...e depois, com bigodes de leite, pedem mais paciência e esforço ao povo, que a "vaca 'tá seca".

segunda-feira, 11 de julho de 2011

MNAA 3. NAMBAM, OS BÁRBAROS DO SUL

A arte Namban desenvolveu-se durante todo o século XVI no Japão, influenciada pelos primeiros contactos comerciais com os europeus - Namban vem de Namban-jin, que significa bárbaros do sul, como gentilmente lhes chamavam -, e os primeiros a instalar-se foram os portugueses em 1543.
Com algum jeitinho, encontra-se um paralelismo entre as representações dos homens narigudos, com as suas vestes e práticas, e a carta de achamento do brasil de Pero Vaz de Caminha, ambas primeras impressões de povos diferentes.
Das 60 peças nambam que se estima existirem, 2 pares de biombos vieram parar a Lisboa. Valem não só como testemunho histórico e colorido da gesta portuguesa, mas como um trabalho artístico excepcional, de grande minúcia e beleza.
A própria montagem da peça merece relevo: um número par de folhas unidas através duma moldura articulada e charneiras de papel; sobre um leve engradado de madeira de criptomeria colaram-se sobrepostas folhas de papel de amoreira, da mais grossa para a mais fina, revestida a folha de ouro e pintura a têmpera; armação debruada a seda e rematada a laca, e rematada a laca.
Pela sua função, os reversos dos biombos também são decorados requintadamente.

Par 1 (com o selo de Kano Naizen, 1593-1601)
Painel esquerdo
Representa os tumultuosos preparativos para a saída da nau portuguesa, de 3 mastros e altos castelos de popa e proa, dum porto - a arquitectura "estrangeira" (achinesada, o mais próximo que o pintor conheceria; porém, no provável palácio do vice-rei, a cruz cimeira, o chão ladrilhado, a forma de prender as janelas e o desenho das portas são tipicamente portugueses), os elefantes e os cavalos árabes ou persas, talvez adquiridos em Ormuz, apontam para que seja Goa.
Na cena vemos um ilustre homem protegido por um parassol e transportado num palanquim, mulheres dentro de casa (de feições orientais e vestes europeias), homens sentados em cadeiras de tesoura, acenando para a nau, e um batel transportando uma última visita.
Clique na imagem de pormenor do barco, para ampliar.







Painel direito
A nau de Goa, de velas recolhidas mas ainda não ancorada, chega a Nagasaki. Na coberta, ilustres conversam e bebem (sake?) e, em terra, um grupo vigia a descarga da mercadoria, que inclui animais exóticos (mais uma vez, cadeiras de tesoura para os mais importantes). Um cortejo de religiosos, comerciantes, serviçais, o capitão-mor (com o parassol) e animais exóticos dirige-se para a cidade, representada pela igreja onde 2 homens rezam. 3 portugueses avisam os religiosos (jesuítas, agostinhos, franciscanos e dominicanos) da chegada da nau, observados por um grupo de japoneses curiosos.
Clique nas imagens de pormenor seguintes, para ampliar. 



Par 2 (atribuído a Kano Domi, 1593-1602)
Painel esquerdo
O painel direito reproduz a chegada de outra nau a Nagasaki. Enquanto um jesuíta controla o desembarque das ricas mercadorias para um batel, o capitão-mor, oficiais e mercadores negoceiam no convés. Em terra, duas personagens maiores (ostentando um apito preso por correntes de ouro) conferem a descarga da seda em rolos ou fardos, caixas lacadas e outras preciosidades.
Clique nas imagens anterior e seguinte, para ampliar.








Painel direito
Nesta representação do intercâmbio económico e cultural de japoneses e europeu, um cortejo desloca-se para a Companhia de Jesus, presidido pelo capitão-mor (o do parassol) e abastecido de mercadorias para vender ou oferecer às dignidades locais, como um cavalo persa, sedas chinesas, animais exóticos enjaulados, potes vidrados para guardar especiarias e uma cadeira de dobrar. Na casa da Companhia, um jesuíta conversa com um daimiô, ou senhor feudal. 
Clique nas 3 imagens, para ampliar.



"Os Biombos Namban”
Os biombos Namban contam
A história alegre das navegações
Pasmo de povos de repente
Frente a frente

Alvoroço de quem vê
O tão longe tão de pé

Laca e leque
Kimono camélia
Perfeição esmero
E o sabor de tempero

Cerimónias mesuras
Nipónicas finuras
Malícia perante
Narigudas figuras
Inchados calções

Enquanto no alto
Das mastreações
Fazem pinos dão saltos
Os ágeis acrobatas
das navegações

Dançam de alegria
Porque o mundo encontrado
É muito mais belo
Do que o imaginado

Sophia de Mello Breyner
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MNAA 4. O NOSSO BOSCH

Hieronymus Bosch é um dos meus pintores preferidos, a quem já dediquei um post. Como então escrevi, foi o primeiro surrealista, com as suas telas oníricas - tipo alice no país das maravilhas, mas mais para o pesadelo. Lá estão pessoas deformadas, meio gente-meio animal, o fogo e a destruição.  
Só existem 7 quadros com autoria confirmada, e um deles está no MNAA, A Tentação de Santo Antão (1495-1500). Existem cerca de 16 cópias/réplicas deste quadro, mas crê-se que a existente no Museu de Arte de São Paulo é mesmo de Bosch, provavelmente uma primeira versão do tríptico.
No caso do nosso quadro, os seres bestiais não são despropositados: Santo Antão, asceta egípcio do séc. III, deu os seus bens aos necessitados, renunciou ao mundo e ao pecado, e foi meditar para o deserto.
Aí levou uma vida de eremita durante 20 anos, e foi assaltado por tentações diabólicas [pode ter sido só desidratação, digo eu].
A tudo resistiu, pela renúncia e pela fé.

Um dos meus livros de educação visual, no ciclo, tinha por título Ver Não é Só Olhar.
E, ao ver um quadro, saber o que significam as figuras, faz toda a diferença.
Façamos uma experiência: observe-se a primeira imagem do tríptico em pormenor (ao clicar na imagem, ela amplia, tal como as restantes), sem audioguide.
Quando se estiver satisfeito, avancemos para as explicações. É outro quadro, não é?

tríptico

paineis exteriores
Nas faces exteriores dos paineis laterais, vistos quando fechados, apresentam a prisão de Cristo junto de Judas e S. Pedro, e Cristo no caminho do calvário, com Santa Verónica a seus pés.

painel esquerdo
O painel esquerdo, "a ascensão e queda de Santo Antão", mostra no topo o santo levado no céu por demónios (em cima) e, ao centro, o santo transportado por 2 religiosos e 1 leigo, enquanto atrás algumas figuras bestiais vestidas de religiosos se dirigem a uma construção acessível através dum homem ajoelhado (símbolo dum prostíbulo); sob a ponte, 3 figuras lêem uma carta, enquanto um bicho patinador lhes leva outra carta, com a assinatura de Bosch.




 painel central
No painel central, destaca-se um torre em ruínas coberta de imagens do antigo testamento e, no seu interior, Cristo no altar e o santo (refugiado na fé e com ar sereno) fazem o sinal da benção. Cá fora, ardem aldeias e convivem seres animalescos.






painel direito
No painel direito, "a meditação de Santo Antão", uma mulher nua tenta seduzir o santo, e o mesmo fazem uns demónios com comida e bebida. Em segundo plano, vê-se um homem empunhando uma espada contra um monstro, e uma cena de batalha. No céu, mais um demónio voador transporta uma mulher.


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sábado, 9 de julho de 2011

MNAA 5. OS PAINÉIS DE SÃO VICENTE DE FORA

Os painéis de S. Vicente de Fora (em madeira de carvalho, óleo e têmpera) são o ex libris do MNAA, o crème de la crème da pintura portuguesa. 
Pertença no séc. XVIII da Mitra patriarcal, foram descobertos em 1882 no convento de S. Vicente de Fora. Restaurados na Academia Real das Belas-Artes de Lisboa em 1909, por Luciano Freire, foram transferidos em 1912 para o MNAA.
Ainda vigoram as teses de José de Figueiredo, de 1910: a partir da datação da época de Afonso V (1448-81) e do testemunho de Francisco da Holanda (1548), atribuí a obra a Nuno Gonçalves e propõe a identificação dos elementos do retábulo quatrocentista de S. Vicente, da Sé de Lisboa - centrado no santo, inspirador das conquistas marroquinas. Os 6 painéis mantêm os nomes com que os baptizou.   
É quase certo que tenham sido pintados por Nuno Gonçalves, entre 1450 e 1490, mas já quanto aos protagonistas, há dúvidas. Existe mesmo uma imagem do 5º painel atribuída, conforme a versão, a dois irmãos desavindos. 

Estudos mais recentes, como o de Jorge Filipe de Almeida, concluem que a obra, marcadamente fúnebre, teria sido realizada em 1445 (em 2000, foi identificada essa data e a assinatura NGs, na bota duma das figuras) e representa, não S. Vivente, mas o funeral simbólico do Infante Santo, morto 2 anos antes de Fez - após 6 anos de cativeiro, como moeda de troca por Ceuta.

Já um tal de Alvor Silves (http://alvor-silves.blogspot.pt/2012/03/nuno-goncalves-14122009.html) tem outra tese, bastante alternativa: o quadro representa a morte de Afonso, o herdeiro de João II.
Porquê? No 5º painel, exceptuando uma (cujas mãos não se vêem, caso estivessem unidas seria um típico sinal que estaria morto à altura - como é o caso de D. Henrique), todas as pessoas têm a barba feita... e houve um facto histórico que fez com que todos os homens do reino fizessem a barba, precisamente a morte do sucessor em 1491. 
Os painéis seriam pintados entre esse ano e o seguinte, quando Nuno Gonçalves desapareceu, encomendados por João II para homenagear o filho (ausente) e promover o bastardo Jorge - o que não sucedeu: João II morreu (envenenado?), o trono foi parar ao cunhado-primo Manuel, e o quadro "desapareceu" habilmente de cena.
Alvor Silves encontra coerências nos painéis, como os ímpares dedicados à realeza (óbice da teoria, antes do restauro de Freire, os painéis tinham outra ordem, os dos frades e da relíquia estavam juntos, assim como os dos pescadores e cavaleiros), e especula que se confrontam 2 facções, a de João I virada para ocidente, e a oposta, com personagens viradas para oriente.
Estudos de dendrocronologia de 2001 não são favoráveis a Alvor Silves: a datação dos aneis da madeira aponta para a obra tenha visto a luz na década de 1440.

Os painéis ainda serviram de propaganda ao Estado Novo: Leitão de Barros, o cineasta e director do Notícias Ilustrado anunciou que os seus jornalistas descobriram que (sinal divino!!) Salazar aparecia no topo do 2º painel, tal eram as semelhanças com Estêvão Afonso, o administrador da Casa de Lagos criada para explorar os descobrimentos marítimos - ambos ligados às finanças e a grandes feitos. Houve quem suspeitasse que a parecença foi fabricada num restauro.   

clique na imagem, para ampliação

Painel dos Frades
Um frade de hábito branco reza ajoelhado, com oram 2 frades erguidos - membros do clero regular, cistercienses de Alcobaça (vestes brancas) ou agostinhos do mosteiro de S. Vicente. Atrás, um grupo de 3 personagens.
Como acontecia sempre na pintura, o vazio no canto superior direito tem um propósito - seria uma árvore, um tronco, uma cruz ou (relacionado com o santo) uma tampa de caixão ou uma cama de pregos?
A personagem da esquerda segura um objecto que pode ser um barrete semelhante ao do frade barbado, ou uma das relíquias de S. Vicente coberta com um pano. 
Alvor Silves: este seria o painel dos reis ou de Avis, figurando, por ordem de sucessão, os 3 primeros reis da dinastia (João I, Duarte e Afonso V), de feições compatíveis com descrições ou outras imagens que temos deles, e atrás outros mestres da ordem religiosa.   
Painel dos Pescadores
Representa o povo anónimo, pescadores (ou navegantes), revelando a intenção do pintor incluir todas as classes sociais.   
Vemos um penitente com os cotovelos no ladrilho, com um rosário de contas iguais, provavelmente feitas com vértebras de peixe, 3 personagens envoltas numa rede de pesca com flutuadores de cortiça, e outros 3 indivíduos ao fundo.
O facto da malha da rede não ser observada em radioscopia, a técnica rápida e pouco persistente, e a escassez de pigmentos, sugerem que foi pintada mais tarde, por outro pintor.
Alvor Silves: aparece penitente  o beato Nun'Álvares (morto bastante velho), seguido por uma mulher que pode ser a sua filha (avó de Beatriz de Viseu) ou a bisneta (irmã de Beatriz e mãe de Isabel a católica) - ostentando uma rede, onde foi posto o corpo do príncipe falecido. 
Painel do Infante
São Vicente (ou, em alternativa, a essência espiritual de Portugal), paramentado com dalmática e manípulo, de cabeça nimbada e com barrete, abre um missal a um jovem. O homem de chapeirão borgonhês é D. Henrique o navegador. Duas senhoras e um grupo de homens compõem a cena.
Outros vêm um composição diferente: o homem de chapéu flamengo é D. Duarte, o ajoelhado é o seu filho Afonso V, e a criança de barrete com botões (a única outra figura com barrete composto é, outro painel, ele próprio em adulto) é o seu neto João II; do outro lado, as respectivas mulheres de Duarte e de Afonso, Leonor de Aragão e Isabel de Coimbra - esta com mangas assimétricas e abrindo as vestes, onde alguns encontram uma alusão à passagem menina-mulher, aos genitais e ao sacrifício da virtude pela nação.
Alvor Silves: Aparece D. Henrique, semelhante (embora envelhecido) à sua imagem que aparece nas Crónicas dos feitos de Guiné de Zurara, de 1453. Do mesmo lado aparece o rei João II (com 36 anos) e uma criança (de 10), na sucessão do pai. Do outro lado vemos a rainha Leonor (33 anos) e a Beatriz de Viseu (com 61 anos, tia do rei, mãe da rainha e de D. Manuel), parecidas com outros quadros da época. Todos ainda vivos em 91, e com mãos desunidas! Aparece ainda, ao lado e acima de D. Henrique, o seu irmão Afonso, 1º duque de Bragança (avô de Beatriz e genro de Nun'Álvares), com as mãozinhas juntas.
João olha para a sogra [eu acho que é para o livro], tia de Isabel a Católica e com papel fulcral na política ibérica e de sucessões.
Painel do Arcebispo
O santo segura um livro e uma vara dourada, tendo aos pés um molho de cordas. À volta, cinco cavaleiros (2 com armaduras de aparato e 3 com gibões) empunham lanças ou espadas embainhadas. No plano afastado, vários sacerdotes e outros dignitários rodeiam um (arce)bispo e o cónego arcediago com o báculo.
Na outra versão, voltam a aparecer João II (de verde e barrete composto), agora adulto, e um Afonso V envelhecido, sob o olhar censório da figura que ostenta o bastão da justiça, rei que morreria arrependido de todos os seus erros, incluindo ter lutado com o tio regente. A corda significaria a unidade da nação, ameaçada com as derrotas contra castela, e as cedências à traidora casa de Bragança.  
Alvor Silves: a corda representa as navegações, S. Vicente opta por Vasco da Gama em deterimento de Diogo Cão na gesta da Índia; acima figuram o Duque de Viseu (morto pelo cunhado João II) de cabeça descoberta, um cardeal morto, quiçá D. Pedro de Noronha, e talvez os bispos próximos do rei (de Coimbra, Tânger e Algarve) e o prior do Crato.  
Painel dos Cavaleiros
Nos 2 primeiros planos, 3 cavaleiros (2 deles com gorro) vestem ricos trajes de corte e estão armados com espadas. A seguir, uma figura barbada, com capelina de aço e ouro, precede 4 eclesiásticos com sobrepelizes e barretes roxos.
Na referida versão, os 4 cavaleiros são os irmãos mais novos de D. Duarte: de negro, capacete mouro (reflectindo uma janela moura), cabelo e barba comprida, emagrecido, o Infante Santo, Fernando, que aceitou trocar com Henrique e ficar como refém na derrota de Tânger; de vermelho e espada cruzada no peito, símbolo da Ordem de Santiago, o seu mestre, Infante João, que apoiou Pedro para regente durante a menoridade do sobrinho Afonso V, contra as intenções dos Bragança; de verde e cinto cruzado no peito (Ordem da Jarreteira), acima dum sinete(?) alusivo à casa de Bragança - simbolizando que a casa de Aviz estava acima dela na pretensão ao trono -, o Infante Pedro, o das 7 partidas; de roxo (a cor da vergonha), com o cinto cruzado ao peito (Jarreteira) desapertado e com furos desalinhados, sob o sinete(?) símbolo dos Braganças - assim subalterno -, o Infante de Sagres, Henrique, o único que se aliou na Alfarrobeira aos Braganças, contra o seu irmão Pedro, regente.         
Alvor Silves: em 1º plano aparece D. Pedro, o regente vencido pelo sobrinho Afonso V na Alfarrobeira - banido do 3º painel, onde estão os irmãos Afonso e Henrique. Depois viriam o Infante João (deveria ter as mãos unidas, mas traz luvas verdes), o Infante Fernando de Viseu (sogro de João II) e o Infante Santo.
Painel da Relíquia
Uma personagem mostra uma relíquia num veludo verde. Ao lado dum mendigo, um homem com samarra escura e uma estrela no peito, abre um livro. Atrás, um esquife e 2 eclesiásticos de sobrepeliz.
Alvor Silves: aparecem os 2 sábios de confiança do rei, o físico-mor mestre Rodrigo de Lucena e o matemático judeu mestre Josepe. A relíquia, um fragmento de osso craniano, simboliza o sucessor defunto, ou a fractura na continuidade sucessória.
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sexta-feira, 8 de julho de 2011

DE QUAL FILHO GOSTAS MAIS?

  o comuna e o reaça

Nas últimas eleições, à porta da assembleia de voto, Helena Sacadura Cabral fugiu duma jornalista dizendo que não estava ali na condição de mãe de ninguém, apenas de cidadã. A sobrinha do aviador pouco fala de política e, aliás, diversas vezes expressou o desprazer em ter filhos políticos.
O que nunca disse foi com qual dos dois, em polos opostos, mais se identifica politicamente.
Um mistério: por um lado, a sua personalidade irreverente talvez a inclinasse para a esquerda; por outro lado, Miguel chateou-se com a mãe aos 13 anos e foi viver com o pai Nuno Portas, um dos fundadores do MES, enquanto Paulo viveu sempre com a mãe - a educação podia explicar a identidade política.
Pois descobri um comentário seu a um post sobre Sá Carneiro, num blogue (http://duas-ou-tres.blogspot.com/2009/12/sa-carneiro.html), precisamente às 21.01 horas de 6.12.2009:

Conheci Sá Carneiro que, infelizmente para mim, conduziria um dos meus filhos para esse campo pantanoso da política.
O outro, veja-se, acabou por ir para lá, por influência minha...
Aos 12 anos, um foi preso pela Pide. Far-se-ia comunista.
Aos 15, o outro, tinha um processo político em Tribunal. Salvou-o a idade!
O comunista deu ao PC dezoito anos da sua vida. O protegido de Sá Carneiro seria um dos primeiros militantes do PSD e lá esteve até ao desastre de Camarate.
Hoje, um é bloquista. O outro, centrista.
Que me teria acontecido se Sá Carneiro não tem morrido?!

Acho que dá uma pista...

quinta-feira, 7 de julho de 2011

MONEY MAKES THE WORLD GO ROUND


O dinheiro assemelha-se a um sexto sentido
sem o qual não podemos fazer
o uso completo dos outros cinco.
Somerset Maugham em A Servidão Humana

1 DOLAR
Já se sabe que dezenas de milhões de americanos não têm seguro de saúde, e não a podem pagar do bolso. Há umas semanas, um homem de 50 anos viu-se com vários problemas graves de saúde e teve uma ideia: chegou a um banco, aproximou-se duma caixa e susurrou "isto é um assalto, passe para cá 1 dolar".
Razão, queria ser preso, porque o Estado paga os cuidados médicos dos reclusos. A história foi transmitida pelos media, o homem entrevistado na county jail: só queria ser condenado, mas não queria fazer mal a ninguém.
O Juiz concordou em castigá-lo... com a libertação.

6.4 MIL MILHÕES DE EUROS
É a verba já gasta pelos portugueses no euromilhões. Ser o país que mais participa no jogo não quer dizer que há uma folga de dinheiro para o divertimento, mas antes a falta dele. E uma questão de fé.

22 MIL MILHÕES DE EUROS
No século XI, o rei Travancore construiu o templo Sree Padmanabhaswamy, consagrado ao deus Vishnu. Contavam-se histórias sobre um tesouro lendário aí guardado, enterrados pelos marajás da família, a somar às doações do povo.
Um advogado, Sundar Rajan, pôs uma acção no tribunal, questionando a segurança do templo gerido por descendentes do rei. Por ordem do supremo tribunal, funcionários entraram no templo e abriram algumas câmaras, onde se descobriu um tesouro colossal com milhares de colares e correntes antigos , peças de ouro e prata e pedras preciosas (de tal forma que, explicou Rajan, "como não podiam contabilizar o valor, está a ser pesado"), escondido há mais de 140 anos, e longe da vista - uma das portas estava fechada há 136 anos, de acordo com os registos do templo. E ainda não conseguiram aceder a todas as salas...
O supremo tribunal ordenou que ordenou que a partir de agora o templo fosse gerido pelo Estado, para garantir a conservação dos bens ali encontrados. alarmes, câmaras e 100 guardas vigiam o templo, 24 sobre 24 horas.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

MORREU A VIZINHA DO LADO

23.03.1952-06.07.2011

Maria José Pinto da Cunha d'Avillez Nogueira Pinto, de sangue bem coado e salazarista (filha de Luís Maria de Avillez de Almeida de Melo e Castro e de Maria José de Melo Breyner Pinto da Cunha) morreu, com a serenidade e o conforto da fé: a sua crónica de despedida (como avisou ontem à noite), enviada hoje de manhã para ser publicada na página do costume, e onde relembra familiares e faz um balanço de vida, acaba com "como o Senhor é meu pastor, nada me faltará". 
Muita gente foi surpreendida na semana passada, quando compareceu muito magra na SIC notícias.

Era, a par do marido Jaime Nogueira Pinto (adepto, à data, duma federação de Portugal com as colónias, e com quem partilhava uma "grande cumplicidade e a extrema atenção dos amores sem cura", como escreveu numa foto do casamento), uma das vozes de direita mais eloquentes e com maior consistência ideológica desta democracia, num país onde ser de esquerda é que dá orgulho. Defendia a reorganização das direitas e o repescar das ideologias, que continuam "cá todas", tão vivas como antigamente.
Foi uma mulher "com causas, com cultura e com mundo" (mais um chavão de Portas), mas particularmente de combate, desde a caloira de Direito que furou sozinha uma greve aos exames em 69, até à última sessão parlamentar a que assistiu, onde ajudou a eleger outra mulher presidente da assembleia - não por quotas, mas por mérito.
Face às derrotas políticas, por cargos e por causas, respondeu "A única coisa importante é podermos responder à pergunta onde é que tu estavas quando isso aconteceu? O que é preciso é cada um estar no seu lado da barricada" (Sol, 22.5.2009).
O seu percurso, boa parte dele na área social, foi tão rico quanto contundente: assessora da ministra da saúde Leonor Beleza, directora da maternidade Alfredo da Costa, vice-presidente do Intituto Português do Cinema, subsecretária de Estado da Cultura de Cavaco Silva (batendo a porta a Santana Lopes, por causa da pala do estádio do clube de ambos*), consultora da Gulbenkian, presidente da Fundação para a Saúde, deputada, líder parlamentar (depois de Portas não ser eleito, e dizendo que este até perderia para o rato Mickey), candidata derrotada a presidente do CDS (num congresso onde ficou famosa a frase "Você sabe que eu sei que você sabe" dirigida a Lobo Xavier - e só os 2 saberiam do que estava a falar...) e presidente do seu Conselho nacional, provedora da Misericórdia de Lisboa, candidata derrotada e vereadora da CML com o pelouro da habitação social, deputada independente do PSD em funções.
Tem uma nódoa no curriculum, o pouco educado epíteto de palhaço que endereçou ao deputado socialista Ricardo Gonçalves. Ela bem elegeu como virtude indignar-se e como defeito ser excessiva (revista Única, 6.11.2010).

Esta é a mulher pública. Mas para mim é também a vizinha de Carmona, e dona do cinzeiro do meu aparador. Passo a explicar:
Carmona (agora chamam-lhe Uíge), Angola 1974. Mudámos para o prédio** ao lado e foi um casal para a nossa casa. Como o marido era militar e mudava de posto, acontecia que os baús com as "coisas" chegavam mais tarde, de barco. Com a casa desfalcada, à "Zézinha", que teria uns 22 anos, foi necessário emprestar lençóis, talheres, passevite, ... e telefone: ligavam de Lisboa, desligavam, o criado ia chamar a vizinha, que se sentava no chão, esperava o triiim e tinha conversas esquisitas, cifradas, balbuciando termos como frigideira ou cafeteira. Tempos agitados.
E, certo dia, o militar desertou escondido num camião de café e fugiram [para a Madrid franquista, passando por um campo de refugiados na Namíbia, pela África do Sul, onde teve que vender as suas jóias Cartier, e pelo Brasil, onde vendeu enciclopédias porta-a-porta]. Ficou um bilhete de agradecimento, oferecendo um cinzeiro que deixara numa mesa  - o tal que veio parar à Senhora da Hora. Tudo o resto foi apressadamente empacotado por uns amigos fazendeiros.
Em Lisboa, a minha mãe procurou Avillez na lista telefónica e acertou à 1ª no número da mãe. Regressada do exílio, a Zézinha telefonou e voltaram a encontrar-se. Até que um dia a minha mãe chegou a casa, da baixa, e a sua avó informou que uma Zézinha tinha ligado - esquecera-se que combinara ir lanchar a casa dela, com as crianças.
Calhou nunca mais se verem. Poderia dizer Bogart no Casablanca, foi o fim duma bela amizade.

* Sucintamente, o LNEC disse que a cobertura podia cair, ela proibiu espectáculos, Santana autorizou concertos sob a promessa de conserto da pala, esta foi reforçada e o já idoso Engº Edgar Cardoso andou aos pulos em cima da cobertura, assegurando que era mais segura que o viaduto Duarte Pacheco.
** O senhorio (e colega), de nome Machado da Graça, poderá ter parentesco com a nova ministra da Agricultura, Assunção Cristas, nascida em Luanda. Mundo pequenino.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

EOLO DECIDIU A PELEJA


9 de Maio de 1588. Esperando que o tempo melhorasse e tudo estivesse pronto, as cordas presas, as tábuas pregadas e os baús nos porões, os barcos (43 deles portugueses, incluindo 9 dos melhores galeões) zarparam de Lisboa, com 20 a 28 mil marinheiros e soldados, e 123790 balas de canhão. Aquela herege da ex-noiva havia de sentir o ferro do país mais poderoso do mundo, ao serviço de Deus Nosso Senhor. Ou não fosse esta a grande e felicíssima armada...

Por essa altura ninguém conhecia a lei de Murphy, mas ela já dava provas: se alguma coisa pode dar errado, ela dará.
Para começar, o atraso de 1 ano: um vendaval destruíra várias embarcações ancoradas em Lisboa, enquanto a peste se propagava nas docas. Em Fevereiro, morreu o almirante que empreendera a frota, obrigando à sua substituição por Medina Sidónia, que não era marinheiro.
Depois foi a falta de vento na costa portuguesa - a frota demorou 19 dias só para sair de Belém e passar a barra do Tejo-, o vento que empurrou parte da frota para o Algarve e uma tempestade no cabo finisterra, que separou a armada. Paragem de 1 mês na Coruña, para reagrupar.
30000 soldados do duque de Parma deviam ser apanhados em Dunquerque, mas os insurrectos holandeses bloquearam o porto. Um grande contratempo, mas a vantagem permanecia.


Entre 29 de Julho e 6 de Agosto, as duas armadas mediram-se de longe, com incursões esporádicas bretãs e troca de bolas de canhão.
A 7 de Agosto, enquanto fundeava em Calais, a frota foi arremessada com 8 barcos em chama, largados pelos ingleses a favor do vento e das marés.
O pânico dos paquidérmicos barcos do Rei (quem cortou as âncoras viria a pagar por essa precipitada decisão) e a perda da formação em meia-lua permitiram o assalto dos ilhéus, em pequenos mas velozes barcos, mas com maior alcance de tiro, numa espécie de toca-e-foge, ou cercando barcos isolados.
Mas a maior frota do mundo não conseguiu ripostar, pois o vento arrastou-a para norte, sem amainar, apesar dos seus desesperados esforços para se aproximarem dos barcos bretões, e atacá-los de barlavento e a pequena distância, como bem instruíra o Rei prudente. Em vão.


Passaram dias, os animais adoeceram, o escorbuto e o tifo fizeram o papel da Ceifeira, a comida estragou-se e uma humilhada frota foi obrigada a contornar as ilhas.
Não resistindo às costumeiras tempestades de Setembro, mais de 50 navios afundaram na implacável costa da Irlanda (só 5 haviam perecido na batalha de gravelines): poucos dos que chegaram às praias escaparam a execuções sumárias, fugindo pela católica Escócia.
A Santander chegaram galeões desconjuntados, com cabos a prender as velas, e um almirante agónico. Dos 130 navios (22 galeões e 108 navios mercantes adaptados), aportaram entre 35 e 53.
Foi castigo pela soberba, ou acaso climatérico: terá dito o desolado Filipe II "não mandei os meus navios combater os elementos".

Mas imaginem que o dia ´tava bom e o vento de feição. Fosse vitoriosa a armada invencível (termo jocoso inventado pelos ingleses), a história do mundo seguia por outra porta, e tinha que ser rescrita.
Olhem, o william não tinha conhecido a kate.

A MINHA VIDA NÃO É ISTO (parte 4)


Tenho um amigo que tem um conceito apurado de probidade, no geral. Como eu, critica o desgoverno do país, os abusos do RSI, o enriquecimento de quem parte e reparte, os favores e os robalos.
Como milhares que ponderam emigrar deste país sem futuro, contou-me há dias que vai à Suíça tentar arranjar emprego, onde (diz) o salário mínimo é de 1500€. E correu assim o diálogo:
- E ainda pagam mais 300 ou 400€ para quem tiver filhos.
- Mas levas o teu miúdo?
- Não, mas eles não sabem.
- Ouve lá, isso não uma chico-espertice? Vai daqui o tuga e engendra logo esquemas.
- Para eles não é nada, e estamos a falar dum país que prosperou a guardar dinheiro roubado por ditadores, é o ouro judeu, é a conta-poupança de Mogabe. Não tenho pena deles.

Havia muito a dizer sobre a lusa alma, ou sobre as justificações-barra-desculpas que desencantamos, mas eu pensei, pensei, pensei e, como o professor baltazar, tive uma ideia:
As pessoas de quem gostamos não têm defeitos,
têm idiossincrasias.
.

A MORDAÇA




O DRAMA DE UM PODE SER UMA TRAGÉDIA,
O DRAMA DE MILHÕES É UMA ESTATÍSTICA.

Orlando Figes já pos no prelo seis livros, todos sobre a Rússia. Um deles, há pouco publicado em Portugal, chama-se
Susurros - A Vida Privada na Rússia de Estaline.
Com esta obra, o historiador colige milhares de histórias pessoais, em primeira mão, recolhidas por uma equipa de investigadores, sobre o terror e as purgas estalinistas, e o medo que obrigava as pessoas a sussurrar e/ou a denunciar.
Em vez da estatística, tipo "O livro negro do comunismo" - 25 milhões objecto de repressão, 3 milhões de fuzilados, 4.6 a 8.5 milhões de mortos -, Figes mostra as tragédias individuais e dá nomes às vitimas: pessoas que esconderam (até reciprocamente) aos cônjuges o parentesco com "inimigos do povo", que perderam os pais nos gulags, que não falavam alto nem na solidão dos lares. Histórias de sobrevivência e, principalmente, sobre o Medo com letra grande, que ajoelhou 200 milhões de russos.
Medo duma palavra mal escolhida ou mal ouvida, medo dum bater à porta, medo do cunhado cobarde, do vizinho invejoso ou do colega despeitado, qualquer deles um possível delator - fosse o camponês mais modesto, fosse um alto membro do politburo, subitamente caído em desgraça.
Um misto de lotaria e dum jogo da cabra-cega.

Generoso, o historiador pôs à disposição na sua página (http://www.orlandofiges.com/) fotografias, algumas escondidas durante décadas em gavetas falsas ou debaixo do soalho, relatos e videos, organizados por protagonistas do livro.

terça-feira, 28 de junho de 2011

OS NOSSOS BRÂMANES


Apesar de extinto oficialmente em 1950, a cultura hindu ainda não abandonou totalmente o sistema de castas na India.
Originalmente, as pessoas eram divididas em 4 grupos fechados (chegando a haver 3000 subcastas), de acordo com a sua posição social hereditária, que não podiam ser transpostos: os brâmanes (religiosos e letrados), os xatrias (guerreiros e governantes), os vaixias (proprietários agrícolas, comerciantes e artistas), e os sudras (servos camponeses, artesãos ou operários).  Os primeiros teriam nascido da cabeça do Brahma, os segundos dos braços, os terceiros das pernas, os quartos dos pés.
Fora do sistema sobravam os párias ou intocáveis, nascidos da poeira sob os pés do deus criador do universo, os adivasis (povos tribais) e os mechhas (estrangeiros).

Nós por cá também temos uma casta, endógena - embora o acesso seja permitido (sob convite, como no grémio), a permanência está garantida. São os políticos, aqueles que aparecem na televisão e milhares de outros incógnitos.
Para eles está reservado um mercado de trabalho exclusivo, imune a conjunturas económicas e distribuído mais ou menos independentemente da subcasta (partido). Pataca-a-mim, pataca-a-ti.
Esta casta está no topo da hierarquia, mas podia levar o cognome do grupo inferior hindu, os intocáveis.
Ora, o novo governo está cheio de independentes, mas abaixo de Secretário de Estado são "os do costume" e já está muita gente em campo, para manter ou ocupar largas centenas de lugares: por estes dias, devem haver um pico nas despesas em telemóvel (do serviço?) e restaurantes caros. Despesas de representação, certamente...
Uma coisa sei, há pessoas cuja profissão é dar uso à agenda telefónica.

Eu também fui almoçar, mas à fnac, com um amigo que está por dentro da política com minúscula. Apareceu um seu conhecido e a conversa acabou na "apanha dos tachos".
Contou ele que um secretário de Estado, dum ministério que não quis revelar, lhe contara que tinha tudo pronto para trocar um director qualquer, e que recebera 4 telefonemas, "de áreas políticas distintas" para mandar parar a substituição - o que sucedeu.
O meu amigo, reparando que me engasgara com o sumo, perguntou "Estavas à espera de quê? Vai-se a ver e é da opus dei."
Tá bem, já tenho idade para não ser ingénuo.
Mas ainda estou na idade dos porquês: não sei de o termo "mandar" foi usado, ou foi imaginação minha, mas o que faz um governante acatar ou ceder perante telefonemas, alguns deles de pessoas de outros partidos? Pode ser que, no ano seguinte, seja ele a fazer 'o' telefonema? Por ser da mesma casta?

segunda-feira, 27 de junho de 2011

TÁ UMA MENINA


A minha boneca acabou a primária há dias, e agora vai para o ciclo.
Podia escrever que o tempo passou numa penada, "que me lembro dela assim", afastando as mãos dois palmos. E não faltava à verdade.
Mas também podia escrever o contrário, passaram muitas coisas, muitas "viroses", muitos aniversários, muitas viagens, muitas T-shirts. A primeira sopa (começamos mal), a primeira palavra, o primeiro dente (vieram mais 27 de leite e uns 8 definitivos, sendo que metade de dois deles ficaram num poste que "veio contra ela"), o primeiro passo, a última fralda, a bicicleta sem rodas, a junção das letras, os patins, o karaté, o futebol, o cavalo, a natação, o ténis, a escola. Etcaetera.
Lembramo-nos mais facilmente da história do filho mais velho, por 2 razões: a história dos outros é sempre partilhada, e as suas primeiras coisas acontecem pela pela segunda vez.
Bem, não interessa para aqui o inventário. Acontece que a miúda teve direito a um canudo e uma cartola, por acabar a primária. E já vai na segunda, teve outra cartola quando "acabou" a creche - já me ultrapassou, e não fica por aqui: por este andar, e se tudo correr bem, ainda recebe uma cartola por acabar o ciclo, outra pelo secundário e mais duas na faculdade bolonhesa, pela licenciatura e pelo mestrado. Uma chapelada.
Muito precoce? Estamos a falar duma criança de 10 anos, prester a receber o seu primeiro telemóvel (não vá ficar incontactável na escola do outro lado da rua...), que nunca passou uma rua sem vigilância parental.

domingo, 26 de junho de 2011

GORBACHEV FOI FELIZ

Михаи́л Серге́евич Горбачёв ou Mikhail Serguéievich Gorbachev nasceu em 1931, aderiu ao PC aos 21 anos, casou e licenciou-se aos 22, tornou-se economista-agrónomo aos 35.
Em 1970 torna-se 1º secretário da agricultura, em 72 entra para o comité central, em 74 no soviete supremo e em 79 no politburo, à sombra do conterrâneo Yuri Andropov. Com a morte deste líder e do seu breve sucessor, Chernenko, ascendeu a secretário-geral do PCUS em 11.03.1985.
No congresso do ano seguinte, Gorby fez história anunciando a glasnost e a perestroika - transparência e reestruturação. Em 1988, renegou a doutrina Brejnev, admitindo a opção dos povos pela democracia e recusando dar cobertura aos líderes comunistas do bloco de leste, o que acelerou o corrupio de revoluções, como milho numa panela, poc-poc-poc.
Convicções porventura ancoradas em algumas viagens ao ocidente, a consciência do fiasco do regime, posto a nú durante o desastre de Chernobyl, o facto de ter como interlocutor  um cativante e distendido Reagan, tão capaz de engrossar a voz como de fazer compromissos, e cuja despesa militar não podia acompanhar, tudo isso explica a sua abertura.
Em Agosto de 91, ficou 3 dias em prisão domiciliária na sua dacha da Crimeia, durante um golpe de Estado que fracassou e donde emergiu um herói, Iéltsin, tornado líder de facto - depois de humilhações públicas, no dia de Natal, Gorby resignou e a bandeira soviética foi retirada do mastro.
Visto como coveiro do comunismo por um ocidente agradecido, Gorby não deixou boa memória nos russos: associado à crise económica e à depressão nacionalista, com a desagregação da URSS e satélites, teve menos de 1% nas presidenciais de 1996.

O Nobel da Paz de 1990 esteve esta semana no Minho, em Arcos de Valdevez, onde foi homenageado. Numa entrevista da RTP, a jornalista perguntou-lhe, num rescaldo dos 80 anos, se fora feliz.
Respondeu o estadista, "Os reformadores nunca ficam felizes" e respondeu o homem: "Sim, muitas vezes. apesar de ter sofrido muitas perdas. A maior alegria para mim e para a Raisa [falecida em 1999], foi termo-nos conhecido. Amávamo-nos, casámos e vivemos sempre lado a lado. Esta felicidade pessoal foi compensadora." Em idade para balanços, é o homem que conta.

Gorbachev foi, pelo menos, 15 vezes capa da Time. Uma espécie de powerpoint da sua meteórica passagem pelo poder.  

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