...e depois, com bigodes de leite, pedem mais paciência e esforço ao povo, que a "vaca 'tá seca".

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

POSTAIS ANTIGOS (XXXII) - GUARDA

Praça Luiz de camões e Sé, 1913-8-2
 Chalet A B do sanatório Souza Martins
Chatets do sanatorio Souza Martins
 Largo Serpa Pinto em dia de neve, 1920-8-11
Filial do banco de Portugal, 1913-7-7

Guarda, 7-7º-913
Ex.ma Menina Annica:
Tenho descurado em responder às suas noticias, eu que nunca o devia fazer. Mas creio me perdoará. Vim passar um mêz à Guarda, estou no Hotel Central, pª onde espero, se dignará dar-me as suas ordens. Creia que com isso me dará immenso prazer. Sabe que isto foi uma cousa resolvida à hora; como meu cunhado vinha passar cá 3 mezes, lá em casa quizeram que eu viesse tomar estes ares. Está claro que elle está numa casa onde estão outros doentes, e eu no hotel, pois o medico não quiz que eu fosse para essas casas. Tem tocado mto? Eu trouxe algumas musicas mas ainda não tive occasião de tocar.
Hontem no animatographo, um infeliz pianista maltratou quantas musicas tocou. Calcule que nem mesmo a Casta Suzanna se podia ouvir. Verdade seja que a casa estava às escuras enquanto corriam as fitas...Por isso tem desculpa... Isto é mto mais bonito que Beja, apezar de dizerem que é feia, fria e farta; fria é feia não. Tem lindas casas e bons passeios.
Termino, pedindo os meus cumprimentos pª seus Ex.mos Papás e manas, beijos á Michaela. Para V. Ex.ª mtas lembranças e a eterna gratidão do José Rocha

Pelos postais, desde 1910 que José (1894-1962) conhecia e se correspondia com as irmãs Costa. E fazia uma discretíssima corte à mais velha, Ana (1895-1986). Os meus bisavós viriam a juntar-se, não sem antes ela casar e enviuvar, entre 1918 e 1920. As únicas provas da existência do 1º marido de quem ela nunca falava, um tal de Pestana, são um dicionário e uns postais dele para a pequena cunhada doente.  

POSTAIS ANTIGOS (XXXI) - ITÁLIA

 
 1911-5-23
1911-6-4
"ficava reconhecido se me pudesse enviar a colecção completa dos navios de guerra portugueses"
 1910-4-11 e 1912-2
 1910-9-23
 1911-11-14
 BENEVENTO, Arco Traiano 
 BENEVENTO, Palazzo di paolo 5 Municipio, 1910-8-28
 BENEVENTO, Interno del Duomo, 1910-12
 BENEVENTO, Ambone destro del Duomo, 1911-1-14
BENEVENTO, Chiastro de S. Sofia, 1910-1-7
 BENEVENTO, Chiastro di S. Sofia, 1910-1-7
 BENEVENTO, Ponte Leproso, 1910-1-7
 LAGO DI MISURINA, 1911-1
 MILANO, Monumento a Vittorio Emanuele, 1912-3-7
 ROMA, Colonna di Foca, 1911-12-22
 REGGIO-EMILIA, Templo della B. V. della Ghiara, 1910-7-13



"Pierre van Meckesteyn m a envoyé votre adresse..."
Maria Antonietta Albergatti, Palazzo Borghese, Siena
 SIENA, Castello di Brolio, 1911-12-12
 SIENA, Fonte Ovile, 1012-1-7
 SIENA, Il pulpito di Duomo, 1912-1-28 
SIENA, Cattedrale, 1912-2-5
SIENA, Palazzo Buonsignori, 1912-1-26

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

PASSEIOS DA ALMA


Nunca li nenhum livro de António Lobo Antunes. Ainda não (mas hei-de fazê-lo!), porque tenho a ideia que os seus livros são densos e sombrios, há que estar para aí virado.
Ora, foram exactamente esses 2 termos os utilizados para o editor descrever a sua última obra, Comissão de Lágrimas.
Da mesma forma que não leio poesia, mas gosto de ouvi-la, nunca li o escritor d' Os Cus de Judas, Auto dos danados, Memória de elefante, A morte de Carlos Gardel, Cartas da guerra, O arquipélago da insónia, mas gosto de ouvir o 'homem com ar de enfado'.

Não existem entrevistas banais a Lobo Antunes, são descargas de sentimentos já ruminados, macerados, dissecados, catalogados e resolvidos - conversas densas (hélas!) em que o escritor-médico não tem pejo em falar de si próprio e deambular sobre o que mais tem de íntimo, de uma forma muito pictórica.
Aconteceu a 19/10/2011, na SIC notícias (ver), à fala com Mário Crespo, a propósito da Comissão de Lágrimas, sobre uma das suas vivências mais marcantes, a guerra colonial.
Lobo Antunes citou Tolstoi ('a maior tragédia é a tragédia da cama'), falou da morte do pai ('o pai é a barreira entre nós e a morte; quando ele se vai, sabemos que da próxima vez que a morte bater à porta, somos nós a abrir') e a sua forma de sofrer ('eu choro como as grutas, para dentro, abre-se uma fissura e cai uma lágrima').

Se Mário Crespo dá um registo 'cosy' às suas conversas, o mesmo não se espera de Fátima Campos Ferreira. Mesmo assim, na entrevista dada em sua casa, a 14.10.2011 (ver), Lobo Antunes desnuda-se, como um exibicionista que abre a gabardine e mostra as suas vergonhas.
Começou por mostrar a parede onde escreve as frases de que gosta (incluindo uma sua, da Memória de Elefante, 'O que faria eu se estivesse no meu lugar?') e uma mesa com fotografias, dizendo de chofre que as fotografias são cadáveres.

Fez várias citações ('olhai, olhai mas vede', começava o discurso de João das Regras na defesa do Mestre de Avis), falou do pai, das grandes amizades, que são 'instantâneas', e de quando lutava contra um cancro e estava 'grávido da morte' (como escreveu então no Arquipélago da Insónia).
Sempre, sempre a morte: 'nascemos sozinhos e morremos sozinhos, a morte é uma coisa muito individual, o nascimento também', ou 'a maçada da morte é que ficamos mortos durante muito tempo'. À pergunta como gostaria de ser lembrado, como que encolhendo os ombros, respondeu 'já não vou cá estar para ver'.
Falou ainda sobre Deus, como se chateou com Ele quando viu o sofrimento dos seus doentes - disse uma vez ao Frei Bento Domingues 'Estou furioso com Deus' e o outro ripostou 'Óptimo, ele aguenta bem com isso'.

O escritor que se considera melhor que o nobel Saramago, e que tem uma relação belicosa com Miguel Sousa Tavares (este afirmou qualquer coisa como Antunes ser o melhor escritor português que não vende), disse saber muito pouco sobre o que é escrever e explicou que por vezes os livros se levantam à volta duma palavra, como um que escreveu a partir da frase 'esta casa deve ser triste às 3 horas da tarde' - 'é como uma pessoa encontrar um botão na rua e fazer uma fato para o botão'.

A jornalista ainda o quis arrastar para a política, mas Lobo Antunes disse desconfiar dos políticos e 'das pessoas que gostam da Humanidade, mas não gostam dos homens, ou seja, que gostam de grandes substantivos abstractos', como a honra, a pátria ou a glória, e foi em nome deles que sofremos o que sofremos.
Sobre a cultura, disse que os governantes querem o povo sem cultura, por isso mais submisso, e lastimou que os grandes autores não estejam nas livrarias: 'Se fôr procurar Camões ou Fernão Lopes, eles não têm. Têm livros de auto-ajuda.'

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

COREIA AMORDAÇADA


NO FUNDO, BEM NO FUNDO, EU NÃO ME ATREVO A CENSURÁ-LOS. ELES SÃO APENAS FILHOS LEGÍTIMOS DE UM REGIME QUE PREMEIA O MEDO E O SILÊNCIO. EU É QUE SOU O FILHO BASTARDO.
 fala de Henrique Galvão sobre os oficiais da tripulação do paquete, que não se juntaram à causa,
no filme Assalto ao Santa Maria de Francisco Manso


Morreu no sábado o 'querido' líder da Coreia do Norte, Kim Jong-il.
Não é estranho que a notícia tenha sido divulgada apenas 2 dias depois, no regime mais silencioso do mundo, fazendo parecer a Birmânia uma ditadura escancarada.
Também não é estranho um regime comunista estar assente no culto de personalidade (apesar de se auto-rotular de colectivista...) e ser dinástico e hereditário: o poder passou do pai Kim Il-sung para ele e agora para o filho mais novo (o mais velho é estróina e o do meio 'efeminado'), Kim Jong-un.
Não é inesperado haver um regime comunista com armas (nucleares) e sem arroz.
Não é surpresa que o PCP mande condolências ao país 'irmão', pela morte do ditador.
Não espanta que o grande pesar de muitos norte-coreanos seja sincero, e que as lágrimas pelo opressor sejam genuínas - há qualquer coisa de síndroma de Estocolmo.
Agora o que cheira a mofo e a farsa é o choro colectivo, histérico e ininterrupto dos dirigentes, à frente das câmaras. Faz lembrar o final dos discursos nos congressos do PCUS: minutos e minutos de palmas sincopadas, que nenhum dos presentes ousava interromper, não fosse ser mal interpretado... e tivesse guia de marcha para um lugar sombrio.

domingo, 18 de dezembro de 2011

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UM BEBÉ É COMO UMA REVOLUÇÃO,
PODEMOS DAR-LHE INÍCIO,
MAS É-NOS IMPOSSÍVEL PREVER O SEU RESULTADO.
Ken Follet, A queda dos gigantes
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POSTAIS ANTIGOS (XXX) - COSTUMES FRANÇAISES

ALSÁCIA E LORENA
e. Joseph Courbet, Nancy (1910-9-14) e Marcel Morel, Verdun (1911-5-26) 


BRETANHA
e. Jeanne Chateigne, Nantes (entre 1910-10 e 1911-9)
















PAYS DE LA LOIRE
e. Jeanne Chateigne, Nantes

A ÍNDIA É NOSSA


Corria o ano de 1662 da graça do Senhor, e demos de bandeja uma pérola do império, quando Catarina de Bragança, filha do Restaurador, se casou com Carlos II de Inglaterra: levou a geleia de laranja, o uso de talheres e do tabaco, institucionalizou o five o'clock tea, e entregou um dote de 2 milhões de cruzados, Tânger e Bombaim - a um marido promíscuo que a desprezava (teve pelo menos 14 filhos, nenhum com ela).
Vem isto a propósito de quê?

Faz hoje 50 anos que desapareceu o resto de Portugal na Índia, ao fim de 451 anos: então não se vê que as gentes de Goa, Damão e Diu (e dos enclaves de Dadrá e Nagar-Aveli, anexados em 1954), eram portugueses retintos, tão lusitanos como qualquer minhoto, e (os poucos que falavam português) apenas com um sotaque um pouco mais arrevesado que o açoriano?

Para Salazar, a defesa deste "torrão sagrado" soube a pouco: a pátria não se discute, terá dito quando Nehru propôs negociações em 1950. Para ele, como para Fidel, era pátria ou morte.
A 14 de Dezembro, 4 dias antes, através do rádio-telegrama 816/A, o ditador mandava: "É horrível pensar que isso pode significar o sacrifício total, mas recomendo e espero esse sacrifício como única forma de nos mantermos à altura das nossas tradições e prestarmos o maior serviço ao futuro da nação (...) Não prevejo possibilidades de tréguas nem prisioneiros portugueses, como não haverá rendidos, pois sinto que apenas pode haver soldados e marinheiros vitoriosos ou mortos".

A peleja não durou os 8 dias esperados, apenas 36 horas (exactamente 26 horas, escreveu Nehru a Kennedy), houve mortos, sim (20, contra 21 indianos), mas muito mais prisioneiros: começa com uma 'escaramuça' e 2 mortos lusos na manhã de 17, a invasão começa à meia-noite de 18 e ao final da noite é içada a bandeira branca.
Óbvio, 3500 militares com armas obsoletas e sem aviões não podiam lutar contra 45000 homens da União Indiana vindos por terra, mar e ar - assim compreendeu o general Vassalo e Silva, 150º governador de Goa, e foi expulso das FA por assinar a rendição no dia 19.

1961 foi um annus horribilis, a somar o sequestro do paquete Sta. Maria por Henrique Galvão (Janeiro), o início da guerra em Angola (Fevereiro), a tentativa do golpe Botelho Moniz (Março), a condenação da política africana pela ONU (Abril), a tomada dum avião e lançamento de folhetos oposicionistas (Novembro), a fuga de comunistas de Caxias num carro de Salazar (Novembro) e o golpe de Beja (a 31 de Dezembro).

Mas desta vez, o presidente do Conselho optou pelo logro: no discurso lido na AN a 3 de Janeiro, fez de conta que a luta fora heróica e "levou vários dias" dada a "firme resistência que os portugueses devem ter oferecido", elogiou "todos quantos tiveram a honra de ser chamados a bater-se ou a morrer por Goa" e garantiu que "não houve rendição de forças".
Os jornais falam em mais de 1000 mortos e os militares, depois de libertados em Maio de 1962, aportaram em Lisboa, mas só foram autorizados a desembarcar de madrugada.

Mentira tamanha só existe em regimes totalitários e censórios. Alguém imagina, numa democracia como os states, um embuste tão grande, por exemplo inventando a existência de armas de destruição massiva para começar uma guerra? Nã.

p.s.: conhecida pelo menos desde 2000 a.c., por Goa passaram sumérios, fenícios, arianos, dravidianos, árabes e turcos. Os primeiros relatos portugueses elogiam as goesas (são jeitosas no vestir, as que dançam e volteiam o fazem com melhor maneira que todas as destas partes. (…) toda mulher de gentio queima-se por morte de seu marido. Entre si têm todos isto em apreço e os parentes dela ficam desonrados quando se não querem queimar e eles com admoestações as fazem queimar). Teve muitos nomes, como Gubio, Sindabur, Chandrapur, e agora é Pangim ou Panaji. O meu preferido é Gomantak , que significa terra semelhante ao paraíso, fértil e com águas boas. Pois parece.