...e depois, com bigodes de leite, pedem mais paciência e esforço ao povo, que a "vaca 'tá seca".

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

ANTÓNIO SOARES, PINTOR

Este mundo é pequeno. Na sala da minha mãe existe uma pequena reprodução dum quadro pintado por um meio-primo direito da avó dela, pessoa cuja casa no Chiado visitou - ficando fascinada com o sotão cheio de pincéis e telas gigantes. Do senhor, só recorda que tinha uma mulher loira, que fora a Londres retratar a irmã de Isabel II e que ia, volta-não-volta, jantar a casa do ditador de Santa Comba.
Bem, certo dia a empregada viu o retratado na tal reprodução e exclamou 'olha, este é o Dr. Mota Cabral, era médico em Valada'.

A única coisa que sabia dele era o nome - António Soares é a sua graça -, até que resolvi bisbilhotar. Ora aqui vai.
António Soares (Lisboa 1894-Lisboa 1978) foi ilustrador - debutou em público na II exposição de humoristas, em 1913 -, designer gráfico (entre outros, dos armazéns Grandella), pintor, arquitecto, decorador e cenógrafo. Em tudo, auto-didacta.
Segundo alguns, 'amigo dilecto' de Fernando Pessoa, Almada Negreiros e Mário de Sá Carneiro, foi um dos Modernistas: as suas obras têm uma mão bem medida de Columbano, uma pitada de arte deco (inspiração que colheu numa viagem a Paris), um cheirinho de Van Gogh, de Cézanne e dos expressionistas alemães. Dizem.
Soares foi responsável pelos painéis do Bristol Club e d' A Brasileira (foi o primeiro a ser convidado para decorar o renovado café, em 1923, sendo seguido por Eduardo Viana, Stuart Carvalhais, Almada Negreiros, ...), e tem quadros nas colecções do Museu do Chiado, Museu José Malhoa, Museu Soares dos Reis, Fundação de Serralves, Fundação Gulbenkian, Fundação IBM em Nova Iorque, Banco de Portugal, Assembleia da República, Palácio de Queluz e Paço de Vila Viçosa.
Considerado à época um dos 'poucos grandes pintores da actualidade', António Soares expôs na Europa, E.U.A. e Brasil, e venceu prémios da SNBA, do SNI (foi o único a bisar o prémio Columbano) e da Exposição Internacional de Paris de 1937. Natacha, destacadamente, e os retratos da irmã e de Maria de Mello Breyner, são talvez a sua contribuição maior para o modernismo português.
A partir de 1950, o pintor foi saindo da boca de cena, aproximando-se do naturalismo que, enquanto modernista, renegara.
E hoje só é conhecido por marchands et connaisseurs. Bem cotado, porém.

 Ilustração Portuguesa (1921) 
Capa do livro Leviana de António Ferro (1921) 
Sem título (1922, CAM - Fundação Calouste Gulbenkian)

Quarta-feira de Cinzas, Bristol Club (1925)
Camões 
 Natacha (1928, CAM - FCG) 
Retrato de Maria de Mello Breyner (1932, CAM - FCG) 
Figuras femininas (1930) 
 No Terrasse do café des Plaires (c.1920-1930, Museu do Chiado)
Ponte D. Luis, panorama da Ribeira-Porto (1935, CAM - FCG) 
Retrato da irmã do artista (1936, col. MNAC - Museu do Chiado)
Pierrot (1944,  Museu do Caramulo)
 Menino nu (1955-56)
Rossio cosmopolita (1969)
- autoria negada pela sobrinha -

mais informação em http://www.mestreantoniosoares.org/

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

O SENHOR BISCAIA

Francisco de Goya, Maja nua

Se não fosse o senhor Biscaia ainda hoje estava no mesmo sítio ao balcão da perfumaria. Foi ele quem me pagou o arranjo dos dentes, me mandou endireitar o nariz e me pôs a dirigir a boutique para ter uma vida decente: como podia ser ingrata, com podiam os meus pais ser ingratos? Ainda por cima o apartamento em meu nome, mobilado, e por não ser ingrata é que tenho o retrato dele na sala, na estante da enciclopédia, junto ao bar com as garrafas de licorzinho de laranja que o estômago do senhor Biscaia é sensível e de vez em quando vem cá para uma conversa, uns conselhos, opiniões de amigo de quem tem mais experiência da vida que eu, sempre fui uma ingénua de olhos tapados e qualquer pessoa me engana. O senhor Biscaia passa na boutique de tempos a tempos, verifica as contas, auxilia-me, quando é preciso discute com os fornecedores e equilibra o orçamento. Discute é uma forma de dizer porque o senhor Biscaia não discute, propõe e se o senhor Biscaia propõe as pessoas aceitam. Tem uma forma de resolver os assuntos sem levantar a voz que cala toda a gente. E ao ir-se embora fica um silêncio de respeito que dura a tarde toda. A esposa, coitada, sofre de um problema na coluna, nunca o acompanha. Informaram-me que é uma senhora filha de gente rica, e ao princípio foi ela que ajudou o senhor Biscaia a colocar os negócios nos eixos. Por consideração pela doente o senhor Biscaia não tira a aliança nem passou, nos cinco anos que isto dura, uma noite comigo. Vai a seguir ao jantar, e sou eu quem lhe faz o nó da gravata por ter mão para essas coisas e o nó da gravata ser um enigma para ele depois do quinto cálice de licor de laranja. O senhor Biscaia levanta-se do sofá, informa
- Lá vou eu para o patíbulo
ajudo-o a chegar ao elevador e fico à janela a ver o carro galgar passeios até à esquina. Suponho que depois da esquina se aguenta mais ou menos: que me lembre nunca vi o senhor Biscaia com um cotovelo em gesso. A caminho do patíbulo entala-me meia dúzia de notas no cinzeiro para uma aflição que o dia de amanhã não se sabe o que traz, os meus pais dedicam-se a envelhecer e as farmácias e as consultas andam pela hora da morte. Com a reforma que lhe entregam sou eu que dirijo o barco e o senhor Biscaia, sensível e atento aos problemas dos outros, remedeia a questão.
Apesar do reconhecimento que lhe devo não sou capaz de o tratar por Artur: habituei-me ao senhor Biscaia e não merece a pena insistir comigo que do Biscaia não saio. Sustenta que lhe cria dificuldades eu dizer
- Senhor Biscaia
nos momentos em que estamos, para assim me exprimir, mais próximos, uma vez ele na poltrona e eu no braço da poltrona, outras na cama de estilo, cheia de enfeites que dão um trabalhão a limpar, coisas torcidas, roscas, conchas de cedro, cornucópias, um frasco inteiro de óleo para deixar aquilo em condições, o senhor Biscaia
- Não me trates por senhor Biscaia que não reajo
bem tento suspirar
- Artur
mas não me sai, ou seja o suspiro ainda consigo e no entanto o
- Artur
encrava-se, para mim o senhor Biscaia não tem cara de Artur, tem cara de senhor Biscaia, a autoridade, as feições, os cabelinhos puxados um a um de uma orelha a outra e que com o esforço se soltam, a placa dos dentes que ele ajeita com a língua a pedir
- Espera
ou com o polegar se a língua não chega e os molares de cima do senhor Biscaia misturados com os de baixo, ao cabo de meia hora de lingerie e trabalho o senhor Biscaia uma reacçãozinha que sempre é melhor que nada, eu quase a bater palmas
- Tão homem
e a reacçãozinha some-se, há-de haver comprimidos para desmaios destes e no entanto claro que não vou ofender o senhor Biscaia mencionando pastilhas, mudo de penteado, uso brincos compridos, encharco-me em água de colónia espanhola e o senhor Biscaia enervado com ele mesmo
- Que maçada
na esperança que o licor ajude e não ajuda, dizem que o marisco é garantido em casos de impossibilidades e eu pratinhos de camarões, percebes, o senhor Biscaia a irritar-se
- Tira-me isso daqui
e quando saio para mudar de soutien encontro-o de barriga para o ar na cama de estilo a fixar o tecto com ódio apesar dos óculos na mesa de cabeceira. Quando o senhor Biscaia tira os óculos fica mais nu que despido, parece outra pessoa, lá o distingo pela cicatriz da bochecha, o senhor Biscaia
- É escusado insistires
de maneira que fico ali a fazer-lhe companhia e a sentir as fervuras da decepção e da vergonha. Num esforço que só Deus sabe o que me custa alcanço um
- Artur
penoso numa última esperança e o senhor Biscaia, sempre tão educado, solta um
- Artur o caralho
que se deve ouvir na Junta de Freguesia a três quarteirões de distância. Não lhe levo a mal: se não fosse o senhor Biscaia ainda hoje estava no mesmo sítio ao balcão da perfumaria e essas atenções contam. Os meus pais ensinaram-me a ser reconhecida e sou, dou valor a quem se interessa por mim. A minha mãe não pára de avisar-me
- Não percas o Biscaia
(na altura dos conselhos esquece-lhe o senhor)
acrescenta depois de reflectir
- se perdes o Biscaia estamos feitos
e tem razão porque não há muitas pessoas com a bondade dele. Tem o seu feitio, quem não tem o seu feitio, volta e meia uns gritos, uns ciúmes, tudo quanto é homem olhado de banda, um empregado dele sempre a ver com quem converso e a declarar-me pelo canto da boca
- Quero-te fiel ao Biscaia
eu que sempre fui fiel ao senhor Biscaia. Deus me livre de meter aqui em casa um palerma qualquer cheio de reacção e de bolsos vazios, não ofendo quem me ajuda, sei pôr as pessoas no lugar e sei qual é o meu lugar, comigo o senhor Biscaia pode dormir em paz. No outro dia garantiu-me que se a esposa falecer casamos. Ao contar à minha mãe quase desmaiou de alegria. Para o ano o senhor Biscaia prometeu que lhes oferecia um andarzinho em condições, aqui perto dado que a minha mãe me ajuda na cozinha e no engomar da roupa e o senhor Biscaia gosta das casas asseadas. O meu problema é se ele adoece ou assim, um azar no fígado, um ataque. O melhor, cá na minha, é não pensar nisso e enfiar na ideia que o senhor Biscaia é eterno. Por esse lado estou descansada: a minha mãe tem relações com uma velhota com poderes e a velhota até a informou que uma tarde destas, quando menos se espere, o senhor Biscaia reage.
                              António Lobo Antunes, quarto livro de crónicas

terça-feira, 7 de agosto de 2012

FICA SABENDO

Ron Mueck, big man
    
      A VIDA É BREVE, 
      A ARTE É LONGA,
      A OCASIÃO FUGIDIA, 
      A EXPERIÊNCIA ENGANADORA, 
      O JUÍZO DIFÍCIL.
      Hipócrates, Aforismos
.

domingo, 5 de agosto de 2012

UMA BARRIGADA DE HALSMAN

Não sei se Philippe Halsman é o maior fotógrafo do século XX, mas será um dos retratistas mais bem sucedidos da época: do seu portefólio fazem parte 101 capas da revista LIFE, JFK, Nixon, Churchill, Chagall, Picasso, André Malraux, Le Corbusier, Luis Armstrong ou Marilyn Monroe. E pôr os Duques de Windsor aos pulos não é para qualquer um.
A parceria mais duradoura de Halsman foi com Salvador Dali - 37 anos, desde 1941 até à morte do fotógrafo, em 1979. O resultado mais famoso foi a colectânea Dali's Mustache, de 1954, com 36 perspectivas do bigode do pintor surrealista.
Provavelmente quase ninguém ouviu falar nele, mas quem não conhece pelo menos uma das suas fotografias mais icónicas?

CV: nasceu na Lituânia em 1906, estudou engenharia electrotécnica na Alemanha, foi preso na Áustria em 1928, por parricídio (o pai morreu quando passeava com ele nos Alpes), iniciou-se na fotografia em França, de onde fugiu em 1940, durante a invasão nazi, obtendo um visto de entrada nos EUA com a ajuda de um amigo da família, um tal de Albert Eisntein.

Albert Einstein 1947
  Elizabeth Taylor 1948
  Marlon Brando 1950
  Winston Churchill 1951
  JFK 1952
 Marinyn Monroe 1952
 original de 1952 e edição de 1981 (mao marilyn)
 Alfred Hitchcock 1962
Barbra Streisand 1965
 Louis Armstrong 1966
 Woody Allen 1968
 Andy Warlhol 1968


 1946
 Dali Atomicous,  1948
 1949

 In Voluptas Mors, 1951

 Eye Prism
  


 Dali with Rhinoceros, 1956 (edição de 1981)

Capa de Dali's Mustache, 1954