...e depois, com bigodes de leite, pedem mais paciência e esforço ao povo, que a "vaca 'tá seca".

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

AINDA NÃO!!!



Tá tudo a bater nos quarenta. Taça-taca-taca, uns atrás dos outros. Às dezenas, neste ano e no próximo, a sair dos trinta, em que somos só “crescidinhos”, uns pós-jovens a quem se ainda desculpam os disparates. O que vale é que vamos acompanhados.
Na verdade, tem a mesma importância da passagem do ano, é só mais um dia: não acordamos com “cruzes” ou cãs. Mas não deixa de ser um selo (de lacre, digo eu), uma passagem, um número sonante – é um número demasiado drástico para a idade que eu tenho...
Aos 40, é oficial e irreversível: somos senhores – embora não o sintamos ou ainda não nos apeteça sê-lo. Devo dizer que, assim de repente, não sei onde estará a ternura dos quarenta: mais uns pozinhos e metade já cá canta, ou adaptando Mário de Andrade, temos tanto passado* quanto futuro. E menos tonicidade cutânea, já agora.
E não venham com a história da sabedoria, razão tem Tom Sheppard, “penso que a idade é um preço muito alto que temos que pagar pela maturidade”.
E dadas tantas as decisões que já tomámos – a dedicação na escola (a primeira e mais importante escolha), aquele curso, aquele primeiro emprego (ou a recusa dum outro), viver naquela terra, casar naquela altura com aquela pessoa, ter filhos –, é caso para dizer alea jacta est, os dados foram lançados! E fica sempre o SE, pois apenas uma pequena mudança na rota podia ter resultados irreconhecíveis, um professor obeso de Viseu podia ser hoje um espadaúdo médico na Somália. Quem viu os filmes “O efeito borboleta” ou “Duas vidas” compreende o que quero dizer.
Enfim, dá para perceber que não me está nada a apetecer. Há dias esteve cá em casa um miúdo que suspirava “faço anos em Novembro, falta tanto…” e eu respondi “eu faço 40 daqui a um ano e falta tão pouco, deixa o tempo correr devagarinho”. Ninguém tá bem com a sorte que tem.

* Quantas vezes dizemos entre amigos “não te lembras de…” e é algo com quase um quarto de século, uma boa talhada de tempo?

A GERAÇÃO SEGUINTE



Não a despropósito, “Uma no bravo e outra da ditadura” é o novel documentário-filme de André Valentim Almeida, sobre a geração nascida por alturas do 25 de Abril. Uns 4-5 anos mais nova que nós, que “já estávamos em algum lugar no 25 de Abril”, como diria o herman.
Também eles são do tempo em que havia menos de tudo: estradas, marcas, canais de tv, jogos, até restaurantes étnicos. Eles foram os últimos a entrar mais ou menos rapidamente no mercado de trabalho, os últimos que “cresceram a ver as mesmas coisas”: havia 1 canal e ½ e a televisão era o centro da casa (com dias e horas, o telejornal demorava 30 minutos, dava a novela e o filme começava às 9.30 – uma horário de jeito), todos viam o mcgyver e aquele carro comandado por um piroso que dizia kit-te-necessito, todos assistiam à votação de Faro no festival das canção. Enfim, todos partilhavam um “património de referências comuns” – nesse aspecto, era uma geração monolítica.
Padecendo de saudosismo precoce, são os últimos que se lembram vagamente de antiguidades como o beta e o vhs, os telefonemas na cabine, as calças boca-de-sino, o calcanhar do Madger: “Passaram da idade da pedra para a supermodernidade"* disse Hugo Mãe, e nem o mais crente acreditava que todos teriam pc e que todos os computadores iam estar ligados - "é uma geração que não é completamente antiga, mas também não é completamente moderna, como aqueles cidadãos sem-pátria” definiu Pedro Mexia.
A geração pisang ambom, como lhe chama Pedro Ribeiro (pois esse tantum verde era a bebida mais radical que havia), a quem foi permitido ser infantil até muito tarde, teve mais anos de escola para tentar chegar a ter tanto como os pais, privatizou a felicidade e substituiu as grandes aspirações e causas da democracia e liberdade (a maioria dos pais não as tinha, mas isso é outro rosário…), por problemas banais da vidinha de cada um – mas isso é bom!, é sinal que os grandes problemas estão resolvidos, acha João Pereira Coutinho.
Bem, é 1 hora de película. Vá, abdiquem dum episódio de novela ou do CSI.

* O sentimento não é original. O escritor Ramalho Ortigão sentiu o corte com o passado, em 1887: “Dir-se-ia que os nossos pais morreram para nós muito mais completamente do que morreram para eles os seus avós e os seus bisavós, levando consigo, ao desaparecerem, tudo quanto os rodeava na vida: a casa, o jardim, a rua que habitavam.”

terça-feira, 14 de setembro de 2010

A JESSICA ISABEL E A CONSTANÇA


Hoje foi o 1º dia de escola do meu mai’ novo, ontem foi a apresentação. Naturalmente, o que o pai espera é que a turma seja homogénea, para que eles aprendam o mais possível. Não é.
A escola pública é de facto um nivelador social, uma bimby que mistura pobres e ricos, filhos de iletrados e infantes de doutorados, bairros sociais e condomínios privados, C&A versus D&G. No “meu” 1º D, uma feirante queria saber como podia impedir a mãe da criança de levá-la à saída, pois o companheiro tem a guarda da petiza, e uma executiva queria saber se podia ser a ama (presente na reunião) da Constança a levá-la para casa…
Aliás, os papás desta futura debutante devem ter saído a correr à procura de vaga no Luso-Francês, depois de verificarem que a sua asséptica donzela, de trança irrepreensível, terá 4 ou 5 parceiros ciganos.
O que deixou os pais todos de queixo caído foi saberem que o 1ºD também é 4ºD: além dos 16 caloiros, há 8 miúdos do 4º ano, que “não estão ao mesmo nível” dos outros, eufemismo para deviam-chumbar-mas-é-muito-complicado. Conforme a versão, as profs das 4as classes borregaram à última hora ou o Sr. Director Regional de Educação não aceitou turmas pequenas e, em vez de repetirem o 3º, vão para o 1º. A lei permite turmas mistas, mas isto não serve a ninguém, nem aos iniciados, nem ao professor, nem aos humilhados “finalistas”. O prof recomendou que não levassem lápis do mickey&Ca para os miúdos não se distrairem, mas dar 2 matérias à vez já não dispersa!
E a escola? Bem, a escola está incluída no grande investimento público da renovação do parque escolar, abre daqui a ano e meio. Por ora, a escola é um grupo de contentores encavalitados num gaveto emprestado pelo Belmiro.

Antes isso que fechar, como uma das 700 encerradas este ano (à Jogos sem Fronteiras, Lamego lidera com 21). Candidatas a ganhar pó ou a serem reconvertidas em restaurantes (Milfontes), juntas de freguesia (Paredes), jardins-de-infância (Lamego), centros de dia para idosos (Chaves), ranchos de folclore, clubes de caçadores, igrejas (Odemira), museus (Caldas da Rainha), centros de Novas Oportunidades, ou habitação (Amarante). Casas giras!!!
Parece-me é que ninguém quer viver onde não trabalha e onde os filhos não estudam, o interior continuará a definhar. Acho.
A medida talvez acabe por ser positiva, faz-me é alguma confusão que uma hora diária de autocarro a milhares de crianças com 6 anos seja menos importante que o stress causado a uma loba e 3 crias perante a visão de torres eólicas e cabos de alta tensão – parando há quase 2 anos um investimento de 600M€ da Ventinvest (consórcio liderado pela Galp) entre Armamar e Moimenta da Beira, a aguardar autorização do Ministério do Ambiente. Ironicamente, prós lados de Lamego.

sábado, 11 de setembro de 2010

PÕE NA CONTA!!!


Desde o início do ano, a dívida pública aumentou 2,67 milhões de euros à hora (o ritmo cresceu para 5 milhões/hora em Julho). A esta velocidade, a autorização parlamentar para aumentar este ano a dívida em 17.400 milhões de euros esgotou-se a 1 de Setembro.
Estamos alegremente a acelerar para o desfiladeiro. E, no estio, o povo não liga, quase assobia a cantilena “sr. Condutor, se bater não faz mal, vamos todos para o hospital…”
A pessoa a quem, indignado, li os números, não levantou os olhos do seu livro. Talvez pense que não há nada a fazer, e o que não tem remédio remediado está, ou pense “enquanto o pau vai e vem, folgam as costas”, até ao próximo apertar de cinto, aumento de impostos, taxação de SCUT. Que sera sera!
Esta notícia recordou-me a Ferreira Leite, que nos alertou para a deriva do Estado, qual Cassandra – embora a senhora esteja longe da imagem da grega, com longos cabelos enovelados e seios sensuais, vestindo uma toga e com pulseiras nos antebraços nus.

Nas previsões do World Economic Outlook, publicado pelo FMI em Abril, espera-se que o PIB português seja ultrapassado em 2015 por 11 países: Egipto, Nigéria, Malásia, República Checa, Roménia, Hong Kong, Chile, Israel, Irlanda, Filipinas e Singapura. Vá, alguns desses países têm muita gente, mas e a Roménia?
Também há previsões para o PIB per capita, que anula as diferenças populacionais. Aí são 6 os países que passam à nossa frente: a mesma República Checa (com população semelhante), Coreia do Sul, Taiwan, Bahrein e Omã. Asiáticos, ou petróleo, tá explicado. Não há que ter vergonha.
Ah, esquecia-me dum país. Porque raio é que vamos ser ultrapassados por Trinidad e Tobago?

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

STAY CALM!!!


31/08/2010
Situação: explode um dos motores num avião australiano, ardendo durante 20 minutos. Passageiros assistem em pânico, quem acredita (e quem não acredita lá muito, mas vale tudo) reza.
Ao fim de algum tempo, ouve-se a voz do comandante "Senhores passageiros, como calculam, temos estado atarefados aqui na cabina. Mantenham-se tranquilos, estamos preparados para resolver o problema. Claro que já lidámos com uma situação destas, mas foi em simuladores".
Não será a melhor forma de acalmar o povo, dizer que já resolveram casos destes, mas era a brincar...

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

DO GIM À REPÚBLICA. UMA LONGA METRAGEM

Einstein disse que as coincidências são a forma usada por Deus para passar anónimo. Pois aconteceram-me duas coincidências, ou pelo menos improbabilidades.
Anteontem, conversava em Milfontes com a avó duma criancinha. A propósito de bebidas (havia sangria na piscina, uma bênção), disse-lhe que odiava uma bebida, o gim, pelo sabor intragável e por uma rotina diária há uns 20 anos antes – pai entra em casa, senta-se na sala e chama o infante para preparar um gim com água tónica.
Quem diria?, no dia seguinte, estava a beber gim ao jantar-barra-serão, na casa duma amiga - bem disfarçado, como refresco.
Calhou contar essa amiga que tivera uns trabalhos muito interessantes, a montar exposições da Torres do Tombo, com a hipótese de mexer em livros e mapas do tempo do Camões, sem os cuidados CSI que mostram na TV. Uma delas fora na Cordoaria Nacional.
E pronto, no dia seguinte fui deixar os miúdos em Lisboa. Aonde? Às portas da Cordoaria Nacional. E havia lá uma exposição sobre o centenário da República, que eu tinha vontade de ver. E vi, mas sempre a abrir: faltavam 25 minutos para a exposição fechar e a minha amável companhia não parou de tagarelar.
Tive pena, é uma exposição para ver os pormenores, e tem as paredes pejadas deles, duma ponta à outra do edifício. Vão, é de graça, até 6 de Outubro.
A propósito, o comissário das comemorações do centenário da república é o ex-banqueiro Artur Santos Silva, com pergaminhos na família. O seu avô, Eduardo Santos Silva, maçon e membro do partido democrático, foi ministro da Instrução nos últimos 2 governos da 1ª república.
Li há uns meses uma história deliciosa, que julgo se passou com esse Eduardo (ou com o seu filho, pai de Artur?). Cenário, tribunal plenário no tempo da ditadura. O réu, por delito “político”, riu-se enquanto o juiz lia a sentença, ridícula. O meritíssimo instou-o a calar-se. Vai daí, Santos Silva levantou-se e pediu a palavra. Autorizado, apenas disse “Ah, ah, ah”.

A vantagem do ser o ano do centenário é que há imensa informação, dá para ficar com uma ideia sobre o que se passou mesmo.
E foi mais ou menos assim:

1. MORTE À MONARQUIA


Ora vejamos: um Rei que não governa (limitado nos seus poderes desde 1834, a monarquia constitucional era na prática uma república com rei), um regime moribundo e o partido no poder ganha todas as eleições, até ser trocado pelo monarca, numa base rotativa. Preparados para a confusão de nomes de ruas?
Os republicanos não só não foram inibidos, como foram favorecidos no jogo partidário. O Centro Republicano (criado em 1876, animado pela implantação da república espanhola em 73) foi protegido pelo governo regenerador do Fontes Pereira de Melo, para desgastar os progressistas, ajudando mesmo o republicano José Elias Garcia a chegar à presidência da câmara de Lisboa (a Bernardino Machado, FPM diria “A República virá, mas tarde; não precisamos dela, porque fazemos tudo o que ela faria”). Depois foram os progressistas de Braamcamp, em 81 e em 90, de volta à oposição, a votar nos candidatos republicanos, para fazer mossa nos regeneradores.
Entre 1893 e 1906, o regenerador Hintze Ribeiro e o progressista José Luciano de Castro governavam à vez, chegando a distribuir previamente os deputados, trocando votos nas eleições e partilhando a gamela – perceberam, como disse Luciano, “a conveniência de ser feita a eleição pacata e sossegadamente por combinação entre todos”. A la-ta!
A correr por fora (mesmo titubeante e não concorrendo a eleições entre 1900 e 1904), o populismo nacionalista e anticlerical dos republicanos capitalizou os votos de protesto, com uma organização eficaz e agitprop, enquanto os dois principais partidos se pulverizaram em facções.
Depois havia os dissidentes, ora veladamente apoiados pelo partido grande do outro campo (Luciano emprestou deputados ao ex-regenerador João Franco), ora patrocinadores dos republicanos, como o ex-progressista José de Alpoim – inimigo do meu inimigo, meu amigo é. “A República não pode vir dum assalto dos republicanos, poderia vir do esfacelamento dos partidos constitucionais”, bem escreveu Oliveira Martins em 1889.
Agora junte-se um país atrasado e analfabeto, com as finanças públicas sempre no vermelho, o vexame do tal mapa cor-de-rosa com a Inglaterra, um rei mal amado (“tudo o que se faz de mal, é o rei quem o faz”, diziam os descontentes) que precisava de “adiantamentos” para pagar as contas - o subsídio real, muito baixo, não era aumentado desde 1821.
Em 1907, João Franco não é demitido por D. Carlos, para surpresa dos progressistas que lhe tinham tirado o apoio parlamentar, e ainda suspende o parlamento (o que não era inédito), governando por decreto – i.e., ditadura. Os políticos do Centrão viram-se ao fim de décadas apeados do poder e semearam protestos e vaias ao rei, e alguns declararam-se republicanos. João Franco insistiu em liquidar mais empréstimos à casa real, os malditos “adiantamentos”. D. Carlos avisou o ditador, “estamos diante de uma fogueira que desejamos apagar, e não se apaga fogo lançando-lhe lenha”. Meu dito, meu feito, a 1 de Fevereiro de 1908, era morto na Praça do Comércio.
Voltaram os governos dos 2 velhos partidos, agora fragmentados em 7 grupos, e o despeito de quem ficava de fora – só eram monárquicos os políticos a quem o rei confiava o poder, disse um diplomata em 1909 (D. Carlos, parece, dizia haver uma monarquia sem monárquicos). E deixaram um galvanizado partido republicano crescer em votos, ganhando a câmara de Lisboa com 8000 votos, em 450000 habitantes.
Na noite de 3 de Outubro de 1910, umas centenas de militares saíram à rua, ninguém defendeu a monarquia. Um par do reino aceitou a república justificando que “a monarquia que existia não merece o sacrifício” de ninguém.

2. A REPÚBLICA TAMBÉM TEVE UM GOLPE DO CALDAS

A “cedência” do espaço entre Angola e Moçambique à Inglaterra (como se houvesse outro remédio!) inflamou os republicanos. A 1 de Janeiro de 1891, juntam-se em congresso no Porto, elegendo uma direcção que não advogava uma revolta, contra a vontade dos mais radicais.
No dia 31 de Janeiro, saem à rua 3 regimentos e uma companhia da Guarda Fiscal, que caminham para a Câmara Municipal, onde um Alves da Veiga declara a República, acompanhado por figuras como o Actor Verdeal, o abade de S. Nicolau e o chapeleiro Santos Silva.
Verdeal lê a lista do governo provisório, que incluía 2 professores, um lente, um general, um desembargador, o banqueiro Pinto Leite e o médico José Ventura dos Santos Reis – que vim a descobrir, é aquele senhor da fotografia no meu corredor, tio-tetravô dos miúdos.
Parecia fácil?. Nããão. Vai daí, depois de fanfarras, foguetes e vivas, resolvem subir a R. de Santo António (agora tem a data da ocorrência) até à Praça da batalha. Acontece que lá em cima estava a guarda municipal: carga de fuzilaria mata uns quantos, debandada. 300 briosos acantonaram-se na câmara, mas renderam-se às 10 da manhã. 12 revoltosos mortos, alguns cabecilhas emigraram, prisão e julgamento de civis e 505 militares em barcos colocados em Leixões, degredo para 250 pessoas em África (alguns amnistiados em 1893).
E o tal governo provisório? Negou ter dado autorização para aparecer o seu nome… Um deles deu um no cravo e outro na ferradura: “mas não autorizei ninguém a incluir o meu nome na lista do governo provisório, lida nos Paços do Concelho, no dia 31 de Janeiro, e deploro que um errado modo de encarar os negócios da nossa infeliz pátria levasse tantas pessoas a tal movimento revolucionário.”


3. FAZ 100 ANOS


1910 foi agitado e com intentonas abortadas. A 14 de Junho é fundada a Comissão da Resistência. A 29 de Setembro junta-se o pessoal: a maçonaria, a carbonária (uma organização secreta para-maçónica), a loja Acácia e o Directório do PRP. Machado Santos fazia uma dobradinha, era o chefe máximo da carbonária e o maçónico irmão Champoniet.
Um dos presentes contou que, no final, todos se voltaram para o Cândido dos Reis (também conhecido como irmão Pêro de Alenquer), perguntando-lhe se seria o momento para tentarem a vitória, tendo o almirante respondido: "É o momento! A monarquia achincalha-nos e nós temos que nos decidir. Não posso garantir a vitória, mas afianço-lhes que a Revolução, vencedora ou vencida, não será uma vergonha.
Senha da revolução, escolhida por Cândido dos Reis, foi “mandou-me chamar? – passe, cidadão”.

A revolução republicana começou na noite de 3 de Outubro, a arrancou mal. A maioria dos carbonários não apareceu, a tropa sublevada não passou de 400 soldados. Foram tomados 2 dos 10 regimentos de Lisboa, o quartel da marinha em Alcântara e dois cruzadores no Tejo; insucesso na tomada do paço e do quartel do carmo (mais uma vez, a reacção acantonada no Carmo) da guarda municipal. A coisa ‘tava preta e o líder da insurreição, Cândido dos Reis, suicidou-se na madrugada de 4 de Outubro, depois de passar pelos Banhos de S. Paulo (aliás, a outra cara da conspiração, o médico Miguel Bombarda, foi assassinado na véspera, por um doente mental).
Os revolucionários acamparam na rotunda. De manhã, face aos boatos sobre o acantonamento das forças monárquicas no Rossio e que a Guarda Municipal se preparava para carregar, o comandante Sá Cardoso reuniu os oficiais e expôs a situação. Resultado, muitos militares despiram a farda, vestiram roupa à paisana e esfumaram-se. Um não o fez, Machado dos Santos, ficou a comandar 9 sargentos, 200 militares, uns cadetes, alguns civis, a maioria desarmada, e um só membro do Directório republicano, Malva do Vale.
Mas a tropa monárquica e o governo não confiavam um no outro e ninguém veio defender a monarquia – um ministro deposto desabafou a Raul Brandão que “se os da Rotunda se sentam em cadeiras e esperam 3 dias, ao fim de 23 dias a República estava proclamada”.
O ajuntamento da rotunda cresceu e, às 11h, os 2 cruzadores bombardearam o palácio das necessidades – D. Manuel escondeu-se na tapada do palácio, no atelier onde D. Carlos “pintava e recebia visitas patuscas”, antes de se escapulir para Mafra, mandando chamar a Rainha-mãe Amélia e Rainha-avó Maria Pia.
Entretanto, o comandante da Escola naval recusa a ordem real de torpedear os barcos revoltosos, e a rotunda resiste ao ataque das forças reais lideradas por Paiva Couceiro. Os ventos mudam e, pelas 20 horas, a rotunda enche de povo, voltando alguns dos que haviam despido as fardas: 500 militares e 1000 civis, grosso modo.
A noite traz fogo cruzado de artilharia e a tomada do couraçado D. Carlos. Comandantes de tropas reais afirmam que não abrirão fogo sobre os marinheiros que desembarquem no Terreiro do Paço. O Directório do Partido Republicano acompanha os acontecimentos toda a noite de 4 para 5 de Outubro, primeiros nos Banhos de S. Paulo (ficaram literalmente nas termas…) e depois no Hotel Europa, por cima dos Grandes Armazéns do Chiado.
Na manhã de 5 de Outubro, debandaram os militares da situação e os ministros, o rei apanhou o barco na Ericeira. Por volta das 8 da manhã, um diplomata alemão conseguiu que as forças monárquicas suspendessem o fogo durante uma hora, para eventuais alemães abandonaram a cidade. Quando tentou, sob escolta monárquica (que, mal chegou ao cimo da Avenida da Liberdade, foi obrigada a mudar de lado), dirigir-se à rotunda para tentar o mesmo com os republicanos, dá-se um equívoco: a bandeira branca que levavam foi interpretada como rendição, o povo inundou o Rossio e fez a festa com a tropa monárquica, desfazendo as formações militares. O encontro entre Machado Santos e o general Gorjão já não foi sobre um armistício de 1 hora, mas sobre a proclamação da República e a rendição monárquica.
Às 11 horas, José Relvas (acompanhado por Eusébio Leão e Inocêncio Camacho), proclama a República na varanda dos Paços do Concelho: “Unidos todos numa mesma aspiração ideal, o Povo, o Exército e a Armada acabou de, em Portugal, proclamar a República”. O Edital da proclamação da república, assinado por Teófilo Braga, dizia "O Governo Provisório da República Portuguesa saúda as forças de terra e mar, que com o povo instituiu a Republica para felicidade da Pátria. Confio no patriotismo de todos. E porque a Republica para todos é feita, espero que os oficiais do Exército e da armada que não tomaram parte no movimento se apresentem no Quartel-general, a garantir por sua honra a mais absoluta lealdade ao novo regime."
Saíram então “debaixo das pedras” muitos carbonários prontos para defender a república, pousaram para as fotografias e extravasaram alguma violência, tendo matado 2 frades. De resto, a revolução teve 5 feridos à bomba e uma baixa civil. Raul Brandão relatou a revolução no seu diário: “o meu bairro tranquilo: um vizinho sacha as couves com indiferença. (…) Os estragos são insignificantes (…) Só isto!?
E, adivinhem, nas semanas seguintes multiplicaram-se os republicanos “de sempre”. Adesivagem foi o termo criado. É singular a explicação dum militante brigantino, em 1912, “a massa da população não é republicana, como não e monárquica. É o que quiser o Sr. Fulano e o Sr. Sicrano. E este Fulano e este Sicrano, por sua vez, serão o que for necessário às suas conveniências ou ligações pessoais”.

Obituário: Machado Santos, dos primeiros a desencantar-se com o rumo da República (ao ponto de participar num golpe por ano, entre 13 e 17), e Carlos da Maia (e o líder do governo, diga-se) foram mortos na chamada noite sangrenta de 19/10/1921, onde uma camioneta “fantasma” correu Lisboa a recolher vítimas. Tempos muito estáveis.


4. VIVA A REPÚBLICA



A primeira república não cumpriu as aspirações dos republicanos. Não houve tolerância, pelo menos religiosa (“uma república com padres é o maior dos absurdos”, dizia uma activista em 1883), antes uma aversão primária contra a religião. O injustamente incensado Afonso Costa dixit: “em 2 gerações Portugal terá eliminado completamente o catolicismo, que foi a maior causa da desgraçada situação em que caiu”.
Instituiu-se a separação entre o Estado e a Igreja, mas o que procurou foi a inversão do ascendente: o Estado passou a poder intervir nas pastorais, circulares e na organização da igreja, instalando comissões cultuais. Tolerante (!), proibiu procissões, toques de sinos, fardamentos dos padres, feriados católicos (o Natal ganhou o nome de festa da família) e o ensino religioso. Todos os bispos foram saneados e foram presos 170 padres que divulgaram uma pastoral proibida pelo governo. Em vez dum Estado neutral, apareceu um Estado sectário, constatou um republicano. Imprimia o jornal O Dia, os republicanos preocupavam-se com o L maiúsculo da liberdade, mas não queriam saber do l minúsculo.

Também não houve estabilidade política - os 46 governos dos 16 anos de república transformam os 19 governos nos últimos 30 anos de monarquia numa viagem bucólica –, mas um parlamento que, em vez de legislar, esteve quase sempre dividido emfacções e grupos. E lá voltaram as manifestações de rua, as maiorias fabricadas, com a eleição de deputados “suplementares” (1913), a “produção” de votações a troco de cargos e os fechos do parlamento (1915), as vitórias eleitorais de quem já governava. E golpes frequentes, com talvez 1500 mortos entre 1915 e 1920, muito mais letais que a revolução de 5 de Outubro.
E a democracia? António Sérgio dixit: "é facto único na história, uma república que restringe o voto em relação à monarquia que deitou abaixo em nome de princípios democráticos". Isto a propósito dos recenseados terem descido para menos de metade, com a retirada de direito de voto aos analfabetos, para evitar o tal caciquismo – o chefe do governo Afonso Costa explicou no parlamento, “indivíduos que não têm ideias nítidas e exactas de coisa nenhuma, nem de nenhuma pessoa, não devem ir à urna, para não se dizer que foi com carneiros que confirmámos a república”. Salazar não diria melhor. A propósito, no mesmo discurso, Costa combateu os teóricos do sufrágio universal, negando o voto às mulheres, porque o seu lugar era no lar, como companheira do homem e educadora dos filhos. Toma!
Manteve-se o apego à ordem pública, só que agora na mão de outros. Aliás, uma das primeiras preocupações foi a mudança do poder, com a entrega de toda a república aos republicanos, de alto a baixo, e somente a eles – José Relvas admitiu, nas memórias, ter ajudado a instaurar “uma república privativa de parte da nação”. Começando pela substituição das vereações municipais (as eleições tardaram 3 anos, porque sentiam o eleitorado “adverso”, como se constatou num inquérito aos presidentes das comissões administrativas), a destruição de jornais monárquicos (a lei permitiu, desde 1912, a apreensão de jornais contra a ordem, os bons costumes e a república; em 1916, viria a censura prévia), a ocupação do Estado através da atribuição livre dos empregos públicos aos militantes, a vigilância das ruas por militantes armados do PRP (“a formiga branca”) e a intimidação da magistratura (transferindo magistrados que não acusaram João Franco, como "pedido"), até à eleição de candidatos republicanos sem votos, onde não houvesse concorrente, e a prisão política (2382 presos políticos em 1912), com limitação de direitos – mais uma vez o Costa, verberando que os prazos judiciais eram demasiado apertados para a lei ser eficaz, porque “é preciso que eles sintam que nós iremos até onde for preciso".
Ah, regulamentou-se a greve, mas exigiu-se o pré-aviso, proibiram-se os piquetes e prenderam-se dirigentes grevistas – jornais exclamavam “basta de greves”, militantes republicanos armados perseguiam grevistas e Afonso Costa ganhou o cognome de racha-sindicalistas.
Por fim, o progresso: a maior divergência de rendimentos entre Portugal e o resto da Europa, a falta de dinheiro, o êxodo de 1/25 dos portugueses entre 1910 e 1912, o abrandamento do crescimento do nº de escolas primárias e da taxa de alfabetização entre as 2 primeiras décadas de 1900. Quanto a finanças, liberais como sempre: "o erro da monarquia foram gastar de mais; o Estado iria gastar apenas o que fosse preciso, como se “fazia numa casa comercial honesta”; "o que precisar de aumento de despesa, não, não e não"; era preciso deixar de olhar para o Estado como se tivesse uma mina e inesgotável; a administração pelo estado era “em regra, má e dispendiosa”, cabendo aos particulares criar riqueza e ao Estado gerar um quadro estável e de confiança. Mas atingiu-se o superavit em 1913 e 14, sendo aprovada uma lei-travão, que proibia propostas que diminuíssem a receita ou aumentasse a despesa. Quanto a subsídios para instituição de assistência e educação, Afonso Costa respondia “façam quermesses”.
Os republicanos puseram o municipalismo na gaveta e não houve descentralização de facto no país nem nas colónias – onde se manteve legal o trabalho forçado. A propósito, o nosso Costa contestou os pruridos gerados pela ordem de matar todos os gentios com mais de 10 anos em Angola, na 1ª guerra, com “não nos deixemos mover por idealismos".
O desânimo voltou, como a crítica inflamada. Em 1917, Álvaro de Campos constatava “a falência geral de tudo por causa de todos”.
Foi uma questão de tempo para aparecer alguém e por isto com “ordem” e "estabilidade". Infelizmente.

A REPÚBLICA TAMBÉM TEVE UM GOLPE DO CALDAS


A “cedência” do espaço entre Angola e Moçambique à Inglaterra (como se houvesse outro remédio!) inflamou os republicanos. A 1 de Janeiro de 1891, juntam-se em congresso no Porto, elegendo uma direcção que não advogava uma revolta, contra a vontade dos mais radicais.
No dia 31 de Janeiro, saem à rua 3 regimentos e uma companhia da Guarda Fiscal, que caminham para a Câmara Municipal, onde um Alves da Veiga declara a República, acompanhado por figuras como o Actor Verdeal, o abade de S. Nicolau e o chapeleiro Santos Silva.
Verdeal lê a lista do governo provisório, que incluía 2 professores, um lente, um general, um desembargador, o banqueiro Pinto Leite e o médico José Ventura dos Santos Reis – que vim a descobrir, é aquele senhor da fotografia no meu corredor, tio-tetravô dos miúdos.
Parecia fácil?. Nããão. Vai daí, depois de fanfarras, foguetes e vivas, resolvem subir a R. de Santo António (agora tem a data da ocorrência) até à Praça da batalha. Acontece que lá em cima estava a guarda municipal: carga de fuzilaria mata uns quantos, debandada. 300 briosos acantonaram-se na câmara, mas renderam-se às 10 da manhã. 12 revoltosos mortos, alguns cabecilhas emigraram, prisão e julgamento de civis e 505 militares em barcos colocados em Leixões, degredo para 250 pessoas em África (alguns amnistiados em 1893).
E o governo provisório? Negou ter dado autorização para aparecer o seu nome… Um deles dá um no cravo e outro na ferradura: “mas não autorizei ninguém a incluir o meu nome na lista do governo provisório, lida nos Paços do Concelho, no dia 31 de Janeiro, e deploro que um errado modo de encarar os negócios da nossa infeliz pátria levasse tantas pessoas a tal movimento revolucionário.”

MORTE À MONARQUIA



Ora vejamos: um Rei que não governa (limitado nos seus poderes desde 1834, a monarquia constitucional era na prática uma república com rei), um regime moribundo e o partido no poder ganha todas as eleições, até ser trocado pelo monarca, numa base rotativa. Preparados para a confusão de nomes de ruas?
Os republicanos não só não foram inibidos, como foram favorecidos no jogo partidário. O Centro Republicano (criado em 1876, animado pela implantação da república espanhola em 73) foi protegido pelo governo regenerador do Fontes Pereira de Melo, para desgastar os progressistas, ajudando o republicano José Elias Garcia a chegar à presidência da câmara de Lisboa (a Bernardino Machado, FPM diria “A República virá, mas tarde; não precisamos dela, porque fazemos tudo o que ela faria”). Depois foram os progressistas de Braamcamp, em 81 e em 90, de volta à oposição, a votar nos candidatos republicanos, para fazer mossa nos regeneradores.
Entre 1893 e 1906, o regenerador Hintze Ribeiro e o progressista José Luciano de Castro governavam à vez, chegando a distribuir previamente os deputados, trocando votos nas eleições e partilhando a gamela – perceberam, como disse Luciano, “a conveniência de ser feita a eleição pacata e sossegadamente por combinação entre todos”. A la-ta.
A correr por fora (mesmo titubeante e não concorrendo a eleições entre 1900 e 1904), o populismo nacionalista e anticlerical dos republicanos capitalizou os votos de protesto, com uma organização eficaz e agitprop, enquanto os dois principais partidos se pulverizaram em facções.
Depois havia os dissidentes, ora veladamente apoiados pelo partido grande do outro campo (Luciano emprestou deputados ao ex-regenerador João Franco), ora patrocinadores dos republicanos, como o ex-progressista José de Alpoim – inimigo do meu inimigo, meu amigo é. “A República não pode vir dum assalto dos republicanos, poderia vir do esfacelamento dos partidos constitucionais”, bem escreveu Oliveira Martins em 1889.
Agora junte-se um país atrasado e analfabeto, com as finanças públicas sempre no vermelho, o vexame do tal mapa cor-de-rosa com a Inglaterra, um rei mal amado (“tudo o que se faz de mal, é o rei quem o faz”, diziam os descontentes) que precisava de “adiantamentos” para pagar as contas - o subsídio real, muito baixo, não era aumentado desde 1821.
Em 1907, João Franco não é demitido por D. Carlos, para surpresa dos progressistas que lhe tiraram o apoio parlamentar, e ainda suspende o parlamento (o que não era inédito), governando por decreto – i.e., ditadura. Os políticos do Centrão viram-se ao fim de décadas apeados do poder e semearam protestos e vaias ao rei, e alguns declararam-se republicanos. João Franco insistiu em liquidar mais empréstimos à casa real, os malditos “adiantamentos”. D. Carlos avisou o ditador, “estamos diante de uma fogueira que desejamos apagar, e não se apaga fogo lançando-lhe lenha”. Meu dito, meu feito, a 1 de Fevereiro de 1908, era morto na Praça do Comércio.

Voltaram os governos dos 2 velhos partidos, agora fragmentados em 7 grupos, e o despeito de quem ficava de fora – só eram monárquicos os políticos a quem o rei confiava o poder, disse um diplomata em 1909 (D. Carlos, parece, dizia haver uma monarquia sem monárquicos). E deixaram um galvanizado partido republicano crescer em votos, ganhando a câmara de Lisboa com 8000 votos, em 450000 habitantes.
Na noite de 3 de Outubro de 1910, umas centenas de militares saíram à rua, ninguém defendeu a monarquia. Um par do reino aceitou a república justificando que “a monarquia que existia não merece o sacrifício” de ninguém.

3. VAI FAZER 100 ANOS



1910 foi agitado e com intentonas abortadas. A 14 de Junho é fundada a Comissão da Resistência. A 29 de Setembro junta-se o pessoal: a maçonaria, a carbonária (uma organização secreta para-maçónica), a loja Acácia e o Directório do PRP. Machado Santos fazia uma dobradinha, era o chefe máximo da carbonária.
Um dos presentes contou que, no final, todos se voltaram para o Cândido dos Reis (também conhecido como irmão Pêro de Alenquer), perguntando-lhe se seria o momento para tentarem a vitória, tendo o almirante respondido: "É o momento! A monarquia achincalha-nos e nós temos que nos decidir. Não posso garantir a vitória, mas afianço-lhes que a Revolução, vencedora ou vencida, não será uma vergonha.”
Senha da revolução, escolhida por Cândido dos Reis, foi “mandou-me chamar? – passe, cidadão”.

A revolução republicana começou na noite de 3 de Outubro, a arrancou mal. A maioria dos carbonários não apareceu, a tropa sublevada não passou de 400 soldados. Foram tomados 2 dos 10 regimentos de Lisboa, o quartel da marinha em Alcântara e dois cruzadores; insucesso na tomada do paço e do quartel do carmo (mais uma vez, o Carmo)da guarda municipal. A coisa ‘tava preta e o líder da insurreição, Cândido dos Reis, suicidou-se na madrugada de 4 de Outubro, depois de passar pelos Banhos de S. Paulo (aliás, a outra cara da conspiração, o médico Miguel Bombarda, foi assassinado na véspera, por um doente mental).
Os revolucionários acamparam na rotunda. De manhã, face aos boatos sobre o acantonamento das forças monárquicas no Rossio e que a Guarda Municipal se preparava para carregar, o comandante Sá Cardoso reuniu os oficiais e expôs a situação. Resultado, muitos militares despiram a farda, vestiram roupa à paisana e esfumaram-se. Um não o fez, Machado dos Santos, ficou a comandar 9 sargentos, 200 militares, uns cadetes, alguns civis, a maioria desarmada, e um só membro do Directório republicano, Malva do Vale.
Mas a tropa monárquica e o governo não confiavam um no outro e ninguém veio para defender a monarquia – um ministro deposto desabafou a Raul Brandão que “se os da Rotunda se sentam em cadeiras e esperam 3 dias, ao fim de 23 dias a República estava proclamada”.
O ajuntamento da rotunda cresceu, às 11 os 2 cruzadores bombardearam o palácio das necessidades – D. Manuel escondeu-se na tapada do palácio, no atelier onde D. Carlos “pintava e recebia visitas patuscas”, antes de se escapulir para Mafra, mandando chamar a Rainha-mãe Amélia e Rainha-Avó Maria Pia.
Entretanto, o comandante da Escola naval recusa a ordem real de torpedear os barcos revoltosos, e a rotunda resiste ao ataque das forças reais lideradas por Paiva Couceiro. Os ventos mudam e, pelas 20 horas, a rotunda enche de povo, voltando alguns dos que haviam despido as fardas: 500 militares e 1000 civis, grosso modo.
A noite traz fogo cruzado de artilharia e a tomada do D. Carlos. Comandantes de tropas reais afirmam que não abrirão fogo sobre os marinheiros que desembarquem no Terreiro do Paço. O Directório do Partido Republicano acompanha os acontecimentos toda a noite de 4 para 5 de Outubro, primeiros nos Banhos de S. Paulo (ficaram literalmente nas termas…) e depois no Hotel Europa, por cima dos Grandes Armazéns do Chiado.
Na manhã de 5 de Outubro, debandaram os militares da situação e os ministros, o rei apanhou o barco na Ericeira. Por volta das 8 da manhã, um diplomata alemão conseguiu que as forças monárquicas suspendessem o fogo durante uma hora, para eventuais alemães abandonaram a cidade. Quando tentou, sob escolta monárquica (que, mal chegou ao cimo da Avenida da Liberdade, foi obrigada a mudar de lado), dirigir-se à rotunda para tentar o mesmo com os republicanos, dá-se um equívoco: a bandeira branca que levavam foi interpretada como rendição, o povo inundou o rossio e fez a festa com a tropa, desfazendo as formações militares. O encontro entre Machado Santos e o general Gorjão já não foi sobre um armistício, mas sobre a proclamação da República e a rendição monárquica.
Às 11 horas, José Relvas (acompanhado por Eusébio Leão e Inocêncio Camacho), proclama a República na varanda dos Paços do Concelho: “Unidos todos numa mesma aspiração ideal, o Povo, o Exército e a Armada acabou de, em Portugal, proclamar a República”. O Edital da proclamação da república, assinado por Teófilo Braga, dizia "O Governo Provisório da República Portuguesa saúda as forças de terra e mar, que com o povo instituiu a Republica para felicidade da Pátria. Confio no patriotismo de todos. E porque a Republica para todos é feita, espero que os oficiais do Exército e da armada que não tomaram parte no movimento se apresentem no Quartel-general, a garantir por sua honra a mais absoluta lealdade ao novo regime."
Saíram então “debaixo das pedras” muitos carbonários prontos para defender a república, pousaram para as fotografias e extravasaram alguma violência, tendo sido mortos 2 frades. De resto, a revolução teve 5 feridos à bomba e uma baixa civil. Raul Brandão relatou a revolução no seu diário: “o meu bairro tranquilo: um vizinho sacha as couves com indiferença. (…) Os estragos são insignificantes (…) Só isto!?”
E, adivinhem, nas semanas seguintes multiplicaram-se os republicanos “de sempre”. Adesivagem foi o termo criado. É singular a explicação dum militante brigantino, em 1912, “a massa da população não é republicana, como não e monárquica. É o que quiser o Sr. Fulano e o Sr. Sicrano. E este Fulano e este Sicrano, por sua vez, serão o que for necessário às suas conveniências ou ligações pessoais”.

Obituário: Machado Santos, dos primeiros a desencantar-se com o rumo da República (ao ponto de participar num golpe por ano, entre 13 e 17), e Carlos da Maia (e o líder do governo, diga-se) foram mortos na chamada noite sangrenta de 19/10/1921, onde uma camioneta “fantasma” correu Lisboa a recolher vítimas. Tempos muito estáveis.

4. VIVA A REPÚBLICA




A primeira república não cumpriu as aspirações dos republicanos. Não houve tolerância, pelo menos religiosa (“uma república com padres é o maior dos absurdos”, dizia uma activista em 1883), antes uma aversão primária contra a religião. O injustamente incensado Afonso Costa dixit: “em 2 gerações Portugal terá eliminado completamente o catolicismo, que foi a maior causa da desgraçada situação em que caiu”.
Instituiu-se a separação entre o Estado e a Igreja, mas o que se procurou foi a inversão do ascendente: o Estado passou a poder intervir nas pastorais, circulares e na organização da igreja, instalando comissões cultuais. Tolerante (!), a República proibiu procissões, toques de sinos, fardamentos dos padres, feriados católicos (o Natal ganhou o nome de festa da família) e o ensino religioso. Todos os bispos foram saneados e foram presos 170 padres que divulgaram uma pastoral proibida pelo governo. Em vez dum Estado neutral, apareceu um Estado sectário, constatou um republicano. No jornal O Dia, escrevia-se que os republicanos preocupavam-se com o L maiúsculo da liberdade, mas não queriam saber do l minúsculo.

Também não houve estabilidade política - os 46 governos dos 16 anos de república transformam os 19 governos nos últimos 30 anos de monarquia numa viagem bucólica –, mas um parlamento que, em vez de legislar, esteve quase sempre dividido em facções e grupos. E lá voltaram as manifestações de rua, as maiorias fabricadas, com a eleição de deputados “suplementares” (1913), a “produção” de votações a troco de cargos, os fechos do parlamento (1915) e as vitórias eleitorais de quem já governava. E golpes, com talvez 1500 mortos entre 1915 e 1920, muito mais letais que a revolução de 5 de Outubro.
E a democracia? António Sérgio sentenciou, "é facto único na história, uma república que restringe o voto em relação à monarquia que deitou abaixo em nome de princípios democráticos". Isto a propósito dos recenseados terem descido para menos de metade, com a retirada de direito de voto aos analfabetos, para evitar o caciquismo – como o chefe do governo Afonso Costa explicou no parlamento, “indivíduos que não têm ideias nítidas e exactas de coisa nenhuma, nem de nenhuma pessoa, não devem ir à urna, para não se dizer que foi com carneiros que confirmámos a república”. Salazar não diria melhor.
A propósito, no mesmo discurso, Costa combateu os teóricos do sufrágio universal, negando o voto às mulheres, porque o seu lugar era no lar, como companheira do homem e educadora dos filhos. Toma.
Manteve-se o apego à ordem pública, só que agora na mão de outros. Aliás, uma das primeiras preocupações foi a mudança do poder, com a entrega de toda a república aos republicanos, de alto a baixo, e somente a eles – até José Relvas admitiu, nas memórias, ter ajudado a instaurar “uma república privativa de parte da nação”. Começando pela substituição das vereações municipais (as eleições tardaram 3 anos, porque sentiam o eleitorado “adverso”, como se constatou num inquérito aos presidentes das comissões administrativas), a destruição de jornais monárquicos (a lei permitiu, desde 1912, a apreensão de jornais contra a ordem, os bons costumes... e a república; em 1916, viria a censura prévia), a ocupação do Estado através da atribuição livre dos empregos públicos aos militantes, a vigilância das ruas por militantes armados do PRP (“a formiga branca”) e a intimidação da magistratura (por exemplo, transferindo os magistrados que não acusaram João Franco, como pedido), até à eleição de candidatos republicanos sem votos, onde não houvesse concorrente, e a prisão política (2382 presos políticos em 1912), com limitação de direitos – mais uma vez o Costa, verberando que os prazos judiciais eram demasiado apertados para a lei ser eficaz, porque “é preciso que eles sintam que nós iremos até onde for preciso".
Ah, regulamentou-se a greve, mas exigiu-se o pré-aviso, proibiram-se os piquetes e prenderam-se dirigentes grevistas – jornais exclamavam “basta de greves”, militantes republicanos armados perseguiam grevistas e o Costa ganhou o cognome de racha-sindicalistas.
Por fim, o progresso: a maior divergência de rendimentos entre Portugal e o resto da Europa, a falta de dinheiro, o êxodo de 1/25 dos portugueses entre 1910 e 1912, o abrandamento do aumento do nº de escolas primárias e da taxa de alfabetização, entre as 2 primeiras décadas de 1900. Quanto a finanças, liberais como sempre: o erro da monarquia fora gastar de mais; o Estado iria gastar apenas o que fosse preciso, como se “fazia numa casa comercial honesta”; o que precisar de aumento de despesa, não, não e não; era preciso deixar de olhar para o Estado como se tivesse uma mina inesgotável; a administração pelo estado era “em regra, má e dispendiosa”, cabendo aos particulares criar riqueza e ao Estado gerar um quadro estável e de confiança. Atingiu-se o superavit em 1913 e 14, sendo aprovada uma lei-travão, que proibia propostas que diminuíssem a receita ou aumentasse a despesa. Quanto a subsídios para instituição de assistência e educação, Afonso Costa dizia “façam quermesses”.
Os republicanos puseram o municipalismo na gaveta e não houve descentralização de facto no país, nem nas colónias – onde se manteve legal o trabalho forçado. A propósito, o nosso Costa contestou os pruridos gerados pela ordem de matar todos os gentios com mais de 10 anos em Angola, na 1ª guerra, com “não nos deixemos mover por idealismos".
O desânimo voltou, como a crítica inflamada. Em 1917, o heterónimo Álvaro de Campos constatava “a falência geral de tudo por causa de todos”.
Foi uma questão de tempo para aparecer alguém e pôr isto com “ordem” e "estabilidade". Infelizmente.

sábado, 31 de julho de 2010

NOSSA SENHORA DE FÁTIMA CHAMAVA-SE MARIA... WILKIN

Jornalista do El Pais conheceu uma britânica, assídua d'A brasileira do Chiado, que lhe contou ter casado em 1917 com um topógrafo do Porto.
Enquanto o marido efectuava o seu primeiro trabalho na Cova de Iria, Mary – recém-casada, ruiva e vestida de branco até aos pés (tal e qual a Virgem de Murillo existente na igreja de Fátima), com um xaile azul – foi apanhada descalça pela tempestade e subiu a uma árvore (como se sabe, o local mais seguro!!!).
Depois o sol apareceu e um raio iluminou-lhe a face, quando ouviu umas cabras e apareceram 3 pastorinhos, que logo se retiraram. Era 13 de Maio.
A anciã não explicou as outras "aparições", o rodopio do sol e os 3 segredos.
Crianças criativas…

quinta-feira, 29 de julho de 2010

SERÁ FADO?


Situemo-nos, Portugal século XIX.
Solo de má qualidade, clima seco, falta de matéria-prima combustível (no caso, carvão), população pouco qualificada, aumentos de produtividade modestos (38% relativamente à fiação de algodão em Inglaterra, por exemplo), salários baixos mas custo unitário de mão-de-obra alto, crescimento anual da despesa do Estado acima da subida das receitas e quase o dobro da taxa de crescimento económico, explosão da dívida pública (de 80000 para 600000 contos, entre 1850 e 1890 – correspondendo a 70% do PIB –, bastando os juros para consumir 60% da receita pública), importações sempre acima das exportações, crescimento do PNB sim, mas a afastar-se da média europeia.
“Cada vez que más colheitas obrigavam a mais importações, as remessas dos emigrantes (brasileiros) diminuíam ou o acesso ao crédito externo se tornava mais difícil, devido a crises financeiras internacionais, havia aflição em Lisboa”.
Lembra-vos alguma coisa? Pois.

Havia contudo umas diferenças de pormenor: a carga fiscal podia subir, pois representava apenas 4.4% do PIB, havia taxas alfandegárias para aumentar e o poder de desvalorizar a moeda ou imprimir dinheiro. E esses expedientes a gente já não tem.
Uma chatice.

* Muito antes do país do betão do Cavaco, houve o Portugal do macadame de Fontes Pereira de Melo, que rasgou vias férreas (Porto-Lisboa passou de 7 dias de diligência para 8 horas de comboio), pontes, túneis e estradas pelo país. Disse o Estadista “Tudo stá contente. O povo está feliz, quer estradas e nada mais”...

PRÉ-REFORMA


No census de 1911, foi identificada a pessoa mais velha do país, uma “fêmea (!!!) viúva, com 120 anos, que desfrutou regular saúde, porém, impossibilitada de trabalhar, por cegueira, HÁ DOIS ANOS”.
Curiosamente, por essa altura, os republicanos de esquerda repudiavam a nova ideia do Estado providência, chegando a apelidá-la, no Jornal A Luta, de “ideia reaccionária”.

Décadas mais tarde, o Estado Social permitia que as pessoas, com uma esperança média de vida a aumentar, se reformassem aos 50 anos.
Mas isso acabou. Primeiro, muitas pessoas com 40 e tal anos são considerados “velhos” em candidaturas para empregos. E agora vai aumentando a idade elegível para a reforma - não tarda, ainda vamos ter que trabalhar até ao fim da vida… ou enquanto não vier a cegueira.

sábado, 3 de julho de 2010

BOA GOVERNANÇA


Compreendo que seja necessário apertar o cinto. Pois não é verdade que Portugal vive acima das suas possibilidades?

Pegue-se no Sol de ontem e veja-se como o dinheiro é bem gerido.
1. Armando Vara demite-se (não foi demitido) do BCP, porque o processo judicial em que está envolvido nunca mais desanda. Mas sai com os salários até ao fim do seu contrato (Dezembro), 250 mil euros, sabe-se lá porquê.
2. Os deputados insulares têm direito ao pagamento de deslocações semanais às ilhas, em classe executiva, num valor que oscila entre 636 e 808€. Mas não precisam apresentar nenhum comprovativo, até podem ficar por Lisboa. É que também recebem ajudas de custo diárias, pois estão longe de casa.
3. O relatório anual de combate à fraude e evasão fiscal e a Conta Geral do estado de 2009 traz conclusões animadoras: 306 fundações receberam subsídios de 167 milhões de euros, mas não é assegurada a prestação de contas sobre o destino do dinheiro; em 17% dos organismos públicos auditados houve ajustes directos sem fundamento legal, e em 30% foram pagas ajudas de custo suplementares não conformes ou justificadas; os administradores da parque Expo recebem há 10 anos uma gratificação mensal ilegítima e regalias indevidas;o Estado deixou prescrever 573 milhões de euros de dívidas fiscais.
4. As piscinas municipais (de luxo) de Campo Maior estão fechadas, porque a câmara não tem como pagar os custos de manutenção (12 milhões de euros até 2025), mas mesmo que queira cessar o contrato, tem que pagar a totalidade das rendas. Ah, só houve um concorrente, o concurso não foi publicitado, não houve visto prévio, o terreno público foi cedido durante 20 anos por 175m€, sem que o valor fosse fundamentado, a obra demorou mais 2 anos que o contratado. O ex-presidente da câmara fez um contrato leonino... para a construtora privada.
5. o Tribunal de contas vetou, em 2009, 57 actos ou contratos no valor de 3.400 milhões de euros, 32% das despesas submetidas a visto. Foram analisados 2386 processos, no valor de 10.800 M€, i.e., foram vetados (as) grandes empreitadas.
6. O ministério da Justiça fez novas contas relativamente à construção de 10 prisões e remodelação de 3. Afinal não vai custar 450, mas 760 milhões de euros. No mínimo, não se despede quem fez a conta de mercearia errada?

Sim, pelo menos alguns portugueses vivem acima das possibilidades.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

OS GOLOS SÃO COMO O KETCHUP...



...quando aparecem, vêm todos juntos, disse o Ronaldo sobre o jejum de golos da selecção. Parece verdade. E cada um melhor que o outro. Espero que não seque o poço.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

CASA ONDE NÃO HÁ PÃO, TODOS RALHAM...

E TODOS TÊM RAZÃO.

O governo decidiu aplicar novas regras nas pensões sociais (leia-se cortes), numa tentativa de "racionalização da atribuição de prestações sociais e da criação de condições para que estas sejam socialmente mais justas e equitativas" (como diz o DL 78/2010 de hoje, sobre o subsídio de desemprego), com o que conta poupar 150M€ por ano.
Primeira questão: se lá está há 5 anos, e basta fazer a conta, significa que gastou 750M€ onde não devia?

Como alertou o presidente, a austeridade traz o risco de fractura social. Isso significa a hostilidade entre quem trabalha ou desconta e quem recebe.
O forum da TSF é um óptimo observatório social: no meio de muita barbaridade e ignorância, aparece o pulsar do país. E quando o tema são subsídios, há algazarra.
Numa altura em que os bolsos estão cada vez mais leves, o povo indigna-se com situações - que todos conhecem - de gente que prefere estar no desemprego (por vezes falso) ou receber o RSI (mais habitação social, livros escolares, abonos, alimentação, isenções na farmácia ou no hospital, ...) a procurar emprego, e que acham que trabalhar numa vinha... dá trabalho. Gente essa com carro, plasma e playstation.
Num desses programas, um enfermeiro com duplo emprego dizia que visitara uma pessoa com SRI que tinha TVcabo, e perguntava se o erário público servia para ajudar quem precisa ou para pagar "extras".
Conheço uma dessas pessoas que se indignam, funcionário camarário que apanha lixo das 9 da noite às 3 da manhã e trabalha das 6 às 13 numa fábrica, tudo por uns 700€. Vou chamar-lhe reaccionário, porque acha mal o vizinho com 4 filhos ganhar o mesmo, ficando em casa (oferecida)?

Mas há o outro lado. Alfredo Bruto da Costa (presidente da Comissão nacional Justiça e Paz, ex-ministro dos assuntos Sociais de Pintassilgo em 79) pôs o dedo na ferida:
"É inexplicável que a área que visa beneficiar os mais pobres também seja atingida com as medidas de austeridade. Fico muito inquieto quando vejo pessoas mais preocupadas com as fraudes dos pobres do que com a pobreza."

(FALTA DE) NOTÍCIAS EM DIRECTO


A competição das televisões e das rádios pelas notícias obriga-as a directos intermináveis, onde verdadeiramente "se enche o chouriço", i.e., esmiuça-se o irrelevante.
É assim nas cerimónias, em que os locutores dissertam sobre a ementa, os vestidos e a meteorologia, ou entrevistam "os populares" que fazem cordões humanos para bisbilhotar a malta conhecida do ecrã.

Mas, na falta de notícias, também se ocupa a antena com os preparativos.
Há semanas foi o Papa. Dias antes do Santo Padre chegar, já não o podia ver. Era a entrevista ao designer do logótipo, às senhoras que coziam as batinas dos párocos, ao comissário da visita sobre o percurso do papamóvel. Eram os sapatos vermelhos do papa (que, afinal, não são Prada), era o estóico quarto onde o senhor iria pernoitar, era o diabo que o carregue.
E foi o acompanhamento ao minuto dos 4 dias de visita. A tarefa é mais difícil na rádio, não há imagens para distrair. Ouvi na TSF, por mero acaso, a chegada do avião a Lisboa: "O Santo Padre agarra o corrimão para descer a escada... afinal, vai descer sem apoio..." Isto é notícia???

E pronto, agora é o Mundial. Quatro motas (1 delas com atrelado para o câmara) e 2 helicópteros seguiram a camioneta dos jogadores - com vidros fumados, diga-se - até ao aeroporto. Com direito a paragem na bomba da Galp e na festa do Modelo, que isto dos patrocínios tem obrigações.
E assim passaram duas horas de directos em todas as rádios e televisões.
Mas alguém quer saber se o Nani gosta de bacalhau, ou a que horas os jogadores jogam playstation?

SARAMAGO MEETS GOD


Se Deus existe, Saramago ficou hoje a saber.
Acho aliás que estão agora a ter uma conversinha de pé-de-orelha (a história da bíblia ser um manual de maus costumes ou o homem ter inventado um Deus cruel, invejoso e insuportável virá à baila, pela certa).

O primeiro livro que li de Saramago foi O memorial do convento, há 20 e tal anos. Li depois mais uns 10, os últimos a viagem de elefante e Caim. Claramente uns melhores que outros, mas o conjunto da obra é soberbo nas suas alegorias. O segredo é ler a correr, como se ouvíssemos o narrador.

Tem 2 anos (Tabu, 19/04/2008) uma das suas impressões sobre o rectângulo:
"O que falta em Portugal é sentido crítico. Estamos muito aborregados. Nem somos capazes de balir. Mééé!"

segunda-feira, 14 de junho de 2010

RON MUECK



O artista é genro de Paula Rego. Já imaginaram os presentes que se distribuem naquela família, pelo Natal?

sábado, 12 de junho de 2010

D. HENRIQUE, O PIRATA ESCLAVAGISTA E FRATRICIDA


O programa do MST usa o título dum livro (sinais de fogo) e uma frase do Jorge de Sena que eu subscrevo, uma história depende essencialmente do modo como é contada.
Volto ao tema neste blog, agora a propósito de D. Henrique, Duque de Viseu, Mestre de Cristo e irmão de D. Duarte.
Foi pela pena dum dos seus entusiastas, o cronista Gomes Eanes de Zurara, que se criou a lenda dum humanista, um pio, um asceta, um visionário. Tudo bem, também foi isso.

Mas foi mais. Foi ele um dos responsáveis pelo desastre do ataque a Tanger em 1437. O irmão Fernando ofereceu-se para ficar em seu lugar como refém dos mouros, a ser libertado após Portugal sair de Ceuta.
D. Duarte reuniu as Cortes de Leiria em 1468, para discutir o resgate do irmão e a entrega daquela praça, numa sessão renhida e infrutífera.
Imaginem quem faltou, não defendendo o destino do irmão que generosamente ocupara o seu lugar no catre... Henrique.
É sabido, Fernando (o Infante Santo) morreu em Fez em 1443, ao fim de 6 anos a ver o sol aos quadradinhos.

Há mais. D. Henrique tinha uma activa frota de navios de corso e iniciou o tráfico de escravos africanos, particularmente para a produção de açúcar no SEU (oferecido pela coroa) arquipélago da Madeira.
E ainda conseguiu, do irmão regente Pedro e do Papa, o monopólio do comércio e do corso além do cabo Bojador: direitos de povoamento das ilhas, direitos sobre todas as viagens e um quinto dos géneros (incluindo escravos).
Tudo embrulhado em boas intenções, como a procura de novos mundos, a evangelização dos povos e luta contra os infiéis.