...e depois, com bigodes de leite, pedem mais paciência e esforço ao povo, que a "vaca 'tá seca".

sexta-feira, 13 de maio de 2011

A ROSTRA E A ROCHA TARPEIA


Faz 10 anos, a minha ida à Roma antiga foi uma viagem à memória.
O Coliseu ainda vá, está de pé, mas já não tem as centenas de estátuas e o chão está esventrado. Já as milionárias domus do monte palatino são buracos com uma pedra aqui e outra ali (ainda assim deixando boquiabertos os turistas americanos, para quem 200 anos é pré-história) e o circo maximo é apenas um imenso terreiro.
Mas eu queria mesmo era ver o bairro plebeu da Subura e o forum (ou fora, há pelo menos dois), o centro do mundo durante séculos, que conhecia dos livros de história ou dos policiais do Gordiano o conquistador.

Nada disso, nada de togas brancas e púrpura, escadas de mármore reluzente ou paredes coloridas.
Ainda há pedras ordeiramente empilhadas, várias colunas, troços de ruas, um obelisco e alguns arcos triunfais, tudo o resto foi imaginação, uma espécie de lego mental: aqui era o templo das vestais, ali a basílica Júlia, além o templo de Castor e Polux, do outro lado estava a estátua de Vénus, erguida por Júlio César, que dizia ser seu descendente.
E foi quase um caso de peritagem dos escombros, tentar encontrar 'aquele' bocado de parede com uns buracos, a ossada da ROSTRA, a plataforma onde os oradores (magistrados, políticos, advogados, ...) se colocavam, virados para o lado norte do Comitium, na direcção do Senado, e falavam aos romanos - um people's corner. Já agora, o nome deve-se aos seis arietes de navios capturados na vitória de Âncio (338 a.c.), ali pregados.

E no monte Capitolino,  o berço de Roma onde se instalaram os filhos da loba (e onde os gansos se tornaram sagrados, ao avisarem os resistentes, aqui sitiados, do assalto gaulês), agora há edifícios quinhentistas, saídos do estirador de Michelangelo, e igrejas.
Nada de Templo de Júpiter, de prisão mamertina (onde morreu Vercingetórix) ou de rocha Tarpeia - a base da escarpa para onde eram atirados as virgens vestais pecadoras (quando não eram enterradas vivas), escravos criminosos, adversários políticos ou quem prestasse falso testemunho.
Aliás, existe uma expressão que mostra como o poder é efémero,
"Do Capitólio à rocha Tarpeia não vai mais que um passo".

Era uma forma bárbara, agora a justiça faz-se nas eleições.
Aí sim podemos atirar fora os maus governantes, mentirosos crónicos, falsas virgens ofendidas, 'cônsules' que tenham empenhado Roma por muitos e longos anos.
Esses devem, sem remorso, ser atirados compulsivamente para a rocha tarpeia da reforma.
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2 comentários:

  1. Parece que estou a beber um refresco quando leio os teus textos, opiniões, contraturas, devaneios ou seja lá o que for. Um refresco daqueles mesmos bons, como aquelas limonadas caseiras feitas pela minha mãe, bem geladas em dias quentes.
    Como não quero estragar a tua prosa, resumindo: é bom rever-te e reler-te.

    Abraço,
    Gouveia

    PS: quero um e-moleskine como o teu.

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  2. desde que essas reformas sejam tão douradas como são negras qas nossas perspectivas...

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