...e depois, com bigodes de leite, pedem mais paciência e esforço ao povo, que a "vaca 'tá seca".

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

DO GIM À REPÚBLICA. UMA LONGA METRAGEM

Einstein disse que as coincidências são a forma usada por Deus para passar anónimo. Pois aconteceram-me duas coincidências, ou pelo menos improbabilidades.
Anteontem, conversava em Milfontes com a avó duma criancinha. A propósito de bebidas (havia sangria na piscina, uma bênção), disse-lhe que odiava uma bebida, o gim, pelo sabor intragável e por uma rotina diária há uns 20 anos antes – pai entra em casa, senta-se na sala e chama o infante para preparar um gim com água tónica.
Quem diria?, no dia seguinte, estava a beber gim ao jantar-barra-serão, na casa duma amiga - bem disfarçado, como refresco.
Calhou contar essa amiga que tivera uns trabalhos muito interessantes, a montar exposições da Torres do Tombo, com a hipótese de mexer em livros e mapas do tempo do Camões, sem os cuidados CSI que mostram na TV. Uma delas fora na Cordoaria Nacional.
E pronto, no dia seguinte fui deixar os miúdos em Lisboa. Aonde? Às portas da Cordoaria Nacional. E havia lá uma exposição sobre o centenário da República, que eu tinha vontade de ver. E vi, mas sempre a abrir: faltavam 25 minutos para a exposição fechar e a minha amável companhia não parou de tagarelar.
Tive pena, é uma exposição para ver os pormenores, e tem as paredes pejadas deles, duma ponta à outra do edifício. Vão, é de graça, até 6 de Outubro.
A propósito, o comissário das comemorações do centenário da república é o ex-banqueiro Artur Santos Silva, com pergaminhos na família. O seu avô, Eduardo Santos Silva, maçon e membro do partido democrático, foi ministro da Instrução nos últimos 2 governos da 1ª república.
Li há uns meses uma história deliciosa, que julgo se passou com esse Eduardo (ou com o seu filho, pai de Artur?). Cenário, tribunal plenário no tempo da ditadura. O réu, por delito “político”, riu-se enquanto o juiz lia a sentença, ridícula. O meritíssimo instou-o a calar-se. Vai daí, Santos Silva levantou-se e pediu a palavra. Autorizado, apenas disse “Ah, ah, ah”.

A vantagem do ser o ano do centenário é que há imensa informação, dá para ficar com uma ideia sobre o que se passou mesmo.
E foi mais ou menos assim:

1. MORTE À MONARQUIA


Ora vejamos: um Rei que não governa (limitado nos seus poderes desde 1834, a monarquia constitucional era na prática uma república com rei), um regime moribundo e o partido no poder ganha todas as eleições, até ser trocado pelo monarca, numa base rotativa. Preparados para a confusão de nomes de ruas?
Os republicanos não só não foram inibidos, como foram favorecidos no jogo partidário. O Centro Republicano (criado em 1876, animado pela implantação da república espanhola em 73) foi protegido pelo governo regenerador do Fontes Pereira de Melo, para desgastar os progressistas, ajudando mesmo o republicano José Elias Garcia a chegar à presidência da câmara de Lisboa (a Bernardino Machado, FPM diria “A República virá, mas tarde; não precisamos dela, porque fazemos tudo o que ela faria”). Depois foram os progressistas de Braamcamp, em 81 e em 90, de volta à oposição, a votar nos candidatos republicanos, para fazer mossa nos regeneradores.
Entre 1893 e 1906, o regenerador Hintze Ribeiro e o progressista José Luciano de Castro governavam à vez, chegando a distribuir previamente os deputados, trocando votos nas eleições e partilhando a gamela – perceberam, como disse Luciano, “a conveniência de ser feita a eleição pacata e sossegadamente por combinação entre todos”. A la-ta!
A correr por fora (mesmo titubeante e não concorrendo a eleições entre 1900 e 1904), o populismo nacionalista e anticlerical dos republicanos capitalizou os votos de protesto, com uma organização eficaz e agitprop, enquanto os dois principais partidos se pulverizaram em facções.
Depois havia os dissidentes, ora veladamente apoiados pelo partido grande do outro campo (Luciano emprestou deputados ao ex-regenerador João Franco), ora patrocinadores dos republicanos, como o ex-progressista José de Alpoim – inimigo do meu inimigo, meu amigo é. “A República não pode vir dum assalto dos republicanos, poderia vir do esfacelamento dos partidos constitucionais”, bem escreveu Oliveira Martins em 1889.
Agora junte-se um país atrasado e analfabeto, com as finanças públicas sempre no vermelho, o vexame do tal mapa cor-de-rosa com a Inglaterra, um rei mal amado (“tudo o que se faz de mal, é o rei quem o faz”, diziam os descontentes) que precisava de “adiantamentos” para pagar as contas - o subsídio real, muito baixo, não era aumentado desde 1821.
Em 1907, João Franco não é demitido por D. Carlos, para surpresa dos progressistas que lhe tinham tirado o apoio parlamentar, e ainda suspende o parlamento (o que não era inédito), governando por decreto – i.e., ditadura. Os políticos do Centrão viram-se ao fim de décadas apeados do poder e semearam protestos e vaias ao rei, e alguns declararam-se republicanos. João Franco insistiu em liquidar mais empréstimos à casa real, os malditos “adiantamentos”. D. Carlos avisou o ditador, “estamos diante de uma fogueira que desejamos apagar, e não se apaga fogo lançando-lhe lenha”. Meu dito, meu feito, a 1 de Fevereiro de 1908, era morto na Praça do Comércio.
Voltaram os governos dos 2 velhos partidos, agora fragmentados em 7 grupos, e o despeito de quem ficava de fora – só eram monárquicos os políticos a quem o rei confiava o poder, disse um diplomata em 1909 (D. Carlos, parece, dizia haver uma monarquia sem monárquicos). E deixaram um galvanizado partido republicano crescer em votos, ganhando a câmara de Lisboa com 8000 votos, em 450000 habitantes.
Na noite de 3 de Outubro de 1910, umas centenas de militares saíram à rua, ninguém defendeu a monarquia. Um par do reino aceitou a república justificando que “a monarquia que existia não merece o sacrifício” de ninguém.

2. A REPÚBLICA TAMBÉM TEVE UM GOLPE DO CALDAS

A “cedência” do espaço entre Angola e Moçambique à Inglaterra (como se houvesse outro remédio!) inflamou os republicanos. A 1 de Janeiro de 1891, juntam-se em congresso no Porto, elegendo uma direcção que não advogava uma revolta, contra a vontade dos mais radicais.
No dia 31 de Janeiro, saem à rua 3 regimentos e uma companhia da Guarda Fiscal, que caminham para a Câmara Municipal, onde um Alves da Veiga declara a República, acompanhado por figuras como o Actor Verdeal, o abade de S. Nicolau e o chapeleiro Santos Silva.
Verdeal lê a lista do governo provisório, que incluía 2 professores, um lente, um general, um desembargador, o banqueiro Pinto Leite e o médico José Ventura dos Santos Reis – que vim a descobrir, é aquele senhor da fotografia no meu corredor, tio-tetravô dos miúdos.
Parecia fácil?. Nããão. Vai daí, depois de fanfarras, foguetes e vivas, resolvem subir a R. de Santo António (agora tem a data da ocorrência) até à Praça da batalha. Acontece que lá em cima estava a guarda municipal: carga de fuzilaria mata uns quantos, debandada. 300 briosos acantonaram-se na câmara, mas renderam-se às 10 da manhã. 12 revoltosos mortos, alguns cabecilhas emigraram, prisão e julgamento de civis e 505 militares em barcos colocados em Leixões, degredo para 250 pessoas em África (alguns amnistiados em 1893).
E o tal governo provisório? Negou ter dado autorização para aparecer o seu nome… Um deles deu um no cravo e outro na ferradura: “mas não autorizei ninguém a incluir o meu nome na lista do governo provisório, lida nos Paços do Concelho, no dia 31 de Janeiro, e deploro que um errado modo de encarar os negócios da nossa infeliz pátria levasse tantas pessoas a tal movimento revolucionário.”


3. FAZ 100 ANOS


1910 foi agitado e com intentonas abortadas. A 14 de Junho é fundada a Comissão da Resistência. A 29 de Setembro junta-se o pessoal: a maçonaria, a carbonária (uma organização secreta para-maçónica), a loja Acácia e o Directório do PRP. Machado Santos fazia uma dobradinha, era o chefe máximo da carbonária e o maçónico irmão Champoniet.
Um dos presentes contou que, no final, todos se voltaram para o Cândido dos Reis (também conhecido como irmão Pêro de Alenquer), perguntando-lhe se seria o momento para tentarem a vitória, tendo o almirante respondido: "É o momento! A monarquia achincalha-nos e nós temos que nos decidir. Não posso garantir a vitória, mas afianço-lhes que a Revolução, vencedora ou vencida, não será uma vergonha.
Senha da revolução, escolhida por Cândido dos Reis, foi “mandou-me chamar? – passe, cidadão”.

A revolução republicana começou na noite de 3 de Outubro, a arrancou mal. A maioria dos carbonários não apareceu, a tropa sublevada não passou de 400 soldados. Foram tomados 2 dos 10 regimentos de Lisboa, o quartel da marinha em Alcântara e dois cruzadores no Tejo; insucesso na tomada do paço e do quartel do carmo (mais uma vez, a reacção acantonada no Carmo) da guarda municipal. A coisa ‘tava preta e o líder da insurreição, Cândido dos Reis, suicidou-se na madrugada de 4 de Outubro, depois de passar pelos Banhos de S. Paulo (aliás, a outra cara da conspiração, o médico Miguel Bombarda, foi assassinado na véspera, por um doente mental).
Os revolucionários acamparam na rotunda. De manhã, face aos boatos sobre o acantonamento das forças monárquicas no Rossio e que a Guarda Municipal se preparava para carregar, o comandante Sá Cardoso reuniu os oficiais e expôs a situação. Resultado, muitos militares despiram a farda, vestiram roupa à paisana e esfumaram-se. Um não o fez, Machado dos Santos, ficou a comandar 9 sargentos, 200 militares, uns cadetes, alguns civis, a maioria desarmada, e um só membro do Directório republicano, Malva do Vale.
Mas a tropa monárquica e o governo não confiavam um no outro e ninguém veio defender a monarquia – um ministro deposto desabafou a Raul Brandão que “se os da Rotunda se sentam em cadeiras e esperam 3 dias, ao fim de 23 dias a República estava proclamada”.
O ajuntamento da rotunda cresceu e, às 11h, os 2 cruzadores bombardearam o palácio das necessidades – D. Manuel escondeu-se na tapada do palácio, no atelier onde D. Carlos “pintava e recebia visitas patuscas”, antes de se escapulir para Mafra, mandando chamar a Rainha-mãe Amélia e Rainha-avó Maria Pia.
Entretanto, o comandante da Escola naval recusa a ordem real de torpedear os barcos revoltosos, e a rotunda resiste ao ataque das forças reais lideradas por Paiva Couceiro. Os ventos mudam e, pelas 20 horas, a rotunda enche de povo, voltando alguns dos que haviam despido as fardas: 500 militares e 1000 civis, grosso modo.
A noite traz fogo cruzado de artilharia e a tomada do couraçado D. Carlos. Comandantes de tropas reais afirmam que não abrirão fogo sobre os marinheiros que desembarquem no Terreiro do Paço. O Directório do Partido Republicano acompanha os acontecimentos toda a noite de 4 para 5 de Outubro, primeiros nos Banhos de S. Paulo (ficaram literalmente nas termas…) e depois no Hotel Europa, por cima dos Grandes Armazéns do Chiado.
Na manhã de 5 de Outubro, debandaram os militares da situação e os ministros, o rei apanhou o barco na Ericeira. Por volta das 8 da manhã, um diplomata alemão conseguiu que as forças monárquicas suspendessem o fogo durante uma hora, para eventuais alemães abandonaram a cidade. Quando tentou, sob escolta monárquica (que, mal chegou ao cimo da Avenida da Liberdade, foi obrigada a mudar de lado), dirigir-se à rotunda para tentar o mesmo com os republicanos, dá-se um equívoco: a bandeira branca que levavam foi interpretada como rendição, o povo inundou o Rossio e fez a festa com a tropa monárquica, desfazendo as formações militares. O encontro entre Machado Santos e o general Gorjão já não foi sobre um armistício de 1 hora, mas sobre a proclamação da República e a rendição monárquica.
Às 11 horas, José Relvas (acompanhado por Eusébio Leão e Inocêncio Camacho), proclama a República na varanda dos Paços do Concelho: “Unidos todos numa mesma aspiração ideal, o Povo, o Exército e a Armada acabou de, em Portugal, proclamar a República”. O Edital da proclamação da república, assinado por Teófilo Braga, dizia "O Governo Provisório da República Portuguesa saúda as forças de terra e mar, que com o povo instituiu a Republica para felicidade da Pátria. Confio no patriotismo de todos. E porque a Republica para todos é feita, espero que os oficiais do Exército e da armada que não tomaram parte no movimento se apresentem no Quartel-general, a garantir por sua honra a mais absoluta lealdade ao novo regime."
Saíram então “debaixo das pedras” muitos carbonários prontos para defender a república, pousaram para as fotografias e extravasaram alguma violência, tendo matado 2 frades. De resto, a revolução teve 5 feridos à bomba e uma baixa civil. Raul Brandão relatou a revolução no seu diário: “o meu bairro tranquilo: um vizinho sacha as couves com indiferença. (…) Os estragos são insignificantes (…) Só isto!?
E, adivinhem, nas semanas seguintes multiplicaram-se os republicanos “de sempre”. Adesivagem foi o termo criado. É singular a explicação dum militante brigantino, em 1912, “a massa da população não é republicana, como não e monárquica. É o que quiser o Sr. Fulano e o Sr. Sicrano. E este Fulano e este Sicrano, por sua vez, serão o que for necessário às suas conveniências ou ligações pessoais”.

Obituário: Machado Santos, dos primeiros a desencantar-se com o rumo da República (ao ponto de participar num golpe por ano, entre 13 e 17), e Carlos da Maia (e o líder do governo, diga-se) foram mortos na chamada noite sangrenta de 19/10/1921, onde uma camioneta “fantasma” correu Lisboa a recolher vítimas. Tempos muito estáveis.


4. VIVA A REPÚBLICA



A primeira república não cumpriu as aspirações dos republicanos. Não houve tolerância, pelo menos religiosa (“uma república com padres é o maior dos absurdos”, dizia uma activista em 1883), antes uma aversão primária contra a religião. O injustamente incensado Afonso Costa dixit: “em 2 gerações Portugal terá eliminado completamente o catolicismo, que foi a maior causa da desgraçada situação em que caiu”.
Instituiu-se a separação entre o Estado e a Igreja, mas o que procurou foi a inversão do ascendente: o Estado passou a poder intervir nas pastorais, circulares e na organização da igreja, instalando comissões cultuais. Tolerante (!), proibiu procissões, toques de sinos, fardamentos dos padres, feriados católicos (o Natal ganhou o nome de festa da família) e o ensino religioso. Todos os bispos foram saneados e foram presos 170 padres que divulgaram uma pastoral proibida pelo governo. Em vez dum Estado neutral, apareceu um Estado sectário, constatou um republicano. Imprimia o jornal O Dia, os republicanos preocupavam-se com o L maiúsculo da liberdade, mas não queriam saber do l minúsculo.

Também não houve estabilidade política - os 46 governos dos 16 anos de república transformam os 19 governos nos últimos 30 anos de monarquia numa viagem bucólica –, mas um parlamento que, em vez de legislar, esteve quase sempre dividido emfacções e grupos. E lá voltaram as manifestações de rua, as maiorias fabricadas, com a eleição de deputados “suplementares” (1913), a “produção” de votações a troco de cargos e os fechos do parlamento (1915), as vitórias eleitorais de quem já governava. E golpes frequentes, com talvez 1500 mortos entre 1915 e 1920, muito mais letais que a revolução de 5 de Outubro.
E a democracia? António Sérgio dixit: "é facto único na história, uma república que restringe o voto em relação à monarquia que deitou abaixo em nome de princípios democráticos". Isto a propósito dos recenseados terem descido para menos de metade, com a retirada de direito de voto aos analfabetos, para evitar o tal caciquismo – o chefe do governo Afonso Costa explicou no parlamento, “indivíduos que não têm ideias nítidas e exactas de coisa nenhuma, nem de nenhuma pessoa, não devem ir à urna, para não se dizer que foi com carneiros que confirmámos a república”. Salazar não diria melhor. A propósito, no mesmo discurso, Costa combateu os teóricos do sufrágio universal, negando o voto às mulheres, porque o seu lugar era no lar, como companheira do homem e educadora dos filhos. Toma!
Manteve-se o apego à ordem pública, só que agora na mão de outros. Aliás, uma das primeiras preocupações foi a mudança do poder, com a entrega de toda a república aos republicanos, de alto a baixo, e somente a eles – José Relvas admitiu, nas memórias, ter ajudado a instaurar “uma república privativa de parte da nação”. Começando pela substituição das vereações municipais (as eleições tardaram 3 anos, porque sentiam o eleitorado “adverso”, como se constatou num inquérito aos presidentes das comissões administrativas), a destruição de jornais monárquicos (a lei permitiu, desde 1912, a apreensão de jornais contra a ordem, os bons costumes e a república; em 1916, viria a censura prévia), a ocupação do Estado através da atribuição livre dos empregos públicos aos militantes, a vigilância das ruas por militantes armados do PRP (“a formiga branca”) e a intimidação da magistratura (transferindo magistrados que não acusaram João Franco, como "pedido"), até à eleição de candidatos republicanos sem votos, onde não houvesse concorrente, e a prisão política (2382 presos políticos em 1912), com limitação de direitos – mais uma vez o Costa, verberando que os prazos judiciais eram demasiado apertados para a lei ser eficaz, porque “é preciso que eles sintam que nós iremos até onde for preciso".
Ah, regulamentou-se a greve, mas exigiu-se o pré-aviso, proibiram-se os piquetes e prenderam-se dirigentes grevistas – jornais exclamavam “basta de greves”, militantes republicanos armados perseguiam grevistas e Afonso Costa ganhou o cognome de racha-sindicalistas.
Por fim, o progresso: a maior divergência de rendimentos entre Portugal e o resto da Europa, a falta de dinheiro, o êxodo de 1/25 dos portugueses entre 1910 e 1912, o abrandamento do crescimento do nº de escolas primárias e da taxa de alfabetização entre as 2 primeiras décadas de 1900. Quanto a finanças, liberais como sempre: "o erro da monarquia foram gastar de mais; o Estado iria gastar apenas o que fosse preciso, como se “fazia numa casa comercial honesta”; "o que precisar de aumento de despesa, não, não e não"; era preciso deixar de olhar para o Estado como se tivesse uma mina e inesgotável; a administração pelo estado era “em regra, má e dispendiosa”, cabendo aos particulares criar riqueza e ao Estado gerar um quadro estável e de confiança. Mas atingiu-se o superavit em 1913 e 14, sendo aprovada uma lei-travão, que proibia propostas que diminuíssem a receita ou aumentasse a despesa. Quanto a subsídios para instituição de assistência e educação, Afonso Costa respondia “façam quermesses”.
Os republicanos puseram o municipalismo na gaveta e não houve descentralização de facto no país nem nas colónias – onde se manteve legal o trabalho forçado. A propósito, o nosso Costa contestou os pruridos gerados pela ordem de matar todos os gentios com mais de 10 anos em Angola, na 1ª guerra, com “não nos deixemos mover por idealismos".
O desânimo voltou, como a crítica inflamada. Em 1917, Álvaro de Campos constatava “a falência geral de tudo por causa de todos”.
Foi uma questão de tempo para aparecer alguém e por isto com “ordem” e "estabilidade". Infelizmente.

A REPÚBLICA TAMBÉM TEVE UM GOLPE DO CALDAS


A “cedência” do espaço entre Angola e Moçambique à Inglaterra (como se houvesse outro remédio!) inflamou os republicanos. A 1 de Janeiro de 1891, juntam-se em congresso no Porto, elegendo uma direcção que não advogava uma revolta, contra a vontade dos mais radicais.
No dia 31 de Janeiro, saem à rua 3 regimentos e uma companhia da Guarda Fiscal, que caminham para a Câmara Municipal, onde um Alves da Veiga declara a República, acompanhado por figuras como o Actor Verdeal, o abade de S. Nicolau e o chapeleiro Santos Silva.
Verdeal lê a lista do governo provisório, que incluía 2 professores, um lente, um general, um desembargador, o banqueiro Pinto Leite e o médico José Ventura dos Santos Reis – que vim a descobrir, é aquele senhor da fotografia no meu corredor, tio-tetravô dos miúdos.
Parecia fácil?. Nããão. Vai daí, depois de fanfarras, foguetes e vivas, resolvem subir a R. de Santo António (agora tem a data da ocorrência) até à Praça da batalha. Acontece que lá em cima estava a guarda municipal: carga de fuzilaria mata uns quantos, debandada. 300 briosos acantonaram-se na câmara, mas renderam-se às 10 da manhã. 12 revoltosos mortos, alguns cabecilhas emigraram, prisão e julgamento de civis e 505 militares em barcos colocados em Leixões, degredo para 250 pessoas em África (alguns amnistiados em 1893).
E o governo provisório? Negou ter dado autorização para aparecer o seu nome… Um deles dá um no cravo e outro na ferradura: “mas não autorizei ninguém a incluir o meu nome na lista do governo provisório, lida nos Paços do Concelho, no dia 31 de Janeiro, e deploro que um errado modo de encarar os negócios da nossa infeliz pátria levasse tantas pessoas a tal movimento revolucionário.”

MORTE À MONARQUIA



Ora vejamos: um Rei que não governa (limitado nos seus poderes desde 1834, a monarquia constitucional era na prática uma república com rei), um regime moribundo e o partido no poder ganha todas as eleições, até ser trocado pelo monarca, numa base rotativa. Preparados para a confusão de nomes de ruas?
Os republicanos não só não foram inibidos, como foram favorecidos no jogo partidário. O Centro Republicano (criado em 1876, animado pela implantação da república espanhola em 73) foi protegido pelo governo regenerador do Fontes Pereira de Melo, para desgastar os progressistas, ajudando o republicano José Elias Garcia a chegar à presidência da câmara de Lisboa (a Bernardino Machado, FPM diria “A República virá, mas tarde; não precisamos dela, porque fazemos tudo o que ela faria”). Depois foram os progressistas de Braamcamp, em 81 e em 90, de volta à oposição, a votar nos candidatos republicanos, para fazer mossa nos regeneradores.
Entre 1893 e 1906, o regenerador Hintze Ribeiro e o progressista José Luciano de Castro governavam à vez, chegando a distribuir previamente os deputados, trocando votos nas eleições e partilhando a gamela – perceberam, como disse Luciano, “a conveniência de ser feita a eleição pacata e sossegadamente por combinação entre todos”. A la-ta.
A correr por fora (mesmo titubeante e não concorrendo a eleições entre 1900 e 1904), o populismo nacionalista e anticlerical dos republicanos capitalizou os votos de protesto, com uma organização eficaz e agitprop, enquanto os dois principais partidos se pulverizaram em facções.
Depois havia os dissidentes, ora veladamente apoiados pelo partido grande do outro campo (Luciano emprestou deputados ao ex-regenerador João Franco), ora patrocinadores dos republicanos, como o ex-progressista José de Alpoim – inimigo do meu inimigo, meu amigo é. “A República não pode vir dum assalto dos republicanos, poderia vir do esfacelamento dos partidos constitucionais”, bem escreveu Oliveira Martins em 1889.
Agora junte-se um país atrasado e analfabeto, com as finanças públicas sempre no vermelho, o vexame do tal mapa cor-de-rosa com a Inglaterra, um rei mal amado (“tudo o que se faz de mal, é o rei quem o faz”, diziam os descontentes) que precisava de “adiantamentos” para pagar as contas - o subsídio real, muito baixo, não era aumentado desde 1821.
Em 1907, João Franco não é demitido por D. Carlos, para surpresa dos progressistas que lhe tiraram o apoio parlamentar, e ainda suspende o parlamento (o que não era inédito), governando por decreto – i.e., ditadura. Os políticos do Centrão viram-se ao fim de décadas apeados do poder e semearam protestos e vaias ao rei, e alguns declararam-se republicanos. João Franco insistiu em liquidar mais empréstimos à casa real, os malditos “adiantamentos”. D. Carlos avisou o ditador, “estamos diante de uma fogueira que desejamos apagar, e não se apaga fogo lançando-lhe lenha”. Meu dito, meu feito, a 1 de Fevereiro de 1908, era morto na Praça do Comércio.

Voltaram os governos dos 2 velhos partidos, agora fragmentados em 7 grupos, e o despeito de quem ficava de fora – só eram monárquicos os políticos a quem o rei confiava o poder, disse um diplomata em 1909 (D. Carlos, parece, dizia haver uma monarquia sem monárquicos). E deixaram um galvanizado partido republicano crescer em votos, ganhando a câmara de Lisboa com 8000 votos, em 450000 habitantes.
Na noite de 3 de Outubro de 1910, umas centenas de militares saíram à rua, ninguém defendeu a monarquia. Um par do reino aceitou a república justificando que “a monarquia que existia não merece o sacrifício” de ninguém.

3. VAI FAZER 100 ANOS



1910 foi agitado e com intentonas abortadas. A 14 de Junho é fundada a Comissão da Resistência. A 29 de Setembro junta-se o pessoal: a maçonaria, a carbonária (uma organização secreta para-maçónica), a loja Acácia e o Directório do PRP. Machado Santos fazia uma dobradinha, era o chefe máximo da carbonária.
Um dos presentes contou que, no final, todos se voltaram para o Cândido dos Reis (também conhecido como irmão Pêro de Alenquer), perguntando-lhe se seria o momento para tentarem a vitória, tendo o almirante respondido: "É o momento! A monarquia achincalha-nos e nós temos que nos decidir. Não posso garantir a vitória, mas afianço-lhes que a Revolução, vencedora ou vencida, não será uma vergonha.”
Senha da revolução, escolhida por Cândido dos Reis, foi “mandou-me chamar? – passe, cidadão”.

A revolução republicana começou na noite de 3 de Outubro, a arrancou mal. A maioria dos carbonários não apareceu, a tropa sublevada não passou de 400 soldados. Foram tomados 2 dos 10 regimentos de Lisboa, o quartel da marinha em Alcântara e dois cruzadores; insucesso na tomada do paço e do quartel do carmo (mais uma vez, o Carmo)da guarda municipal. A coisa ‘tava preta e o líder da insurreição, Cândido dos Reis, suicidou-se na madrugada de 4 de Outubro, depois de passar pelos Banhos de S. Paulo (aliás, a outra cara da conspiração, o médico Miguel Bombarda, foi assassinado na véspera, por um doente mental).
Os revolucionários acamparam na rotunda. De manhã, face aos boatos sobre o acantonamento das forças monárquicas no Rossio e que a Guarda Municipal se preparava para carregar, o comandante Sá Cardoso reuniu os oficiais e expôs a situação. Resultado, muitos militares despiram a farda, vestiram roupa à paisana e esfumaram-se. Um não o fez, Machado dos Santos, ficou a comandar 9 sargentos, 200 militares, uns cadetes, alguns civis, a maioria desarmada, e um só membro do Directório republicano, Malva do Vale.
Mas a tropa monárquica e o governo não confiavam um no outro e ninguém veio para defender a monarquia – um ministro deposto desabafou a Raul Brandão que “se os da Rotunda se sentam em cadeiras e esperam 3 dias, ao fim de 23 dias a República estava proclamada”.
O ajuntamento da rotunda cresceu, às 11 os 2 cruzadores bombardearam o palácio das necessidades – D. Manuel escondeu-se na tapada do palácio, no atelier onde D. Carlos “pintava e recebia visitas patuscas”, antes de se escapulir para Mafra, mandando chamar a Rainha-mãe Amélia e Rainha-Avó Maria Pia.
Entretanto, o comandante da Escola naval recusa a ordem real de torpedear os barcos revoltosos, e a rotunda resiste ao ataque das forças reais lideradas por Paiva Couceiro. Os ventos mudam e, pelas 20 horas, a rotunda enche de povo, voltando alguns dos que haviam despido as fardas: 500 militares e 1000 civis, grosso modo.
A noite traz fogo cruzado de artilharia e a tomada do D. Carlos. Comandantes de tropas reais afirmam que não abrirão fogo sobre os marinheiros que desembarquem no Terreiro do Paço. O Directório do Partido Republicano acompanha os acontecimentos toda a noite de 4 para 5 de Outubro, primeiros nos Banhos de S. Paulo (ficaram literalmente nas termas…) e depois no Hotel Europa, por cima dos Grandes Armazéns do Chiado.
Na manhã de 5 de Outubro, debandaram os militares da situação e os ministros, o rei apanhou o barco na Ericeira. Por volta das 8 da manhã, um diplomata alemão conseguiu que as forças monárquicas suspendessem o fogo durante uma hora, para eventuais alemães abandonaram a cidade. Quando tentou, sob escolta monárquica (que, mal chegou ao cimo da Avenida da Liberdade, foi obrigada a mudar de lado), dirigir-se à rotunda para tentar o mesmo com os republicanos, dá-se um equívoco: a bandeira branca que levavam foi interpretada como rendição, o povo inundou o rossio e fez a festa com a tropa, desfazendo as formações militares. O encontro entre Machado Santos e o general Gorjão já não foi sobre um armistício, mas sobre a proclamação da República e a rendição monárquica.
Às 11 horas, José Relvas (acompanhado por Eusébio Leão e Inocêncio Camacho), proclama a República na varanda dos Paços do Concelho: “Unidos todos numa mesma aspiração ideal, o Povo, o Exército e a Armada acabou de, em Portugal, proclamar a República”. O Edital da proclamação da república, assinado por Teófilo Braga, dizia "O Governo Provisório da República Portuguesa saúda as forças de terra e mar, que com o povo instituiu a Republica para felicidade da Pátria. Confio no patriotismo de todos. E porque a Republica para todos é feita, espero que os oficiais do Exército e da armada que não tomaram parte no movimento se apresentem no Quartel-general, a garantir por sua honra a mais absoluta lealdade ao novo regime."
Saíram então “debaixo das pedras” muitos carbonários prontos para defender a república, pousaram para as fotografias e extravasaram alguma violência, tendo sido mortos 2 frades. De resto, a revolução teve 5 feridos à bomba e uma baixa civil. Raul Brandão relatou a revolução no seu diário: “o meu bairro tranquilo: um vizinho sacha as couves com indiferença. (…) Os estragos são insignificantes (…) Só isto!?”
E, adivinhem, nas semanas seguintes multiplicaram-se os republicanos “de sempre”. Adesivagem foi o termo criado. É singular a explicação dum militante brigantino, em 1912, “a massa da população não é republicana, como não e monárquica. É o que quiser o Sr. Fulano e o Sr. Sicrano. E este Fulano e este Sicrano, por sua vez, serão o que for necessário às suas conveniências ou ligações pessoais”.

Obituário: Machado Santos, dos primeiros a desencantar-se com o rumo da República (ao ponto de participar num golpe por ano, entre 13 e 17), e Carlos da Maia (e o líder do governo, diga-se) foram mortos na chamada noite sangrenta de 19/10/1921, onde uma camioneta “fantasma” correu Lisboa a recolher vítimas. Tempos muito estáveis.

4. VIVA A REPÚBLICA




A primeira república não cumpriu as aspirações dos republicanos. Não houve tolerância, pelo menos religiosa (“uma república com padres é o maior dos absurdos”, dizia uma activista em 1883), antes uma aversão primária contra a religião. O injustamente incensado Afonso Costa dixit: “em 2 gerações Portugal terá eliminado completamente o catolicismo, que foi a maior causa da desgraçada situação em que caiu”.
Instituiu-se a separação entre o Estado e a Igreja, mas o que se procurou foi a inversão do ascendente: o Estado passou a poder intervir nas pastorais, circulares e na organização da igreja, instalando comissões cultuais. Tolerante (!), a República proibiu procissões, toques de sinos, fardamentos dos padres, feriados católicos (o Natal ganhou o nome de festa da família) e o ensino religioso. Todos os bispos foram saneados e foram presos 170 padres que divulgaram uma pastoral proibida pelo governo. Em vez dum Estado neutral, apareceu um Estado sectário, constatou um republicano. No jornal O Dia, escrevia-se que os republicanos preocupavam-se com o L maiúsculo da liberdade, mas não queriam saber do l minúsculo.

Também não houve estabilidade política - os 46 governos dos 16 anos de república transformam os 19 governos nos últimos 30 anos de monarquia numa viagem bucólica –, mas um parlamento que, em vez de legislar, esteve quase sempre dividido em facções e grupos. E lá voltaram as manifestações de rua, as maiorias fabricadas, com a eleição de deputados “suplementares” (1913), a “produção” de votações a troco de cargos, os fechos do parlamento (1915) e as vitórias eleitorais de quem já governava. E golpes, com talvez 1500 mortos entre 1915 e 1920, muito mais letais que a revolução de 5 de Outubro.
E a democracia? António Sérgio sentenciou, "é facto único na história, uma república que restringe o voto em relação à monarquia que deitou abaixo em nome de princípios democráticos". Isto a propósito dos recenseados terem descido para menos de metade, com a retirada de direito de voto aos analfabetos, para evitar o caciquismo – como o chefe do governo Afonso Costa explicou no parlamento, “indivíduos que não têm ideias nítidas e exactas de coisa nenhuma, nem de nenhuma pessoa, não devem ir à urna, para não se dizer que foi com carneiros que confirmámos a república”. Salazar não diria melhor.
A propósito, no mesmo discurso, Costa combateu os teóricos do sufrágio universal, negando o voto às mulheres, porque o seu lugar era no lar, como companheira do homem e educadora dos filhos. Toma.
Manteve-se o apego à ordem pública, só que agora na mão de outros. Aliás, uma das primeiras preocupações foi a mudança do poder, com a entrega de toda a república aos republicanos, de alto a baixo, e somente a eles – até José Relvas admitiu, nas memórias, ter ajudado a instaurar “uma república privativa de parte da nação”. Começando pela substituição das vereações municipais (as eleições tardaram 3 anos, porque sentiam o eleitorado “adverso”, como se constatou num inquérito aos presidentes das comissões administrativas), a destruição de jornais monárquicos (a lei permitiu, desde 1912, a apreensão de jornais contra a ordem, os bons costumes... e a república; em 1916, viria a censura prévia), a ocupação do Estado através da atribuição livre dos empregos públicos aos militantes, a vigilância das ruas por militantes armados do PRP (“a formiga branca”) e a intimidação da magistratura (por exemplo, transferindo os magistrados que não acusaram João Franco, como pedido), até à eleição de candidatos republicanos sem votos, onde não houvesse concorrente, e a prisão política (2382 presos políticos em 1912), com limitação de direitos – mais uma vez o Costa, verberando que os prazos judiciais eram demasiado apertados para a lei ser eficaz, porque “é preciso que eles sintam que nós iremos até onde for preciso".
Ah, regulamentou-se a greve, mas exigiu-se o pré-aviso, proibiram-se os piquetes e prenderam-se dirigentes grevistas – jornais exclamavam “basta de greves”, militantes republicanos armados perseguiam grevistas e o Costa ganhou o cognome de racha-sindicalistas.
Por fim, o progresso: a maior divergência de rendimentos entre Portugal e o resto da Europa, a falta de dinheiro, o êxodo de 1/25 dos portugueses entre 1910 e 1912, o abrandamento do aumento do nº de escolas primárias e da taxa de alfabetização, entre as 2 primeiras décadas de 1900. Quanto a finanças, liberais como sempre: o erro da monarquia fora gastar de mais; o Estado iria gastar apenas o que fosse preciso, como se “fazia numa casa comercial honesta”; o que precisar de aumento de despesa, não, não e não; era preciso deixar de olhar para o Estado como se tivesse uma mina inesgotável; a administração pelo estado era “em regra, má e dispendiosa”, cabendo aos particulares criar riqueza e ao Estado gerar um quadro estável e de confiança. Atingiu-se o superavit em 1913 e 14, sendo aprovada uma lei-travão, que proibia propostas que diminuíssem a receita ou aumentasse a despesa. Quanto a subsídios para instituição de assistência e educação, Afonso Costa dizia “façam quermesses”.
Os republicanos puseram o municipalismo na gaveta e não houve descentralização de facto no país, nem nas colónias – onde se manteve legal o trabalho forçado. A propósito, o nosso Costa contestou os pruridos gerados pela ordem de matar todos os gentios com mais de 10 anos em Angola, na 1ª guerra, com “não nos deixemos mover por idealismos".
O desânimo voltou, como a crítica inflamada. Em 1917, o heterónimo Álvaro de Campos constatava “a falência geral de tudo por causa de todos”.
Foi uma questão de tempo para aparecer alguém e pôr isto com “ordem” e "estabilidade". Infelizmente.

sábado, 31 de julho de 2010

NOSSA SENHORA DE FÁTIMA CHAMAVA-SE MARIA... WILKIN

Jornalista do El Pais conheceu uma britânica, assídua d'A brasileira do Chiado, que lhe contou ter casado em 1917 com um topógrafo do Porto.
Enquanto o marido efectuava o seu primeiro trabalho na Cova de Iria, Mary – recém-casada, ruiva e vestida de branco até aos pés (tal e qual a Virgem de Murillo existente na igreja de Fátima), com um xaile azul – foi apanhada descalça pela tempestade e subiu a uma árvore (como se sabe, o local mais seguro!!!).
Depois o sol apareceu e um raio iluminou-lhe a face, quando ouviu umas cabras e apareceram 3 pastorinhos, que logo se retiraram. Era 13 de Maio.
A anciã não explicou as outras "aparições", o rodopio do sol e os 3 segredos.
Crianças criativas…

quinta-feira, 29 de julho de 2010

SERÁ FADO?


Situemo-nos, Portugal século XIX.
Solo de má qualidade, clima seco, falta de matéria-prima combustível (no caso, carvão), população pouco qualificada, aumentos de produtividade modestos (38% relativamente à fiação de algodão em Inglaterra, por exemplo), salários baixos mas custo unitário de mão-de-obra alto, crescimento anual da despesa do Estado acima da subida das receitas e quase o dobro da taxa de crescimento económico, explosão da dívida pública (de 80000 para 600000 contos, entre 1850 e 1890 – correspondendo a 70% do PIB –, bastando os juros para consumir 60% da receita pública), importações sempre acima das exportações, crescimento do PNB sim, mas a afastar-se da média europeia.
“Cada vez que más colheitas obrigavam a mais importações, as remessas dos emigrantes (brasileiros) diminuíam ou o acesso ao crédito externo se tornava mais difícil, devido a crises financeiras internacionais, havia aflição em Lisboa”.
Lembra-vos alguma coisa? Pois.

Havia contudo umas diferenças de pormenor: a carga fiscal podia subir, pois representava apenas 4.4% do PIB, havia taxas alfandegárias para aumentar e o poder de desvalorizar a moeda ou imprimir dinheiro. E esses expedientes a gente já não tem.
Uma chatice.

* Muito antes do país do betão do Cavaco, houve o Portugal do macadame de Fontes Pereira de Melo, que rasgou vias férreas (Porto-Lisboa passou de 7 dias de diligência para 8 horas de comboio), pontes, túneis e estradas pelo país. Disse o Estadista “Tudo stá contente. O povo está feliz, quer estradas e nada mais”...

PRÉ-REFORMA


No census de 1911, foi identificada a pessoa mais velha do país, uma “fêmea (!!!) viúva, com 120 anos, que desfrutou regular saúde, porém, impossibilitada de trabalhar, por cegueira, HÁ DOIS ANOS”.
Curiosamente, por essa altura, os republicanos de esquerda repudiavam a nova ideia do Estado providência, chegando a apelidá-la, no Jornal A Luta, de “ideia reaccionária”.

Décadas mais tarde, o Estado Social permitia que as pessoas, com uma esperança média de vida a aumentar, se reformassem aos 50 anos.
Mas isso acabou. Primeiro, muitas pessoas com 40 e tal anos são considerados “velhos” em candidaturas para empregos. E agora vai aumentando a idade elegível para a reforma - não tarda, ainda vamos ter que trabalhar até ao fim da vida… ou enquanto não vier a cegueira.

sábado, 3 de julho de 2010

BOA GOVERNANÇA


Compreendo que seja necessário apertar o cinto. Pois não é verdade que Portugal vive acima das suas possibilidades?

Pegue-se no Sol de ontem e veja-se como o dinheiro é bem gerido.
1. Armando Vara demite-se (não foi demitido) do BCP, porque o processo judicial em que está envolvido nunca mais desanda. Mas sai com os salários até ao fim do seu contrato (Dezembro), 250 mil euros, sabe-se lá porquê.
2. Os deputados insulares têm direito ao pagamento de deslocações semanais às ilhas, em classe executiva, num valor que oscila entre 636 e 808€. Mas não precisam apresentar nenhum comprovativo, até podem ficar por Lisboa. É que também recebem ajudas de custo diárias, pois estão longe de casa.
3. O relatório anual de combate à fraude e evasão fiscal e a Conta Geral do estado de 2009 traz conclusões animadoras: 306 fundações receberam subsídios de 167 milhões de euros, mas não é assegurada a prestação de contas sobre o destino do dinheiro; em 17% dos organismos públicos auditados houve ajustes directos sem fundamento legal, e em 30% foram pagas ajudas de custo suplementares não conformes ou justificadas; os administradores da parque Expo recebem há 10 anos uma gratificação mensal ilegítima e regalias indevidas;o Estado deixou prescrever 573 milhões de euros de dívidas fiscais.
4. As piscinas municipais (de luxo) de Campo Maior estão fechadas, porque a câmara não tem como pagar os custos de manutenção (12 milhões de euros até 2025), mas mesmo que queira cessar o contrato, tem que pagar a totalidade das rendas. Ah, só houve um concorrente, o concurso não foi publicitado, não houve visto prévio, o terreno público foi cedido durante 20 anos por 175m€, sem que o valor fosse fundamentado, a obra demorou mais 2 anos que o contratado. O ex-presidente da câmara fez um contrato leonino... para a construtora privada.
5. o Tribunal de contas vetou, em 2009, 57 actos ou contratos no valor de 3.400 milhões de euros, 32% das despesas submetidas a visto. Foram analisados 2386 processos, no valor de 10.800 M€, i.e., foram vetados (as) grandes empreitadas.
6. O ministério da Justiça fez novas contas relativamente à construção de 10 prisões e remodelação de 3. Afinal não vai custar 450, mas 760 milhões de euros. No mínimo, não se despede quem fez a conta de mercearia errada?

Sim, pelo menos alguns portugueses vivem acima das possibilidades.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

OS GOLOS SÃO COMO O KETCHUP...



...quando aparecem, vêm todos juntos, disse o Ronaldo sobre o jejum de golos da selecção. Parece verdade. E cada um melhor que o outro. Espero que não seque o poço.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

CASA ONDE NÃO HÁ PÃO, TODOS RALHAM...

E TODOS TÊM RAZÃO.

O governo decidiu aplicar novas regras nas pensões sociais (leia-se cortes), numa tentativa de "racionalização da atribuição de prestações sociais e da criação de condições para que estas sejam socialmente mais justas e equitativas" (como diz o DL 78/2010 de hoje, sobre o subsídio de desemprego), com o que conta poupar 150M€ por ano.
Primeira questão: se lá está há 5 anos, e basta fazer a conta, significa que gastou 750M€ onde não devia?

Como alertou o presidente, a austeridade traz o risco de fractura social. Isso significa a hostilidade entre quem trabalha ou desconta e quem recebe.
O forum da TSF é um óptimo observatório social: no meio de muita barbaridade e ignorância, aparece o pulsar do país. E quando o tema são subsídios, há algazarra.
Numa altura em que os bolsos estão cada vez mais leves, o povo indigna-se com situações - que todos conhecem - de gente que prefere estar no desemprego (por vezes falso) ou receber o RSI (mais habitação social, livros escolares, abonos, alimentação, isenções na farmácia ou no hospital, ...) a procurar emprego, e que acham que trabalhar numa vinha... dá trabalho. Gente essa com carro, plasma e playstation.
Num desses programas, um enfermeiro com duplo emprego dizia que visitara uma pessoa com SRI que tinha TVcabo, e perguntava se o erário público servia para ajudar quem precisa ou para pagar "extras".
Conheço uma dessas pessoas que se indignam, funcionário camarário que apanha lixo das 9 da noite às 3 da manhã e trabalha das 6 às 13 numa fábrica, tudo por uns 700€. Vou chamar-lhe reaccionário, porque acha mal o vizinho com 4 filhos ganhar o mesmo, ficando em casa (oferecida)?

Mas há o outro lado. Alfredo Bruto da Costa (presidente da Comissão nacional Justiça e Paz, ex-ministro dos assuntos Sociais de Pintassilgo em 79) pôs o dedo na ferida:
"É inexplicável que a área que visa beneficiar os mais pobres também seja atingida com as medidas de austeridade. Fico muito inquieto quando vejo pessoas mais preocupadas com as fraudes dos pobres do que com a pobreza."

(FALTA DE) NOTÍCIAS EM DIRECTO


A competição das televisões e das rádios pelas notícias obriga-as a directos intermináveis, onde verdadeiramente "se enche o chouriço", i.e., esmiuça-se o irrelevante.
É assim nas cerimónias, em que os locutores dissertam sobre a ementa, os vestidos e a meteorologia, ou entrevistam "os populares" que fazem cordões humanos para bisbilhotar a malta conhecida do ecrã.

Mas, na falta de notícias, também se ocupa a antena com os preparativos.
Há semanas foi o Papa. Dias antes do Santo Padre chegar, já não o podia ver. Era a entrevista ao designer do logótipo, às senhoras que coziam as batinas dos párocos, ao comissário da visita sobre o percurso do papamóvel. Eram os sapatos vermelhos do papa (que, afinal, não são Prada), era o estóico quarto onde o senhor iria pernoitar, era o diabo que o carregue.
E foi o acompanhamento ao minuto dos 4 dias de visita. A tarefa é mais difícil na rádio, não há imagens para distrair. Ouvi na TSF, por mero acaso, a chegada do avião a Lisboa: "O Santo Padre agarra o corrimão para descer a escada... afinal, vai descer sem apoio..." Isto é notícia???

E pronto, agora é o Mundial. Quatro motas (1 delas com atrelado para o câmara) e 2 helicópteros seguiram a camioneta dos jogadores - com vidros fumados, diga-se - até ao aeroporto. Com direito a paragem na bomba da Galp e na festa do Modelo, que isto dos patrocínios tem obrigações.
E assim passaram duas horas de directos em todas as rádios e televisões.
Mas alguém quer saber se o Nani gosta de bacalhau, ou a que horas os jogadores jogam playstation?

SARAMAGO MEETS GOD


Se Deus existe, Saramago ficou hoje a saber.
Acho aliás que estão agora a ter uma conversinha de pé-de-orelha (a história da bíblia ser um manual de maus costumes ou o homem ter inventado um Deus cruel, invejoso e insuportável virá à baila, pela certa).

O primeiro livro que li de Saramago foi O memorial do convento, há 20 e tal anos. Li depois mais uns 10, os últimos a viagem de elefante e Caim. Claramente uns melhores que outros, mas o conjunto da obra é soberbo nas suas alegorias. O segredo é ler a correr, como se ouvíssemos o narrador.

Tem 2 anos (Tabu, 19/04/2008) uma das suas impressões sobre o rectângulo:
"O que falta em Portugal é sentido crítico. Estamos muito aborregados. Nem somos capazes de balir. Mééé!"

segunda-feira, 14 de junho de 2010

RON MUECK



O artista é genro de Paula Rego. Já imaginaram os presentes que se distribuem naquela família, pelo Natal?

sábado, 12 de junho de 2010

D. HENRIQUE, O PIRATA ESCLAVAGISTA E FRATRICIDA


O programa do MST usa o título dum livro (sinais de fogo) e uma frase do Jorge de Sena que eu subscrevo, uma história depende essencialmente do modo como é contada.
Volto ao tema neste blog, agora a propósito de D. Henrique, Duque de Viseu, Mestre de Cristo e irmão de D. Duarte.
Foi pela pena dum dos seus entusiastas, o cronista Gomes Eanes de Zurara, que se criou a lenda dum humanista, um pio, um asceta, um visionário. Tudo bem, também foi isso.

Mas foi mais. Foi ele um dos responsáveis pelo desastre do ataque a Tanger em 1437. O irmão Fernando ofereceu-se para ficar em seu lugar como refém dos mouros, a ser libertado após Portugal sair de Ceuta.
D. Duarte reuniu as Cortes de Leiria em 1468, para discutir o resgate do irmão e a entrega daquela praça, numa sessão renhida e infrutífera.
Imaginem quem faltou, não defendendo o destino do irmão que generosamente ocupara o seu lugar no catre... Henrique.
É sabido, Fernando (o Infante Santo) morreu em Fez em 1443, ao fim de 6 anos a ver o sol aos quadradinhos.

Há mais. D. Henrique tinha uma activa frota de navios de corso e iniciou o tráfico de escravos africanos, particularmente para a produção de açúcar no SEU (oferecido pela coroa) arquipélago da Madeira.
E ainda conseguiu, do irmão regente Pedro e do Papa, o monopólio do comércio e do corso além do cabo Bojador: direitos de povoamento das ilhas, direitos sobre todas as viagens e um quinto dos géneros (incluindo escravos).
Tudo embrulhado em boas intenções, como a procura de novos mundos, a evangelização dos povos e luta contra os infiéis.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

VENDE-SE TERRENO COM BONS ACESSOS



A despropósito, alguns alemães propuseram que a grécia venda algumas das suas muitas ilhas para diminuir a dívida pública.
As berlengas ou as selvagens servem para alguma coisa? E a Ponta do Sol? E a ilha de Faro?
Podíamos, no mínimo, dar Olivença a preço de rebajas e não se falava mais nisso. Ou expropriar o estádio do dragão e vendê-lo ao Celta de Vigo, para campo de treinos.
Ou vender a residência oficial do Sócrates ao Corte Inglês, ele depois desenhava uma casa mais arejada com mezzanine.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

UM BRINDE A MOUNTAIN VIEW

Volta não volta, vou bisbilhotar o sitemeter deste blogue, para ver a "bilheteira" e saber de onde são os fregueses.
Há clientes da Setúbal, Cacais, Amadora, Lisboa, Queluz, Algés, Santarém, Cartaxo - mas esses devem conhecer alguém do painel.
Já me espanta que alguém de Ile-de-France, Dominica, L.A. ou Texas venha aqui parar, ou alguma regularidade com que nos visita gente que julgo não nos conhece, seja de Prime-Viseu, da Gafanha da Encarnação-Aveiro, ou um(a) qualquer expatriado(a) em Mountain View-California.
A este, e aos restantes, um brinde.

domingo, 25 de abril de 2010

SOMOS LIVRES*


Em miúdos, eu e as minhas irmãs sempre dividimos as preferências: tirando o frango (lutávamos pelas coxas até passarmos os 3 a querer os peitos), cada um tinha o seu clube, a cor primária e até o candidato às presidenciais de 76: a mais velha, do alto dos seus 7 anos, gostava do Eanes, eu gritava Otelo no eléctrico e a do meio preferia o Pinheiro de Azevedo porque estava “doentinho”. 34 anos depois, é esta a minha personagem preferida da (pós)revolução.
Como não ficar fascinado com o Almirante que, quando discursava na Praça do Comércio e rebentaram granadas lacrimogéneas da polícia militar (ligada então à extrema-esquerda) e petardos do partido revolucionário português (um PRP) contra os manifestantes, tentou acalmar a população em pânico exclamando “o povo é sereno, não tem perigo, é apenas fumaça. Ninguém arreda pé!”. Arredaram, quando o fumo subiu à tribuna.
O mesmo almirante sem medo, primeiro-ministro do 6º governo provisório, foi cercado por operários grevistas no parlamento e, quando lhe chamaram fascista, retorquiu “bardam… para o fascista”. Mais tarde explicou “’tou farto de brincadeiras, fui sequestrado já 2 vezes, já chega, não gosto de ser sequestrado, é uma coisa que me chateia pá (…) e eu agora pá, vou almoçar pá”, com ar de enfado.
Vai daí, e por causa das manifestações contra o governo e porque os militares “primeiro fazem plenários e depois é que cumprem as ordens”, auto-suspendeu o governo. Ah, valente.
O Almirante representa o esplendor da época, a descontracção da oratória, a saturação do caos, a comicidade da história. E tinha razão, o povo é sereno, mesmo quando não deve.



* Ser desbocado e contestatário (a ponto de ganhar a alcunha de tóliban) em democracia já tem um efeito bastante "depilatório", não imagino sequer o que seria viver num país onde não se podia criticar o poder.
Pelo menos Caetano não desenhava mamarrachos.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

VERGONHAS 1


Carta a Dom Manoel sobre o Achamento do Brasil

Senhor,
posto que o Capitão-mor desta Vossa frota, e assim os outros capitães escrevam a Vossa Alteza a notícia do achamento desta Vossa terra nova, que se agora nesta navegação achou, não deixarei de também dar disso minha conta a Vossa Alteza, assim como eu melhor puder, ainda que -- para o bem contar e falar -- o saiba pior que todos fazer!
Todavia tome Vossa Alteza minha ignorância por boa vontade, a qual bem certo creia que, para aformosentar nem afear, aqui não há de pôr mais do que aquilo que vi e me pareceu.
(...)
A feição deles é serem pardos, um tanto avermelhados, de bons rostos e bons narizes, bem feitos. Andam nus, sem cobertura alguma. Nem fazem mais caso de encobrir ou deixar de encobrir suas vergonhas do que de mostrar a cara. Acerca disso são de grande inocência. Ambos traziam o beiço de baixo furado e metido nele um osso verdadeiro, de comprimento de uma mão travessa, e da grossura de um fuso de algodão, agudo na ponta como um furador. Metem-nos pela parte de dentro do beiço; e a parte que lhes fica entre o beiço e os dentes é feita a modo de roque de xadrez. E trazem-no ali encaixado de sorte que não os magoa, nem lhes põe estorvo no falar, nem no comer e beber.
(...)
Mostraram-lhes um papagaio pardo que o Capitão traz consigo; tomaram-no logo na mão e acenaram para a terra, como se os houvesse ali. Mostraram-lhes um carneiro; não fizeram caso dele. Mostraram-lhes uma galinha; quase tiveram medo dela, e não lhe queriam pôr a mão. Depois lhe pegaram, mas como espantados. Deram-lhes ali de comer: pão e peixe cozido, confeitos, fartéis, mel, figos passados. Não quiseram comer daquilo quase nada; e se provavam alguma coisa, logo a lançavam fora. Trouxeram-lhes vinho em uma taça; mal lhe puseram a boca; não gostaram dele nada, nem quiseram mais. Trouxeram-lhes água em uma albarrada, provaram cada um o seu bochecho, mas não beberam; apenas lavaram as bocas e lançaram-na fora. Viu um deles umas contas de rosário, brancas; fez sinal que lhas dessem, e folgou muito com elas, e lançou-as ao pescoço; e depois tirou-as e meteu-as em volta do braço, e acenava para a terra e novamente para as contas e para o colar do Capitão, como se dariam ouro por aquilo.Isto tomávamos nós nesse sentido, por assim o desejarmos!
(...)
Ali andavam entre eles três ou quatro moças, bem novinhas e gentis, com cabelos muito pretos e compridos pelas costas; e suas vergonhas, tão altas e tão cerradinhas e tão limpas das cabeleiras que, de as nós muito bem olharmos, não se envergonhavam.
(...)
Até agora não pudemos saber se há ouro ou prata nela, ou outra coisa de metal, ou ferro; nem lha vimos. Contudo a terra em si é de muito bons ares frescos e temperados como os de Entre-Douro-e-Minho, porque neste tempo d'agora assim os achávamos como os de lá. Águas são muitas; infinitas. Em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo; por causa das águas que tem!
Contudo, o melhor fruto que dela se pode tirar parece-me que será salvar esta gente. E esta deve ser a principal semente que Vossa Alteza em ela deve lançar. E que não houvesse mais do que ter Vossa Alteza aqui esta pousada para essa navegação de Calicute bastava. Quanto mais, disposição para se nela cumprir e fazer o que Vossa Alteza tanto deseja, a saber, acrescentamento da nossa fé!
E desta maneira dou aqui a Vossa Alteza conta do que nesta Vossa terra vi. E se a um pouco alonguei, Ela me perdoe. Porque o desejo que tinha de Vos tudo dizer, mo fez pôr assim pelo miúdo.
E pois que, Senhor, é certo que tanto neste cargo que levo como em outra qualquer coisa que de Vosso serviço for, Vossa Alteza há de ser de mim muito bem servida, a Ela peço que, por me fazer singular mercê, mande vir da ilha de São Tomé a Jorge de Osório, meu genro -- o que d'Ela receberei em muita mercê.
Beijo as mãos de Vossa Alteza.
Deste Porto Seguro, da Vossa Ilha de Vera Cruz, hoje, sexta-feira, primeiro dia de maio de 1500
Pero Vaz de Caminha

A carta (para legitimar terras já conhecidas?) testemunha a chegada ao continente de Pedro Álvares Cabral, a 21 de Abril de 1500. Mas 'tá lá tudo, a troca comercial (passa para cá o ouro), a troca cultural (toma lá o meu Deus), o pudor e até, à portuguesa, o escrivão não acaba sem pedir ao rei a libertação do genro, preso por assalto e agressão.

VERGONHAS 2

1. ESQUECIDO. Manuel Alegre vai receber uma reforma de 3.219,95 euros mensais pelo cargo de coordenador de programas de texto da RDP que ocupou alguns meses em 1974-75, consta na lista da Caixa Geral de Aposentações. Em declarações ao Correio da Manhã, Alegre garantiu que nem se lembraria da reforma, não fosse a CGA a escrever-lhe uma carta. «Nunca mais lá trabalhei, mas descontei sempre».

2. VIAJADA. Inês de Medeiros sempre vai ter as viagens para Paris e ajudas de custo (€69 diários), por deliberação dos colegas. PSD e BE contra, CDS absteve-se (nojo), PCP e PEV faltaram, PS a favor - empate obrigou a decisão por voto qualificado do presidente da comissão, o grande Lello.

3. COMPETENTE. Para o cargo de assessor do IPJ, com vencimento de €3500, o método de selecção a utilizar é o concurso de prova pública que consiste na "...apreciação e discussão do currículo profissional do candidato" (aviso nº 11466/2008, DR 255 de 6/11/2008, 2ª série).
O método de selecção de coveiro para a CM de Lisboa (aviso simples, pág. 26922), com vencimento de €450, inclui uma prova de conhecimentos globais de natureza teórica e escrita com a duração de 90 minutos (sobre 1) Direitos e Deveres da Função Pública e Deontologia Profissional, 2) Regime de Férias, Faltas e Licenças, 3) Estatuto Disciplinar dos Funcionários Públicos) e uma prova de conhecimentos técnicos (inumações, cremações, exumações, trasladações, ossários, jazigos, columbários ou cendrários, transporte e remoção de restos mortais). Se o candidato tiver escolaridade obrigatória somará + 16 valores, o 11º ano de escolaridade somará + 18 valores, o 12º ano de escolaridade somará + 20 valores. No final, haverá um exame médico para aferimento das capacidades físicas e psíquicas do candidato.
É mais complicado ser coveiro que assessor, pois é, não há lugar marcado!

Como gostava de ter uma Cidinha Campos, para chamar os bois pelos nomes...

DÔRES DE CRESCIMENTO


Como esclarecimento inicial, devo dizer que os filmes para as crianças são fabulosamente realizados e alguns são bem divertidos, a anos luz dos filmes da Disney que nós vimos na “nossa” altura.
Sei porque tenho pilhas deles em casa, e porque nos últimos anos, com raras excepções, as minhas idas ao cinema a eles se devem.
Um domingo destes, fui a Braga de manhã ver o Idade do Gelo 3. Encontrei uma conhecida, blábláblá, o que fazes aqui? Olha, fui cravado para ir ver um filme infantil, respondi com ar resignado. Ela retorquiu “aproveita, ainda vais ter saudades, os meus filhos já não querem sair connosco”.
Acredito piamente.
Mas, de momento, tenho é saudades de ir ao cinema ver um filme de crescidos.

Ainda vai demorar até as crianças quererem distância, por enquanto acordo a maioria dos dias com 3 (ou 4) pessoas na cama. Agora estou na fase em que desisto de explicar que há mulheres em países esquisitos obrigadas a sair à rua debaixo dum lençol, digo "imaginem o caloraço" e a mai' velha pergunta "como o homem que veste o fato do Panda?" (o da TV)
Tá bem, que o tempo corra devagar. Mas os próximos 3 meses podem andar depressa. É que o meu filho mais novo vai para a escola, o que significa que vai acabar a renda do infantário, que custa mais que a minha casa.
Claro, devo agradecer-lhes estes anos que guardaram e mimaram os miúdos, mas sou um homem do Excel, e 'tá lá que, em Julho próximo (e descontando alguns extras que não registei), gastámos €34.246,36 no ABC. Dava para comprar um carro bom.
Como diz um amigo meu, um filho custa o mesmo que um Ferrari. Sem tirar nem por.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

FAÇAM FAVOR DE SAIR, TÁ NA HORA DO RANCHO







Tenho um amigo que nasceu no Porto e nunca foi a Serralves, mas conhece o Louvre. Bem, ainda me falta conhecer o Soares dos Reis, e vivi um ano frente ao museu de arte antiga e nunca lá entrei.
Na verdade, é mais fácil fazer turismo cultural fora de casa.

Li uma reportagem sobre o museu da cidade de Lisboa e fiquei seduzido pelas mega-esculturas de Bordallo espalhadas no jardim e por um tal de "Luciano das ratas", uma personalidade lisboeta que procurava ouro nos subterrâneos de Lisboa e aproveitava para matar os ratos, razão pela qual a cidade lhe ficou grata.
Vai daí, resolvi ir de propósito à capital ver o dito local. O preço é simpático (quantas entradas custam €2,76?), mas o museu não é grande. Reúne objectos da pré-história, períodos romano - com várias lápides funerárias, como a da "Passéria Rómula, da tribo dos galérios" (como a maioria) - e árabe, idade média até à república.
Isto vi eu, porque o séc. XX (incluindo aquele quadro de Almada Negreiros, do Pessoa num cenário avermelhado) ficava no primeiro andar. Assim como o Luciano das ratas.
Ainda vimos as cerâmicas do Bordallo, mas a correr, enquanto éramos perseguidos por uma zelosa funcionária que nos tentava pôr na rua.
É que era 1 da tarde... e o museu fechava para almoço. Num sábado. Depois aqui d'el rei que as pessoas não vão aos museus. Brrrr.

Impedidos de ver o resto dos bichos do Bordallo, reproduzidos pela Joana Vasconcelos, resolvemos ir ver os originais da artista, no CCB. De graça, thanks to Comendador Berardo (e, parecendo que não, Estado português).
É consensual, está ali muita técnica de materiais, inspiração e suor. Já as preferências dividem-se: a autora tem um carinho especial pelo lustre de tampões, um dos meus hereges companheiros preferia o shopping Fátima (um motociclo de caixa cheio de nossas senhoras fluorescentes), eu gostei mais da cama de valium, forrada a comprimidos de verdade, e os corações minhotos de talheres de plástico.
Pièce de résistance, o sapato de panelas: um par deles, intitulado Marilyn, foi leiloado em 2010 pela Christie's por meio milhão de euros.
A visitar ambos. Não vão é ao fim da manhã.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

169 CANÇÕES DE ABRIL

Abril é de toda a gente, inclusive meu que não sou de esquerda: tipo redacção da escola, eu gosto muito do 25 do 4, o 25 do 4 é meu amigo. Claro que durou 2 dias (acabou às 24 horas de 25 de Novembro), e por volta do meio-dia o sonho quase se transformava em pesadelo.
Tinha 4 anos no PREC. As canções dessa altura fazem parte das minhas lembranças mais remotas, de Lisboa em 1975, e recordo-as com gosto.
 
Algumas são fenomenais, como a trova do tempo que passa, mudam-se os tempos, a pedra filosofal ou e depois do adeus. Ou aquela “A cantiga é uma arma e eu não sabia/tudo depende da bala e da pontaria/tudo depende da raiva e d’alegria/a cantiga é uma arma contra a burguesia”.
Outras recordam um tempo em que tudo parecia possível, uma espécie de festa colectiva: somos livres, mais conhecida pela gaivota; canta amigo canta, que diz “tu sozinho não és nada, junto temos o mundo na mão (…) vamos semear a tempestade, se queremos a bonança”; livre, informando que não há machado que corte a raiz ao pensamento.

Aqueloutras, bem datadas, testemunham a certeza nos amanhãs que cantam: até à vitória final, fartos da tirania e servidão, opondo o trabalho ao capital, contra os carrascos do povo, a canalha e os burgueses (o PCP ainda aí vai): desta vez é que é, sobre a revolução e o sol que virá, ou o povo unido jamais será vencido.
Há uma cantiga que é um programa político das nacionalizações, daqui o povo não arreda pé: os fascistas só têm um banco, o dos réus; o fascista sem a banca é como 1 touro capado, sem força para marrar; diz sim à reforma agrária, somos 1 país pequeno e pobrezinho, bem repartidinho dá para todos e sobeja.

Outras ainda são fotografias – a preto-e-branco cheias de grão – sobre os papões da reacção, os vira-casacas e o início da desilusão: viva o poder popular, que fala no facho filho da mãe e no rico transformado em democrata; a luta contra a reacção; a valsa da burguesia, “pela social-democracia, para nos travar o passo”; o facho, que “vira a casaca e diz que vota, saneia o chefe que o compromete” e “é democrata de longa data”; lá isso é, denunciando “partidos da direita que põem a bola ao centro”; venho aqui falar como “o socialista [que] desiste do socialismo é como fazer cabidela sem frango, nem arroz nem a panela”.

Há uma muito divertida sobre as senhoras do antigo regime, cantada pelo professor do fungágá, vamos brincar à caridadezinha, sobre a senhora "de não sei quem" que passa a tarde comendo a torrada e a pensar no pobre, coitada, e que rouba muito, mas dá prenda.
Trabalho muitas vezes no PC com um site ligado, algumas cantigas põem-me o pé a bater em compasso - convido-vos a bisbilhotar http://marius708.com.sapo.pt/Cantores%20de%20Intervencao.html


 




Foi bonita a festa, pá, fiquei contente
‘Inda guardo, renitente, um velho cravo para mim...
Chico Buarque

terça-feira, 20 de abril de 2010

LEGO DE PALAVRAS

Há uma música de Chico Buarque da Holanda particularmente bem conseguida. O poema chama-se "Construção" e é um jogo com as palavras: Buarque conta uma história e depois repete-a várias vezes, trocando os adjectivos.
A versão seguinte é acelerada (o original tem mais 2 minutos), mas serve.
Prestem atenção.



CONSTRUÇÃO, Chico Buarque

Amou daquela vez como se fosse a última
Beijou sua mulher como se fosse a última
E cada filho seu como se fosse único
E atravessou a rua com seu passo tímido

Subiu a construção como se fosse máquina
Ergueu no patamar quatro paredes sólidas
Tijolo por tijolo, num desenho mágico
Seus olhos embotados de cimento e lágrima.

Sentou para descansar como se fosse sábado
Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe
Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago
Dançou e gargalhou como se ouvisse música
E tropeçou no céu como se fosse um bêbado

E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acabou no chão feito um pacote flácido.
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contra-mão atrapalhando o tráfego.

Amou daquela vez como se fosse o último
Beijou sua mulher como se fosse a única
E cada filho seu como se fosse o pródigo
E atravessou a rua com seu passo bêbado

Subiu a construção como se fosse sólido
Ergueu no patamar quatro paredes mágicas
Tijolo por tijolo, num desenho lógico
Seus olhos embotados de cimento e tráfego.

Sentou para descansar como se fosse um príncipe
Comeu feijão com arroz como se fosse o máximo
Bebeu e soluçou como se fosse máquina
Dançou e gargalhou como se fosse o próximo
E tropeçou no céu como se ouvisse música

E flutuou no ar como se fosse sábado
E se acabou no chão feito um pacote tímido.
Agonizou no meio do passeio náufrago
Morreu na contra-mão atrapalhando o público.

Amou daquela vez como se fosse máquina
Beijou sua mulher como se fosse lógico
Ergueu no patamar quatro paredes flácidas
Sentou para descansar como se fosse um pássaro
E flutuou no ar como se fosse um príncipe.
E se acabou no chão feito um pacote bêbado
Morreu na contra-mão atrapalhando o sábado.

domingo, 18 de abril de 2010

PR'A SEMANA EXPERIMENTO



400 milhões de pessoas fazem parte da rede social Facebook. É muita gente, a somar aos "amigos" do twitter, do xing, do ning, do linkedIn, ...
Eu ainda não aderi, o que quase me torna excêntrico, visto que TO-DO o mundo já lá está.

Já pediram “a minha amizade” várias vezes, no Hi5 e no Facebook. Alguns dos convites eram de pessoas com quem raramente me cruzei, duma concelhia do PS e dum dirigente local do mesmo partido, que toda a gente sabe que não é o meu (partido que já me convidara para apresentações de candidatos em 2 terras bem afastadas, o que só prova que são nada selectivos – é quase assédio).
Mas compreendo que tenha interesse por motivos comerciais, políticos ou de intervenção cívica - a "coisa" é uma agenda de contactos gigantesca e uma mensagem pode espalhar-se em horas, como mil rastilhos.

Acompanhei uma estreia. Começa-se por encontrar uma série de gente, amigos perdidos e malta que já nem lembrávamos que existia: "olha o sabugo! olha o como é que se chama?! ena a Tecas!" Essa parte é óptima, como é descobrir grupos de fãs de bares do nosso roteiro nocturno na faculdade, e com velhas fotos anexas (um dos títulos, "já me senti indisposto no Pioledo", serve a milhares que lá passaram).
Depois vem a fase chata dos convites para amigo por gente chata. Faz-se de morto para não responder, como se evita atender o vendedor da ZON.
Diria que todos passam pelo mesmo, mas há quem aceite toda a gente e convide toda a gente, procurando ser amiga de pessoas que nunca viram mais gordas (como filhas de colegas...), ao mesmo tempo que não sabem a graça do vizinho do lado.
Há quem se meça pelo número de amigos, mas imaginem um ginásio com má acústica, ouvir 800 gajos a falar não é conversa, é ruído. Bem, é o regresso aos amigos imaginários, para quem os teve: chamar-lhes amigos faz-me lembrar o comentário de Mark Twain à notícia da sua morte, "é claramente um exagero".
Muitos são pessoas com quem não bebíamos um copo, a quem não telefonamos pelo TMN gratuito, ou ainda que vemos diariamente, sem trocar uma ideia.

E as relações são meio mecânicas ou robóticas, impessoais: há mensagens pré-formatadas à distância dum clique, como “Manuel manda abraço” - mesmo que a mensagem seja explicitamente dirigida a outrem -, ou “Isabel gosta disto”. Nem se escreve, clica-se!
O facebook tem os fãs e os fanáticos, verdadeiros apóstolos que cantam loas à ideia. Existem já clínicas para tratar o FAD (facebook adict disorder) em doentes que "têm que" visitar a rede todos os dias (by the way, é o vosso caso?).
É, só por febre a pessoa substitui contactos pessoais por mensagens no facebook: há dias, contaram-me o caso dum gajo que descobriu no facebook que o afilhado de casamento de separara...

Há ainda um grupo de gente, do meu tamanho, que se entretém a semear melões e uvas (esta uma boa opção, consta) e ganha moedas a adubar o campo dos vizinhos no Farm Ville, um jogo com gráficos pouco elaborados e com frases feitas, tipo “Susana precisa de ferradura” e “Carlos agradece presente”. Isso exige uma ou mais visitas diárias.
Em contra-mão, apareceram uns gajos que pretendem vandalizar as plantações, como quem invade campos de milho trangénico.
O jogo, a que eu chamo um tamagoshi estilo borda d'água, é porém simpático, os “vizinhos” ajudam-se mutuamente e trocam vaquinhas cor-de-rosa. Menos mal.

P'OGRESSO


Há uma história de B.D. que nunca esqueci. Juro que tem mais graça que a minha sinopse, mas reza mais ou menos assim: o Tio Patinhas aleijou-se num joelho e o Prof. Pardal inventou um assento com pernas articuladas, um sucesso que vendeu como pães quentes.
Encorajado, pensou que podia inventar um chapéu com braços articulados, e os patinhos passaram todos a andar com o robot na cabeça. Depois acrescentou-lhe dois olhinhos e, a seguir, uma boca para falar pelos palmípedes.
Chegou por fim à conclusão que os cidadãos de Patópolis caíam amorfos quando se lhes tirava as engenhocas, não conseguiam viver sem elas.
Vocês lembram-se como vivíamos sem Multibanco e telemóvel, e como nos conseguíamos encontrar uns com os outros à porta dum concerto, ou na praia?
Ah, na história, foi tudo resolvido com abstinência dos gadgets e ginástica colectiva.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

IDADE PARA TER JUÍZO


Tenho um amigo com idade para ter juízo: há meses, enviou esta música dos Deolinda a 5 pessoas que, como ele, participaram num protesto, escrevendo que se devia respeitar mesmo quem se acobardara e ficara quieto. Um dos destinatários disse mata e um outro disse esfola, enviando sem querer os mails a toda a gente.
Baile armado. A coisa não seria importante, não fora os mais furiosos serem amigos (rating AA) do rapaz com idade para ter juízo: “quem são vocês para se auto-intitularem de corajosos e dar lições de moral (…) se és meu amigo, podias dizer-mo na cara”.

O rapaz com idade para ter juízo só não aprendeu umas coisas, porque já as sabia:
1º Pela boca morre o peixe.
2º Uma mensagem que se quer bem disposta, pode ser piada de mau gosto para a plateia (que se entende) visada, é como contar anedotas de ciganos na feira de Carcavelos.
3º Epicuro escreveu “Faz tudo como se alguém te contemplasse”, eu diria fala ou escreve sempre como se o alvo das tuas palavras te ouvisse.

O rapaz com idade para ter juízo defendeu-se, alegando que não pretendeu provocar ninguém e que a mensagem era privada – o que, à primeira, me lembrou o Paulo Penedos na comissão da AR, sobre as escutas: mais importante que o conteúdo, é a forma indevida da divulgação?
Mas o argumento tem um fundo de razão: nas mensagens privadas, não há preocupação em escolher as palavras ou em evitar generalizações, que atingem todos indiscriminadamente. A mensagem teria outro efeito usando “algumas pessoas” e trocando cobardia por “instinto de sobrevivência” - redonda e diplomaticamente suave.

O dizer-na-cara-do-amigo leva-nos para outro lado. Li algures que, em média, as pessoas dizem 7 mentiras por dia, geralmente piedosas e/ou para manter a paz social.
Mais que mentiras, há omissões: se toda a gente dissesse sem rodeios tudo o que pensa, o mundo deixava de funcionar: haveria arraial como na aldeia de Asterix, com pafs, peixes e bigornas a voar. E um amuo geral eterno.

Tirando o comum “tá bom, tá!” quando a anfitriã pergunta pelo seu repasto apenas tragável, há coisas que preferimos calar: “A tua mulher é uma imbecil, pá.”, “Não acredito em tudo o que contas, gostas de apimentar as histórias.” ou “O que te sobra em simpatia falta em competência.”.
Tendo mesmo de ser, em vez do sem-espinhas “O teu sucesso dependeu mais do cartão partidário que da tua competência (que tens).”, preferimos sussurrar “Hás-de convir que seres do Partido deu uma ajudinha…”, e a quem se está a marimbar para o trabalho podíamos alertar suavemente “talvez sejas um bocadinho despreocupado no trabalho”.
Tudo em nome duma boa convivência, até porque as pessoas de quem gostamos também têm defeitos.
Mas o melhor mesmo é, às vezes, estar calado.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

UM BUNKER DESTES PRÓ GOUVEIA, JÁ!

Na vila de Vals, nos Alpes suiços, escondida entre chalés, 2 equipas de arquitectos construiram esta casa subterrânea, mas cheia de luz, em pedra. Dá para entrar pela frente, ou aceder pelo celeiro próximo e caminhar por um túnel.
E dá vontade de ter uma assim, mesmo em Vila Chã.






terça-feira, 13 de abril de 2010

CONCURSOS PRÓ-FORMA



Caríssimo:
Não imaginas quem tenho visto, o Rodrigo. Está na mesma, tenho é dificuldade em acompanhar a sua saga laboral: foi sub-director regional da saúde, ainda há meses era director-geral das pescas e agora vai para um instituto qualquer com uma sigla enorme que nunca ouvi falar. É obra, para um engenheiro de minas.
Se não ‘tás a ver quem é, talvez a alcunha te diga alguma coisa, o “copo-de-3”. Nunca lhe associei uma densidade intelectual que lhe augurasse um futuro tão perto do sol, o que recordo é como o gajo culpava sempre o último copo que o estragava, “cheirava a rolha”. Se calhar essa era uma faculdade premonitória da sua apetência para a política, sacudir a água da samarra. E a mãe, ‘tadinha, acolhia-o sempre o etilizado rebento com um ternurento “Por Santa Maria de Cárquere, o que é que os teus amigos te fizeram?”, como se o benjamim fosse eternamente um caloiro praxado.
Mas antes a ele que a outro qualquer, não achas?

A propósito, vi há tempos uma entrevista ao dono da Jerónimo Martins na SICN. Soares dos Santos disse 2 coisas engraçadas:

1. As pessoas estão sentadas 10-15 minutos antes das reuniões da sua empresa começarem, dando tempo para a conversa de ocasião, porque a hora marcada é para começar a trabalhar.
2. Os gestores públicos devem ser seleccionados de acordo com o perfil determinado para a função, e geralmente é uma pessoa da estrutura – escolhe-se a pessoa certa para o cargo, não o cargo certo para a pessoa. Exactamente o contrário de pegar em pessoas do partido e arranjar-lhes um “poiso”. É que nem sempre os bons e os lugares bons se encontram.

Ai coisa e tal, é um escândalo que o Estado faça concursos de empreitadas, à medida de quem quer escolher.

Pois é, mas o problema não é só nos grandes concursos, é em quase todos, só varia a dimensão: como uso dizer, o presidente do instituto rouba no cartão de crédito e usa o carro para ir ao spa, o porteiro (que chama gatuno ao chefe) rouba os clips e usa o telefone para ligar ao primo do Canadá, é uma questão de oportunidade.
Depois do Inverno cavaquista, o Guterres arejou a casa. Uma das suas leis pretendia que, tirando dirigentes máximos de nomeação, todos os restantes cargos fossem preenchidos por concurso, para despartidarizar a administração pública. Não passou de boas intenções.

Há um ano, resolvi participar num concurso para uma câmara municipal, mesmo que a
vox populi assegurasse que o lugar já estava atribuído. Guardo carinhosamente um mail enviado pelo director municipal a la Sampaio – num palavreado jurídico e hermético, nem percebi o que queria dizer, excepto a conclusão, negativa claro.

Há umas semanas, fui informado que iria abrir um concurso para chefe de divisão noutra câmara. Não cheguei a concorrer, pois soubera antes que o lugar tinha sido prometido a um colega; o único ignorante foi um professor convidado para júri, de forma a dar credibilidade à farsa.
A questão foi-me resumida de forma cristalina por um autarca: “na maioria dos casos, o concurso é para formalizar situações”. O concurso, que não era para ninguém saber, teve excesso de candidatos e foi anulado – e o “ungido” vai tomar posse na mesma.

Mas também já me calhou a mim ser convidado para um cargo de chefia (em Lisboa, como sempre!, pelo que recusei).
Toma-se posse, uns meses (ou anos) mais tarde é aberto o concurso obrigatório e fica o “artista convidado”, que já tem experiência e gavetas ocupadas.
É a vida, diria um tal Guterres.

Uma palmada nesses costados. Até.

ROBERT DOISNEAU

Robert Doisneau (1912-1994) disse "as maravilhas da vida diária são excitantes, nenhum realizador pode arranjar o inesperado que se encontra na rua".
As fotografias seguintes, a mais conhecida (que, consta, foi cenografada), um violoncelista e uma série de instantâneos numa montra 'provocante', são uma ínfima parte do álbum maravilhoso que o fotógrafo francês nos deixou. Googlem.

Hotel de Ville 1950


O Violoncelista



Série Um olhar oblíquo 1948


(la dame indignée)