...e depois, com bigodes de leite, pedem mais paciência e esforço ao povo, que a "vaca 'tá seca".

sábado, 5 de fevereiro de 2011

EDUARDO GAGEIRO, A EXPOSIÇÃO

Tem uma nova exposição, "Retratos com Histórias". Há sempre histórias por trás dos retratos?
Sempre. Esta exposição foi um convite da Kameraphoto - um colectivo de fotógrafos fantásticos -, que me me sugeriu que mostrasse os retratos que fiz nos anos 50 ou 60. Foi o Valter Vinagre que seleccionou as imagens. Os meus retratos não são clássicos. Não gosto do "Olhe para a máquina". Mas houve retratos muito complicados.
Quais?
O do bailarino Rudolf Nureyev. Como conhecia bem o São Carlos, pus-me num corredor por onde ele tinha de passar e esperei. Quando ele passou gritei: "Um minuto." Só tenho aquela fotografia. A do Orson Wells também foi complicada.
Porquê?
Ele era inacessível. Esteve em Portugal, mas só o apanhávamos a entrar e a sair do Hotel do Guincho. Como eu era amigo do dono do hotel pedi-lhe que intercedesse por mim. O sr. Wells lá condescendeu, mas avisaram-me: "Tens de ser rápido." A única coisa que lhe pedi foi que se aproximasse da janela. Fiz duas fotografias.
Ele foi simpático?
Nem por isso. Num retrato é importante que haja uma empatia entre fotógrafo e fotografado. Se não existe, isso reflecte-se nos olhos do retratado. Vê-se que Orson Wells estava ali a aturar-me.
Como conseguiu fotografar a actriz Gina Lollobrigida?
Foi em 1967, na festa dos milionários Patiño. Eles tinham um fotógrafo estrangeiro e um português, um bate-chapas de quem não vou dizer o nome. O resto ficava ao portão. De repente vejo um tipo que eu conhecia dentro de um carro e pedi-lhe que me deixasse esconder no banco de trás. Parecia uma criança numa loja de brinquedos. Aquilo era só vedetas. Fiz dez fotos e fui expulso. O fotógrafo português entregou-me à segurança.
Na exposição, quais são as fotografias mais marcantes?
Há muitas. A do Raul Solnado é inusitada. Tinha combinado uma reportagem com ele e como estava para breve a inauguração da ponte sobre o Tejo sugeri irmos para lá. Ele era um tipo fantástico, das melhores pessoas que conheci. Fizemos coisas malucas, como a fotografia dele no esgoto. Também gosto muito da fotografia da Amália a sair do carro. Ela parece estar num sítio estranho, com crianças que não lhe ligam nenhuma, e no meio da confusão está como uma diva. Também tenho uma história engraçada com o Torga.
Com o retrato em que ele está de meias?
Nessa altura eu era fotógrafo do presidente Eanes e andava a fazer um livro sobre o Alentejo, mas não tinha ninguém para escrever o texto. O Eanes pôs-me em contacto com o Torga. Ele aceitou, mas disse-me que cobrava cem contos. Um dinheirão em 1985. Quando conheci Torga, aproveitei para o fotografar, mas pensei: "Tramaste-me com os 100 contos, tramo-te com as meias." (Risos.) Não sou nada vingativo e aquilo ficou giro. Mas a história não termina aqui.
O que é que aconteceu?
Fui a Coimbra com o recibo do pagamento e ofereço-lhe umas fotos minhas do Alentejo. No meio da conversa, ele abre o armário e pergunta: "Já leu o meu último diário?" Respondi: "Não li, sr. doutor." Ele tinha montes de livros no armário, tinha acabado de receber 100 contos e responde-me: "Vendem aqui em baixo, na livraria." Não gostei, claro. Depois pedi-lhe um autógrafo e ele não achou graça.
No retrato de Sophia de Mello Breyner parece que não está ali um fotógrafo. Como consegue passar despercebido?
Já conhecia a Sophia de quando trabalhava na revista "Eva" e ela simpatizou comigo. Estava muito à vontade. Era quase da família. Naquele caso ela estava em casa assim e limitei-me a disparar. Era uma mulher com uma postura corporal fantástica, elegante, muito educada, e confiava em mim.
Como se conquista essa confiança?
Sendo uma pessoa credível, conversando com o fotografado e criando uma relação de confiança. Só duas pessoas é que me pediram para ver as fotos antes.
Quem?
O Cavaco Silva, na altura em que era primeiro-ministro, e o Champalimaud.
Porquê?
Estava a fazer um livro chamado "Revelações" e queria fazer retratos diferentes. Por exemplo, fotografei o Vergílio Ferreira a tocar violino para os amigos e o Jorge Sampaio, que é um melómano, fotografei-o com uma batuta a simular uma orquestra. O Champalimaud quis fotografá-lo de luvas de boxe, como um lutador, e consegui. Mas os filhos ficaram preocupados e tive de lá ir mostrar a fotografia antes. Ele gostou e depois de lhe enviar um exemplar do livro mandou-me uma carta muito simpática e um cheque para pagar a oferta. O Cavaco fotografei-o com um cão ao colo.
Como correu essa sessão?
Inicialmente queria fotografá-lo como professor de York, com aquele fato académico. Estava tudo combinado, luzes montadas, mas no último momento desistiu. O assessor explicou-me que ele queria ficar como primeiro-ministro. Eh pá, mas como é que se fotografa como primeiro ministro? Aparece-me o Cavaco com uma central telefónica. Fiquei aflito. Ele agora está diferente, não tão frio.
Fotografou-o assim?
Tive de o fazer. Mas como o chefe de segurança me tinha dito que ele gostava de um cão sugeri que fossem buscar o bicho. Lá veio o cão. Primeiro fotografei com o cãozinho aos pés, depois ao lado, a seguir ao colo. Anos mais tarde perguntei ao assessor dele a razão da desconfiança. Descobri que outro fotógrafo disse-lhe eu ia lá para o tramar. Agora até brinca com a foto. Numa apresentação à imprensa, disse: "Este homem conseguiu pôr-me um cão ao colo."
Jornal i, 15.1.2011

antónio salazar 1962
antónio de spínola 1974, 2º lugar world press photo 1975
amália rodrigues 1971
orson wells
josé régio 1968
josé cardoso pires 1984
maria joão pires 2000
jorge de sena 1970
jaime cortesão 1962

miguel torga 1985
frederico gama carvalho
raul solnado 1966
maria lamas 1976
carlos paredes 1988
rosa ramalho 1968
eunice muñoz 1966
sophia de mello brayner 1964

ROBERT CAPA ESTAVA LÁ

"Para mim, Capa vestia o traje de luz de um grande toureiro, mas ele não matava; grande jogador, ele lutava generosamente por si e os outros num turbilhão. Quis a fatalidade que ele fosse atingido em plena glória".
Cartier-Bresson

Leon Trotsky, Copenhaga 27.11.1932
Teruel 1937. O reporter Hemingway ajuda soldado a desencravar a arma

A morte do soldado legalista, guerra civil espanhola

25.10.1938 adeus às brigadas internacionais, desactivadas pelo governo repulicano

Ernest Hemingway e o filho, 1941
Dia D, Omaha beach
Pablo Picasso 1948
14.5.1948 independência de Israel
Chegada a Israel, 1948
Imigrantes
Israel 1949
Imigrantes 1950
Jerusalém 1950. Funeral de cinzas de 200.000 vítimas do Holocausto


"Se a sua foto não ficou boa, é por que você não chegou perto o suficiente”. Capa

Robert Capa (1913-1954), nascido Endre Erno Friedmann em Budapeste, descendente de judeus, foi um dos maiores fotógrafos de guerra do mundo. Incomodado com o regime conservador no seu país, e o regime com aquele marxista, partiu para Berlim em 1930 e entrou numa agência de jornalismo. O seu primeiro trabalho importante foi a cobertura dum congresso em Copenhaga, onde estava Trotsky.
Capa era fundamentalmente um fotógrafo de guerra. E como tal cobriu os eventos mais importantes de seu tempo. Quando Hitler chega ao poder, Friedmann marchou para Viena e depois Paris, onde, com a sua noiva Gerda Taro, partilharam um pseudónimo, o americano "Robert Capa".

Em 1936, partem os dois para cobrirem a guerra-civil espanhola. Capa ficou então famoso com a publicação da sua obra-prima, a foto de um soldado republicano a morrer no campo de batalha (estudos da imagem insistem que a foto foi tirada a milhas da batalha ocorrida nesse dia, e que foi tudo encenado, mas um irmão reconheceu Federico Borrell García, morto nesse dia 5.9.36, na batalha de Cerro Muriano). Gerda morreu atropelada por um tanque republicano, no meio dum raide aéreo, e Capa partiu em 1938 para a China, fotografando à invasão japonesa da China. A rendição da França ao fuhrer obriga a nova partida em 1940, para Madrid e depois para os EUA. Regressa com os marines, assistindo ao desembarque na Normandia (gastou 4 rolos sob fogo cerrado, mas só 11 fotos sobreviveram a um erro na revelação). Dizia que o maior desejo dum fotógrafo de guerra e o desemprego.
Novo furo profissional, presenciou o nascimento de Israel e a epopeia da chegada de milhares à terra prometida, e fundou mais tarde a Agência magnum, com Cartier-Bresson e David Seymor.
Capa morreu (adivinhem!) no campo de batalha, ao pisar uma mina terrestre na Indochina, em 1954. Consta que o encontraram com as pernas desfeitas, mas a câmara firme nas mãos.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

JANELA (IN)DISCRETA

Vivian Maier (1926-2009), ama de profissão, aproveitava as folgas para fotografar tudo e nada.
2 sítios (vivianmaier.blogspot.com e www.vivianmaierphotography.com, com mais de 100000 e 12000 negativos, respectivamente) divulgam a obra da senhora que, durante décadas, tirou fotografias de instantâneos, a maioria em Chicago, que não mostrou a ninguém. Foi por acaso que as dezenas de milhares de negativos, milhares de fotos e slides, alguns filmes caseiros e inúmeros rolos por revelar viram a luz do dia: John Maloof comprou uma caixa de negativos num leilão em 2007, foi adquirindo outras que acreditava ser da mesma dona e descobriu numa delas o nome da fotógrafa: o google revelou-lhe que a mesma morrera dias antes. Encontrou mais tarde, noutra caixa, o nome dum dos “patrões” de Vivian e encontrou-lhe o rasto.
Segundo conta o Sol, a ama dizia, a quem a recebia em casa, que a sua vida estava em caixas (ultrapassaram as 200), que transportava para cada nova morada – antes pelo contrário, a vida dos outros estava naquelas caixas. Arrisco eu, meio milhão de anónimos, tirando honrosas excepções (como Dali), foram captadas por uma dotada voyer.










segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

CAI O NARIZ À ESFINGE?



Anda para aí um rebuliço das arábias.
No Líbano não é de agora, anda há décadas no fio da navalha, com o poder partilhado por cristãos maronitas, sunitas e xiitas (dividindo respectivamente os cargos de presidente, 1º ministro e porta-voz do parlamento), um ascendente sírio e a incómoda vizinhança israelita. Agora foi corrido o PM Saad Hariri, que se recusou a renegar a investigação dum tribunal internacional sobre o assassinato do seu pai há 5 anos (era então PM), que aponta para a mão do Hezbollah. Este, apoiado pela Síria e pelo Irão, roeu a corda, saindo da coligação governamental e promovendo outro PM.

Depois foi a Tunísia, com a sua revolução do Jasmim: ditador há 24 anos, Ben Ali fugiu à pressa e viu-se grego para arranjar poiso - a França (ex-colonizadora) negou-lhe asilo, dias depois de tentar segurá-lo no poder. Motivos directos: a revelação pela wikileaks dum poder corrupto e a auto-imolação dum jovem comerciante, a quem foram confiscadas as mercadorias. Razão: um povo muito jovem (e são os jovens que se rebelam), parte dele com formação, sem esperança de emprego - que quer pão e, já agora, liberdade.
Provou-se como é mais fácil do que parece derrubar regimes autocráticos e aparentemente sólidos, quando o povo se junta e não cede: foi assim no bloco de leste, é agora no norte de África. Ainda foi nomeado novo governo, mas o povo recusou-o, porque incluia ex-ministros de Ben Ali. E o partido islamista Ennahdah, que teve (via independentes) 17% de votos na última eleição meia-livre, em 1989, pode chegar agora ao poder.

Os egípcios viram e gostaram, também quiseram. E foram para a rua, e tornearam a desactivação dos telemóveis, do twitter e do facebook, e morreram (125 até hoje), e desobedeceram aos recolheres obrigatórios, e reclamam, e não querem que o poder passe dinasticamente para Mubarak junior, como estaria previsto.
O octagenário pai, no poder desde 1981, demorou a reagir (o que pode ter sido fatal!), demitiu o governo, prometeu reformas e nomeou um vice-presidente (o chefe dos serviços secretos), mas já não chega. El Baradei, nobel da Paz pelo seu serviço na agência atómica, é o rosto da oposição, mas ora está em prisão domiciliária, ora está em parte "incerta". A UE pede eleições livres, Obama fala grosso e exige ao telefone mudanças sociais e políticas.
Ironia: o país é governado pelo Partido Democrático Nacional, que nada tem de democrático, e quem luta pelos direitos civis é a Irmandade Muçulmana (dando apoio social à população, como o terrorista Hamas na palestina). Cameron expressou o receio que o maior país muçulmano do mundo se torne num novo Irão: pede apenas "um pouco mais de democracia".
Hoje há uma prova de fogo, com a promessa dum milhão de manifestantes no Cairo. O exército promete não abrir fogo e diz compreender os protestos "legítimos" - prepara-se para apear o ditador, mas manter o poder?
Semelhanças entre a Tunísia e o Egipto: regimes autoritários aceites como interlocutores pelo Ocidente, que reagiram à sublevação popular com o bloqueio da internet e dos telemóveis - sem sucesso, pois as manifs também se combinam com telefones fixos - e correm o risco de ser substituídos por governos de cariz religioso, o que não augura nada de bom - a Deus o que é de Deus, a César o que é de César.
Diferenças: o regime tunisino era mais civilista (e o exército confraternizou com o povo, como na revoulção dos cravos), enquanto no Egipto é o exército que manda. Não cai sem dar luta, ou pode não cair, como o Irão, que vacilou há 1 ano.

No Iémen, também Saleh (no poder há 32 anos) se confronta com um levantamento popular, com cheiro a jasmim e com o povo secundado pela Irmandade Muçulmana (parece uma holding...). Mas pouco se fala, o país é mais pequeno e fica mais longe.
Ah, a Jordânia e a Argélia também foram "perfumadas".

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

PARABÉNS COMPADRE

Como quem bebe a sabedoria paterna, há 2 ou 3 “ensinamentos” que nunca mais esqueci. Um deles é o “nada se cria, tudo se transforma” com que o meu pai abria um monólogo, sempre que lhe pedia uma explicação rápida sobre uma dúvida em matemática ou físico-química.
Outra, da sua lavra, era “Amigos são a família e os da infância”. Não é que concorde, pois vamos ganhando novos Amigos ao longo dos anos, mas percebo: a família, disse alguém, é “um grupo peculiar de amigos à força” (até que uma partilha os separe), e os amigos de infância são diferentes.
Em primeiro lugar, a relação tem fundações: foram milhares de horas de partilha de histórias divertidas, pães, copos, copos, copos, tardes, noites, directas, férias, segredos importantes ou sem interesse – e de piolhos, pois juntávamos as cabeças para vermos os cromos. É, agora o contacto físico restringe-se a apertos de mão.
Talvez por isso, essas amizades resistem de outra forma à separação e aos desencontros, são mais estruturais que conjunturais. Ninguém esquece o primeiro amigo, pois não?
Porquê aqueles e não outros? Porque pertencemos ao mesmo grupo, porque havia empatia e interesses comuns. Uma espécie de irmãos, capazes de nos irritar, como da maior generosidade. Prova nº 1, o Pedro, 38 anos feitos hoje: o mesmo rapaz que me enervava quando, a ganhar ao “Risco”, estalava propositada e repetidamente as nozes dos dedos, ou quando me chagava a dar caroladas numa viagem de horas, ou quando agitava as mãos em frente das nossas caras, dizendo “o ar é de todos”, era generoso – certa noite, ao chegar ao parque de campismo, eu não tinha passe; é certo que a cerveja potenciou o altruísmo, mas insistiu em dar-me a sua senha e saltar ele pelo arame farpado. O resultado apareceu com a ressaca, uma séria de rasgões nas mãos e nos braços.

Como concordamos em quase nada, eis uma bela música para celebrar:
 

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

UMA GARRAFA HÁ 5 ANOS NO FRIO


RESULTADOS PRESIDENCIAIS
53.48% dos inscritos não apareceu. A esses 5164175 (serão menos, por causa da “sujidade” nos cadernos), há que somar 191284 portugueses que deixaram o papel em branco (4.26%) e 86581 pessoas que escreveram qualquer coisa, que não uma cruz num dos quadrados (1.93% de nulos). É muita gente.

189091 pessoas (4.49% dos votos expressos) quiseram desenhar um manguito no boletim de voto, pondo a cruz no COELHO. O dito, que obteve 39% dos votos na Madeira, ainda pode fazer estragos nas regionais que se aproximam.
Pois Coelho+brancos+nulos=466856 pessoas. É mesmo muita gente.

O candidato MOURA, que parece que existiu para morder a canela ao PR – e se recusou “educadamente” a dar os parabéns ao vencedor, por alegada coerência –, arrancou 66112 votos (1.57%, que subiu aos 10 % no seu distrito).

LOPES (7.14%) parecia ter conseguido fixar todos os votos comunistas, mas os seus 300921 votos estão abaixo dos 446279 obtidos nas últimas legislativas. Ainda assim, eficaz.

NOBRE ficou tão inebriado com os 594068 votos (14.10%) que alucinou, afirmando que a sua candidatura da cidadania foi a vencedora - que tenha aberto a porta para outro cidadão na próxima vez, basta. Para o bolo contribuiu a pouca direita desalinhada, muitos abstencionistas encartados (e que para lá voltam!), algum do PS e do bloco – repararam que, no discurso, atrás de Nobre estava o left-wing Osório e uma socialista de sempre (Margarida Pinto Correia)? A propósito, dever ter sido aberta uma garrafa de Moet no Campo Grande, em fria vingança: os 14% de Soares foram humilhados pelos 20% de Alegre em 2006, agora os 14% de Nobre humilharam os 20% do poeta.

Pois é, ALEGRE não era dono do “seu” milhão de votos de 2006 (1125077, 20.72%), que voou com o vento que passa, ficou com 832637 cruzinhas (19.76%), abaixo de qualquer previsão miserabilista: o PS profundo não esquece as críticas nem gostou da muleta bloquista, o BE achou-o manso, os simpatizantes encontraram outro mais livre e romântico, milhares foram para outra praia.

Finalmente CAVACO, 2231603 votos (52.95%): menos 527134 votos que em 2006, mas chegou. Discurso pouco magnânimo: "não vou agora falar na vil baixeza da campanha suja", e fala.

n.r.: é muito estranho, conforme o site ou o jornal, variam os votos em 2006 e 2011. os dados referidos são do ministérios da justiça.

domingo, 23 de janeiro de 2011

ALEGRE CAVAQUEIRA


Pronto, lá vai Cavaco e a esposa (ao menos Alegre diz mulher) mais 5 anos para o Pátio dos Bichos. E a custo zero, o condómino da Aldeia da Coelha optou pelas 2 pensões em vez do salário de PR.
Quanto a resultados, há só um vencedor, o que ganhou, todos os outros perderam. Podem é ter superado as expectativas, ou não: Alegre com 2 partidos pouco mais faz (se tanto) que há 5 anos, Lopes e Moura cumpriram, na devida proporção, o “meu” candidato tem uma Nobre votação (1 em cada 7 cruzes) e Coelho semeou no “contenente” - há muito espaço para os independentes na próxima eleição. Já agora, e com o perdão dos visados, que feliz ver numa noite de eleições o PS e o BE caladinhos.
Outra nota: que país este, em que 1 em cada 2 eleitores não acha que vale a pena deslocar-se a uma mesa de voto. Achar que a eleição estava decidida não vale.

sábado, 22 de janeiro de 2011

UMA CRISE, POR FAVOR


Conheci a crise aos 14 anos, quando passei a fazer férias em S. Martinho. Ia com um grupo misto de comparsas (quem agora permite que a filha de 13 anos vá para o campismo com os amigos, durante 1 semana, habilita-se a uma visita da SS…) e a crise era uma instituição. Aliás, conseguíamos viver durante uma férias inteiras à custa da crise.
Eu e a maralha tínhamos a mesma rotina diária: dormir de manhã, enquanto o calor fosse suportável na tenda, praia, rolar pelo monte de Salir, banho ao fim da tarde e a romaria à Rua dos Cafés, para cervejas (0.25€) e partilharmos a crise – e que boa era a crise. Essa rua enchia de gente à procura da crise, para experimentar ou repetir – gente apinhada em pé, à espera que chegasse a vez de ter a sua crise.
Voltei a S. Martinho crescido, sempre com as mesmas saudades da crise. E constatei que a crise, que conheci antes da entrada na CEE, era menos austera – agora podia levar salsicha. Para quem não sabe – porque nunca foi a S. Martinho –, uma crise é um prato de batatas com um ovo estrelado.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

VAMOS LÁ, É SÓ ESCOLHER

E pronto, tá a acabar a campanha. Não haverá muitos indecisos, já se optou por ficar em casa, manter o presidente em funções ou por uma cruz numa das alternativas - ninguém está é empolgado, certamente. A ponto de alguns acharem que, se não houvesse campanha, o seu candidato tivesse maior votação. Eu, um desses, espero que Nobre tenha uma boa votação, não por ele, mas porque pode abrir caminho a outro candidato que saia da "sociedade civil" daqui a 5 anos, com hipóteses sérias de ganhar.
Mas claro, importa é votar, há suficiente escolha.

Como imagem, as candidaturas escolheram o movimento das cores naccionais, a esfera armilar, uma papoila, uma onda (e o 11 a verde-rubro) ou, sem um brainstorming profissional para inventar um símbolo, a cara dos candidatos.
Quanto a slogans, há desde o "Acredito nos portugueses" de Cavaco ao "Presidente justo e solidário" que luta pelo Estado Social (Alegre), desde o "Recomeçar" de Nobre à "Mudança necessária" de Lopes (cuja "candidatura patriótica e de esquerda" tem "confiança nos trabalhadores, no povo e no país"), desde a luta contra o clientelismo e pela regionalização de Moura ao "Coelho ao poleiro". Muita crença e muita confiança, em suma.







terça-feira, 18 de janeiro de 2011

PERGUNTA PARA QUEIJO


Prá semana fazem 16 meses que Sócrates ganhou as eleições - um terço da legislatura já lá vai.
Tirando o casamento gay, para quem isso interessar, lembram-se de alguma coisa boa e com impacto que este governo tenha feito?

Eu sou meio esclerosado e tenho fraca memória, mas o que retive no arquivo foi o sufoco das finanças. Back to 2009: o défice previsto ficava abaixo de 3%, nas eleições de Setembro o governo garantia 5.8%, 3 meses depois a conta fechou em 9%. O PM insistia nas grandes obras públicas como bilhete para o sucesso, quando toda a gente sabia que não havia guita, e assegurava que as finanças estavam controladas e não eram precisas medidas adicionais, dias antes de aumentar o IVA, o IRS, o ADSE e a CGA. Pariu-se um PEC, não chegou, outro PEC e depois mais outro. Cortou-se o abono de família, o subsídio de desemprego, a comparticipação de medicamentos, o rendimento mínimo, as deduções à colecta... e o salário dos servidores públicos. Agora já vai no revirar dos bolsos e no rapar do tacho, com o aumento estratosférico das taxas moderadoras, multas e taxas de desbloqueamento dos carros.

Mas continuamos a gastar mais do que recebemos e custa cada vez mais arrancar uns empréstimos, para a despesa corrente e pagar juros do calote: enfim, para a mercearia e a prestação do plasma (daquelas que tá sempre a crescer, tipo Cofidis).
Ora Sócrates crava uns trocos à China (que não sabe o que fazer às divisas que acumula, e para quem este empréstimo é liliputiano), ora vai em "roadshow" às arábias vender a dívidazinha, numa espécie de MBO. E, como não se morde a mão que nos alimenta (e que tem outra noção de "direitos"), volta o epíteto que Mário Soares usou para a ditadura: Portugal amordaçado.
Futuro? Enquanto a Alemanha já cresce a mais de 3% ao ano, nós vamos regredir em 2011 e, estima quem sabe, vamos ter na próxima década 1 dos 2 menores crescimentos do Mundo.

Pronto, há mais vida para além das finanças. Pois é, a Justiça tá na mesma, a Cultura definha sem orçamento, as escolas contam os paus de giz, os hospitais cortam nos medicamentos, as empresas não ganham quota de mercado, cada vez produzimos menos para comer.
Pergunto de novo: está-me a escapar alguma medida profícua do XVIII governo constitucional?

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

FAZER PELA VIDINHA


O "sensato" conselho de Cavaco Silva para comermos e calarmos de modo a que "os nossos credores" não se zanguem connosco e nos castiguem com juros cada vez mais altos espelha uma cultura salazarenta de conformismo que, sendo muito mais antiga que Cavaco, ele representa na perfeição, até nos seus, só na aparência contraditórios, repentes de arrogância.
Quando Cavaco nos recomenda que amouchemos pois "se nós lhes [aos 'nossos credores'] dirigirmos palavras de insulto, a consequência será mais desemprego para Portugal", tão só repete, adaptada à actual circunstância, a "sensata" e canónica fórmula do "Manda quem pode, obedece [ no caso, cala] quem deve".
Trata-se de uma atávica cultura em que a vida é vidinha, a crítica deve sempre ser "construtiva" e colaborante, os trabalhadores, por suave milagre linguístico, se tornam "colaboradores" (e se colaboracionistas melhor ainda) e servilismo e acriticismo são alcandorados a virtudes cívicas. Porque é assim que se faz pela vidinha, de joelhos.
Estejamos, portanto, gratos às "companhias de seguros, fundos de pensões, fundos soberanos, bancos internacionais e cidadãos espalhados por esse mundo fora" que nos emprestam dinheiro a juros usurários, pois eles apenas querem o nosso bem. E, como o bom Matateu numa famosa entrevista a Baptista Bastos, digamos tudo o que quisermos, excepto dizer mal, "porque [cito de cor] Matateu não diz mal de ninguém".

Manuel António Pina in JN 30-12-2010
n.r.: não sei se concordo com MAP (de quem sou fã), mas achei um dos parágrafos bem apanhado, à Guerra Junqueiro.