...e depois, com bigodes de leite, pedem mais paciência e esforço ao povo, que a "vaca 'tá seca".

segunda-feira, 14 de março de 2011

LE SURRÉALISME, C'EST MOI

"A atitude realista é fruto da mediocridade, do ódio, e da presunção rasteira. É dela que nascem os livros que insultam a inteligência (...) A mania incurável de reduzir o desconhecido ao conhecido, ao classificável, só serve para entorpecer cérebros (...) A mente que mergulha no surrealismo revive, com exaltação, a melhor parte de sua infância (...) Não é o medo da loucura que nos vai obrigar a hastear a meio-pau a bandeira da imaginação."
Este é um trecho dum (longuíssimo e com direito a replica) Manifesto Surrealista, escrito em 1924 por Andre Bretton, como prefácio a uma coleção da "escrita automática", uma técnica em que o escritor deveria colocar na página tudo o que lhe vinha à cabeça, sem se importar com a forma ou o sentido.

Dali e Magritte são as 2 principais figuras da pintura surrealista. Bom publicitário de si mesmo, cá para mim o histriónico Salvador Domènec Felip Jacint Dalí i Domènech, 1º marquês de Dalí de Púbol (Figueres 1904-1989) precisava era de psicanálise, afinal um dos fermentos do surrealismo.
Não vejo adjectivo mais pertinente para a sua pintura, e para o surrealismo, que onírico. São imagens recorrentes a sua Gala, o ovo, elefantes, pessoas-gaveta, muletas e relógios deformados - inspirados por um queijo camembert a derreter numa quente tarde de Agosto, disse. E aqui e ali lembramo-nos de Bosch.
Para este ignorante, a sua fase mais prolífica terá sido entre os 25 e 50 anos.

1928 arquitectura surrealista
1929 o grande masturbador
1929 retrato de paul eluard
o quadro mais caro do surrealismo, leiloado em fevereiro por 21.7M dólares
1931 alucinação parcial, 6 aparições de lenine sobre um piano de cauda
1931 persistência da memória
1933-34 instrumento masoquista
1934 desmame do móvel alimento

1936 cabeça de nuvens
1936 o gabinete antropomorfico
1936 suave construção sobre feijões cozidos, premonição da guerra civil
1937 girafas em chamas
1937 sono
1937 a metamorfose de narciso
1938 praia com telefone
1938 espanha
1940 faces da guerra
1941 tenro auto retrato com fatia de bacon frito
1941 automoveis vestidos, pormenor

1943 criança geopolitica observando o nascimento do homem novo
1943
1944 Sonho Causado Pelo Voo de uma Abelha ao Redor de Uma Romã um Segundo Antes de Acordar
1946 a tentação de sto. antónio
1948 elefantes
1951 cristo de s. joão da cruz
1952 esferas de galatea
1954 cruxificação
1954 relógio mole no momento da explosão
1958 ascenção de cristo
1977 vinhos de gala e do divino

RENÉ MAGRITTE, UM SONHADOR COM PÉS NO CHÃO


René Magritte (1898-1967) é uma cabeça-de-cartaz do surrealismo mas, comparando com Dali, parece até muito bem comportado e equilibrado. Dizem que praticava um surrealismo realista ou realismo mágico. Maçãs e homens com chapéus-de-coco são 2 das figuras que todos conhecem da sua obra.

1926 le jockey perdu (o seu 1º quadro surrealista)
1926 the dangerous liaison
 1928 attempting the impossible
1928 the lovers
1933 la condition humaine
1933 the unexpected answer
1935 modele rouge
1937 la reproduction interdit
1937-38 time transfixed
1947 philosophy in the boudoir
1951 personal values
1952 the listening room
1953 gonconda
1959 castle in the pyrenees
1960 the wrath of the gods
1963 il telescopio
1964 the son of man
1965 le blanc-seing
1968 pipe

museu magritte, bruxelas

AS ROSAS MATAM


O quadro chama-se As Rosas de Heliogábalo, e foi pintado em 1888 por Lawrence Alma-Tadena.
Consta que retrata uma história verdadeira: numa festa organizada - força de expressão, foi alguém por ele - por Marco Aurélio Antonino (imperador adolescente e travesti, entre 218-222), também chamado de Elagábalo, foi vertida uma chuva de pétalas de flores sobre os convidados deitados no piso térreo. Uma chuva torrencial que provocou uma morte colectiva por asfixia.
Imaginem, um crime perfumado.

p.s.: não encontram nenhuma analogia com o poder (da) rosa, que vai vertendo uma avalanche non-stop de flores de laboratório, chamadas pec, sobre nós?

sexta-feira, 11 de março de 2011

TECNOLOGIAS DE INFORMAÇÃO


Sinais dos tempos, o presidente do conselho europeu anunciou há horas no twitter que existe um acordo de princípios sobre um pacto de crescimento (vulgo austeridade), e o PR mandou dizer que soube pelos jornais do novo pacote de austeridade, um PEC4 que o governo decidiu. Sócrates apenas ligou previamente a Passos Coelho, porque precisa do seu apoio, mas nem um sms a Cavaco. Este escreveu na sua página do facebook que o caminho é árduo.
Já se sabia que Sócrates tinha que levar uma surpresa a Bruxelas, para negociar ajudas financeiras, embora diga e repita que o país não precisa de ajuda* - adivinhem, outro pacote de austeridade, mais um que (agora sim) é definitivo e suficiente para as contas entrarem no eixo. 
A União classificou as medidas de "corajosas e boas" que permitem atingir o défice previsto.
São boas... corte nas deduções e benefícios fiscais (i.e. mais IRS), congelamento durante 3 anos das pensões e cortes nas superiores a 1500€, subida dos impostos especiais de consumo, corte no gasto em medicamentos, apoios sociais e abonos de familia, alterações na atribuição do subsídio de desemprego, entre outros. Mais umas medidas que haviam caído no acordo no PEC3 (registado num fotografia do telemóvel de Catroga), como o aumento de IVA em alguns produtos, e outra que ainda estava em discussão na consertação social - a redução da indemnização por despedimento, de 30 para 10 dias/ano, não só para futuros contratos, como para os actuais. Isto num governo que diz defender o Estado Social, contra as investidas do PSD...

Premonição, mais umas centenas se juntarão à manifestação inorgânica de amanhã, organizada no facebook: o gatilho é a precariedade no emprego jovem (uma quase inevitabilidade, acho) mas, pela minha amostragem, cada pessoa tem um cardápio de razões diferentes para aparecer - o único denominador comum é a indignação. Presumo que não tenha outro resultado, que não um sonoro assobio ao caminho traçado.
Certo é que o pipo da panela de pressão já está a assobiar alto, só isso explica que uma "canção" dos homens da luta vá à eurovisão, apregoar a revolução na nossa patrocinadora Alemanha...

* a desvantagem em recorrer ao FEEF é a perda de credibilidade, a perda de prestígio (diz o PM) ou, a melhor de todas, custos reputacionais, palavras de Durão. Tesos, mas honrados.   

SER OU NÃO SER


Há duas histórias engraçadas sobre Alexandre, o jovem guerreiro que conquistou meio-mundo, em passo acelerado.
Acostumado a adulações, Alexandre ouviu dizer que havia em Corinto um homem chamado Diógenes que era diferente, dera todos os seus haveres, porque achava que os interesses materiais eram uma distracção e impediam as pessoas de levarem uma vida livre e simples, e vivia semi-nu, dentro dum barril na praça da cidade. Fascinado, Alexandre acercou-se do barril e disse-lhe "gosto de ti, pede o que quiseres que eu concedo-to". O filósofo respondeu "de facto, meu senhor,  há uma coisa... está a fazer-me sombra, não se coloque tanto entre mim e o sol". Alexandre terá afirmado "se não fosse Alexandre, gostava de ser Diógenes".

Depois de conquistar a Fenicia, a Assíria, o Egipto e a Mesopotâmia, províncias persas, Alexandre caminhou para o centro do império. Dário III reuniu um exército gigantesco em Gaugamela, mas enviou uma proposta aliciante: oferecia-lhe metade do império e a sua filha em casamento, se não houvesse combate. "Se eu fosse Alexandre, aceitava", tentou convencê-lo Parménio. "Também eu aceitava, se fosse Parménio", foi a resposta (a engenhosa peleja, uma das mais conhecidas da história, ditou o fim do poder persa e abriu a porta da Ásia).
Moral da história, cada um sabe de si, e Deus de todos.

quinta-feira, 10 de março de 2011

KINETOGRAPHO PORTUGUEZ



Aurélio Paz dos Reis (1862-1931) ficou conhecido por ter sido o criador do primeiro filme português, A saída do pessoal operário da fábrica Confiança (um remake da Sortie de l'usine Lumière à Lyon, filmada pelos irmãos com o mesmo nome), apresentado a 12.11.1896. Não foi bem o primeiro: Reis vira uns meses antes as primeiras imagens do país, filmadas por Henry Short.
Sobre aquela apresentação, disse o Jornal de notícias: "O espectáculo de hoje apresenta o Kinetógrafo Português, sendo exibidos 12 perfeitíssimos quadros, 7 nacionais e 5 estrangeiros. Os quadros portugueses representam o seguinte: «Jogo do Pau» (Santo Tyrso), «Saída do Pessoal Operário da Fábrica Confiança», «Chegada de um Comboio Americano a Caboucos», «O Zé Pereira nas Romarias do Minho», «A Feira de S. Bento», «A Rua do Ouro» (Lisboa), «Marinha». O espectáculo é completado com a companhia de Zarzuela que se fará ouvir nas peças Música Clássica, Las Campanelas (primeira apresentação) e «Os Africanistas». O kinetógrapho português funciona no intervalo do 2º para o 3º acto". No dia seguinte, O Comércio do Porto dizia "Num dos intervalos, o Sr. Aurélio Paz dos Reis exibiu no kinematógrapho vários quadros, algumas dos quais muito engraçados e que tiveram intensos aplausos", enquanto O Primeiro de Janeiro assinalava "Hontem apresentação do kinetórgrapho português, pelo Sr. Aurélio Paz dos Reis teve êxito completo. Tanto as vistas estrangeiras como as nacionais, d'estes principalmente «O jogo do Pau» e a «Saída das Costureiras da Fábrica Confiança» foram acolhidas com grandes salvas de palmas".
Depois de apresentações no Porto e Braga, Reis segue para o Rio de Janeiro, mas falhas técnicas tornam a tourné num fiasco, e acaba a sua carreira de cineasta.
Reis foi fotógrafo-amador, edil e floricultor, exportou flores, vendeu carros Minerva, máquinas de escrever Yast e películas de fotografia. Algumas das suas fotografias têm interesse histórico, seja no defunto Palácio de Cristal (a construção de granito, ferro e vidro foi demolida em 1951, para dar origem a um pavilhão de betão, para acolher um Mundial de Hoquei...), seja no 5 de Outubro: Pais dos Reis, revolucionário republicano, acompanhou a tropa monárquica sitiada no Rossio, e fotografou a imprensa à espera, como ainda hoje acontece.

1906 Palácio de Cristal Porto
1908, Comício republicano Porto
5.10.1910 Lisboa
5.10.1910 Lisboa

O MELHOR DISCURSO POLÍTICO DE SEMPRE



É consensual, Dali era louco. Mas um louco genial e divertido, capaz de dizer que não era um bom pintor, cou que a diferença eentre mim e os surrealistas é que eu sou O surrealismo.
Afirmou-se anarquista e monárquico, apoiou o fascista Franco e o comunista Ceausescu, foi comunista e denunciou Buñel como comunista, no tempo do McCartismo. Precisava de atenção, digo.
Pintor, cineasta-actor, escritor, poeta, escultor, fotógrafo, criador de jóias e de frascos de perfume, designer do logotipo da Chupa chups, Dali tinha uma característica menos conhecida, era agarrado ao dinheiro, um pesetero, fazendo tournés pelos States e participando em publicidade a chocolates. André Breton arranjou-lhe mesmo um anagrama do nome, Avida Dollars, em homenagem ao seu amor pelas notas verdes.

quarta-feira, 9 de março de 2011

UM PAÍS ZEZÉ CAMARINHA

Qual Bela e o Monstro, um dos noticiários da TSF abriu com a decoração do hemiciclo para a tomada de posse do PR – entrevistando uma floral designer (florista em moderno) sobre as rosas, crisântemos e orquídeas expostas – e seguiu para a venda de mais 1000M€ de obrigações de tesouro, num dia com novos recordes dos juros da dívida (7.81% a 5 anos, 7.70% a 10 anos), devido ao nervosismo dos investidores. Eu diria que o nervosismo é do Estado, os investidores estão placidamente a negociar, podem pedir o que quiserem aos aflitos que não podem regatear.

É que nenhum país aguenta muitos meses com os juros da dívida acima dos 7%, passa a trabalhar só para pagar juros, até não poder pagar a conta. E os credores só emprestam a um juro que incorpore, ou compense, o risco de incumprimento - ou o juro é aliciante, ou aplicam o dinheiro noutro lado. E, sem dinheiro vivo para ir pagando a dívida que vence, a juros comportáveis (pagáveis), o risco de incumprimento aumenta, blábláblá. Uma pescadinha de rabo na boca.

Depois a Alemanha não quer que a EU empreste dinheiro aos parceiros em apuros com juros baixos, ou atractivos, para obrigá-los a mudar de vida – um pormenor, o governo alemão existe para defender os alemães, que o elege (numa sondagem do Inst. Toluna, publicada hoje, 60% dos alemães estão contra ajudas). Disse o ministro das finanças teutónico, Wolfgang Schauble: não pode haver cedência nas condições do Fundo Europeu de Estabilização Financeira aos EM que precisem de se refinanciarem, os juros podem mesmo subir – para os países que falhem a consolidação das suas contas públicas e precisem de pedir ajuda, “essa ajuda não pode ser atractiva”. A puxar para juros mais baixos estão a Grécia e a Irlanda, pois nem os empréstimos da União acalmaram os mercados – aliás, nada acalma os mercados, nem diminuição da despesa, redução de salários, nada.
Somos um país Zézé Camarinha, pouco atractivo, pronto.

O governo vai amanhã a Bruxelas tentar uma saída, mas terá que apresentar medidas (são 50 que apresentaram hoje no CCS), que significam mais aperto e mais abrandamento da economia. Mais do mesmo, até ao PEC seguinte, pois mesmo a despesa corrente primária (sem juros) não retrocede.
Uma mudança de governo chega para aliviar a pressão, o que não aconteceu na Irlanda? Só com mais austeridade, e a valer, tipo nós é que apertamos o cinto "como deve ser".
Um feliz segundo mandato, Senhor Presidente.*

* Os deputados do BE (que enchem a boca com Democracia, mas parece não gostarem dos seus resultados) não participaram nos cumprimentos ao PR, no final da tomada da posse. Isso não é coerência, radicalismo ou irreverência, é apenas falta de educação. 
Mark Twain tem frases para tudo, para este caso também : boa educação consiste em esconder o bem que pensamos de nós próprios e o pouco bem que pensamos dos outros.
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O JANTAR ESTÁ NA MESA


"Às 7.30, os filhos tinham que sair da cama. E a correr, porque eram muitos e precisavam de se arranjar rapidamente. Levantavam-se todos com uma precisão militar (…). Às 8.30 estavam na copa a tomar o pequeno-almoço e seguiam para as aulas, que começavam às 9 horas. O almoço era às 13. E não se admitia atrasos de um segundo a ninguém, nem ao pai. Quem não estivesse a tempo não almoçava. O jantar exigia uma logística mais complicada. A freira que fazia companhia à avó Judite comia às 19; às 19.30, era a vez das criadas; às 20.15 dava-se o primeiro toque no badalo, para as crianças lavarem as mãos e se pentearem; às 20.30, o segundo toque, para estarem todos à mesa. Até à primeira comunhão, os filhos jantavam na copa, vigiados pelas criadas. A partir daí, recebiam um relógio de pulso e permissão para tomar as refeições na sala de jantar. (…) Enquanto não lhes dirigissem a palavra, as crianças deviam ficar caladas."
Miguel Pinheiro, Sá Carneiro

Cá em casa, é um rosário sentarmo-nos todos à mesa, há sempre vários "já vou" - depois vêem os "usa a faca", "senta-te direito", "come" e "despacha-te". Daí o fascínio com a organização (e a disciplina) das famílias grandes. O trecho de Miguel Pinheiro recordou-me o meu bisavô Mário: quem não estivesse à mesa quando ele se sentasse, não comia. Mas em vez do badalo, soava a voz da criada Amélia, a comida 'tá na menja!, para irritação da dona da casa.

sexta-feira, 4 de março de 2011

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Sebastião Salgado


A COBARDIA TEM ESSE DOM MARAVILHOSO:
VIRA-SE CONTRA OS QUE SE ACOLHEM NELA.
É APENAS UMA QUESTÃO DE PACIÊNCIA.
Inês Pedrosa, Sol 4.3.11


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HISTÓRIAS DE ENCANTAR


Há cerca de 3700 anos, mais coisa menos coisa, em Entre-os-Rios (Mesopotâmia, em Grego), uns gajos mais aéreos repararam que algumas estrelas estavam mal presas ao céu (uma hemisfera oca) e mudavam de sítio: magia, claro.
Vai daí, resolveram dedicar um dia a cada uma dessas 5 estrelas (planetas), entre os quais Marte e Vénus, acrescentaram mais um dia ao deus-sol (Baal) e outro à lua (Ishtar).
Tá explicado quem inventou a divisão do tempo em semanas, e a razão para os nomes ainda usados hoje em muitas línguas: o Sunday e Mo(o)nday ingleses, ou a maioria dos dias da semana em italiano ou francês.

Histórias como esta, ou a explicação de expressões como vandalismo, medidas draconianas, educação espartana, vitória de Pirro (à custa de tantas baixas, o general terá dito “mais uma vitória destas e somos exterminados”), aparecem em Uma pequena história do Mundo, uma edição da Tinta da China que apetece manusear (e os cantos rombos das páginas são à prova de crianças).
Ernest H. Gombrich (Viena 1909-Londres 2001) escreveu o livro em 1935. Desempregado no final do doutoramento, aceitou dar uma vista de olhos num livro de História para crianças, que um editor amigo queria traduzir de inglês para alemão. Resposta, “acho que conseguia fazer melhor que isto”.
Resultado, foi desafiado a apresentar um capítulo, correu bem, e depois proposto que entregasse o resto em 6 semanas. Sistematizou o livro e escreveu 1 capítulo por dia, com visita matinal à biblioteca pública (nada de google).
Ernest tinha 2 princípios: é possível explicar quase tudo a uma criança inteligente, sem linguagem barroca, e devia escolher os acontecimentos que afectaram um maior número de pessoas e que estavam mais vivos na memória colectiva.
Este livro é para mais de 10 anos, o que é claramente o meu caso. Comprei-o para a petiza, mas estou a lê-lo com gozo. Com uma escrita muito descontraída, escorreita e coloquial, é um prazer revisitar a história e as histórias, recordando ou aprendendo.
Quem tiver filhos ou sobrinhos a fazer anos, são 12€ muito bem gastos.

quarta-feira, 2 de março de 2011

FOTOGRAFIAS A SÉRIO...

"O escritor e o fotógrafo utilizam as mesmas ferramentas, mas enquanto um descreve uma imagem com mil palavras o outro descreve mil palavras com uma imagem."
Jefferson Luiz Maleski

Há fotografias célebres pela sua qualidade, outras pela sua beleza, outras pelo segundo histórico - como o cogumelo atómico de Nagasaki, que calcinou 150.000 pessoas em segundos (mais uns milhares durante anos), ou a execução súbita dum prisioneiro em Saigão - "o coronel assassinou o prisioneiro, eu assassinei o coronel com a minha câmara", terá dito o fotógrafo.
Há fotógrafos que ganham a posteridade por toda uma obra, ou por causa duma foto só, porque se transforma um ícone (como Korda) ou porque é um soco no estômago. Não só no público, como no próprio autor, como é o caso de 2 fotografias que ganharam um prémio pulitzer: Eddie Adams tornou-se fotógrafo paisagista depois de fotografar 'a' execução em Saigão e Kevin Carter suicidou-se 4 meses depois de fotografar uma criança subnutrida vigiada por um abutre. Como não ficar chocado com essa imagem ou com o desespero da menina vietnamita, queimada pelo napalm, sob a indiferença dos soldados?
Nalguns casos, o retratado é identificado: o menino sudanês chamava-se Kong Nyang, foi uma das primeiras pessoas a chegar ao campo de acolhimento (vê-se pelo nº da pulseira) e sobreviveu, morrendo em 2006 com febres; a menina vietnamita chama-se Khim Puc, reencontrou mais tarde o fotógrafo e vive no Canadá, onde dirige uma fundação para crianças vítimas de guerra e é embaixadora da UNESCO; a menina afegã foi localizada 18 anos mais tarde, e tem a graça (a que lhe resta!) de Sharbat Gula.
Já agora, o russo que ajuda o soldado a hastear a bandeira no reichstag (uma encenação corrigida, a bandeira era uma toalha vermelha e o soldado tinha 2 relógios no pulso, fruto do saque) chamava-se  Abdulkhakim Ismailov e morreu em fevereiro de 2010, no Daguestão natal.

23.2.1945 Iwo Jima (Joe Rosenthal)
2.5.1945 bandeira russa hasteada no reichstag (Ievgeny Khaldei)
9.8.1945 Nagasaki (USAF)
14.8.1945 Festejos da vitória, Times square (Alfred Eisenstaedt)
5.3.1960 Che num funeral (Albert Korda)
Che (René Burri)
1.2.1968 Execução de vietcong (Eddie Adams)
8.6.1972 Vietname (Nic Ut)
1989. Praça Tiananmen (Jeff Widener)
1993. Sudão (Kevin Carter)

1994. Dirigente da extrema-direita suplica antes da execução
1984-2002. Menina afegã (McCurry)