"Para certos republicanos a República tem sido um pé de cabra com que vêem aumentando os seus haveres." Senador João de Freitas, histórico republicano, in Boletim parlamentar do Senado, 11-06-1913
terça-feira, 24 de abril de 2012
BANCA DE JORNAIS, 25/04/1974
Na casa da minha mãe ainda existe uma moca de Rio Maior à entrada (para quem não sabe, o símbolo do 'no passarán!', contra a onda vermelha do prec); na casa da minha mais-que-tudo havia bem-humoradamente um cão chamado 'facho' - a celebração do 25 era entre o nublado e o moderado, nada de cravos. As nossas famílias nucleares depois alaranjaram (do centrismo para o centrão...), com 2 excepções - cada um no seu canto do ringue político, mas curiosamente são esses 2 que mais ligam à efeméride.
A todos, um bom feriado (aproveitem enquanto existe...).
domingo, 22 de abril de 2012
AGIM SULAJ E A MALA DE CARTÃO
Um dos meus cartoons favoritos da edição da World Press Cartoon 2012 (até 30/7 em Sintra) tem autoria de Agim Sulaj. Este cartoonista multigalardoado apresentou 2 trabalhos, uma criança africana numa garrafa de água e o tal, um ingovernável barco europeu. Este cartoon, que recebeu uma menção honrosa, é a uma versão dum original de 2009, agora com Angela Merckl no lugar dum dos remadores.
O ilustrador hiperrealista (concessão ao acordo ortográfico, a não repetir), nascido na Albânia comunista de Enver Hoxha, e a viver na italiana Rimini há quase 20 anos, dedica boa parte da sua atenção à imigração (sendo a repetida a mala de cartão uma espécie de chapéu-de-coco de Magritte), pobreza e ambiente.
O ilustrador hiperrealista (concessão ao acordo ortográfico, a não repetir), nascido na Albânia comunista de Enver Hoxha, e a viver na italiana Rimini há quase 20 anos, dedica boa parte da sua atenção à imigração (sendo a repetida a mala de cartão uma espécie de chapéu-de-coco de Magritte), pobreza e ambiente.
Europe (2009)
United Europe (2002)
Euro zone
Revolution
The escape (2006)
Imigration
Imigration (2009)
Emigrant house (2010)
Emigrant house (2010)
casa do emigrante em 3D, festas de Rimini (2010)
Shengen (?)
Train and station (2011)
Future of children
La Casa del Pittore (entrada do site)
Albero (2008)
Citation (2011)
Shoes
Uomo chiuso
Gossip
Frate (2007)
Palestine (2008)
quarta-feira, 18 de abril de 2012
PLACAGEM
A 2ª série do Diário da República é de boa leitura. Ali ficamos a conhecer quem são os ungidos para a alta administração pública, e os seus curricula, por vezes tão escassos que tornam difícil compreender a justificação da escolha, pelos comuns dos mortais como eu.
Outras vezes, nem é a falta de curriculum académico ou profissional que chama a atenção.
O Despacho 5283 é fresquinho, data de ontem, e publica a nomeação da administração do INIAV, 'guarda-chuva' de 3 instituições de referência da investigação científica indígena, o LNIV, o IPIMAR e o INIA: os 3 elementos podem optar pelo vencimento de origem e o presidente e um dos 2 vogais podem continuar a dar aulas. Regular.
Curiosas são as notas curriculares, na parte diversos.
Do presidente, licenciado engenheiro agrónomo na UTL e aí Professor Doutor, e entre outras coisas ex-director da Galp, consta 'Ex-praticante de rugby, membro da Direção do Clube de Rugby de Agronomia (1999 -2008), Secretário da Mesa da Assembleia-geral da Federação Portuguesa de Râguebi (2004 -2008). Membro filiado, desde 1998, no partido CDS/PP, onde já fui [sic] membro do Conselho Económico e Social, da Comissão Política Nacional e Vice-Presidente do partido.'
Um dos vogais, licenciado em gestão de Recursos Humanos na Lusófona (aos 38 anos, ou entrou tarde ou demorou-se), trabalha há anos na Carris, tendo sido nos últimos 9-anos-9 'membro de equipas de trabalho dos programas de reestruturação da empresa' (uma obra de Santa Engrácia sem fim há vista, parece).
Nos diversos, é-nos dado a saber que é 'Ex-praticante de rugby e treinador de rugby com cursos da Federação Portuguesa, Espanhola e Inglesa de Rugby e selecionador nacional adjunto em 2000. Ex-membro da Comissão Executiva e Mentor da Academia Carris.'
Temos pois um denominador comum, o rugby. Ora, há alguma relação entre investigação e esse desporto de porradinha? Amigo maledicente imaginou ouvir-se no Largo do Caldas 'Alguém aqui percebe de ensaios?' e levantarem-se 2 hércules com polos às riscas no fundo da sala...
terça-feira, 10 de abril de 2012
QUERIDA, OS MIÚDOS CRESCERAM
Já aqui falei nela. A Carla de Braga tem filhos bem mais velhos que eu, e olha para as minhas crianças com nostalgia. 'Aproveita enquanto podes', repete sempre.
Reencontrei-a há dias. Diz que ela e o marido estão a reaprender a ser independentes: voltaram a ir ao cinema, já foram a um bar e jantar fora - tendo combinado não falar dos miúdos, estiveram a primeira 1/2 hora calados.
Disse mais, a garota tem 16 anos e ainda faz alguma companhia, o rapaz já tem 20 e 'pagamos-lhe para ir dormir a casa'. É isso mesmo, tem cama e roupa lavada, com mesada incluída.
Contou que o dito agora tem uma banda, e perguntei:
- E qual é o estilo?
- O estilo é horrível!!!, foi a resposta. Para explicar, o mais próximo que encontrou foram os urros cavos dos Moonspell.
E o pai? O pai já pôs na pasta da reciclagem as suas (e minhas) lembranças de condução 'alterada', faz esperas ao filho e dá-lhe sermões sobre guiar depois de consumir algumas substâncias: 'Olha, eu não tenho dinheiro para comprares ganza. Eu nunca gastei um euro com isso, não vou agora pagar-te a ti'. A escolha das palavras foi assaz criteriosa, de facto nunca comprou. Faz lembrar o Clinton, que fumou mas nunca inalou.
domingo, 8 de abril de 2012
4 - BELAS LIVRARIAS - 4
LER DEVAGAR
Lisboa
Lisboa
EL ATENEO
Buenos Aires
Buenos Aires
SHAKESPEARE & Company
Paris
Paris
SELEXYZ DOMINICANEN
Maastricht
Maastricht
quinta-feira, 29 de março de 2012
POSTAIS ANTIGOS (XL) - VOYEURISMO
Lisboa
2/10º1913
E.ma Menina Anna
Poucos dias depois de aqui estar enviei-lhe um postal da terra. Não sei se o recebeu, pois não tive a sorte de me responder. Mas… eu desculpo, pois se não fossem os seus affazeres certamente o teria feito. Mas passemos a outro assumpto. Gosta dos postaes? Sabe que me tenho dado mto bem. Teem havido bailes em Sines e houve aqui um tambem, e recital, é claro que tenho aproveitado tudo. Até estou um (?) mto regular. Isto sem me querer gabar… Tambem tenho ido a varios pic-nics mto agradaveis. Matriculou-se este anno no conservatorio? E seus manos? Como tenciono regressar a casa na 5ª feira, mto em breve terei o prazer de ahi ir a sua casa. Dá-me licença, não é verdade? Vou terminar. Envio os meus cumprimentos mto sinceros para a sua E.ma família e para si ficando sempre ao dispor o
José Rocha
Tem sabido da doença da Bibi? Teve uma febre typhoide.
A ocupar 3 postais, assim escrevia José, de 19 anos, a Ana, de 18. Assim José cortejava timidamente Ana, mas teria que esperar ainda o casamento e viuvez precoce dela, para se juntarem e terem 2 filhos, 2 netos, 4 bisnetos e 3 trinetos... and counting.
Ver postais antigos da colecção é isto, bisbilhotar a intimidade alheia.
Os namoros por declarar, os arrufos (Já hontem recebi o seu bilhete, fiquei sciente. Escrevo-lhe pela ultima vez d'esta rica terra, d'onde não levo saudades nenhumas), os desejos de melhoras, as recomendações e despedidas floreadas (Recomende-me muito ao papazinho e a todos, e até um dia. Que venha uma aragem mais suave que me leve a pude-la beijar de perto.), a tia depressiva [Por muito triste que seja a minha existência nunca me esquecerei de felicitar a minha querida sobrinha pelo seu anniversario (1914); Recebe os parabéns da tua infelis tia faço votos pelas tuas felecidades e peço a Deus que se lembre de mim o mais breve possível. Tua tia Francisca M. F. Rodrigues (1916)].
Agora já não se usam cartas, fala-se por mail, dão-se parabéns por telemóvel, namora-se por sms e comunicam-se constipações no facebook. Isso, partilha-se no facebook.
Resultado, é tão efémero como escrever na areia em maré baixa: daqui por cem anos (e podia dizer 10), não há palavras para 'espreitar'.
A contento, ao menos, dos ciosos da sua privacidade.
2/10º1913
E.ma Menina Anna
Poucos dias depois de aqui estar enviei-lhe um postal da terra. Não sei se o recebeu, pois não tive a sorte de me responder. Mas… eu desculpo, pois se não fossem os seus affazeres certamente o teria feito. Mas passemos a outro assumpto. Gosta dos postaes? Sabe que me tenho dado mto bem. Teem havido bailes em Sines e houve aqui um tambem, e recital, é claro que tenho aproveitado tudo. Até estou um (?) mto regular. Isto sem me querer gabar… Tambem tenho ido a varios pic-nics mto agradaveis. Matriculou-se este anno no conservatorio? E seus manos? Como tenciono regressar a casa na 5ª feira, mto em breve terei o prazer de ahi ir a sua casa. Dá-me licença, não é verdade? Vou terminar. Envio os meus cumprimentos mto sinceros para a sua E.ma família e para si ficando sempre ao dispor o
José Rocha
Tem sabido da doença da Bibi? Teve uma febre typhoide.
A ocupar 3 postais, assim escrevia José, de 19 anos, a Ana, de 18. Assim José cortejava timidamente Ana, mas teria que esperar ainda o casamento e viuvez precoce dela, para se juntarem e terem 2 filhos, 2 netos, 4 bisnetos e 3 trinetos... and counting.
Ver postais antigos da colecção é isto, bisbilhotar a intimidade alheia.
Os namoros por declarar, os arrufos (Já hontem recebi o seu bilhete, fiquei sciente. Escrevo-lhe pela ultima vez d'esta rica terra, d'onde não levo saudades nenhumas), os desejos de melhoras, as recomendações e despedidas floreadas (Recomende-me muito ao papazinho e a todos, e até um dia. Que venha uma aragem mais suave que me leve a pude-la beijar de perto.), a tia depressiva [Por muito triste que seja a minha existência nunca me esquecerei de felicitar a minha querida sobrinha pelo seu anniversario (1914); Recebe os parabéns da tua infelis tia faço votos pelas tuas felecidades e peço a Deus que se lembre de mim o mais breve possível. Tua tia Francisca M. F. Rodrigues (1916)].
Agora já não se usam cartas, fala-se por mail, dão-se parabéns por telemóvel, namora-se por sms e comunicam-se constipações no facebook. Isso, partilha-se no facebook.
Resultado, é tão efémero como escrever na areia em maré baixa: daqui por cem anos (e podia dizer 10), não há palavras para 'espreitar'.
A contento, ao menos, dos ciosos da sua privacidade.
quarta-feira, 28 de março de 2012
MILLÔR FERNANDES, o Grouxo Marx brasileiro
Millôr Fernandes, desenhador, humorista, dramaturgo, escritor, tradutor
16.8.1923-27.3.2012
VIVER É DESENHAR SEM BORRACHA.
A VERDADEIRA AMIZADE É AQUELA QUE NOS, PERMITE FALAR, AO AMIGO,
DE TODOS OS SEUS DEFEITOS E DE TODAS AS NOSSAS QUALIDADES.
DE TODOS OS SEUS DEFEITOS E DE TODAS AS NOSSAS QUALIDADES.
COMO SÃO ADMIRÁVEIS AS PESSOAS
QUE NÃO CONHECEMOS BEM.
ETERNO EM AMOR TEM O MESMO SENTIDO
QUE PERMANENTE NO CABELO.
SEXO CAUSA GENTE...
PAIS E FILHOS NÃO FORAM FEITOS PARA SER AMIGOS.
FORAM FEITOS PARA SEREM PAIS E FILHOS.
CRIANÇA É ESSE SER INFELIZ QUE OS PAIS
PÕEM A DORMIR QUANDO AINDA ESTÁ CHEIO DE ANIMAÇÃO
E ARRANCAM DA CAMA QUANDO AINDA ESTÁ ESTREMUNHADO DE SONO.
UMA CRIANÇA ESTÁ DEIXANDO DE SER CRIANÇA
NO DIA EM QUE COMEÇA A FAZER PERGUNTAS QUE TÊM RESPOSTA.
CRIANÇA É ESSE SER INFELIZ QUE OS PAIS
PÕEM A DORMIR QUANDO AINDA ESTÁ CHEIO DE ANIMAÇÃO
E ARRANCAM DA CAMA QUANDO AINDA ESTÁ ESTREMUNHADO DE SONO.
UMA CRIANÇA ESTÁ DEIXANDO DE SER CRIANÇA
NO DIA EM QUE COMEÇA A FAZER PERGUNTAS QUE TÊM RESPOSTA.
JAMAIS DIGA UMA MENTIRA
QUE NÃO POSSA PROVAR.
O CARA SÓ É SINCERAMENTE ATEU
SE ESTÁ MUITO BEM DE SAÚDE.
TODO O HOMEM É O SEU VALOR
DIVIDIDO PELA SUA AUTO-ESTIMA.
TODO O HOMEM É O SEU VALOR
DIVIDIDO PELA SUA AUTO-ESTIMA.
QUEM MATA O TEMPO NÃO É ASSASINO,
MAS SIM UM SUICIDA.
O MAL DO MUNDO É QUE DEUS ENVELHECEU E O DIABO EVOLUÍU.
O CAPITALISMO É A EXPLORAÇÃO DO HOMEM PELO HOMEM.
O SOCIALISMO É O CONTRÁRIO.
DEMOCRACIA É QUANDO EU MANDO EM VOCÊ,
DITADURA É QUANDO VOCÊ MANDA EM MIM.
O CAPITALISMO É A EXPLORAÇÃO DO HOMEM PELO HOMEM.
O SOCIALISMO É O CONTRÁRIO.
DEMOCRACIA É QUANDO EU MANDO EM VOCÊ,
DITADURA É QUANDO VOCÊ MANDA EM MIM.
BASTA O AVIÃO SACUDIR UM POUQUINHO MAIS
E LOGO TODOS OS PASSAGEIROS
FICAM PARECIDOS COM A FOTO DO PASSAPORTE.
ERRAR É HUMANO.
SER APANHADO EM FLAGRANTE É BURRICE.
SE AGIR COM DIGNIDADE, PODE NÃO MUDAR O MUNDO, MAS
UMA COISA É CERTA: HAVERÁ MENOS UM CANALHA NA TERRA.
O HOMEM É UM MACACO QUE NÃO DEU CERTO.
O DINHEIRO NÃO SÓ É FACILMENTE DOBRÁVEL
COMO DOBRA FACILMENTE QUALQUER UM.
O DINHEIRO NÃO TRAZ FELICIDADE, MANDA BUSCAR.
NADA É MAIS FALSO QUE UMA VERDADE ESTABELECIDA.
NADA É MAIS FALSO QUE UMA VERDADE ESTABELECIDA.
PODE SER DIFÍCIL ENCONTRAR UMA AGULHA NO PALHEIRO.
MAS NUNCA DESCALÇO.
É MELHOR SER PESSIMISTA QUE OPTIMISTA:
O PESSIMISTA FICA FELIZ QUANDO ACERTA E QUANDO ERRA.
COM MUITA SABEDORIA, ESTUDANDO MUITO, PENSANDO MUITO,
PROCURANDO COMPREENDER TUDO E TODOS, UM HOMEM CONSEGUE,
DEPOIS DE MAIS OU MENOS 40 ANOS DE VIDA,
APRENDER A FICAR CALADO.
DIZ-ME COM QUEM ANDAS, DIR-TE-EI QUEM ÉS. POIS É:
PROCURANDO COMPREENDER TUDO E TODOS, UM HOMEM CONSEGUE,
DEPOIS DE MAIS OU MENOS 40 ANOS DE VIDA,
APRENDER A FICAR CALADO.
DIZ-ME COM QUEM ANDAS, DIR-TE-EI QUEM ÉS. POIS É:
JUDAS ANDAVA COM CRISTO, CRISTO ANDAVA COM JUDAS.
É MEU CONFORTO: DA VIDA SÓ ME TIRAM MORTO.
terça-feira, 27 de março de 2012
AS FARPAS (I) - A NAÇÃO E O DEFICIT
Ramalho Ortigão n' As Farpas
Junho, 1882
A sociedade portuguesa neste derradeiro quarteirão do século pode em rigor definir-se do seguinte modo: – Ajuntamento fortuito de quatro milhões de egoísmos explorando-se mutuamente e aborrecendo-se em comum.
Chamar pátria à porção de território em que uma tal agregação se encontra seria abusar repreensivelmente do direito que cada um tem de ser metafórico. O espaço circunscrito pelo cordão aduaneiro, dentro do qual sujeitos acompanhados das suas chapeleiras e dos seus embrulhos ou tomaram já assento ou furam aos cotovelões uns pelo meio dos outros para arranjar lugar nas bancadas, pode chamar-se um ómnibus – e é exactamente o que é – mas não se pode chamar uma pátria. A pátria não é o sítio em que nos coloca o acaso do nascimento, à mão direita ou à mão esquerda de uma guarda da alfândega, mas sim o conjunto humano a que nos liga solidariamente a convicção de uma pensamento e de um destino comum.
...
Perdendo a pouco e pouco a consciência da sua tradição histórica, Portugal, politicamente, não tem hoje papel na civilização. Está desempregado. Figura no congresso das nações como um país sem modo de vida. Perante o progresso está sem profissão.
(…) Portugal descansa desde o século XVI sobre os monumentos imortais da sua passada energia, e acha-se no movimento moderno da raça latina como uma nacionalidade com licença ilimitada para tomar ares (…) há duzentos anos sentado ao sol numa ponta do mapa-múndi, a cabecear, a coçar os joelhos e a ouvir ranger o calabre à nora da coisa pública (...).
(…) os homens que há vinte anos se revezam no governo carecem das ideias gerais de que procede na ciência o ponto de vista governativo. As assembleias das duas Câmaras, revezando-se ora para a direita ora para a esquerda, dão ou retiram a maioria dos votos a cada um daqueles senhores, consagrando-se exclusivamente a defendê-los ou a impugná-los, sem portanto saírem nunca da órbita dos princípios que eles representam, princípios a que não correspondem sistemas diversos e que se distinguem apenas uns dos outros pelos sinais fisionómicos dos estadistas que os têm no ventre, podendo-se dividir assim: princípios governativos calvos, princípios governativos de olhos tortos e princípios governativos de cabelos tingidos.
(…) - a questão da fazenda.
Reunidas as Câmaras e aberto perante elas o orçamento do Estado, começa-se invariavelmente por constatar, num trémulo elegíaco de sinfonia fúnebre, que continua a existir o deficit. Cada um dos três governos, a quem a Coroa alternadamente adjudica a mamadeira do sistema, encarrega-se de explicar aos taquígrafos essa ocorrência – aliás desagradável, cumpre dizê-lo – mas que ele, Governo em exercício, não tem culpa. A responsabilidade cabe ao Governo transacto, bem conhecido pelos seus esbanjamentos e pela sua incúria.
Para cada um desses três governos sucessivamente encarregados de trazerem o deficit ao regaço da representação nacional, o Governo que imediatamente o precedeu nesse mesmo encargo é o último dos imbecis.
(…) A Coroa pela sua parte – e este é o mais augusto de todos os seus privilégios – é sucessivamente da opinião de todos os três ministérios; e depois de haver retirado, com sincero nojo, a sua confiança aos imbecis do grupo nº 1, nº 2 e nº 3, a Coroa torna a restituir a citada confiança, com uma efusão de júbilo tão sincero como o nojo anterior, a cada um dos grupos de imbecis já referidos mas colocados cronologicamente em sentido inverso (…)
Trocadas as descomposturas preliminares sobre a questão da fazenda, decide-se que é indispensável, ainda mais uma vez, recorrer ao crédito, e faz-se um novo empréstimo. No ano seguinte averigua-se por cálculos cheios de engenho aritmético que para pagar os encargos do empréstimo anterior não há outro remédio senão recorrer ainda mais uma vez ao país, e cria-se um novo imposto.
Fazem-se empréstimos para suprir o imposto, criam-se impostos para pagar os juros dos empréstimos, tornam-se a fazer empréstimos para atalhar os desvios do imposto para o pagamento dos juros, e neste interessante ciclo vicioso, mas ingénuo, o deficit – por uma estranha birra, admissível num ser teimoso, mas inexplicável num mero saldo negativo, em uma não-existência, – aumenta sempre através das contribuições intermitentes com que se destinam a extingui-lo já o empréstimo contraído, já o imposto cobrado. (…)
Pela parte que lhe respeita o país espera. O quê? O momento em que pela boa razão de não haver mais coisa que se colecte, porque está colectado tudo, deixe de haver quem empreste por não haver mais quem pague.
No entanto o problema de aumentar a riqueza – último meio de prover aos encargos – é considerado como absolutamente estranho à questão da fazenda. E todavia nem toda a gente ignora que a riqueza não aumente senão pelo desenvolvimento progressivo do trabalho e que este se acha ligado aos progressos da indústria.
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