...e depois, com bigodes de leite, pedem mais paciência e esforço ao povo, que a "vaca 'tá seca".

sábado, 16 de janeiro de 2010

VAI PARA A TUA TERRA


Acabei de ler a entrevista do grande Mário Crespo, um conservador heterodoxo como eu não me importava de ser.
Gostei particularmente da parte onde relata a saída intempestiva do Ultramar e do seu “ainda hoje não gosto de bagunça”.
Identifiquei-me com a sua história, existe uma espécie de espírito de grupo.

Sou o que se chama um retornado.
Em miúdo ouvi muitas histórias de gente, como os meus pais (nativos de Angola) e avós, que tiveram que desarmar a tenda de repente: olha, pega na trouxa e desaparece. Deixas o emprego e a casa (com sorte, levas o recheio e o carro) e vai-te embora! Chegas a Lisboa, arranjam-te uma pensão e vais para a bicha da roupa e dos cobertores dados por uma coisa chamada IARN (instituto de apoio ao regresso de nacionais*). Ah, o dinheiro que levares não vale nada**!

Com pena minha, esqueci as histórias quase todas (lembro que o meu pai recusou um Alfa que um gajo com um stand ofereceu, não o conseguia trazer) e gosto de ler relatos como o desta entrevista.
Imaginam meio milhão de pessoas em migração/exílio – uma debandada, quando não uma fuga – expulsas da terra onde nasceram e mandadas para outro “clima” (em todos os sentidos), para uma terra que mal - ou sequer – conheciam? Esses não foram recambiados para a “metrópole”, porque nunca lá tinham estado.

A integração até foi bem sucedida e todos refizeram a vida, mas fica nuns a saudade, noutros um sentido de injustiça pelo corte quase epistemológico nas suas vidas - que eram boas, as pessoas eram felizes.
A maioria acha que a descolonização foi apressada e sem aviso, o poder vigente – marcadamente ideológico – não cumpriu o que prometeu à maralha e não acautelou o processo de passagem de poder. Mais, não só depôs armas, como ainda apoiou movimentos de libertação em detrimento de outros. Houve um sentido de abandono.
Tudo isso burilado explica o asco da maioria deles por Mário Soares, julgo que então ministro dos negócios estrangeiros, a quem se atribuem responsabilidades.
E explica que o CDS tenha subido dos 7 para uns míticos 16% em 76. Como bom chefe-de-família, o meu pai disse à minha mãe "tú vais votar neste", motivo suficiente para ela se tornar eleitora do PSD...

Acontece ainda que os retornados era muita gente (por defeito, 6% da população nacional e 11% em Bragança), com camaradagem e iniciativa, mais desempoeirada - porque mais longe da saia de Salazar - e nem sempre foi bem recebida pelos portugueses de primeira, que ou os achavam exploradores de pretos, ou achavam que vinham partilhar o bolo.

Vim de lá com quase 4 anos, não me lembro de nada e, por isso, não tenho nostalgias. Essa parte da história familiar raramente me ocupa a cabeça.
Sempre que o faço, lembro-me dum "caro colega" (termo algo usado na minha classe profissional) que, na brincadeira, nos chamava portugueses de segunda.
Não levava a mal. Não tenho qualquer ressentimento ou vergonha, apenas muito respeito por quem, com a minha idade, teve que começar tudo de novo, assim-num-repente. É coisa que me ia custar...
Como disse uma vez Marques Leandro (ex-secretário de Estado), essa gente substituiu o estigma de retornado em título de que muito se orgulham.

Não posso acabar sem declarar que eu sou a favor das independências dos “países-irmãos”. Sem hesitação alguma.

* Com Director, subdirector e 3 vogais e um conselho consultivo com uns 10 vogais. Agora a graça é que não eram pagos - eram outros tempos, onde é que isso se via agora?
** Lembro-me dum molho de notas angolanas, que ainda existe algures guardado. Simplesmente, dum dia para o outro, perderam o valor comercial.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

LÁ ISSO...

90 pessoas com H1N1 e todos devem usar máscara;

5 milhões de pessoas com HIV e ninguém é obrigado a usar camisinha;

1000 pessoas morrem de gripe num país rico, é uma pandemia;

morrem aos milhões de paludismo em África, é problema deles.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

FORÇA MURAL









António Saraiva é o novo presidente da CIP. Que há de especial com o novo patrão dos patrões?
Começou como sindicalista na Lisnave.
Helena André é Ministra do trabalho. Que há de especial? Entrou para a UGT em 1981, trabalhando como sindicalista (vá, burocrata sindical) até ser convidada para a pasta.
Vivia agora em Bruxelas, era A secretária geral adjunta da confederação europeia de sindicatos - portanto, a vice-patroa dos trabalhadores.
Como diria a Ferreira Leite, convidou-se a raposa para o galinheiro.
Conclusão, adivinham-se momentos gloriosos para a massa trabalhadora. Ou não?

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

SECTOR PARTICULAR


Quando não uso o meu carro para trabalhar, dá-se o caso de conduzir alguns carros da empresa.
De quando em vez tenho a graça de conduzir uma R4 que já havia quando cheguei há 15 anos.

Usada há 330.000 km por dezenas de pessoas*, está vai-para-3 anos desactualizada com um logótipo do anterior proprietário.

A borracha duma janela criou um ‘cadinho de musgo e o ponteiro do velocímetro está incompleto e enferrujado, assim como um fósforo consumido.

Sinal de improviso, um auto-rádio foi colado ao tablier, mas não funciona, e o espelho retrovisor interior já foi portátil (vulto solto) e usava-se com a mão disponível.

Por fim, a porta não é estanque a influências exteriores, no caso climatéricas. Admito, as R4 não têm portas estanques de série, já tive uma.

Podia dizer que a minha alva viatura é a cara do ESTADO. Mas não digo, não vá alguém chamar-me mal-agradecido de novo.

* Pergunta teórica: conhecem alguma empresa onde uma carrinha tenha andado 90 km (a somar a 10€ de ajudas de custo do funcionários) até à oficina contratada, para mudar o óleo? Inércia, é a minha explicação.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

CITANDO WOODY ALLEN

A realidade é uma merda, mas ainda é o único lugar onde se pode comer um bom bife.

A vocação de um político de carreira é fazer de cada solução um problema.

O meu pai trabalhou na mesma empresa durante doze anos, foi demitido e substituído por uma maquininha deste tamanho, que faz tudo o que o meu pai fazia, só que muito melhor. O deprimente é que minha mãe também comprou uma igual.

As minhas notas na escola variaram de abaixo da média a abaixo de zero. Fui reprovado no exame de Metafísica: o professor acusou-me de estar a olhar para a alma do rapaz sentado ao meu lado.


Só existem 2 coisas importantes na vida: a primeira é o sexo, a segunda não me lembro.

Separei-me de minha mulher porque ela era terrívelmente infantil. Uma vez, eu estava a tomar banho na banheira, e ela afundou todos os meus barquinhos sem nenhum motivo aparente.

Eu e minha mulher ficamos na dúvida entre tirar férias ou nos divorciarmos. Optámos pela segunda hipótese: 2 semanas nas Caraíbas podem ser divertidas, mas um divórcio dura para sempre.

Faço análise há trinta anos e a única frase inteligente que já ouvi do meu analista é a de que preciso de tratamento.

Todas as minhas tentativas de suicídio foram um fiasco, passava a vida a abrir as janelas e fechar o gás.

O homem explora o homem e por vezes é o contrário.

O dinheiro é melhor do que a pobreza, ainda que apenas por razões financeiras.

Noventa por cento do sucesso baseia-se simplesmente em insistir.

Tradição é a ilusão da permanência.


E se tudo for uma ilusão e nada existir? Nesse caso, não há dúvida de que paguei demais por aquela carpete nova.

Deus é ateu, porque não acredita num ser superior.

Deus não existe e, se existe, não é muito confiável.

É agradável, de tempos em tempos, tentar imaginar o que teria sido a existência se Deus tivesse conseguido um orçamento e guionista melhores.


Eu detestava concluir que, sem Deus, a vida não teria sentido e, depois de dar um tiro nos miolos, ler no jornal no dia seguinte que Ele foi encontrado.

Para você eu sou um ateu; para Deus, sou a Oposição Leal.

Se realmente Deus existe, não creio que ele seja mau. Mas o mínimo que se pode dizer é que Ele obteve péssimos resultados.

Não é que eu tenha medo de morrer. É que eu não quero estar lá na hora que isso acontecer.

Interessa-me o futuro porque é o sítio onde vou viver o resto da vida.

Não quero atingir a imortalidade com meu trabalho, quero atingi-la não morrendo.

sábado, 9 de janeiro de 2010

O AVÔ* DE PACHECO PEREIRA MATOU INÊS DE CASTRO


D. Pedro casou aos 8 anos (1328) com Branca de Castela, mas repudiou-a um ano mais tarde, por debilidade física e mental.
Pedro casou de novo em 1339 com Constança Manuel, neta do Afonso X de Castela. Com a nubente veio uma aia galega chamada Inês de Castro, filha bastarda dum neto bastardo de Sancho IV (e que crescera junto de Pedro) e da amante portuguesa Aldonça de Valadares.
Para complicar, Inês tratava por mãe a mulher dum filho bastardo de D. Dinis e que o meio-irmão Afonso IV odiava.

Pedro apaixonou-se pela aia da mulher, e pelo seu colo de garça. O pai, Afonso IV, exilou Inês para a fronteira espanhola, e iniciou uma contenda com o filho, que durou anos.
Morta Constança no parto de Fernando, Pedro recusou casar de novo, alegando “sentir ainda muito a perda da mulher”, tentando encontrar consolo: Inês foi viver para sua casa – no norte e depois no Paço de Coimbra, destinado pela Rainha Santa aos reis, descendentes e esposas legítimas - e tiveram 4 filhos… Os passarinhos passeavam na agora quinta das lágrimas, onde José Miguel Júdice tem um (afianço-vos) fantástico hotel de charme.

Os irmãos de Inês tinham grande ascendente sobre Pedro e conseguiram convencê-lo dos direitos ao trono castelhano, o que foi sensatamente travado pelo pai.
O rei ouviu ainda dizer que os irmãos Castro queriam matar Fernando e tornar herdeiro um filho natural (chamavam-lhe assim, termo mais neutro que ilegítimo, pois quase todos os reis tinham uns) de Pedro. A 7 de Janeiro de 1355, o rei cedeu à corte e ao povo, e mandou Pêro Coelho, Álvaro Gonçalves e Diogo Lopes Pacheco degolar Inês.

Já rei, Pedro I legitimou os filhos, afirmando que se casara em segredo com Inês “em dia que não se lembrava”. Dois carrascos de Inês foram trazidos de Castela, à troca de 4 fidalgos castelhanos espanhóis, e executados em Santarém (a lenda diz que Pedro comia enquanto via arrancarem-lhes o coração); Pacheco foi perdoado por D. Fernando, exilou-se em oposição do casamento do rei com Leonor Teles (lá teria a sua razão), ofereceu-se ao rei de Castela contra Portugal, regressando ao país após o tratado de paz.
É lenda que Pedro tenha exumado o corpo de Inês, coroando-a rainha e obrigando a corte a beijar-lhe a mão descarnada. Os túmulos de Pedro e Inês estão em Alcobaça, frente-a-frente, para que possam olhar-se quando despertarem no dia do juízo final.

A mesma história, 2 versões: um grande amor ou simples adultério, um pai severo ou sensato em assegurar o trono para o neto legítimo e um filho ingénuo e com más companhias, justiça ou vingança. Pedro ganhou vários cognomes, entre eles o cruel e o justiceiro. Qual deles o certo?

Adenda: Fernando foi o último rei da dinastia de Borgonha, sendo sucedido, não por um filho de Inês, mas pelo filho de Pedro com a amante Teresa Lourenço, João Mestre de Avis. Ora toma.
* Sim, o Pacheco Pereira é descendente do carrasco de Inês

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

RÉPLICA

O Mário Viegas faz parte da minha trindade de diseurs portugueses do século XX: o próprio, João Villaret e Ary dos Santos.
O Luís traz Viegas, eu trago Villaret e Ary, mas não o que queria: o menino de sua mãe de Fernando Pessoa dito por Villaret foi agora retirado do youtube e não consegui encontrar na net o grande "poeta castrado não" dito pelo seu autor Ary, fica o fado falado e uma declamação inflamada no prec.
A net tem quase tudo.





Serei tudo o que disserem
por inveja ou negação:
cabeçudo dromedário
fogueira de exibição
teorema corolário
poema de mão em mão
lãzudo publicitário
malabarista cabrão.
Serei tudo o que disserem:
Poeta castrado não!

Os que entendem como eu
as linhas com que me escrevo
reconhecem o que é meu
em tudo quanto lhes devo:
ternura como já disse
sempre que faço um poema;
saudade que se partisse
me alagaria de pena;
e também uma alegria
uma coragem serena
em renegar a poesia
quando ela nos envenena.

Os que entendem como eu
a força que tem um verso
reconhecem o que é seu
quando lhes mostro o reverso:


Da fome já não se fala
é tão vulgar que nos cansa
mas que dizer de uma bala
num esqueleto de criança?

Do frio não reza a história
a morte é branda e letal
mas que dizer da memória
de uma bomba de napalm?

E o resto que pode ser
o poema dia a dia?
Um bisturi a crescer
nas coxas de uma judia;
um filho que vai nascer
parido por asfixia?!
Ah não me venham dizer
que é fonética a poesia!

Serei tudo o que disserem
por temor ou negação:
Demagogo mau profeta
falso médico ladrão
prostituta proxeneta
espoleta televisão.
Serei tudo o que disserem:
Poeta castrado não!

Ary dos Santos

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

SEEEMPRE COCA-COLAAA...

Entre as marcas mais (re)conhecidas do mundo estão os gigantes da informática (Google, IBM, Apple e Microsoft), a Nokia e a China Mobile (por razões demográficas), a GE, a Nike e a Adidas, a McDonald, a Nestlè e a Coca-cola. De todas, só as 2 últimas são antigas.
A Coca-cola floresceu com 2 receitas.
A primeira é a do tónico para os nervos do farmacêutico Pemberton, de 1886 - primeiro com noz-de-cola e cocaína, desde 1915 com noz-de-cola e cafeína. Nos primeiros 8 meses, a venda na farmácia do Jacob da Pemberton’s french wine coca (o nome do refresco) resumia-se a 9 copos/dia.
A segunda receita é a publicidade agressiva, com publicidade no jornal desde o início, o desenho esquisito da garrafa, a promoção do pai natal desde 1932, fábricas-móveis na frente de batalha da 2ª GM, oferta de produto e entrega de prémios, a publicidade que fica na memória. Resultado, vendem-se 40000 coca-colas/segundo, nos EUA, e vendem-se em mais 140 países.
A publicidade é profusa e frequente, tornando-a campeã de vendas - mesmo que as pessoas prefiram a Pepsi nos testes cegos - e explora a imagem de frescura, de alegria de viver. Volta-não-volta, mandam-me anúncios da coca-cola, que nem chegam à TV, devem ser experiências. No último, conseguiram juntar a gasosa a “Pedro e o Lobo” de Prokofiev (3º vídeo). Quimaisirácontecê?







terça-feira, 5 de janeiro de 2010

VÊ-SE MESMO QUE ÉS VIRGEM


Em cada Janeiro, os quiosques são inundados com revistas de horóscopos.
Não vejo horóscopos desde a década de 80, quando em todas as casas havia uma TVguia (para saber o que dava nos dois canais) e desconheço se quarta é um bom dia para fazer negócios e se quinta será propícia para cefaleias.
Afinal, porque razão os Sagitários haverão de ter joanetes em Outubro, mês onde terão “possibilidades de novos negócios”? Tre-ta.

Não perco um minuto a ver os signos nessas revistas. Simplesmente, se formos 7 biliões, não é possível que um/doze avos, i.e., quase 600 milhões de pessoas sejam parecidos.
Imaginem 2 pessoas que nascem no mesmo minuto, filhos do Jardim Gonçalves e dum agricultor nepalês - por terem a mesma carta astral ou as mesmas influências de Neptuno sobre Urano (se isso for possível, que não percebo do assunto), os fulanos vão ter um feitio igual, ou vão ter um acidente aos 13 anos, ou vão encontrar a cara-metade no em Julho de 2017?

Tá bem, os carneiros (que conheço) são todos teimosos, mas são teimosos porque nasceram em Abril?
Ah e tal, existem os ascendentes, existe o livre arbrítrio... assim estão explicadas as falhas de previsão e a diversidade de cada um. Tenham pachorra.
E já repararam que as listas de atributos dos signos são maioritariamente positivos? E há muitos atributos, alguns acertam mesmo.
Só me escapa como é que os Sagitários conseguem ser “hipócritas” e bonitos por dentro”, ao mesmo tempo.

Pá, lá por ter nascido em Setembro, não tenho que ser “conservador e pessimista, argumentativo, com horror ao caos, prático, terra-a-terra, pragmático e exigente”. Por acaso é verdade. Repito, por acaso.

E depois há outros zodíacos, onde já não interessa o mês, mas o ano. Há quem faça combinações e aproveite para chamar um gajo de porco virgem.

E eu não quero entrar na leitura das linhas das mãos ou em tarot, onde o futuro depende do sítio onde partimos o baralho. Isso dava pano para mangas.

domingo, 3 de janeiro de 2010

O TIRO PELA CULATRA


D. MANUEL foi o rei dos impossíveis. Não estava calhado para reinar, não fosse Afonso, o único filho do príncipe perfeito D. João II, ter caído do cavalo em Almeirim e morrido (é das únicas cenas que me lembro de “Non ou a vanglória de mandar” de Oliveira, a par duma conversa entre militares, num camião no Ultramar, com o Manuel Guilherme).
Morto D. João II, o primo-direito/cunhado Manuel chega ao trono no apogeu da ciência náutica portuguesa, com a chegada à Índia e ao Brasil.

Mas ele quis mais, quis Espanha*. Viu a oportunidade quando morreu o único varão dos Reis Católicos.
Vai daí, casou com Isabel, viúva do tal Afonso e filha mais velha da (prima-direita) Isabel a Católica: a mulher morreu de parto, mas o filho Miguel da Paz foi jurado herdeiro de Castela, Leão, Aragão e Portugal. Azar, morreu aos 2 anos.
Esteve quase.
Manuel insistiu e casou com a cunhada/prima Maria, que lhe deu novo herdeiro (João III), mas só de Portugal.
Morta Maria, Manuel casou com Leonor, sobrinha da falecida e filha de Joana a Louca, então herdeira de Espanha: como a noiva já estava prometida a seu filho (também o inglês Henrique VII quis casar com a nora viúva e Filipe II de Espanha roubou a noiva ao filho), o infante teve que casar com a irmã da nova madrasta, Catarina da Áustria.

Manuel teve 11 filhos, suficiente para manter a coroa independente. O filho João III deu-lhe 8 netos, 5 morreram crianças, 1 não sei o destino, sobrou Maria e João, que morreu novo sem reinar e deixou um filho. Esse bisneto de Manuel chamava-se Sebastião e morreu (?) em Alcácer-Quibir… só com uma tia paterna, casada com um Habsburgo.
A mistura com Espanha foi tão forçada que apareceu o pretendente Filipe II, neto, sobrinho e sobrinho-neto de Manuel, genro e sobrinho (pela mãe e pelo pai) de João III, tio materno e por afinidade de Sebastião. Entregou-se o ouro ao bandido.

Mas e se Miguel da Paz crescesse e viesse a reinar? Havia uma cláusula que garantia que os cargos nacionais permaneciam em mãos de portugueses, mas não acabaríamos todos espanhóis?

* Houve anos antes uma tentativa menos diplomática de anexar Castela. O pai de João II, Afonso V, casara com a sobrinha Joana a Beltraneja, herdeira de Castela, e lutara pelo seu trono. Mas Isabel a Católica fez-se coroar em Segóvia, alegando que o falecido meio-irmão (Henrique IV) era impotente e que a sobrinha Joana era filha da cunhada adúltera Joana de Portugal e do cortesão D. Beltrão.

sábado, 2 de janeiro de 2010

2009

A Imagem do Ano:
Bernard Madoff condenado a 150 anos de Prisão. A sua imagem representa a fraude e a exploração levada a cabo pelo até aqui "imbatível" capitalismo americano que supostamente nos levaria à felicidade final.
A Frase do ano:
Maria José Nogueira Pinto - "Dar aos idosos 80 euros é um ultraje e um insulto porque eles, diabéticos, vão beber cerveja e comer doces e serão roubados pelos filhos" Sem palavras...
O Acontecimento Nacional do Ano:
Aprovação em Conselho de Ministros do alargamento do Direito de todos os Cidadãos à figura jurídica do Casamento. Apesar de ainda não ser a plenitude de Direitos para todos, é um passo para uma sociedade mais livre e igual perante a lei.
Personalidade Nacional do Ano:
Ricardo Araújo Pereira
Pelas crónicas na Visão e pelo Programa "Esmiúçam os Sufrágios", demonstra definitivamente que é o grande comediante português sem deixar de lutar pela Liberdade, Igualdade e Fraternidade.
Acontecimento Internacional do Ano:
Pirataria na Costa da Somália. Terrível mas não deixo de sorrir ao ver que que as figuras românticas da minha infância sobrevivam e se adaptam à voragem tecnológica do novo século/milénio.
Personalidade Internacional do Ano (Ex aequo):
Neda Soltan - Jovem iraniana assassinada pela Ditadura Iraniana quando participava em manifestações a solicitar Democracia e Verdade Eleitoral.
Aminatu Haidar - activista em prol da República Árabe Saaráui Democrática e dos direitos humanos que conseguiu através de uma heroica greve de fome, regressar ao seu país.

Pedro Mendonça

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

ANO NOVO, VIDA NOVA


"A cidade está calma. Está sempre, no dia de ano novo. Não Apenas devido à ressaca colectiva que se segue aos festejos da noite anterior, mas também devido à consciencialização colectiva, à luz crua do dia, de que o mundo é exactamente o mesmo que era doze horas antes. O ano novo é festejado com o optimismo cego de que os doze meses que se seguem serão melhores do que os que acabaram de passar, mas no fundo sabe-se que o momento arbitrário que marca o início de um novo ano não é o começo de nada. É apenas um ponto no tempo como outro qualquer. A fracção se segundo em que se diz “sim”, ou na qual o nosso primeiro filho vem ao mundo, ou em que um ser amado exala o último suspiro: são esses os momentos que mudam as nossas vidas, não as badaladas d(um)a meia-noite."
Boris Starling em Messias

Há pessoas com o dom de passar ao papel exactamente o que todos sabemos.

Bem, além de pormos o contador a zero e criarmos expectativas inócuas, a passagem de ano é sempre ocasião para uma opípara jantarada e um feriado a seguir. Nada mau.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

ANO VELHO, FLASBACK


É difícil fazer escolhas do ano de cabeça: sem jornais por perto, corre-se o risco de eleger como importante o que aconteceu no último trimestre. De qualquer forma, parece que não é um ano que se lembre daqui a 20 anos. Assim de repente:

Imagem do ano: ver acima os corninhos de Manuel Pinho:

Frase do ano: Em Portugal, rouba quem pode; o país não tem dimensão para se roubar tanto (Pedro Ferraz da Costa).
Alternativa, Rangel tem que comer muita papa maizena para chegar aos calcanhares de Basílio Horta (Pinho)

Acontecimento Nacional do ano: as 3 eleições, em que quase tudo ficou na mesma, tirando uma maioria absoluta que engelhou.

Personalidade Nacional do ano: José Sócrates, enredado na luta com os profs e em casos sucessivos - Freeport, TVI, Lopes da Costa, escutas.
Alternativa, Pinho por ter descoberto o fim da crise no olho no furacão.
Menção honrosa para Oliveira Martins do Tribunal de Contas, por vetar em catadupa negócios do Estado, falta saber é para que servem os vetos.

Acontecimento Internacional do ano: as eleições fraudulentas no Irão pré-nuclear, que espoletaram uma revolta popular crescente, por enquanto reprimida à força da bala e do cacete.
Alternativa, Venezuela de Chaves compra computadores a LinoPino.

Personalidade Internacional do ano: com uma volta de avanço, é Obama, o primeiro negro eleito nos EUA – Nobel da Paz mais pela promessa que por acções, foi a Estocolmo justificar a guerra justa. Julgo que foi Erasmo de Roterdão que disse que mais vale uma paz injusta que uma guerra justa, mas enfim.

E vocês, o que escolhiam?

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

ANO NOVO: INFORMAÇÃO QUE NÃO INTERESSA A NINGUÉM


Estamos a acabar o ano de 2009, mas nem todos. Outros há que vão mais ou menos avançados na contagem, ou celebram o novo ano noutra altura:
Calendário Chinês: o calendário é lunar e o ano dura 354 dias (a cada 8 anos acrescentam-se 90 dias) e cada ano começa com uma lua nova, entre 21/1 e 20/2.
Para baralhar, há ainda o ciclo dos 5 elementos (ouro, madeira, água, fogo e terra) que combina com o ciclo binário (anos pares yang, anos ímpares Yin), perfazendo 10 anos, e com o ciclo animal de 12 anos, num total de 60 anos (o actual começou em 1984 com Rato de Madeira e acabará no ano Porco da Água).
Calendário Maia (ainda utilizado em algumas regiões): usa ciclos de 260 dias (tzolkin, que inclui 20 trezenas de 13 dias) e anos de 365 dias (haab, que inclui 18 vintenas de 20 dias e mais 5 dias sem nome, agoirentos, quando as pessoas não saíam de casa, nem lavavam ou penteavam o cabelo). Cada dia dos 2 calendários tem um nome e a cada 52 haab correspondiam a 73 tzolkin, perfazendo uma roda calendárica ou século – o people nunca sabia se o mundo acabava no final de cada roda ou se começava outra. ´
Mas os gajos ainda tinham a “contagem longa” a partir dum dia mítico, no ano 3114 a.c., e a contagem lunar. Uma confusão.
Ah, o calendário maia acaba a 21/12/2012, considerado o fim dos tempos: alguns cientistas apocalípticos prevêem nesse dia um alinhamento da terra com o sol e o centro da via láctea, onde há um buraco negro supermassivo, blábláblá...
Calendário Judeu: o ano dura geralmente 354 dias e acerta através de 7 anos bissextos com um mês extra, a cada 19 anos (há anos defeituosos de 353 dias, regulares de 354 dias e abundantes de 383 dias).
O calendário começou com “a criação do mundo” a 7/10/3760 a.c. Vão no ano de 5769 e estamos no mês de Tevet (os 12 ou 13 meses estão desencontrados com os nossos).
Calendário Juliano: até 46a.c., o ano tinha 10 meses e começava em Março (daí Setembro ser o sétimo mês, e por aí fora). Júlio César introduziu nesse ano 2 meses, Novembro e Dezembro, empurrando Janeiro (dedicado a Jano, Deus das portas, passagens, inícios e fins) e Fevereiro para o ano seguinte (45 a.c. ou 708 da era romana).
Augusto (em 8 d.c., embora ele não soubesse) impôs um ano bissexto a cada 4 anos, aproximando o calendário das estações do ano – é o calendário actual.
Calendário Gregoriano: em 1582, o Papa Gregório afinou o calendário Juliano, fez sumir 10 dias e fixou o início do ano a 1 de Janeiro. As novas regras foram adoptadas primeiro pelos obedientes países católicos e só mais tarde pelos outros (Alemanha em 1700, Inglaterra em 1751 pela Inglaterra, China em 1912, Rússia em 1918, Grécia em 1913).
Uma explicação do dia das mentiras: o rei de França declarou em 1584 o 1/1 como o início do ano, mas alguns franceses ainda comemoravam a data antiga: o ano acabava a 25 de Março, quando chegava a primavera, e as festas demoravam até 1 de Abril – os brincalhões convidavam os resistentes à mudança para festas nesse dia, festas que não existiam.
Calendário muçulmano: começa com a hégira, a fuga de Maomé de Meca para Medina, a 6/7/622 d.c.. Como o ano tem menos 11 dias que o nosso, hão-de nos apanhar. Cada ano começa a 1 de Muharram, e o nosso próximo 1 de Janeiro será 15 de Muharram de 1431 para os islâmicos.
Eu cá acho o nosso calendário mai’ simples. E toda a gente o conhece.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

O FUTURO É DAQUI A NADA


A avó da minha mulher identificava cada cataclismo, assalto violento, crime sexual e “avanço civilizacional” como sinais do fim do mundo.
Este planeta não é eterno, mas espero que o ocaso ainda demore. É que já me habituei à ideia de que vou morrer novo, aos 109 anos, ainda com 2 ou 3 órgãos originais e acabamentos de titânio, depois de nadar 3 km e a dormitar numa praia em Porto Santo – exílio da resistência* ao faxismo (regime onde a licenciatura é tirada por fax) instaurado pelo velho ditador beirão José Sócrates, nessa altura hospitalizado após queda duma segway.
E claro, morro depois de deixar parte dos meus milhões à Casa do Funcionário Público (imaginam, haverá reformas, de sobrevivência, entre os 85 e os 95 anos).

Não pirei, é mesmo aí que quero chegar: tirando a parte de eu fazer desporto, TUDO É POSSÍVEL, a ciência ultrapassa a imaginação (de gente pouco criativa, como eu, pelo menos).
Vejamos alguns avanços no entretenimento, ambiente e medicina, em 2009 (cortesia da Visão, 26/11/09):
1. A nova consola Microsoft não tem comando e interpreta os movimentos e voz, através de câmaras e microfone (a personagem copia-nos).
2. A lâmpada LED Philips de 10W, equivalente à lâmpada comum de 60W e com duração de 25.000 horas, permite poupar biliões de euros anualmente.
3. As telhas solares da Dow Chemical são 10-15% mais baratas que os painéis e são fáceis de aplicar (faça você mesmo).
4. A digitação de mensagens apenas com o pensamento (vá, com ajuda dum capacete que detecta alterações da actividade cerebral, quando o cientista da U. Wisconsin se concentra num letra a piscar no ecran) perspectiva a comunicação para pessoas com paralisia quase total.
5. Um processador do MIT, implantado no globo ocular de cegos, recebe imagens de óculos com uma câmara e transmite ao cérebro, permitindo a recuperação parcial da visão.
6. A prótese de joelho Jaipur Foot, feita em nylon com óleo e autolubrificado, flexível e estável, custa apenas 15€, em vez dos 7000€ da prótese de titânio. Vêm a vantagem?
7. O ecógrafo portátil da GE tem o tamanho dum telemóvel, é eficaz como um aparelho hospitalar, mas leva-se até às aldeias mais remotas.
8. A máquina digital Fujifilm a 3D, com duas lentes separadas por distância parecida à dos olhos, cria a ilusão de profundidade.
9. Foi conseguido o teletransporte de dados entre dois átomos a um metro de distância (um átomo transforma outro, que actua como o original), importante na criação de computadores ultra-rápidos. Não é o mesmo que o teletransporte do Spock na nave entreprise, mas p’ra lá caminha.

Em 2010 haverá outras novidades fantásticas, imaginem em 2020. E falta pouco: como disse o nosso AMI Fernando Nobre, “quem tem filhos a chegar aos 30, sabe que 10 anos é um instante”.

* chefiada pelo guerrilheiro, grande democrata e já formolizado Alberto Jonas, o Savimbi da floresta Laurissilva.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

UM SANTO NATAL

Acabou o martírio. Feitas as compras e as sobremesas (coube-me fazer o pudim francês e ficar na looonga fila do bolo-rei sem frutas, que me faz sempre prometer que é a última vez), falta só mesmo o Natal com os "meus" durante as próximas 33 horas (somos 13, como na última ceia, mas em 2 mesas para não dar azar). Venha a bonança, e prendas, que me portei bem este ano.
Depois é ver se chego mais cedo que os outros ao papelão e, amanhã, pensar onde arranjo espaço para os brinquedos.
Uma prenda já temos: passou hoje a proposta de Obama sobre um sistema de saúde para os 30 milhões de americanos sem seguro. Não é a que ele queria e está muito longe do sistema de saúde europeu, mas já pode ir embora, que fica na história.

Deixo-vos um vídeo com 9 Davids Fonsecas e uma música pirosa, mas que lhe(s) deu um trabalhão.

Postal de Natal 2009 - Merry Christmas! - Videos David Fonseca

À Joana, à Fátima, à Margarida, ao Carlos, ao Luís, ao Nuno, ao João, ao Pedro, ao Paulo e a todos os que passaram por aqui, o meu brinde com vinho do Porto. Feliz Ceia e uma saraivada de prendas.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

NATAL DO PASSADO (M/30)

Estou agora a ler Oliver Twist. Bate certo com as séries da BBC que passaram há uns 25 anos na RTP, sobre a obra de Charles Dickens: há sempre crianças maltratadas e para lá de pobres, órfãos, adultos maus e exploradores com roupa andrajosa e cartolas sujas, trabalho insalubre, vielas escuras e húmidas, uma Londres imunda e fétida*. Não me lembro se já eram a cores, mas as imagens que retenho são em tons de cinzento e castanho.

Dickens criou outro livro adequado a esta época: escrito em menos dum mês, para pagar dívidas, o Cântico de Natal tem como protagonista Ebenezer Scrooge, um homem avarento (inspiração do Tio Patinhas) que odeia o Natal e é visitado por 3 espíritos, representando os natais passados, presentes e futuros. O 1º mostra o Scrooge miúdo que gostava do Natal, o 2º mostra o Natal pobre mas feliz do empregado de Scrooge, o 3º mostra a sua morte solitária.
Aqui vai um bocadinho de Natal do Passado (no final dos vídeos, há mais arqueologia gira, e os gatos a imitarem o "veio o cãozinho...").
Um bom Natal.





* A temática das suas obras tem um quê de auto-biográfico: Dickens teve uma infância mais que remediada, mas a família endividou-se, mudou-se para um bairro popular e, aos 12 anos, Charles colava rótulos em frascos de graxa, para sustentar a família que vivia na prisão de devedores (e onde ia dormir); a mãe não o retirou logo da fábrica, quando recebeu uma herança, o que enfureceu o petiz.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

É MENTIRA


Jesus não nasceu a 25/12 do ano 1. Nasceu no reinado de Herodes magno (que morreu em Abril de 4 a.c.), durante o recenseamento do governador da Síria Quirino (em 7-6 a.c.) ou do legado imperial na Palestina Sentius Saturninus (8-6 a.c). De acordo com outros dados, o nosso menino pode ter nascido entre 13 e 3 a.c. Que feio, a roubar na idade…
Quanto ao dia do ano, apenas se sabe quando não foi: haveria pastores nas redondezas e a pastorícia decorria entre Março e Novembro, i.e., o miúdo não nasceu em Dezembro.
A estrela de Belém pode ser a estrela de Kepler, conjunção astral que ocorre a cada 794 anos e apareceu 3 vezes a 7 a.c. (29/5, 1/10 e 5/12), ou o cometa que passou entre 13 e 27 de Abril de 5 a.c.
Nos primórdios, o Natal celebrou-se em Maio (20), Abril (19 ou 20) e Janeiro. Até que, em 354 d.c., os cristãos parasitaram uma festa pagã romana dedicada ao regresso do sol (dies natalis solis invicti, depois do solstício de Inverno, quando os dias voltam a crescer), para a celebração não dar nas vistas ou para ocupar uma data já conhecida.

E os magos (não reis, mas homens sábios ou astrónomos), entre 2 e 12, conheceram Jesus já a caminho dos 2 anos, depois da sua apresentação no templo. Lá se vai o dia de reis, quando os espanhóis distribuem as prendas.
Os nomes dos ditos só apareceram uns 700 anos depois da babyparty, mas já com pormenor: diz S. Beda que Melchior tinha 70 anos e vinha do Iraque (ofereceu ouro, símbolo da realeza), Gaspar tinha 20 anos, era robusto e vinha do Mar Cáspio (incenso, fé ou divindade) e Baltazar era mouro do Golfo Pérsico, tinha 40 anos e barba cerrada (mirra, resina antiséptica usada no embalsamento, morte ou humanidade). Quem conta um conto, aumenta um ponto, parece.

É compreensível a confusão*, os 4 evangelhos canónicos não batem totalmente certo entre si: o evangelho mais antigo data de 70 d.c. e o (talvez) autor Marcos apenas escreveu o que ouviu de Pedro, como bem mais tarde Lucas fez com Paulo, i.e., diz que disse; Mateus e João eram apóstolos, mas os seus livros datam de 80 e 100 d.c. (décadas depois da morte de Jesus), a memória do velho cobrador de impostos e do pescador já não ‘tavam frescas, pela certa. E há mais centenas de evangelhos apócrifos (censurados pela igreja primitiva, como os de Filipe, Tomé, Pedro, Judas e Maria Madalena) que ajudam à cacofonia.
Vai-se a ver e a única verdade é que o pai Natal existe.

* Há versões para todos os gostos, até para cépticos. O livro judeu Talmud refere Jesus como ben Pantera, ou filho de Pantera, e Celso escreveu em Contra os Cristãos: "Começaste por fabricar uma filiação fabulosa, pretendendo que devias o teu nascimento a uma virgem. Na realidade, és originário de um lugarejo da Judeia, filho de uma pobre campónia que vivia do seu trabalho. Esta, culpada de adultério com um soldado, Pantero, foi expulsa por seu marido, carpinteiro de profissão. Expulsa assim e errando aqui e além ignominiosamente, ela deu-te à luz em segredo. Mais tarde, constrangida pela miséria a expatriar-se, foste para o Egipto; aí aprendeste alguns desses poderes mágicos de que os Egípcios se gabam, voltaste ao teu país e, inchado com os efeitos maravilhosos que sabias provocar, proclamaste-te Deus."
Um caluniador, este Celso. Não entra no céu nem com uma máquina Nespresso.

domingo, 20 de dezembro de 2009

BALANCETE




Speaker's Corner, Hyde Park

Chegados às 5000 visitas e 450 posts, desde 21 de Julho, é TEMPO DE BALANÇO e de uma palavrinha aos accionistas e clientela.

O elenco escolhido é variado, com gente ligada ao teatro, arte, imprensa, design, gestão de empresas, agro-pecuária, computação (?) e saúde.
Um raide pelos posts confirma que houve (muita) política, Cartaxo, (muitíííssima) música, poesia e livros, pintura e fotografia, drogas e gripe, casamento e divórcio, natalidade e natal, trabalho e religião, curtas-metragens e bd, tropa e vinho, difamação e mortalidade, natureza humana e Nobel, turismo e ambiente, casamento homosexual e igualdade de género, tourada e corrupção, história e filosofia, publicidade e net, economia e banca, meteorologia e agricultura, TGV e TV.
Houve várias coisas giras, acho. E discórdia, discussões mais acesas, clientes mal servidos que escreveram no livro de reclamações e ofensas anónimas na porta da WC.

Conseguiu-se uma TERTÚLIA com um pequeno núcleo duro de 30 pessoas (como o Quo Vadis primitivo, lembram-se?), à custa da colocação diária de novos posts.
Ainda assim, as 5000 próximas visitas merecem uma variedade maior e mais equilibrada de temas, que haja sobretudo mais palavra e que todos (os 10) se cheguem mais perto do balcão (eu, o Luís e o Carlos arranjamos espaço) e sejam um niquinho mais assíduos.
Senhores accionistas, a falta de tempo ou de assunto não é desculpa: há sempre 10 minutos nas 168 horas da semana, para falar sobre qualquer coisa ou sobre coisa nenhuma (a minha especialidade). Todos vocês têm algo interessante a contar, nem que seja sobre a última viagem a Cabo Verde, a sogra (dum amigo, claro), o actual projecto de trabalho, argila e grés, a assembleia municipal, medicamentos revolucionários, os reis magos. Ou sobre o Sócrates, tema mais prolífero que o Santana, quem diria.

Quanto ao número de comentários, em particular dos não-residentes, é quase nulo: Visitas da tertúlia, há que consumir e fazer despesa, i.e., participar comentando.
Será insuficiência nossa (mea culpa) não provocar-vos a vontade em deixar umas palavras, mas a vossa prestação (também) melhora o ambiente da casa. Isto é como no SPEAKER'S CORNER, todo o pregador precisa de assembleia, nem que seja para dizer apenas “apoiado” ou “xúú, vai-te embora”. Disparatem, faz favor.
Haja diálogo. Multiálogo, se a palavra existir.

sábado, 19 de dezembro de 2009

PORTUGAL AMARROTADO


Com o país distraído com listas de natal e copenhaga, foi provada a intervenção de Lopes da Mota no processo Freeport: no mesmo dia em que teve uma reunião com o ministro da justiça Alberto Costa, Lopes de Mota contactou os 2 magistrados responsáveis pela investigação, invocando os nomes do ministro e de Sócrates, e instigando-os a arquivarem o processo, ou sofreriam represálias (nomeadamente, indemnizações caso o PS perdesse as eleições).
Costa diz-se ofendido pelas notícias do seu alegado envolvimento…
Não sendo anjinho, sei que neste país as coisas andam e param com sugestões, cunhas e pressões. Mas aqui está envolvido outro poder, e a justiça deve ser cega e independente. Não é isto funcionamento (ir)regular das instituições, quando o governo quer interferir no poder judicial?
Lopes da Costa foi suspenso por 30 dias. Bastava 1 dia, para haver alguma justiça (falta o resto, quem encomendou o serviço?). Mas a pena, para ser “adequada, proporcional e dissuasora”, devia ser muito maior - querem interferência maior no Estado de Direito?

E os intervenientes têm curricula: são a turma que condiciona a sobrevivência do jornal Sol (via BCP) se não omitir o Freeport, e que recebe sucateiros apenas para indicar o nº de porta da EDP.
Alberto Costa foi demitido* em 1988 de secretário de justiça de Macau, por ter sido provada em inquérito disciplinar uma conduta imprópria porque em 2 ocasiões “interveio” junto do juiz José Manuel Celeiro, para que libertasse o presidente da TDM e arquivasse o processo que envolvia a televisão de Macau e a empresa “socialista” Emáudio (Costa tinha como chefe de gabinete António Lamego, que participou nas conversas e também foi exonerado). A justificação do Costa é que deu só “uma opinião jurídica”.
É o mesmo argumento de Lopes da Costa, o mesmo que foi identificado (mas não comprovado) como a fonte que alertou Fátima Felgueiras, antes da mesma fugir para a “sua” terra.
Os dois reincidentes. Nas suspeitas, porque não há provas e, se houver, estão naquele papel térmico das portagens, a tinta desaparece com o tempo.

* O Governador Melancia revogou o despacho de demissão que fundamentava a mesma - considerando que o mesmo “menciona desnecessariamente vários factos” não justificativos de procedimento disciplinar -, mas manteve a exoneração “por simples conveniência de serviço”.
Costa recorreu, a exoneração foi anulada e ainda foi indemnizado, por vício de forma, i.e., demissão não fundamentada.
Recordo, Macau era na altura o refúgio dos socialistas (como Jorge Coelho ou Maria Belém, esta na TDM), durante o longo Inverno cavaquista.