Somos uma geração privilegiada. Durante séculos, as pessoas viveram como os seus tetravós, mas o mundo acelerou e nós vimos mudar muita coisa.
Eu ainda sou do tempo do autocarro verde de 2 andares e de haver um só canal a preto e branco (lembro-me de ficar frente a um ecrãn com grão, à espera da abertura da emissão) – o "Marco" que nunca encontrava a mãe por uma nesguinha (foste embora mamã, não me deixes aqui!) era considerado violento, havia 1 só novela, às 3ª havia entrevista, às 4ª havia filmes, e eu via mais televisão.
Víamos mais televisão, mas - PERIGO!!! - passávamos a vida na rua, até ficar escuro, onde partíamos a cabeça a correr em tábuas com rolamentos "home made" ou saltávamos à fogueira - sem que os nossos pais fossem apelidados de incompetentes.
Sou do tempo de vintages como os LP a 45 e 71 rotações, do zx spectrum que se usava com uma cassete barulhenta (quantas vezes falhava a entrar...), das bonecas espanholas de perna aberta colocada na cama. E o menino da lágrima era um must, a fazer pendant com o vidro às cores que se punha frente ao televisor, para colorir a imagem.
Havia uma só auto-estrada no país, entre Lisboa e Porto, mas não chegava lá. Faltavam anos para a via verde, claro.
Não havia Multibanco e tínhamos que trocar dinheiro no banco para ir a Badajoz, e voltar ao banco para converter a sobra de pesetas – com comissões.
Os trabalhos da escola obrigavam a ir à biblioteca ou, luxo, recorrer à enciclopédia luso-brasileira do pai. Agora está à distância dum clique, tudo o que se quiser saber, haja sorte e capacidade de seleccionar as fontes.
Tiravam-se cursos para saber usar uma máquina de escrever, a duas cores, com papel químico para fazer cópias, sem corrector de erros, e rezávamos para não nos enganarmos em nenhuma letra.
Não havia multiplexes, as salas de cinema eram grandes e as pessoas envolviam-se na história: no Cinema do Cartaxo, quando o Rambo IV deu cabo do russo, houve uma salva de palmas.
Se recuar mais, as fraldas eram de pano, a maioria das fotos era a preto-e-branco (mães mais jeitosas pintavam-as), fotografias rápidas eram polaróides, desfocadas e irreproduzíveis.
A anos-luz da rotundomania, havia poucos carros no Cartaxo e mulheres ao volante eram uma raridade.
Antes da febre dos relógios digitais, os relógios eram umas cebolas que mudavam a cor com a direcção da luz.
E um maço de Kentucky custava 4 escudos.
Agora há de tudo um pouco. É difícil de explicar aos miúdos que houve um mundo em que os produtos eram chamados pelo nome duma marca, porque era a única: ajax para os vidros, vim para o chão, forza para o forno, pirata ou gorila para as pastilhas, viarco para lápis (com tabuada impressa), gillette para as lâminas da barba, yoplait ou vigor para iogurtes (tam'ém se faziam em casa), laranjina para laranjada, Majora para jogos, nívea para o protector solar ou bronzeador (ninguém falava em cancro da pele), o boca-doce para os pudins, savora para mostarda. Vick era sinónimo de descongestionante nasal, esfregado no peito, e comia-se pão com chocolate, o Comacompão ou coisa assim.
E, finalmente, a minha preferida, batata frita era pala-pala.