Os painéis de S. Vicente de Fora (em madeira de carvalho, óleo e têmpera) são o ex libris do MNAA, o crème de la crème da pintura portuguesa.
Pertença no séc. XVIII da Mitra patriarcal, foram descobertos em 1882 no convento de S. Vicente de Fora. Restaurados na Academia Real das Belas-Artes de Lisboa em 1909, por Luciano Freire, foram transferidos em 1912 para o MNAA.
Ainda vigoram as teses de José de Figueiredo, de 1910: a partir da datação da época de Afonso V (1448-81) e do testemunho de Francisco da Holanda (1548), atribuí a obra a Nuno Gonçalves e propõe a identificação dos elementos do retábulo quatrocentista de S. Vicente, da Sé de Lisboa - centrado no santo, inspirador das conquistas marroquinas. Os 6 painéis mantêm os nomes com que os baptizou.
É quase certo que tenham sido pintados por Nuno Gonçalves, entre 1450 e 1490, mas já quanto aos protagonistas, há dúvidas. Existe mesmo uma imagem do 5º painel atribuída, conforme a versão, a dois irmãos desavindos.
Estudos mais recentes, como o de Jorge Filipe de Almeida, concluem que a obra, marcadamente fúnebre, teria sido realizada em 1445 (em 2000, foi identificada essa data e a assinatura NGs, na bota duma das figuras) e representa, não S. Vivente, mas o funeral simbólico do Infante Santo, morto 2 anos antes de Fez - após 6 anos de cativeiro, como moeda de troca por Ceuta.
Porquê? No 5º painel, exceptuando uma (cujas mãos não se vêem, caso estivessem unidas seria um típico sinal que estaria morto à altura - como é o caso de D. Henrique), todas as pessoas têm a barba feita... e houve um facto histórico que fez com que todos os homens do reino fizessem a barba, precisamente a morte do sucessor em 1491.
Os painéis seriam pintados entre esse ano e o seguinte, quando Nuno Gonçalves desapareceu, encomendados por João II para homenagear o filho (ausente) e promover o bastardo Jorge - o que não sucedeu: João II morreu (envenenado?), o trono foi parar ao cunhado-primo Manuel, e o quadro "desapareceu" habilmente de cena.
Alvor Silves encontra coerências nos painéis, como os ímpares dedicados à realeza (óbice da teoria, antes do restauro de Freire, os painéis tinham outra ordem, os dos frades e da relíquia estavam juntos, assim como os dos pescadores e cavaleiros), e especula que se confrontam 2 facções, a de João I virada para ocidente, e a oposta, com personagens viradas para oriente.
Estudos de dendrocronologia de 2001 não são favoráveis a Alvor Silves: a datação dos aneis da madeira aponta para a obra tenha visto a luz na década de 1440.
Os painéis ainda serviram de propaganda ao Estado Novo: Leitão de Barros, o cineasta e director do Notícias Ilustrado anunciou que os seus jornalistas descobriram que (sinal divino!!) Salazar aparecia no topo do 2º painel, tal eram as semelhanças com Estêvão Afonso, o administrador da Casa de Lagos criada para explorar os descobrimentos marítimos - ambos ligados às finanças e a grandes feitos. Houve quem suspeitasse que a parecença foi fabricada num restauro.
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Painel dos Frades
Um frade de hábito branco reza ajoelhado, com oram 2 frades erguidos - membros do clero regular, cistercienses de Alcobaça (vestes brancas) ou agostinhos do mosteiro de S. Vicente. Atrás, um grupo de 3 personagens.
Como acontecia sempre na pintura, o vazio no canto superior direito tem um propósito - seria uma árvore, um tronco, uma cruz ou (relacionado com o santo) uma tampa de caixão ou uma cama de pregos?
A personagem da esquerda segura um objecto que pode ser um barrete semelhante ao do frade barbado, ou uma das relíquias de S. Vicente coberta com um pano.
Alvor Silves: este seria o painel dos reis ou de Avis, figurando, por ordem de sucessão, os 3 primeros reis da dinastia (João I, Duarte e Afonso V), de feições compatíveis com descrições ou outras imagens que temos deles, e atrás outros mestres da ordem religiosa.
Painel dos Pescadores
Representa o povo anónimo, pescadores (ou navegantes), revelando a intenção do pintor incluir todas as classes sociais.
Vemos um penitente com os cotovelos no ladrilho, com um rosário de contas iguais, provavelmente feitas com vértebras de peixe, 3 personagens envoltas numa rede de pesca com flutuadores de cortiça, e outros 3 indivíduos ao fundo.
O facto da malha da rede não ser observada em radioscopia, a técnica rápida e pouco persistente, e a escassez de pigmentos, sugerem que foi pintada mais tarde, por outro pintor.
Alvor Silves: aparece penitente o beato Nun'Álvares (morto bastante velho), seguido por uma mulher que pode ser a sua filha (avó de Beatriz de Viseu) ou a bisneta (irmã de Beatriz e mãe de Isabel a católica) - ostentando uma rede, onde foi posto o corpo do príncipe falecido.
Painel do Infante
São Vicente (ou, em alternativa, a essência espiritual de Portugal), paramentado com dalmática e manípulo, de cabeça nimbada e com barrete, abre um missal a um jovem. O homem de chapeirão borgonhês é D. Henrique o navegador. Duas senhoras e um grupo de homens compõem a cena.
Outros vêm um composição diferente: o homem de chapéu flamengo é D. Duarte, o ajoelhado é o seu filho Afonso V, e a criança de barrete com botões (a única outra figura com barrete composto é, outro painel, ele próprio em adulto) é o seu neto João II; do outro lado, as respectivas mulheres de Duarte e de Afonso, Leonor de Aragão e Isabel de Coimbra - esta com mangas assimétricas e abrindo as vestes, onde alguns encontram uma alusão à passagem menina-mulher, aos genitais e ao sacrifício da virtude pela nação.
Alvor Silves: Aparece D. Henrique, semelhante (embora envelhecido) à sua imagem que aparece nas Crónicas dos feitos de Guiné de Zurara, de 1453. Do mesmo lado aparece o rei João II (com 36 anos) e uma criança (de 10), na sucessão do pai. Do outro lado vemos a rainha Leonor (33 anos) e a Beatriz de Viseu (com 61 anos, tia do rei, mãe da rainha e de D. Manuel), parecidas com outros quadros da época. Todos ainda vivos em 91, e com mãos desunidas! Aparece ainda, ao lado e acima de D. Henrique, o seu irmão Afonso, 1º duque de Bragança (avô de Beatriz e genro de Nun'Álvares), com as mãozinhas juntas.
João olha para a sogra [eu acho que é para o livro], tia de Isabel a Católica e com papel fulcral na política ibérica e de sucessões.
Painel do Arcebispo
O santo segura um livro e uma vara dourada, tendo aos pés um molho de cordas. À volta, cinco cavaleiros (2 com armaduras de aparato e 3 com gibões) empunham lanças ou espadas embainhadas. No plano afastado, vários sacerdotes e outros dignitários rodeiam um (arce)bispo e o cónego arcediago com o báculo.
Na outra versão, voltam a aparecer João II (de verde e barrete composto), agora adulto, e um Afonso V envelhecido, sob o olhar censório da figura que ostenta o bastão da justiça, rei que morreria arrependido de todos os seus erros, incluindo ter lutado com o tio regente. A corda significaria a unidade da nação, ameaçada com as derrotas contra castela, e as cedências à traidora casa de Bragança.
Alvor Silves: a corda representa as navegações, S. Vicente opta por Vasco da Gama em deterimento de Diogo Cão na gesta da Índia; acima figuram o Duque de Viseu (morto pelo cunhado João II) de cabeça descoberta, um cardeal morto, quiçá D. Pedro de Noronha, e talvez os bispos próximos do rei (de Coimbra, Tânger e Algarve) e o prior do Crato.
Painel dos Cavaleiros
Nos 2 primeiros planos, 3 cavaleiros (2 deles com gorro) vestem ricos trajes de corte e estão armados com espadas. A seguir, uma figura barbada, com capelina de aço e ouro, precede 4 eclesiásticos com sobrepelizes e barretes roxos.
Na referida versão, os 4 cavaleiros são os irmãos mais novos de D. Duarte: de negro, capacete mouro (reflectindo uma janela moura), cabelo e barba comprida, emagrecido, o Infante Santo, Fernando, que aceitou trocar com Henrique e ficar como refém na derrota de Tânger; de vermelho e espada cruzada no peito, símbolo da Ordem de Santiago, o seu mestre, Infante João, que apoiou Pedro para regente durante a menoridade do sobrinho Afonso V, contra as intenções dos Bragança; de verde e cinto cruzado no peito (Ordem da Jarreteira), acima dum sinete(?) alusivo à casa de Bragança - simbolizando que a casa de Aviz estava acima dela na pretensão ao trono -, o Infante Pedro, o das 7 partidas; de roxo (a cor da vergonha), com o cinto cruzado ao peito (Jarreteira) desapertado e com furos desalinhados, sob o sinete(?) símbolo dos Braganças - assim subalterno -, o Infante de Sagres, Henrique, o único que se aliou na Alfarrobeira aos Braganças, contra o seu irmão Pedro, regente.
Alvor Silves: em 1º plano aparece D. Pedro, o regente vencido pelo sobrinho Afonso V na Alfarrobeira - banido do 3º painel, onde estão os irmãos Afonso e Henrique. Depois viriam o Infante João (deveria ter as mãos unidas, mas traz luvas verdes), o Infante Fernando de Viseu (sogro de João II) e o Infante Santo.
Painel da Relíquia
Uma personagem mostra uma relíquia num veludo verde. Ao lado dum mendigo, um homem com samarra escura e uma estrela no peito, abre um livro. Atrás, um esquife e 2 eclesiásticos de sobrepeliz.
Alvor Silves: aparecem os 2 sábios de confiança do rei, o físico-mor mestre Rodrigo de Lucena e o matemático judeu mestre Josepe. A relíquia, um fragmento de osso craniano, simboliza o sucessor defunto, ou a fractura na continuidade sucessória.
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