...e depois, com bigodes de leite, pedem mais paciência e esforço ao povo, que a "vaca 'tá seca".

quinta-feira, 9 de maio de 2013

RAIDE EM LONDRES


Londres não se conhece em 5 dias, é como ir ao Rossio e ver a Betesga. Há partes que podem ser aceleradas, tipo já que estamos aqui podemos ir ver uma coisa àquela rua, mais outra à paralela e depois aqueloutra a 2 quarteirões, sempre em ritmo de marcha, usando uma máquina digital como pica-bilhetes.
Mas há outras coisas que demoram, as obras de arte vêem-se duas vezes, antes e depois da legenda, depois de sabermos que o quadro demorou 4 anos, como se vê na moda dos vestidos de 2 figurantes, que van Eick escreveu ‘eu estive aqui’ no seu casamento dos Arnolfini, ou quem são as ‘fantasmas’ que o artista apagou. 
O melhor é seguir umas regras. Primeiro, fazer o T.P.C.: comprar um guia e ver o mapa; saber o que há, onde está, quanto custa e a que dias e horas está aberto; fazer opções de visita (o mais penoso) e distribuí-las pelos dias, com espaço para acomodar detours; marcar 1 hotel acessível (nos 2 sentidos). E é preciso gerir interesses divergentes: um associa férias a museus, outro a piscina, outro a english breakfasts e o último a brinquedos. Segunda regra, madrugar, para aproveitar o tempo todo.
Há 2 ou 3 museus que não se podem perder – são gratuitos, tirando as exposições temporárias (e que exposições, por estes dias: Lichtenstein no Tate Modern, Sebastião Salgado no História Natural, Pompeia no Britânico), vivem de donativos e ainda conseguem ir adquirindo novas obras – mas não passa de um raide: o museu de história natural tem cerca de 70 milhões de objectos e o museu britânico tem cerca de 8 milhões de objectos, por exemplo.
A visita a este último começa com espanto e acaba em náusea: lá está o fruto duma pilhagem massiva e sistemática doutros povos: são dezenas de múmias, a pedra da roseta, parte do mausoléu de halicarnasso (1 das 7 maravilhas da antiguidade), a barba da esfinge de Gizé, estátuas gigantescas arrancadas a templos astecas, assírios e gregos, um dos gigantes da Ilha da Páscoa, a frontaria completa do parténon (que os gregos ainda há pouco exigiram de volta), com um insultuoso agradecimento ao Lorde Millbanks ‘que nos ofereceu estas esculturas’.
Quanto à National Gallery e ao Tate Modern, complementam-se temporalmente, com o crème de la crème da pintura universal. Continua a surpreender-me algum topete na arte mais recente, como uma tela de Cy Twombly, com trinchadelas vermelhas que demoraram 2 anos a fazer, ou um simples espelho colado numa tela, intitulado ‘untitled painting’, feito pela dupla Baldwin e Ramsden – um teve a ideia, o outro comprou a cola, se calhar. Presença portuguesa, um possível retrato holandês de Damião de Góis na NG, e um Vieira da Silva no TM. 
Quanto à arquitectura, os edifícios mais antigos datam do século XI (antes, era tudo de madeira) e são poucos, porque a maioria ardeu várias vezes – só a catedral de S. Paulo vai na 4 ou 5ª versão, à pala disso – , e coexistem com arranha-céus espelhados e gruas, a cidade é um estaleiro.
Surpresas, a água quente nas torneiras públicas, a quantidade de pessoas de fato e gravata (de bicicleta), as dezenas de peças de teatro em cartaz, os auto-pagamentos (os jornais e os catálogos estão à disposição, confia-se que deixemos o dinheiro, fosse cá…) e a falta de chuva – a previsão ‘light rain shower’ foi manifestamente exagerada, não caíu uma gota.  
Quem for em família e não conseguir entrar num pub, esborrachando o nariz na montra, como um miúdo numa loja de doces, sempre pode fazer uma breve e solitária escapada ao Coach & Horses, antes de fechar, enquanto alguém (justificando um agradecimento nos créditos finais) deita as crianças.
Última nota, Londres não parece tão caro como dizem… até fecharmos as contas.
 
combóio Stansted-Londres
 

Cy Twombly 2006-8 (Tate Modern)

Tower green (Tower of London)

Legoland, Windsor

Castle of Windsor

Windsor

London Eye


Houses of Parliament
 
Cartaz na St. James Church, Piccadilly

Escultura do Mausoléu de Halicarnasso (British Museum)

Pub no Soho

Glyptodont (Natural History Museum)
 
Dodos (Natural History Museum)
o último melããão!!!

esqueleto de cobra (Natural History Museum)

hall principal do Natural History Museum

Portobello road, Nottingham hill

London Eye

bandeira do Foreign and Commonwealth Office

St. James park

Horseguard, Horsehold cavalry

cadáver de cão, exposição Vida e morte em Pompeia e Herculano
British Museum

BRITISH MUSEUM

Uma visita ao BM começa com espanto e acaba em náusea: lá está o fruto duma pilhagem massiva e sistemática doutros povos: são dezenas de múmias, a pedra da roseta, partes do mausoléu de Halicarnasso e do templo de Artemísia (2 das 7 maravilhas da antiguidade), a barba da esfinge de Gizé, estátuas gigantescas arrancadas a templos astecas, assírios e gregos, um dos gigantes da Ilha da Páscoa, a frontaria completa do parténon. Na sala onde estão os bocados deste templo, que os gregos ainda há pouco exigiram de volta, há uma placa onde se agradece ao Lorde Millbanks ‘que nos ofereceu estas esculturas’. O acinte!
 
A exposição temporária, Vida e morte em Pompeia e Herculano, também motiva sentimentos contraditórios: o incómodo com os cadáveres expostos e a descrição da tragédia, o espanto com artefactos domésticos absolutamente únicos que aquela preservou - pães (com a marca do padeiro), figos e romãs, arcas de roupa e berços (carbonizaram, mas duram há 2000 anos, ao contrário de outros móveis de madeira que tiveram melhor sorte), espelhos, rabiscos na parede no quarto dos miúdos, frescos privados e públicos.
Foram encontradas até fezes (as latrinas eram nas cozinhas, onde se juntava o lixo, razões sanitárias contraproducentes, como se adivinha), usadas para descobrir que alimentos  eram mais comuns.     
 
 

mosaico romano

replica da pedra da roseta (original noutra sala)
decreto de 196 a.c., em hieroglifos, egípcio demótico e grego 


Kaitep e Hetepheres, um sacerdote e sua mulher, 2300 ac


sarcófago interior de Henutmehyt, Tebas, 1250 a.c.

múmia de gato, Egipto, sec. I


cabeça de calcário descoberta em Byblos, Fenícia
feito no Chipre, 610-550 a.c.

uma das mais antigas representações de Cristo (identificado pelas letras XP - qui-ró;
a romã, símbolo da vida eterna na mitologia grega, foi adoptada como símbolo
cristão da ressureição). mosaico de pavimento, do sec. IV, descoberto em Dorset

colar (1080g, ouro com mistura de prata), cerca da 75a.c.
 descoberto no Norfolk

mausoléu de Halicarnasso, sec. IV a.c.

cariátide do Erecteion (Acrópole de Atenas), 421-406 a.c.

monumento das Nereidas, 410-400 a.c. Xanthos, Turquia

esculturas do Parténon

Afrodite, sec. I-II

 palácio de Khorsabad, sec. VIII a.c.

sala egípcia

barba da esfinge de Gizé, 3001 a.c.

estátua Moai da ilha da Páscoa, sec. XI?

great court

Exposição Temporária: Vida e morte em Pompeia e Herculano
padeiro Terentius Neo e mulher. Pompeia, 55-79 d.c.

sacerdotisa Eumachia, Pompeia
(mantida coloração do cabelo)

legenda para quê?

planta de Pompeia

cartaz eleitoral 'peco-vos que elejam edil Samellius, um jovem superior,
e também Lucius Albucius', Pompeia 79 d.c.

PATACA A TI, PATACA A MIM

Há algumas coisas que o meu pai dizia que nunca esqueci, à conta da repetição: 'amigos, amigos, são os de infância e a família', 'nada se cria, nada se perde, tudo se transforma' (começavam assim demoradas prelecções, cada vez que lhe pedia ajuda num tpc) e 'uma geração faz dinheiro, a segunda conserva e a terceira gasta'. Ainda estou para saber que geração me calhou a mim, mas vá.
De qualquer jeito, é interessante como o 'graveto' sai das famílias de forma inesperada, e cai em mãos alheias, em vez de passar para irmãos ou filhos. Exemplos?
. Era uma vez 3 irmãos abastados, os 2 rapazes casaram com a mesma senhora, viúva essa que tornou o terceiro marido um herdeiro muito feliz.
. Era uma vez um rapaz tão estróina, que a previdente (?) avó, para o petiz não se desfazer da propriedade que herdara, conseguiu passá-la para o seu nome e depois deixá-la em herança a uns sobrinhos dela, com o usufruto do neto (morreram ambos no espaço de um mês).  
. Era uma vez uma viúva que passou a posse da casa do primeiro marido para o novo campanheiro, que morreu primeiro e deixou a propriedade à uma irmã açoreana.
Mas, à pala duma cósmica lei das compensações, mesmo que desequilibrada, pode acontecer o inverso, como uma casa lisboeta ser deixada por uma fidalga (açoreana, lá está) aos sobrinhos do marido, com uma história peculiar: aí, no n.º 25 da Travessa André Valente, morreu Barbosa de Bocage. 
 
Descerramento da lápide no centenário da morte de Bocage
Foto de Joshua Benoliel,  1905

Foto de Eduardo Portugal


 
 

quarta-feira, 8 de maio de 2013

ELE HÁ CADA UMA

Dá-se a volta à National Gallery de boca aberta, tantos são os quadros conhecidos (estão lá, sem exagero, todos os pintores de renome, dos séculos XIII ao XIX): ena, este está aqui, e este, e este,...
Depois há surpresas agradáveis, fica a conhecer-se artistas que ignorávamos, principalmente ingleses, como William Hogarth ou Joseph Wright.
Gostei particularmente dum quadro deste último, tamanho XXL, que tem por título 'Uma experiência com uma ave numa bomba de vácuo', pintado em 1768, quando o estudioso-viajante James Ferguson passa por Derby, a terra do artista: numa sala sombria, o pássaro vai agonizando, perante a consternação de uns, a indiferença de outros, o pasmo de outros ainda.
E não é que a cara de Ferguson, com as suas hirsutas sobrancelhas, olhar pétreo e face vincada, é cuspida e escarrada (pormenor, a expressão original é esculpida em Carrara, tal a 'veracidade' das estátuas feitas com mármore daquela cidade) a de Vitor Gaspar? Para quem tiver dúvidas, é só clicar e ampliar.
Há outro paralelismo, ambos são adeptos do experimentalismo impiedoso com as cobaias, vai-se tirando o ar a ver o que sucede.
Se eu acreditasse em reencarnações...

sexta-feira, 26 de abril de 2013

OUTRAS DE ALFREDO CUNHA

 1975 nacionalizações
 
 1975 descolonização
 
 1975 descolonização
 
 1975 Sá Carneiro
 
 1976 Álvaro Cunhal
 
 1978 Ramalho Eanes
 
 1980 Camarate, morte do PM Sá Carneiro
 
 1986 Mário Soares
 
 1989 Roménia
 
 1997 Douro
 
2003 Iraque
 
ver fotos 25 de Abril por Alfredo Cunha  
 
Alfredo Cunha trabalhou no Notícias da Amadora (1971), O Século e O Século Ilustrado (1972),  Agência Noticiosa Portuguesa (1977) e as agências Notícias de Portugal (1982) e Lusa (1987). Fotógrafo oficial dos PR Ramalho Eanes (76-78) e Mário Soares (86-96). Editor de fotografia no jornal Público (89-97) e Grupo Edipresse como editor fotográfico. Fotógrafo da revista Focus (2000). Editor fotográfico do Jornal de Notícias (2002-12).