...e depois, com bigodes de leite, pedem mais paciência e esforço ao povo, que a "vaca 'tá seca".

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

NORMAN ROCKWELL, PARTE II

Criticado durante muitos anos pelas suas capas doces e sentimentalóides no Saturday Evening Post (SEP), Norman não se incomodava quando lhe chamavam ilustrador em vez de artista, e até assumia o epíteto. 
Nem todos o faziam: o escritor Valdimir Nabokov achava-o brilhante, mas desperdiçado em pinturas banais, e  chegou a escrever que Dali era o irmão gémeo de Rockwell, raptado por ciganos no útero. Homenagem póstuma, um dos seus trabalhos, Breaking home ties, foi leiloado em 2006 por 15.4M dólares.

Em seu crédito, diga-se que alguns dos seus trabalhos mais realistas (como os retratos dos presidentes), em oposição às suas costumeiras figuras abonecadas, provam que a caricatura, apelando ao imaginário dos leitores, talvez fosse opcional.

Até podem não conhecer nenhuma pintura de Rockwell, mas já viram com certeza os seus sucedâneos. Conhecem o Pai natal desenhado por Haddon Sundbom, que a Coca-cola ‘deu’ ao mundo a partir de 1930? Pois Rockwell já pintara um ‘Santa’ vermelho na capa da SEP em 1916 e, parece vingança, um dos seus pais natal foi usado pela Pepsi, em 1965.

Mas há mais: o poster icónico da emancipação feminina (we can do it), com uma mulher a fazer um manguito, tem parecenças com a, na altura, mais popular Rosie the riveter de Rockwell (na mesma pose do profeta Isaías da capela sistina, mas com a bota sobre o mein kampf), inspirada numa música de 1942 que celebra as mulheres operárias envolvidas no esforço de guerra.

Uma das suas séries mais célebres teve como leitmotiv o discurso do Estado da União de 1941, onde F. D. Roosevelt propôs 4 liberdades fundamentais, que inspiraram a declaração universal dos direitos humanos: de expressão, de religião, do medo (resultado da paz mundial) e o direito a condições adequadas de vida (incluindo à propriedade, ao trabalho, à educação e à segurança social). Capas em 4 edições seguidas da SEP, dedicadas aquelas liberdades, foram também usadas em selos e numa digressão pelos E.U.A., sendo arrecadado 130M de dólares em títulos de dívida, para financiar o esforço de guerra.

Nota final, há dois trabalhos divertidos que merecem referência: a propagação dum boato que chega aos ouvidos do 'alvo' e a árvore genealógica indígena, uma miscigenação de bailarinas de saloon e clérigos, garimpeiros e índias, confederados e unionistas, independentistas e ingleses, piratas e damas espanholas. 

natal
Santa and scouts in snow (Boys Life 12.1913
 Santa Consulting Globe (4.12.1926 Saturday Evening Post)
Extra good boys and girls (16.2.1939 Saturday Evening Post)
The discovery (29.12.1956 Saturday Evening Post)
 as 4 liberdades
Freedom-of-speech (20.2.1943 Saturday Evening Post)
Freedom to worship (27.2.1943 Saturday Evening Post)
Freedom from want (6.3.1943 Saturday Evening Post)
Freedom from fear (13.3.1943 Saturday Evening Post)

Rosie the riveter (29.5.1943 saturday evening post)
Breaking home ties (25.9.1954 Saturday Evening Post)
The gossips (6.3.1958 Saturday Evenig Post)
Family tree (24.10.1959 Saturday Evening Post)
Triple self-portrait (13.2.1960 Saturday Evening Post)
 os presidentes
The day I painted Ike (Eisenhower, 10.11.1952 SEP)
Portrait of John F. Kennedy (29.10.1960 Saturday Evening Post)
Lindon Johnson (20.10.1964 Look magazine)
Portrait of President Richard Nixon (1968)
ver parte I

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

GOZAR COM O PAGODE

Volta-não-volta, há provocações destas.
Há 12 anos, foi o filme Branca de Neve, que João César Monteiro resolveu fazer praticamente sem imagem: levou pancada, mas também recebeu elogios da vanguarda esclarecida - a culpa será minha, mas não encontro nenhuma 'inovação na eloquência da fórmula encontrada, o ecrã preto', nem atingi que se procurasse 'alcançar um nível de semelhanças, analogias ou isomorfias de ordem estrutural e técnico-formal' entre as artes.
Porque é que fez o filme assim, perguntou um jornalista. Porque não pude fazer o filme assado, não estamos a brincar com coisas sérias, respondeu o realizador. A outro entrevistador, disse 'eu quero que o público português se foda'. Pormenor de só-menos importância, Monteiro recebeu do erário (desse) público quase €800.000 para realizar 75' de rádio-cinema, uma súbita versão diferente da sua ideia original.

Agora foi a exposição Invisible Art of the Unseen, 1957-2012, encerrada há dias na londrina Hayward Gallery. Está bom de ver, a obra é o que existe - um quarto escuro (intitulado The Ghost of James Lee Byars), um supercarro invisível numa linha de partida, quadros em branco, superfícies pintadas com ondas cerebrais (?), telas virgens, pedestais vazios. Parece que a 'musa' da exposição é um tal de Yves Klein, que criou The Void em 1957: uma galeria vazia, mas que estaria supostamente impregnada pela sensibilidade artística do próprio...
Pois há quem consiga discorrer longamente sobre a mais-valia da exposição, a desmaterialização da arte, o desafio aos cínicos, a presença do autor, a pobreza do artista que o fez escrever o diário com água, porque não tinha tinta; em suma, não são os objectos visíveis que interessam, o que conta é a ideia. Não estou a inventar, isto foi escrito por Laura Cumming, crítica do The Observer, e por Jonathan Jones do The Guardian - este crítico, que achou a exposição brilhante, lembrou-se da série Seinfeld, que é sobre nada. Bem visto.
Repito, a culpa é minha que sou ignorante, quando olho para uma parede vazia, só vejo uma parede vazia.
Ignorante e pouco criativo, parece.

p.s.: até era gajo para adquirir uma das peças. com dinheiro invisível.


 Witche's Curse and Pedestal 1992, Harry Handelsman

 The invisible 1998, Carsten Holler

 Magic Ink 1989, Gianni Motti


 Unusual things happen (its all there) 2012, Bruno Jakob

exterior

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

COLECÇÃO ANITA PARTE II










ver Parte I
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ANTÓNIO SOARES, PINTOR

Este mundo é pequeno. Na sala da minha mãe existe uma pequena reprodução dum quadro pintado por um meio-primo direito da avó dela, pessoa cuja casa no Chiado visitou - ficando fascinada com o sotão cheio de pincéis e telas gigantes. Do senhor, só recorda que tinha uma mulher loira, que fora a Londres retratar a irmã de Isabel II e que ia, volta-não-volta, jantar a casa do ditador de Santa Comba.
Bem, certo dia a empregada viu o retratado na tal reprodução e exclamou 'olha, este é o Dr. Mota Cabral, era médico em Valada'.

A única coisa que sabia dele era o nome - António Soares é a sua graça -, até que resolvi bisbilhotar. Ora aqui vai.
António Soares (Lisboa 1894-Lisboa 1978) foi ilustrador - debutou em público na II exposição de humoristas, em 1913 -, designer gráfico (entre outros, dos armazéns Grandella), pintor, arquitecto, decorador e cenógrafo. Em tudo, auto-didacta.
Segundo alguns, 'amigo dilecto' de Fernando Pessoa, Almada Negreiros e Mário de Sá Carneiro, foi um dos Modernistas: as suas obras têm uma mão bem medida de Columbano, uma pitada de arte deco (inspiração que colheu numa viagem a Paris), um cheirinho de Van Gogh, de Cézanne e dos expressionistas alemães. Dizem.
Soares foi responsável pelos painéis do Bristol Club e d' A Brasileira (foi o primeiro a ser convidado para decorar o renovado café, em 1923, sendo seguido por Eduardo Viana, Stuart Carvalhais, Almada Negreiros, ...), e tem quadros nas colecções do Museu do Chiado, Museu José Malhoa, Museu Soares dos Reis, Fundação de Serralves, Fundação Gulbenkian, Fundação IBM em Nova Iorque, Banco de Portugal, Assembleia da República, Palácio de Queluz e Paço de Vila Viçosa.
Considerado à época um dos 'poucos grandes pintores da actualidade', António Soares expôs na Europa, E.U.A. e Brasil, e venceu prémios da SNBA, do SNI (foi o único a bisar o prémio Columbano) e da Exposição Internacional de Paris de 1937. Natacha, destacadamente, e os retratos da irmã e de Maria de Mello Breyner, são talvez a sua contribuição maior para o modernismo português.
A partir de 1950, o pintor foi saindo da boca de cena, aproximando-se do naturalismo que, enquanto modernista, renegara.
E hoje só é conhecido por marchands et connaisseurs. Bem cotado, porém.

 Ilustração Portuguesa (1921) 
Capa do livro Leviana de António Ferro (1921) 
Sem título (1922, CAM - Fundação Calouste Gulbenkian)

Quarta-feira de Cinzas, Bristol Club (1925)
Camões 
 Natacha (1928, CAM - FCG) 
Retrato de Maria de Mello Breyner (1932, CAM - FCG) 
Figuras femininas (1930) 
 No Terrasse do café des Plaires (c.1920-1930, Museu do Chiado)
Ponte D. Luis, panorama da Ribeira-Porto (1935, CAM - FCG) 
Retrato da irmã do artista (1936, col. MNAC - Museu do Chiado)
Pierrot (1944,  Museu do Caramulo)
 Menino nu (1955-56)
Rossio cosmopolita (1969)
- autoria negada pela sobrinha -

mais informação em http://www.mestreantoniosoares.org/