública aumentou 2,67 milhões de euros à hora (o ritmo cresceu para 5 milhões/hora em Julho). A esta velocidade, a autorização parlamentar para aumentar este ano a dívida em 17.400 milhões de euros esgotou-se a 1 de Setembro.
Estamos alegremente a acelerar para o desfiladeiro. E, no estio, o povo não liga, quase assobia a cantilena “sr. Condutor, se bater não faz mal, vamos todos para o hospital…”
A pessoa a quem, indignado, li os números, não levantou os olhos do seu livro. Talvez pense que não há nada a fazer, e o que não tem remédio remediado está, ou pense “enquanto o pau vai e vem, folgam as costas”, até ao próximo apertar de cinto, aumento de impostos, taxação de SCUT. Que sera sera!
Esta notícia recordou-me a Ferreira Leite, que nos alertou para a deriva do Estado, qual Cassandra – embora a senhora esteja longe da imagem da grega, com longos cabelos enovelados e seios sensuais, vestindo uma toga e com pulseiras nos antebraços nus.

Nas previsões do World Economic Outlook, publicado pelo FMI em Abril, espera-se que o PIB português seja ultrapassado em 2015 por 11 países: Egipto, Nigéria, Malásia, República Checa, Roménia, Hong Kong, Chile, Israel, Irlanda, Filipinas e Singapura. Vá, alguns desses países têm muita gente, mas e a Roménia?
Também há previsões para o PIB per capita, que anula as diferenças populacionais. Aí são 6 os países que passam à nossa frente: a mesma República Checa (com população semelhante), Coreia do Sul, Taiwan, Bahrein e Omã. Asiáticos, ou petróleo, tá explicado. Não há que ter vergonha.
Ah, esquecia-me dum país. Porque raio é que vamos ser ultrapassados por Trinidad e Tobago?

quinta-feira, 29 de julho de 2010

SERÁ FADO?


Situemo-nos, Portugal século XIX.
Solo de má qualidade, clima seco, falta de matéria-prima combustível (no caso, carvão), população pouco qualificada, aumentos de produtividade modestos (38% relativamente à fiação de algodão em Inglaterra, por exemplo), salários baixos mas custo unitário de mão-de-obra alto, crescimento anual da despesa do Estado acima da subida das receitas e quase o dobro da taxa de crescimento económico, explosão da dívida pública (de 80000 para 600000 contos, entre 1850 e 1890 – correspondendo a 70% do PIB –, bastando os juros para consumir 60% da receita pública), importações sempre acima das exportações, crescimento do PNB sim, mas a afastar-se da média europeia.
“Cada vez que más colheitas obrigavam a mais importações, as remessas dos emigrantes (brasileiros) diminuíam ou o acesso ao crédito externo se tornava mais difícil, devido a crises financeiras internacionais, havia aflição em Lisboa”.
Lembra-vos alguma coisa? Pois.

Havia contudo umas diferenças de pormenor: a carga fiscal podia subir, pois representava apenas 4.4% do PIB, havia taxas alfandegárias para aumentar e o poder de desvalorizar a moeda ou imprimir dinheiro. E esses expedientes a gente já não tem.
Uma chatice.

* Muito antes do país do betão do Cavaco, houve o Portugal do macadame de Fontes Pereira de Melo, que rasgou vias férreas (Porto-Lisboa passou de 7 dias de diligência para 8 horas de comboio), pontes, túneis e estradas pelo país. Disse o Estadista “Tudo stá contente. O povo está feliz, quer estradas e nada mais”...

sábado, 3 de julho de 2010

BOA GOVERNANÇA


Compreendo que seja necessário apertar o cinto. Pois não é verdade que Portugal vive acima das suas possibilidades?

Pegue-se no Sol de ontem e veja-se como o dinheiro é bem gerido.
1. Armando Vara demite-se (não foi demitido) do BCP, porque o processo judicial em que está envolvido nunca mais desanda. Mas sai com os salários até ao fim do seu contrato (Dezembro), 250 mil euros, sabe-se lá porquê.
2. Os deputados insulares têm direito ao pagamento de deslocações semanais às ilhas, em classe executiva, num valor que oscila entre 636 e 808€. Mas não precisam apresentar nenhum comprovativo, até podem ficar por Lisboa. É que também recebem ajudas de custo diárias, pois estão longe de casa.
3. O relatório anual de combate à fraude e evasão fiscal e a Conta Geral do estado de 2009 traz conclusões animadoras: 306 fundações receberam subsídios de 167 milhões de euros, mas não é assegurada a prestação de contas sobre o destino do dinheiro; em 17% dos organismos públicos auditados houve ajustes directos sem fundamento legal, e em 30% foram pagas ajudas de custo suplementares não conformes ou justificadas; os administradores da parque Expo recebem há 10 anos uma gratificação mensal ilegítima e regalias indevidas;o Estado deixou prescrever 573 milhões de euros de dívidas fiscais.
4. As piscinas municipais (de luxo) de Campo Maior estão fechadas, porque a câmara não tem como pagar os custos de manutenção (12 milhões de euros até 2025), mas mesmo que queira cessar o contrato, tem que pagar a totalidade das rendas. Ah, só houve um concorrente, o concurso não foi publicitado, não houve visto prévio, o terreno público foi cedido durante 20 anos por 175m€, sem que o valor fosse fundamentado, a obra demorou mais 2 anos que o contratado. O ex-presidente da câmara fez um contrato leonino... para a construtora privada.
5. o Tribunal de contas vetou, em 2009, 57 actos ou contratos no valor de 3.400 milhões de euros, 32% das despesas submetidas a visto. Foram analisados 2386 processos, no valor de 10.800 M€, i.e., foram vetados (as) grandes empreitadas.
6. O ministério da Justiça fez novas contas relativamente à construção de 10 prisões e remodelação de 3. Afinal não vai custar 450, mas 760 milhões de euros. No mínimo, não se despede quem fez a conta de mercearia errada?

Sim, pelo menos alguns portugueses vivem acima das possibilidades.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

(FALTA DE) NOTÍCIAS EM DIRECTO


A competição das televisões e das rádios pelas notícias obriga-as a directos intermináveis, onde verdadeiramente "se enche o chouriço", i.e., esmiuça-se o irrelevante.
É assim nas cerimónias, em que os locutores dissertam sobre a ementa, os vestidos e a meteorologia, ou entrevistam "os populares" que fazem cordões humanos para bisbilhotar a malta conhecida do ecrã.

Mas, na falta de notícias, também se ocupa a antena com os preparativos.
Há semanas foi o Papa. Dias antes do Santo Padre chegar, já não o podia ver. Era a entrevista ao designer do logótipo, às senhoras que coziam as batinas dos párocos, ao comissário da visita sobre o percurso do papamóvel. Eram os sapatos vermelhos do papa (que, afinal, não são Prada), era o estóico quarto onde o senhor iria pernoitar, era o diabo que o carregue.
E foi o acompanhamento ao minuto dos 4 dias de visita. A tarefa é mais difícil na rádio, não há imagens para distrair. Ouvi na TSF, por mero acaso, a chegada do avião a Lisboa: "O Santo Padre agarra o corrimão para descer a escada... afinal, vai descer sem apoio..." Isto é notícia???

E pronto, agora é o Mundial. Quatro motas (1 delas com atrelado para o câmara) e 2 helicópteros seguiram a camioneta dos jogadores - com vidros fumados, diga-se - até ao aeroporto. Com direito a paragem na bomba da Galp e na festa do Modelo, que isto dos patrocínios tem obrigações.
E assim passaram duas horas de directos em todas as rádios e televisões.
Mas alguém quer saber se o Nani gosta de bacalhau, ou a que horas os jogadores jogam playstation?

quarta-feira, 28 de abril de 2010

VENDE-SE TERRENO COM BONS ACESSOS



A despropósito, alguns alemães propuseram que a grécia venda algumas das suas muitas ilhas para diminuir a dívida pública.
As berlengas ou as selvagens servem para alguma coisa? E a Ponta do Sol? E a ilha de Faro?
Podíamos, no mínimo, dar Olivença a preço de rebajas e não se falava mais nisso. Ou expropriar o estádio do dragão e vendê-lo ao Celta de Vigo, para campo de treinos.
Ou vender a residência oficial do Sócrates ao Corte Inglês, ele depois desenhava uma casa mais arejada com mezzanine.