...e depois, com bigodes de leite, pedem mais paciência e esforço ao povo, que a "vaca 'tá seca".

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

AI SALOMÉ, FAZES-ME PERDER A CABEÇA

Como sempre, no dia 1 o meu 'mai novo montou o presépio com os seus bonecos da Playmobil.
Este ano, resolvi introduzir uns extras, acrescentei um rei e uma rainha, Herodes o Grande e a sua neta/bisneta Salomé - afinal, a História é feita dos bons e dos maus.

A estória da Salomé conta-se numa penada: Herodias ou Herodíades - irmã de Herodes Agripa (rei da Judeia), filha de Aristóbulo, neta e nora de Herodes o Grande - trocou o tio/marido Herodes Filipe (entretanto enclausurado, não fosse reclamar) pelo tio/cunhado Herodes Antipas, rei da Galileia e da Pereia. Quem não gostou muito foi João o Baptista, que nas margens do Jordão pregava contra a adúltera e incestuosa.
Antipas mandou-o prender por isso (ou com medo que a sua popularidade espoletasse uma rebelião), mas, temente a Deus e ao prestígio daquele que anunciava a vinda do Messias, mais não fez.
No aniversário de Herodes, Herodias convenceu a sedutora filha Salomé a dançar no banquete para o padrasto. Voluptuosa, com o seu cabelo de fogo e vestes transparentes, a 'Lolita' enfeitiçou o enebriado rei: 'Dança para mim outra vez! Se o fizeres, pede-me o que quiseres que te darei, nem que seja metade dos meus reinos.', rogou.
'Quero que me dês agora mesmo a cabeça de João Baptista numa bandeja', foi a resposta da jovem, depois de consultar a mãe. Contrariado e triste, o rei assim acedeu, e Salomé entregou a cabeça de João à vingativa Herodias (Marcos 6:17-28, Mateus 14:1-11).

A religião como tema e a igreja como patrono, são responsáveis pelo maior quinhão da história da arte. A estória da Salomé, tão recheada de ingredientes - amor e ódio, fé e moral, medo e tristeza, luxúria, morte e vingança -, justificou a atenção de inúmeros artistas*, ao longo dos séculos, desde Lippi a Davis, passando por Veronese, da Vinci, Rembrandt, Moreau (que fez mais de 100 versões da petiza), Picasso e Dali.
É interessante ver como a lasciva Salomé foi 'vista' por eles: com um ar casto e ingénuo (mesmo doce, como a de Marinari) ou sedutor, roliça ou esguia, com túnicas translúcidas ou pesados vestidos barrocos, com ar de cortesã aristocrata ou ar de fadista de má vida.
É clicar nas imagens, para aumentar.
Prazer inesperado, 'juntar' esta colecção deu-me a conhecer a obra, literalmente fantástica, de Gustave Mossa (http://french-painters.blogspot.com/2011/07/gustave-adolphe-mossa.html).

* Existem outras obras com uma mulher e uma cabeça, que induzem em erro: não são dedicadas a Salomé, mas a uma personagem do Antigo testamento (Deuteronómio), Judite da Betúlia, uma piedosa viúva que, para salvar o seu povo, dirigiu-se ao acampamento sitiante, seduziu e degolou Holofernes, o embriagado general de Nabucodonosor.

 Fra Fillippo Lippi 1460-4 (Cappella maggiore, Duomo, Prato) 
Sandro Botticelli 1488, (Galleria degli Uffizzi, Florença) 
 Juan de Flandes 1496, A Vingança de Herodias (Museum Mayer van der Bergh, Antuérpia)
Domenico Ghirlandaio 1486-90, Banquete de Herodes (Capella Tornabuoni, Santa Maria Novella, Florença) 
Andrea Solari 1506-7, Salomé com a Cabeça de S. João Baptista (The Metropolitan Museum of Art, NY) 
 Andrea Solari, Salomé com a Cabeça de SJB (Kunsthistorisches Museum, Viena)
 Giovanni Pedrini Gianpietrino 1510s
Sebastiano del Piombo 1510, Salomé com a cabeca de SJB (The National Gallery, Londres) 
 Cesare da Sesto 1510-20 (The National Gallery, Londres)
Ticiano 1515 (colecção privada) 
Ticiano 1512 ou 1515 (Galleria Doria Pamphili, Roma) 
Ticiano 1550 ou 1560 (Museo del Prado, Madrid) 
 Bernardino Luini 1525-30, Salomé com a Cabeça de SJB (Kunsthistorisches Museum, Viena)
 Bernardino Luini s.d., Salomé com a Cabeça de SJB (Museum of Fine Arts, Boston)
  Bernardino Luini 1527, Salomé recebendo a Cabeca de SJB (Louvre, Paris)
 Jacob Cornelisz van Oostsanen 1524 (Rijskmuseum, Amesterdão) 
Lucas Cranach o velho 1509-10, Salomé com a Cabeça de SJB (MNAA, Lisboa) 
 Lucas Cranach 1500s (Göteborgs Konstmuseum, Gotemburgo) 
Lucas Cranach o velho 1530 (Museum of Fine Arts, Budapeste) 
 Lucas Cranach o velho, Salomé com a Cabeca de SJB (Bob Jones university collection, Greenville)
 Lucas Cranach o novo 1537, Salomé com a Cabeça de SJB 
Escola Gregório Lopes séc. XVI (igreja S. João Baptista, Tomar) 
 Joseph Heintz o novo 1600-5 (Louvre, Paris)
 Michelangelo da Caravaggio 1609, Salomé com a Cabeça de SJB (Palazzo real, Madrid)
Michelangelo Caravaggio 1607 ou 1610 (The National Gallery, Londres) 
Artemisia Gentileschi 1600s, Salomé com a Cabeça de SJB 
 Christofano Allori 1613, Salomé com a Cabeça de SJB
Peter Paul Rubens, 1635-38, A Festa de Herodes (The National Gallery of Scotland, Edimburgo) 
 Leonaert Bramer 1630s, Salomé presenteada com a Cabeca de SJB (Musée des Beaux-Arts, Nimes) 
Guido Reni 1639-40, Salomé com a Cabeca de SJB (Art Institute of Chicago) 
Carel Fabritius 1640 (Rijskmuseum, Amesterdão) 
Francisco Maffei séc. XVII, Judite-Salomé 
Mattia Preti, Salomé com a Cabeça de SJB (Ringling Museum of Art, Sarasota Flórida) 
Carlo Dolci 1665-70, Salomé com a Cabeça de SJB (Colecção real, Windsor) 
 Onorio Marinari 1670, Salomé com a Cabeca de SJB (Szépmûvészeti Múzeum, Budapeste)
Onorio Marinari 1680, Salomé com a Cabeça de SJB (Minneapolis) 
Pierre Bonnaud 1865 
 Henry Regnault 1870 (The Metropolitan Museum of Art, NY)
 Gustave Moreau 1876, A Dança de Salomé
 Gustave Moreau 1876, A Aparição
 Gustave Moreau 1886, A Dança de Salomé
 Gustave Moreau 1885-90, Salomé com a Coluna
  Edouard Toudouze 1886, Salomé triunfante
Henri Martin 1886, Salomé (Sarah Bernhardt como modelo) 
Ella Ferris Pell 1890 
 Lovis Corinth 1896 ou 1900 
 Lucien Lévy 1896
Alphonse Maria Mucha 1897 
 Juana Romani 1898
 Edward Munch 1903
Pablo Picasso 1905, Salomé state III (MoMA ou The Israel Museum)
 Franz von Stuck 1906
 Vardges Surenyants 1907
Gustave Adolphe Mossa 1908
Gustav Klimt 1907-09, Judite II (Salomé)
Henri Robert 1909 (Ringling Museum of Art, Sarasota Florida)
Salvador Dali 1937, Rainha Salomé
 Ivan Koulakov 1999, Salome i love you and i want your head
David Harris

terça-feira, 29 de novembro de 2011

O CONDE DE ABRANHOS


O Conde d' Abranhos é aquele livro de Eça conhecido pela expressão "Este governo não há-de cair - porque não é um edifício. Tem de sair com benzina, - porque é uma nódoa!".
O livro (que já aqui apareceu, à conta do conselheiro Gama Torres) é um ensaio de ironia sobre a política, na forma duma biográfica elegia do secretário do Abranhos, 'no desejo de glorificar a memória deste varão eminente, Orador, Publicista, Estadista, Legislador e Filósofo'.

Alípio Abranhos é aquele que bajulou os professores e depois o padre para conquistar a futura sogra, é aquele que saltou para a bancada da oposição quando previu que o governo estava por meses (o que Winston Churchill fez uns anos depois!), é aquele que um dia exclamou na Câmara dos Deputados 'Não podemos dar ao operário o pão na terra, mas, obrigando-o a cultivar a fé, preparamos-lhe no Céu banquetes de Luz e de Bem-aventurança'.

O deputado Abranhos é aquele cujas ideias tão perfeitas, como o encarceramento dos pobres ('tendo a certeza de que os seus pobres lá estão, bem aferrolhados, com uma razoável enxerga e um caldo diário'), não passaram nas Câmaras por motivos mesquinhos.

O filósofo Abranhos é aquele que via o povo 'como um desses monstruosos elefantes da Índia de que tenho ouvido contar: de uma pujança indomável e de uma simplicidade risível, o mundo inteiro, pela violência, não o pode obrigar a caminhar contra sua vontade, e uma criança, pela astúcia, obriga-o a cabriolas grotescas (...) Para que se há-de combater um monstro invencível, quando é simples iludí-lo?'

O Conde d'Abranhos é aquele exemplo de modéstia, quanto à elevação dos seus poemas: '- Enfim, são rapaziadas. Todos nós, mais ou menos, em rapazes, fomos poetas e republicanos... Antes isso que andar a beberricar genebra nos botequins e frequentar meretrizes... Mas, quando se entra na verdadeira vida política, é necessário por de lado esses sentimentos ternos...'

O Ministro Abranhos é o Estadista não reconhecido pela pequenez nacional:
'Disse-se, por exemplo, que só depois de dezoito meses de ministro [da Marinha e Ultramar] é que soube, por acaso, onde ficava Timor! (...) - o que prova isso, senão que a sua vasta inteligência, toda voltada para os altos problemas políticos, não dava valor a essas pequenas ciências de exactidão local?'
E a quem o corrigiu na Câmara, gritando que Moçambique não ficava na costa ocidental de África, respondeu:
'- Que fique na costa ocidental ou na costa oriental, nada tira a que seja a doutrina que estabeleço. Os regulamentos não mudam com as latitudes!'
Esta réplica vem mais uma vez provar que o Conde se ocupava sobretudo de ideias gerais, dignas do seu grande espírito, e não se demorava nesse verificação microscópica de detalhes práticos, que preocupam os espíritos subalternos.'

São pequenos teasers, mas dá ou não dá vontade de ler o resto?

domingo, 27 de novembro de 2011

POR TRÁS DUM GRANDE HOMEM...


Contado pela própria à Readers Digest:
Numa ocasião, Michelle e Barack Obama foram a um restaurante não muito luxuoso, porque queriam fazer algo diferente e sair da rotina.
Estando sentados à sua mesa no restaurante, o dono pediu aos guarda-costas para se aproximar e cumprimentar a primeira dama, e assim o fez.
Quando o dono do restaurante se afastou, Obama perguntou a Michelle: Qual é o interesse deste homem em cumprimentar-te?
Michele respondeu: Acontece que, na minha adolescência, este homem foi apaixonado por mim, durante muito tempo.
Obama disse então: Ah, quer dizer que se tivesses casado com ele, hoje serias dona deste restaurante?
Michelle respondeu: Não, meu querido, se eu me tivesse casado com ele, hoje ELE seria o Presidente dos Estados Unidos.
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EDUQUEM AS CRIANÇAS
E NÃO PRECISAM CASTIGAR OS HOMENS
Pitágoras

AUGUSTE RODIN, O IMITADOR DE SI PRÓPRIO

Sem pensar, imaginem uma ferramenta e uma cor.
Quase invariavelmente, a resposta é martelo e vermelho.
Se fizermos o mesmo jogo com a palavra 'escultura', o grande vencedor deve ser O Pensador de Rodin.

Mas Auguste Rodin (1840-1917) fez muito mais, quase 200 esculturas. Com percalços: foi 3 vezes recusada a sua entrada na Academia das Belas Artes, a primeira peça não foi aceite no Salão de Paris porque parecia inacabada (O homem do nariz quebrado), ou a rejeição do busto de Victor Hugo, porque tinha o torso nu, o que o obrigou a novas versões, entre 1886 e 1909.
O impressionista Rodin nunca perdeu o hábito de fazer réplicas ou versões da mesma obra (houve ainda cópias póstumas) e de dar-lhes o ar de inacabadas - como O Prisioneiro que Michelangelo nunca terminou, escultor de quem ficou fã na sua viagem a itália em 1875.
Por azar (ou destino), a sua obra maior ocupou-lhe parte dos últimos 37 anos de vida e ficou mesmo inacabada: a encomenda da entrada do Museu de Artes Decorativas, museu que nunca chegou a existir.
Com 6x4m2 e 180 figuras, As Portas do Inferno foram inspiradas na Porta do Paraíso do baptistério de Florença e tinham como tema inicial a Divina Comédia de Dante - mas, depois de conhecer em Londres as interpretações da obra do italiano por pré-rafaelitas e William Blake, Rodin virou a agulha e resolveu criar "um universo de formas atormentadas pelas paixões humanas e a morte".
Desta obra 'desovaram' várias peças que ganharam independência, como O Pensador (originalmente chamado de Poeta, era o próprio Dante sentado às portas do inferno), O Beijo ou O Filho Pródigo.

 O homem com o nariz quebrado (1864)
A idade do bronze (1876)
S. João Baptista pregando (1878)
foi o 'boost' da carreira de Rodin
 A jovem mãe (1885)
 Eva
 O homem que caminha
 Os burgueses de Calais (1884-86), homenagem aos cidadãos que, em 1347,
se ofereceram ao inglês Eduardo III, para este levantar o cerco da cidade 
 Danaide (1885)
 Iris, a mensageira dos Deuses
 Victor Hugo (1885)
 Busto de Victor Hugo
 Pensamento ou Ideia (Thought, 1886)
O beijo (1886). Louvre
O ídolo eterno (1889)
O filho pródigo (1889). Museu Rodin
 Balzac (1891-98). Paris
 As três sombras (1902-04)
 As portas do inferno (1880-1917)
 O pensador (1980). Museu Rodin

sábado, 26 de novembro de 2011

LUIS RAMÓN MARÍN

Luis Ramón Marín (1884-1944) foi um dos primeiros fotojornalistas espanhois e pioneiro em fotografia aérea, desde 1913.
Correspondente da família real, fotógrafo de celebridades e de anónimos (fantástica a foto do café atulhado de gente, à espera do resultado da lotaria, dado pelo telefone), acompanhou de perto a guerra civil do lado perdedor. E a sua carreira acabou.
Marín deixou 18.000 negativos organizados e com anotações. A mulher, Eduarda Plá, escondeu-os atrás duma parede da cozinha durante décadas e a filha Lucia legou-os à Fundação Pablo Iglesias (socialista fundador do PSOE e da UGT espanhola).
Das 49 fotografias da exposição "Marín. Fotografias 1908-1940", 3 foram tiradas em Portugal, após a implantação da República: o entulho no Palácio das Necessidades, bombardeado durante e revolução, um caseiro Teófilo Braga a tomar chá e Bernardino Machado com as 2 filhas.
A não perder, até 18 de Dezembro, no Centro Português de Fotografia, vulgo Cadeia da Relação do Porto.

 Palácio des Necessidades bombardeado na implantação da República. Lisboa 1910
 O Presidente Bernardino Machado e as suas filhas, 1917
 Corrida de Balões. Madrid 1913
 Rei Alfonso XIII em manobras militares. 1916
 Rei Alfonso junto da cavalariça. Madrid 1916
 Funeral de Pablo Iglesias. Madrid 1925
 Montagem da linha telefónica. Huesca 1928
 Josephine Baker. Madrid 1930
 Proclamação de 2ª República. Madrid 14-4-1931
 Proclamação da 2ª República. Madrid 14-4-1931
 Centro de recrutamento de voluntários. Madrid 1936
 Milícias comunistas. Madrid 1936
Evacuação de Teruel. 1937
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