Quando vamos à cata de caricaturas do século XIX, é impossível não dar de caras com o pasquim humorístico "O António Maria", uma espécie de antepassado d' O Inimigo Público. O título levou o nome próprio de Fontes Pereira de Melo, os desenhos têm a traça de Rafael Bordalo Pinheiro e a escrita o cunho de Guilherme de Azevedo e, depois, de Ramalho Urtigão.
Com circulação nos períodos 1879-1885 e 1891-1898, fundado e dirigido por RBP, prometeu fazer “em prosa e verso, á penna e a carvão, a silhouette da sociedade portugueza do ultimo quartel do seculo dezenove”, não havendo outro remédio "senão ser opposição declarada e franca aos governos, e opposição aberta e systematica ás opposições, o que não o impossibilita de ser amavel uns dias por outros".
O primeiro (e delicioso) número, depois do "estatuto editorial", traz a seguinte notícia:
"O governo n'este momento de crise, resolveu fazer um leilão de toda a mobília dos ministerios e comprar outra para seu uso.
A venda consta de:
Um lote de governadores civis com as molas pouco seguras.
Vários directores geraes de mogno para sala de jantar.
Alguns deputados e alcatifas.
Generaes de brigada retocados.
Um comissario de policia com algumas deteriorações.
Um par do reino de coiro com o fundo um pouco usado.
E o competente serviço de cosinha, composto de caçarolas, amanuenses, panellas, chefes de repartição, frigideiras, moços fidalgos, barris do lixo, economias, etc."
Por milagre da tecnologia, todas as edições estão disponíveis para consulta pelos mais bisbilhoteiros (http://hemerotecadigital.cm-lisboa.pt/Periodicos/OAntonioMaria/OAntonioMaria.htm.
"Para certos republicanos a República tem sido um pé de cabra com que vêem aumentando os seus haveres." Senador João de Freitas, histórico republicano, in Boletim parlamentar do Senado, 11-06-1913
sábado, 25 de junho de 2011
APOIADO
AS ELEIÇÕES SERVEM PARA
DEVOLVER O PODER AO POVO,
NÃO PARA PERMITIR
O ROTATIVISMO DAS CLIENTELAS.
Cavaco Silva, tomada de posse do governo de Passos Coelho, 21.6.2011
Bem a propósito, o Expresso de hoje conta que as estruturas do PSD já têm listas de boys a nomear, e atribuí à líder do CDS-Beja, Sílvia Ramos (fora com ela!), a frase "este é o momento de se correr atrás de lugares".
Uma longa pateada.
sexta-feira, 24 de junho de 2011
RESCALDO
HÁ DERROTAS CARREGADAS DE FUTURO
Miguel Relvas
O Cardeal-patriarca de Lisboa, dom Policarpo, disse não ser doutrinalmente contra o sacerdócio das mulheres, mas que isso aconteceria "quando Deus quiser". Calha bem acreditar na providência divina, mas se ele e outros como ele não mexerem no assunto, é o mesmo que atirar o problema para as calendas gregas - não havendo calendas no calendário grego, é uma espécie de dia de são nunca à tarde.
Já Louçã não pode invocar a intervenção divina, e empurrar problemas com a barriga.
Mas é isso que o BE tem feito na digestão do fiasco eleitoral, quando um eurodeputado abandona a bancada, Portas e Cª pedem a saída dos fundadores, a ala direita (cruzes credo) critica a táctica de mimetismo do PC e a ala esquerda da ruptura-FER (sigla arrepiante que ainda inclui a palavra 'revolucionária') pede uma convenção: agora far-se-á um debate interno, logo se vê se o congresso é antecipado.
Maus ventos para aquela banda: o problema não se resume a falhas como a balda à troika, a incógnita é o futuro. Manter uma direcção cristalizada ideologicamente (Louçã é líder há 40 anos, ininterruptamente), ou renovar? Manter a recusa de pontes com um PS 'pecador' porque pragmático, ou ser "o CDS à esquerda", como bem colocou João Teixeira Lopes? Sabem a minha opinião, é preferível influenciar um governo fazendo parte dele, mesmo engolindo propostas alheias, do que vetando projectos na AR.
Enquanto o partido cresceu, os críticos calavam ou falavam baixinho, ao primeiro trambolhão cai a máscara: uma holding mal colada de facções e tiques autocráticos, por vezes lembrando as acusações de desvios burgueses de antanho.
Para os lados do PS, a leveza do ser: Sócrates foi eleito há meses com uma votação esmagadora, à albanesa. Hoje, o seu único quase-crítico, António José Seguro, arrebanha as hostes socráticas: 15 direcções das 18 federações, 2/3 dos presidentes de câmaras socialistas, Alberto Martins, António Serrano, Renato Sampaio, Luís Bernardo,...
quinta-feira, 23 de junho de 2011
MÁSCARAS DE VENEZA
O Carnaval de Veneza está para o do Rio, como um Maybach para um Porshe.
Há que aponte o aparecimento desta festa para 1094, quando o Doge instituiu a festança do carnis laxatio (abandono da carne), ou para o decreto de feriado na 3ª feira antes da quaresma em 1296; outros indicam 1162, na 6ª feira gorda, para festejar uma vitória militar; outros ainda defendem o ano de 1268, quando é pela primeira vez documentado o uso de máscaras - nesse édito, foi proibido o "jogo dos ovos".
No século XIV, a festa sofreu um efeito 'duracell': começava em Outubro, coincidindo com o início da época teatral, parava no advento (4 semanas antes do Natal), recomeçava a 26 de Dezembro e só acabava na 3º feira antes da quaresma.
E, para um bom regabofe, nada como o anonimato dos trajes e das máscaras. A ponto de, nesse século, ser proibido o uso de máscaras à noite, em conventos e igrejas, por causa das "imoralidades" (a pena de multa e prisão até 2 anos não demoveu todos, mesmo fora das festas) e, em 1608, ser declarado que as máscaras eram uma ameaça à república sereníssima. É que, está bom de ver, as gentes aproveitavam os disfarces para o jogo, assassínios, adultério e sedução de donzelas e noviças.
Ganhou tradição no século XVII, quando a nobreza descia dos salões e se misturava como o povão, no meio de saltimbancos, animais amestrados, músicos, marionetas e actores, em particular da commedia dell'arte - do Arlechino, Columbina & Cª.
Suspenso em 1797 (quando a cidade foi integrada no império de Napoleão), só reapareceu oficialmente em 1979.
Algumas máscaras ganharam fama, como a bauta (meia-máscara, que permite comer e beber), a feminina moretta (presa pelos dentes, o que impedia as damas de abrir a boca) ou a mattaccino dos atiradores de ovos - que resistiram à proibição. Os materiais, papel maché, seda ou couro.
Os tradicionalistas usam as mashera nobile (brancas), um traje de seda negra e tricórnio. Outros escondem-se com máscaras prateadas ou douradas e trajes oitocentistas. E outros ainda são criativos e arriscam modernices. Mas a "macedónia" é rica e elegante. São 10 dias de festas e desfiles, num cenário magnífico e inigualável.
Convenhamos, tem patine.
quarta-feira, 22 de junho de 2011
NOTAS DO 1º CONSELHO DE MINISTROS
(escrito no moleskine dum ministro)
21.06.2011
1. O Pedro deu-nos as boas vindas e alertou que o trabalho seria árduo e pouco popular. De tal forma que poderíamos ser quase um conselho de guerra.
2. Por sugestão de Portas (deve ter medo das Secretas estrangeiras hihihi), a primeira decisão é tratarmo-nos pelos apelidos desconhecidos, como aquele árbrito usou nos bilhetes para o Brasil pagos pelo FCP: o Sacadura, a Von Haff (não engana, a Paula T. da Cruz é a única loira), o Paulo Macedo é daqui para a frente o Moita, o Nuno Crato é o Arrobas, o miúdo Mota Soares é o Ruço, o Moedas é o Félix, o Miguel Macedo é o Silva, a Cristas é a Graça (ficou a Gracinha, afinal é a nossa bebé).
Eu sou o Caçola, mas quando chegou a minha vez ouvi o Ruço a sussurrar 'ele representa as bases, podia ser o básico', atirei-lhe a minha bic-laranja à tola e disse-lhe "toma esta, a que usaste na tomada de posse não tinha tinta".
Quando o Vitor Gaspar disse que se chamava Louçã Rabaça (explicámos ao Álvaro, que vive há 13 anos no Canadá, que é mesmo primo d'O Francisco), foi um pagode. Hã? despertou o Arrobas, entretido a escrever teoremas. O BE deve estar eufórico, o Louçã ficou com as finanças e o Portas com o MNE :).
Como o Pedro não tem apelidos secretos, e diz que era o candidato mais africano, ficou o retornado.
3. Discutiu-se o facto de haver ministros com 2 ministérios, e o que isso significa na diminuição de cargos. Por agora não vai haver mudanças, dois gabinetes, 2 grupos de secretários de Estado, de assessores e de secretárias. Depois logo se vê, o que interessa é passar a ideia da contenção.O miúdo perguntou se podia usar a Vespa nas deslocações, expliquei-lhe que é obrigatório ter motorista. "E não pode ser um sidecar?, insistiu. Garotada!
4. O Pedro teima que não vai nomear mais governadores civis. Chatice, já tinha tudo apalavrado.
5. Quanto a medidas, o Rabaça vai hoje a despacho à troika.
Acho que não vamos ter mais nenhum conselho de ministros tão bem-disposto como este, não tivemos que resolver problemas que fomos nós que criámos.
segunda-feira, 20 de junho de 2011
ONDE ESTÁ O WALLY?
Lio Bolin (1973) é um artista chinês que, enquanto não faz umas obras, gosta de desaparecer na imagem. Camuflado.
Freud explica.
forklifts 2008
road block 2007
Hiding in the City No.91 - Great Wall
ponte di rialto 2010
Teatro alla Scala 2010
National Archives (Hide in the City - Paris - 06) 2011
SHI JINDIAN
Foi por intermédio do artista Luís Qual que fiquei a conhecer Shi Jindian.
É chinês, mas deve ter uma costela de Gondomar, os seus trabalhos em arame são pura filigrana.
'Diz que é uma espécie de' Joana Vasconcelos, alia a criatividade a um demorado labor. Deve dar uma trabalheira, mas o efeito visual resulta.
sexta-feira, 17 de junho de 2011
OLÁ PAI, SOU MINISTRO
Mimetizando Dias Loureiro, no tempo do outro senhor, 11 pessoas podem ter telefonado lá para casa a dar a boa nova, são ministros - só dois podem ligar e dizer 'sou outra vez ministro', Portas (Defesa) e Aguiar Branco (Justiça). Passos queria 10, Portas 12, foi salomónico: mas se a redução em 5 ministérios (Cultura, Presidência, Ciência e Ensino Superior, Obras Públicas, Ambiente) for compensada por um enxame de Secretários de Estado, não haverá poupança, apenas cosmética. Mulheres só duas, na agricultura e na justiça - nada de pastas sociais, ambiente ou cultura. Governo sem estrogénio, mas jovem: dois ministros com 36 e 37 anos (Cristas e Mota Soares), oito em escadinha dos 46 aos 53 e um ancião de 59: média de 47 anos.
Comecemos pelo CDS: Portas chega finalmente aos Negócios Estrangeiros, depois da nega de Sampaio há 9 anos, e leva como trunfos dois jovens turcos, um bom líder parlamentar, com cara de miúdo, e uma advogada que brilhou na área das finanças, a quem calha um mega-ministério com um título infindo. Política, política, política.
No lado do PSD, muita tecnocracia. Passos apresenta ministros expectáveis (Aguiar e Paula T. Cruz), põe o braço-direito Relvas no parlamento (mais juventude, desporto, reforma administrativa, autarquias,...), premeia o líder parlamentar com a pasta dos polícias e preenche a quota de independentes com pastas perigosas: dá a Saúde ao Homem-fisco, a educação ao filófoso-matemático e anti-eduquês, a economia ao Professor do Canadá que ganhou fama com a sua colectânea de números demolidores sobre Portugal, divulgada na net (repescada nestas bandas) e, finalmente, as Finanças a um discreto-barra-desconhecido - o povo à espera dos cabelos brancos do Catroga ou do director do BP, ou a careca de Bento, e sai um Gaspar, com curriculum bastante (director do departamento de estudos do BCE, chefe dos conselheiros da CE, consultor do BP), mas sem provado traquejo: tirando Macedo, os outros 3 serão bons a dar ideias, agora na prática... No mínimo, é muito arriscado.
Ah, dar a agricultura ao CDS é de mestre. Se resultar, é bom para todos, se fracassar, nunca mais esse partido pode encher o peito na defesa da agricultura. Lá se vai o nicho de mercado.
Primeiro-Ministro - Pedro Passos Coelho
Ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros - Paulo Portas
Ministro de Estado e das Finanças - Vítor Gaspar
Ministro da Economia e Emprego - Álvaro Santos Pereira
Ministro da Educação, Ensino Superior e Ciência - Nuno Crato
Ministro da Saúde - Paulo Macedo
Ministro da Solidariedade e Segurança Social - Pedro Mota Soares
Ministro da Agricultura, Ambiente, Mar e Ordenamento do Território - Assunção Cristas
Ministro da Defesa Nacional - Aguiar Branco
Ministro da Justiça - Paula Teixeira da Cruz
Ministro da Administração Interna - Miguel Macedo
Ministro dos Assuntos Parlamentares, Autarquias e Desporto - Miguel Relvas
Secretário de Estado da Presidência do Conselho de Ministros - Marques Guedes
Secretário de Estado adjunto do PM - Carlos Moedas
Secretário de Estado da Cultura - Francisco José Viegas
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terça-feira, 14 de junho de 2011
AH, NÃO TINHA REPARADO
LEVAI A SÉRIO TUDO O QUE QUISERDES,
EXCEPTO VÓS PRÓPRIOS.
Rudyard Kipling
Fernando Pessoa escreveu que "O poeta é um fingidor, finge tão completamente que chega a fingir que é dor, a dor que deveras sente".
Não é o meu caso, percebo tanto de poesia como Jesus de finanças, e não tenho a opacidade como defeito - ou virtude. Quem tenha a paciência de "folhear" este blogue fica a saber tudo o que acho, sem remorso e quase de forma exibicionista. Como um daqueles senhores que abrem a gabardine e expõem as "vergonhas" a quem passa na rua.
Chega para me dar a conhecer? Parece que não, é uma espécie de com a verdade me enganas.
Há dias, a bonita Dora disse-me "Vi o teu blogue, é giro, pena que sejas monárquico". Há meses, um dirigente do BE quis ser meu amigo no facebook quando viu um comentário meu, pensando provavelmente que eu seria um deles (brrrr), ou estaria em ponto de rebuçado para ser "doutrinado". Nos primórdios dum blogue colectivo onde participei, parece que fui considerado por um colérico "cliente" como cabecilha duma sinistra facção esquerdista-gay - mas fiz o pleno, depois fui acusado de reaça ultramontano, aquando da votação da proposta, por escrever que o casamento gay não me dizia respeito. E, no trabalho, vêem-me como um desbragado sindicalista.
Porquê o engano, pergunta-se este proclamado republicano e habitual votante do CDS?
Apesar de ser aborrecidamente convencional (junto aos autos o post nº 1), sou o que se chama heterodoxo - em minha defesa, só nos livros é que as pessoas não são um somatório de incoerências, e ainda bem. Dá-se ainda o caso de não ter posições inequívocas sobre todos os assuntos e, desgraça minha, ainda não domino a ironia, de forma a mostrar que estou a usá-la...
É tudo isso, ou enfado, prestam pouca atenção.
Hum, sou visto na diagonal.
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UMA GOTA DE ÁGUA
Ele há coisas que não se entende. Durante anos, um povo vai elegendo pessoas a contas com a justiça, cuja honestidade está maculada de dúvidas... até que um dia, como uma gota a mais num copo cheio, se fartam.
Por cá tivemos Fátima Felgueiras: fugiu para o Brasil quando um espírito-santo-de-orelha lhe segredou que ia ser presa, voltou a tempo de se recandidatar e ganhou, sem o apoio do seu partido - o que, na altura, valeu porrada ao agora candidato Assis.
Vinte e tal acusações no tribunal (foram caindo ao longo dos anos, bem à portuguesa) não chegaram para os felgueirenses acreditarem em sacos azuis, negociatas e peculatos, ou acharem que isso tinha importância. Mas, na eleição seguinte, plim, deram maioria absoluta ao partido da oposição.
Mais estranho é o que se passa em Itália.
Berlusconi fez aprovar leis que reduzem os prazos de prescrição e outras quase ad hominem para lhe garantirem a imunidade em vários de enriquecimento ilícito, corrupção, luvas, abuso de poder, falsos testemunhos, fraude fiscal e sobrefacturação de direitos de emissões televisivas do seu grupo Mediaset.
Com a mesma costela grosseira de Alberto João, proclamava uma cabala de juízes "vermelhos", que queriam tirá-lo do lugar onde os italianos o puseram, e prometeu uma CPI para averiguar se na magistratura (que disse ser o cancro da democracia) existe uma associação criminal e com objectivos subsersivos.
Mas o povo da bota foi-lhe renovando a maioria, como se nada passasse, ignorando (ou apreciando a virilidade do ancião) as alegadas orgias e falcatruas.
Até agora: há dias, Il Cavaliere sofreu uma humilhação nas autárquicas, perdendo os seus bastiões de sempre no norte; ontem, no único referendo vinculativo dos últimos 18 anos (Berlusconi apelou à abstenção, para que tal não sucedesse), 57% dos eleitores foram votar e 95% recusou a hipótese de Berlusconi continuar a baldar-se ao tribunal, alegando afazeres governativos - a passar, teria o cínico nome de "lei do legítimo impedimento".
Da mesma forma que lemos na imprensa estrangeira retratos redutores (quando não errados) da realidade portuguesa, é possível que os italianos vejam razões para votar nele, seja por causa duma oposição (até agora) esfrangalhada, seja por acreditarem que um homem bem sucedido na vida serve para o lugar,...
Algo aconteceu para o povo se fartar subitamente de Berlusconi. Uma das razões pode ter a ver com a igreja, que passou a reprovar a conduta do PM, no caso do sexo, entre outras, com a menor (embora não pareça) Ruby. Uma razão pouco abonatória, esperar que a igreja vire o polegar para baixo.
Como mirone pouco informado, espero que o egocêntrico cantor de cruzeiros (só um egocêntrico acredita que passa impune, ligando à polícia para soltar a prostituta adolescente, inventando que seria sobrinha de Mubarak) seja punido - se for culpado, no palácio da Justiça, e de qualquer forma nas urnas.
Em todo o caso, se fosse italiano, eu teria vergonha do meu PM.
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segunda-feira, 13 de junho de 2011
ANIVERSÁRIO DE PESSOA
13.06.1888-30.11.1935
Autopsicografia
O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.
Fernando Pessoa 01.04.1931
Liberdade
Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não o fazer!
Ler é maçada,
Estudar é nada.
O sol doira
Sem literatura.
O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como tem tempo, não tem pressa...
Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.
Quanto melhor é, quando há bruma,
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!
Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.
O mais que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca...
Fernando Pessoa 16.03.1935
Ode
Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.
Ricardo Reis 14.2.1933
sábado, 11 de junho de 2011
PORTUGALIDADE
NUNCA É POSSÍVEL ENCONTRAR O CULPADO:
É SEMPRE A SEXTA PESSOA NUM GRUPO DE CINCO.
Fernando pessoa, sobre os portugueses
Neste dia de Portugal, nem de propósito, Cavaco Silva lamentou o "menosprezo dos poderes públicos pela realidade do interior", a sua desertificação - tornando Portugal "um país desequilibrado, um território a duas velocidades" -, o abandono rural e a progressiva auto-insuficiência alimentar.
Estou baralhado. Não foi este homem-betão, PM durante 10 anos e PR durante 6, um dos principais capatazes das políticas europeias que atrofiaram a agricultura e as pescas, a troco de cheques-jipes?
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sexta-feira, 10 de junho de 2011
VIVA PORTUGAL
A 12 de Outubro de 1910, um decreto-lei da nascitura república reduziu os feriados nacionais a apenas 5 dias, como deve ser muito laicos e republicanos: 1 de Janeiro (dia da fraternidade universal), 31 de Janeiro (dia dos mártires da república), 5 de Outubro (dia dos heróis da república), 1 de Dezembro (dia da autonomia e da bandeira) e 25 de Dezembro (dia da família). Nada de padrecos e santinhos, nem no natal.
Permitiu esse decreto que cada concelho escolhesse o seu feriado municipal: Lisboa foi buscar a data (provável) da morte de Camões, 10 de Junho. Porquê? Porque 30 anos antes, as comemorações camoneanas foram uma das primeiras manifestações mediáticas dos republicanos.
O dia de Camões deu um jeitaço a Salazar, uma espécie de agit-prop fascista: começou como dia de Camões, acumulou com dia de Portugal e, entre 44 e 74, ainda deu para dia da raça. A partir de 63, porque não?, foi usada para celebrar as forças armadas.
Veio o 25 de Abril, caiu o dia da raça e, em 1978, estabilizou o nome, dia da Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas.
Digamos que é um feriado muito versátil e bem português, dá-se bem com todos, de Afonso Costa a António Ferro e Mário Soares.
Mesmo numa altura em que a auto-estima está de cama, Viva Portugal.
Viva.
terça-feira, 7 de junho de 2011
POESIA NO PARLAMENTO
criança geopolitica observando o nascimento do homem novo, Dali 1943
O acto sexual é para ter filhos – disse ele
Já que o coito – diz Morgado
Tem como fim cristalino
Fazer menina ou menino;
E cada vez que o varão
Sexual petisco manduca
Temos na procriação
Prova que houve truca-truca.
Sendo pai de um só rebento,
Lógica é a conclusão
De que o viril instrumento
Só usou – parca ração!
Uma vez, E se a função
Faz o órgão – diz o ditado,
Consumada essa excepção,
Ficou capado o Morgado.
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segunda-feira, 6 de junho de 2011
E O VENCEDOR É...
...Miguel Leal, quem melhor conhece as "massas" populares e, assim, feliz contemplado com um jantar no Cocharradas. No geral, os resultados foram mais extremos que as previsões, e nenhum dos áugures acertou em 3 dos partidos. Nem as sondagens. Não que estivéssemos errados, havia muitos que decidiram nos últimos dias, e massivamente num sentido.
Prognóstico no fim do jogo:
PSD: destacou-se apenas quando amordaçou o Catroga, o Moedas e o Relvas, e abandonou medidas concretas, dizendo o que ia fazer (despedimentos sem justa causa, privatizações...) e limitou-se a criticar o que o PS fez. Parte dos votos foram de rejeição do governo, portanto demérito do adversário. Subiu meio milhão de votos. Melhor em Boticas (67,85%), pior em Aljustrel (13,45).
PS: espalhou-se ao comprido e muitos socialistas ficaram em casa. Sócrates disse, há 6 anos, "se fizer o que devo, não sou reeleito". Desceu 8% em 2009 e outro tanto agora, mas não pelo que fez bem. Perdeu meio milhão de votos e teve o pior resultado desde 1987. Melhor em Vizela (50,6) e pior na Calheta (5,58).
CDS: o factor novo que não foi. Subiu 60 mil votos, teve o melhor resultado desde 1983 e vai para o governo, mas tem um sabor amargo na boca: a relação com o PSD não ficou 1:3, mas 1:3,4 e foi vítima do voto útil, chegando a descer em 6 distritos, incluindo Aveiro - contudo, o voto ficou mais urbano e teve quase 15% em Lisboa, imagine-se. Melhor em Ponte de Lima (22,94) e pior em Pampilhosa da Serra (4,58).
CDU: mais uma vitória, como sempre. Menos votos que há 2 anos, mas aguentou quase todo o eleitorado e subiu 8 centésimas graças à maior abstenção, o que lhe valeu mais 1 deputado. Melhor em Avis (43,04), pior em Sernancelhe (0,95).
BE: perdeu metade dos deputados e quase metade dos votos (270 mil). Depois de vencidas as batalhas dos direitos civis (aborto, casamento gay...), passou a ser uma jota cê. O que a diferencia agora do PC, excepto a história e os países "irmãos"? O problema é que a direcção do bloco está mais à esquerda que o seu pretenso eleitorado (algum vindo do PS e que agora votou branco), que acha a ajuda externa inevitável, e não compreendeu a recusa em participar nas negociações. E o apoio a Alegre abriu vasos comunicantes, mas no sentido oposto ao desejado. Melhor na Marinha Grande (9,77) e pior no corvo (0,51).
P.s.: Muito bom discurso de Sócrates, na hora da despedida. Vê-se que o texto do teleponto demorou muitos dias a ser trabalhado. Daqui a uns meses, o (suado) militante de base arranjará emprego numa administração qualquer. Não se preocupem, por uma vez, ele tem curriculum.
P.P.s.: Ontem, durante a noite eleitoral, os facebookers mostraram o seu (des)interesse, e preferiram trocar fotos do perfil, falar de pepinos espanhóis e de espectáculos de acordeão. Vá, se calhar têm razão, a política já farta e não traz boas notícias...
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