...e depois, com bigodes de leite, pedem mais paciência e esforço ao povo, que a "vaca 'tá seca".

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

SINAIS DOS TEMPOS


A cimeira da Nato em Lisboa foi muito bem organizada, a ponto do Obama afirmar que tomou algumas notas, para preparar a próxima reunião, nos states. Está descoberto o desígnio de Portugal, o nosso nicho: eventos. 500 anos depois do mar, o catering.
As coisas são tão calmas por cá, que os blindados da psp podem chegar depois da festa, que no pasa nada. Um idílio numa Europa em polvorosa, com manifs violentas em Itália, França, Inglaterra, Espanha ou Grécia.
Haverá fotografias mais impressionantes, de desgraças longínquas. Mas este quadríptico (se o Mia Couto pode inventar palavras, também eu) foi o que mais me chocou em 2010.
Perguntarão os pais destas criaturas “onde é que errei?”. De facto, o que pode levar uma pessoa, numa histeria colectiva ou organizadamente (como os anarquistas black block), a destruir carros e lojas, que têm dono, dono esse que deve ter suado para tê-los, e que é alheio à especulação financeira, à subida de propinas, à redução dos salários, ao despudor do Berlusconi ou ao aumento da idade da reforma.
Mas este caso é diferente: um cidadão tentou impedir o acto de destruição, e foi ferozmente agredido. Foi uma decisão temerária e inusitada, pois o costume é a passividade das pessoas, o virar a cara e passar de fininho - como se viu há semanas, em que câmaras filmaram uma enfermeira a ser roubada e agredida até entrar em coma (e morrer) numa rua de Roma, sem que ninguém a acudisse.

Há dias, ao sair para trabalhar, ouvi um berro cavo em decrescendo, parecia uma pessoa a esvair-se. Encontrei uma senhora deitada em convulsões e semi-inconsciência. Dentes e nariz partido contra a esquina do passeio, uma larga mancha de sangue. A senhora da loja em frente, a cabeleireira Carla, conhecia a “sinistrada” de 32 anos, e telefonou aos pais (o pai não abriu a boca, ajudou a dar-lhe açúcar, a mãe abraçava-se a todos os desconhecidos, em pânico) e aos bombeiros. Que me contou ela? Já não era a primeira vez que chamava a ambulância, a rapariga era diabética, mas não comia para não engordar…

Conhecem os parques dos IKEA, onde os pais deixam as crianças, enquanto se aviam na loja? A cunhada duma das funcionárias contou-me que nunca lá põe o petiz, e porquê. Parece que muita gente, quando tem os filhos doentes, os deixa no parque; alguns, quando a temperatura começa a subir, nem atende o telefonema da loja.
Será negligência, impossibilidade de faltar ao emprego, o quê? Nada de bom será.

Se ainda andasse por aí a minha avó "in law" Clementina, diria que são sinais do fim do mundo...

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

PARA TODOS, UM NATAL COM SORRISOS

Há publicidades que marcam. Há uns 20 anos, naqueles programas sobre anúncios, deu um pacote duma fábrica de electromésticos. Um comparsa perguntava a outro como era o seu aparelho, e este respondia "É bom... mas não é um Brastemp!!!" (pela mesma altura, em Vila Real, o rapaz do videoclip dizia que um filme bom, mas não extraordinário, era "nojentinho").
Desde então, eu e a Susana dizemos que uma coisa boazinha não é um Brastemp.

Voltei agora a ouvir falar neles, através doutra publicidade engenhosa. 11 rádios de São Paulo, ao mesmo tempo, pediram a quem circulava na rua, que sorrisse para os condutores do lado. Óptima maneira de começar a manhã, sorrindo para os desconhecidos, e receber um sorriso de volta. Aqueles milhares de paulistas devem ter passado o resto do dia mais alegres.
E não custou nada.

E já agora, TENHAM UM NATAL BRASTEMP.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

ASSIM NÃO BRINCO!!!


Correio da Manhã, hoje:

O fundador do site WikiLeaks, Julian Assange, que abalou o Mundo ao revelar milhares de documentos confidenciais em nome da liberdade de informação, queixa-se agora de estar a ser vítima de "fugas de informação maliciosas".

Em causa está a revelação pelo jornal britânico ‘The Guardian’ – um dos cinco jornais mundiais escolhidos por Assange para divulgar os telegramas diplomáticos dos EUA – de pormenores sobre o processo judicial em que é acusado, por duas suecas, de violação. Assange considerou isso uma traição e, ontem, numa entrevista ao ‘The Times’, criticou duramente o ‘The Guardian’, que acusou de "publicar selectivamente" partes do processo judicial contra si na véspera da sua audiência em tribunal, na semana passada. "Esta fuga de informação foi claramente pensada para prejudicar o meu pedido de libertação sob fiança", afirmou o fundador do WikiLeaks, adiantando: "Claramente, alguém com autoridade pretendia manter-me na prisão."


Ora, portanto, Assange não gosta de fuga de informações, que os jornais seleccionem o material que publicam, de acordo com o interesse jornalístico, e retirem as coisas do contexto... safados.

domingo, 19 de dezembro de 2010

KISSINGER E A PORTEIRA


O José António saraiva tinha uma crónica no Expresso em que acertava sempre, porque fazia um prognóstico e o seu contrário: fulano vai ganhar, mas também vai perder, sicrano está certo, mas também está errado, a decisão é boa, mas faz mal...

É assim que eu vejo o WikiLeaks.
É perigoso e errado publicitar quais os lugares considerados mais sensíveis para a segurança dos Estados, dirigindo-lhes os holofotes. Assim como é mais próprio de alcoviteira a divulgação de considerandos sobre a vida privada ou do carácter de políticos - que interessa o gosto do Berlusconi por boas companhias? Há ainda que ter em conta que algumas das informações podem não ser verídicas, é suposto 'checá-las' – e alguns jornais conseguiram provar a impossibilidade de algumas delas estarem correctas.
Mas há o outro prisma: confirma-se que a diplomacia (no caso, americana) também se faz com o “diz-que-disse” e conversas de alcova, que a linguagem é pouco polida - o candidato do BE/PS é chamado de Alegressaurius - e que a análise é tão profunda como a dum treinador de sofá, pois o retrato que chega a Washington é bem desfocado: desde quando é que Portas é um líder altamente respeitado (tirando os seus eleitores)?
Confirma-se ainda que a realpolitik de Henry Kissinger está vivinha da silva: já não se apadrinham golpes de estado (?), mas seguram-se regimes corruptos e autoritários em troca de negócios ou apoio logístico-militar. Um exemplo apenas: a embaixada no Usbequistão afirma que a família do presidente é fulcral no crime organizado da Ásia central, mas a prioridade é manter a aliança, pois o país é usado como plataforma logística na guerra do Afeganistão. Outro Noriega, décadas depois.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

BOLO TÁRTARO


É possível não ser psicopata e desejar que a filha tenha um bocadinho de dor? É.
A minha 'mai velha foi ontem ao dentista. Já lá fora reparar os dentes da frente, que partiu... 2 vezes. Mas agora foi tratar a sua primeira cárie.
Nada inesperado, quase não há dia em que não coma "porcarias" (padre, pequei, porque o permiti... mas muito faço eu, que lhe como os saquinhos de rebuçados que traz das festas de anos!!!).
E sim, torci para que a experiência a afectasse, de modo a reduzir o consumo de açucar*. Mas a única reacção foi tapar os ouvidos, por causa da broca. Dor, nenhuma.
Isso era dantes, agora há compósitos, luzinhas endurecedoras, adesivos, corantes e anestesias eficazes. Antes havia umas macroseringas e uns alicates, ir ao dentista era pouco agradável. mesmo para estóicos como eu que não tugia nem mugia na cadeira. Só falar no "ferro-de-engomar" (um prédio antigo e bem apessoado no Cartaxo, triangular) petrificava.

Bem, e já que regresso à infância, havia uma palavra pior que ferro-de-engomar: Ripilau. Há palavras que vos causam calafrios? Eu tenho uma, Ripilau.
Bom aluno, não passava vergonhas. Excepto num dia de tormenta, o da festa anual das escolas num eucaliptal (ou clipal, como dizem uns quantos) perto do Cartaxo – o Ripilau – com competições desportivas interescolas. Corridas em corta-mato, ainda vá, mas porque é que haviam de colocar cordas para os meninos menos ágeis tropeçarem, para gáudio da trupe infante e de todos os paizinhos da urbe?
Não há nome mais certeiro, corrida com obstáculos. Pode um convívio ao ar livre, com direito a merenda e cheiro a resina (seguida de mais provas, chuiff…) causar lesões irreversíveis numa criança?
Talvez venha daí o meu ódio ao desporto. Como uso dizer, se há certezas quanto ao meu desfecho é que ninguém “olha, morreu a fazer desporto”. É que o desporto mata, olhem o Féher.
Sempre fui assim, pelos 8 anos o meu pai chamava-me juiz de linha, porque os outros jogavam à bola e eu levava uma cadeira de lona para assistir...
Pronto, psicopata não, apenas asténico.

* Não funcionou.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

HÁ SEMPRE ALGUÉM QUE RESISTE, HÁ SEMPRE ALGUÉM QUE DIZ NÃO


Chama-se Liu Xiaobo e devia ter ido hoje a Oslo receber o Nobel da Paz. Não foi porque está preso por actividades subversivas (crime: assinar um manifesto reclamando a democracia; pena: 11 anos), a mulher está em prisão domiciliária desde o anúncio do prémio. Daí as cadeiras vazias no palco e uma cerimónia reduzida a um austero discurso, uma leitura do homenageado e uma salva de palmas por uma plateia trajada de gala e presidida pelos reis da Noruega.

Uma pateada à China, um regime securitário onde, por azar, vive amordaçado um em cada 5 terráquios - uma boa talhada dos talvez 3 biliões que vivem em países sub-livres.

Uma vaia aos 18 países que, pressionados por carta pela China, sob pena de haver "consequências", boicotaram a cerimónia - Rússia (apenas por falta de agenda, afiançaram...), Cazaquistão, Colômbia, Tunísia, Arábia Saudita, Paquistão, Sérvia, Iraque, Irão, Vietname, Afeganistão, Venezuela, Filipinas, Egipto, Sudão, Ucrânia, Cuba e Marrocos.
São uns belos exemplos de países que a China arregimentou para provar que o prémio não representa o desejo da "maioria dos povos do mundo". Ah, e como escreveu Hillary Clinton (num dos papeis delatados pela voyerista Wikileaks), "Como é que que se consegue falar duro com o nosso banqueiro?".

Uma vênia à Noruega, que viu suspensas as negociações comerciais com a China. Só num país com eles no sítio, perdoe-se-me a grosseria, os reis, o governo e o parlamento dão a cara numa cerimónia destas. Aliás, viu-se como cá, há 15 dias, Cavaco e Sócrates estenderam o tapete vermelho a Hu Jintao, à espera de patacas. Com manifestantes suficientemente afastados.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

O COCHEIRO MAI' RICO DO MUNDO


A última revista do JN traz uma crónica sobre Gaius Appuleius Diocles. Fica-se a saber que houve outro Cristiano Ronaldo há 1900 anos, "a" estrela do seu tempo, que trocou a paisagem lusa pelas arenas romanas, e foi mudando de camisola, primeiro os brancos, depois os verdes e finalmente os vermelhos. Cada equipa tinha hostes de fãs, e claques violentas, o circo máximo enchia (e encher quer dizer 320.000 pessoas) para ver os ídolos jogarem - a saber, darem 7 voltas à praça, sem morrer pelo caminho, debaixo duma ferradura ou duma roda.

O NOSSO homem foi o atleta mais bem pago de sempre: ganhou 35.863.120 sestércios (eta precisão!) durante a sua longa carreira, cerca de 12 mil milhões de euros, o que dava para fornecer trigo a Roma durante um ano ou pagar a pré a toda a ralé do exército imperial durante 2 meses e meio. Qual Ronaldo, qual Tigger Woods, rico era o Gaio.
A estatística ficou lavrada num monumento erguido pelos colegas e fãs, quando o corredor de quadrigas se reformou em 146dc, "aos 42 anos, 7 meses e 23 dias": parece que o campeão venceu 1462 das 4527 provas em que participou, liderou 815 corridas desde o início, em 67 vezes chegou à liderança nas últimas voltas e em 36 corridas sagrou-se vencedor na recta final.

O The Telegraph (onde o jornalista foi buscar "toda" a inspiração) cita o autor do estudo sobre Diocles, um tal Peter Struck, professor de estudos clássicos da univ. de Chicago, que afirmou que o desportista mais bem pago da história era luso-hispânico. Espanhol o tanas.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

SÃO NÚMEROS, SENHOR, SÃO NÚMEROS!!!



Reinava D. Maria a segunda, no ano da graça de 1849, quando foi criado o Tribunal de Contas. Desde essa altura que se estima o que se deve. E assim se conclui que a dívida pública actual é a mais alta dos últimos 160 anos. Mesmo em 1890, quando Portugal assumiu a bancarrota parcial, os números não tocaram o tecto. E nessa altura não havia empresas estatais e parcerias público-privadas, responsáveis hoje por mais 23 e 30 pontos de dívida, em percentagem do PIB. Como diria o Guterres, é fazer as contas, 90+23+30=143% do PIB (aqui que ninguém nos ouve, no fim do "tenebroso" consulado do Santana, a dívida estava na casa dos 60%).
E a dívida sobe a cada minuto.

É grave? Não. Sócrates acusa os jornalistas que o questionam dia-sim-dia-sim de estarem "obcecados" com as contas públicas e insiste que "Portugal não precisa de ajuda de ninguém".
Não fosse trágico, o optimismo do PM é tão hilariante como a responsável da fábrica Imperial explicar que o reinício da produção do mítico chocolate COMACOMPÃO visa um público preocupado com a saúde e bem-estar (sic). Vai-se a ver, quem perguntar se comer um papo-seco com uma talhada de chocolate não faz mal, é acusado de hipocondria...

terça-feira, 23 de novembro de 2010

PAGA E NÃO BUFA???


Há muitas razões para se participar na greve geral de 24/11, e muitas explicações para não o fazer.
Uma amiga esclareceu “fiz todas as greves dos professores no ano passado, e a maralha depois foi votar no Sócrates, quando ele voltou a ganhar prometi não fazer mais greves”. Tá certa.
Um colega respondeu “não vou deixar que o governo me retire mais um bocado do meu salário, já chega”. Há até um lado positivo, os grevistas do Estado vão ajudar a controlar o défice, são milhões de euros que o governo vai poupar por não pagar o dia aos grevistas – é uma espécie de reedição ao contrário daquele dia que o Vasco Gonçalves instituiu em 1975, em que todos os portugueses trabalhariam de graça em prol do país. E ainda vai tudo aproveitar para fazer compras pró Natal, põe a economia a carburar.
Uma operária justificou-se com um “não ganho o suficiente para prescindir dum dia de salário” e uma colega minha explicou “a greve não serve para nada, fica tudo na mesma”.
Terão todos a sua razão.
Mas conhecem a expressão “
cala e não bufa”? O povo paga a crise, mas ou come-e-cala, ou reclama do preço. A greve é isso, é a alternativa mais ruidosa – das não violentas – para bufarmos.

... enquanto isso, o Estado é zeloso:
. A administradora da Fundação Guimarães Cidade Europeia da Cultura (onde o trabalho é intenso e altamente qualificado, presumo) resolveu reduzir o salário em 30%... para 10000 euros mensais.
. Um assessor dum ministério acumula o salário principesco com o subsídio de desemprego recebido por atacado para fundar uma empresa que não iniciou actividade.
. A assessora de imprensa da ministra da saúde ganha mais que a ministra, vários milhares de euros mensais.
. O PS votou uma alínea do orçamento que isenta da redução salarial o sector empresarial do Estado, dadas as suas especificidades…
. 5 milhões de equipamento de segurança chegam depois da cimeira da nato, a razão da sua compra.
. Parece que somos fiadores da Irlanda, se ela não pagar o empréstimo de 1500M€, a gente paga ahahaha.
. A pièce de résistance, Timor – um dos países mais pobres do mundo, a quem Portugal ajuda há anos – pondera investir parte do seu fundo petrolífero na nossa dívida pública. Amor com amor se paga. Não têm vergonha?

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

SURPRESA!!!


Como dizia a mãe do Forrest Gump, a vida é como uma caixa de chocolates, nunca sabemos o que vem lá dentro. Eu diria isso dos livros, volta-não-volta temos umas surpresas. Cá vamos.
Deve acontecer com toda a gente, compro livros ou porque já li outros do mesmo escriba, ou pelas capas, ou pelo resumo, ou pelos comentários entusiastas da contracapa, ou ainda porque alguém me falou nele, ou por causa de entrevistas que calha ver.

Pois o que estou a ler, comprei depois de ver a entrevista do Mário Crespo ao director do Expresso, Henrique Monteiro. A personagem é uma velha com 88 anos, que vai galgando assuntos, repassa uma vida intensa desde a guerra civil espanhola, enquanto vê o mar da sua cadeira.
Fui convencido quando o autor leu na SIC notícias o parágrafo que encerra um capítulo.
É triste que não morramos duma vez, mas aos poucos. E a parte mais triste é sempre aquela que persiste em viver. A minha cabeça mantém-se fora do mar, mas quase todo o corpo já se afogou. Sou, pois, uma náufraga de mim própria, à qual, já não podendo retirar o resto do corpo da água, resta esperar que a maré suba, de modo a afogar-lhe o que falta. Ou ter a ousadia de mergulhar…
Promete, não promete?

Estava preparado para tudo, menos para o parágrafo anterior, a razão daquela metáfora: a senhora quis tocar nas partes íntimas e deparou-se com a fralda.
Não sei se interessa para o caso, Monteiro Henrique escreveu o romance (é assim-assim) em duas quinzenas, como conta na última página…


n.r.: Salvador Dali 1929

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

CONTAS DE MERCEARIA


Seis em cada dez euros da contenção orçamental em 2011 vão ser pagos pela generalidade da população - os pensionistas e os funcionários públicos vão ser duplamente penalizados.
O Estado retrairá a sua actividade pagando três dos dez euros.
As empresas, incluindo a banca e investidores mobiliários pagarão o um euro que falta para o “bolo” anunciado.

PROMETEM EM POESIA.
GOVERNAM EM PROSA.
Mário Cuomo

terça-feira, 26 de outubro de 2010

VENHAM MAIS CINCO DUMA ASSENTADA




É hoje que o Sô Silva (como lhe chamou o apoiante-crítico-novamente-apoiante Alberto João Jardim) nos vai dar a graça de se oferecer para comandar o país até 2016. Com anúncio prévio do jogral Marcelo.
O forum TSF de hoje foi sobre a sua recandidatura. Entre muitas barbaridades e sonhos - como o duma senhora que, talvez por não ter tomado os medicamentos, acha que o Alegre vai ganhar, porque conquista votos da esquerda à direita, até dos monárquicos (é o lado marialva do poeta) -, um participante lembrou que foi com o Cavaco que foram desperdiçados milhões em jipes, sem qualquer controlo, ficando o país sem agricultura.
Sobre isso, e sobre o facto de Portugal ter crescido só 6% nos últimos 10 anos e ficar, no ranking do crescimento, em 178º lugar entre 180 países (apenas à frente da Itália e do Haiti), presumo que o presidente-candidato-a-presidente vá ficar de boca fechada.
Ou não, talvez mostre a úvula.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

VENDE-SE NOBREZA


Comprar títulos de nobreza é um bom investimento e ainda dá um ar aristocrático a quem os adquire. A Strutt & Parker, especializada em propriedades rurais e títulos feudais, realizou o seu leilão anual de títulos e conseguiu vender 70% dos mais de 40 títulos honoríficos ingleses e irlandeses oferecidos no catálogo. Os títulos à venda, apesar de genuínos e antigos, podem transformar o dono em lorde ou barão, mas não o transformam em um verdadeiro nobre. Os chamados Lords of Manor - senhores de terras – proporcionavam prestígio, o direito de ter um castelo e de arrendar terras para garantir um rendimento. A venda do título de lorde de Wimbledon terá rendido 171.000 libras ao irmão da princesa Diana, para pagar arranjos hidráulicos na sua propriedadde em Althorp. Quem quiser ser barão de Lee pode arrematar o castelo escocês, com mobília interior, 3 casas de verão e 261 hectares.

Por cá, as coisas não são tão descaradas. O Instituto de Nobreza de Portugal está proibído de criar, mas restitui títulos (embora a república não reconheça quaisquer nobres) a troco de uma certa quantia – sendo que 70% dos títulos foi usado por uma única geração. É que a nobreza portuguesa sempre foi reduzida, rondando 30 a 50 casas, até explodir no século XIX (só 2 dos actuais ducados existiam no século anterior), com a entrega de viscondados e baronatos por dá cá aquela palha, muitos deles a ricos ex-emigrados no brasil – daí a célebre cantilena “FOGE CÃO, QUE TE FAZEM BARÃO – PARA ONDE, SE ME FAZEM CONDE?" Mas vamos lá criticar a situação, quando a entrega de títulos foi desde sempre o pagamento pelo rei de soldados ou de “empréstimos”. Ou para prover o sustento dos filhos legítimos e dos filhos naturais (sim, porque rei não tem bastardos).

Acho particular graça à snobeira de alguns “titulados” que dizem que a sua família é muito antiga. É científico, as nossas famílias são tão antigas como a deles... ou, como perguntou o outro, as famílias deles desceram da árvore há mais tempo que as outras?
Há muitos anos, no meio da picada e dos mosquitos, umas coloniais senhoras alardeavam as suas nobres origens. Resolveram então perguntar aos restantes se não tinham nenhum familiar importante. O meu avô disse que descendia do D. Fuas Roupinho, aquele que ia caindo da falésia da Nazaré, mas a ironia não foi descoberta. Já a minha "tia” Ivone (curiosamente, a única amiga da família a quem chamávamos tia) foi suave como um elefante: “na minha família ninguém dormia com os reis”. Mai' nada. O assunto deve ter saltado imediatamente para as lavadeiras, o calor, os mazagrins ou os capilés.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

A OPERAÇÃO MANDIOCA



Vou há 10 anos ao mesmo barbeiro, porque é perto e rápido, o corte é secundário, como a minha mãezinha costuma reclamar. Como todos os barbeiros, há rádio local ou a Renascença e o seu jogo da mala, uma televisão com programas à goucha e conversa entre nativos do bairro sobre a vizinhança, o obituário ou a bola, pelo que posso estar com os meus botões. Quando tenho a graça de encontrar a casa vazia e alapar na cadeira, lá temos que falar sobre o que calha, seja a hipótese de eu mudar de casa, seja a filha única do barbeiro, que se mudou por amor para a Austrália, mas entretanto o amor desapareceu e não tinha bilhete de volta.
Medo, muito medo, foi o que experimentei da última vez, quando, mortalhado num megababete, vi o Sr. Francisco a dizer "eu estive na guerra em África" enquanto afagava uma lâmina e tinha um olhar perdido. Será que me calhou um amolador de facas com stress pós-traumático, e me corta a nuca como a uma rã na aula de biologia?, cogitei. Afinal, o homem não estava a divagar, mas a olhar para as "tardes da Júlia" na pequena tv pendurada no tecto.
Foi assim que fiquei a conhecer a operação mandioca.

Contou o Sr. Francisco que esteve mais de 3 anos em Angola, e nunca deu um tiro. A sua função era ser (adivinhem) barbeiro e ocasionalmente motorista.
Só foi à guerra uma vez: Spínola ordenou uma grande acção no nordeste, com a destruição das plantações de mandioca que os “turras” plantavam no mato – dando assim cabo da fonte básica da alimentação dos rebeldes. A operação mandioca.
O Sr. Francisco conduzia o 13º carro das 13 viaturas, e a 11ª passou por cima duma mina, fazendo muitos estragos. Mais à frente, houve uma emboscada e o batalhão teve que aguentar 13 intermináveis minutos de tiroteio – em sentido único, pois não se via a origem do fogo e a única bazuca existente encravou.
Perguntei ao Sr. Francisco quantos haviam morrido. Nenhum, foi a resposta, os turras não acertaram em ninguém e fugiram quando apareceu o helicanhão.
Mas o Sr. Francisco depois lembrou-se, houvera mesmo uma baixa, do gajo que nessa noite tentava perceber o que se passava com a bazuca – e ela disparou...
O resto da guerra passou-se entre pincéis, lâminas e espuma.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

OS NÚMEROS

Menos conhecida que a Fundação Champalimaud, a Fundação Francisco Manuel dos Santos dedicou-se às Ciências Sociais, sob a batuta de António Barreto. O seu trabalho mais visível é uma base de dados de acesso público, a PORDATA, que apresenta uma série de estatísticas oficiais desde 1960, e a edição duns livrinhos à venda a 3-5 euros, de modo a que qualquer um possa adquiri-los.
Já saíram 3, um sobre o ensino de português, outro sobre fiscalidade (de Saldanha Sanches) e, o primeiro, sobre 5 décadas de mudanças em Portugal. Justamente intitulado “Portugal: os números”, escalpeliza uma enormidade de dados sobre uma variedade de assuntos, resistindo à tentação de interpretá-las politicamente.
O que fiz foi condensar parte da informação em algumas tabelas. Cada uma delas daria pano para mangas, pela quantidade de informação: é caso para dizer que cada parcela vale por si. Mas o mais relevante é que se confirmam crenças e desfazem mitos.
Factos confirmados, há mais velhos, menos filhos, as famílias são mais pequenas e têm composição diversificada, casa-se menos e não é para toda a vida (número, 4 divórcios por cada 10 casamentos); houve um progresso notável na saúde, educação e cultura, no que diz respeito a acessibilidade, recursos humanos e gasto público.
O PIB aumentou muito (septuplicou desde 1980, esquecendo a inflação…), mas o crescimento é cada vez mais lento. Porém, os gastos sociais tiveram um crescimento exponencial, a um ritmo muito superior ao crescimento da riqueza nacional e atingindo valores insuportáveis de manter (número, rácio activo/pensionista cai de 5 para 1.7) – chegámos tarde ao estado social e ele está em vias de atrofiar. E cai o mito que o “centrão” desmantelou as "so called" conquistas de Abril e pretende acabar com o Estado Social.
O falhanço maior da democracia, a meu ver, foi a justiça, e os números são cruéis. Não só na justiça fiscal – 40% das empresas declaram prejuízo -, mas na justiça geral:
muito mais recursos humanos e financeiros, muito mais litigância, processos cada vez mais demorados, um sistema que não dá vazão. E sem justiça, não há nada.








quinta-feira, 14 de outubro de 2010

A MEIAS


Eu e a Susana começamos a namorar há, fez ontem, 18 anos. O namoro é adulto e já pode tirar a carta. Estatisticamente, já vai sendo uma idade generosa.
Como em todos os casos, a “criança” começa a gatinhar, tudo é novidade, tudo se desculpa e há apenas 2 necessidades a preencher, alimentação e mimo. Depois aprende-se a andar, à custa de joelhos esfolados, mas sopra-se e “Já passou!”. Crescendo, há que estudar e fazer trabalhos de casa, com o tempo aprende-se a saber “encaixar”.
É uma mutação: imaginem (imaginem, porque não é o caso!), o “ai o meu amor range os dentes a fazer óó…” evolui para “não faças barulho, deixa-me dormir” e, muito mais tarde, não se diz nada, porque a audição já não é o que era.
Mais que um património físico (a meias com o BPI!!!), há muita história comum. Em tudo que o aconteceu nestes 18 anos, de bestial e de besta, porque houve de tudo, estivemos lá os dois.
Ah pois, há coisas que se aprende cedo, como “sim-pode-querer-dizer-não”, ou quando se deve “fazer de morto”, por exemplo quando a namorada tem mau acordar e qualquer palavra (uma que seja!) até chegar à faculdade, pode gerar uma confusão. Graças a deus, este é uma das coisas que a Susana melhorou com a idade.
Bem, tenho que admitir que a Susana também teve que acomodar os meus, 2 ou 3, nanomicropequenos e médios defeitos...

OPÇÕES DOS HOMENS DO LEME


2 notícias no mesmo jornal: o Estado deve 7 milhões de euros às câmaras, para pagar despesas de acção social nas escolas, e pagou desde Janeiro 6,2 milhões de euros de pensões a 300 políticos...
Depois espantem-se que o povo anda irritado... A impressão geral é que até se faz um esforço, mas se passar a haver pudor no gasto público e houver resultados. Para tudo ficar na mesma, não. E o que parece é que, mesmo com esta sucessão de apertos, o barco continua a meter água.

Mas, como a legislação é também a história das nações, veja-se o que fica para a história sobre o que prendia a atenção dos líderes de Portugal e da Europa a 12-09-2010:
1. O Governo publica a Resolução do Conselho de Ministros nº 80/2010, que "Prorroga o prazo para a apresentação das propostas no âmbito do concurso público de reprivatização do BPN - Banco Português de Negócios”, a saber, não consegue desfazer-se do banco que resolveu segurar em fase de falência fraudulenta, e vai (vamos) ficar com o prejuízo.
2. Já a Comissão europeia publica o “Regulamento (UE) n.o 905/2010 da Comissão, de 11 de Outubro de 2010, que altera o Regulamento (CE) n.o 1580/2007 no que respeita aos volumes de desencadeamento dos direitos adicionais para os pepinos, as alcachofras, as clementinas, as mandarinas e as laranjas”. O José Manuel tá ocupado é com as mandarinas.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

O BASÍLIO HORTA BATEU-ME


Há dias, apareceu um deputado cartaxense na televisão. Expliquei aos miúdos, aquele senhor é irmão do marido da irmã do teu padrinho. Perguntaram-me então, e tu, já apareceste na televisão?

Fiz um rewind de 20 anos ao meu arquivo morto e respondi, na televisão não, mas apareci num jornal: um candidato a presidente da república – levando uma tareão (70.35 contra 14.16%) – foi a vila real fazer um comício no cinema e eu fui. Apareço numa fotografia em 1º plano com um autocolante na testa. O senhor candidato até me deu um estaladão, querendo dar-me uma palmadita de amizade, quando passava à saída pela massa de jovens com bandeiras.
Tão perto doutro político estive 5 anos antes, em 85, quando um desconhecido Cavaco Silva percorreu o Ribatejo numa camioneta cheia de adolescentes. Nessa altura, dizia nos palanques “NÓS vamos fazer”, mas 2 anos depois já falava na 1ª pessoa do singular, “eu fiz”. O momento em que reparei nisso, num comício em Santarém, foi o fim da nossa bela amizade…
A propósito, nessa mesma noite cruzámo-nos na caravana automóvel com um senhor que ficou literalmente eufórico quando gritámos o seu nome, pois só os mais atentos sabiam quem era um tal de Mira Amaral.

Esses são tempos irrepetíveis, quando as eleições eram uma festa: colávamos cartazes (era legal, na altura), distribuíamos autocolantes no mercado e andávamos por Lisboa de pé, em cima dos autocarros, a agitar bandeiras ou chapéus-palhinha de plástico do Freitas do Amaral, nas mais memoráveis e renhidas eleições desde 1974.
Quem diria que este senhor tinha uma síndroma vestibular e foi caindo para a esquerda, até ser ministro de Sócrates... Isso deve pegar-se nas candidaturas centristas a presidente, o Basílio também anda agora por essas bandas. Arrrhg.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

HAVIA BANDEIRAS MAIS GIRAS...

Feita a revolução, houve que encontrar 4 novos símbolos nacionais: uma moeda, um hino, uma imagem e uma bandeira.
A MOEDA escolhida para substituir o real foi o escudo, alternativa já usada em alguns reinados, sendo o último o de João VI. Oficializada a 5/11/1911, durou até 2002, quando chegou o euro. Cada escudo equivalia a 100 centavos e a 1000 réis. Quem não se lembra que o pão custava 2 "mérreis", ou que uma coisa inútil não valia uns mérreis de mel coado?
O HINO foi fácil, pegou-se na música de Alfredo Keil (inspirada n’A Marselhesa) e no poema de Henrique Lopes de Mendonça, criados 20 anos antes, aquando do ultimato inglês. Uns cortes aqui e ali, troca-se bretões por canhões e já está.
A homologação na assembleia ocorreu a 19/06/1911.

A história do BUSTO da república é a menos conhecida das 3. Não passou à história a obra vencedora do concurso lançado em 1911, da autoria de Francisco dos Santos, que apresentava uma mulher mais elegante, mais parisiense. O busto que ficou para a posteridade foi a do 2º classificado, Simões de Almeida (sobrinho) e tinha seios mais fartos. Em comum, o barrete frígio, tipicamente português… A musa foi uma alentejana de Arraiolos, chamada Ilda Pulga (1892-1993).

Falta a BANDEIRA. 10 dias após a revolução, o governo escolheu uma comissão para projectar a nova bandeira. O grupo – que incluía Columbano Bordalo Pinheiro e João Chagas - inspirou-se (natural ou descaradamente) nas bandeiras dos centros republicanos e das sociedades secretas que tinham participado na revolução, a maçonaria e a carbonária.
Eis os motivos apresentados para a escolha, no relatório então produzido: o vermelho "cor combativa e quente, é a cor da conquista e do riso. Uma cor cantante, ardente, alegre. Lembra o sangue e incita à vitória"; o verde "cor da esperança e do relâmpago, significa uma mudança representativa na vida do país"; a esfera armilar é o símbolo dos Descobrimentos Portugueses, a fase mais brilhante da nossa História, portanto deve aparecer na bandeira; o escudo com as quinas deve continuar na bandeira como homenagem à bravura e aos feitos dos portugueses que lutaram pela independência; a faixa com sete castelos também deve permanecer porque representa a independência nacional.
O Governo aceitou a proposta, mas fez algumas alterações, sendo a nova Bandeira Nacional aprovada a 29/11/1910 e homologada pela Assembleia Constituinte a 11/06/1911.
Mas houve mais 27 propostas, algumas delas mais bonitas (voto na 11), outras disparatadas, outras difíceis de costurar, ora mantendo o azul e branco, ora optando pelo verde-rubro, à americana, à francesa, à commonwealth, com o losango ou a bola brasileiros, estilo sul-americano, com caravelas, louros, barretes frígios e até baralhos de cartas.
A alternativa mais mediática foi a de Guerra Junqueiro, que defendia as cores originais: "A bandeira nacional é a identidade duma raça, a alma dum povo, traduzida em cor. O branco simboliza inocência, cândura unânime, pureza virgem. No azul há céu e mar, imensidade, bondade infinita, alegria simples. O fundo da alma portuguesa, visto com os olhos, é azul e branco."

Estandarte do Grande Oriente Lusitano
Bandeira da carbonária
1º projeto da comissão oficial, 29/10/1910

OS OUTROS PROJECTOS
1. Guerra Junqueiro
2. Comissão Portuense
3. José Pereira de Sampaio (Bruno)
4. António Augusto Macieira
5. Alexandre Fontes
6. Rigaud Nogueira
7. António Arroyo
8. Augusto Jorge Fernandes Casanova
9. Joaquim António Fernandes
10. Salvio Ratto11. Alfredo Pinto da Silva
12. Alvitre de Carvalho Neves
13. Delfim Guimarães e Roque Gameiro
14. Francisco Ferreira Marques
15. Albano Ferreira
16. Henrique Lopes de Mendonça
17. António M. de Sousa
18. Aníbal Rodrigues
19. A.P.S.
20. professor de ensino livre21. J. S. Ferreira
22. J.A.E.S.23. Jacinto de Rosiers24. Projecto Racional de Conciliação25. Álvaro A. da Silva Foito
26. Alvite Duarte Alves G. Leal27. Eduardo Álvaro da Silva