...e depois, com bigodes de leite, pedem mais paciência e esforço ao povo, que a "vaca 'tá seca".

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

PASSA AÍ A PIMENTA


'Família é prato difícil de preparar. São muitos ingredientes (...) Há famílias doces. Outras, meio amargas. Outras apimentadíssimas. Há também as que não têm gosto de nada, seria assim um tipo de Família Dieta, que você suporta só para manter a linha. Seja como for, família é prato que deve ser servido sempre quente, quentíssimo. Uma família fria é insuportável, impossível de se engolir (...) Aproveite ao máximo. Família é prato que, quando se acaba, nunca mais se repete.'
Em O Arroz de Palma, de Francisco Azevedo

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

7 MIL MILHÕES DE OUTROS


A fundação EDP tem uma exposição sui generis chamada ‘7000 milhões de outros’, respostas sucintas de mais de 6000 pessoas, de 84 países, às mesmas 45 perguntas.
É engraçado como, do Montenegro ao Mali, do México ao Afeganistão, somos todos iguais (prova, a sucessão de gente que, em criança, gostava de ser piloto) e tão diferentes - à pergunta ‘O que é que o chateia?’, respostas à miss universo (ganância, estupidez, injustiça, fome, atirarem o lixo pela janela do carro) são mescladas com outras mais pessoais (a artrose, comer pouco e engordar, ter visto o pai a bater na mãe, ou uma viúva palestiniana a quem censuram sair à rua ou querer usar roupa menos ortodoxa).
Sobre as lembranças mais antigas, aparecem respostas giras: o aldeão maliano que se lembra duma praga de grilos que destruiu as sementeiras, sustento da família, o francês de Nantes, cuja irmã avisava da chegada dos aviões nazis antes das sirenes, ou o canadiano que dizia que o papá não era o senhor que chegara da guerra da coreia, esse tinha o cabelo branco e o papá da fotografia, que beijava todas as noites, não.  
Houve quem dissesse que era feliz porque tinha água, quem apresentasse uma solução genial – tenham menos problemas! -, quem quisesse comer até não poder mais, para nunca mais ter fome, e quem (a minha preferida) afirmasse que, se voltasse atrás, faria tudo igual, só que com outro marido.
Também há testemunhos nacionais: uma senhora, julgo que sobre imigração, disse ‘O nosso país está cheio de toda a gente’, uma frase involuntariamente maiúscula, outro assumiu que era calão, e por isso ria muito, porque rir envolve poucos músculos, e uma cara feia usa muitos mais.
Na secção ‘medos’, ao natural receio da solidão, apareceu uma sequência gira: um peruano disse ter medo que Deus não exista, o seguinte disse que o seu medo era que Deus exista…
Eu sou como o outro que quer uma barrigada, para não ter mais fome - o meu FDS lisboeta chegou para ver outras 2 exposições temporárias imperdíveis: Tesouros dos palácios reais espanhóis, na Gulbenkian (como uma abelhinha, andei a rondar uma guia da casa e o seu bocejante grupo; notas, os habsburgos e os bourbons eram feios com otudo, e o Escorial está cheios de tesouros lusos pilhados pelos filipes) e parte do espólio de Franco Ricci (no MNAA), um colecionador italiano que vai abrir o seu próprio museu em Parma, no próximo ano.
3 gostosas sugestões, digo eu.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

BENGALADAS

Soares até pode dizer que Sócrates foi um PM exemplar, protestar contra a austeridade (esquecendo os 'furos no cinto' do seu governo) e acusar o PM francês de querer deitar fora o socialismo (há 30 anos, dizia-se que ele tinha posto o socialismo na gaveta...).
Já parece um bocado trauliteiro dizer que o governante francês 'é uma besta' e que é quem 'atira mais às trombas' do governo português, que já disse ser ilegítimo e composto por idiotas, ignorantes e, alguns, delinquentes que devem ser julgados quando saírem. Pode não ser da idade (a hipótese mais benigna), mas a sua grosseria tem aumentado com ela.
Soares afirma na entrevista que é um 'cidadão especial', pelos cargos que desempenhou e pelas coisas que fez, mas, mesmo com o respeito que o senhor merece e o apreço pelo seu passado longínquo (nos idos de 1975), não é inimputável.
Para rematar, acho mal fazer de Calimero, mas há mesmo uma dualidade de critérios, fosse um gajo de direita a dizer metade dos dislates, e caia-lhe o mundo em cima - a talhe de foice, Daniel Oliveira é muito escrupuloso (e bem) a defender a presunção de inocência de Sócrates, mas já o ouvi a dizer graçolas sobre Dias Loureiro e os outros 'amigalhaços' do Cavaco, e esses também (ainda) não foram condenados...

Prova do seu destempero, entre alguns elogios, Soares comentou a morte de Eusébio dizendo que ele 'era um homem com pouca cultura, mas não se estava à espera que fosse um pensador' e que 'não sabia nada que ele estava doente, sabia que ele bebia muito whisky, todos os dias, de manhã e à tarde, isso eu sabia, mas julguei que isso não lhe fizesse assim mal'. I rest my case. 
 
 

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

VERDADE VERDADINHA


'QUEM NÃO ESTÁ NA MESA, ESTÁ NO MENU.'

Alfredo Valladão, professor da Escola de Relações Internacionais de Paris, dissertava sobre os BRIC na 1ª Conferência de Lisboa (Fundação Gulbenkian, 3.12.2014), mas a sua frase é tão abrangente quanto intemporal.

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

PEOPLE V. SÓCRATES



Ninguém ficou indiferente à detenção de Sócrates: metade dos portugueses, que não vai à bola com o mestre em filosofia, achou laracha (incluindo Cavaco, para quem, melhor, só jaquinzinhos fritos); 1/3 ficou perplexo com a abordagem ao suspeito e o respectivo aparato mediático; 1/10 discutiu as implicações políticas, que serão usufruto do argumentário anti-sistema (‘estamos entregues aos bichos, isto só lá vai com uma limpeza geral') e prejudicam um PS alheio à marotice (como defender o legado do seu último governo, sem falar de Sócrates, tão inominável como Voldemort?); 1/10 ficou furioso, os que consideram o caso mais um passo na campanha negra contra o ex-PM, a juntar às outras histórias mal contadas (Cova da Beira, Freeport, a desejada compra da TVI, o 'patrocínio' do apoiante Figo, a duplicação de declarações curriculares no parlamento, a turbo-licenciatura ao domingo,…).
Mesmo com o risco de beliscar a sua Auctoritas (por isso, nenhum árbitro discute as suas decisões), é imperioso que o Juiz do TIC explique aos 4 cidadãos detidos, e aos portugueses, porque é que foi necessário deter um ex-PM na manga de um avião (à chegada) e porque é que os manteve detidos 4 dias, sem comunicação de medidas de coação. Caso contrário, o processo usado pode ser visto como uma leviana prova de força, de quem julga ter o rei na barriga.
Os exageros (como a detenção em casa de Ricardo salgado, depois dele se ter oferecido para comparecer) só mancham o bom percurso dos últimos anos: se antes a Justiça tinha apenas a mostrar como prova de independência Vale e Azevedo, Cruz e uns presidentes da câmara nortenhos, agora já tem no curriculum as condenações de ex-governantes (Isaltino, Vara, Penedos, Maria de Lurdes Rodrigues) e as detenções dum ex-líder parlamentar (Duarte Lima), dos banqueiros do BPN, BPP e BES e, há dias, do director do SEF e do presidente o IRN. Uma verdadeira escalada.
 
Quanto ao resto, o caso People v. Sócrates (como diriam os americanos) é uma lose-lose situation: ou acaba tudo em águas de bacalhau, inconclusivo ou prescrito, e as dúvidas se eternizam; ou Sócrates não tem culpas no cartório e a humilhação não tem conserto (para o que concorre a divulgação mediática duma avalancha de ‘factos’ que podem não sê-lo); ou, na hipótese menos má para as instituições, prova-se que Sócrates se abotoou com 25 milhões de euros de forma ilícita, e entregámos o país, durante anos, a um irmão metralha.
Daniel Oliveira disse presumir a inocência de Sócrates, bem como a competência e boa-fé do juiz.
Formalmente, eu também. Mas só um deles tem razão, e que não tarde demasiado a saber-se qual.   

domingo, 23 de novembro de 2014

LEVANTADOS DO CHÃO

'A figura de Ti Maria do Rosário, dobrada e trêmula, torna-lhes mais penoso o trabalho. Cada um conhece nela o futuro que lhes baterá à porta um dia. O futuro atabafa-lhes o peito, mais do que o ar ardente que queima os pulmões.'
Alves Redol, Gaibéus
 
As imagens do economista e fotógrafo amador Aníbal Sequeira (Castelo Branco, 1937) não são do povo da lezíria do Tejo, retratam quase sempre as gentes da sua Beira Baixa, mas fazem lembrar os livros de Alves Redol e Soeiro Pereira Gomes, sem a opressão laboral que inspirou os neorrealistas - uma labuta dolorosa, dia sim, dia sim, ano sim, ano sim, até ao ocaso da vida.
Parece que não, mas este país ainda existe, só que agora com telemóvel.
 

 

Apanha Fé

 

 
 
A Poeira do Caminho
 
Campesina


A Roda

O Elogio do Trabalho

 

Álea Luminosa

 

Cooperação

 

 

O Seu Pequeno Mundo

Desolação

Ponte do Pragal

Praia do Pisco

De Manhã à Beira-mar

Símbolo

Vida Gasta

Boina Preta

sábado, 22 de novembro de 2014

WILLY RONIS, O 3º MOSQUETEIRO

Numa das últimas entrevistas a Willy Ronis (1910-1999), chamaram-lhe o 3º mosqueteiro de Doisneau e Boubat. O fotógrafo parisiense, filho dum ucraniano e duma lituana fugidos aos progroms, debutou na revista comunista Regards, entrou na agência Rapho (onde estavam Doisneau e Brassaï)  e foi o 1º francês a trabalhar para a Life. À sua colaboração na revista de moda Vogue, nas antípodas das suas fotorreportagens de greves e ocupações, chamou divertida.
Captando o quotidiano e o 'instante', que disse ser quase demasiado bom para ser verdade, Ronis registou com certa candura a joie de vivre das pessoas simples, apesar das dificuldades da vida (à composição pictórica das suas imagens não será estranha a sua formação musical) - alguém escreveu que ele não se ofenderia se lhe chamassem o imperador do banal, outro alguém lhe chamou o mais poético fotógrafo das classes baixas do século XX.
Quase toda a sua obra (mais de 90.000 fotografias, nas suas contas) tem como cenário Paris e a provença, e como actores o filho Vincente e a mulher Marie-Anne, protagonista de 2 das imagens mais conhecidas, o 'nú provençal' e, já doente com alzheimer, num parque em ocaso.
Descobri o seu nome no Fotografia Total de hoje, dedicado aos direitos de autor dos fotógrafos e dos fotografados. Curiosamente, uma das suas imagens icónicas tem a ver com isso: Ronis procurava uma maneira original para fotografar o pão parisiense, e engraçou com um miúdo que achara na fila duma padaria - pediu licença à avó da criança, para retratá-lo a correr com a baguete de baixo do braço, à saída da loja. Se é isso que quer, porque não?, foi a resposta. A foto custou 3 corridas ao rapaz, uma encenação inabitual na obra do 'poeta do quotidiano', como o alcunharam uns amigos. 
  
 
 
1938. Grève chez Citröen

1945. Les retours des prisonniers

1945. Vincent écrit son nom

1948. Dessous de l'Opera
 
1948. Mannequins

1949. Le Nu provençal, Gordes
(sa femme Marie-Anne Ansiaux)
1949. Vincent aéromodéliste, Gordes



1951. Autoportrait

1951. Béguinage de Bruges, Belgique

1952. Lens, Pas-De-Calais

1952. Le petit parisien, Paris

1952. Place de la Concorde, Paris

1952. Marie Anne et Vincent dans la niege

1954. Lorraine en hiver

1954. BrassaiÌ à jouer pinball

1954. Les chats, Paris

1954. Les chats, Paris

1955. Café française à Soho, Londres

1957. Les Amoureaux de la Colonne Bastille

1963 ca. Les adieux du permissionaire

1967. Zoo de Berlin Est

1970. Lu Nu au Polo Raye

1979. RER Châtelet-les-Halles
 
1988. La veille dame dans un parc
(sa femme Maria-Anne, avec Alzheimer)


sugestões, http://www.theguardian.com/artanddesign/2009/sep/16/willy-ronis-obituary
              http://www.theasc.com/blog/2010/08/23/willy-ronis-%E2%80%9Cemperor-of-the-banal%E2%80%9D/