"Para certos republicanos a República tem sido um pé de cabra com que vêem aumentando os seus haveres." Senador João de Freitas, histórico republicano, in Boletim parlamentar do Senado, 11-06-1913
quinta-feira, 2 de outubro de 2014
sexta-feira, 26 de setembro de 2014
CAUTELA E CALDOS DE GALINHA
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| A Prudência, Palácio de S. Bento Raul Maria Xavier 1941 |
PRIMEIRO, GUTERRES E DURÃO
TIVERAM FALTA DE COMPARÊNCIA,
SANTANA TEVE FALTA DE VOCAÇÃO,
PASSOS JUNTOU-SE A SÓCRATES,
NA FALTA DE REPUTAÇÃO.
NA PRÓXIMA ELEIÇÃO,
VIRÁ NOVA EXCELÊNCIA -
AUDITE-SE JÁ ANTÓNIO COSTA,
POR PRUDÊNCIA,
ATÉ À QUARTA GERAÇÃO,
MAIS FILHOS, NETOS E O CÃO.
quarta-feira, 24 de setembro de 2014
MALCOVICH, MALCOVICH, MALCOVICH
Malcovich, Malcovich, Malcovich - Homage to Photographic Masters é o título duma exposição de Sandro Miller com 33 recriações de fotografias icónicas, na Catherine Edelman Gallery, em Chicago. Denominador comum, John Malcovich interpreta todos os papéis.
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| Albert Watson - Alfred Hitchcock (with Goose), 1973 / Sandro Miller, 2014 |
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| Alberto Korda - Che Guevara, 1960 / Sandro Miller 2014 |
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| Andy Warhol - Self-Portrait (Fright Wig), 1986 / Sandro Miller, 2014 |
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| Andy Warhol - Green Marylin, 1962 / Sandro Miller, 2014 |
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| Annie Leibovitz - John Lennon e Yoko Ono, NY 1980 / Sandro Miller, 2014 |
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| Arthur Sasse - Albert Eisntein Sticking Out His Tongue, 1951 / Sandro Miller, 2014 |
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| David Bailey - Mick Jagger Fur Hood, 1964 / Sandro Miller, 2014 |
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| Diane Arbus - Identical Twins, Roselle-New Jersey 1967 / Sandro Miller, 2014 |
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| Dorothea Lange - Migrant Mother, Nipomo-California, 1936 / Sandro Miller, 2014 |
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| Herb Ritts - Jack Nicholson (Joker), Londres 1988 / Sandro Miller, 2014 |
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| Irving Penn - Pablo Picasso, Cannes 1957 / Sandro Miller, 2014 |
Irving Penn - Truman Capote, New-York 1948 / Sandro Miller, 2014
Robert Mapplethorpe - Self Portrait, 1983 / Sandro Miller, 2014
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| Philippe Halsman - Salvador Dali, 1954 / Sandro Miller, 2014 |
Pierre et Gilles - Jean-Paul Gaultier, 1990 / Sandro Miller, 2014
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| Victor Skrebneski - Bette Davis, LA 8.11.1971 / Sandro Miller, 2014 |
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| Yousuf Karsh - Ernest Hemingway, 1957 / Sandro Miller, 2014 |
º º º º º
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| Imagem dum cartaz do filme Being John Malcovich, 1999 |
terça-feira, 23 de setembro de 2014
PROBIDADE

Primeiro, foi o verbo: a PGR recebe uma denúncia detalhada, contando que, entre 1997 e 1999, o deputado Passos Coelho (PC) recebeu um subsídio de exclusividade na assembleia da república, enquanto recebia €5000 mensais (depositados no Banco Totta & Açores) pagos pela Tecnoforma - PC era presidente do Centro Português para a Cooperação, uma ONG da empresa -, não declarados ao fisco. O fundador da Tecnoforma, Fernando Madeira, dissera que PC recebia pela sua colaboração, pois ‘o senhor não foi para ali pelos meus lindos olhos’.
Ontem, a
secretaria-geral da AR garantiu que PC não tivera qualquer regime de
exclusividade enquanto deputado (que justificaria mais 10% no salário) e reiterou hoje que não existe na AR uma declaração de exclusividade relativa ao período entre 1995 e 1999. Ufff.
Já Público
informa que PC pediu (e obteve) um subsídio de reintegração de €60.000 quando
saiu da AR em 1999, tendo em conta a sua exclusividade: lê-se no parecer da AR que PC 'veio posteriormente a informar desempenhou funções de deputado durante as VI e VII legislaturas em regime de exclusividade'. Durante a instrução do processo, PC apresentou cópias das declarações de IRS, onde constam, nos anos de 96, 97 e 99,
além do salário como deputado, ‘apenas’ actividade independente por
colaborações na imprensa e rádio – não considerados para efeitos de exclusividade. Ou seja, o seu
rendimento da Tecnoforma não aparece nas declarações fiscais.
Honra lhe seja feita, PC não nega que
tenha fugido ao fisco, o problema é a memória: ‘Não tenho presente todas as responsabilidades que desempenhei há 15
anos, 17 e 18. É-me difícil estar a detalhar circunstâncias que não me estão,
nesta altura, claras, nem mesmo nas supostas denuncias que terão sido feitas’. Compreende-se,
é um curriculum tão extenso, que se esquecem salários bojudos e se foram
declarados.
Pormenor, PC não diz que cumpriu, diz ‘tenho consciência e convicção de
ter cumprido sempre todas as minhas obrigações legais’. Acha, portanto.
A achar mal, tem graça que a sua prática de nos ir ao bolso já venha de
longe. Ironia maior era o seu comparsa no aumento colossal de impostos, Vitor
Gaspar, agora não pague impostos. Era não, é, os salários no FMI são tax free.
sexta-feira, 19 de setembro de 2014
O PASSADO É A TUA MOCHILA
TEM APENAS O QUE PUDERES CARREGAR CONTIGO.
CONHECE LÍNGUAS, PAÍSES, PESSOAS.
DEIXA QUE A TUA MEMÓRIA SEJA A TUA MOCHILA.
CONHECE LÍNGUAS, PAÍSES, PESSOAS.
DEIXA QUE A TUA MEMÓRIA SEJA A TUA MOCHILA.
Alexander Soljenítsin
quarta-feira, 17 de setembro de 2014
UMA QUESTÃO DE PERSPECTIVA
A VIDA É COMO A VOZ:
OUVIMOS A NOSSA
COM A GARGANTA
E A DOS OUTROS
COM OS OUVIDOS.
ad. ANDRÉ MALRAUX
LA CONDITION HUMAINE
Há Metafísica Bastante Em Não Pensar Em Nada
O que penso eu do mundo?
Sei lá o que penso do mundo!
Se eu adoecesse pensaria nisso.
Que ideia tenho eu das cousas?
Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?
Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma
E sobre a criação do Mundo?
Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos
E não pensar. É correr as cortinas
Da minha janela (mas ela não tem cortinas).
O mistério das cousas? Sei lá o que é mistério!
O único mistério é haver quem pense no mistério.
Quem está ao sol e fecha os olhos,
Começa a não saber o que é o sol
E a pensar muitas cousas cheias de calor.
Mas abre os olhos e vê o sol,
E já não pode pensar em nada,
Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos
De todos os filósofos e de todos os poetas.
A luz do sol não sabe o que faz
E por isso não erra e é comum e boa.
Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores?
A de serem verdes e copadas e de terem ramos
E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,
A nós, que não sabemos dar por elas.
Mas que melhor metafísica que a delas,
Que é a de não saber para que vivem
Nem saber que o não sabem?
«Constituição íntima das cousas»...
«Sentido íntimo do Universo»...
Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada.
É incrível que se possa pensar em cousas dessas.
É como pensar em razões e fins
Quando o começo da manhã está raiando, e pelos lados das árvores
Um vago ouro lustroso vai perdendo a escuridão.
Pensar no sentido íntimo das cousas
É acrescentado, como pensar na saúde
Ou levar um copo à água das fontes.
O único sentido íntimo das cousas
É elas não terem sentido íntimo nenhum.
Não acredito em Deus porque nunca o vi.
Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
Sem dúvida que viria falar comigo
E entraria pela minha porta dentro
Dizendo-me, Aqui estou!
(Isto é talvez ridículo aos ouvidos
De quem, por não saber o que é olhar para as cousas,
Não compreende quem fala delas
Com o modo de falar que reparar para elas ensina.)
Mas se Deus é as flores e as árvores
E os montes e sol e o luar,
Então acredito nele,
Então acredito nele a toda a hora,
E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.
Mas se Deus é as árvores e as flores
E os montes e o luar e o sol,
Para que lhe chamo eu Deus?
Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar;
Porque, se ele se fez, para eu o ver,
Sol e luar e flores e árvores e montes,
Se ele me aparece como sendo árvores e montes
E luar e sol e flores,
É que ele quer que eu o conheça
Como árvores e montes e flores e luar e sol.
E por isso eu obedeço-lhe,
(Que mais sei eu de Deus que Deus de si próprio?),
Obedeço-lhe a viver, espontaneamente,
Como quem abre os olhos e vê,
E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes,
E amo-o sem pensar nele,
E penso-o vendo e ouvindo,
E ando com ele a toda a hora.
Alberto Caeiro, O Guardador de Rebanhos, 08.03.1914
segunda-feira, 15 de setembro de 2014
REALMENTE
Nove soberanos europeus em Windsor, no funeral de Eduardo VII, 1910
Em pé, da esquerda para a direita: Haakon VII (Rei da Noruega), Ferdinand I (Czar da Bulgária), Manuel II (Rei de Portugal e dos Algarves), William II (Kaiser da Alemanha, Rei da Prússia), Geórgios I (Rei da Grécia) e Albert I (Rei da Bélgica)
Sentados, da esquerda para a direita: Alfonso XIII (Rei de Espanha), George V (Rei do Reino Unido e dos domínios britânicos, Imperador da Índia), Frederik VIII (Rei da Dinamarca)
Christian Frederik Karl Georg Valdemar Axel (Charlottenlund 1872-Oslo 1957), Casa de Schleswig-Holstein-Sonderburg-Glücksburg
Ferdinand Maximilian Karl Leopold Maria of Saxe-Coburg and Ghota (Viena 1861-Coburg 1948), Casa de Saxe-Coburg-Ghota *
Manoel Maria Filipe Carlos Amélio Luís Miguel Rafael Gabriel Gonzaga Xavier Francisco de Assis Eugénio de Bragança Orleães Sabóia e Saxe-Coburgo-Gotha (Lisboa 1889-Londres 1932) **
Friedrich Wilhelm Viktor Albrecht von Preußen (Berlin 1859-Doorn Holanda 1941), Casa de Hohenzollern (primo direito de Eduardo VII)*
Christian Wilhelm Ferdinand Adolf Georg of Schleswig-Holstein-Sonderburg-Glücksburg (Copenhaga 1845-Salónica 1913), Casa de Oldenbug ***
Albert Léopold Clément Marie Meinrad (Bruxelas 1875-Marche-les-Dames BE 1934), Casa de Saxe-Coburg-Ghota (casa materna Hohenzollern-Sigmaringen)
Alfonso León Fernando María Jaime Isidro Pascual Antonio de Borbon y Habsburgo-Lorena (Madrid 1886-Roma 1941) **
Christian Frederik Vilhelm Carl (Copenhaga 1843-Hamburgo 1912), Casa de Schleswig-Holstein-Sonderburg-Glücksburg (tio-avô de Jorge V)
quinta-feira, 11 de setembro de 2014
EU SOU UMA DE MUITAS HIPÓTESES
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| Francisca Ferreira da Costa, 1.9.1919 |
EU SOU EU E A MINHA CIRCUNSTÂNCIA,
E SE NÃO A SALVO A ELA, NÃO ME SALVO EU.
José Ortega y Gasset, Meditações do Quixote
Armando Vara disse que a sua sentença tinha mais a ver com a sua circunstância que com os factos, provando a sua iniciação à filosofia, na pessoa de Ortega y Gasset.
A primeira oração da frase de OyG é a mais sumarenta, e bem podia ser traduzida por 'eu sou uma de muitas hipóteses', porventura antagónicas.
* Antes do filósofo, já um escritor de aventuras dissera algo semelhante, numa entrevista de Rudyard Kipling publicada no From to Sea, em 1889: para Mark Twain, 'quando uma pessoa se detém a pensar, a religião, a formação e a educação não são garantia de nada perante a força das circunstâncias que movem o homem'.
A primeira oração da frase de OyG é a mais sumarenta, e bem podia ser traduzida por 'eu sou uma de muitas hipóteses', porventura antagónicas.
* Antes do filósofo, já um escritor de aventuras dissera algo semelhante, numa entrevista de Rudyard Kipling publicada no From to Sea, em 1889: para Mark Twain, 'quando uma pessoa se detém a pensar, a religião, a formação e a educação não são garantia de nada perante a força das circunstâncias que movem o homem'.
quarta-feira, 3 de setembro de 2014
EM PRIMEIRA MÃO
Este livro é uma óptima escolha, mesmo para quem não seja fã da época: excelente enredo para qualquer novela, tem drama e horror, traição e amor, assassinatos e suicídios, parricídios, matricídios e infanticídios, ascensão e queda, bons e maus. Tudo acompanhado por sonhos, presságios, acontecimentos premonitórios certeiros e milagres (Vespasiano curou em cego e um coxo, palavra!).
Para os outros, não há livro sobre a Roma antiga que não refira ou cite 'As Vidas dos Doze Césares' de Suetónio. Assim sendo, nada melhor para um simpatizante dessa época, do que 'ir à fonte'.
Para os outros, não há livro sobre a Roma antiga que não refira ou cite 'As Vidas dos Doze Césares' de Suetónio. Assim sendo, nada melhor para um simpatizante dessa época, do que 'ir à fonte'.
Claro está que não se pode acreditar em tudo*, a história oral é equívoca, Suetónio não assistiu às estórias (nasceu no final, ou mesmo depois, do principado de Nero) e os cronistas oficiosos, como Fernão Lopes, tendem a contar a história a gosto do seu amo e a tomar partidos (ex., o autor afirma que César abusou do poder e 'mereceu ser assassinado').
Porém, se alguém tinha acesso aos documentos existentes, era ele, que foi superintendente das bibliotecas públicas de Roma, responsável pelos arquivos e chefe da chancelaria imperial, tendo sob a sua alçada toda a correspondência oficial.
Ali aparecem, em primeira mão, frases de César tantas vezes repetidas, como 'Andemos para onde nos chama os desígnios dos deuses e a iniquidade dos nossos inimigos. A sorte está lançada.', quando passou o Rubicão, 'Vim, Vi, Venci', sobre a conquista do Ponto, no nordeste da Turquia, ou 'Porque considero que os meus devem estar isentos não só do crime, mas também da suspeita', justificando o divórcio de Pompeia, com razão acusada de adultério (frase depois alterada para 'a mulher de César não basta ser honesta, tem que parecê-lo').
Lá também parecem 2 conhecidas frases de Augusto ('Apressa-te lentamente - mais vale um chefe prudente que temerário' e 'Deixei uma cidade de mármore onde encontrei uma de tijolos') e um curioso ditado sobre a celeridade das coisas, 'mais depressa do que se cozem espargos', bem como o verso duma tragédia, 'Que me odeiem, desde que me temam', usada por Tibério (trocando temam por respeitem) e Calígula, depois glosada por Maquiavel e Napoleão - no caso de Tibério, o seu caracter cruel era já conhecido em criança, pelo menos pelo seu mestre de retórica, que o descreveu como 'lama diluída em sangue'.
Permita-se-me mais um exemplo: 'o dinheiro não tem cheiro' foi a explicação prática que Vespasiano deu ao filho, quando este se indignou pela imposição duma taxa sobre as latrinas públicas.
Porém, se alguém tinha acesso aos documentos existentes, era ele, que foi superintendente das bibliotecas públicas de Roma, responsável pelos arquivos e chefe da chancelaria imperial, tendo sob a sua alçada toda a correspondência oficial.
Ali aparecem, em primeira mão, frases de César tantas vezes repetidas, como 'Andemos para onde nos chama os desígnios dos deuses e a iniquidade dos nossos inimigos. A sorte está lançada.', quando passou o Rubicão, 'Vim, Vi, Venci', sobre a conquista do Ponto, no nordeste da Turquia, ou 'Porque considero que os meus devem estar isentos não só do crime, mas também da suspeita', justificando o divórcio de Pompeia, com razão acusada de adultério (frase depois alterada para 'a mulher de César não basta ser honesta, tem que parecê-lo').
Lá também parecem 2 conhecidas frases de Augusto ('Apressa-te lentamente - mais vale um chefe prudente que temerário' e 'Deixei uma cidade de mármore onde encontrei uma de tijolos') e um curioso ditado sobre a celeridade das coisas, 'mais depressa do que se cozem espargos', bem como o verso duma tragédia, 'Que me odeiem, desde que me temam', usada por Tibério (trocando temam por respeitem) e Calígula, depois glosada por Maquiavel e Napoleão - no caso de Tibério, o seu caracter cruel era já conhecido em criança, pelo menos pelo seu mestre de retórica, que o descreveu como 'lama diluída em sangue'.
Permita-se-me mais um exemplo: 'o dinheiro não tem cheiro' foi a explicação prática que Vespasiano deu ao filho, quando este se indignou pela imposição duma taxa sobre as latrinas públicas.
Um iniciado não fica surpreso com a endogamia dos césares - a elite casava-se várias vezes e entre si, como Octávio e Pompeu, que desposaram as filhas um do outro -, que pode explicar as suas taras: Tibério organizava bacanais com crianças, Calígula tratava uma irmã como esposa legítima e prostituiu as outras 3, Tibério e Nero tinham relações mal resolvidas com a mãe - no caso de Nero, antes de mandar matar a mãe (após 5 'acidentes' gorados), parece que tinha relações incestuosas com ela.
Nesse campeonato, Calígula leva a taça: mandou recolher as melhores estátuas gregas de deuses e substituir as suas cabeças pela dele, e quis tornar cônsul o seu cavalo Incitato, a quem ofereceu um estábulo de mármore e marfim, mais um palácio mobilado e com escravos. Mas Nero perde no photofinish: não era esquisito, abusava de 'rapazes de nascimento livre' (supõe-se que Suetónio não veria mal se fossem escravos) e casou-se formalmente com um rapaz que castrara; fazia turnés em concursos de música e teatro, com um nervosismo desproporcionado - a plateia não só ficava até ao fim (o recinto era encerrado durante a sua actuação), como obviamente ganhava a competição. Aliás, a vitória, sempre: mesmo desistindo a meio, como fez numa corrida de carros num jogos olímpicos, foi coroado.
Nesse campeonato, Calígula leva a taça: mandou recolher as melhores estátuas gregas de deuses e substituir as suas cabeças pela dele, e quis tornar cônsul o seu cavalo Incitato, a quem ofereceu um estábulo de mármore e marfim, mais um palácio mobilado e com escravos. Mas Nero perde no photofinish: não era esquisito, abusava de 'rapazes de nascimento livre' (supõe-se que Suetónio não veria mal se fossem escravos) e casou-se formalmente com um rapaz que castrara; fazia turnés em concursos de música e teatro, com um nervosismo desproporcionado - a plateia não só ficava até ao fim (o recinto era encerrado durante a sua actuação), como obviamente ganhava a competição. Aliás, a vitória, sempre: mesmo desistindo a meio, como fez numa corrida de carros num jogos olímpicos, foi coroado.
Um iniciado também já sabe como era perigosa a vida dum imperador: Júlio César foi assassinado, o fim de Tibério talvez tenha sido apressado pelo sobrinho Calígula, que foi assassinado como o seu sucessor Cláudio, envenenado pela 5ª mulher Agripina (a 3ª mulher, Messalina, teria já conspirado contra ele), mãe de Nero, que pediu ajuda ao secretário para matá-lo, depois das suas patéticas tentativas de suicídio; o seu sucessor Galba foi assassinado, seguiu-se o suicida Otão e depois Vitélio, também assassinado, como o 3º dos flávios. Dos 12, só Augusto, Vespasiano e Tito (o único incensado pelo historiador) não tiveram um fim 'apressado'.
Para sobreviver, vários Césares eliminaram os adversários potenciais (Tibério e Germânico, Calígula e Gemelo, Nero e Britânico, Otão e Pisão). De facto, Calígula e Cláudio só lá chegaram porque sobreviveram às purgas 'fazendo-se de mortos' (o caracter titubeante de Cláudio, que era pau-mandado das mulheres e dos seus libertos, é bem expresso numa sua sentença judicial, 'Opino como aqueles que têm razão'). Também Galba tentou não dar nas vistas como governador da Hispânia, para não suscitar a inveja de Nero, repetindo que ninguém podia ser chamado a prestar contas por não ter feito nada.
Nesse aspecto, e pagando com a vida, Júlio César foi diferente: era magnânimo com os adversários derrotados e, ao contrário de Pompeu, declarou seus amigos quem se abstivesse na guerra civil.
Suetónio enumera vários casos para retratar os imperadores como humildes, ponderados, clementes ou cruéis. Tendo um poder quase divino, o mesmo César dava a vida ou a morte conforme o humor do momento, como um vulgar capricho - Calígula bem respondeu à avó que o recriminara, 'Lembra-te de que posso tudo e tenho poder sobre todos'.
As sentenças podiam ser tão irreflectidas que Cláudio mandava convidar para jogar dados pessoas que não apareciam... porque as mandara matar na véspera. Os mais próximos estavam mais expostos ao risco de vida, incluindo a parentela e os senadores, alvo de grandes purgas, através de exílio, execução ou intimação ao suicídio. Os motivos eram tão graves como ter 'um semblante severo' ou criticar a equipa de carros de que o imperador era adepto... porque tinham-no feito para atacá-lo pessoalmente.
Comum a quase todos, começavam por deplorar os exageros do antecessor, 'perdendo-se' durante o reinado, incluindo numa crescente voracidade fiscal: exemplo, Tibério recusou inicialmente a aumentar os impostos, porque 'um bom pastor tosquia as suas ovelhas, não as esfola', mas acabou por cessar isenções fiscais, provocar testamentos a seu favor e confiscar fortunas sob os pretextos mais absurdos.
Ali são descritos manias (um édito de Tibério proibia as pessoas de se aproximarem dele) e alguns hábitos cruéis, como a dizimação de coortes menos bravas (i.e., a execução de 1 em cada 10 soldados) ou o castigo de parricidas, atirados ao rio dentro de um saco de couro com um cão, um galo, uma cobra e um macaco.
As sentenças podiam ser tão irreflectidas que Cláudio mandava convidar para jogar dados pessoas que não apareciam... porque as mandara matar na véspera. Os mais próximos estavam mais expostos ao risco de vida, incluindo a parentela e os senadores, alvo de grandes purgas, através de exílio, execução ou intimação ao suicídio. Os motivos eram tão graves como ter 'um semblante severo' ou criticar a equipa de carros de que o imperador era adepto... porque tinham-no feito para atacá-lo pessoalmente.
Comum a quase todos, começavam por deplorar os exageros do antecessor, 'perdendo-se' durante o reinado, incluindo numa crescente voracidade fiscal: exemplo, Tibério recusou inicialmente a aumentar os impostos, porque 'um bom pastor tosquia as suas ovelhas, não as esfola', mas acabou por cessar isenções fiscais, provocar testamentos a seu favor e confiscar fortunas sob os pretextos mais absurdos.
Ali são descritos manias (um édito de Tibério proibia as pessoas de se aproximarem dele) e alguns hábitos cruéis, como a dizimação de coortes menos bravas (i.e., a execução de 1 em cada 10 soldados) ou o castigo de parricidas, atirados ao rio dentro de um saco de couro com um cão, um galo, uma cobra e um macaco.
Surpresa, surpresa, César tinha os membros bem torneados e o rosto um pouco cheio, ao contrário da imagem esguia desenhada por Albert Uderzo, era apodado de bissexual promíscuo (Curio, num discurso, trata-o como 'o marido de todas as mulheres e a mulher de todos os maridos') e, num aperto 'lançou-se ao mar e nadou duzentos pés, até ao navio mais próximo, mantendo a mão esquerda levantada para não molhar os escritos que levava' - o famoso naufrágio de Camões foi uma curiosa coincidência (a história repete-se), ou falta de imaginação?
* a versão sensacionalista de Suetónio, de que Nero mandou incendiar Roma, porque os edifícios eram feios e as ruas estreitas, é contrariada pelo historiador Tácito (mais reticente em veicular os diz-que-disse mais picantes, e mais brando com Messalina, por exemplo), que terá razão - o imperador nem estava na cidade, e foi expedito no plano de combate às chamas.
* a versão sensacionalista de Suetónio, de que Nero mandou incendiar Roma, porque os edifícios eram feios e as ruas estreitas, é contrariada pelo historiador Tácito (mais reticente em veicular os diz-que-disse mais picantes, e mais brando com Messalina, por exemplo), que terá razão - o imperador nem estava na cidade, e foi expedito no plano de combate às chamas.
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| A Morte de César, 1959-67, Jean-Léon Gérôme |
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| Escultores na Roma Antiga, 1877, Sir Lawrence Alma-Tadema |
sexta-feira, 29 de agosto de 2014
SALAZAR, O GUARDADOR DE REBANHOS
A 19.3.1933, o povo referendou a nova constituição portuguesa. Com as suas especificidades: só votaram os 'chefes-de-família', as abstenções (487.364) contaram como votos a favor, entregar apenas o boletim com a pergunta 'aprova a constituição política da república portuguesa' valia como um sim (719.364 votos) e ser contra obrigava a escrever 'não' no papel (5.995).
Salazar admitira no ano anterior que “Embora o povo não esteja, na sua grande maioria, apto para votar em perfeita consciência o texto completo da Constituição, o seu voto tem um significado político que não é lícito desprezar: é um voto de confiança nos dirigentes.”
Na véspera do plebiscito, o ditador proclamara "São escuros e temerosos os tempos que correm por todo o Universo. Por toda a parte terá de buscar-se a salvação na existência de Governos estáveis e fortes, que, livres do partidarismo e parlamentarismo desordenados, norteados pelas ideias superiores de justiça e de elevação patriótica, apoiados na consciência dos bons cidadãos e na disciplina e honra da força armada, exercem acção vigilante, vigorosa, profundamente reformadora (…) votai pelo futuro de Portugal”. Essa ameaça nós-ou-o-caos foi bem plasmada nos cartazes da campanha.
A Constituição de 1933 (rotulada no DN, 3 dias após o referendo, como “uma Constituição liberalíssima sob a égide da Santíssima Trindade”) mereceu o seguinte comentário de Fernando Pessoa:
“Mais valia publicar um decreto-lei que rezasse assim:
Artigo 1. António de Oliveira Salazar é Deus;
Artigo 2. Fica revogado tudo em contrário e nomeadamente a Bíblia. Ficava assim legalmente instituído o sistema que deveras nos governa, o autêntico Estado Novo - a Teocracia pessoal.”
quinta-feira, 28 de agosto de 2014
UMA JOÃO CATATAU DA AUTO-ESTIMA
Em 2006, quando chegou aos 50 anos, a escritora/colunista Regina Brett enumerou numa crónica as 45 lições que a vida lhe ensinara (entretanto, acrescentou mais 5).
Girl's talk! Um homem reduziria tudo a 4 lições: releva, faz-te à vida, agradece o que tens e carpe diem.
Repito aqui a lista 'ousa-ou-sê-prudente-conforme-a-situação' por 2 frases com laracha. Cá vai:
1. A vida não é justa, mas ainda assim é boa.
2. Quando estiveres na dúvida, dá apenas o próximo pequeno passo.
3. A vida é demasiado curta para perdermos tempo a odiar alguém.
4. Não te leves tão a sério. Ninguém mais leva.
5. Paga as tuas facturas do cartão de crédito todos os meses.
6. Tu não tens que ganhar todas as discussões. Concorda em discordar.
7. Chora com alguém. É mais curativo do que chorar sozinho.
8. Está tudo bem se ficares zangado com Deus. Ele aguenta.
9. Poupa para a reforma começando com o teu primeiro salário.
10. Quando se trata de chocolate, a resistência é em vão.
11. Sela a paz com o teu passado para que não estrague o presente.
12. Não faz mal deixares os teus filhos verem-te a chorar.
13. Não compares a tua vida com a dos outros. Tu não tens ideia como é a vida deles.
14. Se uma relação tem que ser um segredo, tu não deverias estar nela.
15. Tudo pode mudar num piscar de olhos. Mas não te preocupes; Deus nunca pisca os olhos.
16. A vida é demasiado curta para longas choradeiras. Ocupa-te a viver, ou ocupa-te a morrer.
17. Podes ultrapassar tudo, se te ocupares com o presente.
18. Um escritor escreve. Se quiseres ser escritor, escreve.
19. Nunca é tarde demais para ter uma infância feliz. Mas a segunda depende de ti e de mais ninguém.
20. Quando se trata de ir atrás do que tu amas na vida, não aceites um não como resposta.
21. Acende as velas, põe lençóis bonitos, usa lingerie elegante. Não os guardes para uma ocasião especial. Hoje é especial.
22. Prepara-te bastante, depois deixa-te levar pela corrente.
23. Sê excêntrico agora, não esperes ficar velho para usar roxo.
24. O órgão sexual mais importante é o cérebro.
25. Ninguém é responsável pela tua felicidade além de ti.
26. Encara cada "chamado desastre" com estas palavras: Daqui a cinco anos, isto vai importar?
27. Escolhe sempre a vida.
28. Perdoa tudo a todos.
29. O que as outras pessoas pensam de ti não é da tua conta.
30. O tempo cura quase tudo. Dá tempo ao tempo.
31. Independentemente se a situação é boa ou má, irá mudar.
32. O teu trabalho não vai cuidar de ti quando adoeceres. Os teus amigos vão. Mantém o contacto.
33. Acredita em milagres.
34. Deus ama-te pelo que Deus é, não pelo que tu fizeste ou deixaste de fazer.
35. O que não te mata torna-te realmente mais forte.
36. Envelhecer é melhor do que a alternativa - morrer jovem.
37. Os teus filhos só têm uma infância. Torna-a memorável.
38. Lê os salmos. Eles abarcam todas as emoções humanas.
39. Sai à rua todos os dias. Milagres estão à espera em todos os lugares.
40. Se todos jogássemos os nossos problemas numa pilha e víssemos os dos outros, pegávamos os nossos de volta.
41. Não analises a tua vida. Aparece e faz o melhor dela agora.
42. Desfaz-te de tudo o que não é útil, bonito ou agradável.
43. Todo o que realmente importa no final é que tu amaste.
44. A inveja é uma perda de tempo. Tu já tens tudo o que precisas.
45. O melhor está para vir.
46. Não importa como te sintas, levanta-te, veste-te e aparece.
47. Respira fundo. Isso acalma a mente.
48. Se não perguntares, não recebes.
49. Produz.
50. A vida não vem embrulhada num laço, mas ainda assim é um presente.
domingo, 24 de agosto de 2014
PAGAS TU OU PAGO EU?
Abro o recibo de vencimento apenas para ver o que é depositado nesse mês -
qual doente de Alzheimer, o funcionário público conhece sempre um salário
novo. Mas no último Dia de São Receber, dei uma olhada aos descontos, 38,5%
dum salário já em si opíparo: 24% para o IRS, 11% para a CGA e 3,5% para a
ADSE.
Esta
última parcela tem subido nos últimos tempos, alegadamente para que o sistema seja
pago apenas pelos usufrutuários, mas agora as contribuições são maiores que os
gastos, i.e., sobra dinheiro, que o governo promete não utilizar noutro lado*.
Claro
está que não haverá uma gavetinha para esse dinheiro (prova 1, a CGA
foi sangrada até ficar 'insustentável') e nada impede que o
Estado, que fica com esse aforro a render, não lhe dê outro uso, na próxima
aflição. Temos pois uma nova versão do 'pagamento por conta' - havia para as
empresas, por conta de receitas futuras, passa a haver para os funcionários,
por conta de despesas futuras.
Bem
haja um governo reformista: o seguro de saúde era parcialmente pago pelo
patrão, pagou a ser pago somente pelo trabalhador e agora passa a
pagar mais que o custo do 'benefício'.
Durante
um almoço, um amigo que trabalha no sector privado apresentou uns argumentos
válidos:
- Porque
é que eu tenho que pagar a tua ADSE?
-
Bem, nos últimos tempos já não pagavas, o problema é que a malta, que já pagava
o 'seguro de saúde', agora paga mais que o seu usufruto.
-
E parece que a ADSE não é obrigatória.
-
Tiro no porta-aviões...
-
Mais, se o teu patrão está falido, não pode pagar benefícios.
-
Ahã, mas também não tem que comparticipar a construção duma empresa ou a compra
dum tractor, dar perdões fiscais ou deduzir o carro da empresa. Já agora, és tu
que pagas o teu seguro de saúde?
-
Paga a minha empresa, antes era complemento, agora faz parte do salário.
-
Como o meu fazia!
No
final do repasto, viemos embora no seu Audi novo - o carro da empresa com uso
24/7, como dizem os americanos, trocado a cada 3 anos. Presumindo que
parte do leasing seja dedutível no IRC, c'est-à-dire, o
Estado contribui (não recebendo) e eu também paguei uma lasca do
retrovisor.
E,
pela mesma lógica, via deduções no IRS ou no IRC (considerando-o ou não rendimento do trabalho), eu também comparticipo no seguro de saúde do meu
amigo, que deus lhe dê saúde. Mas eu não posso deduzir a ADSE, o meu próprio seguro de saúde, nos impostos...
* A 1ª versão do diploma foi vetado
pelo PR, argumentando que “não parece adequado” que o aumento das contribuições
"vise sobretudo consolidar as contas públicas": "Numa
altura em que se exigem pesados sacrifícios aos trabalhadores do Estado e
pensionistas, com reduções nos salários e nas pensões, tem de ser demonstrada a
adequação estrita deste aumento ao objectivo de auto-sustentabilidade dos
respectivos sistemas de saúde". Trocado por miúdos, esse aumento
significava que o ADSE ficaria a custar menos que as contribuições,
com lucro do Estado.
O Governo insistiu, com uma
nuance, as receitas dos descontos estão afectas à actividade da ADSE:
“A receita proveniente dos descontos referidos no número anterior é consignada
ao pagamento dos benefícios concedidos pela ADSE aos seus beneficiários nos
domínios da promoção da saúde, prevenção da doença, tratamento e reabilitação”.
sexta-feira, 22 de agosto de 2014
ODE
Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.
Ricardo Reis, 14.02.1933
quinta-feira, 21 de agosto de 2014
terça-feira, 19 de agosto de 2014
NIEPCEGRAFIA
No dia mundial da fotografia, nada melhor que repescar uma das primeiras selfies da história, da autoria de Robert Cornelius, no ano da graça de deus de 1839, um ano depois da apresentação do daguerreótipo por Louis Daguerre, uma espécie de versão 2.0 do invento do seu 'sócio' Nicéphore Niépce - este criara a 'heliografia' em 1793 (mas as imagens desapareciam depressa), fixara a luz solar num papel, em 1817, conseguira fixar imagens numa placa de estanho com betume da Judeia, em 1824 (depois da sua morte, em 1933, Daguerre trocou-a por uma placa de cobre com sais de prata), e tirara a primeira 'fotografia' do sótão da sua casa de campo em 1826-7, um borrão que nós agora experimentamos no instagram...
![]() |
| Robert Cornelius, 1939 |
![]() |
| Nicéphore Niépce, 1826-27 |
![]() |
| Boulevard du Temple, Louis Daguerre, 1937 (como o tempo de exposição foi superior a 10 minutos, o tráfego não aparece, e 'ficou' apenas uma pessoa, quieta q.b., a engraxar os sapatos) |
terça-feira, 12 de agosto de 2014
JOÃO JOSÉ DE FREITAS
A frase que achei perfeita para ajaezar o título deste blogue - a rês pública (com acento circunflexo) - é de João José de Freitas.
Sabia que o advogado transmontano (Carrazeda de Ansiães 1873 - Entroncamento 1915) tinha sido um republicano dos 4 costados, participando na revolta portuense de 31 de Janeiro - sendo-lhe vedado por 2 vezes o acesso à docência pela sua posição política. Pelo seu soundbite, imaginava uma espécie de Catão, um estóico que norteava todas as suas acções pela moral e nobreza mais elevadas.
Resolvi saber um pouco mais sobre a personagem, e tive uma surpresa, o seu fim foi inflamado (como a sua vida), mas teve pouco de nobre.
Adepto da ditadura de Pimenta de Castro (apoiada pelo seu Partido Evolucionista e pela União Republicana, contra o Partido Democrata, maioritário no parlamento), JJF ficou possesso com o resultado da revolta de 14.5.1915, que depôs o governo (levando, por arrasto, o presidente Arriaga), e mais ainda pela indigitação do novo chefe de governo, João Chagas, com quem estava desavindo, talvez desde que este demitira o seu irmão mais velho do cargo de governador civil de Bragança (curiosamente, ou não, JJF fora o antecessor do António Luís de Freitas).
Na madrugada de 17 de Maio, JJF entrou num comboio parado na Barquinha e descarregou 5 tiros em João Chagas (3 dos quais acertaram-lhe de raspão na cabeça, perdendo o olho direito). O então Senador foi dominado, alvejado com uma carabina por um GNR e demoradamente linchado pela multidão, com tiques de malvadez - consta que até lhe deram fel a beber.
Parece que a ética republicana era uma coisa talvez demasiado belicosa.
Sabia que o advogado transmontano (Carrazeda de Ansiães 1873 - Entroncamento 1915) tinha sido um republicano dos 4 costados, participando na revolta portuense de 31 de Janeiro - sendo-lhe vedado por 2 vezes o acesso à docência pela sua posição política. Pelo seu soundbite, imaginava uma espécie de Catão, um estóico que norteava todas as suas acções pela moral e nobreza mais elevadas.
Resolvi saber um pouco mais sobre a personagem, e tive uma surpresa, o seu fim foi inflamado (como a sua vida), mas teve pouco de nobre.
Adepto da ditadura de Pimenta de Castro (apoiada pelo seu Partido Evolucionista e pela União Republicana, contra o Partido Democrata, maioritário no parlamento), JJF ficou possesso com o resultado da revolta de 14.5.1915, que depôs o governo (levando, por arrasto, o presidente Arriaga), e mais ainda pela indigitação do novo chefe de governo, João Chagas, com quem estava desavindo, talvez desde que este demitira o seu irmão mais velho do cargo de governador civil de Bragança (curiosamente, ou não, JJF fora o antecessor do António Luís de Freitas).
Na madrugada de 17 de Maio, JJF entrou num comboio parado na Barquinha e descarregou 5 tiros em João Chagas (3 dos quais acertaram-lhe de raspão na cabeça, perdendo o olho direito). O então Senador foi dominado, alvejado com uma carabina por um GNR e demoradamente linchado pela multidão, com tiques de malvadez - consta que até lhe deram fel a beber.
Parece que a ética republicana era uma coisa talvez demasiado belicosa.
domingo, 27 de julho de 2014
O REI VERDE
Há uns meses, fui praticamente intimado a ler O Rei Verde por uma amiga, que diz ser um dos livros da sua vida (comprou outro, depois do 1º, que emprestou, ter-se perdido).
O livro do escritor francês Paul-Loup Sulitzer, de 1984, é tão improvável como o seu curriculum: dedicado à alta finança, Sulitzer já era milionário aos 17 anos, com negócios nem sempre limpos - como o escândalo Angolagate.
De que fala o livro, que o autor diz ter 80% de verdade? De Reb Michael Klimrod, um rapaz judeu, sobrevivente dum campo de concentração, que chega a NY em 1950, sem um tostão; ao fim de 6 dias, funda uma companhia de distribuição de jornais, em 6 meses tinha 58 empresas (pedia dinheiro emprestado dando como garantia os bens que ia adquirir, i.e., que ainda não tinha), e em 10 anos era o homem mais rico do mundo, tendo participações em quase tudo o que mexia. Usando testas-de-ferro, quase ninguém sabia que ele existia.
Um Rei verde, um empório gigante com pés de barro, uma teia opaca de empresas em cascata, empréstimos com garantias inexistentes, ambição e poder. Porque diabo é que me lembrei do livro agora?
quarta-feira, 23 de julho de 2014
COME E CALA

...ou um dia negro, uma diplomacia cinzenta, uma via verde e dinheiro branqueado.
Teodoro Obiang Nguema
Mbasogo,
uma espécie de soba moderno considerado por alguns pior ditador que Robert
Mugabe (bom exemplo, o ‘dono’ do Zimbabué foi suspenso da Commonwealth em 2002 e resolveu sair no ano seguinte), depôs o tio genocida em 1979, condenou-o há
morte e prometeu acabar com anteriores práticas repressivas.
O 8º governante mais rico do mundo manda na Guiné
Equatorial (GE) há 35 anos, com uma mão de ferro (é acusado de mortes ilegais
por parte das forças de segurança, sequestros sancionados pelo Governo, tortura
sistemática de presos, detenções arbitrárias e impunidade), mas muito ágil – em
2003, para evitar a corrupção por funcionários públicos, tomou conta do erário
e ‘guardou’ meio bilião de dólares em contas suas e da família. A propósito, são ministros o irmão e um filho de Obiang, e o vice-presidente da GE é o seu primogénito, que acumula com embaixador na UNESCO, um estatuto afortunado – a imunidade impede a sua detenção em França e nos EUA, por suspeitas de desvio de fundos e branqueamento de capitais. Pode assim passear pelas mansões ultraluxuosas espalhadas pelo mundo – os seus haveres incluem uma casa de 6 andares na Avenue Foch, outra em S. Petersburgo (com 2 Bugatti) e outra ainda em Malibu (com 1400 m2 e 36 carros, incluindo 7 Ferrari, 5 Bentley, 4 Rolls Royce e 2 Maybach) e a luva de diamantes de Michael Jackson.
80% dos 800.000 guineenses estão no limiar da pobreza, com um rendimento médio diário de 1 dólar. Mas a GE, graças ao caldeirão de petróleo onde assenta, tem uma riqueza per capita igual à do Reino Unido.
Dito isto, hoje é um dia glorioso para a diplomacia internacional, a Guiné Equatorial tornou-se membro de pleno direito da Comunidade de Países de Língua Portuguesa. As questões são muitas.
Foi à primeira? Não. Portugal torceu diplomaticamente o nariz à
entrada da GE para membro da CPLP, em 2010 e 2012, porque o país não fala
português e tem uma visão peculiar sobre democracia e direitos humanos. À terceira
foi de vez, porque, explicou ontem Passos Coelho, ‘Seria, penso eu, muito
negativo que Portugal permanecesse de forma resiliente opondo-se a esse
alargamento. Creio que isso conduziria Portugal a um isolamento no seio da
Comunidade de Língua Portuguesa que não é aquilo que Portugal deseja com
certeza (…) Uma vez que foram avaliadas, as instituições e os estados não podem
ter duas palavras, não podem estabelecer um conjunto de condições um dia e
depois passado um ano ou dois virem a definir outras condições.’ Trocado por
miúdos, não valia a pena fazer finca-pé, e a GE até fez progressos no que estava
comprometida.
Fez mesmo? Obiang não proibiu a pena de morte, apenas decretou uma
moratória, e declarou em 2011 o português a 3ª língua oficial (a seguir ao espanhol - a GE foi a única colónia africana de Espanha, cedida por nós em 1778 - e
ao francês, que também não é falado), num país onde essa língua é, e continuará a ser, falada apenas pelos 500 portugueses
que lá vivem - aliás, o anúncio da entrada na CPLP, no site oficial da GE, é feito em inglês, francês e espanhol, o que é simplesmente 'cuspir no prato'. Quanto à democracia, os partidos são legais no país, mas as
eleições são consideradas fraudulentas pelos observadores internacionais e só 1
dos 100 deputados não é do partido de Obiang, que tem repetido os mandatos de
presidente (o último iniciado em 2009) sempre com votações superiores a 97% - em
2002, teve mesmo 103% num círculo eleitoral.Quem mais intercedeu pela entrada da GE? Os 2 países que mandam efectivamente na CPLP, Brasil e Angola. Curiosamente, as assinaturas dos seus chefes de Estado são as únicas a faltar, JES e Dilma não apareceram em Timor - curiosamente, O caso em que Portugal batalhou contra a realpolitik -, apesar da data ter sido adiada por causa da Presidenta (menos entusiasta que Lula no ingresso da GE).
Qual o interesse de aceitar um Estado-pária? Para o próprio,
respeitabilidade, e países-irmãos onde ‘caiar’ o capital acumulado; para os outros
membros, a GE tem muito dinheiro para pagar a jóia de entrada (ex., 100M€ no BANIF) e ter garrafa no clube,
e negócios para oferecer – com cautela e caldos de galinha (um empresário
italiano fez uma sociedade com os Obiang e foi preso e torturado depois de
reclamar que o dinheiro desaparecera).
Há outro argumento mais altruísta, Cavaco Silva afirmou que o acolhimento da GE 'é a melhor forma de contribuir para a melhoria do respeito pelos direitos humanos naquele país e para a constituição de instituições verdadeiramente democráticas', salientando com o exemplo da Coreia do Norte, que 'o isolacionismo nunca conduziu à democracia e ao respeito pelos direitos humanos'. E o colaboracionismo?, perguntarão os cépticos.
Há outro argumento mais altruísta, Cavaco Silva afirmou que o acolhimento da GE 'é a melhor forma de contribuir para a melhoria do respeito pelos direitos humanos naquele país e para a constituição de instituições verdadeiramente democráticas', salientando com o exemplo da Coreia do Norte, que 'o isolacionismo nunca conduziu à democracia e ao respeito pelos direitos humanos'. E o colaboracionismo?, perguntarão os cépticos.
A CPLP tem algum interesse para quem não fala português? Foram
admitidos hoje como observadores associados à Namíbia, Turquia, Geórgia e
Japão, que se juntam ao Senegal e à Ilha Maurícia.
Os outros membros da CPLP são irrepreensíveis? A Guiné-Bissau é
tida como um narco-Estado, onde os golpes de Estado se sucedem, e Angola tem um
presidente eterno, cuja família e amigos acumulam a riqueza do país.
Portugal é exigente nas relações externas? Não, deu-se bem com Chavez e com Kadhafi, e é 'amigo' de Estados onde existe pena de morte, os EUA e China - com os padrões da europa, só a europa. E, como disse um ex-MNE, na política externa, os interesses estão acima da moral.
Portugal é exigente nas relações externas? Não, deu-se bem com Chavez e com Kadhafi, e é 'amigo' de Estados onde existe pena de morte, os EUA e China - com os padrões da europa, só a europa. E, como disse um ex-MNE, na política externa, os interesses estão acima da moral.
Em jeito de conclusão destas P&R, poder-se-ia parafrasear Clinton, é a
geoeconomia, estúpido.
p.s.: proposta peregrina,
alguns membros querem uma espécie de espaço Schengen para as elites económicas
da CPLP, uma espécie de via verde de capitais. Desta, Portugal pode escapar,
alegando normas da UE
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