...e depois, com bigodes de leite, pedem mais paciência e esforço ao povo, que a "vaca 'tá seca".

sexta-feira, 23 de maio de 2014

READ MY LIPS


Em suma: os partidos comportaram-se como se comportam em toda a parte: um pouco de quermesse, muita demagogia, discursos baralhados. Não faltaram também as promessas solenes a que, através dos séculos e em todos os países, nos têm habituado os políticos. Promessas que mais tarde não necessitam de ser cumpridas, uma vez que, com o passar do tempo, «as circunstâncias mudam». Em Direito Civil «o acto de fazer promessas com a intenção de prejudicar os direitos doutrem» tem o nome de fraude e é punível pela lei. Mas em política, quem promete com a intenção fraudulenta de não cumprir escapa lindamente à sanção, pois a culpa é dos «tempos» que são outros quando deviam ter permanecido os mesmos; ou das circunstâncias, que levianamente «mudam».
É assim que, «involuntariamente», os políticos faltam à palavra que, quando é dada «com solenidade e a mais profunda convicção», deve despertar em cada um de nós o mesmo reflexo com que nos defendemos de um facínora ou de um vigarista.
Rentes de Carvalho, Portugal A Flor e a Foice, 1975

sábado, 17 de maio de 2014

DESTROIKA, O DIA DA LIBERTAÇÃO

I. INDEPENDENCE DAY
 
II. A RESTAURAÇÃO
E OS DANOS COLATERAIS

III. O AJUSTE DE CONTAS.
FOI UMA LIMPEZA!

IV. A AUTONOMIA.
E AGORA, LIVRES COMO UM PASSARINHO
 
Paulo Portas disse que hoje era um novo 1640.
Pois seja. Defenestração! Defenestração! 

EICHMANN EM JERUSALÉM


'O problema, no caso de Eichmann, era que havia muitos como ele, e que estes muitos não eram perversos nem sádicos, pois eram, e ainda são, terrivelmente normais, assustadoramente normais. Do ponto de vista das nossas instituições e dos nossos valores morais, esta normalidade é muito mais aterradora do que todas as atrocidades juntas, pois ela implica (como foi dito inúmeras vezes em Nuremberga pelos réus e pelos seus advogados) que este novo tipo de criminoso, sendo, na realidade, um hostis humani generis, comete os seus crimes em circunstâncias tais que lhe tornam impossível saber ou sentir que está a agir erradamente.' A.H.
 


Eichmann em Jerusalém, sobre o nazi raptado em Buenos Aires e julgado em Israel por (entre 15 acusações) crimes contra a humanidade, é talvez o livro menos filosófico de Hannah Arendt, que insistiu que a obra era uma reportagem e não um ensaio de filosofia. 
O subtítulo do livro, A banalidade do mal, foi entendido por alguns como uma contradição face ao conceito do 'mal radical' (historicamente sem precedentes, em que as pessoas são supérfluas) crismado no seu livro anterior, As Origens do Totalitarismo. A própria Arendt admitiu que mudara de opinião e não falava mais de mal radical, preferindo outra abordagem (mais compreensiva?), o facto dos 'maus' serem pessoas que, noutras circunstâncias, seriam normais e até respeitáveis. De facto, Arendt tinha a 'consciência de que também nós [os judeus], em circunstâncias idênticas, poderíamos ter agido mal'.
Arendt formula A questão, 'quanto tempo é necessário para que uma pessoa normal vença a sua inata repugnância pelo crime' e avança com uma pista, um truque de Himmler: orientar os instintos piedosos não para os outros, mas para si próprio - em vez de dizer "Que coisas horríveis eu fiz aos outros!", os assassinos diriam simplesmente "Que coisas horríveis tive eu de presenciar no cumprimento do meu dever, quão pesada é a minha missão!".
E o povo, pá? Arendt avança com uma explicação pontuada de ironia: da mesma forma que, num país civilizado, existe a tentação para violar as leis, que vertem a consciência colectiva (como o não matarás), talvez a esmagadora maioria dos alemães se sentisse tentada a violar as leis, no caso as ordens do Führer (como o matarás), mas tinham aprendido a resistir à tentação.
A escritora traz à liça outra questão, a faculdade de julgar: numa espécie de looping moral, em que os crimes eram legais, toda a 'sociedade respeitável' havia sucumbido a Hitler e as máximas morais estavam embaciadas, exigia-se que as pessoas 'fossem capazes de distinguir o bem do mal, mesmo quando não tinham para os guiar, nada além da sua própria faculdade de ajuizar, e esse mesmo juízo se encontrava em total contradição com a opinião unânime de todos os que os rodeavam'. Às ovelhas tresmalhadas, Arendt chama 'os raros homens que foram suficientemente "arrogantes" para se fiarem apenas no seu julgamento pessoal'. 
 
Voltando a Eichmann, ele não era suficientemente arrogante para dizer não - admitiu no tribunal que poderia arranjar um pretexto para mudar de função, como outros fizeram, mas sempre achou que essa atitude seria 'inadmissível' e mesmo naquela altura não a considerava 'digna de admiração'... (uma hierarquia de valores bem baralhada, num regime em que "A minha Honra é a minha Lealdade", simbólico lema das S.S.). Mais disse que a desobediência declarada seria 'impossível' e 'impensável'.
Arendt não viu em Eichmann um homem intrinsecamente mau, nem o achava estúpido, mas um zeloso burocrata, uma pessoa pouco letrada, falha de reflexão ('pura e simplesmente nunca teve consciência do que estava a fazer', escreveu, com demasiada benevolência) e vítima da sua gabarolice. Na sua opinião, o Obersturmbannführer (tenente-coronel) era directamente apenas responsável pela logística da emigração e, depois, da deportação dos judeus para o seu 'destino final', tendo-lhe sido atribuídas em tribunal responsabilidades que não teve.
 
Arendt dedica parte do livro ao pecado original do rapto do réu noutro país, à justiça dos 'vencedores' e à legitimidade do tribunal israelita (fazendo eco dos defensores dum tribunal internacional), em particular quanto à legitimidade territorial. A verdade é que Eichmann nunca teria um julgamento justo no seu país de adopção, sempre generoso com os nazis, ou na compreensiva Alemanha (a título de exemplo, Emanuel Schafer, pela morte de 6280 mulheres e crianças sérvias, foi condenado a 6,5 anos de prisão - 9 horas por cada vítima gaseada em furgões).
Apesar disso, e das inúmeras críticas ao julgamento, Arendt concordou com a pena de morte, e propôs o seu veredicto: '(...) A política não é um infantário; em política, obediência e apoio são uma e a mesma coisa. E como o senhor apoiou e executou uma política que consistia em não partilhar a Terra com o povo judaico e os povos de várias outras nações - como se o senhor e os seus superiores tivessem o direito de decidir quem deve e quem não deve habitar a Terra - pensamos que ninguém, nenhum ser humano, pode querer partilhar a Terra consigo. É por esta razão, e só por esta razão, que o senhor deve ser enforcado.'
 
p.s.: Será o mal (no caso, o holocausto) a negação de Deus? Um tal de J. L. Mackie referido na introdução dos editores) foi peremptório, as preposições 'Deus é omnipotente', 'Deus é infinitamente bom' e 'o mal existe' são contraditórias e não podem coexistir as três. A única escapatória, o livre-arbítrio, não satisfaz: se o homem é livre para decidir, Deus criou algo que não pode controlar.

Auschwitz, de Mieczyslaw Stobierski
Deutsches Historisches Museum (Berlin)
 

terça-feira, 29 de abril de 2014

DESTE UM PULO

A minha boneca é teenager daqui  2 dias. A aceitação de roupa e calçado como prendas (uma ideia que repudiava, há pouco tempo) é prova que está a encetar mais uma etapa, que se sucedem num piscar de olhos.
Paradoxalmente, com os 'degraus' cada vez mais espaçados, os adultos dão passos de bebé, e os miúdos passos de gigante - se bem que, dizer que parece que foi ontem que nasceram, é claramente um exagero, como malfadadamente provam as nossas fotografias da época.
O mai' novo também 'mexe', está a acabar a primária. Os paizinhos foram todos arregimentados por uma homónima para comprarem uma bicicleta ao professor. Podia discorrer sobre o consumismo, o viver acima das possibilidades, et caetera, mas fico-me por uma comparação: no meu tempo, dava-se um desenho ao professor, agora dá-se um quadro de carbono.
   

sábado, 26 de abril de 2014

JOSÉ ANTUNES NO 25/4

Eduardo Gageiro e Alfredo da Cunha são 'Os' Fotógrafos do 25 de abril de 1974, mas há um terceiro a compor o ramalhete, também com fotografias icónicas: José Antunes.
É dele a imagem do momento mais crítico do dia, o 'duelo' falhado da Rua do Arsenal, continuado ali perto, na Ribeira das Naus, onde se destacaram 3 figuras: dum lado, o bravo Salgueiro Maia; do outro, o alferes Fernando Sottomayor, que recusou fazer fogo sobre a coluna da EPC, tendo sido detido, e o cabo apontador José Alves Costa, que se trancou no chaimite, fingiu não saber mexer no painel de controlo e, assim, recusou obedecer ao brigadeiro Junqueira dos Reis e bombardear os revoltosos.


Rua do Arsenal

Chiado

Largo do Carmo

Noticiário RTP do dia 25 de Abril de 1974


 
O telejornal da RTP do 'dia inicial inteiro e limpo', como lhe chamou Sophia de Mello Breyner, é um documento histórico único: uma maratona, com declarações repetidas, intercaladas por música (primeiro, um conservador Beethoven, depois um mais arrojado Vinícius de Morais), sem guião - a lembrar o telejornal da guerra do golfo, com novidades às pinguinhas e a 'encher chouriços'.
Curioso, um Fialho Gouveira a fumar cigarros, uns a seguir aos outros, e o seu entusiasmo crescente, confirmando-se a irreversibilidade do coup: já era tudo camarada.

terça-feira, 22 de abril de 2014

O GRUMETE SALGUEIRO MAIA

A propósito dos 40 anos do 25 de Abril de 1974, num encontro no Posto de Comando da Pontinha, em Lisboa, onde foi instalado o controlo das operações do MFA, 2 dos quatro militares de Abril presentes manifestaram a sua discordância com a ideia de Manuel Alegre, de trasladar o corpo de Salgueiro Maia para o Panteão Nacional.
“O espetro político pegou no capitão Salgueiro Maia e transformou, 'santificou' o capitão Salgueiro Maia, que foi um tipo importantíssimo, que teve um papel que está descrito em todo o lado, mas passou para 2.º, 3.º, 10.º plano, esquecendo-os, Melo Antunes e Vítor Alves. Esses estão completamente afastados. O Salgueiro Maia concentra as atenções e o heroísmo. É um ícone. E agora querem pôr o ícone no Panteão”, declarou o major na reserva Sanches Osório. Para ele, a classe política elevou a símbolo da Revolução dos Cravos um executante, esquecendo os estrategas do plano, e, apesar de “imensa consideração pelo Salgueiro Maia”, que, afirmou, “não está em causa”, assim como não está a importância que o papel desempenhado pelo capitão teve para o sucesso da operação, Sanches Osório não deixou de fazer a comparação: “É a mesma coisa que dizer ao comandante de uma lancha: você fez um trabalho notável e nós agora vamos condecorar o grumete”.
“É antipático e impopular o que eu acabo de dizer, mas é o que eu sinto”, acrescentou.
O general Garcia dos Santos considerou a ideia da trasladação "um profundo disparate", afirmando que a transformação de Salgueiro Maia num ícone e o seu “endeusamento” como “figura máxima” da revolução explicam-se com o facto de ter morrido novo, ainda “em capitão”: “Está a ser levado a pontos que não justificam, porque há figuras que nunca mais foram chamadas a ocupar o lugar que, de facto, deviam ter em todo este processo”, citando também Melo Antunes e Vítor Alves.
 
O corpo de Salgueiro Maia deve estar onde está, em Castelo de Vide, por uma razão apenas, foi isso que ele quis expressamente*: caso tivesse voto na matéria, também lhe desagradaria a ideia de Alegre.
É verdade que a recusa de cargos (membro do Conselho da revolução, adido militar numa embaixada à escolha, governador civil de Santarém, membro da casa militar da PR) e uma morte precoce são românticas, e que houve protagonistas não menos importantes. Não sei se, nesta espécie de campeonato, Salgueiro Maia tem primazia face aos 'estrategas', mas sei que foi Salgueiro (com 29 anos), e não outros, que se expôs aos canhões da fragata colocada no Tejo (capitaneada pelo pai de Louçã) e dos chaimites do regime, e mostrou o peito às forças acantonadas no quartel do Carmo. E, caso o dia tenha corrido mal, Otelo O Cérebro podia ter sido preso, e Salgueiro O Bravo podia ter sido morto.
Mas a imagem da lancha é interessante: imaginemos de um lado o general que arrasta, com um rodo, soldadinhos de chumbo sobre um mapa gigante, e do outro o sargento que lidera o grupo de assalto às trincheiras inimigas - do sucesso do primeiro dependem muitas vidas, do sucesso do segundo dependem menos destinos, mas um é o próprio. Se a medalha for por bravura, condecore-se o grumete.

* Determino que desejo ser sepultado em Castelo de Vide, em campa rasa, e utilizar o caixão mais barato do mercado, o transporte do mesmo deve fazer-se pelo meio mais económico, de preferência em viatura militar. Durante o funeral somente a presença dos amigos a quem peço para entoarem "Grândola Vila Morena" e "Marcha do M.F.A." (testamento de 28 de Junho de 1989)

Meus senhores, como todos sabem, há diversas modalidades de o Estado se organizar: há os estados socialistas, os estados ditos comunistas, os estados capitalistas e há o estado a que chegámos. Eu proponho acabar com o estado a que chegámos! De maneira que, quem quiser vir comigo, vamos para Lisboa e vamos acabar com isto. Quem for voluntário, sai e forma. Quem não quiser sair, fica aqui!
Discurso de Salgueiro Maia na parada da Escola Prática de Cavalaria, madrugada de 25/04/1974


 
 




 
 

segunda-feira, 21 de abril de 2014

SAÍDA LIMPA


'Do ponto de vista do Governo, a saída directamente para os mercados é limpa e a saída directamente para mercados com o apoio de uma linha de crédito é limpa também', disse hoje Portas.
Limpinho, limpinho, como transitório é duradouro, e duradouro é definitivo.
Eu acho que, com ou sem andarilho, saímos tão limpos como limpa-chaminés (farruscos), mas deve ser impressão minha.

domingo, 20 de abril de 2014

OS ÚLTIMOS FILHOS DO IMPÉRIO

'Há uma dimensão estrangeira em mim, muito improvável, porque tendo crescido apenas com memórias portuguesas e tendo em muitos dos momentos tido a sensação de que sou o mais convencional dos portugueses, era constantemente levado a perceber que havia uma dimensão estrangeira na minha identidade. Enquanto não voltei à terra onde nasci, eu senti-me adiado.'
 
Tendo sido 'Retornado', reconheço como minha a história contada hoje na revista do Público, Os últimos filhos do Império. Porém, como não tinha sequer 3 anos quando embarquei num Jumbo, a caminho de Lisboa, não tenho recordações pessoais dessa ruptura, se expurgadas as memórias próximas, ou quaisquer sentimentos de perda: tirando a vontade de regressar à terra natal, foram as palavras de Valter Hugo Mãe (mais novo que eu 10 dias) que mais sentido me fizeram - de certa forma, somos uns sem-terra.
 
 

sexta-feira, 18 de abril de 2014

GABO SE FUE

Gabriel Garcia Marquez 1927-2014
Prémio Nobel 1982

PORTUGAL ESTÁ CONDENADO A SENTAR-SE,
DE SAPATOS ROTOS E CASACO REMENDADO,
NA MESA DOS MAIS RICOS DO MUNDO.
 
LISBOA É A MAIOR ALDEIA DO MUNDO.
 
escritos de 1975

quinta-feira, 10 de abril de 2014

CICLI$MO

 
                                                1973. Regime em agonia, 1ª crise do petróleo, recessão
                                                1983. Pré-bancarrota, 2ª estada do FMI
                                                1993. Cavaquismo em refluxo, 1ª recessão já na CEE
                                                2003. País oficialmente de tanga
                                                2013. Portugal ligado à máquina, vigilância externa

O intervalo é pequeno para revelar os ciclos de Kondratiev (ondas longas de recessão e prosperidade económicas, de 50-60 anos) e não se vislumbra um ciclo intermédio de Kusnetz (15-25 anos), mas a repetição parece cumprir a duração decenal (8-11 anos) dos ciclos curtos de Juglar.
As teorias dos ciclos são empíricas, não comportam interrupções e choques externos, e a sua duração constante é infirmada pela história (para os mais cépticos, um ciclo económico é uma série única de acontecimentos, com uma explicação única). Mas que há ciclos, e que cada crescimento é seguido por uma retracção, é tão certo como a morte e os impostos. 
Eu sou como Jesus e não percebo de economia (alerta, overdose de clichés!), mas acho o nosso ritmo, com ups envergonhados e downs cavados, bastante arreliador.

quarta-feira, 9 de abril de 2014

PRRRREC

'O que há de certo modo tranquilizador, no meio do ambiente de confusão que muitas vezes emerge, é que a dita confusão é mais aparente que real. A menos que se diga, pelo contrário, que a confusão é tão confusa que nem conseguimos identificar-lhe a verdadeira dimensão.', dizia-se no DN de 27.1.75.
 
Bom resumo da barafunda do Processo Revolucionário em Curso (PREC), nesse ano vertiginoso de 1975. O que hoje parece um filme divertido - só fumaça, que o povo é sereno -, foi na verdade uma encruzilhada perigosa.
As eleições para a assembleia constituinte, a 25/4, foram um duche gelado para as forças 'progressistas'. No início da campanha, o MES avisava que 'as eleições favorecem as forças reaccionárias' e defendia ser 'fundamental criar o poder operário popular', e o premonitório Sottomayor Cardia lembrava a revolução russa e a perenidade da sua assembleia constituinte (nessas eleições, os mencheviques e os socialistas revolucionários tiveram 62% dos votos, e os bolcheviques 25%), perante o avanço de Lenine & Cª (2/4). Dias depois, Vasco Gonçalves diz que 'Não podemos perder por via eleitoral aquilo que tem custado a ganhar ao povo português' (8/4), no que é seguido por Rosa Coutinho, 'a consulta a um povo pouco esclarecido não pode comprometer o processo revolucionário' (11/4).

No rescaldo das eleições (PS 37,9%, PPD 26,4%, PCP 12,5%, CDS 7,6%, MDP/CDE 4,1%, MES 1%, UDP 0,8%, LCI 0,2%), a amuada LCI afirma que 'As eleições não são via de reforço da luta dos trabalhadores e correspondem a um período de ilusões na classe operária sobre as possibilidades de passagem pacífica ao socialismo' e o MES, pela boca de Augusto Mateus (sim, esse), reclama que 'As eleições são inoportunas no actual contexto do avanço do processo revolucionário' (26/4)
Numa entrevista (gravada) a Oriana Fallaci, e depois negada, Cunhal é cristalino: 'As eleições para mim não têm qualquer importância, nenhuma mesmo (...) Se pensa que o PS com os seus 40% e o PPD com os seus 27% compõem a maioria, está a cometer um erro. Eles não têm a maioria (...) a Assembleia Constituinte certamente que não será um órgão legislativo e não será uma Câmara de deputados (...) Prometo-lhe que em Portugal não haverá qualquer parlamento' (27/6).
No estertor dos seus governos, Vasco Gonçalves reitera que 'não existe lugar para uma democracia burguesa em Portugal' (29/8).
Já em contramão, Rosa Coutinho explica 'Ser-se revolucionário de acordo com as maiorias é um contra-senso. Um revolucionário pode ter que estar durante muito tempo com as minorias esclarecidas' (5/10).      
 
No campeonato do esquerdismo, a UDP achava de si própria 'não é um partido de extrema-esquerda, é de esquerda e à nossa esquerda não há mais esquerdas. Para além de nós, só de direita' (28/2) - o MRPP chamava social-fascistas aos comunistas (moderados por razões tácticas, e refreados pelos soviéticos, que queriam manter a détente na europa), com a mesma ligeireza que Spínola, em 74, chamava forças contra-revolucionárias aos 'irresponsáveis esquerdistas'. O PPD participava em manifestações de apoio à nacionalização da Banca e dos seguros (18/3) e Mário Soares lembrava que a nacionalização da Banca estava no programa do PS, mas não do PCP (27/3).
O PPD aplaudiu as nacionalizações anunciadas em Abril, confiando que se traduzissem 'no início de uma autêntico socialismo e não no capitalismo de Estado' (16/4); Marcelo R. Sousa via no PPD um 'partido à procura de um lugar à esquerda', aquando da escolha dum substituto para Sá Carneiro,  e o novel líder, Emídio Guerreiro, pretendia  um 'partido francamente de esquerda' (25/5) - porém, como disse alguém, as bases dos partidos estavam mais à direita que os líderes, e os seus eleitores mais à direita ainda. No 1º congresso da JSD, cartazes de Marx e Engels compunham o cenário, e foi escolhido como hino a Internacional (1/6), e o PPM tinha a sua Juventude Monárquica Revolucionária.  
Embriagados (ou temerosos) pela alegria revolucionária, no congresso da CIP, os empresários advogaram a 'distribuição da riqueza' (10/7).    
 
E o povo, pá? O povo, ou parte dele, vivia em clima de pré-guerra civil: colocação de bombas à esquerda e à direita, barricadas em Lisboa e Rio Maior (um no passarán com mocas), destruição de sedes partidárias, invasão de herdades e de casas, cerco do parlamento, mortos (sim) e feridos, confrontos e petardos em comícios. A animosidade chegou ao ponto de, na Madeira, se escrever 'Vem à manifestação do PPD. O trânsito nas estradas é livre, se os comunistas te impedirem de passar, passa por cima deles' (2/8).
A igreja, que antes vedara aos católicos dar o voto a partidos incompatíveis com uma concepção cristã (12/4), fazia agora os seus comícios, recusando uma 'igreja algemada' e exigindo 'autoridades mandatadas pelo povo como seus representantes e não como tutores' (10/8). 
 
A ponderação era privilégio de poucos, como Melo Antunes, falasse ele de pão ('não vai haver milagres porque ninguém dispõe de fórmulas mágicas para resolver o problema da economia portuguesa', 21.2), ou falasse de política, esperando que 'existam reservas de lucidez para destrinçar entre o possível e o quimérico, entre a utopia demagógica, paralisadora e, consequentemente, funesta e o senso do real, o suicídio a que o aventureirismo conduz e o enfrentamento honesto, ainda que impopular, das circunstâncias. O país está emocionalmente exausto' (DN, 8/3).
Para a vitória dos moderados, houve 2 personagens fulcrais, fiéis da balança: o Presidente Costa Gomes (sub-secretário de Estado de Salazar e CEMGFA de Caetano, by the way), cerebral, equilibrista entre campos antagónicas (embora suspeito de simpatia pelo PCP), avesso a decisões, tímido apoiante dos mais fortes, a cada momento; Otelo, um radical errático, fã de Fidel, defensor das colunas populares, ora autorizando a participação de militares numa manifestação onde se defendeu a dissolução do governo e da assembleia e a instalação duma ditadura do proletariado (17/7), ora contra o governo de Vasco Gonçalves, ora apoiante da distribuição de armas ao povo, ora contra o documento dos 9, ora negociando com os seus autores, ora faltando ao 25/11, o derradeiro combate da sua esquerda popular. Como diria Eanes, sendo um homem da extrema-esquerda, Otelo nunca assumiu coerentemente o que seria a estratégia dessa área, a que se somava a sua incoerência ideológica.
 
Quanto às colónias, além do patrocínio de uma das partes em conflito, considerava-se que tudo devia ser feito para facilitar a integração de Timor na Indonésia (terá dito o companheiro Vasco), pretendia-se uma descolonização rápida, e os retornados eram corpos estranhos nas suas* terras e na metrópole - 'Se eles comeram a carne, agora que roam os ossos', terá dito o PM Pinheiro de Azevedo, enquanto eles se manifestavam com cartazes onde se lia 'Trabalhar não foi crime nem roubo'.
Anos depois, o lúcido Melo Antunes reconheceu que 'o processo da descolonização foi das coisas mais difíceis, mais dramáticas e mais trágicas que aconteceram em Portugal',  mas também já havia dito antes que 'não há descolonizações bem feitas', porque 'não houve, ou não há, boas colonizações'.

notas sortidas de 1975 O Ano do Furacão Revolucionário, João Céu e Silva

* Rentes de Carvalho (em Portugal A Flor e a Foice), conta que, em Abril de 1974, um apaziguador Agostinho Neto declarava em Londres 'Evidentemente que quando digo o nosso povo são todos os que nasceram em Angola e se consideram angolanos. Os pretos, que tradicionalmente são considerados africanos e os brancos que estão há cinco séculos no nosso continente e no nosso país.'

1914-2014

 
A HISTÓRIA NÃO SE REPETE, MAS RIMA.
Mark Twain

A Rússia imperial abocanha um bocado da Ucrânia, e quer estraçalhar o resto, perante uma indignação ocidental à Chamberlain.
Irlanda, Portugal, Grécia e Chipre têm tutores.
A Bélgica vive uma desirmandade latente.
A Catalunha e a Escócia querem a independência.
A Alemanha über alles manda na europa.
Contra a imigração, a barricada.
A extrema-direita está pujante em vários países e é vista sem temor pelos eleitores da direita e da esquerda.
As hostes euro-cépticas crescem a olhos vistos.

terça-feira, 8 de abril de 2014

REWIND

Newsies at Skeeter Branch, St. Louis. Lewis Hine, 1910

20-vinte-20 anos. Há quanto tempo não se viam.
E tinham sido tão amigos, daqueles inseparáveis, siameses. Durante anos seguidos, milhares de tardes e de noites. A história de um era a história do outro, as brincadeiras, as bebedeiras, os matrecos, as noitadas, os desamores.
Chegou o dia em que a geografia os apartou. Foram-se encontrando, a intervalos crescentes - mas era como se tivessem estado juntos na véspera -, até que nunca mais se viram. Houve ainda uns telefonemas no Natal, uma chamada para celebrar a paternidade de fresco, outra por um motivo esquecido, e pronto.
Até que, um dia, veio uma chamada: 'Vou aí no Sábado, jantamos?'
O entusiamo infantil foi atravessado pela dúvida: Como pôr em dia 20 anos? Como encher 2 horas, depois de mostrar a família no telemóvel, resumir o currículo e falar do divórcio duns amigos em comum? Tanta quilometragem no contador, já não eram os catraios de outrora, seriam estranhos ou, pelo menos, alheios um ao outro?
O abraço foi apertado, tanto quanto permitiam as suas barrigas, cadastros do tempo.
- Então, pá? Como é que estás?
- Tirando o fútil, tornei-me no pesadelo do Álvaro de Campos: casado, quotidiano e tributável*. E tu?
- Nã. Quero saber tudo, tim-tim por tim-tim. Comecemos por 1995.
Nesse dia, voltaram atrás no tempo, e a história de um voltou a ser a história do outro.
Também partilharam a ressaca, pois os fígados já não eram os mesmos.

* Lisbon Revisited, 1923

segunda-feira, 31 de março de 2014

RELATIVIZA

 
 
Depois de 48 anos atrás das grades, um homem condenado à morte foi libertado há  dias,  no Japão. Em todo o mundo, ele foi o prisioneiro que passou mais tampo (acima de 30 anos) no corredor da morte - sem poder falar com outros presos, ver televisão ou ler livremente.
Iwao Hakamada tem 78 anos e foi provavelmente preso por engano, acusado de matar o patrão, a mulher e os 2 filhos, incendiando depois a casa da família. Preso em 1966, condenado à morte em 1968 e com pena confirmada em 1980, Hakamada sempre insistiu que foi forçado pela polícia a assinar a confissão, ao fim de 20 dias de espancamentos. Novas provas e testes de ADN (de sangue encontrado em amostras da alegada roupa do assassino) indicam que o homem estará inocente - foi libertado e aguarda novo julgamento.
Hakamada sofre de doença mental (a espera pelo enforcamento teve consequências, e começou a mostrar-se confuso e desorientado, enchendo as cartas enviadas à família com rabiscos sem sentido) e mostrou-se apático aquando da saída da prisão - consta que, quando o advogado lhe deu a notícia, 'pareceu entender, mas não expressou nenhuma alegria com a notícia'.
Pormenor sádico, no Japão, a pena de morte é executada sem aviso - o homem viveu décadas a acordar todos os dias, sem saber se esse era o último. E sem culpa nenhuma.
 
Face ao exposto:
Triste porque não conseguiste nota para medicina?
Chateado porque o salário não chega?
Danado com o teu chefe?
Possesso porque erraste um número no euromilhões?
Amor não correspondido?
Colérico com uma vida madrasta?
Relativiza.
 

sexta-feira, 28 de março de 2014

EXPRESSIONS POPULAIRES

Os franciús invadiram Portugal por 3 vezes, e 3 vezes foram escorraçados. Assentaram arraiais por pouco tempo (mesmo esse, foi demasiado), mas deixaram uns souvenirs, que pegaram de estaca na linguagem popular.
Jean Andoche Junot comandou a primeira invasão, uma espécie de blitzkrieg: entrou por Idanha-a-Nova, em 17/11/1807, acelerou pela margem direita do Tejo e chegou a Lisboa no dia 30... a tempo de ver a armada portuguesa, com a corte, a sair da barra do rio - ficou 'a ver navios'.
O governador-geral, entretanto nomeado duque de Abrantes (duc d'Abrantès), procurou esquecer o desaire com uma vida faustosa, entre caçadas, festas e idas ao teatro - viveu 'à grande e à francesa'.
O forró não durou muito: o povo sublevou-se em Junho, os ingleses vieram dar uma mãozinha (paga com língua de palmo) e, no final do verão quente, o exército napoleónico deu de frosques. Não sem que Junot levasse tudo o que conseguiu carregar (nas fragatas emprestadas pelos ingleses, que os derrotaram), incluindo obras de arte - foi 'de armas e bagagens'. A pressa em zarpar, essa, crismou a expressão 'despedida à francesa'.
Na comitiva de Junot, veio Louis Henri Loison, mau como as cobras, famoso pelas pilhagens e pelo seu gosto em torturar, por vezes até à morte, inúmeras pessoas. Má sina tinha quem fosse apanhado pelo general, que perdera o braço esquerdo num acidente de caça - muita gente 'foi para o maneta'.

Partida da corte de D. João VI, 29-11-1807 (Henry L'Évêque, 1815) 



 

quinta-feira, 27 de março de 2014

IDAS A BANHOS

 
A partir dos finais do século XVIII, era comum as pessoas mergulharem na Junqueira e em Santa Apolónia, devido às alegadas propriedades curativas do rio. Na verdade, era mais garantido que apanhassem doenças, ou não fosse o Tejo a casa de banho da cidade: a excitação de poderem chapinhar na água fazia esquecer as calhandreiras, que despejavam os bacios poucos metros ao lado.
A moda [do turismo balnear, iniciado na Inglaterra, por volta de 1750] enraizou-se em Lisboa nos primeiros anos de 1800. Entre Junho e Setembro, era comum ver famílias inteiras em romaria matinal na direção do Tejo, acompanhados pelos criados, que lhes transportavam as pesadas roupagens de ir ao banho e as toalhas. As praias da Junqueira e de Santa Apolónia, nos dois extremos da cidade, eram as estâncias mais populares.
Logo de manhã, o rio fervilhava de barcas de banhos, alugadas pelas famílias mais ricas (esses botes, chamados catraios, eram usados durante o resto do ano para transportar gente entre as duas margens do rio). Chegados à praia, os veraneantes subiam a bordo e o barco navegava apenas uns metros, para que não se perdesse o pé. Os homens despiam, na proa da embarcação, os trajes de cerimónia e vestiam um colete de lã e calções compridos, e atiravam-se à água, onde esperavam pelas mulheres, que mudavam de roupa dentro de uma espécie de tenda feita com lençóis, montada na popa. Idealmente, trocavam os complicados vestidos e desconfortáveis corpetes por decorosas vestes de banho que lhes cobriam o corpo todo - e de lã grossa, para não deixar que a água moldasse a roupa ao corpo. Na margem, praticamente ao lado destas chiques farras de gente com sangue azul, dezenas de miseráveis calhandreiras despejavam no rio os seus potes cheios de... chamemos-lhes impurezas. Os matadouros a montante, perto do Terreiro do Paço, acrescentavam o seu quinhão, atirando carcaças e outros restos de animais para o rio.
Já as senhoras que viviam em moradias à beira-rio, com jardins até à margem, entravam na água com uma corda atada à cintura e  outra ponta presa a um armário dentro de casa, para não se deixarem levar pela correnteza. Mergulhavam rapidamente e regressavam a casa. Já os pobres que gostavam de imitar os ricos mas não tinham dinheiro para alugar um barco banhavam-se nas praias de areia de Pedrouços e da Cruz da Pedra. Nesses locais havia, à beira da água, tendas para as mulheres se mudarem e nadadores-salvadores, armados com cordas, para acudir a quem precisasse de auxílio.
Um escritor inglês louvava os mergulhos das mulheres lisboetas, se não fosse assim, nove em cada dez mulheres de Portugal nunca experimentariam outra ablução depois do baptismo - nem uma simples passagem com uma toalha molhada pela cara, de manhã.
Histórias do Tejo, Luís Ribeiro (ad.)

terça-feira, 25 de março de 2014

EU TIVE UM SONHO


Eu tive um sonho. Sonhei que a democracia era mesmo representativa, e que, em vez de advogados, macro-economistas, consultores e avençados em partidos, a assembleia da república tinha professores, funcionários públicos, pequenos empresários, reformados, trabalhadores fabris e desempregados - todos com prazo fixo de retorno às suas vidas.
Acordei assustado: os deputados eram bem menos alheios às consequências das suas medidas, mas havia de ser bonita a cacofonia, ninguém se entendia ou chegava a qualquer consenso criador, dadas as suas divergências insanáveis...
Depois veio o alívio: essa ideia (um corporativismo sem bolor) é tão surreal como cavalos alados, grilos falantes e pedras rolantes. E tão gira.

quinta-feira, 13 de março de 2014

PARA MALES DE AMOR, PRIMA 2

Boulevard Diderot, 1969, Henri Cartier-Bresson
 
- A alma padece de mui variadas formas. Temos os pruridos da dúvida, doença crónica dos filósofos que procuram a certeza; hipertrofias de crenças, mal frequente aos vinte anos; aneurismas de aspirações, muito vulgares em bacharéis formados; icterícias de desespero, nos chefes de família numerosa; fracturas de carácter, nos homens políticos; luxações do senso comum, nos poetas; paralisias de ociosidade, nos empregados públicos; dispepsias de indignação, nos contribuintes; noli me tangere de susceptibilidades, nos deputados flutuantes; convulsões de entusiasmo, em afilhados de ministros; marasmos de desalento, em pretendentes sem protecção; cancros de exigências, em diplomatas indispensáveis; epilepsias de ciúmes, nos maridos; e as cataratas de amor, em...
- É a doença de Carlos, é a doença de Carlos.
Carlos moveu-se com impaciência.
- Pois é terrível doença - continuou o orador. - Vejamos. Causas: - É hoje inquestionável que esta espécie de cegueira procede de ordinário da exposição do doente ao fogo e esplendor de uns olhos e ao hálito embalsamado de uns lábios de mulher. Para evitar o contágio, construíram-se em tempos vários estabelecimentos higiénicos  que chamaram conventos. (...)
- Os sintomas são variados. Em geral o doente tem fisionomia de parvo característica; no intervalo dos acessos cai em uma espécie de beatífica idiotia, da qual nem os cáusticos o arrancam. Nos paroxismos chega a arrepelar os cabelos, a amarrotar o colarinho, a soltar gritos, que bolem com a vaidade dos tigres, e a arrulhar de maneira que causa o desespero dos pombos. Nos casos mais fortes, a doença toma um carácter de malignidade e o doente faz-se poeta. Nesse estado, o médico perde as esperanças e reclama os sacramentos... do matrimónio.
- E o tratamento? E o tratamento? - perguntaram alguns, rindo.
- A higiene é tudo, meus amigos; mal vai se a profilaxia não atalhou a moléstia.(...) Recomendo a gastronomia, porque as funções do estômago e do coração são antagonistas.
Júlio Dinis, Uma Família Inglesa