...e depois, com bigodes de leite, pedem mais paciência e esforço ao povo, que a "vaca 'tá seca".

quarta-feira, 3 de julho de 2013

ROMA

Acabei de ler o Monte dos Vendavais (em tempos uma amiga disse-me estar a ler o Morro dos Ventos Uivantes, uma hilariante tradução), e foi um sofrimento: 30 anos duma família completamente disfuncional e endogâmica de 9 pessoas, uns cruéis como o diabo, outros mimados, outros mentalmente desarranjados, to say the least
Também por isso estou muito satisfeito com o livro que lhe sucedeu: Roma Ascensão e Queda de um Império. Quem já deu uma olhada por estas páginas, saberá que tenho uma simpatia especial pela Roma antiga.
De facto, aquilo foi uma sucessão de desentendimentos, da qual temos uma noção enviezada, porque a história é feita pelos vencedores e, ainda hoje, deve correr sangue no Tibre, tal a quantidade de perdedores destinados ao anonimato. Uma nota especial para Cícero, que romano-novo que ganhou a eternidade porque guardava a correspondência que enviava e recebia, e tinha um escriba metódico que lhe 'estenografava' os discursos, em algo mais durável que tabuinhas de cera.  
Mas, por outro lado, como bem se escreve no prefácio, sabe-se mais da Roma bimilenar que de qualquer outra sociedade anterior ao séc. XV. 
Porque não se fiaram na história oral e deixaram as coisas escritas, ficámos a saber o que comiam e bebiam (vinho aguado), que tinham esgotos (incipientes), quais os seus festivais, os mentideros políticos, como eram as casas e templos, que trocas comerciais faziam, ...
O que tinham os gajos de diferente, para aguentarem umas fronteiras esticadas ao limite? Sorte (se Aníbal não tivesse dado a volta, só parava no Capitolino) e uma tropa muito bem organizada.
 
Baker é um historiador de massas, tendo sido colaborador da BBC - aliás, este livro foi usado numa série televisiva. Diria que estilo escorreito - não se consegue meter o Rossio na Betesga, e tem que se contar tudo em marcha acelerada -  é um ótimo teaser para pessoas interessadas. São é muitos nomes, claro, mas toda a gente já ouviu falar de muitos deles, é uma questão de fazer puzzle.
 
Duas sugestões romanceadas para quem gosta: Eu, Cláudio (Robert Graves) e Memórias de Adriano (Margerite Yourcenar). Para 'policiais' a aventura, é escolher uma série de Steven Saylor, Simon Scarrow ou Lindsey Davis.
 
    

sábado, 15 de junho de 2013

SUPERVISÃO PARENTAL

De acordo com o ministro alemão Schäuble, a falência grega foi gerida com o método da tentativa e erro - afinal, o mesmo processo usado na educação dos miúdos. 2 exemplos.
 
O meu garoto não foi convocado para o último jogo de andebol da mini-temporada por 'entre outras coisas*, ser arisco' - termo benigno usado por uma meiga treinadora que trata as lesões com um abracinho, que significa refilão. Disse ainda que o míudo se queixa que não lhe passam a bola, mas que até passam, quando ele faz o que lhe diz.
A caminho de casa, tentei convencer a criança a não desistir já do desporto, fazer 3 ou 4 coisas e ver o resultado: primeiro, não corras de costas para a bola, desmarca-te e não faças placagens como quem pede desculpa; segundo, e recorrendo ao 'confia em mim, eu sei porque já aprendi', obedece e não resmungues, mesmo que não concordes - na altura podes ficar chateado, mas ficas a ganhar.   
Acabei de dizer isto e ouvi um rouco claxon interior: faz-me impressão que os pais não ajam como ensinam aos filhos - essencialmente derivações de respeito pelos próprios e pelos outros, como não roubar ou mentir, ser leal e trabalhador, bla-bla-bla - e o 'baixa a bolinha' é exactamente o contrário do exemplo que lhe quero dar, 'costas direitas'. 

Não há nada, mas nada, mais saboroso que ver no rosto dum filho a satisfação plena, qual Kate Winslet na proa do barco. Vi isso esta semana, quando a minha filha de 12 anos ganhou o seu segundo telemóvel, após uma campanha bem sucedida, à conta duma lacrimejante e sentida tristeza perante a crueldade do universo: então já não podia substituir o seu telemóvel táctil com 2 anos (que, pormenor, funciona como no primeiro dia)? Resultado, a compra foi aprovada por maioria qualificada, com o voto vencido olimpicamente ignorado.
Primeira lição: pode amar-se uma criança dizendo sim, e pode amar-se dizendo não. Segunda lição, (pensamos que) vivemos numa era de abundância, em que tudo é descartável.
Por isso, as 2 fotos seguintes são verdadeiras galhetas na consciência: o sorriso rasgado de um orfão austríaco (Werfel de sua graça) a quem a cruz vermelha americana ofereceu, não um 2º telemóvel, mas os primeiros sapatos novos; um rapaz inglês sentado nas ruínas duma loja bombardeada, deliciado, não com uma psp, mas com um mero livro ('A história de Londres').  

* ter herdado o meu jeito para o andebol

LIFE magazine, 1946



Londres, 8.10.1940 (Associated Press)
 

sábado, 8 de junho de 2013

SEM PLANO B

Um Passos Coelho 'orgulhoso' com o seu trabalho diz ao Expresso que, se voltasse atrás, não mudava 'nada de substancial'. Sigamos o cherne, parte II.
O PM é mais papista que o papa, pois até Vitor Gaspar já viu que as coisas não estão a correr como o previsto (4% de recessão, mais 100 mil desempregados em 3 meses, dívida pública de de 210.000 milhões, exportações estagnadas, investimento gripado - por causa do mau tempo, disse -, remorsos do fmi).
Ontem, o ministro mudou de agulha, reconhecendo que 'apresentar um lista de erros seria demasiado demorado' (avançou um, ter pensado que 'poderia dar prioridade à consolidação orçamental e à estabilização financeira sem uma transformação estrutural profunda das administrações públicas'). Momentos antes, no hemiciclo, afirmara 'tenho amplo material para aprender com os meus próprios erros'.
A humildade, mesmo que tardia, é de elogiar, mas a gente ficava mesmo penhorada era com um plano B. Parece que é pedir demais: ainda agora foi aprovado um orçamento rectificativo que, nas palavras de Adão e Silva, 'em lugar de rectificar, ratifica as soluções que já falharam'.
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sexta-feira, 7 de junho de 2013

REGIMEN DELENDA EST


'O actual regime é o mais infame, mais vergonhoso e mais generalizadamente odioso de todos, aos olhos de todas as espécies e classes e idades de homens [...]
Estes políticos até conseguiram ensinar os homens mais calmos a vaiar.'
Cícero, sobre César
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ANNIE LEIBOVITZ

E o prémio Príncipe das Asturias de comunicação e humanidades, ano 2013, vai para... Annie Leibovitz. Tinha como concorrentes a agência Magnum e a jornalista Christiane Amanpour, e leva uma estatueta de Juan Miró para casa, onde já deve estar outra igual ganha pela sua falecida companheira, a escritora Susan Sontag.
O dinheiro, €50000, também devem dar jeito, pois Leibovitz ainda recupera (a passos largos, pois cobra bastante) duma quase falência ocorrida há 4 anos - devia 24 milhões de dólares e teve que recorrer a um fundo de investimentos (agora seu gestor de activos) para salvar os direitos sobre 100000 fotografias e mais de 1 milhão de negativos.
Considerada 'a maior fotógrafa viva da actualidade' (uma redundância, e talvez exagero), Leibovitz tem no seu portfolio várias fotografias icónicas, como o nu duma Demi Moore gestante, ou a dupla Ono e Lennon (5 horas antes deste ser assassinado).  
Leibovitz entrou em 1970 para a estreante Rolling Stone, chegando a fotógrafa-chefe 3 anos depois: aí integrou uma longa tour dos Rolling Stones (1975) - onde fotografou Keith Richards quase sempre deitado, porque era assim que ele passava o tempo, a curtir as tripes - e fez coisas mais sérias, como a cobertura da guerra do Líbano.
Em 1983, mudou-se então para a Vanity Fair, colaborando também com a Vogue. E a 'retratista' cumpriu o pretendido, fotografias bonitas de gente bonita. 
 
Nixon abandona Casa Branca, 9.8.1974
 
 

Rolling Stones, 1975

Arnold Schwarzenegger, 1976
 
Andy Warhol, 1976

Yoko Ono e John Lennon, 8.12.1980, 5 horas antes do seu assassinato (Rolling Stone)

Clint Eastwood, 1980

Meryl Streep, 1981 (Rolling Stone)

Bruce Sprinsgteen, 1984 (capa de Born in the USA)

Whoopi Goldberg, 1984

Arnold Schwarzenegger, 1988 (Vanity Fair)

Mikhail Baryshnikov, 1990

John Cleese, 1990

Demi Moore, 1991 (Vanity Fair)

Demi Moore, 1992 (Vanity Fair)
  
Johnny Depp, 1994 (Vogue)

Leonardo Dicaprio, 1997

Hollywood, 2001

Angelina Jolie, 2002 (Vogue)

Angelina Jolie, 2005

Angelina Jolie, 2006 (Vanity Fair)

Scarlett Jonhansson e Keira Knightley, 2006 (Vanity Fair)

Scarlett Johansson, 2005 (Vanity Fair)

Anne Hathaway, 2007 (campanha Gap Do The Red Thing)

Família Obama, 2006 (Vanity Fair)

Mikhail Gorbatchev, Louis Vuitton 2007

Keith Richards, Louis Vuitton 2007

Elizabeth II, 2007

Elizabeth II, 2007


Cristiano Ronaldo, 2010 (Vanity Fair)

 

quarta-feira, 5 de junho de 2013

SENA DA SILVA


António Sena da Silva (1926-2001) foi muitas coisas, empresário, tradutor, publicitário, designer, arquitecto e professor, entre outras coisas. E fotógrafo. Diz quem sabe que inspirado na fotografia francesa de Cartier-Bresson e, principalmente (porque mais encenada) de Robert Doisneau. A propósito disso, existe por aí uma querela sobre a opção do comissário da exposição de apresentar impressões integrais dos negativos, em vez dos enquadramentos escolhidos, à época, pelo autor - e tão diferentes ficam.
Podem agora ser vistos cerca de 200 fotografias, seleccionadas durante 2 anos, a partir de 20000 negativos e diapositivos que Sena da Silva deixou.
Na Cordoaria Nacional, até 4 de Agosto. 

 
António Sena da Silva, c. 1960


António Sena da Silva, 1956


António Sena da Silva, 1956-57

António Sena da Silva, 1956-57

António Sena da Silva, 1956-57

António Sena da Silva, 1958

António Sena da Silva, 1960s

António Sena da Silva, 1970s

António Sena da Silva, 1970s