...e depois, com bigodes de leite, pedem mais paciência e esforço ao povo, que a "vaca 'tá seca".

domingo, 22 de fevereiro de 2015

MANGA DE ALPACA

 
UM PAÍS TEM QUE GOVERNAR-SE
COM CONTABILIDADE,
NÃO PODE GOVERNAR-SE
POR CONTABILIDADE.
Fernando Pessoa, 1932-33

sábado, 21 de fevereiro de 2015

FRIENDHOOD

Garçon sur Planche a Routlettes, 1952, Sabine Weiss
 
SE OS LAÇOS FAMILIARES NÃO SE ESCOLHEM -
O SANGUE É UM MAU INDICADOR DE AFINIDADES -,
JÁ A AMIZADE SE BASEIA EM PERCURSOS COMUNS,
CONFIDÊNCIAS AVULSAS E SOBRETUDO NUMA
WELTANSCHAUUNG SEMELHANTE.
Maria Filomena Mónica, Expresso 21.02.2015
 

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

É FAVOR NÃO INCOMODAR


'A FELICIDADE SUPREMA
É NÃO SER INCOMODADO.'
Georges Clémenceau

A resposta do estadista francês a George Sylvester Viereck, publicada na revista Liberty (7/7/1928), ficava bem debruada com a imagem dum livro, um jarro de sangria e uma esplanada soalheira.
Mas do que me lembrei foi das 'meninas' de Romina Ressia, que têm uma particularidade, além da provocada incoerência dos adereços: o semblante impaciente das donas, de quem está a fazer um frete.
Fosse Clémenceau português, e o que pediria era sopas e descanso. 










domingo, 25 de janeiro de 2015

AND NOW, FOR SOMETHING COMPLETELY DIFFERENT (?)

 
O axioma medieval 'Graecum est, non legitur' (é grego, não se lê) nunca fez tão pouco sentido como hoje, as eleições gregas interessam a todos.
O povo decidiu, está decidido. Como disse Pedro Mexia, a Grécia é aquele que entra primeiro no quarto escuro e vai batendo com as canelas nos móveis, os seguintes já vão menos às cegas. Foi assim com o resgate, é agora com a eleição da esquerda radical, cada vez mais moderada, por realismo ou tacticismo, seja na suspensão unilateral do pagamento da dívida e negociação para o seu cancelamento (impagável, mesmo após o perdão de metade dela, em 2011), na saída da OTAN, na nacionalização da banca (tudo no programa de 2012) e na crença do euro, que nem sempre existiu – Lafazanis, líder dum dos partidos do Syriza, quer mesmo o abandono da moeda.
Facto é que só o desespero conduziu a esta solução, um último ‘cartucho’ usado mais por cansaço que com entusiasmo: o Syriza passou em 5 anos de 4,6 para 36% (enquanto o socialista Pasok desceu de 43,9 para 4,8%) porque o que há não serve e, pensam os gregos como o Tiririca, pior que está não fica.
Ganhar foi o mais fácil. Agora se verá se a Coligação da Esquerda Radical honra o cartaz de 2007 e torna possível o impossível, ou cai na real – não espere que lhe continuem a emprestar dinheiro no dia em que decida não pagar o que deve, sem primeiro convencer os credores (os outros europeus) que isso também lhes interessa, e sem que estes imponham condições… austeras.
Talvez mais cedo que tarde, Tsipras (acossado pelos seus companheiros mais puristas, os falcões desagradados com um governo ‘redondo’) não consegue aumentar salários, pensões, apoios sociais e investimento sem cortar noutras despesas ou aumentar receitas, e descobre que o seu possível é impossível para os gregos.
Se correr bem, é bom para os gregos (e alumia os que vêm atrás, no escuro); se correr mal, é vacina para as outras quimeras radicais europeias.

* conta a lenda que Ariadne, filha do Rei Minos, deu um novelo de linha ao seu apaixonado Teseu, quando este entrou no labirinto do Minotauro, para ele conseguir achar o caminho de volta. Na Lógica, o fio de Ariadne consiste na escolha duma alternativa não marcada como fracassada e segui-la logicamente até onde for possível; se não resultar, volta-se à última decisão tomada, que se regista como fracassada, e tenta-se outra opção. Caso não exista, anda-se para trás até encontrar uma decisão com alternativas e segue-se por uma delas. Está visto, a solução para a Grécia sair do buraco é a mitologia e algoritmos.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

YANN ARTHUS BERTRAND, NÃO TEM DE QUÊ

Yann Arthus Bertrand, o autor da exposição '7 mil milhões de outros', no Museu da Eletricidade, é um francês especial. Também dedicado ao vídeo - porque, como disse, só um pequeno grupo de pessoas, como Sebastião Salgado, pode viver da fotografia -, Yann é em primeiro lugar fotógrafo, e um bastante despretensioso: como disse na entrevista ao Fotografia Total, as suas fotos não têm direitos de autor, se não usadas com intuito comercial, e Yann até fica contente quando uma das suas imagens é publicada na internet.
Seja, é com prazer que faço Yann feliz 22 vezes, com imagens suas das séries Terra vista do Céu, Cavalos e As bestas e os homens. Repito, não tem de quê.

Cemitério americano a norte de Verdun, Meuse, França

B-52s na base aérea Davis-Monthan perto de Tucson, Arizona, E.U.A.

Ossos de baleia Beluga, Van Keulenfjorden, Ilha Spitsbergen, Svalbard, Noruega

Colunas de Buren, Palais-Royal, Paris, França


Fardos de algodão, Thonakaha, região do Korhogo, Costa do Marfim

Colheita de algodão perto de Banfora, Burkina Faso

Caravanas de dromedários perto de Fachi, deserto de Ténéré, Niger

Madeiras flutuantes perto de Port-Gentil, província de Ogooué-Maritime, Gabão

Cemitério de tanques iraquianos no deserto próximo de Al Jahrah, Kuwait

Tapetes de Marraquexe, Marrocos

Campas modernas num cemitério em Asyut, vale do Nilo, Egipto

Monumento aos Descobrimentos na margem do rio Tejo, Lisboa, Portugal

Planisfério da exposição “Earth from Above” na Plaza Santiago R. Palmer em 2007, Caguas, Porto Rico

Salinas em Alexandria, Egipto

Piscina na Universidade de São Paulo, São Paulo, Brasil

Tractor num campo próximo de Bozeman, Montana, E.U.A.

Estaleiro de Ulsan, Coreia do Sul

Desperdícios da estação de dessalinização em Al-Doha, região de Jahra, Kuwait

Yankee Stadium, NY, E.U.A

Barcos em Kalaban Koro, subúrbios de Bamako, Mali
 
série cavalos
série 'des bétes & des hommes'
 

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

PASSA AÍ A PIMENTA


'Família é prato difícil de preparar. São muitos ingredientes (...) Há famílias doces. Outras, meio amargas. Outras apimentadíssimas. Há também as que não têm gosto de nada, seria assim um tipo de Família Dieta, que você suporta só para manter a linha. Seja como for, família é prato que deve ser servido sempre quente, quentíssimo. Uma família fria é insuportável, impossível de se engolir (...) Aproveite ao máximo. Família é prato que, quando se acaba, nunca mais se repete.'
Em O Arroz de Palma, de Francisco Azevedo

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

7 MIL MILHÕES DE OUTROS


A fundação EDP tem uma exposição sui generis chamada ‘7000 milhões de outros’, respostas sucintas de mais de 6000 pessoas, de 84 países, às mesmas 45 perguntas.
É engraçado como, do Montenegro ao Mali, do México ao Afeganistão, somos todos iguais (prova, a sucessão de gente que, em criança, gostava de ser piloto) e tão diferentes - à pergunta ‘O que é que o chateia?’, respostas à miss universo (ganância, estupidez, injustiça, fome, atirarem o lixo pela janela do carro) são mescladas com outras mais pessoais (a artrose, comer pouco e engordar, ter visto o pai a bater na mãe, ou uma viúva palestiniana a quem censuram sair à rua ou querer usar roupa menos ortodoxa).
Sobre as lembranças mais antigas, aparecem respostas giras: o aldeão maliano que se lembra duma praga de grilos que destruiu as sementeiras, sustento da família, o francês de Nantes, cuja irmã avisava da chegada dos aviões nazis antes das sirenes, ou o canadiano que dizia que o papá não era o senhor que chegara da guerra da coreia, esse tinha o cabelo branco e o papá da fotografia, que beijava todas as noites, não.  
Houve quem dissesse que era feliz porque tinha água, quem apresentasse uma solução genial – tenham menos problemas! -, quem quisesse comer até não poder mais, para nunca mais ter fome, e quem (a minha preferida) afirmasse que, se voltasse atrás, faria tudo igual, só que com outro marido.
Também há testemunhos nacionais: uma senhora, julgo que sobre imigração, disse ‘O nosso país está cheio de toda a gente’, uma frase involuntariamente maiúscula, outro assumiu que era calão, e por isso ria muito, porque rir envolve poucos músculos, e uma cara feia usa muitos mais.
Na secção ‘medos’, ao natural receio da solidão, apareceu uma sequência gira: um peruano disse ter medo que Deus não exista, o seguinte disse que o seu medo era que Deus exista…
Eu sou como o outro que quer uma barrigada, para não ter mais fome - o meu FDS lisboeta chegou para ver outras 2 exposições temporárias imperdíveis: Tesouros dos palácios reais espanhóis, na Gulbenkian (como uma abelhinha, andei a rondar uma guia da casa e o seu bocejante grupo; notas, os habsburgos e os bourbons eram feios com otudo, e o Escorial está cheios de tesouros lusos pilhados pelos filipes) e parte do espólio de Franco Ricci (no MNAA), um colecionador italiano que vai abrir o seu próprio museu em Parma, no próximo ano.
3 gostosas sugestões, digo eu.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

BENGALADAS

Soares até pode dizer que Sócrates foi um PM exemplar, protestar contra a austeridade (esquecendo os 'furos no cinto' do seu governo) e acusar o PM francês de querer deitar fora o socialismo (há 30 anos, dizia-se que ele tinha posto o socialismo na gaveta...).
Já parece um bocado trauliteiro dizer que o governante francês 'é uma besta' e que é quem 'atira mais às trombas' do governo português, que já disse ser ilegítimo e composto por idiotas, ignorantes e, alguns, delinquentes que devem ser julgados quando saírem. Pode não ser da idade (a hipótese mais benigna), mas a sua grosseria tem aumentado com ela.
Soares afirma na entrevista que é um 'cidadão especial', pelos cargos que desempenhou e pelas coisas que fez, mas, mesmo com o respeito que o senhor merece e o apreço pelo seu passado longínquo (nos idos de 1975), não é inimputável.
Para rematar, acho mal fazer de Calimero, mas há mesmo uma dualidade de critérios, fosse um gajo de direita a dizer metade dos dislates, e caia-lhe o mundo em cima - a talhe de foice, Daniel Oliveira é muito escrupuloso (e bem) a defender a presunção de inocência de Sócrates, mas já o ouvi a dizer graçolas sobre Dias Loureiro e os outros 'amigalhaços' do Cavaco, e esses também (ainda) não foram condenados...

Prova do seu destempero, entre alguns elogios, Soares comentou a morte de Eusébio dizendo que ele 'era um homem com pouca cultura, mas não se estava à espera que fosse um pensador' e que 'não sabia nada que ele estava doente, sabia que ele bebia muito whisky, todos os dias, de manhã e à tarde, isso eu sabia, mas julguei que isso não lhe fizesse assim mal'. I rest my case. 
 
 

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

VERDADE VERDADINHA


'QUEM NÃO ESTÁ NA MESA, ESTÁ NO MENU.'

Alfredo Valladão, professor da Escola de Relações Internacionais de Paris, dissertava sobre os BRIC na 1ª Conferência de Lisboa (Fundação Gulbenkian, 3.12.2014), mas a sua frase é tão abrangente quanto intemporal.

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

PEOPLE V. SÓCRATES



Ninguém ficou indiferente à detenção de Sócrates: metade dos portugueses, que não vai à bola com o mestre em filosofia, achou laracha (incluindo Cavaco, para quem, melhor, só jaquinzinhos fritos); 1/3 ficou perplexo com a abordagem ao suspeito e o respectivo aparato mediático; 1/10 discutiu as implicações políticas, que serão usufruto do argumentário anti-sistema (‘estamos entregues aos bichos, isto só lá vai com uma limpeza geral') e prejudicam um PS alheio à marotice (como defender o legado do seu último governo, sem falar de Sócrates, tão inominável como Voldemort?); 1/10 ficou furioso, os que consideram o caso mais um passo na campanha negra contra o ex-PM, a juntar às outras histórias mal contadas (Cova da Beira, Freeport, a desejada compra da TVI, o 'patrocínio' do apoiante Figo, a duplicação de declarações curriculares no parlamento, a turbo-licenciatura ao domingo,…).
Mesmo com o risco de beliscar a sua Auctoritas (por isso, nenhum árbitro discute as suas decisões), é imperioso que o Juiz do TIC explique aos 4 cidadãos detidos, e aos portugueses, porque é que foi necessário deter um ex-PM na manga de um avião (à chegada) e porque é que os manteve detidos 4 dias, sem comunicação de medidas de coação. Caso contrário, o processo usado pode ser visto como uma leviana prova de força, de quem julga ter o rei na barriga.
Os exageros (como a detenção em casa de Ricardo salgado, depois dele se ter oferecido para comparecer) só mancham o bom percurso dos últimos anos: se antes a Justiça tinha apenas a mostrar como prova de independência Vale e Azevedo, Cruz e uns presidentes da câmara nortenhos, agora já tem no curriculum as condenações de ex-governantes (Isaltino, Vara, Penedos, Maria de Lurdes Rodrigues) e as detenções dum ex-líder parlamentar (Duarte Lima), dos banqueiros do BPN, BPP e BES e, há dias, do director do SEF e do presidente o IRN. Uma verdadeira escalada.
 
Quanto ao resto, o caso People v. Sócrates (como diriam os americanos) é uma lose-lose situation: ou acaba tudo em águas de bacalhau, inconclusivo ou prescrito, e as dúvidas se eternizam; ou Sócrates não tem culpas no cartório e a humilhação não tem conserto (para o que concorre a divulgação mediática duma avalancha de ‘factos’ que podem não sê-lo); ou, na hipótese menos má para as instituições, prova-se que Sócrates se abotoou com 25 milhões de euros de forma ilícita, e entregámos o país, durante anos, a um irmão metralha.
Daniel Oliveira disse presumir a inocência de Sócrates, bem como a competência e boa-fé do juiz.
Formalmente, eu também. Mas só um deles tem razão, e que não tarde demasiado a saber-se qual.   

domingo, 23 de novembro de 2014

LEVANTADOS DO CHÃO

'A figura de Ti Maria do Rosário, dobrada e trêmula, torna-lhes mais penoso o trabalho. Cada um conhece nela o futuro que lhes baterá à porta um dia. O futuro atabafa-lhes o peito, mais do que o ar ardente que queima os pulmões.'
Alves Redol, Gaibéus
 
As imagens do economista e fotógrafo amador Aníbal Sequeira (Castelo Branco, 1937) não são do povo da lezíria do Tejo, retratam quase sempre as gentes da sua Beira Baixa, mas fazem lembrar os livros de Alves Redol e Soeiro Pereira Gomes, sem a opressão laboral que inspirou os neorrealistas - uma labuta dolorosa, dia sim, dia sim, ano sim, ano sim, até ao ocaso da vida.
Parece que não, mas este país ainda existe, só que agora com telemóvel.
 

 

Apanha Fé

 

 
 
A Poeira do Caminho
 
Campesina


A Roda

O Elogio do Trabalho

 

Álea Luminosa

 

Cooperação

 

 

O Seu Pequeno Mundo

Desolação

Ponte do Pragal

Praia do Pisco

De Manhã à Beira-mar

Símbolo

Vida Gasta

Boina Preta