Praga
U. CoimbraA culpa é minha, que sou básico.
Lembro-me de adormecer no cinema uma vez. Tinha-me levantado cedo e ido do Cartaxo a Braga arranjar o meu primeiro trabalho, na minha politraumatizada R4, ‘tava cansado.
À tarde, passei no Porto e fui ver o filme do Manuel de Oliveira com o Malcovich e La Deneuve. Bem, aquele leeeeeento passeio no convento da Arrábida, sem falas, a ouvir o vento e o roçar das folhagens das árvores, foi tiro e queda.
Fui com o nosso Pedro. À saída, perguntei-lhe o que achara da película: “Hum, deixa-me digerir o filme”.
Eu sou mais básico, não mastigo os filmes ou os livros, gosto ou não.
Também não sou daqueles que choram a ler livros ou a ver filmes – como o mundo é feito de compensações, a minha mulher até chora no Bamby, verte uma lágrima em qualquer fim de filme com um draminha e música a acompanhar.
Eu não me envolvo nos filmes ou nos livros a esse ponto, consigo distanciar-me q.b. e não esquecer que é uma história apenas, e que qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência – claro, quando não é baseado uma história real.
O intróito serve para Vos dizer, se tiverem chegado aqui, que há 3 livros que me enervaram, o que só credita os seus autores.
A Desgraça (do mais tarde nobelizado J. M. Coetzee) foca um professor desempregado e a sua filha, na África do Sul, e traça um retrato ácido das tensões pós-apartheid, da nova hierarquia instaurada e da apatia das personagens perante a violência e humilhação a que são submetidos: Lucy é violada na própria casa e torna-se uma escrava impotente do seu violador negro. Irritou-me profundamente a prepotência de uns e a fraqueza de outros. Recomendo apenas a estômagos fortes – o livro devia trazer uma bolinha vermelha.
A Catedral do Mar (Ildefonso Falcones) tem como cenário a construção da Catedral de Santa Maria del Mar, no séc. XIV - erigida pelo povo e para o povo, num bairro de pescadores em Barcelona (caso raro, demorou apenas umas dezenas de anos a construir e é monoestilística). O livro segue a ascensão de Arnau de Estanyol, de servo a barão, num carrossel de tristezas e sucessos, permanentemente sabotado. O primeiro leitor descontente que se acuse.
Por fim, confesso envergonhado que fui alertado para Os Pilares da Terra (Ken Follett) pelo entusiasmo da Júlia Pinheiro de Chicago, a Oprah. É uma saga de 2 tomos, tendo como fio condutor a construção de outra Catedral, Kingsbridge, no séc. XII. Há várias personagens centrais, há clero corrupto, nobreza prepotente, prima-nocte, traição, morte, amor, inveja, sabotagem. Uma epopeia (caso gostem, Até ao fim do mundo pega na descendência, 200 depois). Façam-me o favor, leiam.
Ou ponham no sapatinho de alguém, são os 2 livros prendas seguras.
































