...e depois, com bigodes de leite, pedem mais paciência e esforço ao povo, que a "vaca 'tá seca".

segunda-feira, 11 de julho de 2011

MNAA 1. SENHORA COM BRINCO DE PÉROLA

Finalmente.
Já o escrevi, vivi 1 ano às Janelas Verdes, muitas vezes me sentei no jardim fronteiro, com vista para o Cais da Rocha do Conde de Óbidos, e nunca entrei no Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA).
Foi agora, aproveitei a proximidade e fomos turistas por uma tarde. Como se compreende, ver a Sé de Lisboa, o castelo de S. Jorge e o MNAA é uma prova de velocidade.
Por isso, posso dizer que não visitei o museu, fiz um raide de hora e meia. Dada a imensidão do acervo, foi quase uma checklist: visto, visto,...
Há um conjunto de obras incontornáveis, como os painéis de S. Vicente, os biombos Namban e o Bosch (todos eles merecem uma exaustiva exploração em quadrícula - e, quais separatas, os posts seguintes) ou os quadros que conhecemos dos livros de história, mas ainda santos de 700 anos com carunho, porcelanas e pratas, mobiliário europeu e asiático, vários séculos de pintura. Uma colecção enriquecida recentemente com a doação do espólio de Francisco Castro Pina, em exibição até Outubro. 

Fomos bafejados com um 2-em-1: decorre até 4/9/11 uma parceria entra o MNAA e o Museu de Design e Moda (MUDE), com intercâmbio de peças.
Como uma provocação, encontramos uma 'sacrílega' jarra de aço a fazer pendant com a custódia de Belém, uma pilha de gavetas usadas e presas com fita junto de contadores com pedigree, uma cadeira de peluches ao lado de vitrines de porcelanas, um tubo de canalização 'casado' com jarras de cristal, ou um vestido de Gualtier no centro da sala oitocentista doada por Antenor Patino.
Ou, o que já é devaneio, a prostração dum cão-robot aos pés dum argêntico centro de mesa com galgos e corneta, confiscado por D. José à casa ducal de Aveiro, depois de ter mandado executado a família toda - foram-se os anéis e nem ficaram os pescoços.
Vantagem, no MNAA podem tirar-se fotografias, inclusivé das peças do MUDE, que o proíbe (aliás, no sítio matriznet, o museu apresenta generosamente cerca de 2500 peças).
Bem, fui ao museu com a minha mãe, que já lá não entrava há mais de 40 anos (curiosamente, nessa altura também usava sentar-se no meu jardim, invejando os barcos que zarpavam para Angola e contando os dias até à sua vez de regressar). Gostou do sprint, mas maldisse a parceria: uma esquisitice, a presença de peças que "não têm nada a ver". Disse uma senhora que tem 3 furos numa orelha e usa 4 brincos desirmanados...    

 Retrato do Rei Dom João I, autor desconhecido 1434-50
Este retrato de D. João I (o primeiro rei de Portugal de quem se conhece um retrato pintado) apresenta o monarca em atitude de oração, com as mãos postas. O rosto, ligeiramente de perfil, encontra-se rapado até às têmporas, de acordo com a moda flamenga da época. Veste saio vermelho com gola de marta que descobre parcialmente a gola do gibão de brocado negro e ouro. Na moldura corre a seguinte legenda: "Hec est vera digne ac venerabilis memorie Domini Joannis defucti quond (am) Portugalie nobilissimi et illustrissimi Regis ymago quippe qui du viveret de Juberot victoria potitus est potentissima" (Esta é a vera imagem do defunto Senhor João, de digna e venerável memória, até há pouco mui nobre e mui ilustre rei de Portugal, que em sua vida se tornou muito poderoso pela vitória de Aljubarrota)
fonte: MNAA
Obras de Misericórdia, Peter Brueghel o moço 1601-25
 Túnica, Jean-Charkes Castelbajac 1986
 Jerónimo de Strídon, Albrecht Dürer 1521
 Cadeira banquete, Fernando e Humberto Campana 2004
 Afonso de Albuquerque, autor desconhecido 1555-1580
 S. Vicente (fólio 284, Livro de Horas de D. Manuel I)
atribuído a António da Holanda 1517-51
Armário You can´t lay down your memory, Tejo Remy 1991

Vestido L'Écume des Jours, Jean Paul Gualtier 1999
(ganga e penas de avestruz)
 Painéis de S. Vicente, Nuno Gonçalves 1467-1470
D. Sebastião, Cristovão de Morais 1572-74
 Centro de mesa, Casa de Aveiro (1729-31)
 Cão-robot Supercore AIBO, Sony Corp. 2000-02
Floreira, Caldas da rainha (séc. XIX)
Um deputado às Cortes de 1921, Domingos António de Sequeira

O Museu ocupa o Palácio Alvor-Pombal (em honra do 1º proprietário, Francisco de Távora e Conde de Alvor, e do marquês iluminado, cujas armas ornamentam os portais exteriores, tendo o irmão Paulo de Carvalho comprado o edifício em 1769), datado de 1690 e virado para a Rua das Janelas Verdes, e o terreno contíguo onde existia o convento de Santo Alberto (de carmelitas descalças) cujas ruínas foram demolidas em 1918. Esta ala, inaugurada em 1940, está virada para o jardim 9 de Abril. 
O Museu das belas-Artes e Arquelogia abriu em 1884, para albergar o acervo nacionalizado com a extinção das ordens religiosas em 1834 (imediata no caso de frades, com a morte da última residente, no caso das freiras). Em 1911 adquiriu o nome actual, tendo engordado com o espólio da casa real, em particular do Palácio das Necessidades. 

MNAA 2. A CUSTÓDIA DE BELÉM

Imaginem que um régulo de Quiloa (hoje Kilwa Kisiwani, na Tanzânia) resolvia dar como prova de vassalagem ao rei português, D. Manuel, 500 moedas de ouro (ou 1500 meticais, noutra versão). Imaginem que Vasco da Gama passava por aquelas bandas no regresso da sua viagem à India, em 1503, e trazia o tributo.
Imaginem que o rei resolvia fundir as moedas, 30 marcos ou mais de 6 quilogramas de ouro das páreas, e fazer um ostensório  ou custódia (guarda em latim) - o copo usado para expor o filho de Deus, eucaristicamente presente na hóstia consagrada -, para ter na sua capela privada.
Imaginem agora que D. Manuel escolhia como ourives nada mais, nada menos, que Gil Vicente (descrito como "trovador e mestre da balança" na carta régia de 1513 que o nomeou Mestre da casa da moeda de Lisboa), que enxertava nos seus autos os conhecimentos específicos sobre técnicas de ourivesaria. 
3 anos de arte e, no ano da graça de Deus de 1506, o auto-intitulado Rei de Portugal e dos Algarves d'aquém e d'além mar em África, Senhor da Guiné e da conquista, da navegação e do comércio da Etiópia, Arábia, Pérsia e da India pode apreciar A obra-prima da ourivesaria portugesa, ao estilo gótico tardio.
O rei morreu em 1521 e legou a custódia em testamento ao mosteiro de Santa Maria de Belém dos frades jerónimos, ajaezada com uma cruz também feita por Gil Vicente (perdida), e a hoje conhecida por Bíblia dos Jerónimos. 
Em 1834, com a extinção do mosteiro, a peça foi parar à casa da moeda, e foi salva da fundição pelo rei consorte Fernando II de Saxe-Coburgo-Gotha, que a levou para o Palácio das Necessidades, para a sua colecção.
Em 1925, a custódia mudou para o MNAA. Por essa altura, foi reposta a forma original: em 1620, o hostiário de cristal fora substituído por outro de prata dourada, e a peça foi dopada com mais 10 cm e 993 g de prata.
Um segundo e (desta vez) científico restauro foi operado em 2008, para lifting do natural desgaste de meio milénio, que ameaçava a sua integridade, e voltou ao museu em 2009, novinha em folha. 

Como é diferente ver arte com audioguide, aqui vai:
É dividida em 3 partes. Primeiro, uma base polilobada e elíptica, com 6 meios-relevos naturalistas (caracóis, pavões, frutos e flores) e uma tarja no seu extradorso, com a legenda "O MVITO ALTO. PRICIPE. E. PODEROSO. SEHOR. REI. DÕ. MANUEL I A. MDOV. FAZER. DO OVRO I. DAS. PARIAS. DE QUILOA. AQVABOV. E. CCCCCVI.".
A haste hexagonal, com fenestrações e nó ressaltado, termina com 6 esferas armilares em esmalte - divisa real que une e separa o mundo terreno, encimado pelo poder régio, e o mundo celeste.
Acima, a santíssima trindade: o corpo central, com 12 apóstolos esmaltados policromados, rodeando o cilíndrico hostiário de cristal, e um duplo baldaquino hexagonal com pináculos e arcaria gótica, em dois andares, o inferior com a pomba do Espírito santo, de ouro esmaltado a branco, e o superior com Deus-pai coroado, sentado num trono e segurando a orbe numa das mãos - à sua volta ainda restam 3 dos 6 profetas originais.
Nas 2 finas pilastras, que ladeiam e sustentam o baldaquino, é representada a Anunciação, com a Virgem e o arcanjo S. Gabriel, rodeados de anjos músicos.
O topo é rematado com uma cruz latina esmaltada.





http://tv1.rtp.pt/noticias/?t=Custodia-de-Belem-foi-restaurada-e-regressou-ao-Museu-de-Arte-Antiga.rtp&headline=20&visual=9&article=220767&tm=4

MNAA 3. NAMBAM, OS BÁRBAROS DO SUL

A arte Namban desenvolveu-se durante todo o século XVI no Japão, influenciada pelos primeiros contactos comerciais com os europeus - Namban vem de Namban-jin, que significa bárbaros do sul, como gentilmente lhes chamavam -, e os primeiros a instalar-se foram os portugueses em 1543.
Com algum jeitinho, encontra-se um paralelismo entre as representações dos homens narigudos, com as suas vestes e práticas, e a carta de achamento do brasil de Pero Vaz de Caminha, ambas primeras impressões de povos diferentes.
Das 60 peças nambam que se estima existirem, 2 pares de biombos vieram parar a Lisboa. Valem não só como testemunho histórico e colorido da gesta portuguesa, mas como um trabalho artístico excepcional, de grande minúcia e beleza.
A própria montagem da peça merece relevo: um número par de folhas unidas através duma moldura articulada e charneiras de papel; sobre um leve engradado de madeira de criptomeria colaram-se sobrepostas folhas de papel de amoreira, da mais grossa para a mais fina, revestida a folha de ouro e pintura a têmpera; armação debruada a seda e rematada a laca, e rematada a laca.
Pela sua função, os reversos dos biombos também são decorados requintadamente.

Par 1 (com o selo de Kano Naizen, 1593-1601)
Painel esquerdo
Representa os tumultuosos preparativos para a saída da nau portuguesa, de 3 mastros e altos castelos de popa e proa, dum porto - a arquitectura "estrangeira" (achinesada, o mais próximo que o pintor conheceria; porém, no provável palácio do vice-rei, a cruz cimeira, o chão ladrilhado, a forma de prender as janelas e o desenho das portas são tipicamente portugueses), os elefantes e os cavalos árabes ou persas, talvez adquiridos em Ormuz, apontam para que seja Goa.
Na cena vemos um ilustre homem protegido por um parassol e transportado num palanquim, mulheres dentro de casa (de feições orientais e vestes europeias), homens sentados em cadeiras de tesoura, acenando para a nau, e um batel transportando uma última visita.
Clique na imagem de pormenor do barco, para ampliar.







Painel direito
A nau de Goa, de velas recolhidas mas ainda não ancorada, chega a Nagasaki. Na coberta, ilustres conversam e bebem (sake?) e, em terra, um grupo vigia a descarga da mercadoria, que inclui animais exóticos (mais uma vez, cadeiras de tesoura para os mais importantes). Um cortejo de religiosos, comerciantes, serviçais, o capitão-mor (com o parassol) e animais exóticos dirige-se para a cidade, representada pela igreja onde 2 homens rezam. 3 portugueses avisam os religiosos (jesuítas, agostinhos, franciscanos e dominicanos) da chegada da nau, observados por um grupo de japoneses curiosos.
Clique nas imagens de pormenor seguintes, para ampliar. 



Par 2 (atribuído a Kano Domi, 1593-1602)
Painel esquerdo
O painel direito reproduz a chegada de outra nau a Nagasaki. Enquanto um jesuíta controla o desembarque das ricas mercadorias para um batel, o capitão-mor, oficiais e mercadores negoceiam no convés. Em terra, duas personagens maiores (ostentando um apito preso por correntes de ouro) conferem a descarga da seda em rolos ou fardos, caixas lacadas e outras preciosidades.
Clique nas imagens anterior e seguinte, para ampliar.








Painel direito
Nesta representação do intercâmbio económico e cultural de japoneses e europeu, um cortejo desloca-se para a Companhia de Jesus, presidido pelo capitão-mor (o do parassol) e abastecido de mercadorias para vender ou oferecer às dignidades locais, como um cavalo persa, sedas chinesas, animais exóticos enjaulados, potes vidrados para guardar especiarias e uma cadeira de dobrar. Na casa da Companhia, um jesuíta conversa com um daimiô, ou senhor feudal. 
Clique nas 3 imagens, para ampliar.



"Os Biombos Namban”
Os biombos Namban contam
A história alegre das navegações
Pasmo de povos de repente
Frente a frente

Alvoroço de quem vê
O tão longe tão de pé

Laca e leque
Kimono camélia
Perfeição esmero
E o sabor de tempero

Cerimónias mesuras
Nipónicas finuras
Malícia perante
Narigudas figuras
Inchados calções

Enquanto no alto
Das mastreações
Fazem pinos dão saltos
Os ágeis acrobatas
das navegações

Dançam de alegria
Porque o mundo encontrado
É muito mais belo
Do que o imaginado

Sophia de Mello Breyner
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MNAA 4. O NOSSO BOSCH

Hieronymus Bosch é um dos meus pintores preferidos, a quem já dediquei um post. Como então escrevi, foi o primeiro surrealista, com as suas telas oníricas - tipo alice no país das maravilhas, mas mais para o pesadelo. Lá estão pessoas deformadas, meio gente-meio animal, o fogo e a destruição.  
Só existem 7 quadros com autoria confirmada, e um deles está no MNAA, A Tentação de Santo Antão (1495-1500). Existem cerca de 16 cópias/réplicas deste quadro, mas crê-se que a existente no Museu de Arte de São Paulo é mesmo de Bosch, provavelmente uma primeira versão do tríptico.
No caso do nosso quadro, os seres bestiais não são despropositados: Santo Antão, asceta egípcio do séc. III, deu os seus bens aos necessitados, renunciou ao mundo e ao pecado, e foi meditar para o deserto.
Aí levou uma vida de eremita durante 20 anos, e foi assaltado por tentações diabólicas [pode ter sido só desidratação, digo eu].
A tudo resistiu, pela renúncia e pela fé.

Um dos meus livros de educação visual, no ciclo, tinha por título Ver Não é Só Olhar.
E, ao ver um quadro, saber o que significam as figuras, faz toda a diferença.
Façamos uma experiência: observe-se a primeira imagem do tríptico em pormenor (ao clicar na imagem, ela amplia, tal como as restantes), sem audioguide.
Quando se estiver satisfeito, avancemos para as explicações. É outro quadro, não é?

tríptico

paineis exteriores
Nas faces exteriores dos paineis laterais, vistos quando fechados, apresentam a prisão de Cristo junto de Judas e S. Pedro, e Cristo no caminho do calvário, com Santa Verónica a seus pés.

painel esquerdo
O painel esquerdo, "a ascensão e queda de Santo Antão", mostra no topo o santo levado no céu por demónios (em cima) e, ao centro, o santo transportado por 2 religiosos e 1 leigo, enquanto atrás algumas figuras bestiais vestidas de religiosos se dirigem a uma construção acessível através dum homem ajoelhado (símbolo dum prostíbulo); sob a ponte, 3 figuras lêem uma carta, enquanto um bicho patinador lhes leva outra carta, com a assinatura de Bosch.




 painel central
No painel central, destaca-se um torre em ruínas coberta de imagens do antigo testamento e, no seu interior, Cristo no altar e o santo (refugiado na fé e com ar sereno) fazem o sinal da benção. Cá fora, ardem aldeias e convivem seres animalescos.






painel direito
No painel direito, "a meditação de Santo Antão", uma mulher nua tenta seduzir o santo, e o mesmo fazem uns demónios com comida e bebida. Em segundo plano, vê-se um homem empunhando uma espada contra um monstro, e uma cena de batalha. No céu, mais um demónio voador transporta uma mulher.


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sábado, 9 de julho de 2011

MNAA 5. OS PAINÉIS DE SÃO VICENTE DE FORA

Os painéis de S. Vicente de Fora (em madeira de carvalho, óleo e têmpera) são o ex libris do MNAA, o crème de la crème da pintura portuguesa. 
Pertença no séc. XVIII da Mitra patriarcal, foram descobertos em 1882 no convento de S. Vicente de Fora. Restaurados na Academia Real das Belas-Artes de Lisboa em 1909, por Luciano Freire, foram transferidos em 1912 para o MNAA.
Ainda vigoram as teses de José de Figueiredo, de 1910: a partir da datação da época de Afonso V (1448-81) e do testemunho de Francisco da Holanda (1548), atribuí a obra a Nuno Gonçalves e propõe a identificação dos elementos do retábulo quatrocentista de S. Vicente, da Sé de Lisboa - centrado no santo, inspirador das conquistas marroquinas. Os 6 painéis mantêm os nomes com que os baptizou.   
É quase certo que tenham sido pintados por Nuno Gonçalves, entre 1450 e 1490, mas já quanto aos protagonistas, há dúvidas. Existe mesmo uma imagem do 5º painel atribuída, conforme a versão, a dois irmãos desavindos. 

Estudos mais recentes, como o de Jorge Filipe de Almeida, concluem que a obra, marcadamente fúnebre, teria sido realizada em 1445 (em 2000, foi identificada essa data e a assinatura NGs, na bota duma das figuras) e representa, não S. Vivente, mas o funeral simbólico do Infante Santo, morto 2 anos antes de Fez - após 6 anos de cativeiro, como moeda de troca por Ceuta.

Já um tal de Alvor Silves (http://alvor-silves.blogspot.pt/2012/03/nuno-goncalves-14122009.html) tem outra tese, bastante alternativa: o quadro representa a morte de Afonso, o herdeiro de João II.
Porquê? No 5º painel, exceptuando uma (cujas mãos não se vêem, caso estivessem unidas seria um típico sinal que estaria morto à altura - como é o caso de D. Henrique), todas as pessoas têm a barba feita... e houve um facto histórico que fez com que todos os homens do reino fizessem a barba, precisamente a morte do sucessor em 1491. 
Os painéis seriam pintados entre esse ano e o seguinte, quando Nuno Gonçalves desapareceu, encomendados por João II para homenagear o filho (ausente) e promover o bastardo Jorge - o que não sucedeu: João II morreu (envenenado?), o trono foi parar ao cunhado-primo Manuel, e o quadro "desapareceu" habilmente de cena.
Alvor Silves encontra coerências nos painéis, como os ímpares dedicados à realeza (óbice da teoria, antes do restauro de Freire, os painéis tinham outra ordem, os dos frades e da relíquia estavam juntos, assim como os dos pescadores e cavaleiros), e especula que se confrontam 2 facções, a de João I virada para ocidente, e a oposta, com personagens viradas para oriente.
Estudos de dendrocronologia de 2001 não são favoráveis a Alvor Silves: a datação dos aneis da madeira aponta para a obra tenha visto a luz na década de 1440.

Os painéis ainda serviram de propaganda ao Estado Novo: Leitão de Barros, o cineasta e director do Notícias Ilustrado anunciou que os seus jornalistas descobriram que (sinal divino!!) Salazar aparecia no topo do 2º painel, tal eram as semelhanças com Estêvão Afonso, o administrador da Casa de Lagos criada para explorar os descobrimentos marítimos - ambos ligados às finanças e a grandes feitos. Houve quem suspeitasse que a parecença foi fabricada num restauro.   

clique na imagem, para ampliação

Painel dos Frades
Um frade de hábito branco reza ajoelhado, com oram 2 frades erguidos - membros do clero regular, cistercienses de Alcobaça (vestes brancas) ou agostinhos do mosteiro de S. Vicente. Atrás, um grupo de 3 personagens.
Como acontecia sempre na pintura, o vazio no canto superior direito tem um propósito - seria uma árvore, um tronco, uma cruz ou (relacionado com o santo) uma tampa de caixão ou uma cama de pregos?
A personagem da esquerda segura um objecto que pode ser um barrete semelhante ao do frade barbado, ou uma das relíquias de S. Vicente coberta com um pano. 
Alvor Silves: este seria o painel dos reis ou de Avis, figurando, por ordem de sucessão, os 3 primeros reis da dinastia (João I, Duarte e Afonso V), de feições compatíveis com descrições ou outras imagens que temos deles, e atrás outros mestres da ordem religiosa.   
Painel dos Pescadores
Representa o povo anónimo, pescadores (ou navegantes), revelando a intenção do pintor incluir todas as classes sociais.   
Vemos um penitente com os cotovelos no ladrilho, com um rosário de contas iguais, provavelmente feitas com vértebras de peixe, 3 personagens envoltas numa rede de pesca com flutuadores de cortiça, e outros 3 indivíduos ao fundo.
O facto da malha da rede não ser observada em radioscopia, a técnica rápida e pouco persistente, e a escassez de pigmentos, sugerem que foi pintada mais tarde, por outro pintor.
Alvor Silves: aparece penitente  o beato Nun'Álvares (morto bastante velho), seguido por uma mulher que pode ser a sua filha (avó de Beatriz de Viseu) ou a bisneta (irmã de Beatriz e mãe de Isabel a católica) - ostentando uma rede, onde foi posto o corpo do príncipe falecido. 
Painel do Infante
São Vicente (ou, em alternativa, a essência espiritual de Portugal), paramentado com dalmática e manípulo, de cabeça nimbada e com barrete, abre um missal a um jovem. O homem de chapeirão borgonhês é D. Henrique o navegador. Duas senhoras e um grupo de homens compõem a cena.
Outros vêm um composição diferente: o homem de chapéu flamengo é D. Duarte, o ajoelhado é o seu filho Afonso V, e a criança de barrete com botões (a única outra figura com barrete composto é, outro painel, ele próprio em adulto) é o seu neto João II; do outro lado, as respectivas mulheres de Duarte e de Afonso, Leonor de Aragão e Isabel de Coimbra - esta com mangas assimétricas e abrindo as vestes, onde alguns encontram uma alusão à passagem menina-mulher, aos genitais e ao sacrifício da virtude pela nação.
Alvor Silves: Aparece D. Henrique, semelhante (embora envelhecido) à sua imagem que aparece nas Crónicas dos feitos de Guiné de Zurara, de 1453. Do mesmo lado aparece o rei João II (com 36 anos) e uma criança (de 10), na sucessão do pai. Do outro lado vemos a rainha Leonor (33 anos) e a Beatriz de Viseu (com 61 anos, tia do rei, mãe da rainha e de D. Manuel), parecidas com outros quadros da época. Todos ainda vivos em 91, e com mãos desunidas! Aparece ainda, ao lado e acima de D. Henrique, o seu irmão Afonso, 1º duque de Bragança (avô de Beatriz e genro de Nun'Álvares), com as mãozinhas juntas.
João olha para a sogra [eu acho que é para o livro], tia de Isabel a Católica e com papel fulcral na política ibérica e de sucessões.
Painel do Arcebispo
O santo segura um livro e uma vara dourada, tendo aos pés um molho de cordas. À volta, cinco cavaleiros (2 com armaduras de aparato e 3 com gibões) empunham lanças ou espadas embainhadas. No plano afastado, vários sacerdotes e outros dignitários rodeiam um (arce)bispo e o cónego arcediago com o báculo.
Na outra versão, voltam a aparecer João II (de verde e barrete composto), agora adulto, e um Afonso V envelhecido, sob o olhar censório da figura que ostenta o bastão da justiça, rei que morreria arrependido de todos os seus erros, incluindo ter lutado com o tio regente. A corda significaria a unidade da nação, ameaçada com as derrotas contra castela, e as cedências à traidora casa de Bragança.  
Alvor Silves: a corda representa as navegações, S. Vicente opta por Vasco da Gama em deterimento de Diogo Cão na gesta da Índia; acima figuram o Duque de Viseu (morto pelo cunhado João II) de cabeça descoberta, um cardeal morto, quiçá D. Pedro de Noronha, e talvez os bispos próximos do rei (de Coimbra, Tânger e Algarve) e o prior do Crato.  
Painel dos Cavaleiros
Nos 2 primeiros planos, 3 cavaleiros (2 deles com gorro) vestem ricos trajes de corte e estão armados com espadas. A seguir, uma figura barbada, com capelina de aço e ouro, precede 4 eclesiásticos com sobrepelizes e barretes roxos.
Na referida versão, os 4 cavaleiros são os irmãos mais novos de D. Duarte: de negro, capacete mouro (reflectindo uma janela moura), cabelo e barba comprida, emagrecido, o Infante Santo, Fernando, que aceitou trocar com Henrique e ficar como refém na derrota de Tânger; de vermelho e espada cruzada no peito, símbolo da Ordem de Santiago, o seu mestre, Infante João, que apoiou Pedro para regente durante a menoridade do sobrinho Afonso V, contra as intenções dos Bragança; de verde e cinto cruzado no peito (Ordem da Jarreteira), acima dum sinete(?) alusivo à casa de Bragança - simbolizando que a casa de Aviz estava acima dela na pretensão ao trono -, o Infante Pedro, o das 7 partidas; de roxo (a cor da vergonha), com o cinto cruzado ao peito (Jarreteira) desapertado e com furos desalinhados, sob o sinete(?) símbolo dos Braganças - assim subalterno -, o Infante de Sagres, Henrique, o único que se aliou na Alfarrobeira aos Braganças, contra o seu irmão Pedro, regente.         
Alvor Silves: em 1º plano aparece D. Pedro, o regente vencido pelo sobrinho Afonso V na Alfarrobeira - banido do 3º painel, onde estão os irmãos Afonso e Henrique. Depois viriam o Infante João (deveria ter as mãos unidas, mas traz luvas verdes), o Infante Fernando de Viseu (sogro de João II) e o Infante Santo.
Painel da Relíquia
Uma personagem mostra uma relíquia num veludo verde. Ao lado dum mendigo, um homem com samarra escura e uma estrela no peito, abre um livro. Atrás, um esquife e 2 eclesiásticos de sobrepeliz.
Alvor Silves: aparecem os 2 sábios de confiança do rei, o físico-mor mestre Rodrigo de Lucena e o matemático judeu mestre Josepe. A relíquia, um fragmento de osso craniano, simboliza o sucessor defunto, ou a fractura na continuidade sucessória.
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sexta-feira, 8 de julho de 2011

DE QUAL FILHO GOSTAS MAIS?

  o comuna e o reaça

Nas últimas eleições, à porta da assembleia de voto, Helena Sacadura Cabral fugiu duma jornalista dizendo que não estava ali na condição de mãe de ninguém, apenas de cidadã. A sobrinha do aviador pouco fala de política e, aliás, diversas vezes expressou o desprazer em ter filhos políticos.
O que nunca disse foi com qual dos dois, em polos opostos, mais se identifica politicamente.
Um mistério: por um lado, a sua personalidade irreverente talvez a inclinasse para a esquerda; por outro lado, Miguel chateou-se com a mãe aos 13 anos e foi viver com o pai Nuno Portas, um dos fundadores do MES, enquanto Paulo viveu sempre com a mãe - a educação podia explicar a identidade política.
Pois descobri um comentário seu a um post sobre Sá Carneiro, num blogue (http://duas-ou-tres.blogspot.com/2009/12/sa-carneiro.html), precisamente às 21.01 horas de 6.12.2009:

Conheci Sá Carneiro que, infelizmente para mim, conduziria um dos meus filhos para esse campo pantanoso da política.
O outro, veja-se, acabou por ir para lá, por influência minha...
Aos 12 anos, um foi preso pela Pide. Far-se-ia comunista.
Aos 15, o outro, tinha um processo político em Tribunal. Salvou-o a idade!
O comunista deu ao PC dezoito anos da sua vida. O protegido de Sá Carneiro seria um dos primeiros militantes do PSD e lá esteve até ao desastre de Camarate.
Hoje, um é bloquista. O outro, centrista.
Que me teria acontecido se Sá Carneiro não tem morrido?!

Acho que dá uma pista...