...e depois, com bigodes de leite, pedem mais paciência e esforço ao povo, que a "vaca 'tá seca".

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

ANDREAS GURSKY - ONDE ESTÁ O WALLY?

Pode uma fotografia, passajada a Photoshop, ser vendida por cerca de 3,5 milhões de euros? Pode, pois.
Para chegar lá, é preciso 'complicar': no site do MoMA, dono de algumas das suas obras, o trabalho de Gursky é descrito como uma tensão entre a clareza e natureza formal das suas fotografias e uma intenção e sentido ambíguos nelas representados, chegando a comparar as suas imagens das bolsas de valores com pinturas abstractas expressionistas; a distância do 'momento decisivo' de Cartier-Bresson e a concomitante rejeição da verdade da imagem cândida diz-se, é sublinhada pela manipulação digital das fotografias.
Já o crítico Calvin Tomkins encontrou nas suas imagens XXL 'a aura majestática das paisagens pintadas no século XIX, sem perder o seu imediatismo meticulosamente detalhado de fotografia'. Mai' nada.
Como é habitual, eu não encontro a mesma poesia que os entendidos, mas as composições do alemão, nascido em 1955, provocam um impacto irrevogável. E, em fotografias como as da Coreia do norte, a praia ou a Prada (uma pauta...), consegue-se vislumbrar alguma musicalidade na cenografia, seja nua de pessoas, ou empolada de gente anónima (a lembrar os álbuns do Wally), num caos harmónico.
Os trunfos de Gursky, que o tornaram no fotógrafo mais bem pago do mundo (uma das seis fotografias do Reno bateu todos os recordes, sendo vendida por €3,5 milhões), são uma lente grande angular (com panorâmicas tiradas, amiúde, duma perspectiva mais elevada), máquinas de alta resolução, uma titânica pós-produção, pixel a pixel, à procura do sublime (é reconhecida a adulteração do Bundestag, e suspeitos a largura do prédio de Montparnasse e o alinhamento cromático dos guarda-sóis de Rimini) e impressões de grande formato, oferecendo uma 'impressionante compilação de detalhes numa escala épica' - detalhes (e repetições) dum mundo globalizado, mas apresentados duma forma algo desligada, sem que transpirem as emoções dos 'figurantes'. Na verdade, as imagens são impessoais e a multidão é o ser orgânico: é facto que, visto de longe, temos as emoções duma ameba. 
Enfim, Cartier Bresson está para Gursky como o Dolce Vita para o Matrix. Mas eu gosto de blockbusters.
Pormenor, a colecção BESart inclui Gursky no seu catálogo.

1982. Desk Attendants

1993. Paris Montparnasse

1994. Hong Kong Stock Exchange (díptico)
1995. Dance Valley (Amesterdão)
1996. Prada,I (139.7 x 221.7 cm)
Leiloado em 2006 por £164,800

1996. Untitled III (255.6 x 200.7 cm), MoMA

1997. Prada II (111.8 x 275.3 cm)
Leiloado em 2012 por $782,500 d.
1997. Singapore Stock Exchange (132.1 × 235.6 cm), Guggenheim NY

1998. Bundestag (284×207 cm), Tate Gallery

1999. Klitschko

1999. Rhein II (155.6 x 308.6 cm), MoMA
Leiloado outra fotografia da edição de 6 imagens, na Christie's NY, por $4,338,500 d. a 8.11.2011

1999. Chicago Board of Trade II

1999 Toys 'r' Us (207 x 336.9 cm), MoMA

2000. Kuwait Stock Exchange

2000. Shanghai
 
2001. Madonna I

2001. Loveparade (100 x 242 cm)


2001. 99 cent store II (díptico)
 Leiloado por £2.100.000 in 2007

2002. Untitled XIII (México)

2003. Rimini (297 × 207 cm)
Leiloado a 10.10.2012 por £421,250


2004. Nha Trang (295,5 x 207 cm)
2004. Dior Homme (prova por revelação cromogénea, 187 x 371,3 cm) BESart
2005. Bahrain I (301.9 x 219.7 cm), MoMA

2006. May Day V

2007. James Bond Island II


2007. Pyongyang I (Arirang festival)
50000 figurantes e, nas bancadas, 30000 estudantes com cartões coloridos
Há quem encontre aqui ironia nas caras felizes a festejar um Estado policial e hermético


2007. Pyongyang II (díptico)

2007. Pyongyang IV

2007. Kathedrale I (Chartres)
Uma das pessoas será o realizador Wim Wenders

2007. Kamiokande (observatório subterrâneo de neutrinos, Japão)

2007. Kamiokande

2008. Ohne Titel XV (Untitled XV)


2009. Dortmund (307 x 222.7 cm)

2009. Bibliothek (158.9 × 322.6 cm), Guggenheim NY 

2011. Bangkok IX



Stadium

sábado, 22 de fevereiro de 2014

SOBE E DESCE

Estrada da Vida, 1954, Fernando Taborda
 

REGRAS DO FUTEBOL DE RUA

Nazaré 1958, Gerard Castello Lopes

1º - O gordo é sempre o Guarda-redes ...
2º - O jogo termina quando todos estão cansados
3º - Embora o jogo esteja 20 a 0, “quem marcar, ganha!!”
4º - Não há árbitro
5º - Só se marca falta se for muito claro, ou se sair alguém a chorar
6º - Não há fora-de-jogo
7º - Se o dono da bola se chateia…acaba o jogo
8º - Os melhores jogadores não podem jogar na mesma equipa e são eles que escolhem o resto da equipa
9º - Ser o último a ser escolhido é a maior humilhação
10º - Nos livres directos, a barreira vai estar sempre perto da bola
11º - A partida tem uma pausa quando passa um adulto ou uma senhora com um bebé
12º - A partida para quando a bola entra pelo vidro de alguma casa, café, carro… ou quando passa um camião, autocarro ou carro. Se for motas ou bicicletas… segue o jogo
13º - São inimigos eternos os jogadores do bairro mais perto
14º - Os que não sabem dar um pontapé na bola, são suplentes ou quanto muito… defesas
15º - Se chegam os mais velhos, temos que sair do campo, mas não, sem protestar primeiro
16º - Há sempre um vizinho que não te deixa jogar ou que ameaça que te fica com a bola
17º - Se se aposta alguma coisa, jogamos como se fosse uma final
18º - As balizas são duas pedras, ou latas, mas vai haver sempre uma equipa que tem a baliza mais pequena
19º - Quando uma equipa marcar um golo de chapéu, a equipa adversária vai gritar sempre “FORA”( para que o golo não seja validado)
20º - Os foras são marcados com o pé e é possível atirar contra um adversário e seguir a jogada(foras “à cigano”)
21º - Num penalty, o gordo sai sempre da baliza e quem defende é o melhor jogador

em http://voosdopardal.blogspot.pt/2013_10_01_archive.html

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

IDÍLIO

Henricartoon, 18.2.2014
 
'A vida quotidiana das pessoas não está melhor
mas o país está muito melhor.'
Luís Montenegro, JN

As abelhinhas estão muito melhor, os passarinhos chilreiam felizes, as trutas respiram saúde, os cedros estão viçosos, a bandeira tem pespontos novos, a torre de Belém está de cara lavada, a praia de Mira recomenda-se, o Benfica vai à frente (grrrr...), o leite-creme está no ponto. Já as pessoas...
Não se espera que Montenegro ache, como Adriano Moreira, que um país é uma comunidade de afectos. Mas, no mínimo, devia saber que um país não é um terreno, sim as pessoas que o ocupam. E devia recordar que os deputados e os governos são escolhidos por (rufo de tambores...) pessoas, para que se ocupe do bem-estar das (taran...) pessoas.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

SIRVA(-SE)


UTOPIA de Thomas More
ilustração da 1ª edição, 1516
No meu primeiro ano de faculdade, tive um professor, avançado na idade, que permanecia em funções a pedido da instituição. O decano resolveu que não haveria aulas durante o semestre, e que a avaliação passaria por um trabalho a apresentar: tiveram todos entre 14 e 16 valores, destoando apenas um discente com 18... a filha do reitor.
A 'ocorrência' seria apenas caricata, não fosse a cadeira de Deontologia (do grego déontos, o que é necessário ou o que é certo), precisamente a disciplina que versa sobre deveres ou regras de natureza ética.
Vai, pois, uma grande distância entre o dever e o ser, entre teoria e prática, entre a pureza original do Princípio e o abastardamento da sua materialização: é como um caranguejo que não anda na direcção para onde está virado, ou a águia bicéfala.

Miguel Sousa Tavares, no Expresso de 15.02.2014, dedica-se à ambivalência dos conceitos: no dicionário Porto Editora, encontrou dois significados distintos para a palavra Elite, 'minoria prestigiada constituída por aqueles que são considerados superiores' e 'o que há de melhor numa sociedade ou num determinado grupo'. Ora, para ele, não se trata de uma nuance, mas da distinção entre os que usam privilégios e os que assumem responsabilidades. Não imaginam, a ilustrar a crónica de MST, uma águia bizantina?
 
Dias antes, na Quadratura do Círculo, António Costa dissertou sobre os candidatos autárquicos preteridos pelos seus partidos, vencendo-os nas urnas. A sua análise, lúcida e singela (adjectivos muitas vezes redundantes), sobre a forma de fazer política, ultrapassa o caso em questão e é particularmente demolidora, vindo dum político de carreira, protocandidato a PM ou a PR: 'As estruturas partidárias estão a perder contacto e a ganhar impermeabilidade relativamente àquilo que é o sentir normal da sociedade. Ora, os partidos não existem por si, a origem dos partidos são associações de cidadãos que se organizam para exercer uma cidadania activa. E, portanto, se os partidos deixam de representar o conjunto da sociedade e se enganam desta forma, digamos, na escolha daquilo que são as suas opções e aquilo que é o anseio da sociedade, começam de facto a ficar isolados.'
Cristalino. Longe vão os tempos, andava a democracia de cueiro, em que as pessoas pelejavam por ideias e aderiam aos partidos para participar (quase por desporto, por vezes violento) na vida colectiva, com desapego. Dizem que a qualidade dos parlamentares diminuiu nestas 4 décadas, e que os primeiros deputados tinham outro lastro; agora, dá a ideia que os partidos estão cheios de gente menos interessante e com mais interesses. É claro que a generalização é tão estúpida como o IVA, mas a evolução afastou-se do que era suposto - 40 anos a andar como o caranguejo.
minoria prestigiada constituída por aqueles que são considerados superiores

elite In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2014. [Consult. 2014-02-15].
Disponível na www: http://www.infopedia.pt/lingua-portuguesa/elite;jsessionid=WHpkKa0HZr1bHKECB+DSRg__

minoria prestigiada constituída por aqueles que são considerados superiores

elite In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2014. [Consult. 2014-02-15].
Disponível na www: http://www.infopedia.pt/lingua-portuguesa/elite;jsessionid=WHpkKa0HZr1bHKECB+DSRg__

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

ESTADO NOVO - MACEDÓNIA

I
Se é por patriotismo, bora lá.

II
É proibido proibir
(pormenor, 15% da multa é para o bufo; 2º pormenor,
o castigo para funcionários públicos era a dobrar, uma novidade)


III
uma tolice, mas sempre havia especial
consideração pelas professoras


IV
'Portugal pode ser, se nós quisermos, uma grande e próspera Nação.
Uma mentalidade nova fará ressurgir Portugal', ensinava-se aos petizes.
Hoje a doutrinação patriótica já não é feita nos cadernos escolares
(o CR7 não conta), mas em pins colocados nas lapelas de fatos risca de giz.
O que continua é a promessa de um Homem novo.







quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

PARTES PRIVADAS



- Eu não vejo as coisas bem figuradas. Para que hei-de estar a dizer o contrário? Negócios com o governo nunca me agradaram. O Governo! Quem é o Governo? O Governo afinal não é pessoa que se penhore; por isso voto que...
- Mas repare - dizia o director com exemplar paciência - repare que as garantias oferecidas são das mais seguras. O Governo compromete-se.
- E adeus minhas encomendas! - tornou o outro. - Ora que cisma! Mas quem é o Governo? Eu não sei quem é o Governo! Uns valdevinos, que hoje são tudo e amanhã são nada... Faz-se o contrato com uns e amanhã respondem por ele caras novas. Não me entendo com isso.

Este comerciante d'Uma Família Inglesa, senão era um espécime raro no século XIX, seria agora um caso de estudo. Na verdade, a livre empreendedorismo é faladura, num país em que quase toda a gente depende do Estado, via reformas, salários, subvenções, benefícios ou contratos. O que não os impede de censurar o desmesurado peso do Estado - à custa dos MEUS impostos, dizem todos, mesmo que não os paguem integralmente -, qual grilheta que os prende (mas quem está amarrado a quem?), sejam grandes ou pequenos.
Vem isto a propósito duma obra e graça do Espírito Santo: diz o Jornal de Negócios de 29.1.2014 que, dos 279,5 milhões de euros decorrentes das vendas e serviços prestados pelo Espírito Santo Saúde (ESS) nos primeiros nove meses de 2013, 53,8% vieram direta ou indiretamente dos cofres do Estado, avança o Jornal de Negócios: 29,5% através dos subsistemas de saúde pública (como a ADSE, SAD e ADM), 22,7% das parcerias público-privadas (no caso, o Hospital Beatriz Ângelo, em Loures) e 1,6% dos proveitos decorrentes de contratos e convenções com o SNS para reduzir as listas de espera. Conclusão, o líder no mercado privado de saúde em termos de rendimento depende (rufo de tambores) do erário público e dos seus funcionários.
O 4º maior operador privado é a Sanfil, um grupo familiar coimbrão, que cresceu meteoricamente com a gestão de listas de espera de cirurgias, de que é o maior beneficiário (a história inclui a 'proximidade' com deputados, responsáveis de ARS e dos HUC, e a 'ronha' dos processos de aprovação de 2 concorrentes).
Quais 3 estarolas, à Saúde, juntam-se a Educação, em que também há privados no regaço do Estado, e as Obras Públicas, um nó de empresas (e sindicatos bancários associados) que sobreviveram décadas à sombra do Estado. Aqui e ali, omnipresentes, as sociedades de advogados e de consultores (repudiados na oposição e requisitados no governo, um déjà vu), hoje pelo Estado, amanhã contra ele, hoje a assessorar na feitura duma lei, amanhã a litigar contra o legislador.
Last but not the least, ainda há a EDP (vá, uma empresa pública, mas do império do meio), que recebe mesmo quando não fornece energia, é 'compensada' pelos custos da energia eólica e  ainda contesta (com sucesso) os impostos a pagar ou a perda de rendas consideradas excessivas. Uma chinesice.
Já agora, usando a argumentação do governo para vender umas telas, 'não receber é o mesmo que pagar', também as SGPS receberam mais de 1000M€ de benefícios fiscais em 2012. Até se entende que o Estado procure seduzir ou manter grandes empresas por cá, mas a mais bafejada, a Jerónimo Martins, até já zarpara para o país das túlipas, qual holandês voador.*

Esses são os grandes ('andamos todos a proteger os grandes grupos, andam juntinho com o Estado', disse o liberal António Borges), mas não esqueçamos os outros, e são muitos: não só os que recebem directamente do Estado, como os reformados dos sectores público e privado (tendo alguns descontado poucos anos), os pequenos empresários cujo balancete depende da câmara municipal, as pessoas com filhos bolseiros ou os desempregados, o quadro da papeleira cuja maquinaria de ponta foi comparticipada, ou o agricultor que é ‘ajudado’ nas compras e ‘almofadado’ nas vendas, mas também os tais que recebem, não pagando - o taxista, o merceeiro e o canalizador que subfacturam, o operário cujo patrão deve à Segurança Social ou às Finanças (indirectamente, é uma questão de vasos comunicantes) ou o administrador, cujo mercedes teve direito a benefício fiscal, i.e., foi parcialmente pago pelo Estado.
Contas feitas, de uma forma ou de outra, quase toda a gente (incluindo obviamente os funcionários públicos, mas esses não têm a hipocrisia de vociferar) depende do Estado e, como se vê, 'privado' é um termo um tanto ou quanto desfocado.

* Dizem-me que esta é conversa de esquerda, como é o uso do termo ‘mamar’, que já se me escapou. Talvez. Talvez a crítica ao governo pareça panfletária e, numa altura de aperto, a atenção e intolerância o que chamaríamos resignadamente de ‘pecadilhos’ estejam em alta. Talvez o ciclone que aqui paira baralhe todas as posições ideológicas. Talvez já não peça políticos que pensem como eu, apenas alguém que cumpre o que promete e seja milimetricamente justo na partilha dos activos e dos passivos pelos accionistas, nós todos. Sem preferência por quem está na sua lista telefónica.

TU QUERES É CUMBÍBIO

O Grupo do Leão, Columbano Bordalo Pinheiro 1885, 200x380 cm, Museu do Chiado
Sentados, esq-dta: Henrique Pinto, José Malhoa, João Vaz, Silva Porto, António Ramalho, Moura Girão, Rafael Bordalo Pinheiro e Rodrigues Vieira. De pé: Ribeiro Cristino, Alberto d'Oliveira, Manuel Fidalgo (empregado de mesa), Columbano Bordalo Pinheiro, Dias (criado) ou António Monteiro (dono da cervejaria Leão de Ouro) e Cipriano Martins    
  
A vozearia é atordoadora. A confusão pode dar uma ideia de Babel.
Tratam-se simultaneamente todos os assuntos; as transições fazem-se com uma rapidez, que surpreende e embaraça os próprios interlocutores; atenção que se desvie um segundo, é perdida; não encontra depois já o diálogo onde o deixou; às vezes a conversa generaliza-se; momentos depois, distribui-se em especialidades por diversos grupos; mais tarde generaliza-se de novo; em certas ocasiões, todas as bocas falam, cada um se escuta a si; noutras algum orador consegue por instantes fazer-se escutar de todos, até que um aparte, um incidente, um gesto, restabelece a independência primitiva. Dão-se também verdadeiros encruzamentos de conversas; o dos pés da mesa responde ao dito que ouve ao da cabeceira, enquanto os que intermédios se entretêm de outros objectos; é um baralhar de palavras, em que a custo se tira a limpo a expressão do pensamento.
Uma Família Inglesa, Júlio Dinis 1868

É isto uma boa refeição, uma jantarada de amigos, a vozearia caótica, os nano-brindes (como escreve Dinis, não se admitem longos speechs, porque é sempre mais expressivo o gole que entra, do que a frase que sai, até porque, devendo dar-se a primazia ao mais sábio, é o vinho que a merece), o tilintar de copos, as conversas entremeadas, as lembranças passadas, as combinações futuras com a duração da alcoolémia, as farpas à desgarrada.
A comida, pelo menos para mim (que só quero é cumbíbio, nas palavras dum comparsa), é pormenor.  

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

PROTECTORADO

 
ORA BEM, SE ESTAMOS A 3 MESES DO SEGUNDO 1640
(DIZ O RESTAURADOR OLEX, PERDÃO, PORTAS),
AINDA GOVERNA A DUQUESA DE MÂNTUA .

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

OS NEOLIBERAIS SÃO ULTRACONSERVADORES

Na verdade, não são neo nem são ultra. São de espécie anfíbia “liberal na conomia, conservadora nos costumes” Mas nem são asim tão liberais na economia. Nem assim tão conservadores nos costumes. São assim-assim. Mar chão. Afinal, a falta de convicção pode passar por temperança. E fazer um referendo pode passar por democracia.
O referendo foi feito para nem se fazer. Não há tempo, não há dinheiro, não há perguntas e não há pachorra. O Presidente da República poderá arquivar a intenção. Fará bem. O que não se arquiva é a manha institucional. PSD e CDS não querem a coadoção. Inventaram um expediente. A JSD serviu de barriga de aluguer, o PSD adotou e o CDS coadotou uma construção política de destruição legislativa. Quem quis? Quem impôs? Quem disciplinou? As “bases".
As bases. As bases não são o povo, são os eleitores dentro dos partidos. E os eleitores e Passos Coelho no PSD andam há muito insatisfeitos com os custos políticos da austeridade. Foram elas, as bases, que impuseram este desfecho que envergonha até deputados que ontem cumpriram a religião continente de votar como lhes mandam. A demissão de Teresa Leal Coelho não basta para ser indignação, mas chega para ser dignidade. Que dizer dos deputados que votaram contra a sua consciência? Que não a têm? Que dela abdicaram? Declarações de voto não valem um voto. A objeção ou é um exercício ou não é objeção, é plasticina. A disciplina de voto pode fazer sentido, mas não neste caso. Mas serve de capote para acomodar a cobardia política sentada no Parlamento. A disciplina de voto tornou-se a disciplina de veto. Veto à própria Assembleia, que aprovara o processo legislativo, precisamente porque então houvera liberdade de voto. Ontem não houve liberdade. Escreveu-se torto por linhas tortas. Foi tudo triste. Tudo triste.

Mais importante do que o Direito são os direitos. Mais importante do que o golpe do referendo é a lei da coadoção. A esquerda deixou-nos o desastre nas finanças públicas que continua a desmentir, msd foi sempre ela que promoveu os avanços (sim, avanços) no casamento homossexual, na união de facto, na interrupção voluntária da gravidez, na discriminilização do consumo de droga. A direita, chegada ao poder, não desfez nenhum desses dipomas. Ainda bem. Mas não tolerou que, na sua vigência, o país avançasse (sim, avançasse) na coadoção de crianças por casais homossexuais. Mais tarde ou mais cedo, esse é o curso imparável das coisas, a coadoção será legalizada. Já há crianças entregues a casais do mesmo sexo por decisão de juízes.

Olhe para a fotografia de hoje na primeira página do Expresso. A mãe, Fabíola Cardoso, lésbica, doente de cancro, levou os seus dois filhos ao Parlamento para assistirem ao debate sobre o seu próprio direito a teremo que têm: duas mães. Alexandre e Maira nunca tinham ido à “casa da democracia”. Viram a casa mas não viram democracia. Viram um golpe baço. Viram uma vergonha.»

Pedro Santos Guerreiro, Expresso 18-01-2014

Se não houvesse outras, eis uma boa razão para as pessoas serem pagas para escrever a opinião: PSG falou bem como o diabo, sem uma palavra a mais ou a menos. Talvez só lhe mudasse o título para 'Nu integral', tal a forma como o jornalista expõe as vergonhas desse partido.

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

PRETÉRITO IMPERFEITO


Os partidos são uma maçada e ser militante dum partido é uma grande maçada. Os quadros dos partidos, normalmente são muito, muito medíocres, são pessoas muito medíocres, não têm mais nada que fazer na vida, ou que acham que aquela é a forma principal de subir na vida. Os partidos dispensam o mérito.
É uma coisa que eu decidi na minha cabeça, se há coisas definitivas na minha cabeça, uma delas é essa [não entrar na política].
Alguém disse isso, e eu subscrevo integralmente: nunca me passou pela cabeça (mais que 3 segundos) filiar-me num partido.   
 
Isso não impede o hábito de votar no mesmo partido, um pequenino - em quase tudo, costumo torcer pelo underdog -, com poucas hipóteses de chegar ao poder. Trocando a palavra amigo por partido, estou como esse alguém, o poder é a  pior coisa que há, eu sou geneticamente contra o poder, seja ele de quem for. No dia que algum amigo meu lá chegar, eu passo-me para a oposição e deixo de ser amigo dele.
Sim, o problema é quando esse partido lá chega: o governo de 2002-2005 já não era de boa memória, mas esta 'presença' está a ser um desvario - admito, este governo, que acha que cortar é diferente de reformar, mas tem uma tesoura endiabrada, está particularmente a apertar-me os calos (como João Pereira Coutinho, se há coisa que me dói profundamente, são sapatos apertados) em duas rubricas algo sensíveis do meu orçamento, a receita e a despesa. Em doses sucessivas.
Já se sabe que governo nenhum cumpre tudo o que prometeu, mas há limites: como bem disse alguém, não se pode sacrificar a identidade ao acesso ao poder. Pois onde está o partido dos contribuintes, o provedor dos idosos e das famílias (todas as medidas teriam um visto familiar, asseguraram)? Não foi nisto que votei e não vislumbro as 'bandeiras' do CDS - para o distraídos, era no CDS que eu votava (literalmente, no pretérito imperfeito) -, vejo apenas umas bandeirolas de arraial, agitadas freneticamente, depois duma crise em que o CDS não ganhou peso no governo, foi Coelho que deu um abraço de urso a Portas.
Há uma terceira coisa tão certa como a morte e os impostos: as sessões parlamentares seriam memoráveis se o CDS estivesse na oposição, com o tribuno Paulo Portas a esfrangalhar o governo.

É, Portas está a exagerar nas artes circenses: primeiro, era o acrobata com as suas metamorfoses de eurocéptico para europrudente, e de liberal para popular e mais tarde para democrata-cristão; depois, é o trapezista no bamboleante arame, com as suas linhas vermelhas; agora é o mimo, com a mudez esfíngica.
A prometida justificação sobre a sua demissão do governo, reservada para o congresso ('a sua gente'), resumiu-se à negação dum capricho ou enfado, que 'o que teve de ser teve muita força, a crise foi superada e, a meu ver, o governo está mais forte' e que 'O partido deve apenas saber que actuei em último e exclusivamente em último recurso, por entender que se nada fosse feito a coligação poderia deteriorar-se e isso poria em risco aquilo que é um bem essencial para todos: termos governo que chegue para vencer o resgate'.
Embora a acrítica assembleia tenha ficado satisfeita, parece-me que não chega. Portas terá tido alguma razão: por Passos decidir reiteradamente contra a sua opinião, Portas quis sair e Cavaco demoveu-o, quis sair 2ª vez e o partido não deixou e, quando pediu ao PM para esperar o seu regresso ao país para substituir Gaspar, e Passos enviou-lhe um sms informando estar a caminho de Belém para dar o nome da nova ministra das Finanças, Portas resolveu não avisar ninguém. Mas, para um decano da política, não ter arranjado uma escapatória na sua carta, para poder voltar atrás, foi uma inépcia imperdoável. Como disse alguém sobre Lucas Pires, o brilho não faz uma carreira política, mas o disparate pode desfazê-la irremediavelmente.

Tal como as famílias (com o seu primo ignorante, a tia desbocada, o neto malandro ou a cunhada que só diz asneiras, mas que a parentela desculpa porque tem síndrome de Tourette), todos os partidos têm alguns militantes com os quais não queremos aparecer na fotografia.
A Gente do CDS inclui a direita dos costumes, que pretende ter parecer vinculativo sobre as escolhas privadas alheias, e a direita social, com 2 espécimes bem representados na agremiação, as saudosas septuagenárias com estolas de pele, cachuchos nos dedos e cabelo armado à Tatcher, e os copinhos de leite (como lhes chamou  Avelino Ferreira Torres, outra companhia recomendável) de blaser e gel no cabelo.
O excesso de etiqueta das avós é compensado em falta de Educação  dos netos (nas palavras de Pedro Marques Lopes, 'parece mesmo que há gente a quem falta um pedaço, o mais importante pedaço'), porque é disso que se trata, como se viu neste 25º congresso: a ideia esdrúxula de diminuir a escolaridade de 12 para 9 anos - subscrita pelo líder da JP e apoiada por 5 secretários de Estado, porque 'a liberdade de aprender (…) é um direito fundamental de cada pessoa' - é absolutamente simiesca, numa perspectiva darwinista. Não estamos a falar de conservadores que pragmaticamente duvidam de mudanças mal fundamentadas, mas de reacionários que querem voltar para trás. E eu não me apetece nada estar associado a trogloditas, nem pela coincidência de uma cruzinha.
Eis algumas razões porque, sem entusiasmo, passo a votante em branco de longa duração: como disse alguém, é irrevogável, obedeço à minha consciência e mais não posso fazer.

post-scriptum: o outro é, obviamente, Paulo Portas

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

FALÁCIAS E MENTIRAS SOBRE PENSÕES

Henricartoon * sapo.pt 10/01/2014

Escreveu Jean Cocteau: “Uma garrafa de vinho meio vazia está meio cheia. Mas uma meia mentira nunca será uma meia verdade”. Veio-me à memória esta frase a propósito das meias mentiras e falácias que o tema pensões alimenta. Eis (apenas) algumas:
1. “As pensões e salários pagos pelo Estado ultrapassam os 70% da despesa pública, logo é aí que se tem que cortar”. O número está, desde logo, errado: são 42,2% (OE 2014). Quanto às pensões, quem assim faz as contas esquece-se que ao seu valor bruto há que descontar a parte das contribuições que só existem por causa daquelas. Ou seja, em vez de quase 24.000 M€ de pensões pagas (CGA + SS) há que abater a parte que financia a sua componente contributiva (cerca de 2/3 da TSU). Assim sendo, o valor que sobra representa 8,1% da despesa das Administrações Públicas.

2. Ou seja, nada de diferente do que o Estado faz quando transforma as SCUT em auto-estradas com portagens, ao deduzi-las ao seu custo futuro. Como à despesa bruta das universidades se devem deduzir as propinas. E tantos outros casos…

3. Curiosamente ninguém fala do que aconteceu antes: quando entravam mais contribuições do que se pagava em pensões. Aí o Estado não se queixava de aproveitar fundos para cobrir outros défices.

4. Outra falácia: “o sistema público de pensões é insustentável”. Verdade seja dita que esse risco é cada vez mais consequência do efeito duplo do desemprego (menos pagadores/mais recebedores) e - muito menos do que se pensa - da demografia, em parte já compensada pelo aumento gradual da idade de reforma (f. de sustentabilidade). Mas porque é que tantos “sábios de ouvido” falam da insustentabilidade das pensões públicas e nada dizem sobre a insustentabilidade da saúde ou da educação também pelas mesmas razões económicas e demográficas? Ou das rodovias? Ou do sistema de justiça? Ou das Forças Armadas? Etc. Será que só para as pensões o pagador dos défices tem que ser o seu pseudo “causador”, quase numa generalização do princípio do poluidor/pagador?

5. “A CES não é um imposto”, dizem. Então façam o favor de explicar o que é? Basta de logro intelectual. E de “inovações” pelas quais a CES (imagine-se!) é considerada em contabilidade nacional como “dedução a prestações sociais” (p. 38 da Síntese de Execução Orçamental de Novembro, DGO).

6. “95% dos pensionistas da SS escapam à CES”, diz-se com cândido rubor social. Nem se dá conta que é pela pior razão, ou seja por 90% das pensões estarem abaixo dos 500 €. Seria, como num país de 50% de pobres, dizer que muita gente é poupada aos impostos. Os pobres agradecem tal desvelo.

7. A CES, além de um imposto duplo sobre o rendimento, trata de igual modo pensões contributivas e pensões-bónus sem base de descontos, não diferencia careiras longas e nem sequer distingue idades (diminuindo o agravamento para os mais velhos) como até o fazia a convergência (chumbada) das pensões da CGA.

8. “As pensões podem ser cortadas”, sentenciam os mais afoitos. Então o crédito dos detentores da dívida pública é intocável e os créditos dos reformados podem ser sujeitos a todas as arbitrariedades?

9. “Os pensionistas têm tido menos cortes do que os outros”. Além da CES, ter-se-ão esquecido do seu (maior) aumento do IRS por fortíssima redução da dedução específica?

10. Caminhamos a passos largos para a versão refundida e dissimulada do famigerado aumento de 7% na TSU por troca com a descida da TSU das empresas. Do lado dos custos já está praticamente esgotado o mesmo efeito por via laboral e pensional, do lado dos proveitos o IRC foi já um passo significativo.

11. Com os dados com que o Governo informou o país sobre a “calibrada” CES, as contas são simples de fazer. O buraco era de 388 M€. Descontado o montante previsto para a ADSE, ficam por compensar 228 M€ através da CES. Considerando um valor médio de pensão dos novos atingidos (1175€ brutos), chegamos a um valor de 63 M€ tendo em conta o número – 140.000 pessoas - que o Governo indicou (parece-me inflacionado…). Mesmo juntando mais alguns milhões de receitas por via do agravamento dos escalões para as pensões mais elevadas, dificilmente se ultrapassam os 80 M€. Faltam 148 M, quase 0,1% do PIB (dos 0,25% que o Governo entendeu não renegociar com a troika, lembram-se?). Milagre? “Descalibração”? Só para troika ver?

12. A apelidada “TSU dos pensionistas” prevista na carta que o PM enviou a Barroso, Draghi e Lagarde em 3/5/13 e que tinha o nome de “contribuição de sustentabilidade do sistema de pensões” valia 436 M€. Ora a CES terá rendido no ano que acabou cerca de 530 M€. Se acrescentarmos o que ora foi anunciado, chegaremos, em 2014, a mais de 600 M€ de CES. Afinal não nos estamos a aproximar da “TSU dos pensionistas”, mas a … afastarmo-nos. Já vai em mais 40%!

13. A ideologia punitiva sobre os mais velhos prossegue entre um muro de indiferença, um biombo de manipulação, uma ausência de reflexão colectiva e uma tecnocracia gélida. Neste momento, comparo o fácies da ministra das Finanças a anunciar estes agravamentos e as lágrimas incontidas da ministra dos Assuntos Sociais do Governo Monti em Itália quando se viu forçada a anunciar cortes sociais. A política, mesmo que dolorosa, também precisa de ter uma perspectiva afectiva para os atingidos. Já agora onde pára o ministro das pensões?

P.S. Uma nota de ironia simbólica (admito que demagógica): no Governo há “assessores de aviário”, jovens promissores de 20 e poucos anos a vencer 3.000€ mensais. Expliquem-nos a razão por que um pensionista paga CES e IRS e estes jovens só pagam IRS! Ética social da austeridade?


António Bagão Félix, Economista, ex-ministro das Finanças * Público 13/01/2014

sábado, 11 de janeiro de 2014

AMNÉSIA

COMO SABEM, EU SOU DE FICAR,
NÃO SOU DE ABANDONAR.
Paulo Portas, discurso de
abertura do 25º congresso do CDS
 
E a vereação em Lisboa? Não recuemos tanto,
e a (ir)revogável demissão do governo, há apenas 5 meses?
Tome Memofante, dizem que resulta.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

TEMPUS FUGIT






Hoje, uma arquitecta contou-me que lhe ligaram duma repartição - além das 2 cópias dum documento, já entregues, precisavam que enviasse uma terceira, pois não havia papel de impressão!
O que vale é que já falta pouco para tudo melhorar...

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

FILHOS E CADILHOS

Ter um filho ingrato é mais doloroso
do que a mordedura de uma serpente!
William Shakespeare, Rei Lear 

Volta-não-volta, digo aos meus herdeiros pedinchões 'Tanta coisa e, no fim, pões-me num lar'. Na brincadeira (espero), mas há quem se queixe de ingratidão e, entre eles, a quem saiu A fava.
Cruzei-me há dias com um senhor que tem 5 filhos. Perguntei-lhe por um deles, que já não via há meses:
- Ah, esse não tem estado por aqui, só vem buscar o ordenado. Ele e a irmã são uns bandidos, roubaram-me uns milhares largos - uma pessoa cria os filhos e depois é assim que eles agradecem. O único que presta é o mais velho.
- Mas não foi esse que, há uns anos, lhe quis bater?
- Foi, tentou-me [es]faquear. Mas a gente perdoa tudo aos filhos...
A esse filho pródigo, ouvi eu tratar o pai por 'o velho', com um esgar nada carinhoso. Há pouco tempo.
Parece estória de novela, mas tristemente não é.
Alguém imagina, quando vê um bebé indefeso pela primeira vez, ou uma criança a aninhar-se no seu colo, com medo do escuro, que a vida seja uma implacável betoneira e esse filho se torne num bandido - como uma folha alva e imaculada que começa a ser preenchida com um b-a-ba ternurento e certinho e acaba cheia de gatafunhos furiosos.
Acresce, o que não é de somenos, a dilacerante dúvida do desafortunado progenitor - se, por erro ou omissão, no todo ou em parte, contribuiu para essa metamorfose.

domingo, 5 de janeiro de 2014

CROMOS


A esplanada estava quase vazia (a suspensão da chuva fora tão clemente quanto inesperada), apenas eu e, duas mesas adiante, 3 homens - um deles, com um bigode mal semeado, a disfarçar a tenra idade, e 2 mais velhos, que se revelaram tão síncronos como as pernas dum CR7 sonâmbulo.
- Então, o natal foi bom?, perguntaram ao mais novo.
- Foi na Lixa, com a família toda. O meu tio Mário ensinou-me mais um ditado, daqueles que só ele conhece, 'Dos outros, diz bem ou nada'.
- Ora aí está um provérbio que ninguém consegue cumprir, retorquiu um dos outros. Algum tempo nesta empresa e vais ver que, numa equipa tão grande, inevitavelmente quase toda a gente tem algo a apontar a quase toda a gente, mesmo que no geral as pessoas sejam catitas. E então, começou a contar pelos dedos:
- Além do engraxador e o informador...
- Ele quer dizer delator, meteu uma bucha o outro, pelos visto não tão aborto com o seu ipad.
- ... que não contam, são espécimes à parte, há o que chega atrasado e o que tem pressa para zarpar, o desleixado e o stressado, o desconfiado controlador, o que se julga mais sério que os outros...
- Mas haverá alguém que não se julgue sério?
- ... o picuinhas e o porreiro (o que nem sempre é bem uma qualidade, depende da função), o simpático-pouco-profissional e o seu negativo, o que se faz de coitadinho. Mais, hum..., o nómada que trota dum lado para o outro sem fazer nada, ou o sedentário que magnetiza em cadeiras e deixa a labuta para os outros...
- Em zoologia, a borboleta e ostra.
- ... o que 'delega' só até à parte da assinatura, o moralista com cúpula vítrea, o desbocadamente sarcástico, com uma subtileza de paquiderme, ou o outro com a avareza intelectual do conselheiro Gama Torres.
- Cá faltava um bocadito de erudição, não baralhes o rapaz. É uma pessoa que guarda as suas sábias opiniões, porque as não tem. 
- Depois há os que acumulam, ou que têm facetas tão exacerbadas que mais parecem personagens de ficção ou caricaturas do Bordalo - uns cromos.
Enquanto os ouvia, iam-me passando caras conhecidas pela cabeça, tão estereotipado era o catálogo.
O mais engraçado é que ninguém se enxerga (incluindo este que te fala), às vezes são os atrasados crónicos os mais atentos à pontualidade alheia. Bem, falta-me alguém no retrato de família?, perguntou o predicante.
- Tu.
- Bem, nas costas dos outros, vês as tuas, e com ce'teza também falam de mim, que estou longe do nirvana... Na melhor das hipóteses, eu e aqui o Zé somos umas velhas carcaças insurrectas e maledicentes, assim como o Statler e o Waldorf dos marretas...
- Fala por ti.
- ... ahã. As outras hipóteses, prefiro não saber, por razões de sanidade mental. Este é um dos casos em que a ignorância é antidepressiva.
- Imagina, uma terapia de grupo com pentotal sódico... seria o armagedão.
Eu (vai-se a ver, também um cromo), que de popular só tenho (tinha) o partido, acenei mentalmente: livra...