...e depois, com bigodes de leite, pedem mais paciência e esforço ao povo, que a "vaca 'tá seca".

sábado, 3 de julho de 2010

BOA GOVERNANÇA


Compreendo que seja necessário apertar o cinto. Pois não é verdade que Portugal vive acima das suas possibilidades?

Pegue-se no Sol de ontem e veja-se como o dinheiro é bem gerido.
1. Armando Vara demite-se (não foi demitido) do BCP, porque o processo judicial em que está envolvido nunca mais desanda. Mas sai com os salários até ao fim do seu contrato (Dezembro), 250 mil euros, sabe-se lá porquê.
2. Os deputados insulares têm direito ao pagamento de deslocações semanais às ilhas, em classe executiva, num valor que oscila entre 636 e 808€. Mas não precisam apresentar nenhum comprovativo, até podem ficar por Lisboa. É que também recebem ajudas de custo diárias, pois estão longe de casa.
3. O relatório anual de combate à fraude e evasão fiscal e a Conta Geral do estado de 2009 traz conclusões animadoras: 306 fundações receberam subsídios de 167 milhões de euros, mas não é assegurada a prestação de contas sobre o destino do dinheiro; em 17% dos organismos públicos auditados houve ajustes directos sem fundamento legal, e em 30% foram pagas ajudas de custo suplementares não conformes ou justificadas; os administradores da parque Expo recebem há 10 anos uma gratificação mensal ilegítima e regalias indevidas;o Estado deixou prescrever 573 milhões de euros de dívidas fiscais.
4. As piscinas municipais (de luxo) de Campo Maior estão fechadas, porque a câmara não tem como pagar os custos de manutenção (12 milhões de euros até 2025), mas mesmo que queira cessar o contrato, tem que pagar a totalidade das rendas. Ah, só houve um concorrente, o concurso não foi publicitado, não houve visto prévio, o terreno público foi cedido durante 20 anos por 175m€, sem que o valor fosse fundamentado, a obra demorou mais 2 anos que o contratado. O ex-presidente da câmara fez um contrato leonino... para a construtora privada.
5. o Tribunal de contas vetou, em 2009, 57 actos ou contratos no valor de 3.400 milhões de euros, 32% das despesas submetidas a visto. Foram analisados 2386 processos, no valor de 10.800 M€, i.e., foram vetados (as) grandes empreitadas.
6. O ministério da Justiça fez novas contas relativamente à construção de 10 prisões e remodelação de 3. Afinal não vai custar 450, mas 760 milhões de euros. No mínimo, não se despede quem fez a conta de mercearia errada?

Sim, pelo menos alguns portugueses vivem acima das possibilidades.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

OS GOLOS SÃO COMO O KETCHUP...



...quando aparecem, vêm todos juntos, disse o Ronaldo sobre o jejum de golos da selecção. Parece verdade. E cada um melhor que o outro. Espero que não seque o poço.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

CASA ONDE NÃO HÁ PÃO, TODOS RALHAM...

E TODOS TÊM RAZÃO.

O governo decidiu aplicar novas regras nas pensões sociais (leia-se cortes), numa tentativa de "racionalização da atribuição de prestações sociais e da criação de condições para que estas sejam socialmente mais justas e equitativas" (como diz o DL 78/2010 de hoje, sobre o subsídio de desemprego), com o que conta poupar 150M€ por ano.
Primeira questão: se lá está há 5 anos, e basta fazer a conta, significa que gastou 750M€ onde não devia?

Como alertou o presidente, a austeridade traz o risco de fractura social. Isso significa a hostilidade entre quem trabalha ou desconta e quem recebe.
O forum da TSF é um óptimo observatório social: no meio de muita barbaridade e ignorância, aparece o pulsar do país. E quando o tema são subsídios, há algazarra.
Numa altura em que os bolsos estão cada vez mais leves, o povo indigna-se com situações - que todos conhecem - de gente que prefere estar no desemprego (por vezes falso) ou receber o RSI (mais habitação social, livros escolares, abonos, alimentação, isenções na farmácia ou no hospital, ...) a procurar emprego, e que acham que trabalhar numa vinha... dá trabalho. Gente essa com carro, plasma e playstation.
Num desses programas, um enfermeiro com duplo emprego dizia que visitara uma pessoa com SRI que tinha TVcabo, e perguntava se o erário público servia para ajudar quem precisa ou para pagar "extras".
Conheço uma dessas pessoas que se indignam, funcionário camarário que apanha lixo das 9 da noite às 3 da manhã e trabalha das 6 às 13 numa fábrica, tudo por uns 700€. Vou chamar-lhe reaccionário, porque acha mal o vizinho com 4 filhos ganhar o mesmo, ficando em casa (oferecida)?

Mas há o outro lado. Alfredo Bruto da Costa (presidente da Comissão nacional Justiça e Paz, ex-ministro dos assuntos Sociais de Pintassilgo em 79) pôs o dedo na ferida:
"É inexplicável que a área que visa beneficiar os mais pobres também seja atingida com as medidas de austeridade. Fico muito inquieto quando vejo pessoas mais preocupadas com as fraudes dos pobres do que com a pobreza."

(FALTA DE) NOTÍCIAS EM DIRECTO


A competição das televisões e das rádios pelas notícias obriga-as a directos intermináveis, onde verdadeiramente "se enche o chouriço", i.e., esmiuça-se o irrelevante.
É assim nas cerimónias, em que os locutores dissertam sobre a ementa, os vestidos e a meteorologia, ou entrevistam "os populares" que fazem cordões humanos para bisbilhotar a malta conhecida do ecrã.

Mas, na falta de notícias, também se ocupa a antena com os preparativos.
Há semanas foi o Papa. Dias antes do Santo Padre chegar, já não o podia ver. Era a entrevista ao designer do logótipo, às senhoras que coziam as batinas dos párocos, ao comissário da visita sobre o percurso do papamóvel. Eram os sapatos vermelhos do papa (que, afinal, não são Prada), era o estóico quarto onde o senhor iria pernoitar, era o diabo que o carregue.
E foi o acompanhamento ao minuto dos 4 dias de visita. A tarefa é mais difícil na rádio, não há imagens para distrair. Ouvi na TSF, por mero acaso, a chegada do avião a Lisboa: "O Santo Padre agarra o corrimão para descer a escada... afinal, vai descer sem apoio..." Isto é notícia???

E pronto, agora é o Mundial. Quatro motas (1 delas com atrelado para o câmara) e 2 helicópteros seguiram a camioneta dos jogadores - com vidros fumados, diga-se - até ao aeroporto. Com direito a paragem na bomba da Galp e na festa do Modelo, que isto dos patrocínios tem obrigações.
E assim passaram duas horas de directos em todas as rádios e televisões.
Mas alguém quer saber se o Nani gosta de bacalhau, ou a que horas os jogadores jogam playstation?

SARAMAGO MEETS GOD


Se Deus existe, Saramago ficou hoje a saber.
Acho aliás que estão agora a ter uma conversinha de pé-de-orelha (a história da bíblia ser um manual de maus costumes ou o homem ter inventado um Deus cruel, invejoso e insuportável virá à baila, pela certa).

O primeiro livro que li de Saramago foi O memorial do convento, há 20 e tal anos. Li depois mais uns 10, os últimos a viagem de elefante e Caim. Claramente uns melhores que outros, mas o conjunto da obra é soberbo nas suas alegorias. O segredo é ler a correr, como se ouvíssemos o narrador.

Tem 2 anos (Tabu, 19/04/2008) uma das suas impressões sobre o rectângulo:
"O que falta em Portugal é sentido crítico. Estamos muito aborregados. Nem somos capazes de balir. Mééé!"

segunda-feira, 14 de junho de 2010

RON MUECK



O artista é genro de Paula Rego. Já imaginaram os presentes que se distribuem naquela família, pelo Natal?

sábado, 12 de junho de 2010

D. HENRIQUE, O PIRATA ESCLAVAGISTA E FRATRICIDA


O programa do MST usa o título dum livro (sinais de fogo) e uma frase do Jorge de Sena que eu subscrevo, uma história depende essencialmente do modo como é contada.
Volto ao tema neste blog, agora a propósito de D. Henrique, Duque de Viseu, Mestre de Cristo e irmão de D. Duarte.
Foi pela pena dum dos seus entusiastas, o cronista Gomes Eanes de Zurara, que se criou a lenda dum humanista, um pio, um asceta, um visionário. Tudo bem, também foi isso.

Mas foi mais. Foi ele um dos responsáveis pelo desastre do ataque a Tanger em 1437. O irmão Fernando ofereceu-se para ficar em seu lugar como refém dos mouros, a ser libertado após Portugal sair de Ceuta.
D. Duarte reuniu as Cortes de Leiria em 1468, para discutir o resgate do irmão e a entrega daquela praça, numa sessão renhida e infrutífera.
Imaginem quem faltou, não defendendo o destino do irmão que generosamente ocupara o seu lugar no catre... Henrique.
É sabido, Fernando (o Infante Santo) morreu em Fez em 1443, ao fim de 6 anos a ver o sol aos quadradinhos.

Há mais. D. Henrique tinha uma activa frota de navios de corso e iniciou o tráfico de escravos africanos, particularmente para a produção de açúcar no SEU (oferecido pela coroa) arquipélago da Madeira.
E ainda conseguiu, do irmão regente Pedro e do Papa, o monopólio do comércio e do corso além do cabo Bojador: direitos de povoamento das ilhas, direitos sobre todas as viagens e um quinto dos géneros (incluindo escravos).
Tudo embrulhado em boas intenções, como a procura de novos mundos, a evangelização dos povos e luta contra os infiéis.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

VENDE-SE TERRENO COM BONS ACESSOS



A despropósito, alguns alemães propuseram que a grécia venda algumas das suas muitas ilhas para diminuir a dívida pública.
As berlengas ou as selvagens servem para alguma coisa? E a Ponta do Sol? E a ilha de Faro?
Podíamos, no mínimo, dar Olivença a preço de rebajas e não se falava mais nisso. Ou expropriar o estádio do dragão e vendê-lo ao Celta de Vigo, para campo de treinos.
Ou vender a residência oficial do Sócrates ao Corte Inglês, ele depois desenhava uma casa mais arejada com mezzanine.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

UM BRINDE A MOUNTAIN VIEW

Volta não volta, vou bisbilhotar o sitemeter deste blogue, para ver a "bilheteira" e saber de onde são os fregueses.
Há clientes da Setúbal, Cacais, Amadora, Lisboa, Queluz, Algés, Santarém, Cartaxo - mas esses devem conhecer alguém do painel.
Já me espanta que alguém de Ile-de-France, Dominica, L.A. ou Texas venha aqui parar, ou alguma regularidade com que nos visita gente que julgo não nos conhece, seja de Prime-Viseu, da Gafanha da Encarnação-Aveiro, ou um(a) qualquer expatriado(a) em Mountain View-California.
A este, e aos restantes, um brinde.

domingo, 25 de abril de 2010

SOMOS LIVRES*


Em miúdos, eu e as minhas irmãs sempre dividimos as preferências: tirando o frango (lutávamos pelas coxas até passarmos os 3 a querer os peitos), cada um tinha o seu clube, a cor primária e até o candidato às presidenciais de 76: a mais velha, do alto dos seus 7 anos, gostava do Eanes, eu gritava Otelo no eléctrico e a do meio preferia o Pinheiro de Azevedo porque estava “doentinho”. 34 anos depois, é esta a minha personagem preferida da (pós)revolução.
Como não ficar fascinado com o Almirante que, quando discursava na Praça do Comércio e rebentaram granadas lacrimogéneas da polícia militar (ligada então à extrema-esquerda) e petardos do partido revolucionário português (um PRP) contra os manifestantes, tentou acalmar a população em pânico exclamando “o povo é sereno, não tem perigo, é apenas fumaça. Ninguém arreda pé!”. Arredaram, quando o fumo subiu à tribuna.
O mesmo almirante sem medo, primeiro-ministro do 6º governo provisório, foi cercado por operários grevistas no parlamento e, quando lhe chamaram fascista, retorquiu “bardam… para o fascista”. Mais tarde explicou “’tou farto de brincadeiras, fui sequestrado já 2 vezes, já chega, não gosto de ser sequestrado, é uma coisa que me chateia pá (…) e eu agora pá, vou almoçar pá”, com ar de enfado.
Vai daí, e por causa das manifestações contra o governo e porque os militares “primeiro fazem plenários e depois é que cumprem as ordens”, auto-suspendeu o governo. Ah, valente.
O Almirante representa o esplendor da época, a descontracção da oratória, a saturação do caos, a comicidade da história. E tinha razão, o povo é sereno, mesmo quando não deve.



* Ser desbocado e contestatário (a ponto de ganhar a alcunha de tóliban) em democracia já tem um efeito bastante "depilatório", não imagino sequer o que seria viver num país onde não se podia criticar o poder.
Pelo menos Caetano não desenhava mamarrachos.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

VERGONHAS 1


Carta a Dom Manoel sobre o Achamento do Brasil

Senhor,
posto que o Capitão-mor desta Vossa frota, e assim os outros capitães escrevam a Vossa Alteza a notícia do achamento desta Vossa terra nova, que se agora nesta navegação achou, não deixarei de também dar disso minha conta a Vossa Alteza, assim como eu melhor puder, ainda que -- para o bem contar e falar -- o saiba pior que todos fazer!
Todavia tome Vossa Alteza minha ignorância por boa vontade, a qual bem certo creia que, para aformosentar nem afear, aqui não há de pôr mais do que aquilo que vi e me pareceu.
(...)
A feição deles é serem pardos, um tanto avermelhados, de bons rostos e bons narizes, bem feitos. Andam nus, sem cobertura alguma. Nem fazem mais caso de encobrir ou deixar de encobrir suas vergonhas do que de mostrar a cara. Acerca disso são de grande inocência. Ambos traziam o beiço de baixo furado e metido nele um osso verdadeiro, de comprimento de uma mão travessa, e da grossura de um fuso de algodão, agudo na ponta como um furador. Metem-nos pela parte de dentro do beiço; e a parte que lhes fica entre o beiço e os dentes é feita a modo de roque de xadrez. E trazem-no ali encaixado de sorte que não os magoa, nem lhes põe estorvo no falar, nem no comer e beber.
(...)
Mostraram-lhes um papagaio pardo que o Capitão traz consigo; tomaram-no logo na mão e acenaram para a terra, como se os houvesse ali. Mostraram-lhes um carneiro; não fizeram caso dele. Mostraram-lhes uma galinha; quase tiveram medo dela, e não lhe queriam pôr a mão. Depois lhe pegaram, mas como espantados. Deram-lhes ali de comer: pão e peixe cozido, confeitos, fartéis, mel, figos passados. Não quiseram comer daquilo quase nada; e se provavam alguma coisa, logo a lançavam fora. Trouxeram-lhes vinho em uma taça; mal lhe puseram a boca; não gostaram dele nada, nem quiseram mais. Trouxeram-lhes água em uma albarrada, provaram cada um o seu bochecho, mas não beberam; apenas lavaram as bocas e lançaram-na fora. Viu um deles umas contas de rosário, brancas; fez sinal que lhas dessem, e folgou muito com elas, e lançou-as ao pescoço; e depois tirou-as e meteu-as em volta do braço, e acenava para a terra e novamente para as contas e para o colar do Capitão, como se dariam ouro por aquilo.Isto tomávamos nós nesse sentido, por assim o desejarmos!
(...)
Ali andavam entre eles três ou quatro moças, bem novinhas e gentis, com cabelos muito pretos e compridos pelas costas; e suas vergonhas, tão altas e tão cerradinhas e tão limpas das cabeleiras que, de as nós muito bem olharmos, não se envergonhavam.
(...)
Até agora não pudemos saber se há ouro ou prata nela, ou outra coisa de metal, ou ferro; nem lha vimos. Contudo a terra em si é de muito bons ares frescos e temperados como os de Entre-Douro-e-Minho, porque neste tempo d'agora assim os achávamos como os de lá. Águas são muitas; infinitas. Em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo; por causa das águas que tem!
Contudo, o melhor fruto que dela se pode tirar parece-me que será salvar esta gente. E esta deve ser a principal semente que Vossa Alteza em ela deve lançar. E que não houvesse mais do que ter Vossa Alteza aqui esta pousada para essa navegação de Calicute bastava. Quanto mais, disposição para se nela cumprir e fazer o que Vossa Alteza tanto deseja, a saber, acrescentamento da nossa fé!
E desta maneira dou aqui a Vossa Alteza conta do que nesta Vossa terra vi. E se a um pouco alonguei, Ela me perdoe. Porque o desejo que tinha de Vos tudo dizer, mo fez pôr assim pelo miúdo.
E pois que, Senhor, é certo que tanto neste cargo que levo como em outra qualquer coisa que de Vosso serviço for, Vossa Alteza há de ser de mim muito bem servida, a Ela peço que, por me fazer singular mercê, mande vir da ilha de São Tomé a Jorge de Osório, meu genro -- o que d'Ela receberei em muita mercê.
Beijo as mãos de Vossa Alteza.
Deste Porto Seguro, da Vossa Ilha de Vera Cruz, hoje, sexta-feira, primeiro dia de maio de 1500
Pero Vaz de Caminha

A carta (para legitimar terras já conhecidas?) testemunha a chegada ao continente de Pedro Álvares Cabral, a 21 de Abril de 1500. Mas 'tá lá tudo, a troca comercial (passa para cá o ouro), a troca cultural (toma lá o meu Deus), o pudor e até, à portuguesa, o escrivão não acaba sem pedir ao rei a libertação do genro, preso por assalto e agressão.

VERGONHAS 2

1. ESQUECIDO. Manuel Alegre vai receber uma reforma de 3.219,95 euros mensais pelo cargo de coordenador de programas de texto da RDP que ocupou alguns meses em 1974-75, consta na lista da Caixa Geral de Aposentações. Em declarações ao Correio da Manhã, Alegre garantiu que nem se lembraria da reforma, não fosse a CGA a escrever-lhe uma carta. «Nunca mais lá trabalhei, mas descontei sempre».

2. VIAJADA. Inês de Medeiros sempre vai ter as viagens para Paris e ajudas de custo (€69 diários), por deliberação dos colegas. PSD e BE contra, CDS absteve-se (nojo), PCP e PEV faltaram, PS a favor - empate obrigou a decisão por voto qualificado do presidente da comissão, o grande Lello.

3. COMPETENTE. Para o cargo de assessor do IPJ, com vencimento de €3500, o método de selecção a utilizar é o concurso de prova pública que consiste na "...apreciação e discussão do currículo profissional do candidato" (aviso nº 11466/2008, DR 255 de 6/11/2008, 2ª série).
O método de selecção de coveiro para a CM de Lisboa (aviso simples, pág. 26922), com vencimento de €450, inclui uma prova de conhecimentos globais de natureza teórica e escrita com a duração de 90 minutos (sobre 1) Direitos e Deveres da Função Pública e Deontologia Profissional, 2) Regime de Férias, Faltas e Licenças, 3) Estatuto Disciplinar dos Funcionários Públicos) e uma prova de conhecimentos técnicos (inumações, cremações, exumações, trasladações, ossários, jazigos, columbários ou cendrários, transporte e remoção de restos mortais). Se o candidato tiver escolaridade obrigatória somará + 16 valores, o 11º ano de escolaridade somará + 18 valores, o 12º ano de escolaridade somará + 20 valores. No final, haverá um exame médico para aferimento das capacidades físicas e psíquicas do candidato.
É mais complicado ser coveiro que assessor, pois é, não há lugar marcado!

Como gostava de ter uma Cidinha Campos, para chamar os bois pelos nomes...

DÔRES DE CRESCIMENTO


Como esclarecimento inicial, devo dizer que os filmes para as crianças são fabulosamente realizados e alguns são bem divertidos, a anos luz dos filmes da Disney que nós vimos na “nossa” altura.
Sei porque tenho pilhas deles em casa, e porque nos últimos anos, com raras excepções, as minhas idas ao cinema a eles se devem.
Um domingo destes, fui a Braga de manhã ver o Idade do Gelo 3. Encontrei uma conhecida, blábláblá, o que fazes aqui? Olha, fui cravado para ir ver um filme infantil, respondi com ar resignado. Ela retorquiu “aproveita, ainda vais ter saudades, os meus filhos já não querem sair connosco”.
Acredito piamente.
Mas, de momento, tenho é saudades de ir ao cinema ver um filme de crescidos.

Ainda vai demorar até as crianças quererem distância, por enquanto acordo a maioria dos dias com 3 (ou 4) pessoas na cama. Agora estou na fase em que desisto de explicar que há mulheres em países esquisitos obrigadas a sair à rua debaixo dum lençol, digo "imaginem o caloraço" e a mai' velha pergunta "como o homem que veste o fato do Panda?" (o da TV)
Tá bem, que o tempo corra devagar. Mas os próximos 3 meses podem andar depressa. É que o meu filho mais novo vai para a escola, o que significa que vai acabar a renda do infantário, que custa mais que a minha casa.
Claro, devo agradecer-lhes estes anos que guardaram e mimaram os miúdos, mas sou um homem do Excel, e 'tá lá que, em Julho próximo (e descontando alguns extras que não registei), gastámos €34.246,36 no ABC. Dava para comprar um carro bom.
Como diz um amigo meu, um filho custa o mesmo que um Ferrari. Sem tirar nem por.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

FAÇAM FAVOR DE SAIR, TÁ NA HORA DO RANCHO







Tenho um amigo que nasceu no Porto e nunca foi a Serralves, mas conhece o Louvre. Bem, ainda me falta conhecer o Soares dos Reis, e vivi um ano frente ao museu de arte antiga e nunca lá entrei.
Na verdade, é mais fácil fazer turismo cultural fora de casa.

Li uma reportagem sobre o museu da cidade de Lisboa e fiquei seduzido pelas mega-esculturas de Bordallo espalhadas no jardim e por um tal de "Luciano das ratas", uma personalidade lisboeta que procurava ouro nos subterrâneos de Lisboa e aproveitava para matar os ratos, razão pela qual a cidade lhe ficou grata.
Vai daí, resolvi ir de propósito à capital ver o dito local. O preço é simpático (quantas entradas custam €2,76?), mas o museu não é grande. Reúne objectos da pré-história, períodos romano - com várias lápides funerárias, como a da "Passéria Rómula, da tribo dos galérios" (como a maioria) - e árabe, idade média até à república.
Isto vi eu, porque o séc. XX (incluindo aquele quadro de Almada Negreiros, do Pessoa num cenário avermelhado) ficava no primeiro andar. Assim como o Luciano das ratas.
Ainda vimos as cerâmicas do Bordallo, mas a correr, enquanto éramos perseguidos por uma zelosa funcionária que nos tentava pôr na rua.
É que era 1 da tarde... e o museu fechava para almoço. Num sábado. Depois aqui d'el rei que as pessoas não vão aos museus. Brrrr.

Impedidos de ver o resto dos bichos do Bordallo, reproduzidos pela Joana Vasconcelos, resolvemos ir ver os originais da artista, no CCB. De graça, thanks to Comendador Berardo (e, parecendo que não, Estado português).
É consensual, está ali muita técnica de materiais, inspiração e suor. Já as preferências dividem-se: a autora tem um carinho especial pelo lustre de tampões, um dos meus hereges companheiros preferia o shopping Fátima (um motociclo de caixa cheio de nossas senhoras fluorescentes), eu gostei mais da cama de valium, forrada a comprimidos de verdade, e os corações minhotos de talheres de plástico.
Pièce de résistance, o sapato de panelas: um par deles, intitulado Marilyn, foi leiloado em 2010 pela Christie's por meio milhão de euros.
A visitar ambos. Não vão é ao fim da manhã.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

169 CANÇÕES DE ABRIL

Abril é de toda a gente, inclusive meu que não sou de esquerda: tipo redacção da escola, eu gosto muito do 25 do 4, o 25 do 4 é meu amigo. Claro que durou 2 dias (acabou às 24 horas de 25 de Novembro), e por volta do meio-dia o sonho quase se transformava em pesadelo.
Tinha 4 anos no PREC. As canções dessa altura fazem parte das minhas lembranças mais remotas, de Lisboa em 1975, e recordo-as com gosto.
 
Algumas são fenomenais, como a trova do tempo que passa, mudam-se os tempos, a pedra filosofal ou e depois do adeus. Ou aquela “A cantiga é uma arma e eu não sabia/tudo depende da bala e da pontaria/tudo depende da raiva e d’alegria/a cantiga é uma arma contra a burguesia”.
Outras recordam um tempo em que tudo parecia possível, uma espécie de festa colectiva: somos livres, mais conhecida pela gaivota; canta amigo canta, que diz “tu sozinho não és nada, junto temos o mundo na mão (…) vamos semear a tempestade, se queremos a bonança”; livre, informando que não há machado que corte a raiz ao pensamento.

Aqueloutras, bem datadas, testemunham a certeza nos amanhãs que cantam: até à vitória final, fartos da tirania e servidão, opondo o trabalho ao capital, contra os carrascos do povo, a canalha e os burgueses (o PCP ainda aí vai): desta vez é que é, sobre a revolução e o sol que virá, ou o povo unido jamais será vencido.
Há uma cantiga que é um programa político das nacionalizações, daqui o povo não arreda pé: os fascistas só têm um banco, o dos réus; o fascista sem a banca é como 1 touro capado, sem força para marrar; diz sim à reforma agrária, somos 1 país pequeno e pobrezinho, bem repartidinho dá para todos e sobeja.

Outras ainda são fotografias – a preto-e-branco cheias de grão – sobre os papões da reacção, os vira-casacas e o início da desilusão: viva o poder popular, que fala no facho filho da mãe e no rico transformado em democrata; a luta contra a reacção; a valsa da burguesia, “pela social-democracia, para nos travar o passo”; o facho, que “vira a casaca e diz que vota, saneia o chefe que o compromete” e “é democrata de longa data”; lá isso é, denunciando “partidos da direita que põem a bola ao centro”; venho aqui falar como “o socialista [que] desiste do socialismo é como fazer cabidela sem frango, nem arroz nem a panela”.

Há uma muito divertida sobre as senhoras do antigo regime, cantada pelo professor do fungágá, vamos brincar à caridadezinha, sobre a senhora "de não sei quem" que passa a tarde comendo a torrada e a pensar no pobre, coitada, e que rouba muito, mas dá prenda.
Trabalho muitas vezes no PC com um site ligado, algumas cantigas põem-me o pé a bater em compasso - convido-vos a bisbilhotar http://marius708.com.sapo.pt/Cantores%20de%20Intervencao.html


 




Foi bonita a festa, pá, fiquei contente
‘Inda guardo, renitente, um velho cravo para mim...
Chico Buarque

terça-feira, 20 de abril de 2010

LEGO DE PALAVRAS

Há uma música de Chico Buarque da Holanda particularmente bem conseguida. O poema chama-se "Construção" e é um jogo com as palavras: Buarque conta uma história e depois repete-a várias vezes, trocando os adjectivos.
A versão seguinte é acelerada (o original tem mais 2 minutos), mas serve.
Prestem atenção.



CONSTRUÇÃO, Chico Buarque

Amou daquela vez como se fosse a última
Beijou sua mulher como se fosse a última
E cada filho seu como se fosse único
E atravessou a rua com seu passo tímido

Subiu a construção como se fosse máquina
Ergueu no patamar quatro paredes sólidas
Tijolo por tijolo, num desenho mágico
Seus olhos embotados de cimento e lágrima.

Sentou para descansar como se fosse sábado
Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe
Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago
Dançou e gargalhou como se ouvisse música
E tropeçou no céu como se fosse um bêbado

E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acabou no chão feito um pacote flácido.
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contra-mão atrapalhando o tráfego.

Amou daquela vez como se fosse o último
Beijou sua mulher como se fosse a única
E cada filho seu como se fosse o pródigo
E atravessou a rua com seu passo bêbado

Subiu a construção como se fosse sólido
Ergueu no patamar quatro paredes mágicas
Tijolo por tijolo, num desenho lógico
Seus olhos embotados de cimento e tráfego.

Sentou para descansar como se fosse um príncipe
Comeu feijão com arroz como se fosse o máximo
Bebeu e soluçou como se fosse máquina
Dançou e gargalhou como se fosse o próximo
E tropeçou no céu como se ouvisse música

E flutuou no ar como se fosse sábado
E se acabou no chão feito um pacote tímido.
Agonizou no meio do passeio náufrago
Morreu na contra-mão atrapalhando o público.

Amou daquela vez como se fosse máquina
Beijou sua mulher como se fosse lógico
Ergueu no patamar quatro paredes flácidas
Sentou para descansar como se fosse um pássaro
E flutuou no ar como se fosse um príncipe.
E se acabou no chão feito um pacote bêbado
Morreu na contra-mão atrapalhando o sábado.

domingo, 18 de abril de 2010

PR'A SEMANA EXPERIMENTO



400 milhões de pessoas fazem parte da rede social Facebook. É muita gente, a somar aos "amigos" do twitter, do xing, do ning, do linkedIn, ...
Eu ainda não aderi, o que quase me torna excêntrico, visto que TO-DO o mundo já lá está.

Já pediram “a minha amizade” várias vezes, no Hi5 e no Facebook. Alguns dos convites eram de pessoas com quem raramente me cruzei, duma concelhia do PS e dum dirigente local do mesmo partido, que toda a gente sabe que não é o meu (partido que já me convidara para apresentações de candidatos em 2 terras bem afastadas, o que só prova que são nada selectivos – é quase assédio).
Mas compreendo que tenha interesse por motivos comerciais, políticos ou de intervenção cívica - a "coisa" é uma agenda de contactos gigantesca e uma mensagem pode espalhar-se em horas, como mil rastilhos.

Acompanhei uma estreia. Começa-se por encontrar uma série de gente, amigos perdidos e malta que já nem lembrávamos que existia: "olha o sabugo! olha o como é que se chama?! ena a Tecas!" Essa parte é óptima, como é descobrir grupos de fãs de bares do nosso roteiro nocturno na faculdade, e com velhas fotos anexas (um dos títulos, "já me senti indisposto no Pioledo", serve a milhares que lá passaram).
Depois vem a fase chata dos convites para amigo por gente chata. Faz-se de morto para não responder, como se evita atender o vendedor da ZON.
Diria que todos passam pelo mesmo, mas há quem aceite toda a gente e convide toda a gente, procurando ser amiga de pessoas que nunca viram mais gordas (como filhas de colegas...), ao mesmo tempo que não sabem a graça do vizinho do lado.
Há quem se meça pelo número de amigos, mas imaginem um ginásio com má acústica, ouvir 800 gajos a falar não é conversa, é ruído. Bem, é o regresso aos amigos imaginários, para quem os teve: chamar-lhes amigos faz-me lembrar o comentário de Mark Twain à notícia da sua morte, "é claramente um exagero".
Muitos são pessoas com quem não bebíamos um copo, a quem não telefonamos pelo TMN gratuito, ou ainda que vemos diariamente, sem trocar uma ideia.

E as relações são meio mecânicas ou robóticas, impessoais: há mensagens pré-formatadas à distância dum clique, como “Manuel manda abraço” - mesmo que a mensagem seja explicitamente dirigida a outrem -, ou “Isabel gosta disto”. Nem se escreve, clica-se!
O facebook tem os fãs e os fanáticos, verdadeiros apóstolos que cantam loas à ideia. Existem já clínicas para tratar o FAD (facebook adict disorder) em doentes que "têm que" visitar a rede todos os dias (by the way, é o vosso caso?).
É, só por febre a pessoa substitui contactos pessoais por mensagens no facebook: há dias, contaram-me o caso dum gajo que descobriu no facebook que o afilhado de casamento de separara...

Há ainda um grupo de gente, do meu tamanho, que se entretém a semear melões e uvas (esta uma boa opção, consta) e ganha moedas a adubar o campo dos vizinhos no Farm Ville, um jogo com gráficos pouco elaborados e com frases feitas, tipo “Susana precisa de ferradura” e “Carlos agradece presente”. Isso exige uma ou mais visitas diárias.
Em contra-mão, apareceram uns gajos que pretendem vandalizar as plantações, como quem invade campos de milho trangénico.
O jogo, a que eu chamo um tamagoshi estilo borda d'água, é porém simpático, os “vizinhos” ajudam-se mutuamente e trocam vaquinhas cor-de-rosa. Menos mal.

P'OGRESSO


Há uma história de B.D. que nunca esqueci. Juro que tem mais graça que a minha sinopse, mas reza mais ou menos assim: o Tio Patinhas aleijou-se num joelho e o Prof. Pardal inventou um assento com pernas articuladas, um sucesso que vendeu como pães quentes.
Encorajado, pensou que podia inventar um chapéu com braços articulados, e os patinhos passaram todos a andar com o robot na cabeça. Depois acrescentou-lhe dois olhinhos e, a seguir, uma boca para falar pelos palmípedes.
Chegou por fim à conclusão que os cidadãos de Patópolis caíam amorfos quando se lhes tirava as engenhocas, não conseguiam viver sem elas.
Vocês lembram-se como vivíamos sem Multibanco e telemóvel, e como nos conseguíamos encontrar uns com os outros à porta dum concerto, ou na praia?
Ah, na história, foi tudo resolvido com abstinência dos gadgets e ginástica colectiva.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

IDADE PARA TER JUÍZO


Tenho um amigo com idade para ter juízo: há meses, enviou esta música dos Deolinda a 5 pessoas que, como ele, participaram num protesto, escrevendo que se devia respeitar mesmo quem se acobardara e ficara quieto. Um dos destinatários disse mata e um outro disse esfola, enviando sem querer os mails a toda a gente.
Baile armado. A coisa não seria importante, não fora os mais furiosos serem amigos (rating AA) do rapaz com idade para ter juízo: “quem são vocês para se auto-intitularem de corajosos e dar lições de moral (…) se és meu amigo, podias dizer-mo na cara”.

O rapaz com idade para ter juízo só não aprendeu umas coisas, porque já as sabia:
1º Pela boca morre o peixe.
2º Uma mensagem que se quer bem disposta, pode ser piada de mau gosto para a plateia (que se entende) visada, é como contar anedotas de ciganos na feira de Carcavelos.
3º Epicuro escreveu “Faz tudo como se alguém te contemplasse”, eu diria fala ou escreve sempre como se o alvo das tuas palavras te ouvisse.

O rapaz com idade para ter juízo defendeu-se, alegando que não pretendeu provocar ninguém e que a mensagem era privada – o que, à primeira, me lembrou o Paulo Penedos na comissão da AR, sobre as escutas: mais importante que o conteúdo, é a forma indevida da divulgação?
Mas o argumento tem um fundo de razão: nas mensagens privadas, não há preocupação em escolher as palavras ou em evitar generalizações, que atingem todos indiscriminadamente. A mensagem teria outro efeito usando “algumas pessoas” e trocando cobardia por “instinto de sobrevivência” - redonda e diplomaticamente suave.

O dizer-na-cara-do-amigo leva-nos para outro lado. Li algures que, em média, as pessoas dizem 7 mentiras por dia, geralmente piedosas e/ou para manter a paz social.
Mais que mentiras, há omissões: se toda a gente dissesse sem rodeios tudo o que pensa, o mundo deixava de funcionar: haveria arraial como na aldeia de Asterix, com pafs, peixes e bigornas a voar. E um amuo geral eterno.

Tirando o comum “tá bom, tá!” quando a anfitriã pergunta pelo seu repasto apenas tragável, há coisas que preferimos calar: “A tua mulher é uma imbecil, pá.”, “Não acredito em tudo o que contas, gostas de apimentar as histórias.” ou “O que te sobra em simpatia falta em competência.”.
Tendo mesmo de ser, em vez do sem-espinhas “O teu sucesso dependeu mais do cartão partidário que da tua competência (que tens).”, preferimos sussurrar “Hás-de convir que seres do Partido deu uma ajudinha…”, e a quem se está a marimbar para o trabalho podíamos alertar suavemente “talvez sejas um bocadinho despreocupado no trabalho”.
Tudo em nome duma boa convivência, até porque as pessoas de quem gostamos também têm defeitos.
Mas o melhor mesmo é, às vezes, estar calado.