...e depois, com bigodes de leite, pedem mais paciência e esforço ao povo, que a "vaca 'tá seca".

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

OS BUCHAS DE BOTERO

Botero anda por aí. À exposição de 80 peças que decorre em Bilbau, o octogenário de fresco (n. em 1932) junta a mostra em Lisboa da sua via sacra - 27 óleos e 34 desenhos à volta da paixão de Cristo. Poder-se-ia considerar uma abordagem inusitada a transposição da história para os tempos modernos (como a crucificação em Central park ou um gay arrancando as vestes de Jesus), mas a sagrada família com tricórnios setecentistas, de Machado de Castro, atesta que sempre houve essa tentação.   
O pintor vivo mais famoso da américa latina foi muitas vezes menosprezado pela sua pintura figurativa naif - os críticos que descreveram o seu trabalho como 'kitsch barroco provinciano' ou as suas personagens como 'fetos concebidos por Mussolini e uma camponesa singela' devem ter comido o seu chapéu como o Patacôncio, quando a sua cotação subiu.

Botero não teve educação artística formal, mas aprendeu com os mestres, durante o périplo por Madrid, Paris e Florença, onde conheceu o ídolo Velasquez ou Piero della Francesca (onde foi buscar as figuras calmas e enigmáticas, o 'movimento estático', a luz sem sombras e a disposição dos volumes) ou as estadas no México do modernista Diego Rivera (com as composições grandiosas e figuras estereotipadas que enchem a tela) e em Nova Iorque, onde se cruzou com os abstraccionistas americanos - que lhe 'autorizaram' a liberdade das (des)proporções e pintar, por exemplo, um bebé colossal ao colo duma ama minúscula. Mistura-se esse potpourri com a pintura barroca colonial, inocente e imperfeita, e já está.   
Bem, quase, ainda falta depurar um estilo próprio, o que demorou alguns anos: depois dum início algo errático e com telas irreconhecíveis, só na primeira metade dos anos 60 é que Botero encontrou a sua marca, as figuras XXL desproporcionadas (corpos dilatados, com feições e seios liliputianos) e as formas sólidas e telúricas, em telas gigantescas - Botero é o bucha do estica Giacometti. Botero nega pintar pessoas gordas, e na verdade as pessoas não aparecem mais gordas que o resto, tudo é volumoso, tudo é exagerado.    
Outros traços, a ausência de sombras para não contaminar as cores, que valem por si, os corpos opulentos e sumptuosos, mas sem erotismo, as imagens domingueiras com gente aprumadinha, que 'olha o passarinho', o semblante sério - a dor ou a alegria estão tão ausentes que, comparando, o sorriso de Gioconda é uma gargalhada. 
Os seus motivos são tipicamente latino-americanos, como a igreja, a família, a tourada (aos 12 anos, frequentou uma escola de tauromaquia). Não se espere dele qualquer crítica assertiva, mesmo os ditadores são tratados com uma ironia amigável - Botero diz que põe pinceladas de amor nos quadros. Com uma ou outra excepção, como a sua série sobre a cadeia de Abu-ghraib, assunto sobre o qual o pintor se sentiu impedido de ficar calado.   
Botero afirmou-se 'o mais colombiano dos artistas colombianos' e até percebe-se porquê, mas é um título arrojado para quem emigrou em 1960 e, desde 1967, deixou de ter lá a sua primeira residência.

E depois há o Botero escultor, que justifica um reconhecimento (mais) generalizado. Não é qualquer um que exibe as suas brilhantes estátuas de bronze na florentina Piazza della Signoria, nos Champs Élisées, na 5ª Avenida... ou na Praça do Comércio, durante a expo 98. Botero apenas lhes reconhece o valor estético: 'As minhas esculturas não transportam qualquer mensagem especial (e) não têm qualquer significado simbólico. Só me interessa a forma - superfícies suaves e redondas, que dão ênfase à sensualidade do meu trabalho'. Se Magritte afirmou que um cachimbo não era um cachimbo, Botero diz que o seu gato é apenas um gato.    
Com mais de 3000 pinturas e de 200 esculturas, difícil é escolher uma pequena mostra do prolífico Fernando Botero. A minha escolha é...

Ecce Homo. 1967
 El Capitán/The Captain. 1969
 Retrato Oficial de la Junta Militar/Official Portrait of the Military Junta. 1971

Delphine. 1972

 Los Amantes/The Lovers. 1973

Woman stapling her bra.1976
Gato en el Tejado/Cat on a Roof. 1978

El Ladrón/The Thief. 1980

Guitarra y Silla/Guitar and Chair. 1983

The Matador. 1985

Caballo del Picador/Horse. 1986

Picador. 1986

La Cornada. 1988

 Pareja Bailando/Dancers. 1987 

 El Baño/The Bath. 1989 

Visita de Luis XVI e Maria Antonieta a Medellin/
Louis XVI and Marie Antoinette on a visit to Medellin. 1990

Bananas Bananos/Still Life with bananas. 1990

Caballo del Picador/Horse. 1992

La Loca. 1996

Pera/Pear. 1997

Rapto de Europa/Kidnapping of Europe. 1995

Rapto de Europa/Kidnapping of Europe. 1998

Hombre en Caballo/Man on Horse. 1998

Caballo/Horse. 1998

La muerte de Pablo escobar/Death of Pablo Escobar. 1999

Perro/Dog. 2002 (pastel)

El Seminario/The Seminary. 2004

Abu Ghraib 52. 2005

Via Crucis: la pasión de Cristo (Judas Kiss). 2010-11

Via Crucis... (The Disrobing of Christ). 2010-11

Via Crucis... (The Path of Lamentation). 2010-11
Via Crucis... 2010-11


Leda e o Cisne. Praça do Comércio 1998 

Male Torso (1992). Colecção Berardo, Sintra

Caballo (1992). Aeroporto El Prat, Barcelona

Gato. Barcelona

Mano. Madrid

Pareja Bailando

Rapto de Europa. Medellin


Mais em
http://www.snpcultura.org/paixao_Cristo_segundo_botero.html
http://www.wikipaintings.org/en/fernando-botero
http://www.googleartproject.com/collection/museo-botero-bogota/

BOTERO E AS VERSÕES XXL

Ao longo dos anos, Fernando Botero foi reinventando quadros conhecidos de pintores famosos, uma espécie de elogio. Mas, mais que a sua vénia, Botero criou estas 'paráfrases' pictóricas para mostrar que o aspecto mais importante duma pintura não é o tema, mas o estilo.
 
Papa Leão X (segundo Raphael). 1964
 
Papa Leão X (com cardeais Giulio de Medici e Luigi de Rossi)
Raphael 1518-19. Galerias Uffizi, Florença


Rubens e esposa. 1965

Auto-retrato com a mulher Isabella
Peter-Paul Rubens 1609. Colecção particular


Girassóis. 1967

Girassóis
Vincent Van Gogh 1888. National Gallery, Londres


Alof de Vignancourt (segundo Caravaggio). 1974
 
Alof de Vignancourt e pagem
Caravaggio 1608. Louvre
 

O Casamento de Arnolfini (segundo Van Eyck). 1978
 
Giovanni Arnolfini e sua mulher
Jan van Eyck 1434. National Gallery, Londres
 

Monalisa (segundo Leonardo). 1978

Gioconda
Leonardo da Vinci 1503-6. Louvre


A Infanta (segundo Velazquez). 1988

Infanta Margarida da Áustria
Velasquez 1659-60. Prado


segundo Velasquez. 2005
 
Infanta Margarida
Velasquez 1659
 
 

As meninas (detalhe, infanta Margarida)
Velazquez 1656-57. Prado
 

Federico da Montefeltro (segundo Piero della Francesca). 1998

Battista Sforza (segundo Piero della Francesca). 1998
 
Duques de Urbino
Piero della Francesca 1465-72. Galerias Ufizzi gallery, Florença
 
 
Mademoiselle Rivière (segundo Ingres). 2001

Mademoiselle Caroline Rivière
Dominique Ingres 1806. Louvre
 

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

OS POBREZINHOS

   
    "Na minha família os animais domésticos não eram cães nem gatos nem pássaros. Na minha família os animais domésticos eram os pobres. Cada uma das minhas tias tinha o seu pobre pessoal e intransmissível, que vinha a casa dos meus avós uma vez por semana, buscar com um sorriso agradecido a ração de roupa e comida.
    Os pobres, para além de serem obviamente pobres
    (de preferência descalços para poderem ser calçados pelos donos, de preferência rotos para poderem vestir camisas velhas que se salvavam desse modo de um destino natural de esfregões, de preferência doentes a fim de receberem uma embalagem de aspirina),
    deviam possuir outras características imprescindíveis: irem à missa, baptizarem os filhos, não andarem bêbedos e sobretudo manterem-se orgulhosamente fiéis à tia a quem pertenciam. Parece que ainda estou a ver um homem de sumptuosos farrapos, parecido com o Tolstoi até na barba, responder ofendido e soberbo a uma prima distraída que insistia em oferecer-lhe uma camisola que nenhum de nós queria
    - Eu não sou o seu pobre eu sou o pobre da menina Teresinha.
    O plural de pobre não era pobres. O plural de pobre era esta gente. No Natal e na Páscoa as tias reuniam-se em bando armadas de fatias de bolo-rei, saquinhos de amêndoas e outras delícias equivalentes e deslocavam-se piedosamente ao sítio em que os seus animais domésticos habitavam, isto é um bairro de casas de madeira da periferia de Benfica, nas Pedralvas e junto à estrada militar, a fim de distribuírem numa pompa de reis magos peúgas de lã, cuecas, sandálias que não serviam a ninguém, pagelas de Nossa Senhora de Fátima e outras maravilhas de igual calibre. Os pobres surgiam das suas barracas alvoraçados e gratos e as minhas tias preveniam-me logo enxotando-os com as costas da mão
    - Não se chegue muito que esta gente tem piolhos.
    Nessas alturas, e só nessas alturas, era permitido oferecer moedas aos pobres, presente sempre perigoso por correr o risco de ser gasto
    (- Esta gente, coitada, não tem noção do dinheiro)
    de forma de deletéria e irresponsável. O pobre da minha tia Carlota, por exemplo, foi proibido de entrar na casa dos meus avós porque quando ela lhe meteu dez tostões na palma, recomendando, maternal, preocupada com a saúde do seu animal doméstico
    - Agora veja lá não gaste tudo em vinho
    o atrevido lhe respondeu, malcriadíssimo
    - Não minha senhora vou comprar um Alfa-Romeo
    Os filhos dos pobres definiam-se por não irem à escola, serem magrinhos e morrerem muito. Ao perguntar as razões destas características insólitas foi-me dito com um encolher de ombros
    - O que é que o menino quer esta gente é assim
    e eu entendi que ser pobre, mais do que um destino, era uma espécie de vocação como ter jeito para jogar bridge ou para tocar piano.
    Ao amor dos pobres presidiam duas criaturas do oratório da minha avó, uma em barro e outra em fotografia, que eram o Padre Cruz e a Sãozinha, as quais dirigiam a caridade sob um crucifixo de mogno. O padre Cruz era um sujeito chupado, de batina, e a Sãozinha uma jovem cheia de medalhas com um sorriso alcoviteiro de actriz de cinema das pastilhas elásticas, que me informaram ter oferecido exemplarmente a vida a Deus em troca da saúde dos pais. A actriz bateu a bota, o pai ficou óptimo e, a partir da altura em que revelaram este milagre tremia de pânico que a minha mãe, espirrando, me ordenasse
    - Ora ofereça lá a vida que estou farta de me assoar
    e eu fosse direitinho para o cemitério a fim de ela não ter de beber chás de limão.
    Na minha ideia o padre Cruz e a Sãozinha eram casados tanto mais que num boletim que a minha família assinava, chamado Almanaque da Sãozinha, se narravam,em comunhão de bens os milagres de ambos, que consistiam geralmente em curas de paralíticos e vigésimos premiados, milagres inacreditavelmente acompanhados de odores dulcíssimos de incenso.
    Tanto pobre, tanta Sãozinha e tanto cheiro irritavam-me. E creio que foi por essa época que principiei a olhar com afecto crescente uma gravura poeirenta atirada para o sótão que mostrava uma jubilosa multidão de pobres em torno da guilhotina onde cortavam a cabeça aos reis."
António Lobo Antunes, Livro de Crónicas
 

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

UE FORA DE PRAZO

Ich bin ein athenischer

'Grécia permite venda de alimentos fora do prazo de validade mais baratos', titula o Jornal i de ontem.
Ao que isto chegou, numa Europa que proíbe colheres de pau.
Ao que os gregos chegaram... que triste sina ver-te assim, que sorte vil degradante... cantaria o Vasco.
Caso os outros países-membros da União europeia, repito União, aceitem isto impávidos, podem tocar os sinos: é oficial, a União morreu, R.I.P.
Na melhor das hipóteses, a Europa esfarelou, não passando dum alvo e frágil castelo com as claras a deslaçar.

E nós? Pelo caminho que isto leva, a expressão 'eu sou um eteniense' deixa de ser uma metáfora solidária. O que parece é que vai TODO o país num autocarro desgovernado pela ribanceira abaixo - lá em baixo, o Egeu! -, agarrado ao banco e a protestar (incluindo ministros), e os motoristas Passos/Gaspar aceleram, dizendo 'estejam quietos, o caminho é estreito'.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

LOGO, ESPIRAL RECESSIVA

Mais 4.322.000.000€ em impostos (irs 2810MM, irc 225MM, CGA 143MM,...) e menos 1.400.000.000€ em prestações sociais (salários 726MM, pensões 421MM,...). Insistem...
Lagarde diz que FMI se enganou (ups!) e que as coisas afinal estão a correr pior do que pensavam*, Pilatos Durão diz que a troika não tem nada a ver com as medidas de Passos. Mas insistem...
É difícil explicar ao meu gaiato de 8 anos o que o Gaspar está a fazer, ele perguntou-me se não é suposto o senhor perceber de economia: está na cara (como uma bofetada) o que é que está a acontecer. E está tão na cara, que nem dentro do governo estão convencidos, partiram pedra em reuniões de 20 horas.
Pois imaginem o reclame daquela seguradora, a do LOGO:
* por cada 1€ retirado pelo Estado (via receita ou despesa), o efeito
recessivo é de 0.9 a 1.7€ e não o (sub)estimado 0.5, porque o crescimento
é frouxo, os juros já não podem descer muito mais e os países estão
a ajustar ao mesmo tempo. (FMI) E não há moeda própria, já agora.

Enfim, em medicina chama-se a isto sobredose. A receita não está a funcionar mas, teimosos, insistem. Não é surpresa nenhuma, Ramalho Ortigão já o explicou n' As Farpas, em 1882.

p.s.: liberal, um governo que o que está a fazer é nacionalizar bancos (em necessidade), arrendar a casa aos donos (o IMI vai crescer 8 vezes desde 2003, é uma renda) e colectivizar a economia, apropriando-se vorazmente do dinheiro que circula. Mais Estado, pior Estado?

domingo, 14 de outubro de 2012

ÓDIO AOS COLONOS?




       PROVÍNCIA DO UÍGE, AOS 5 DE JULHO DE 1976

         Exmª Prezada Senhora:
        Saudações e votos que desejo a minha Senhora.
Esta carta quer que vá te encontrar de uma ampla saúde
juntamente a família de casa.
        Eu cá seu cozinheiro de nome Augusto Sertão
estou de saúde graças a Deus. Sobre a sua carta que me
envias-te recebí amávelmente a qual respondo-a, e re-
cebí a quantia de escudos que me envias-te a quantia de
150$00 (cento e cinquenta escudos) e a qual fiquei mui-
to grato.
        Enviu muitos cumprimentos a família de casa o
seu marido as crianças e os outros que te rodeiam em
comum.
        Termino aqui eu seu cozinheiro não tenho muito
que rogar somente saudações.

                 Subscreve o íntimo cozinheiro
             Augusto Sertão

                 2 abraços fortes que o enviu.
              
               Daqui é tudo     ( Chau chau chau )

.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

A CURVA DE LAFFER POR VICTOR GASPAR

A Curva de Laffer é tão simples que Arthur Laffer a explicou no guardanapo dum restaurante, em 1974: com a subida dos impostos vai aumentando a receita, até um momento de equilíbrio ou saturação (variável com o país), e a partir a receita vai descendo, à conta da evasão fiscal ou porque não há estímulo a sobre-esforço.


O ministro das finanças, Victor Gaspar, ficou surpreso com a evolução da receita entre Janeiro e Julho de 2012: o IVA não subiu 10% como previsto no orçamento rectificativo (feito há meses), caiu 1.1%; o total dos impostos não subiu 2.8%, desceu 3.5%; o imposto sobre o tabaco não subiu 10%, desceu 12.7%.
Não satisfeito, subiu a parada e tirou do seu excel o maior aumento de impostos que há memória, a ver se é desta que a receita cresce.
Está explicado: o monetarista teórico, fanático por equações e modelos econométricos, faltou a essa aula ou tem o PC marado – eis a sua Curva de Laffer:

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

DOBRE A FINADOS?


Factos deste 5 de Outubro:
1. A bandeira foi hasteada 'de pernas para o ar', como o país - alguém brincalhão ou sinal do Olimpo? No código militar, a bandeira ao contrário indicava um território tomado pelo inimigo e um de pedido de socorro...
2. A vê-la subir estavam os presidentes da República, do parlamento e da câmara da capital. Talvez pela primeira vez, o primeiro-ministro não apareceu, fazia falta em Bratislava.
3. Também pela primeira vez em democracia, os discursos não foram públicos, mas reservados a convidados (no Pátio da Galé) - havia atiradores na cobertura dos edifícios e a polícia impediu as gentes de chegarem à praça do município.
4. Desde que lá chegou, Cavaco abria os jardins de Belém e recebia os indígenas neste feriado. Hoje não, por motivos económicos.
5. Foi a última vez que o dia da implantação da República é feriado.

Duarte de Bragança fala hoje ao país e é apresentado um manifesto da Causa Real. Os monárquicos acham que 'o país está à beira de um abismo' e que só 'a instituição real permite devolver o futuro aos portugueses'. Pois... é tudo uma questão de fé, como a crença do governo em que o bombardeamento fiscal dará frutos.

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

UM BURACO COLOSSAL


ISTO JÁ NÃO É UM PAÍS, É UM POÇO DA MORTE:
A FAMEL DIA PARA DIA A CARBURAR PIOR,
E O 'ARTISTA' (QUE APRENDEU MECÂNICA NOS MANUAIS)
A AFOGAR O INSACIÁVEL MOTOR EM GASOLINA,
QUE NÓS VAMOS PAGANDO.
E SEM PERCEBER QUE A MOTA VAI GRIPAR.

Hoje o ministro das Finanças Victor Gaspar defendeu no parlamento o enorme aumento fiscal (palavras suas) de ontem, uma espécie de PEC DLXIII, e teve a lata de dizer que '[com a gigantesca manifestação de 15/9] o povo português revelou-se o melhor do mundo e o melhor activo de Portugal'.
Fulano bem humorado (acreditemos não ser apenas magistralmente cínico), parece aqueles maridos que sovam as mais-que-tudo e depois lhes dizem 'tu és a melhor mulher do mundo'. Que estóicos que nós somos, hã?

O pior é que esta gente acredita mesmo que está a purificar a nação, como numa queimada ou numa sangria medicinal, de onde sairá milagrosamente um país novo, e acha que merecemos ser castigados pelo que 'esbanjámos'. O meu problema é que não acredito na providência, nem em pessoas providenciais - e o último que andou aí caiu de podre (da cadeira, a bem dizer, e sem nenhum empurrão).
Bem, acho que, à velocidade a que isto anda, não tarda o Passos Coelho tem o mesmo caminho, é despedido sumariamente por quebra de contrato e incumprimento de objectivos (do défice) - ele, que gosta tanto de gestão empresarial do povo, devia saber que é isso que acontece nas empresas.


segunda-feira, 1 de outubro de 2012

CORRECTO OU CONVENIENTE?



  Por vezes, existe uma linha que separa 
  o que está certo do que é melhor para nós.
  A escolha correcta pode ser uma má escolha, pois
 A CONSCIÊNCIA NÃO TEM
 INSTINTO DE SOBREVIVÊNCIA.
.

QUEBRA DE CONTRATO

 
 
 

O partido em que votei foi prudente na campanha eleitoral e ousou poucas promessas - proclamou desafios.
Mesmo com essa frugalidade, o partido em que eu votei:
1. Queria uma administração pública motivada e era a favor do mérito - disseram que a porta estava aberta a quem não estivesse bem, elegeram-na como a vanguarda da penalização salarial e agora são eliminadas normas sobre distinção por mérito na FP.
2. Afirmava-se o partido dos contribuintes, crítico da asfixia fiscal de Sócrates, esse xerife de Nottingham - e a emboscada fiscal nunca foi tão galopante.
3. Era a favor do 'visto familiar' em cada proposta legislativa - critério desaparecido em combate no último ano.
4. Estava contra a mudança da TSU - e só decidiu ser desleal com o seu parceiro, publicitando a sua discordância, depois da maior manifestação das últimas décadas.
5. Tinha reservas quanto à privatização das 2 RTP, da REN, da CGD e das águas - a REN já foi, as outras parecem ir a caminho.
6. Era a favor duma autoridade da concorrência que desmantelasse a cartelização do preço dos combustíveis - e os preçários nas auto-estradas continuam a parecer decalques.
7. Considerava a cultura uma prioridade, motor de crescimento e sector gerador de emprego ('sem cultura, o país é uma mero somatório de pessoas e terras' escrevia-se em 2009) - ...
8. Criticava a partidocracia na escolha de dirigentes 'cuja relação com o mérito ou a qualificação é absolutamente remota' - ãhã!
9. Tinha por suficiente 90 dias para cada ministério inventariar institutos, fundações e empresas públicas a extinguir - ao fim de ano e meio, pouco há a mostrar.
10. Era contra a reforma das urgências hospitalares sem oferta de alternativas - e é tirado o helicóptero de Macedo, lá colocado como compensação pelo fim das urgências.
11. Dava a prioridade ao crescimento económico, e 'tal objectivo implicará que a política de finanças públicas não seja um fim em si mesmo, mas um instrumento decisivo ao serviço de uma melhor e mais sustentada economia nacional'.
12. Propunha a agregação de concelhos na mesma câmara municipal - calendas gregas, pois não há córagem, como diz o Jardim, se metem contra os presidentes locais.
12. Achava ser 'preciso ter o elevador social a funcionar' - e o que há para os jovens licenciados são aviões low cost para emigrar.
É sempre mais complicado defender um partido quando ele chega ao poder e tem que pôr a mão na massa. E é óbvio que o partido minoritário não lidera o governo, mas, simplesmente, não se dá pelo seu 'caderno de encargos'.
Não peço contas ao PSD - não votei nele e não fui (des)iludido, mas prometeu o contrário aos seus eleitores (bem, não abandonou as ideias de alterar a constituição, estão a fazer o mesmo por decreto - epá, não é isto uma ditadura?, hum). Mas peço ao CDS, que é suposto ser diferente: se eu quisesse um governo laranja, não precisava votar ao lado.

Há uma linha que separa não cumprir as promessas e fazer o seu oposto.
Em tempos normais, dá-se um desconto a promessas eleitorais. Mas estes são tempos pouco normais, e estamos mais atentos à accountability.

Pela boca morre o peixe:
'As políticas focalizadas, unicamente, no equilíbrio da situação orçamental Portuguesa têm vindo a registar, repetidamente, os mesmos resultados: acréscimo da carga fiscal, rigidez ou aumento da despesa pública, aumento da dívida pública, descontrole do défice público, agravamento dos efeitos dos ciclos económicos e crescimento económico abaixo dos nossos parceiros.
Uma política orçamental que tem como primeiro objectivo o crescimento económico não implica que o CDS abandone a sua preocupação, de sempre, com a disciplina das Finanças Publicas. A saúde orçamental é uma base fundamental para assegurar um desenvolvimento equilibrado e geracionalmente justo. Dar prioridade ao crescimento sobre o défice não é um dilema. É uma ordenação de prioridades. Aliás, só o crescimento gerará receita, e a receita é essencial para a redução progressiva do nosso desequilíbrio orçamental.' 
Programa eleitoral 2009 

'O CDS, que tem uma forte tradição de defesa do contribuinte e de moderação fiscal, que não abandona, sabe que neste momento excepcional que Portugal está a viver, defender o contribuinte também é saber defender que não sejam sempre os mesmos – os que não podem fugir aos impostos – a pagar a factura; e que há formas de aumentar a receita que tornam evitáveis aumentos da carga fiscal.' 
Manifesto eleitoral 2011 

sábado, 29 de setembro de 2012

O PARTIDO DO CHÁ DE CAMOMILA

Primeiro foi o Tea Party, movimento ultra-conservador que tenta puxar os republicanos para a direita.
Em 2010 surgiu uma alternativa, o Coffee Party, não-partidário, situado no centro(-esquerda), e que pugna pela discussão não inflamada das ideias e pelo desbloqueio do impasse governativo (quando o presidente tem cor diferente das maiorias do senado e do congresso).

Nesse mesmo ano apareceu outro movimento, o Chamomile Tea Party, contra as posições extremistas - quer-se radicalmente ao centro -, os políticos franco-atiradores e o finca-pé de republicanos e democratas no congresso, que paralisa o processo legislativo. Em alternativa, propõem que uma democracia participativa (não quer dizer referendária) e a colaboração entre os 2 partidos - e citam Joseph Joubert, 'O objectivo da discussão não é a vitória, mas o progresso'.
Porquê partido do chá de camomila? Porque querem trazer calma ao discurso político.
A curiosidade deste movimento são os cartazes, vários deles inspirados na propaganda da 2ª guerra mundial, da autoria do designer gráfico Jeff Gates. Alguns são bem pertinentes em Portugal2012, imagine-se.











sexta-feira, 28 de setembro de 2012

MAI' NADA!

Quanto aos sacrifícios que são pedidos, devem obedecer a três critérios: prova da sua imprescindibilidade, prova da justiça da sua repartição - tributar quem mais tem e tipos de rendimentos que tenham sido mais folgados em relação a outros que já estão bastante esmagados -, e, por último, prova da sua transitoriedade.
José Ribeiro e Castro, deputado e anterior presidente do CDS, 25-09-2012

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

FILHOS E ENTEADOS


Disse o Secretário de Estado Rosalino sobre o 'corte impiedoso' nas chamadas gorduras 'Foi a [redução] que foi possível fazer dentro do equilíbrio que se queria conseguir entre reduzir a despesa mas não criar problemas que viessem a inviabilizar o funcionamento de algumas fundações relevantes'.

Sobre as PPP, já se sabe que não se podem rasgar contratos, não é legal.
Mas já podem criar-se problemas que inviabilizem o funcionamento das famílias e rasgar-se contratos sociais e laborais com as pessoas (essas, presumo que irrelevantes, e que afinal eram as gorduras do Estado), uns empecilhos à genial obra de regeneração do país.

Não houvesse meninos saídos da faculdade como assessores a ganhar 5000€ (mais 2 subsídios 'suplementares'), dessem verdadeiras machadadas na EDP e nas PPP, o corte nas fundações não fosse pífio (mantendo a fundação do Magalhães), não excluíssem os professores universitários do congelamento de progressões na FP, ou o pessoal da TAP, CGD ou Banco de Portugal da redução de salários, fossem buscar o dinheiro que evaporou no BPN, ousassem reduzir uma câmara como assinaram com a troika, em suma, dessem o exemplo e calhasse a todos, e então apertávamos o cinto com menos ira.
E, já agora, se tivesse descido o défice, era sinal que o aperto serviu para alguma coisa.
Que mais terá que acontecer para lá chegarmos?

p.s.: a propósito de justiça fiscal, em 2010 só pagaram IRS/IRC 43% das famílias e 29% das empresas, em 2011 estava estimada em 40.000 milhões de euros a economia paralela.

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

EXEMPLAR




Nada é tão contagioso como o exemplo.
François La Rochefoucauld

O exemplo convence-nos mais do que as palavras.
Séneca

Um nobre exemplo torna fáceis as acções difíceis.
Johann Goethe

Dar o exemplo não é a melhor maneira de influenciar os outros - é a única.
Albert Schweitzer