...e depois, com bigodes de leite, pedem mais paciência e esforço ao povo, que a "vaca 'tá seca".

segunda-feira, 20 de junho de 2011

SHI JINDIAN







Foi por intermédio do artista Luís Qual que fiquei a conhecer Shi Jindian.
É chinês, mas deve ter uma costela de Gondomar, os seus trabalhos em arame são pura filigrana.
'Diz que é uma espécie de' Joana Vasconcelos, alia a criatividade a um demorado labor. Deve dar uma trabalheira, mas o efeito visual resulta.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

OLÁ PAI, SOU MINISTRO




Mimetizando Dias Loureiro, no tempo do outro senhor, 11 pessoas podem ter telefonado lá para casa a dar a boa nova, são ministros - só dois podem ligar e dizer 'sou outra vez ministro', Portas (Defesa) e Aguiar Branco (Justiça). Passos queria 10, Portas 12, foi salomónico: mas se a redução em 5 ministérios (Cultura, Presidência, Ciência e Ensino Superior, Obras Públicas, Ambiente) for compensada por um enxame de Secretários de Estado, não haverá poupança, apenas cosmética. Mulheres só duas, na agricultura e na justiça - nada de pastas sociais, ambiente ou cultura. Governo sem estrogénio, mas jovem: dois ministros com 36 e 37 anos (Cristas e Mota Soares), oito em escadinha dos 46 aos 53 e um ancião de 59: média de 47 anos.
Comecemos pelo CDS: Portas chega finalmente aos Negócios Estrangeiros, depois da nega de Sampaio há 9 anos, e leva como trunfos dois jovens turcos, um bom líder parlamentar, com cara de miúdo, e uma advogada que brilhou na área das finanças, a quem calha um mega-ministério com um título infindo. Política, política, política.
No lado do PSD, muita tecnocracia. Passos apresenta ministros expectáveis (Aguiar e Paula T. Cruz), põe o braço-direito Relvas no parlamento (mais juventude, desporto, reforma administrativa, autarquias,...), premeia o líder parlamentar com a pasta dos polícias e preenche a quota de independentes com pastas perigosas: dá a Saúde ao Homem-fisco, a educação ao filófoso-matemático e anti-eduquês, a economia ao Professor do Canadá que ganhou fama com a sua colectânea de números demolidores sobre Portugal, divulgada na net (repescada nestas bandas) e, finalmente, as Finanças a um discreto-barra-desconhecido - o povo à espera dos cabelos brancos do Catroga ou do director do BP, ou a careca de Bento, e sai um Gaspar, com curriculum bastante (director do departamento de estudos do BCE, chefe dos conselheiros da CE, consultor do BP), mas sem provado traquejo:  tirando Macedo, os outros 3 serão bons a dar ideias, agora na prática... No mínimo, é muito arriscado.
Ah, dar a agricultura ao CDS é de mestre. Se resultar, é bom para todos, se fracassar, nunca mais esse partido pode encher o peito na defesa da agricultura. Lá se vai o nicho de mercado.

Primeiro-Ministro - Pedro Passos Coelho
Ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros - Paulo Portas
Ministro de Estado e das Finanças - Vítor Gaspar
Ministro da Economia e Emprego - Álvaro Santos Pereira
Ministro da Educação, Ensino Superior e Ciência - Nuno Crato
Ministro da Saúde - Paulo Macedo
Ministro da Solidariedade e Segurança Social - Pedro Mota Soares
Ministro da Agricultura, Ambiente, Mar e Ordenamento do Território - Assunção Cristas
Ministro da Defesa Nacional - Aguiar Branco
Ministro da Justiça - Paula Teixeira da Cruz
Ministro da Administração Interna - Miguel Macedo
Ministro dos Assuntos Parlamentares, Autarquias e Desporto - Miguel Relvas
Secretário de Estado da Presidência do Conselho de Ministros - Marques Guedes
Secretário de Estado adjunto do PM - Carlos Moedas
Secretário de Estado da Cultura - Francisco José Viegas
.

terça-feira, 14 de junho de 2011

AH, NÃO TINHA REPARADO

 

LEVAI A SÉRIO TUDO O QUE QUISERDES,
EXCEPTO VÓS PRÓPRIOS.
Rudyard Kipling

Fernando Pessoa escreveu que "O poeta é um fingidor, finge tão completamente que chega a fingir que é dor, a dor que deveras sente".
Não é o meu caso, percebo tanto de poesia como Jesus de finanças, e não tenho a opacidade como defeito - ou virtude. Quem tenha a paciência de "folhear" este blogue fica a saber tudo o que acho, sem remorso e quase de forma exibicionista. Como um daqueles senhores que abrem a gabardine e expõem as "vergonhas" a quem passa na rua.
Chega para me dar a conhecer? Parece que não, é uma espécie de com a verdade me enganas.

Há dias, a bonita Dora disse-me "Vi o teu blogue, é giro, pena que sejas monárquico". Há meses, um dirigente do BE quis ser meu amigo no facebook quando viu um comentário meu, pensando provavelmente que eu seria um deles (brrrr), ou estaria em ponto de rebuçado para ser "doutrinado". Nos primórdios dum blogue colectivo onde participei, parece que fui considerado por um colérico "cliente" como cabecilha duma sinistra facção esquerdista-gay - mas fiz o pleno, depois fui acusado de reaça ultramontano, aquando da votação da proposta, por escrever que o casamento gay não me dizia respeito. E, no trabalho, vêem-me como um desbragado sindicalista.

Porquê o engano, pergunta-se este proclamado republicano e habitual votante do CDS?
Apesar de ser aborrecidamente convencional (junto aos autos o post nº 1), sou o que se chama heterodoxo - em minha defesa, só nos livros é que as pessoas não são um somatório de incoerências, e ainda bem. Dá-se ainda o caso de não ter posições inequívocas sobre todos os assuntos e, desgraça minha, ainda não domino a ironia, de forma a mostrar que estou a usá-la...
É tudo isso, ou enfado, prestam pouca atenção.
Hum, sou visto na diagonal.
.

UMA GOTA DE ÁGUA



Ele há coisas que não se entende. Durante anos, um povo vai elegendo pessoas a contas com a justiça, cuja honestidade está maculada de dúvidas... até que um dia, como uma gota a mais num copo cheio, se fartam.

Por cá tivemos Fátima Felgueiras: fugiu para o Brasil quando um espírito-santo-de-orelha lhe segredou que ia ser presa, voltou a tempo de se recandidatar e ganhou, sem o apoio do seu partido - o que, na altura, valeu porrada ao agora candidato Assis.
Vinte e tal acusações no tribunal (foram caindo ao longo dos anos, bem à portuguesa) não chegaram para os felgueirenses acreditarem em sacos azuis, negociatas e peculatos, ou acharem que isso tinha importância. Mas, na eleição seguinte, plim, deram maioria absoluta ao partido da oposição.

Mais estranho é o que se passa em Itália.
Berlusconi fez aprovar leis que reduzem os prazos de prescrição e outras quase ad hominem para lhe garantirem a imunidade em  vários de enriquecimento ilícito, corrupção, luvas, abuso de poder, falsos testemunhos, fraude fiscal e sobrefacturação de direitos de emissões televisivas do seu grupo Mediaset.
Com a mesma costela grosseira de Alberto João, proclamava uma cabala de juízes "vermelhos", que queriam tirá-lo do lugar onde os italianos o puseram, e prometeu uma CPI para averiguar se na magistratura (que disse ser o cancro da democracia) existe uma associação criminal e com objectivos subsersivos.
Mas o povo da bota foi-lhe renovando a maioria, como se nada passasse, ignorando (ou apreciando a virilidade do ancião) as alegadas orgias e falcatruas.
Até agora: há dias, Il Cavaliere sofreu uma humilhação nas autárquicas, perdendo os seus bastiões de sempre no norte; ontem, no único referendo vinculativo dos últimos 18 anos (Berlusconi apelou à abstenção, para que tal não sucedesse), 57% dos eleitores foram votar e 95% recusou a hipótese de Berlusconi continuar a baldar-se ao tribunal, alegando afazeres governativos - a passar, teria o cínico nome de "lei do legítimo impedimento".
Da mesma forma que lemos na imprensa estrangeira retratos redutores (quando não errados) da realidade portuguesa, é possível que os italianos vejam razões para votar nele, seja por causa duma oposição (até agora) esfrangalhada, seja por acreditarem que um homem bem sucedido na vida serve para o lugar,...
Algo aconteceu para o povo se fartar subitamente de Berlusconi. Uma das razões pode ter a ver com a igreja, que passou a reprovar a conduta do PM, no caso do sexo, entre outras, com a menor (embora não pareça) Ruby. Uma razão pouco abonatória, esperar que a igreja vire o polegar para baixo.

Como mirone pouco informado, espero que o egocêntrico cantor de cruzeiros (só um egocêntrico acredita que passa impune, ligando à polícia para soltar a prostituta adolescente, inventando que seria sobrinha de Mubarak) seja punido - se for culpado, no palácio da Justiça, e de qualquer forma nas urnas.
Em todo o caso, se fosse italiano, eu teria vergonha do meu PM.
.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

ANIVERSÁRIO DE PESSOA

13.06.1888-30.11.1935

Autopsicografia

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

Fernando Pessoa 01.04.1931


Liberdade

Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não o fazer!
Ler é maçada,
Estudar é nada.
O sol doira
Sem literatura.
O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como tem tempo, não tem pressa...

Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.

Quanto melhor é, quando há bruma,
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!

Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.

O mais que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca...

Fernando Pessoa 16.03.1935


Ode
 
Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.

Ricardo Reis 14.2.1933

sábado, 11 de junho de 2011

PORTUGALIDADE


NUNCA É POSSÍVEL ENCONTRAR O CULPADO:
É SEMPRE A SEXTA PESSOA NUM GRUPO DE CINCO.

Fernando pessoa, sobre os portugueses

Neste dia de Portugal, nem de propósito, Cavaco Silva lamentou o "menosprezo dos poderes públicos pela realidade do interior", a sua desertificação - tornando Portugal "um país desequilibrado, um território a duas velocidades" -, o abandono rural e a progressiva auto-insuficiência alimentar.
Estou baralhado. Não foi este homem-betão, PM durante 10 anos e PR durante 6,  um dos principais capatazes das políticas europeias que atrofiaram a agricultura e as pescas, a troco de cheques-jipes?  
.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

VIVA PORTUGAL



A 12 de Outubro de 1910, um decreto-lei da nascitura república reduziu os feriados nacionais a apenas 5 dias, como deve ser muito laicos e republicanos: 1 de Janeiro (dia da fraternidade universal), 31 de Janeiro (dia dos mártires da república), 5 de Outubro (dia dos heróis da república), 1 de Dezembro (dia da autonomia e da bandeira) e 25 de Dezembro (dia da família). Nada de padrecos e santinhos, nem no natal.

Permitiu esse decreto que cada concelho escolhesse o seu feriado municipal: Lisboa foi buscar a data (provável) da morte de Camões, 10 de Junho. Porquê? Porque 30 anos antes, as comemorações camoneanas foram uma das primeiras manifestações mediáticas dos republicanos.

O dia de Camões deu um jeitaço a Salazar, uma espécie de agit-prop fascista: começou como dia de Camões, acumulou com dia de Portugal e, entre 44 e 74, ainda deu para dia da raça. A partir de 63, porque não?, foi usada para celebrar as forças armadas.

Veio o 25 de Abril, caiu o dia da raça e, em 1978, estabilizou o nome, dia da Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas.

Digamos que é um feriado muito versátil e bem português, dá-se bem com todos, de Afonso Costa a António Ferro e Mário Soares.
Mesmo numa altura em que a auto-estima está de cama, Viva Portugal.
Viva.

terça-feira, 7 de junho de 2011

POESIA NO PARLAMENTO

criança geopolitica observando o nascimento do homem novo, Dali 1943

Natália Correia, respondendo ao deputado João Morgado (CDS), a propósito do projecto de despenalização do aborto, em 1982:

                  O acto sexual é para ter filhos – disse ele
                  Já que o coito – diz Morgado
                  Tem como fim cristalino
                  Fazer menina ou menino;
         
                  E cada vez que o varão
                  Sexual petisco manduca
                  Temos na procriação
                  Prova que houve truca-truca.

                  Sendo pai de um só rebento,
                  Lógica é a conclusão
                  De que o viril instrumento
                  Só usou – parca ração!

                  Uma vez, E se a função
                  Faz o órgão – diz o ditado,
                  Consumada essa excepção,
                  Ficou capado o Morgado.
.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

E O VENCEDOR É...


...Miguel Leal, quem melhor conhece as "massas" populares e, assim, feliz contemplado com um jantar no Cocharradas. No geral, os resultados foram mais extremos que as previsões, e nenhum dos áugures acertou em 3 dos partidos. Nem as sondagens. Não que estivéssemos errados, havia muitos que decidiram nos últimos dias, e massivamente num sentido.

Prognóstico no fim do jogo:
PSD: destacou-se apenas quando amordaçou o Catroga, o Moedas e o Relvas, e abandonou medidas concretas, dizendo o que ia fazer (despedimentos sem justa causa, privatizações...) e limitou-se a criticar o que o PS fez. Parte dos votos foram de rejeição do governo, portanto demérito do adversário. Subiu meio milhão de votos. Melhor em Boticas (67,85%), pior em Aljustrel (13,45).
PSespalhou-se ao comprido e muitos socialistas ficaram em casa. Sócrates disse, há 6 anos, "se fizer o que devo, não sou reeleito". Desceu 8% em 2009 e outro tanto agora, mas não pelo que fez bem. Perdeu meio milhão de votos e teve o pior resultado desde 1987. Melhor em Vizela (50,6) e pior na Calheta (5,58).
CDS: o factor novo que não foi. Subiu 60 mil votos, teve o melhor resultado desde 1983 e vai para o governo, mas tem um sabor amargo na boca: a relação com o PSD não ficou 1:3, mas 1:3,4 e foi vítima do voto útil, chegando a descer em 6 distritos, incluindo Aveiro - contudo, o voto ficou mais urbano e teve quase 15% em Lisboa, imagine-se. Melhor em Ponte de Lima (22,94) e pior em Pampilhosa da Serra (4,58).
CDU: mais uma vitória, como sempre. Menos votos que há 2 anos, mas aguentou quase todo o eleitorado e  subiu 8 centésimas graças à maior abstenção, o que lhe valeu mais 1 deputado. Melhor em Avis (43,04), pior em Sernancelhe (0,95).
BE: perdeu metade dos deputados e quase metade dos votos (270 mil). Depois de vencidas as batalhas dos direitos civis (aborto, casamento gay...), passou a ser uma jota cê. O que a diferencia agora do PC, excepto a história e os países "irmãos"? O problema é que a direcção do bloco está mais à esquerda que o seu pretenso eleitorado (algum vindo do PS e que agora votou branco), que acha a ajuda externa inevitável, e não compreendeu a recusa em participar nas negociações. E o apoio a Alegre abriu vasos comunicantes, mas no sentido oposto ao desejado. Melhor na Marinha Grande (9,77) e pior no corvo (0,51).

P.s.: Muito bom discurso de Sócrates, na hora da despedida. Vê-se que o texto do teleponto demorou muitos dias a ser trabalhado. Daqui a uns meses, o (suado) militante de base arranjará emprego numa administração qualquer. Não se preocupem, por uma vez, ele tem curriculum.
P.P.s.: Ontem, durante a noite eleitoral, os facebookers mostraram o seu (des)interesse, e preferiram trocar fotos do perfil, falar de pepinos espanhóis e de espectáculos de acordeão. Vá, se calhar têm razão, a política já farta e não traz boas notícias...  
.

FUTURO SORRIDENTE


Agora sim, avizinham-se tempos de bonança, com a nova governação.
Como tenho dito, com o Portas no governo a agricultura vai florescer, as hortas vão medrar, os jardins vão acordar searas, as floreiras vão dobrar nas varandas, com o peso das corolas. Portugal será, num ápice, o maior produtor de lichias a nível mundial, "vão vir" charters de chineses todas as semanas, para aprender connosco.

A sério, o pior ainda vem aí, um garrote inédito dos portugueses e uma contestação social nas ruas como não há memória.
A gente aguenta, desde que:
- o esforço não seja em vão, i.e., o défice diminua e a dívida seja controlada, sem martelar de contas;
- haja liderança pelo exemplo, i.e., acabem sinecuras, reduzam os rodos de viaturas, assessorias, consultadorias, inaugurações, nomeações "amigas", cartões de crédito, institutos ininputáveis e empresas públicas - o esforço deve começar por cima, não quero um país de Migueis Relvas e reputados economistas com 3 pensões e 17 assentos em conselhos de administração, a dizer que o povo tem que gastar menos.
- não fique ninguém de fora e o contributo seja proporcional.
Em 2 palavras, que haja PUDORaccountability, que podemos traduzir por prestação de contas.
E já agora, que o povo olhe para o Estado com menos esperteza saloia: não fraccione despesas de dentista para duplicar o ADSE, passe e exiga facturas, não peça apoios sociais a que não tem direito, repudie as cunhas (e abdique das suas), não prefira estar desempregado, não espolie o erário em contratos públicos, não use o telefone do serviço para ligar para a irmã do Luxemburgo.

Crise é sinónimo de oportunidade, esperemos que a atrofia sirva para alguma coisa.
Até lá, durante uns anos, Portugal vai submergir.
Graças a Deus, temos lá um perito em submarinos. 

sábado, 4 de junho de 2011

EU JÁ DESCONFIAVA


O CRIME NÃO COMPENSA.
SE COMPENSA, NÃO É CRIME.

"Defender alguém que se sabe que é culpado até é mais fácil do que defender alguém que é inocente. Porque o peso que há sobre mim em caso da pessoa inocente é enorme.
O meu objectivo pode não ser a absolvição. Mas se a prova for insuficiente, o objectivo é sempre a absolvição - ainda que eu tenha consciência que provavelmente aquilo se verificou.
Se isso me coloca um problema ético?
Está mais ou menos estabelecido que o Direito e a Moral não coincidem necessariamente..."
Advogado João Nabais, Revista Única 3/6/2011
.

EU SEI QUE NÃO APETECE


NÃO HÁ NADA DE ERRADO
COM AQUELES QUE NÃO GOSTAM DE POLÍTICA,
SIMPLESMENTE SERÃO GOVERNADOS
POR AQUELES QUE GOSTAM. *
Platão

NEUTRO É QUEM JÁ SE DECIDIU
PELO MAIS FORTE.
Max Weber

Eu sei que não apetece, sei que votar parece que não adianta porque estamos num caminho de via única, a descer e independente do ganhador.
E sei que, como disse Drummond de Andrade, "um partido político é um agrupamento de cidadãos para a defesa abstracta de princípios e a elevação concreta de alguns cidadãos".
Sei isso.

Mas também é verdade que não vale criticar o tempo todo, engrossar manifestações de protesto e, quando (apenas) episodicamente a nossa opinião conta, recusemos participar - malta da geração à  rasca, não ousem baldar-se!
E sei que, embora pareça, os 12 ou 13 partidos não são todos "iguaizinhos", há muita escolha. Mesmo para eleger um deputado do nanopartido, em vez do 98º do partido grande. 
E sei que não estamos condenados a ter sempre os mesmos no poder, até ao dia do juízo final, só depende de nós - todos.
E também sei que a falta de comparência, os nulos e brancos são como votar por procuração, decidem os outros que põem a cruz num dos quadradinhos.
E há um pequeno pormenor, milhões de pessoas lutam, e morrem, por este direito (e também passámos por isso, já agora) - deve ter a sua importância.
Por tudo isto, VOTEM. Num qualquer, mesmo naquele partido cujo nome não podemos pronunciar, qual Voldemort.  


* Na versão de Rui Tavares, Platão terá dito "O castigo por não te interessares pela política é seres governado por pessoas piores que tu".
.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

AMANHÃ À NOITE, CONTE OVELHAS!



Amanhã, ao deitar, vamos contar ovelhas:
A primeira ovelha a pular a cerca tem um número do cachaço ao quadril, 180.000.000.000, é o valor da dívida pública.
A ovelha a seguir tem um número mais pequeno, no lombo, 4,1%, é a inflação de Abril.
Depois vêm 2 ovelhas juntas, uma traz 3 números pintados, 2.2, 5.9 e 9.3, as estimativas sucessivas do défice de 2009, a outra também tem 3 números, 6.88.6 e 9.1, as estimativas crescentes do défice de 2010.
A seguir vem a quinta ovelha, tem um número riscado, 150.000 empregos, e outro por baixo, 690.000, são os desempregados.
Colada a ele, outra ovelha tem umas palavras quase ilegíveis, abono de família.
Logo atrás, uma ovelha ronhosa tem o número 12,4% de desemprego (1º trimestree de 2011, 1 em cada 8 activos) e uma frase antiga "7% de desemprego é prova do falhanço do governo PSD-CDS".
Depois mais outra, um 10% a que se acrescentou um 1 à esquerda, 110%, o aumento da dívida externa líquida em percentagem do PIB.
A seguir uma ovelha manca, com uma frase "acordei uma baixa drástica do TSU com a troika, mas para eles é grande, para nós é pequena".
A ovelha seguinte tem 2086 no lombo, o ano em que as PPP são finalmente pagas.
Depois uma ovelha reluzente com 5.000.000€ no ventre, o rendimento de Rui Pedro Soares (o jovem socialista que quis comprar a TVI) durante o governo PS, em salários e indemnizações.
Segue-se uma ovelha com 250€ e 3000€ recortados na lã, o valor que a mãe de Sócrates declarou num IRS e a reforma que passou a ganhar no ano seguinte, diz-se.
A seguir, uma ovelha tem escrito "eu não governo com o FMI".
Logo atrás, vem uma ovelha com 4% marcado a fogo, o aumento do IVA para 23%.
Atrás, vem uma ovelha com 5%, a redução dos salários dos funcionários públicos.
Vem então uma ovelha sarnenta que tem bancarrota em bold, nas costas.
A ovelha que se segue...
Se tiver, a esta altura, perdido o sono, levante-se e vá tomar um comprimido para dormir: deve ter a cabeça fresca, para recordar os números, quando for votar. Será também um plebescito: tendo em conta o que fez - e foi ele que fez, não foram os bancos americanos ou a oposição -, Sócrates merece continuar?
Ouvi-o dizer na campanha "farei o meu melhor", pois esse era o meu medo - pôr-lhe na mão os 78.000.000.000€ emprestados é como pedir ao bêbedo para tratar da adega. É um ar que se lhe dava.
.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

terça-feira, 31 de maio de 2011

PRIMAVERA DE PRAGA

 Casa Municipal
 Igreja Nª Sra. de Tyn
 Relógio astronómico - Câmara da cidade velha

 Casa dos minutos (1 morada de Kafka)
 Ponte Carlos (10x520m)
 Palácio real (o maior da Europa, 72.500 m2) e catedral de S. Vito

Praça pequena
Fizemos o “czech in” a 23/5. A primeira impressão teve a ver com a língua: as tabuletas são ilegíveis – quem entende uma palavra com 2 vogais, 6 consoantes e 3 acentos, incluindo circunflexos invertidos? – e os sons incompreensíveis: a gravação com os nomes das paragens do autocarro lembrava um campeonato de ginástica rítmica em Bucareste, quando davam as pontuações, 9.1, 9.4, 9.0.
E o povo, pá? Veste tão ‘bem’ e é tão ‘bonito’ como nós: há muitas Svetlanas como a Joana Amaral Dias, quantas Natalyas como a Odete Santos, parece que a idade é madrasta. Os louros são apenas uma (grande) minoria, mas olhos claros são quase metade. Existe ainda um grupo numeroso, muito gregário, de baixotes de cabelo escuro liso e olhos rasgados, que parece ligado ao sector da fotografia.
Têm, porém, uma característica que nos envergonha: durante toda a semana, as igrejas e salas de espectáculo enchem antes de jantar, com os indígenas bem vestidos para o teatro e música clássica.
Custo de vida: as coisas custam sensivelmente o mesmo que cá (25 coroas=1€), a cerveja é mais barata, mas existe um senão: paga-se 0.2€ eliminar os resíduos, incluindo na WC da McDonald (equivale a ¼ dum cheeseburguer). Claro que a parte nobre duma capital não vale pelo país, mas a quantidade de RR, maybach, maserattis, bentleys, porches, mercedes e bmw topo-de-gama devem dizer algo sobre a economia checa.
Sinal de atraso para quem não é adicto, como este escriba, pode fumar-se na maioria dos restaurantes - como na (recomenda-se) cervejaria da cave da Câmara Municipal, ao som do acordeão dum velhote mascarado de alpino. A propósito, os pratos nacionais incluem goulash, umas bolas de farinha e joelho de porco, mas os mais sensíveis têm comida internacional, significa italiano ou chinês.
Para ver, há imenso: os subúrbios são incaracterísticos como Lisboa, mas o centro da cidade é poesia. E lembra muitos outros lugares: o barroco de Salsburgo, com cúpulas pretas ou verde-taxi, as cervejarias bávaras, as paredes e tectos com pintura grosseira tipo mexicano, as quadrigas no topo dos prédios qual Gran Via madrilena, o stucco florentino, ou os quarteirões Arte Nova à Paris, com os seus florões e bustos de estuque ou os ferros forjados. Aliás, é um checo que ombreia com Toulouse-Lautrec como o principal ilustrador de cartazes publicitários arte nova, Alphonse Mucha.
Praga acumula estilos arquitectónicos, mas o que vemos são, em boa parte, réplicas ou reconstruções – muitos edifícios não sobreviveram à passagem dos séculos e à sorte das guerras (incluindo os finados da 2ª guerra mundial, quando os alemães não quiseram levar as munições na retirada, e morteiraram a cidade). Fez-nos lembrar a leva de restauros dos monumentos, obrigatoriamente ‘criativos’, que Salazar implementou nos anos 40. E restauro é uma palavra prudente, alguns foram erguidos do chão.
Mas encontramos também diferentes estilos nas mesmas construções, que se arrastaram como obras de santa Engrácia: a catedral do castelo (de S. Vito, S. Venceslau e St. Adalberto) foi lançada em 1344 e só ficou pronta em 1929, possibilitando-nos ver vitrais arte nova numa igreja gótica.
Vá lá, tirando alguns prédios bem dissimulados, os comunistas não plantaram na Praga antiga os típicos blocos espartanos ao estilo modernista soviete. E a maior estátua de Estaline do mundo, com 14.000 toneladas, foi arrasada há muito.
O museu do castelo constitui um problema: mostra roupas (a maioria cópia, os originais estão guardados), sapatos, jóias, moedas, cartas de outorga, espadas e selos reais com 600-900 anos, o que obriga a uma visita atenta, mas há pessoas, e não vou citar nomes, com menos paciência porque, dizem, não gostam de ver cacos.
Finalmente, a quem quiser visitar Praga enquanto não tiver euros, cuidado com os cambistas: confirmem primeiro o câmbio, ou trocam o vosso dinheiro pelo limite mínimo – e depois, subitamente, eles deixam de perceber inglês.
P.S.: tirando o mural de John Lennon, vimos apenas uma parede ‘espichada’. Em português.
.


UM BOLETIM DE VOTO TEM
MAIS FORÇA QUE UMA ESPINGARDA

Abraham Lincoln
.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

É MUITO ESTILO

BB, foto de Avedon

Gunther Sachs, herdeiro, industrial, investidor, coleccionador de arte, fotógrafo e desportista, suicidou-se a 7 de Maio no seu luxuoso chalé em Gstaad. Pobre fim para um dos mais célebres playboys do século passado, nascido no germânico palácio de Mainberg.
Uma das suas histórias mais conhecidas prova como viveu: conquistou a sua mulher em Saint Tropez, dias depois de conhecê-la, mandando atirar milhares de rosas dum helicóptero, sobre a piscina da mansão da nobre dulcineia. A sua graça, Brigitte Bardot.
O casamento não durou muito (um ano com BB são 10 anos com qualquer outra mulher, disse ele... já casado com a sua 2ª mulher, uma modelo sueca), mas existe romantismo maior? Claro, os bolsos atulhados facilitam a criatividade.

Não sei como morreu, mas deve ter sido duma forma pragmática. Morte com estilo, não há como a de Petrónio. Aristocrata abastado, foi governador e cônsul da Bitínia (na Turquia) e chegou a conselheiro de Nero, que o nomeou árbitro da elegância (arbiter elegantiae) em 63. A roda da fortuna mexeu, Petrónio foi acusado de traição e escolheu morrer com finèsse.
Conta-nos Tácito, na sua obra Anais:

Petrônio consagrava o dia ao sono, e a noite aos deveres e aos prazeres. Se outros chegam à fama pelo trabalho, ele adquiriu-a pela sua vida descuidada. Não tinha a reputação de dissoluto ou de pródigo, como a maioria dos dissipadores, mas a de um voluptuoso refinado em sua arte. A própria incúria, o abandono que se notava nas suas ações e nas suas palavras, davam-lhe um ar de simplicidade, emprestando-lhe um valor novo. Contudo, procônsul na Bitinia e depois cônsul, deu prova de vigor e de capacidade. Voltando aos seus vícios ou à imitação calculada dos vícios, foi admitido entre os poucos íntimos de Nero e tornou-se na corte o árbitro do bom gosto: nada mais delicado, nada mais agradável do que aquilo que o sufrágio de Petrônio recomendava ao príncipe, sempre embaraçado na escolha.

Nasceu daí a inveja de Tigelino, o prefeito do pretório e poderoso conselheiro de Nero, que receava um concorrente mais hábil do que ele na ciência da volúpia. Conhecendo a crueldade do imperador, sua qualidade dominante, insinuou que Petrônio era amigo do conjurado Flávio Scevino; em seguida comprou um delator entre os escravos do acusado, sendo-lhe vedada qualquer defesa e mandando prender membros da sua família. O imperador encontrava-se então na Campânia e Petrônio tinha-o acompanhado até Cumes, onde recebeu ordem de ficar. Ele, sabendo que o seu destino já estava marcado, repeliu tanto o temor quanto a esperança, mas não quis se afastar bruscamente da vida. Abriu as veias, fechou-as depois, abrindo-as novamente ao sabor da sua fantasia, falando aos amigos e ouvindo por sua vez, mas nada havia de grave nas suas palavras, nenhuma ostentação de coragem; não quis ouvir reflexões sobre a imortalidade da alma, nem sobre as máximas dos filósofos: pediu que lhe lessem somente versos zombeteiros e poesias ligeiras. Recompensou alguns escravos e mandou castigar outros; chegou a passear, entregou-se ao sono a fim de que sua morte, ainda que provocada, parecesse natural.
.
 



Em teoria, não há diferença
entre teoria e prática.
Na prática, há.

Yogi Berra ou Jan L. A. van de Snepscheut?
.

domingo, 29 de maio de 2011

NÚMEROS DE POLÍCIA

A República Checa não existe assim há tanto tempo, data de 1918, e ainda assim misturada com a Eslováquia durante quase 3/4 do século XX.
Houve períodos em que mandava a casa de Luxemburgo, os reis boémios, também da Hungria e da Polónia, imperadores do sacro-império e, a certa altura, os imperadores austro-húngaros. Incluindo a Marie Térèse.
Foi esta senhora que trouxe em 1770 uma "invenção" de Viena, provavelmente vista pelos autóctones como um imbecil sinal de imperialismo: numerar as casas. Mas ainda resistiram, em Praga, muitos símbolos alegóricos (alquímicos ou ligados aos ofícios dos locatários) colocados acima das portas, que identificavam as casas.
A maioria concentra-se na rua Nerudova, na margem oeste do rio Moldava, em Mála strana.




















e na margem leste, em Staré Mesto
.