...e depois, com bigodes de leite, pedem mais paciência e esforço ao povo, que a "vaca 'tá seca".

segunda-feira, 15 de abril de 2013

TÁS NA MESMA


Ouvi ontem 'As pessoas não mudam. Apuram. Ficam cada vez mais iguais a si próprias'.
Acontece a muito boa gente, será sinal de temperança. Ou de estupidez.

Escrevi eu, a uma amiga de adolescência, daquelas que a vida atirou para longe 'Não há uma Inês, haverá tantas quantas as pessoas que a conhecem. E a que eu conheço pode até já não existir. Foi esse o assunto da nossa última conversa ao vivo, vão uns 8 anos (tchhh!), quando me disseste “não mudas nada”: é exactamente o contrário, tanta quilometragem depois, o motor é outro, a centralina e as suspensões já não são de origem, ainda que a carroçaria só tenha uns riscos (a metáfora podia ser melhor, se eu percebesse patavina de mecânica).
Acho que é mais isto.

À PROVA DE BALA


'(...) Entre si conversavam desta forma muitas vezes, o que não implicava qualquer maldade: eram apenas brutalmente francos um com o outro. Eram irmãos, portanto não tinham de ser simpáticos.'
O Inverno do Mundo, Ken Follett

É, os irmãos não fazem cerimónia.
Ora, se não formos francos com os irmãos, com quem seremos? Afinal, haverá alguém mais próximo, mais igual a nós, com a mesma história, a mesma formatação, a mesma herança in lato sensu, e uma família exactamente igual, do big bang até aqui?

Dizem que a família são amigos à força (ou por acaso universal, para quem não acredita no destino). Certo é que as amizades entre irmãos não são iguais às outras, e são para toda a vida. Bem, geralmente, pois são tão inafundáveis como o titanic, e não há zangas tão ferozes como as de irmãos (muitas vezes à cause da prova do algodão, as partilhas).

p.s.: tive sorte na 'ninhada' que me calhou.

O MEDO

The scream, Edward Munch
 
Os que trabalham têm medo de perder o trabalho;
os que não trabalham têm medo de nunca encontrar trabalho;
quando não têm medo da fome têm medo da comida;
os civis têm medo dos militares;
os militares têm medo da falta de armas
e as armas têm medo da falta de guerras
e, se calhar, acrescento eu agora,
há quem tenha medo que o medo acabe.
Eduardo Galiano

sexta-feira, 5 de abril de 2013

ONOMÁSTICA ELEITORAL



Correu um rio de tinta, com a opção do nome Francisco, pelo novo Papa. A escolha do nome tem influência, pois a sua carga histórica é quase um programa de 'governo'. Já generalidade dos mortais não tem essa hipótese, e carrega o nome com que outros o ungiram, mas há quem lhes atribua características.

Façamos o exercício com os primeiros-ministros da democracia lusitana:
Adelino (da Palma Carlos, advogado, 1974) - origem latina, diminutivo de Adelio, sign. nobre
Vasco (Gonçalves, militar, 74-75; Almeida e Costa, militar, 76) - o basco
José (Pinheiro de Azevedo, militar, 75-76; Durão Barroso, advogado, 2002-2004; Sócrates, engenheiro civil, 04-11) - origem hebraica, sign. Deus, o que acrescenta, pessoa confiante e generosa
Mário (Soares, advogado, 76-78 e 83-85) - origem germânica, sign. homem por excelência, forte, viril
Alfredo (Nobre da Costa, engenheiro mecânico, 78) - origem esanhola, sign. bom duende conselheiro, pessoa prática
Carlos (Mota PInto, advogado, 78-79) - origem alemã, sign. homem, fazendeiro
Maria (de Lurdes Pintassilgo, engenheira química, 79) - origem hebraica, sign. a senhora,  vidente, pessoa criativa, serena
Francisco (Sá Carneiro, advogado, 80; Pinto Balsemão, advogado, 81-83) - origem latina, sign. o francês, pessoa firme e audaz
Diogo (Freitas do Amaral, advogado, 80) - origem latina, o instruído, líder
Aníbal (Cavaco Silva, economista, 85-95) - origem latina, sign. dádiva de Baal, pessoa calma e persuasiva
António (Guterres, engenheiro electrotécnico, 95-2002) - origem grega, sign. o qe não tem preço
Pedro (Santana Lopes, advogado, 04-05; Passos Coelho, economista, 11-) - origem hebraica, sign. determinado, idealista, infiel

É como os signos, há sempre uma característica que parece bater certo. A descrença vem quando se juntam 2 Franciscos e 2 Pedros tão diferentes.
Mas, como os últimos P.M. nos têm habituado a sair muito diferentes do que prometeram, usar a onomástica nas próximas eleições é tão arriscado como os critérios programáticos.
Pela minha parte, vou estar atento.    

terça-feira, 2 de abril de 2013

MITOS URBANOS: KEYNES VS. HAYEK


Revisitando Keynes, na zona euro
por João Carlos Espada (Público, 1/4/2013)
Nos dias que correm, há muitas coisas confusas, sobretudo na zona euro. Uma delas, que aqui tenho vindo a partilhar, reside em saber porque é que políticas alegadamente neoliberais sobem impostos a níveis sem precedentes. Outra reside em saber porque não é possível na zona euro uma drástica redução dos impostos como forma de relançar a economia, diminuir o desemprego e aumentar a receita fiscal.
Com estas perguntas em mente, pode ser útil revisitar o debate entre Keynes e Hayek, que dominou o século XX.
Em primeiro lugar, deve ser recordado que Keynes e Hayek se admiravam mutuamente e testemunharam-no várias vezes. Nicholas Wapshott, no excelente livro (Norton, 2011) não deixa dúvidas sobre esse ponto.
Em segundo lugar, Hayek nunca apresentou uma crítica global à de Keynes (1936). Na sua obra-prima (1960), Hayek dedica ao keynesianismo menos de meia dúzia de páginas (280-284). A sua principal crítica é que o keynesianismo conduz à inflação.
Em terceiro lugar, Hayek esclarece naquela obra que só pode haver razões de princípio contra a intervenção do Estado quando esta infringe (pp. 220-233). Em todos os outros casos, trata-se apenas de avaliar custos e benefícios e optar democraticamente pelo que parecer mais vantajoso, podendo em seguida o Parlamento corrigir escolhas anteriores com base nos resultados produzidos.
Indiscutivelmente, as políticas de Keynes estavam nesta segunda categoria, de acordo com o argumento de Hayek. Quer dizer, devem ser ponderadas na base dos custos e benefícios. (Não faz por isso sentido impor limites aos défices orçamentais na Constituição, uma moda actual na zona euro que colocaria as políticas keynesianas fora dos limites constitucionais.)
Ora bem, resta agora saber o que defendeu Keynes. Hoje diz-se que ele defendeu permanentes défices orçamentais e permanente despesa pública. Não é exacto.
Keynes simplesmente defendeu que “numa recessão o défice orçamental nunca será reduzido por medidas que reduzam o rendimento nacional”. Alertou para que essas medidas irão inadvertidamente prolongar a recessão, em vez de reequilibrar o orçamento.
Muitas pessoas pensam que, por estas razões, Keynes simplesmente defendeu o aumento da despesa pública durante as recessões, com vista a estimular a procura. Mas também não é exacto.
Keynes, na verdade, defendeu também cortes nos impostos durante as recessões, de forma a estimular a oferta. Isto mesmo ficou claro no seu texto de 1933, em que defendeu a redução dos impostos como forma de relançar a economia.
Em 1962, o Presidente Kennedy anunciou um ambicioso corte keynesiano nos impostos de 10 mil milhões de dólares com vista a combater o desemprego. Ao fim de quatro anos, a receita fiscal aumentou em 40 mil milhões de dólares. O desemprego baixou de 5,8% para 3,8%. O crescimento da economia subiu para 5,1%.
Vinte anos mais tarde, o Presidente Reagan fez exactamente o mesmo, ou ainda mais. Cortou os impostos em 25%. A economia cresceu 4,8% ao ano entre 1983 e 1986, contra 0,9% entre 1978 e 1982. O desemprego baixou para 5,3%.
Arthur Laffer, um dos grandes inspiradores da reaganomics, reconheceu que a sua política de cortes nos impostos para relançar a economia e aumentar a receita fiscal era inspirada em Keynes.
Por outras palavras, não é exacto que Keynes tenha defendido simplesmente o aumento da despesa pública. Ele também defendeu a redução dos impostos. Basicamente, Keynes defendeu que, numa recessão, a prioridade deve ser relançar o crescimento económico, não equilibrar o orçamento. E, como disse na BBC em 1933: “Tomemos conta do desemprego, pois a seguir o défice tomará conta de si próprio.” Ronald Reagan parafraseou-o no seu estilo singular: “Não me importo com o défice. Ele é suficientemente grande para tomar conta de si próprio.”
Keynes certamente incorreu no erro de fornecer aos políticos uma desculpa para agravarem o défice público mesmo em períodos de crescimento económico — quando o próprio Keynes defendia que, nessas épocas, o défice devia ser reduzido ou mesmo eliminado. Também incorreu no erro de enfatizar mais a sustentação da procura, em vez do corte nos impostos e o estímulo pela oferta. É também verdade que, no médio prazo, o keynesianismo sem limites produziu a estagflação de 1970, como Hayek previra.
Mas não é menos verdade que Keynes enfrentou a depressão de 1930. E talvez seja oportuno recordar que os países de língua inglesa, cujos parlamentos puderam nessa época adoptar políticas keynesianas, foram também aqueles que nunca sofreram as revoluções comunista ou nazi. Talvez valha a pena pensar nisso, hoje, na zona euro.

O ERRO CRASSO


O erro crasso foi crismado com o nome dum romano que, por ingenuidade táctica, desbaratou um exército inteiro, numa investida contra os partos. Mas o general tinha outra faceta. O gajo mais rico do império romano, na altura, era uma espécie de pato-bravo (e dono de bordeis e banqueiro e financiador político - o que agora também há), tinha um corpo privado de bombeiros, mas deixava os prédios arder até conseguir que os donos lhos vendessem, depois da 'depreciação'. Curiosamente, fez parte duma troika com César e Pompeu.

Vem isto a propósito de Carlos Moedas, ex-funcionário da Goldman Sachs (uma espécie de Crasso Inc., que vê o mundo como um tabuleiro de Monopoly e 'aconselha' a vergar os países, até ficarem baratos para vender) como o siamês António Borges.
Pois vejam lá que Carlos Moedas assinou os despachos 4109/2013 e 4110/2013 de 27 de fevereiro (o que faz temer acerca dos primeiros 4108 diplomas), contratando 2 estrelas galácticas, como técnicos especialistas 'para exercer as funções de acompanhamento da execução de medidas do memorando conjunto'. Os curricula são sucintos:
Tiago Miguel Moreira Ramalho, 21 anos, acabou o secundário há 4 anos, com 19 valores, e tirou a licenciatura em Economia no ano passado. Soma-se um estágio de 3 meses, não remunerado, no gabinete de estratégia e estudos do ministério de Economia.
João Miguel Agra Vasconcelos Leal, 22 anos, acabou o secundário há 5 anos, com 18 valores, tirou a licenciatura de 3 anos em Economia em 2011, e agora é mestrando na Católica. Fez um estágio de verão no gabinete de estratégia e estudos do ministério de Economia, em 2011, e já tinha um estágio de verão numa empresa de vinhos, quando estava na faculdade.

Epá, querem mandar embora 20.000 funcionários, e vão contratar 2 garotos, que é o que são - até podem ser muito conhecedores, mas só a tarimba os fará sabedores.
Carlos Moedas é um jovem turco do hiperliberalismo, mas acho que acredita no que faz, o que é uma atenuante para os seus erros colossais. Mas isto é diferente, não há maneira do senhor não ter noção do que está a fazer. Isto é, sem apelação, um erro crasso.
Notícias destas são deletérias, têm o mesmo efeito que comer ovos estragados ou camarões com toxinas.

sábado, 30 de março de 2013

A CULPA NÃO É MINHA


ACTUS NON FACIT REUM NISI MENS SIT REA
 
(O acto não é culpável a não ser que a mente seja culpada)
.

sexta-feira, 29 de março de 2013

O SENTIDO DA RELIGIÃO - PECADO É NÃO RIR



AS PESSOAS PENSAM QUE AS RELIGIÕES SÃO CRIAÇÕES DIVINAS,
(MAS) AS RELIGIÕES SÃO CRIAÇÕES HUMANAS.
É O QUE PODEM ARRANJAR, PARA DIZER O SENTIDO TRANSCENDENTE DA VIDA, ENCONTRAM UMA GRAMÁTICA PARA DIZER A SUA TRANSCENDÊNCIA.
MAS UMA GRAMÁTICA TAMBÉM DÁ VONTADE DE RIR EM MUITAS COISAS, A DO DIVINO TAMBÉM DÁ.
Frei Bento Domingues
 
OS HOMENS DAS CAVERNAS ESTAVAM CHEIOS DE MEDO DOS PAVORES DO MUNDO E ENTÃO, AOS POUCOS, INVENTARAM 2 INSTRUMENTOS DE CONHECIMENTO DO MUNDO FABULOSOS:
UM DELES É A RELIGIÃO E O OUTRO É O RISO. E OS DOIS NASCEM EXACTAMENTE DA MESMA FONTE, DO MEDO DO MUNDO. E OS DOIS SE TORNAM DE MEDOS EM MODOS DE CONTROLAR O MUNDO [...] ELES ERAM MUITO SÁBIOS, PORQUE INVENTARAM 2 INSTRUMENTOS, AMBOS PELA PALAVRA, DE TRANSFORMAR O MEDO DO MUNDO, EM CONHECIMENTO DO MUNDO, NUMA RESPOSTA AO MUNDO, NUMA RESPOSTA AO ESCURO.
Rui Zink

em O que nos faz rir, RTP1, 27.03.2013

quarta-feira, 27 de março de 2013

CARTA À AVÓ JOSEFA, DO ZÉ SARAMAGO

Uma das minhas imagens literárias mais antigas, dum texto que li na escola (teria uns 12 anos), é uma velhinha na 'soleira da porta', com o seu 'pequeno casulo de interesses'. Só há pouco descobri que a crónica era de Saramago, que eu 'adoptei' uns anos mais tarde. Valeu a pena relembrar.

    Carta para Josefa, minha avó   
    Tens noventa anos. És velha, dolorida. Dizes-me que foste a mais bela rapariga do teu tempo — e eu acredito. Não sabes ler. Tens as mãos grossas e deformadas, os pés encortiçados. Carregaste à cabeça toneladas de restolho e lenha, albufeiras de água. Viste nascer o sol todos os dias. De todo o pão que amassaste se faria um banquete universal. Criaste pessoas e gado, meteste os bácoros na tua própria cama quando o frio ameaçava gelá-los. Contaste-me histórias de aparições e lobisomens, velhas questões de família, um crime de morte. Trave da tua casa, lume da tua lareira — sete vezes engravidaste, sete vezes deste à luz.
    Não sabes nada do mundo. Não entendes de política, nem de economia, nem de literatura, nem de filosofia, nem de religião. Herdaste umas centenas de palavras práticas, um vocabulário elementar. Com isto viveste e vais vivendo. És sensível às catástrofes e também aos casos de rua, aos casamentos de princesas e ao roubo dos coelhos da vizinha. Tens grandes ódios por motivos de que já perdeste lembrança, grandes dedicações que assentam em coisa nenhuma. Vives. Para ti, a palavra Vietname é apenas um som bárbaro que não condiz com o teu círculo de légua e meia de raio. Da fome sabes alguma coisa: já viste uma bandeira negra içada na torre da igreja. (Contaste-mo tu, ou terei sonhado que o contavas?) Transportas contigo o teu pequeno casulo de interesses. E, no entanto, tens os olhos claros e és alegre. O teu riso é como um foguete de cores. Como tu, não vi rir ninguém.
    Estou diante de ti, e não entendo. Sou da tua carne e do teu sangue, mas não entendo. Vieste a este mundo e não curaste de saber o que é o mundo. Chegas ao fim da vida, e o mundo ainda é, para ti, o que era quando nasceste: uma interrogação, um mistério inacessível, uma coisa que não faz parte da tua herança: quinhentas palavras, um quintal a que em cinco minutos se dá a volta, uma casa de telha-vã e chão de barro. Aperto a tua mão calosa, passo a minha mão pela tua face enrugada e pelos teus cabelos brancos, partidos pelo peso dos carregos — e continuo a não entender. Foste bela, dizes, e bem vejo que és inteligente. Por que foi então que te roubaram o mundo? Quem to roubou? Mas disto talvez entenda eu, e dir-te-ia como, o porquê e o quando se soubesse escolher das minhas inumeráveis palavras as que tu pudesses compreender. Já não vale a pena. O mundo continuará sem ti — e sem mim. Não teremos dito um ao outro o que mais importava.
    Não teremos, realmente? Eu não te terei dado, porque as minhas palavras não são as tuas, o mundo que te era devido. Fico com esta culpa de que me não acusas - e isso ainda é pior. Mas porquê, avó, por que te sentas tu na soleira da tua porta, aberta para a noite estrelada e imensa, para o céu de que nada sabes e por onde nunca viajarás, para o silêncio dos campos e das árvores assombradas, e dizes, com a tranquila serenidade dos teus noventa anos e o fogo da tua adolescência nunca perdida: «O mundo é tão bonito, e eu tenho tanta pena de morrer!»
    É isto que eu não entendo — mas a culpa não é tua.
    Zé
In A Capital, 14 de Março de 1968

5.5.1954, Álvaro Cunhal, série desenhos da prisão

A EUROPA DALTÓNICA





n.r.: o tareco da mamã dalton deve ter o mesmo
nome do gato do deputado Honório Novo, Gaspar.

terça-feira, 19 de março de 2013

FILHO DE PEIXE


'Insistes em
andar a direito,
mas a vida
é feita de curvas'
J. E.



Sobre o pai, escreveu Lobo Antunes que os mortos 'alteram-se conforme se altera a imagem que temos, desde a aparência ao temperamento, entendemo-los melhor, ficamos em paz com eles, sem ressentimentos nem zanga, criaturas ao mesmo tempo verdadeiras e mitificadas cuja lembrança adquire uma perspectiva doce, envolta numa espécie de halo de ternura, isto depois dos julgamentos terríveis da nossa parte, tanta amargura, tanta impiedade'.
Por isso, E. deixou os pensamentos sobre o pai marinarem durante meses, antes de se pronunciar.

Dizia o pai que o avô era um dândi (outro estrangeirismo obsoleto que usava, como gasoil e restaurant) e que a sua carteira parecia um fole, ora cheia, ora vazia. Procurou ser a sua antítese, acima de tudo era um provider.
Senhor do seu nariz, foi sempre respeitado, era o Sr. doutor (antes de toda a gente ser doutor) apelido apelido. E ficou ofendido quando no hospital lhe chamaram apenas sr. António.
Caso fosse escritor, E. diria que ele era sanguíneo. Colérico e teimoso (a expressão 'enxertado em corno de cabra' batia certo com o seu ruminante signo, para quem acredita nisso), para ele só havia duas maneiras de ver as coisas, a dele e a errada. Situação que os demais, com os anos, aprenderam a gerir com omissões ou a 'fazer sala'.
Mais era parco nos elogios e nos afectos: prova nº 1, nunca deu um beijo, estendia a bochecha. Dizem que era assim por formação, e porque rumou cedo a colégios longe do carinho doméstico. Ou porque se deixara encarcerar pela própria imagem e um simples afago já não era natural, ainda que lhe apetecesse - é, não amava abertamente, mas não havia dúvidas do seu amor e dum, aqui e ali, orgulho pelos filhos. O certo é que não criou cumplicidades com a prole.

O que pode uma pessoa deixar a um filho? O nome, uns 'tarecos', o ofício e o exemplo. E essa checklist, em maior ou menor grau, cumpriu.
Como um carimbo, passou a rigidez dos princípios (burilada no que chamou lirismo), a importância em honrar o nome e a assinatura, o pragmatismo, a noção de que as obrigações vêm antes dos direitos, a distracção (chamaram-lhe fiscal do ar, porque não reparava em ninguém na rua), a cara de poucos amigos, a crueza das suas opiniões, o não gastar o que não se tem, nem tudo o que se tem.

A penúltima conversa que E. e o pai tiveram, foi um conselho: não te lamentes, faz-te à vida. E não pregava como frei Tomás: teve vários empregos e várias vidas, em cada hemisfério, em cada uma das 3 mulheres. Poderia usar o termo 'solução de continuidade' (que encerra um paradoxo, as 2 palavras têm um sentido e juntas significam ferida, lato sensu), pois no seu caminho foi cheio de interrupções e fracturas, mas teve que resolvê-las e continuar - quaisquer que fossem as guinadas, seguir em frente, marchar, marchar.
Quando se viram pela última vez, ambos sabiam que provavelmente o era. E. esperou ouvir um derradeiro ensinamento do pai, um balancete, a última lição dessa cathedra vitae de 8 décadas. Nada disso, antes ouviu um recado prosaico e pragmático: vê se o dinheiro [que vos deixo] não se gasta numa penada. Conseguiu ser desconcertante como sempre e previsível como de costume.

Foi feliz? Mesmo que tenha feito o que achou ser seu dever e o que a redutora consciência lhe ditava, mais feliz deve ter sido o seu hedonista progenitor.

notas soltas
Tinha mau coração. E maus pulmões. E maus rins, para não falar em hiperplasias várias (foram tantas as ameaças da Ceifeira, que parecia viver de créditos). A anarquia orgânica começou no dia em que se reformou e se sentou num cadeirão de pele, durante os 10 anos seguintes - estou para aqui, dizia. Logo ele, que sempre mandou, deixou de controlar o próprio corpo, dia a dia mais agrilhoado a uma garrafa de O2, e acabou dependente dos outros para as necessidades mais elementares.
Ao esvaziar gavetas - sacos e sacos pretos com revistas, papeis, agendas e cartões de visita, para o papelão fagocitar -, E. descobriu que também as suas grávidas gavetas não vão interessar a mais ninguém. 

segunda-feira, 18 de março de 2013

CHIPRE E A BARCA DOS LOUCOS

Hieronymus Bosch, The ship of fools. 1490-1500 (Louvre)
 
De surpresa, sexta à noite, o eurogrupo concordou emprestar 10.000 M€ ao Chipre, com uma condição: o 'confisco' de parte dos depósitos bancários dos cipriotas, de 6.75 ou 9.9% (depois alterados para 3.5 e 12.5%, com uma proposta de isenção até 20 ou 25 mil euros), consoante a 'poupança' fosse inferior ou maior que 100.000€.
Até aprovação no parlamento (amanhã), onde o governo tem uma minoria, os bancos estão fechados, não vá o pessoal querer levantar o que é(ra) seu.
 
Isto é um bocadinho idade média, quando os camponeses tinham tanto receio dos fora-da-lei como dos senhores feudais: uns e outros podiam chegar um dia e levar-lhes a cevada e os bácoros. Com a desvantagem, no segundo caso, de não poderem queixar-se ao xerife.
A seguir, voltam os direitos de prima nocte?

quarta-feira, 13 de março de 2013

ESTADO NOVO - PROPAGANDA

'Politicamente, só existe o que o público sabe que existe.'
O. Salazar

'Eu sou o único político português que pode dizer que não precisa dos vossos votos; preciso, apenas, de cumprir o meu dever.'
O. Salazar

'A economia liberal que nos deu o super-capitalismo, a concorrência desenfreada, a amoralidade económica, o trabalho mercadoria, o desemprego de milhões de homens, morreu já.'
O. Salazar, I congresso da União Nacional, 1934

'A revolução, vanguardistas, não é Lenine! A revolução é Salazar!'
António Ferro

1933 (autoria de Almada Negreiros)
1933
1933
1933
1933
nota: os votos brancos contaram a favor
 
1934

1934
lista única

Decálogo do Estado Novo (SNP 1934)

 1936
 
1938
 
1949
 
1949 presidenciais
Salazar não era o candidato
 





 

ESTADO NOVO - A BRANDURA

'Havia que governar «tendo em conta esse sentimentalismo doentio a que nós estamos habituados a chamar bondade». O que obrigava a ditadura a «ser calma, generosa, um tudo-nada transigente, vagarosa até»: «vamos devagarinho. Passo a passo». Nem outro ritmo ou energia haveria de carecer o ideal de mediania, o «viver habitualmente», essa aurea mediocritas que o ditador definia como a felicidade possível e conveniente para as aspirações dos portugueses, como «a imagem da pátria que se traz no coração»: «uma casa branca, cheia de sol, num quintal cuidado, em que a vida é pacífica, alegre, operosa e digna».'
Fernando Rosas in Salazar e o Poder. A arte de saber durar, p.175

ESTADO NOVO - DE PEQUENINO SE TORCE

'Muito pior que a treva do analfabetismo num coração puro é a instrução materialista e pagã que asfixia as melhores inclinações.'
Carneiro Pacheco, ministro da educação nacional, 1936


 1954

*
 1938





domingo, 10 de março de 2013

QUERES FIADO, TOMA!

Fátima 1958 * Eduardo Gageiro
   

O novo Papa Francisco escolheu o perdão como tema da sua primeira oração dominical do Ângelus na Praça de São Pedro: "Deus jamais se cansa de nos perdoar. Nós é que cansamos de pedir perdão".
 
Mário Soares disse um dia que não lhe tinha sido concedida a graça da fé. Entre muitas, perdeu uma vantagem particular, a crença no perdão dos pecados. Mas não me parece assim tão simples, não bastarão umas idas à missa, uma penitência e/ou algum esmolar, para pôr o contador a zeros e dar créditos para cuspir na sopa e bater na avó, até ao domingo seguinte.
A existir (e quem viu o filme A Vida de Pi sabe como a vida é mais interessante com Ele), Deus não é um merceeiro, de lápis na orelha, que assenta os pecados no livro de fiados, a pagar com orações por atacado.
Assim, desconfio que muita gente tem uma surpresa quando bate à porta do Pescador. Por exemplo, Torquemada pode não ter sido muito bem recebido, deve até ter recebido um castigo como Sísifo, e ainda hoje empurra uma pedra até ao cimo duma montanha, para ela rolar de novo ao sopé. 
Pois é, entre os crentes, os mais perigosos são os que acreditam ter uma missão purificadora, e são implacáveis a pelejar contra os seus moinhos de vento. Acreditando estar perto do seu Senhor, estão é bem longe do Nirvana.
Há uns anos, pessoa que conheço afirmou ir a Fátima pedir perdão pelas injustiças que cometia. O seu interlocutor respondeu 'Que tal ires a Fátima pedir para não seres injusto?'.
Eu não diria melhor.

sábado, 2 de março de 2013

HUMMMM!

manifestação 2Março

                    É UM FENÓMENO CURIOSO:
                    O PAÍS ERGUE-SE INDIGNADO,
                    MOUREJA O DIA INTEIRO INDIGNADO,
                    COME, BEBE E DIVERTE-SE INDIGNADO,
                    MAS NÃO PASSA DISTO.
                    FALTA-LHE O ROMANTISMO CÍVICO DA AGRESSÃO.
                    SOMOS, SOCIALMENTE,
                    UMA SOCIEDADE PACÍFICA DE INDIGNADOS.
                    Miguel Torga, Diário 17.09.1961
.