...e depois, com bigodes de leite, pedem mais paciência e esforço ao povo, que a "vaca 'tá seca".

segunda-feira, 14 de julho de 2014

MONSERRATE, A 'CASINHA' DE VERANEIO

"Eis que em vários labirintos de montes e vales
surge o glorioso Eden de Sintra.
Ai de mim! Que pena ou que pincel
logrará jamais dizer a metade sequer
das belezas destas vistas (...)?"

Estas palavras, do poema Childe Harold’s Pilgrimage, pertencem a Lord Byron, para quem 'a vila de Cintra, na Estremadura, é talvez a mais bela do mundo'. Para a glorificação do burgo contribuiu a sua visita ao Palácio de Monserrate e do seu vasto (33 ha) jardim paisagístico.
O restauro dos jardins e da casa (ainda em obras) começaram em 2010, dando novo fulgor a uma quinta que, durante 500 anos, oscilou entre o brilho e o abandono.
 
1540 - construção da capela de N. Sra. Monserrate na colina do palácio, aí mandada levantar por frei Gaspar Preto, no regresso duma peregrinação ao eremitério beneditino de Monserrat, na Catalunha (supõe-se que havia no local uma pequena capela do tempo da reconquista); nesse século, a então quinta da Bela Vista torna-se propriedade do Hospital de Todos os Santos de Lisboa, desaparecido no terramoto de 1755
1601 - aforamento da propriedade à família Mello e Castro (que a compra em 1718), radicada em Goa
1755 - o terramoto torna inabitáveis as casas existentes na quinta  
1790 - com o objectivo* de "arrendar utilmente a mesma Quinta, mas também de promover a utilidade, conservação e aumento deste Prédio", Francisca de Mello e Castro arrenda a propriedade ao comerciante inglês Gerard de Visme, concessionário da importação de pau-brasil (cortesia do Marquês de Pombal), que ergue o 1º palácio neogótico sobre as ruínas da capela - esta foi reconstruída noutro local e depois propositadamente 'arruinada', ao estilo dos romantic gardens da Álbion
1793 - o milionário inglês William Beckford arrenda a quinta, melhora o palácio e inicia o jardim paisagístico (a sua 'estada' durou até 1799, interrompida entre 1795-98, quando sub-alugou a propriedade aos filhos do fidalgo José de Oliveira)
1856 - Sir Francis Cook, milionário têxtil inglês e 1º visconde de Monserrate, compra a propriedade para residência de veraneio, reconstrói o jardim romântico, com mais de 3000 espécies exóticas, e o palácio  (1856-58) bastante eclético, com laivos góticos, indianos e mouriscos
1946 - posta à venda 17 anos anos, a quinta é comprada pelo financeiro Saúl Sáragga, que tentou (sem sucesso) dividir a propriedade em lotes, mas vendeu em leilão todo o luxuoso recheio
1949 - a quinta é adquirida pelo Estado, juntamente com a tapada de Sintra
* o contrato omite a razão primeira, D.Francisca voltou de Goa e precisou custear a reconstrução do palácio familiar na capital, arrasado pelo terramoto 
 
Palácio de Monserrate
 
 

 

Fonte do Tritão e entrada/torre sul

 

Átrio central octogonal e fonte com mármore de Carrara
(arcos quebrados com bandeiras rendilhadas)
 
Átrio central
 
Cúpula do átrio central, em madeira e estuque
 
Galeria

Fonte do Tritão

 
Sala da música/torre norte. Cúpula em estuque com motivos florais dourados.
Friso com Musas e Graças
 

 
 
 

Árvore da borracha australiana, parede oeste da falsa ruína, criada por
Francis Cook a partir da capela erguida por Gerard de Visme, em
substituição da capela de N. Sra. Monserrate
(no nicho da Capela havia 1 de 3 sarcófagos etruscos adquiridos por Cook) 

Sala de refeições da família Cook (mais em http://amigosdemonserrate.com/gallery)

CANDIDA HÖFER - ESTÁ AÍ ALGUÉM?

Não, ninguém. A alemã Cândida Höfer (Colónia, 1944) fotografa espaços vazios de gente, mas de forma alguma nus ou enfadonhos. Nas suas imagens de grande formato  - captadas de um ângulo superior (como outro pupilo de Bernd Becher, Andreas Gursky), geralmente centradas e simétricas, sem manipulação digital (ao contrário de Gursky) e apenas com a iluminação existente, compensada com uma longa exposição - não vemos pessoas, mas elas estão lá, através das suas obras, sejam livros numa biblioteca, seja arte num museu, sejam pinturas celestiais nos tectos e paredes de palácios ou teatros.
A colecção fotográfica do BES (BESart) tem 4 fotos suas, Rijksmuseum Amsterdam II (2003), Palácio Nacional da Ajuda VIII, Biblioteca do Palácio Nacional de Mafra III e Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra III (todas de 2006). O que nos falta mesmo é a sumptuosidade dos espaços públicos e privados que há por essa Europa fora. 

Archivo General de Indias, Sevilla IV (2010)

Biblioteca Geral da Univ. Coimbra III (2006)


Biblioteca Joanina, Coimbra

British Library, London

Biblioteca, Firenze (Itália)


Archivo di Stato, Napoli (2009)

Biblioteca, Trinity College, Dublin (Irlanda)

Biblioteca, Napoli (Itália)

Biblioteca, Detmold (Alemanha)


Anna Amalia Bibliothek, Weimar


Anna Amalia Bibliothek, Weimar

Rijkmuseum Library, Amsterdam


Biblioteca, Wien (Áustria)

Biblioteca, St. Gall (Suiça)

Biblioteca, Admont (Áustria)

Biblioteca, Wiblingen Abbey (Alemanha)


Biblioteca, Metten Abbey (Alemanha)
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Galleria Degli Antichi Sabbioneta I 2010 (180 x 220,7 cm)

Palazzo Ducale Mantova I 2011 (180 x 246)
 
Palazzo Ducale Mantova III 2011 (180 x 169)


Teatro Comunale di Carpi I 2011 (180 x 237 cm)

Teatro La Fenice di Venezia V 2011 (180 x 235)


Teatro Scientifico Bibiena Mantova I 2010 (180 x 226 cm)
Teatro Olimpico Vicenza II 2010 (180 x 235)



Teatro Olimpico Vicenza III 2010 (180 x 144)

http://artblart.com/2013/04/07/exhibition-candida-hofer-a-return-to-italy-at-ben-brown-fine-arts-london/
http://theredlist.com/wiki-2-16-860-897-1130-view-architecture-industrial-profile-hoefer-candida.html 
http://en.wikipedia.org/wiki/Candida_H%C3%B6fer

sexta-feira, 11 de julho de 2014

 

SÃO VICENTE DE FORA

No início havia uma pequena igreja dedicada a Maria e a S. Vicente, construída fora da muralha de Lisboa, mandada erguer em 1147 por Afonso Henriques, para cumprir um promessa aquando do cerco da cidade A construção foi doada aos cónegos regrantes de Santo Agostinho, que ali se instalaram. Em 1173, passou a albergar as relíquias de S. Vicente, trazidas do Algarve* (consta que o mosteiro contava ainda com as relíquias de S. Tude, Santa Cristina e S. Facundo). Anos depois, em 1210, foi 'casa' dum frade agostinho especial, de nome Fernando, que ficou conhecido já como frade franciscano, Santo António.
Entre 1582 e 1629, mandavam os Filipes, foi construída nova igreja (sob a batuta dos arquitectos Juan de Herrera, o do Escorial, Felipe Terzi e o português Baltazar Álvares, responsável pela fachada, mimetizada nas igrejas construídas nas colónias do Brasil, África, Índia e Macau), mas o mosteiro que vemos hoje é uma obra maneirista encomendada em 1720, por João V.
O mosteiro, encerrado para restauro entre 2008 e 2011, é o panteão da dinastia de Bragança - só lá faltam Maria I (Basílica da Estrela) e Pedro IV (S. Paulo, Brasil) desde 1885, por ordem de Fernando de Saxe-Coburgo, quando enviuvou de Maria II, e panteão dos patriarcas.
Num sábado por mês, há concerto - toca o virtuoso (e o maior da capital) órgão barroco, reconstruído em 1765 e restaurado em 1994.
 
* Conta a lenda que corvos indicaram a Afonso Henriques onde estava enterrado o corpo do santo martirizado em Valência em 304 (o seu transporte para o reduto cristão das Astúrias, durante a ocupação muçulmana, fora interrompido a meio, sendo as relíquias escondidas) e 2 dos pássaros sobrevoaram a barca entre o cabo de Sagres até Lisboa - explicando a sua presença nas armas da capital. 
 
fachada de Baltazar Álvares, com imagens de S. Agostinho, S. Sebastião e S. Vicente
 
 
 
 
 
túmulo de João IV
 
panteão dos Braganças (junto à imagem, os túmulos de D. Carlos e Luís Filipe)

 

 

no corredor de acesso, os túmulos dos
duques de Terceira e de Saldanha
 
sacristia (tecto posterior ao terramoto de 1755)

órgão barroco original (a falta de uso e a falta de dinheiro para intervenções
durante o séc. XIX impediu que o órgão fosse alterado durante 250, ao sabor
dos novos gostos musicais, como sucedeu a muitos órgãos europeus 
 
João V

 

 

 
 
os mártires de Marrocos

 

TÁ TUDO CONTROLADO


Há uns meses, ligaram do banco a propor-me a aplicação de boa parte do meu pequeno pecúlio em obrigações do Benfica. Agradeci e declinei a sugestão, com um argumento singelo, só se fosse maluco é que emprestava dinheiro a um clube de futebol.
- E não há por aí outra alternativa?, perguntei.
- Sim, uma obrigações do BES a 5 anos.
- Qual é o risco de perder o dinheiro?
- Só se o banco falir!
- Então vamos nessa.
Ia lá imaginar que o Espírito Santo podia ir ao charco, estando tão perto de Deus e de César...
 
Pois. As acções do BES caíram para metade num mês e as transações foram ontem suspensas na bolsa, no mesmo dia em que o banco de Portugal emitiu um comunicado, dizendo que a situação do BES é 'sólida', o banco comunicou ter folga financeira para acomodar perdas pela exposição ao GES (1082M€)que podem passar os 1000M€, Ricciardi escreveu aos colaboradores e parceiros do BESI a expressar confiança no futuro do BES (mas vendeu as acções que tinha no banco, ficando apenas com 100 'papéis' para participar na AG).* Já hoje, Passos Coelho garantiu que os investidores no BES podem estar tranquilos, porque o BES e o GES são coisas distintas (isto, apesar de todas as empresas do grupo terem sido bem entretecidas - afinal, não a fio de seda, mas de estopa**).
Faz lembrar o ministro da informação de Sadam, Muhammad Saeed Al-Sahhaf, para quem a vitória era certa (os inimigos 'fogem', 'suicidam-se às centenas' e 'estão longe da capital'), quando os 'infiéis' já tinham entrado em Bagdade e estavam a centenas de metros da conferência de imprensa.
É impressão minha, ou já se ouve a morteirada?
 
* O BES vai pagar ao 'despejado' Ricardo Salgado 900.000€/ano de reforma, mais seguro de saúde. Prova de prosperidade do banco e dos valiosos serviços de Salgado, sabendo que o BESA (onde o BES tem 55% do capital) tem um buraco negro de 5,700Md, e a ESI - a holding que controla a área financeira (BES) e não financeira (Rioforte) do GES - tem capitais próprios negativos de 2500M€, e devia no final de 2013 mais de 7300M€.
** Escreve-se hoje no Público 'É verdade que os rácios de capital do banco são sólidos. Mas o problema do BES resulta de uma intrincada teia de holdings: a ES Control, o quartel-general da família, detém 56,5% da ES International, que, por sua vez, é dona de 100% da Rioforte, que, por seu lado, controla 49% da ESFG, que é o maior accionista do BES, com 25% do capital. Estas empresas da família têm todas relações entre si, emprestam dinheiro e compram coisas umas às outras numa relação que ontem um colunista do Financial Times qualificava de “terrivelmente incestuosa”.É uma espécie de matrioska financeira. E no final há uma boneca pequenina que está falida. Aliás, uma das justificações dada pela Moody’s para baixar o rating da ESFG é precisamente a “falta de transparência em torno não só da situação financeira do Grupo Espírito Santo, mas também da amplitude das ligações intragrupo”.'