...e depois, com bigodes de leite, pedem mais paciência e esforço ao povo, que a "vaca 'tá seca".

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

EU É QUE CENSURO *


Portugal é o País que mais gasta proporcionalmente no euromilhões. Vai daí o governo vai dar-nos a “graça” de termos mais um sorteio por semana - a troco de um imposto pelo devaneio, claro. É como uma Happy Hour numa reunião dos AA.
Tem sido uma saga, uma novela interminável (passe o pleonasmo), a descoberta sincopada de mais um modo de arrecadar receita. E funciona, a receita fiscal subiu 15% em Janeiro, comparando com o mês homólogo.
O que espanta é que as coisas não melhoram. Números frescos, a inflação média foi de 1.7%, em Janeiro foi de 3.6% (valor mais alto desde 2006); os juros da dívida a 10 anos atingiram hoje o recorde desde a entrada no euro, 7.6% ; a despesa corrente primária – apesar do corta-corta-corta! – conseguiu subir em 2010, 400 milhões acima da meta prevista.
Pièce de résistance, o número-tonelada: a dívida pública subiu, desde 2004, de 82.000 para 150.000 milhões de euros. Pim!
E vamos andando: o governo a virar o bolso das calças, a desencantar receitas e cortar mais umas coisas (agora, a 'propina' pública por turma), todos a cada mês mais endividados e taxados, e as empresas pouco lucrativas ‘tadinhas (as grandes não contam, já não são nossas): diz o Expresso que o IRC em 2010 rendeu 4591,5 milhões de euros, apenas 3 vezes mais que o imposto do tabaco, que deu ao Estado quase 1428,7 milhões. A solução está naquela música do Abrunhosa, “o que é que temos que fazer?”, talvez f…umar.
Ou então convencemos o Bono a iniciar uma campanha tipo Give Portugal a Chance. Aceitam-se mecenas.

Desculpem a acrimónia, ainda estou de ressaca desde o último “novo salário”: em Junho aumentou o IRS e respectiva retenção (20€), em Dezembro acabou o abono (22€), agora aumentou a Caixa geral de Aposentações e desceu o salário de funcionário público (67€), é fazer as contas. Não fosse o prejuízo ser quase o dobro (a minha cara-metade teve igual racionamento na receita), o pormenor de haver uma coisa que responde por inflação e as coisas serem mais caras, o gasóleo ter subido 30% nestes 2 anos (mas o petróleo desceu 40%, desde o pico de Julho de 2008) e adivinharem-se mais “medidas” no futuro próximo, que já sabemos o que querem dizer e não são boas notícias – não fosse isso, e eu estaria hoje mais tolerante.

* O PC disse ponderar e o BE adianta-se, marcou hoje uma moção de censura (5 dias depois de considerar "sem resultados práticos" a eventual moção dos comunistas) para daqui a um mês. Sócrates diz que é competição com PC, favor à direita que tem política à FMI (como se ele não...) e que a esquerda radical tem ódio sectário ao PS. BE diz que apoia a esquerda quando é esquerda, e que prática do PS não é de esquerda. Pois.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

UM DIAMANTE CARTIER, BRESSON

Henri Cartier-Bresson (1908-2004) é um dos principais fotógrafos do séc. XX, talvez o pai do fotojornalismo. Em 1931, inspirado por uma fotografia do Martin Munkacsi, com 3 miúdos nus brincando numa praia do Congo - nela viu que ''o equilíbrio plástico desta foto suspende seu ímpeto pela vida...um retorno às origens...a mais nobre humanidade” (um bloguer viu uma "coreografia de dança, com a liberdade genuína do ser humano...totalmente livres sem obstáculos, poderosamente sensuais, exuberantes, joviais, vivos... leves e verdadeiros, brincando entre si, como se fossem os únicos possuidores da verdade humana” – não vi nada disso, mas ‘tá gira) -, resolveu o que queria fazer.
Em 1947, fundou a agência fotográfica Mangnum, com Robert Capa, Bill Vandivert, George Rodger e David Seymour, passando à procura do “momento decisivo”, pois a foto não deve ter coreografia ou preparação. O seu apogeu ocorreu com as reportagens na Índia (cobrindo os últimos dias de Gandhi) e na china chegada ao comunismo, em 1948-50. Abandonou a agência em 66 e reformou-se em 1975, reservando a sua Leica (marca de sempre) para fotografias familiares e voltando à pintura, seu primeiro amor.
Dele são as frases "Fotografar é colocar na mesma mira a cabeça, o olho e o coração" ou “A gente olha e pensa: Quando aperto? Agora? Agora? Agora? Entende? A emoção vai subindo e, de repente, pronto. É como um orgasmo, tem uma hora que explode. Ou temos o instante certo, ou o perdemos… e não podemos recomeçar…
Com uma obra extensa, o difícil é escolher o que mostrar. Cada fotografia seguinte merece o palco só para si, pelo insólito, pela carga histórica, pela estética ou por serem, na verdade, o momento decisivo.

O clique: Lago Tanganica-Congo 1930, por Munkacsi
Hyeres 1932
Bruxelas 1932
Junto à gare Saint Lázare 1932
Marselha 1932




Jean Paul Sartre 1946
Truman Capote 1947
Xangai 1948. Fila no banco, para levantar ouro, antes da chegada dos comunistas
Dheli 1948. Nehru anuncia a morte de Gandhi
Funeral de Gandhi
Matisse 1951


Itália 1952
Atenas 1953
Paris 1953. Membro da Academia Nacional
Rue Mouffetard 1954 Reno USA 1961. Marylin
Alberto Giacometti 1961 Samuel Beckett 1964
Brie 1968
Brasserie Lipp, Saint Germain des Prés 1969
Rua Arbat, Moscovo 1972
Celebração do 1º de Maio, Leninegrado 1973
Paris 1973

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

CARTIER BRESSON AU PORTUGAL

Em 2010, o MoMa apresentou uma retrospectiva de Cartier Bresson, intitulada "o século moderno", sobre o período 1929-89. Portugal aparece em 2 das cerca de 300 fotografias apresentadas, com Belém (Mosteiro dos jerónimos) e a Nazaré.
O fotógrafo andou por cá um mês, em 1955, numa espécie de raide (sem auto-estradas e scuts): Lisboa, Cascais, Estoril, Sintra, Óbidos, Nazaré, Coimbra, Porto, Amarante, Lamego, Tomar, Alpalhão, Castelo de Vide, Marvão e Estremoz. Uff.
Consta que não gostou do país.
Daqui levou uma imagem dum país atrasado e profundamente católico. Mas não foram só pobres com roupa remendada e farda regional, também clicou uma festa privada da alta burguesia de cascais, onde foi conviva.
Com pena minha, não consegui encontrar algumas das fotografias sem a "marca-de-água" da Magnum. As minhas preferidas são a primeira (um observador mais imaginativo viu na coluna um caminho para o céu...) e a de Lamego.

Jerónimos, Lx

Praça do Comércio, Lx


Praça do Comércio, Lx

Castelo de S. Jorge, Lx

Terreiro do Paço, Lx

Cascais

Praia do Tamariz, Estoril


Porto
   

Amarante (legendado Guimarães, no livro Europeans)
 
Viana do Castelo


Viana do Castelo
Alentejo

Lamego

Estremoz
 
Nazaré
 
Nazaré
 


Nazaré
 

domingo, 6 de fevereiro de 2011

REAGAN, O COWBOY AMERICANO


Ronald Reagan faria hoje cem anos. Actor, presidente do respectivo sindicato, 33º governador da califórnia (1966-74) e 40º presidente americano (1980-88), é considerado o 2º presidente mais popular da história, a seguir a Kennedy.
Face do liberalismo, a par de Tatcher, foi responsável pela controversa reagonomics, assente no estímulo à oferta, diminuição de impostos (mais tarde subiu-os) e desregulamentação. Esta política levou a uma recessão durante 2 anos, seguida por 96 meses de crescimento, a maior expansão em tempo de paz. No seu mandato, o rendimento médio dos americanos subiu 15%, foram criados 20 milhões de empregos e a dívida pública triplicou. Adepto dum Estado pequeno, porque "o governo não é a solução, mas o problema", deixou-o maior do que encontrou.
No plano externo, a doutrina "paz pela força", com o forte investimento na defesa (a "guerra nas estrelas" inflacionou o orçamento da defesa em 50%), levou a URSS ao tapete, sem dinheiro para bancar, ao mesmo tempo que teve a sorte de encontrar como interlocutor Gorbachov, com quem criou uma relação cordial e assinou um tratado de redução de armas nucleares. 20 anos depois de kennedy dizer na berlim ocidental "somos todos berlinenses", Reagan foi lá exigir "Sr. Gorbachov, deite abaixo este muro" - o que aconteceu no final da década.
No reverso, os EUA venderam secretamente armas ao Irão (em troca da libertação de reféns no Líbano) e financiaram ilegalmente os contras da Nicarágua. Anticomunista primário, apoiou ditadores como o filipino Ferdinand Marcos.
Saiu aos 51 anos dum partido democrata esquerdizado, 2 anos depois fez um brilharete numa convenção republicana, 2 anos depois era eleito na califórnia, perdeu 2 primárias para presidente e foi ungido presidente aos 69 anos. Com fama de conservador, era sobretudo prático e preocupado com soluções e resultados, não desdenhando compromissos com os democratas. Conquistou o povo estimulando o orgulho da grande nação, com discursos tipo "nós vamos vencer este desafio, porque, afinal, somos (os) americanos". Nada como dizer aos americanos que são os melhores, pois então.
Carismático e caloroso, Reagan é lembrado por algumas gaffes (como brindar ao povo da bolívia, no Brazil), mas essencialmente por piadas inesperadas. Quando perguntado sobre como seria enquanto governador, o candidato-actor respondeu "não sei, nunca fiz o papel de nenhum"; noutra ocasião, afirmou não estar preocupado com o défice, "ele é grande o suficiente para de cuidar a si mesmo".
Para a história fica o susto, quando resolveu dizer antes duma emissão radiofónica, pensando que o microfone estava desligado, "meus compatriotas americanos, acabo de assinar a legislação que acaba com a rússia para sempre, o bombardeio começa em 5 minutos".

Eis algumas das suas pérolas, algumas a gozar consigo próprio:
Um comunista é alguém que leu marx e lenine, um anti-comunista é alguém que compreende marx e lenine.
Se na URSS fosse permitido outro partido, continuava a ser um país de partido único, todos se mudavam para esse.
Dei ordens para ser acordado em caso de emergência nacional, mesmo se estiver numa reunião de gabinete.
Há vantagens em ter sido eleito presidente, no dia seguinte as minhas notas de liceu foram classificadas secretas.
Nunca tomo café ao almoço, mantém-me acordado à tarde.
Dizem que trabalho duro não faz mal, mas não arrisquei.
A visão do Estado sobre a economia resume-se a umas frases: se mexe, taxa; se continua a mexer, regulamenta; se deixa de mexer, subsídia.
O primeiro dever do Estado é ajudar as pessoas, não gerir-lhes a vida.
O governo não tende a resolver problemas, mas a rearranjá-los.
O governo é como um bebé, um canal alimentar com um apetite enorme numa ponta e nenhuma noção de responsabilidade na outra.
Dizem que a política é a segunda profissão mais velha do mundo, parece-me muito parecida com a primeira.
Como seriam hoje os 10 mandamentos, se Moisés tivesse que os submeter ao congresso?

Mas a minha preferida é sobre o Alzheimer, de que padeceu, "a vantagem desta doença é que conheço pessoas novas todos os dias". Sempre a olhar para o lado luminoso da vida, diriam os Monty Phyton.