...e depois, com bigodes de leite, pedem mais paciência e esforço ao povo, que a "vaca 'tá seca".

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Publico ergo sum

A empresa T mobile mandou sms aos clientes, convidando-os a comparecer em trafalgar square. Apareceram 13500, que cantaram um karaoke de "Hey Jude" em uníssono.
Não sei como fizeram, mas ouve-se o som da(s) pessoa(s) que aparece(m) no ecran gigante.
Foi uma festa, como se vê. E uma publicidade engenhosa e inteligente.


No topo da imagem há um link para outro "comercial" da marca, Josh convocou por sms mais de 1000 pessoas para cantarem com ele. Divertido.

sábado, 13 de fevereiro de 2010

OLHA PARA O QUE EU DIGO...


"Os impostos são aquilo que se paga para se ter uma sociedade civilizada." Oliver Wendell Holmes
"Só pagam impostos os que não têm com que pagá-los." Sofocleto

Manda a etiqueta que não se fala à mesa de religião e de política. Acrescentaria sexo e dinheiro, para ninguém se envergonhar ou causar inveja, conforme o caso. Mas hoje queria falar de dinheiro.
Um colega contou-me que o genro tem uma empresa e que, em caso de acidente (sic), o património está no nome do senhorio, um empresa S.A. com os mesmos sócios da “inquilina”. O mesmo quer dizer, em caso de gestão incompetente/danosa ou de incumprimento de devedores, ficam a arder os credores que existirem. Um dominó. Esta do “um gajo tem que se safar, se quer sobreviver” faz-me confusão.

Outra senhora falava de injustiça: “Veja lá que os meus sobrinhos andam em faculdades diferentes, um tem direito a bolsa e a outra não; o meu cunhado declara o salário mínimo, como é isso possível?”
Perguntei-lhe o que fazia o cunhado. “É empresário”.
O cidadão chama ladrão ao merceeiro, enquanto esconde uma maçã no bolso...

Como trabalhador por conta de outrem, pago os meus impostos todos. Irrita-me que um gajo ganhe o triplo e pague um terço de IRS. Como diria o saudoso Almirante Pinheiro de Azevedo quando foi sequestrado no parlamento por operários descontentes, é uma coisa que me chateia.
Tenho muitos colegas profissionais liberais, desde anarcas a alegristas, que fogem ao fisco. Apenas com alguns mais próximos, porque a discussão franca não deixa sequelas, já abordei o assunto. Acham eles 1) deixa-te de hipocrisias, foge quem pode e 2) ladrões são os que te levam o dinheiro, para gastarem mal, e/ou com os próprios e os amigos, sem proporcionarem serviços em condições.
Argumentos de peso. Palavra que não sei o que faria na situação deles, e é facto que mais dinheiro não faria obrigatoriamente um melhor Estado.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

CRESCEI E MULTIPLICAI-VOS


Há programas que vemos por voyerismo ou com uma sensação de envergonhado prazer com a desgraça alheia – não é bem prazer, é mais alívio por não nos calhar a nós.
Há um reality show no canal travel&living que faz o 2-em-1.
História: casal tem 8 filhos, duas miúdas com 4 anos e 6 gémeos de 2 anos e meio. Todos os pais compreendem se disser que a situação é de pavor.

Os episódios não precisam de guião: o carro é um furgão, cada ida ao supermercado acarreta 3 carrinhos de compras em pirâmide, há um latão de lixo diário só para fraldas.
Como agora as crianças têm quase todas problemas respiratórios, não há vários nebulizadores, mas um nebulizador central – curiosamente, os infantes aguentam a terapia quietos e sozinhos (o que nunca consegui com o meu), enquanto a mãe trata da “cantina” e/ou das várias máquinas de lavar.
Por milagre (e com inveja minha), as famílias grandes sobrevivem num regime marcial, em que as crianças respeitam rotinas.

Os passeios são restritos, obviamente, por falta de mãos para agarrar os petizes. Para complicar, a mãe tem fobia por limpezas, e lava o chão 3 vezes por dia, de joelhos no chão.

Papás e mamãs, multipliquem por 8 as maxicosi e carrinhos, biberões e babetes, febres e regurgitações, e tudo o mais que se lembrem. Medo, muito medo.
Compreendem o pai, quando disse, perante a indignação da mulher, que o seu dia favorito da semana é a segunda-feira?

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

A PACIÊNCIA DO POVO É A MANJEDOURA DOS TIRANOS


Conheci José Adelino Maltez, intitulado politólogo, quando se tornou há meses comentador da SICN.
As suas dissertações costumam ser elaboradas, ancoradas em citações (hoje foi Sophia com “vemos, ouvimos, lemos, não podemos ignorar”, Montesquieu e Drummond de Andrade) e absolutamente cáusticas com os políticos e a sociedade portuguesa.
O tema de hoje era Sócrates e o seu esquema de controlo da comunicação social, narrada no Sol.
Maltez tirou da cartola expressões como o “colectivismo de seitas” e a “banalização do mal”.
Esta é uma característica tuga: a normalização do grande e do pequeno “mal” - da corrupção, da fraude, da mentira, da cunha, do esquema - sem qualquer resistência do povo, apenas a sua aceitação passiva:
Sócrates mentiu?, nada que espante. São todos iguais, e na próxima ganha de novo.
Abuso dos dinheiros públicos?, só não faz quem não pode.

A mesma passividade, e o temor (e subserviência) do poder instalado, qualquer que seja, explica uma ditadura tão longa, que só acabou porque uns coronéis acharam que estavam a ser ultrapassados na carreira – tivessem-lhes pago, e Caetano ficaria mais um tempinho.
Posso estar a dizer uma barbaridade, pois não tenho conhecimentos suficientes de história, mas parece-me que a última revolução que vingou, meia-encabeçada pelo povo, foi em 1385. Todas as outras (r)evoluções foram lideradas pela nobreza, tropa ou elites políticas (tirando a revolta da Maria da Fonte). Nada de revoluções à americana, francesa, russa, pós-comunistas, em que o povo fez a mudança.
Somos um povo “ao serviço de Vossa Senhoria”.


Já agora, mais um bocadinho de Raphael Bordallo Pinheiro
A Política: a grande porca O dia de votos
O Maquinismo Governativo

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

TENDÊNCIA DEMOCRATA-CRISTÃ NA CGTP


A minha profissão é marcadamente liberal, um tanto avessa a sindicalismos.
E o sindicato da minha classe, onde pontuam 2 dos PCTPs que ainda existem, é fraquinho-fraquinho (e não se consegue sequer preencher uma lista candidata ao lugar).
Saí desse sindicato há 10 anos, quando precisei dele e nem acusaram a recepção da carta: compensam a verborreia revolucionária com a inacção.
Desde então – eu, que não gosto de ajuntamentos, sejam partidos, clubes ou condomínios –, jurei para nunca mais…

…e sindicalizei-me agora noutro sindicato. Já tinha ido a uma primeira reunião deste “grémio”, onde tive a mesma pele de galinha aparecida agora em 2 colegas estreantes nesta lide (e votantes à direita): o discurso inflamado e panfletário, da opressão do homem pelo homem, faz comichão a quem não é de esquerda (e a maioria não se revê no teor belicoso dos comunicados à imprensa cheios de adjectivos e poucos substantivos, achando mais eficaz um texto contido, explicativo e pragmático). Mas teve que ser.

Temos um director que tem conceitos particulares sobre os direitos legislados dos funcionários. Durante 2 anos, houve delação*, apatia e medo de retaliações ou de perda de emprego (metade do povo é recibo verde e a outra passou pelo processo da mobilidade).
Como sempre, foram precisos 2 corajosos (i.e. malucos) que deram o peito às balas e iniciaram o processo, depois apareceram outros – e, só se o desfecho se adivinhar bom, sairão debaixo das pedras os restantes.
Por ora, o mesmo organismo que ignorou os “colaboradores” – cada um por si, é-se pequenino – teve que receber o sindicato e reconhecer (parte) dos direitos que estavam em causa.
E aprendi mais: quando a UGT assinava acordos com os governos e a CGTP abandonava a mesa de trabalho, eu atribuía isso a intransigência e manipulação do PC. Foi-me mostrado que os filiados na Inter mantêm direitos que a UGT alienou, numa coisa chamada ACT.
Quem diria, eu satisfeito na CGTP?

Resignadamente, os funcionários públicos vão perder mais uma vez poder de compra – em 9 dos últimos 10 anos – , para controlar o défice: ganham menos 8% reais que há 10 anos. Tudo bem, já estão habituados. 4 lembranças apenas:
1. Terão sido gastos 600 M€ em pareceres jurídicos de firmas de advogados, na legislatura passada (número estimado, pois é quase classificado).
2. O rendimento anual dos presidentes de empresas ou organismos públicos oscila entre 420 m€ (TAP), 370 m€ (CGD), 224-250 m€ (BdP, RTP, CMVM, ISP, ERSE, ANACOM), 200 m€ (CTT), 126-134 m€ (Parpública, ANA AdP) e 58-96 m€ (Metro Porto, Lusa, CP, Metro Lisboa, Refer, Carris. Lembremos, parte das empresas são deficitárias e ainda há o resto dos conselhos de administração.
3. Os adeptos do congelamento ou mesmo diminuição dos salários na FP, com loas à coragem irlandesa - Duque, Nogueira Leite, Silva Lopes, Ernani Lopes, Medina Carreira, Daniel Bessa, Constâncio – teriam a mesma opinião se o(s) seu(s) ordenados(s) e reformas não fossem obscenamente principescos?
4. A Inês de Medeiros aceitou ser deputada do PS por Lisboa. Agora lembrou-se que vive em Paris e a AR deu-lhe equivalência a deputado pelo círculo da Europa: viagens semanais e 528€ diários, repito diários, de ajudas de custo.

* Sempre existiu gente assim, mas continuo sem perceber como colegas há 5, 10 ou 15 anos, vão a reuniões sindicais para ir contar ao chefe quem esteve e o que disse, tintim por tintim. O que é que ensinam aos filhos, a ser íntegros, a não trair, a não prescindir do que consideram justo, ou a vender-se por 30 dinheiros? A ser corajoso ou “para viver, faz de morto”?
** A imagem do partido-avô do Bloco é uma chalaça para o nosso inflamado esquerdista.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

as palavras certas


Comunicarmos uns com os outros, aparentemente, parece uma processo muito simples mas não é. A mensagem que nos sai da cabeça, nem sempre é a mesma que chega ao nosso receptor. O que dizemos está condicionado pela forma como dizemos e isso implica o tom, os gestos que acompanham a fala e toda uma quantidade de símbolos que vão ser reinterpretados pelo outro que só aceita o que deseja ou o que compreende.
Essa troca de informações por vezes gera mal entendidos e o que um quer dizer não é nem parecido com o que o outro está a perceber.
Ora, o acto de comunicar não é mais do que a materialização do pensamento e se este estiver toldado com preconceitos está tudo estragado.
Entramos facilmente em conjecturas, opinamos com fundamento incerto, supomos causas, levantamos hipóteses, apressamos julgamentos e não prevemos os efeitos da nossa mensagem.
Podemos ter as melhores intenções do mundo, mas se não tivermos em comum os mesmos símbolos dificilmente vamos compartilhar dos mesmos pontos de vista e se a mensagem falada já é complicada, o que dizer da mensagem escrita que não tem nem som, nem cheiro.
Ainda assim, sou uma mulher de palavras, gosto de uma boa conversa seja ela cara-a-cara ou através de uma mensagem escrita, as palavras devem ser ditas, temos é que ter o cuidado de escolher as palavras certas.
Que não nos falte nunca essa capacidade!
Fátima Rebelo

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

FLASH MOB

O You tube faz 5 anos a 14 de Fevereiro. Diz o i de hoje que mil milhões de vídeos são vistos diariamente e que o mais visto, "The Evolution of Dance", onde se resumem 50 anos de dança em 6 minutos, teve mais de 131 milhões de visitas (ainda vou bisbilhotar este).

O you tube tem no cardápio vários vídeos de flash mob, onde multidões organizadas fazem coreografias-surpresa ou ficam apenas quietas (flash mob freeze) - por vezes, com centenas de participantes.
Aqui vão três: i gotta feeling na abertura da 24ª temporada da Oprah (a apresentadora não sabia de nada), um mix no aeroporto de Lisboa (houve no natal e no ano novo, são dos vídeos mais vistos sobre o assunto) e música no coração numa gare belga. Divirtam-se.


Chicago


Lisboa TAP


Antuérpia

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

FIM DA LINHA ou porque no te callas?


Parafraseando o Durão Barroso, já se sabia que os textos "sem cerimónia" do Mário Crespo no JN iam acabar, só não se sabia quando.

Foi ontem. Crespo resolveu falar numa alegada conversa entre José Sócrates, Pedro Silva Pereira, Jorge Lacão e um executivo de televisão em que é referenciado como "mais um problema que tem que ser solucionado".

No texto, intitulado “No fim da linha” e que deveria ter sido publicado na edição de hoje do JN, Mário Crespo relatava a conversa supostamente ocorrida na passada terça-feira, durante um almoço em Lisboa, e que lhe foi transmitida por algumas testemunhas.

Mas, ontem à noite, foi-lhe negada a publicação do texto, o que o fez recusar continuar a colaboração com o JN. Para o director do jornal, "o texto não era uma simples texto de opinião, mas fazia referências a factos que necessitavam de confirmação e que fosse exercido o direito ao contraditório relativamente às pessoas citadas, além da informação chegar a Mário Crespo por um processo que o JN habitualmente rejeita como prática noticiosa". E pronto, mais um quedo.

Agora, alguém acredita que Sócrates tente calar o jornal da TVI, o ex-Director do Público e, agora, Crespo?

domingo, 31 de janeiro de 2010

DEUS É GATO


A Comunidade Astrofísica tem rejubilado com as últimas fotos da Nebulosa Pata de Gato, um ninho de estrelas próximo do centro da via láctea. A nebulosa fora descoberta em 1837 por um astrónomo, na África do Sul.

Está provado. Deus deixou a sua assinatura, e Deus é um gato (ou gata, como a deusa egípcia Bastet). Caprichoso, narcísico, curioso, independente, arisco, letárgico.
Está tudo explicado.

O deus-gato também é irónico: nos concursos para as auto-estradas, o preço subiu 700 milhões de euros na fase da BAFO, best and final offer, com os 2 melhores concorrentes a melhorar a proposta.
Pensava eu que oferta final e melhor era mesmo isso, a melhor oferta. Nãããã.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

SOQUETE



O Gouveia - o que prometeu umas fotos, esse - mimou-nos com um sketch do herman.
Decidi voltar 19 anos atrás - lembram-se do estreante J. Rodrigues dos Santos a relatar (encher chouriço) durante horas a invasão do Iraque? - e repescar o meu cromo preferido, que falava no Nuno Rogeiro (sabe de tudo um pouco) e no Álvaro Cunhal (não interessa a pergunta, responde o que quer).
Não encontro o 2º favorito, um Gilberto Lalande, que nascera em Loulé e vivia nas Laranjeiras, mas não dizia os "eles".

CARTILHA MATERNAL


Há dias, em Valongo, perguntei a uma senhora onde havia um supermercado, ficando a saber que havia “um éclair” logo ali… a dita deve ter entendido o meu sorriso aberto como uma felicidade extrema em encontrar um Leclerc.

Entre os defeitos desta alma pecadora está a urticária quando ouço morteiradas na gramática. Embora com a idade tenha mais recato, pois às vezes as pessoas ficam ofendidas, não costumo resistir a corrigir erros de gente conhecida.
Espero sempre que, como eu, prefiram que alguém avise caso se enganem: desde o dia em que apresentei uma tese, nunca mais escrevi 'descriminar' com e, que o corrector automático aceita - fabulosa ferramenta, evita meio mundo de mostrar as falhas do nosso ensino -, mas significa absolver, em vez de elencar.

No Cartaxo, além do corrente mêpai e ‘nhamãe (não conta, é dialecto), há o hábito de dizer-se quaisqueres, hades e hadem, em vez de quaisquer, hás-de e hão-de, erros que 2 ou 3 amigos benevolentes abandonaram por eu os melgar, sem se chatearem com o sermão.

Há um (ainda hoje) amigo do peito, em particular, que sofreu as minhas malfeitorias (à pala disso, tenho mais uma semana no purgatório): escrevia-me do colégio interno, e eu assinalava os erros, que eram bastantes. O meu preferido era “estou a escrever no çalam” (salão), o que terá algo de galaico-português, quem sabe...

O erro escrito mais comum é a troca do acento no a, que já me aconteceu neste blogue (como foi num comentário a um post, não foi possível alterar). Grrrr.
Usa-se acento agudo (´) para vogais abertas e grave (`) só em contracções com a ou o, ou seja, o acento grave só se usa em formas contraídas, em geral da preposição a com o artigo definido a (foi à porta, está à frente na sondagem) ou com um pronome demonstrativo começado por a (vai àquele sítio, seu presunçoso com mania que dá lições de português!!!).
Ficam aqui as minhas sinceras desculpas pelo lapso.

domingo, 24 de janeiro de 2010

O meu candidato a Presidente da República



Presidente da AMI
"A Pobreza em Portugal é uma vergonha"
Fernando Nobre quebrou o "politicamente correcto" que está a marcar o Congresso da Ordem dos Economistas. O presidente da AMI fez um discurso inflamado, provocando uma plateia cheia de economistas, que também são actuais e ex-responsáveis políticos, gestores e empresários, conseguiu palmas da plateia e introduziu um sentimento de urgência e indignação que, até esse momento, esteve ausente do debate.
Fernando Nobre, fundador e presidente da AMI, quebrou o politicamente correcto que marcou o debate de dois dias na 3º Congresso da Ordem dos Economistas sobre a Nova Ordem Económica. Nobre fez um discurso inflamado, provocando uma plateia cheia de economistas, que também são actuais e ex-responsáveis políticos, gestores e empresários, conseguiu palmas da plateia e introduziu um sentimento de urgência e indignação que, até esse momento, esteve ausente do debate. “É uma vergonha a pobreza que temos em Portugal”. “Não me falem com os problemas de aumento do salário mínimo. Quem é que aqui nesta sala consegue viver com 450 euros?”. “Não me venham com cirurgias plásticas para as mudanças que vão acontecer no mundo. Nós, os cidadãos não as vamos aceitar”, foram algumas das frases que deixou aos economistas presente. Nobre, que também é médico e professor, interveio num painel que abordou o papel das organizações não governamentais (ONG) na nova ordem económica mundial defendendo que além do seu papel no apoio à sociedade e de compensação por falhas dos governos, as ONG têm um papel essencial na denuncia de injustiças e desequilíbrios, e na pressão para que o mundo possa mudar. E foi isso mesmo que fez.
O presidente da AMI diz que “em Portugal é preciso redistribuir melhor a riqueza”, que “há dezenas, senão centenas de milhares de jovens a sair de Portugal porque perderam a esperança”. Inconformado, disse que “combater a pobreza é uma causa nacional”, e salientou: “Não me venham com os 18% de taxa de pobreza, porque se somássemos os que recebem o rendimento social de inserção, os que recebem o complemento solidário para idosos, os que recebem o subsídio disto, e o subsídio daquilo, temos uma pobreza estrutural no nosso país acima dos 40%”. “Não aceito esta vergonha no nosso país” O nível de desemprego, as baixas reformas, a precariedade dos contratos de trabalho foram outras áreas que lamentou. Os empresários também não foram poupados. “Quando vejo a CIP a defender que o salário mínimo não aumente não posso concordar. Que país queremos? Quantos de nós aqui conseguiriam viver com 450 euros por mês?”, perguntou à audiência, deixando depois um repto aos empresários: “Peço aos empresários para serem inovadores, abram-se ao mundo, sejam empreendedores”.
“É o momento de repensar que mundo queremos”, e recorrendo à frieza com que os médicos olham para a vida afirmou: “eu sei como vou morrer, sem como todos aqui vão morrer. E não é nessa altura, não é quando começarem a sentir a urina quente a correr pelas coxas, que vale a pena repensar a nova ordem económica mundial. È agora”. As futuras gerações não vão perdoar, diz. Sobre o estado das economias, salientou que não é economista, mas avisou para os riscos que pendem sobre as economias e que os economistas presentes não abordaram: o risco de um crash obrigacionista, a falência de fundos de pensões pelo mundo, os milhões investidos em produtos derivados. “Não é razão para cedermos a paranóias, mas é preciso questionar se as economias capitalistas estarão à altura do desafio”, disse, acrescentando: “É precisa prudência, bom senso e cuidados com os cantos da sereia”.
E voltando aos seus conhecimentos médicos terminou dizendo: “Perante uma hérnia estrangulada, um médico só pode fazer uma coisa: operar imediatamente. Ora a hérnia já está estrangulada [na ordem económica mundial]: nós temos que operar, temos de mudar as regras, os instrumentos. É preciso bom senso, acção, determinação política”, disse, avisando: “se não o fizermos as próximas gerações acusar-nos-ão, com razão, de não assistência a planeta em perigo”.
Rui Peres Jorge- Jornal de Negócios
rpjorge@negocios.PT

Pedro Mendonça

sábado, 23 de janeiro de 2010

Centenário da República


A nova Praça do Comércio é a principal obra que assinalará o centenário da República (o porquê ninguém sabe).
Será inaugurada em Maio pelo último monarca absolutista europeu e que ali realizará um comício ritualizado para a sua gente.
Somos Cidadãos, Não somos súbditos. Não deveria ser isto que deveríamos estar a comemorar?
Haja decoro...

Pedro Mendonça

BISBILHOTICES


Tenho uma estante preferida na FNAC, com biografias e ficção histórica baseada em factos reais.
Por esse prisma, concedo que sou um bisbilhoteiro, interessa-me a vida dos outros.
Uma das coisas mais interessantes é ler vários livros sobre a mesma criatura e ver como somos condicionados pelo biógrafo ou pelo escritor: diferentes autores dão-nos versões distintas, quando não antagónicas, das pessoas.

Agora aconteceu-me com a história de Joana a louca, que conhecia como uma lunática, rainha espanhola que nunca chegou a reinar - o trono passou da mãe Isabel a católica para o filho Carlos I.
A minha Joana é algo histérica, raramente trocava a roupa e tomava banho, mas era lúcida, teve consciência como foi manipulada pelo marido, pelo pai e pelo filho, enclausurada no castelo de Tordesilhas, isolada da sua nobreza e do seu povo – 46 anos de prisão domiciliária.

Acontecera-me o mesmo com Carlos o belo: ora um rei competente que aumentou a França, ora um fraco que foi usado para acabar com os templários.
Pano para mangas é a história das amantes de Luís XIV (Valliére, Montespan e Maintenon) ou de Luís XV (Pompadour e du Barry*): ora conhecemos uma meretriz interesseira e cínica, que se intrometia no Conselho de Estado, ou imaginamos uma mulher sofrida, amante da arte e dos ideais republicanos, que aconselhava o rei de forma sensata.
Depende do livro e da perspectiva do escritor.

Moral da história: particularmente em tempos menos documentados, a(quela)s criaturas são o que escreveram delas, são o que ficou registado e da perspectiva de quem o registou.
Somos o que dizem de nós, e nem todos dizem o mesmo: uma pessoa pode ser determinada para uns e obcecada para outros, prudente ou insegura, tímida ou antipática.
Até o maior sacana tem amigos que lhe reconhecem alguma virtude. E vice-versa.
Imaginem que robin dos bosques era conhecido pela pena do xerife de nothingham: um reles ladrão que seduzia donzelas.

* guilhotinada, as suas últimas palavras corajosas foram “por graça, senhor carrasco, só mais um momentinho”. Frase tão deliciosa como aquela (injustamente) atribuída a Maria Antonieta “o povo não tem pão? Comam brioches”.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

I REST MY CASE


Fui há 1 ano testemunha num processo onde aprendi coisas simples: o juiz acredita mais num mentiroso com o testemunho decorado e sem hesitações, que numa pessoa de boa-fé que revele indecisões de memória.
E o resultado depende mais da concentração, esperteza, conhecimento dos rodapés da lei e uso de manobras dilatórias dos causídicos, que da razão dos peticionários.
Tenho para mim que ganhou quem não tinha razão e quem jogou mais baixo, mas isso é outra história.

Hoje sonhei que fui novamente a tribunal, em torre de moncorvo.
A primeira ironia do meu sonho é que se chamava processo sumário ao julgamento de factos ocorridos há 5 anos. Caso: fulano tenta safar-se a coima relativa a 20 infracções funcionais e 15 alterações ao projecto aprovado, depois de ignorar ostensivamente notificações oficiais. Que sonho esquisito.

Primeiro a advogada do arguido pediu o adiamento da audiência, porque uma testemunha estava doente - indeferido.
Depois baseou a inquirição em levantar dúvidas com perguntas muito precisas sobre o que assitira há vários (do género, que tipo de balde era? e a cor?), em cortar respostas que prejudicavam o seu patrocinado (isso não interessa, não está no mesmo ponto ao auto, ainda que seja sobre o mesmo assunto) e, finalmente, nas vírgulas da acusação.

É isso, em tribunal não contam as acções, mas as pontuações. Não é justiça, é semântica.

A procuradora fez uma única pergunta (mantém o que escreveu?) e a juíza colocou outra questão, cuja resposta teve dificuldade em entender. Vá, compreendo, a meritísssima não é obrigada a conhecer o ramo.
Já na rua, a simpática advogada da defesa explicou-me que estava a correr bem, conseguira anteriormente anular metade da acusação e percebera que a juíza acolhera hoje a sua argumentação em mais 2 infracções (e não por serem mentira) e ainda ia conseguir anular mais outras, durante o processo, restando umas poucas que não tinham volta a dar; de todas as multas que a (muy rica) arguida pagou, a mais alta foi de 25€.
Cereja no topo do bolo, assegurou que quer a procuradora, quer a juíza, nem sequer tinham lido o processo.

Não sei como é que um sonho é tão detalhado, mas eu interrompera o meu trabalho e voara 90 km para assistir à chamada da escrivã às 14 horas. Fui chamado depois das 15 e, a meio da segunda inquirição – que acabou às 16 horas – a juíza decidiu marcar nova data para ouvir as 2 restantes testemunhas, porque “se calhar já não dava tempo”.
Depois acordei.

Vi há dias um programa da TVI notícias: F. José Viegas insurgia-se com os alertas meteorológicos quase diários, outro Francisco preferia com ironia alertas na justiça: “um alerta amarelo quando um processo esta parado 3 meses, alerta vermelho quando 1 processo está parado 6 meses, um gajo fuzilado num qualquer pátio quando o processo está parado 1 ano”.

sábado, 16 de janeiro de 2010

VAI PARA A TUA TERRA


Acabei de ler a entrevista do grande Mário Crespo, um conservador heterodoxo como eu não me importava de ser.
Gostei particularmente da parte onde relata a saída intempestiva do Ultramar e do seu “ainda hoje não gosto de bagunça”.
Identifiquei-me com a sua história, existe uma espécie de espírito de grupo.

Sou o que se chama um retornado.
Em miúdo ouvi muitas histórias de gente, como os meus pais (nativos de Angola) e avós, que tiveram que desarmar a tenda de repente: olha, pega na trouxa e desaparece. Deixas o emprego e a casa (com sorte, levas o recheio e o carro) e vai-te embora! Chegas a Lisboa, arranjam-te uma pensão e vais para a bicha da roupa e dos cobertores dados por uma coisa chamada IARN (instituto de apoio ao regresso de nacionais*). Ah, o dinheiro que levares não vale nada**!

Com pena minha, esqueci as histórias quase todas (lembro que o meu pai recusou um Alfa que um gajo com um stand ofereceu, não o conseguia trazer) e gosto de ler relatos como o desta entrevista.
Imaginam meio milhão de pessoas em migração/exílio – uma debandada, quando não uma fuga – expulsas da terra onde nasceram e mandadas para outro “clima” (em todos os sentidos), para uma terra que mal - ou sequer – conheciam? Esses não foram recambiados para a “metrópole”, porque nunca lá tinham estado.

A integração até foi bem sucedida e todos refizeram a vida, mas fica nuns a saudade, noutros um sentido de injustiça pelo corte quase epistemológico nas suas vidas - que eram boas, as pessoas eram felizes.
A maioria acha que a descolonização foi apressada e sem aviso, o poder vigente – marcadamente ideológico – não cumpriu o que prometeu à maralha e não acautelou o processo de passagem de poder. Mais, não só depôs armas, como ainda apoiou movimentos de libertação em detrimento de outros. Houve um sentido de abandono.
Tudo isso burilado explica o asco da maioria deles por Mário Soares, julgo que então ministro dos negócios estrangeiros, a quem se atribuem responsabilidades.
E explica que o CDS tenha subido dos 7 para uns míticos 16% em 76. Como bom chefe-de-família, o meu pai disse à minha mãe "tú vais votar neste", motivo suficiente para ela se tornar eleitora do PSD...

Acontece ainda que os retornados era muita gente (por defeito, 6% da população nacional e 11% em Bragança), com camaradagem e iniciativa, mais desempoeirada - porque mais longe da saia de Salazar - e nem sempre foi bem recebida pelos portugueses de primeira, que ou os achavam exploradores de pretos, ou achavam que vinham partilhar o bolo.

Vim de lá com quase 4 anos, não me lembro de nada e, por isso, não tenho nostalgias. Essa parte da história familiar raramente me ocupa a cabeça.
Sempre que o faço, lembro-me dum "caro colega" (termo algo usado na minha classe profissional) que, na brincadeira, nos chamava portugueses de segunda.
Não levava a mal. Não tenho qualquer ressentimento ou vergonha, apenas muito respeito por quem, com a minha idade, teve que começar tudo de novo, assim-num-repente. É coisa que me ia custar...
Como disse uma vez Marques Leandro (ex-secretário de Estado), essa gente substituiu o estigma de retornado em título de que muito se orgulham.

Não posso acabar sem declarar que eu sou a favor das independências dos “países-irmãos”. Sem hesitação alguma.

* Com Director, subdirector e 3 vogais e um conselho consultivo com uns 10 vogais. Agora a graça é que não eram pagos - eram outros tempos, onde é que isso se via agora?
** Lembro-me dum molho de notas angolanas, que ainda existe algures guardado. Simplesmente, dum dia para o outro, perderam o valor comercial.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

LÁ ISSO...

90 pessoas com H1N1 e todos devem usar máscara;

5 milhões de pessoas com HIV e ninguém é obrigado a usar camisinha;

1000 pessoas morrem de gripe num país rico, é uma pandemia;

morrem aos milhões de paludismo em África, é problema deles.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

FORÇA MURAL









António Saraiva é o novo presidente da CIP. Que há de especial com o novo patrão dos patrões?
Começou como sindicalista na Lisnave.
Helena André é Ministra do trabalho. Que há de especial? Entrou para a UGT em 1981, trabalhando como sindicalista (vá, burocrata sindical) até ser convidada para a pasta.
Vivia agora em Bruxelas, era A secretária geral adjunta da confederação europeia de sindicatos - portanto, a vice-patroa dos trabalhadores.
Como diria a Ferreira Leite, convidou-se a raposa para o galinheiro.
Conclusão, adivinham-se momentos gloriosos para a massa trabalhadora. Ou não?

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

SECTOR PARTICULAR


Quando não uso o meu carro para trabalhar, dá-se o caso de conduzir alguns carros da empresa.
De quando em vez tenho a graça de conduzir uma R4 que já havia quando cheguei há 15 anos.

Usada há 330.000 km por dezenas de pessoas*, está vai-para-3 anos desactualizada com um logótipo do anterior proprietário.

A borracha duma janela criou um ‘cadinho de musgo e o ponteiro do velocímetro está incompleto e enferrujado, assim como um fósforo consumido.

Sinal de improviso, um auto-rádio foi colado ao tablier, mas não funciona, e o espelho retrovisor interior já foi portátil (vulto solto) e usava-se com a mão disponível.

Por fim, a porta não é estanque a influências exteriores, no caso climatéricas. Admito, as R4 não têm portas estanques de série, já tive uma.

Podia dizer que a minha alva viatura é a cara do ESTADO. Mas não digo, não vá alguém chamar-me mal-agradecido de novo.

* Pergunta teórica: conhecem alguma empresa onde uma carrinha tenha andado 90 km (a somar a 10€ de ajudas de custo do funcionários) até à oficina contratada, para mudar o óleo? Inércia, é a minha explicação.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

CITANDO WOODY ALLEN

A realidade é uma merda, mas ainda é o único lugar onde se pode comer um bom bife.

A vocação de um político de carreira é fazer de cada solução um problema.

O meu pai trabalhou na mesma empresa durante doze anos, foi demitido e substituído por uma maquininha deste tamanho, que faz tudo o que o meu pai fazia, só que muito melhor. O deprimente é que minha mãe também comprou uma igual.

As minhas notas na escola variaram de abaixo da média a abaixo de zero. Fui reprovado no exame de Metafísica: o professor acusou-me de estar a olhar para a alma do rapaz sentado ao meu lado.


Só existem 2 coisas importantes na vida: a primeira é o sexo, a segunda não me lembro.

Separei-me de minha mulher porque ela era terrívelmente infantil. Uma vez, eu estava a tomar banho na banheira, e ela afundou todos os meus barquinhos sem nenhum motivo aparente.

Eu e minha mulher ficamos na dúvida entre tirar férias ou nos divorciarmos. Optámos pela segunda hipótese: 2 semanas nas Caraíbas podem ser divertidas, mas um divórcio dura para sempre.

Faço análise há trinta anos e a única frase inteligente que já ouvi do meu analista é a de que preciso de tratamento.

Todas as minhas tentativas de suicídio foram um fiasco, passava a vida a abrir as janelas e fechar o gás.

O homem explora o homem e por vezes é o contrário.

O dinheiro é melhor do que a pobreza, ainda que apenas por razões financeiras.

Noventa por cento do sucesso baseia-se simplesmente em insistir.

Tradição é a ilusão da permanência.


E se tudo for uma ilusão e nada existir? Nesse caso, não há dúvida de que paguei demais por aquela carpete nova.

Deus é ateu, porque não acredita num ser superior.

Deus não existe e, se existe, não é muito confiável.

É agradável, de tempos em tempos, tentar imaginar o que teria sido a existência se Deus tivesse conseguido um orçamento e guionista melhores.


Eu detestava concluir que, sem Deus, a vida não teria sentido e, depois de dar um tiro nos miolos, ler no jornal no dia seguinte que Ele foi encontrado.

Para você eu sou um ateu; para Deus, sou a Oposição Leal.

Se realmente Deus existe, não creio que ele seja mau. Mas o mínimo que se pode dizer é que Ele obteve péssimos resultados.

Não é que eu tenha medo de morrer. É que eu não quero estar lá na hora que isso acontecer.

Interessa-me o futuro porque é o sítio onde vou viver o resto da vida.

Não quero atingir a imortalidade com meu trabalho, quero atingi-la não morrendo.