...e depois, com bigodes de leite, pedem mais paciência e esforço ao povo, que a "vaca 'tá seca".

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

JÁ VEM DE LONGE...


Disse o Tribunal de Contas: na década passada, a Parque Expo adjudicou 32M€ de obras ao sucateiro dos robalos, a maioria por ajuste directo.
No caso mais risível (1997), houve um concurso limitado para a construção dos parques de estacionamento – ganhou a empresa de Godinho, que 1) não constava na lista de empresas inicialmente convidadas, 2) nem tinha sequer alvará para essa actividade, 3) não evidenciava qualquer experiência no ramo e 4) cuja proposta revelava sérias lacunas técnicas (sic).
Dois meses após o início da obra, a empresa demonstrou incapacidade em prosseguir com a obra, o contrato foi renegociado e a empreitada reduzida em 2 terços; a obra foi entregue 3 meses depois do contratado, sem accionamento de penalizações.
O cheque final subiu dos 9M€ (proposta que fez vencer o concurso) para 10.6M€, apesar dos trabalhos terem sido bastante reduzidos e o prazo não ter sido cumprido.

Depois pedem sacrifícios à maralha!!!
Podia dizer que isto enerva a minha costela de esquerda (uma das flutuantes, que são as mais 'queninas), mas a questão não é ideológica, é de pudor.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

AAAHRRRRR, O F.M.I. VOLTOU!!!

QUE TAL OFERECER LIVROS-TIJOLOS?

CHURCHILL é talvez, a minha personalidade preferida do século XX. É, com Mark Twain, Millôr Fernandes e Grouxo Marx, autor duma série de frases célebres. Algumas mostram o seu sarcasmo: certa vez, uma Senhora retorquiu numa discussão “Você está bêbado!”, ao que Winston respondeu “E você está feia, a minha vantagem é que amanhã passa-me”.
Mesmo P.M., usava as manhãs todas para dormir e começava o dia com uma charutada e com o primeiro de muitos copos de gin ou wisky, já não me lembro. Essa parte dá-lhe patine - duvidai é dos ascetas, digo-vos.
Qual Cassandra, foi o primeiro a alertar que a complacência da Europa estava a alimentar um monstro, Hitler. Foi um óptimo estratega na 2ª guerra, mas perdeu as eleições meses depois da vitória. Por compensação, ganhou inexplicavelmente o nobel da literatura, pelas suas Memórias da 2ªG.M. É esta que vos recomendo este Natal (Ed. Nova Fronteira).

Estaline, a corte do czar vermelho (Ed. Aletheia) é outra biografia que requer fôlego, pelo tamanho do tijolo (é uma empreitada!) e pela sua loucura: em 1939, o Zé já levava vários milhões de mortos de avanço sobre Hitler. As purgas atingiam oposicionistas ou camaradas, de forma quase igual (por vezes, desapareciam metade dos membros em congressos do PC sucessivos, fisicamente e dos registos), nem os amigos do peito escapavam, dada a sua desconfiança patológica. O historiador Simon Montefiori viu este seu livro consagrado, e com razão.

Mais um par de contemporâneos: César de A. Goldsworthy (A Esfera dos Livros) e Cícero de A. Everitt (Quetzal). É impressionante como há tanta informação sobre gajos mortos há 2000 anos e como sobreviveram documentos originais.
Em ambos os casos, a história foi feita parcialmente pelos próprios, o que os beneficia: César ditou as suas Campanhas na Gália, Cícero (um advogado não-patrício que chegou à distinção máxima, Pai de Roma) seria poeira, não fosse deixar-nos a sua muita correspondência e os discursos (à custa do seu secretário, Tiro, talvez o primeiro estenógrafo oficial). Quem gostar de Roma antiga, leia Roma e os “policiais” de Steven Saylor.

Finalmente, saiu agora uma História de Portugal com 2 trunfos: é em boa parte dedicada à história contemporânea e já tem um distanciamento temporal suficiente da ditadura e da revolução (os historiadores não devem participar na História).
Pena que os livros sejam caríssimos - falta de escala, dizem os livreiros, mas fica uma pescadinha de rabo na boca -, estes um pouco mais. Mas ficam bem no sapatinho do papá.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

COMPRA LIVROS, OFERECE SONHOS

Praga
U. Coimbra

A culpa é minha, que sou básico.
Lembro-me de adormecer no cinema uma vez. Tinha-me levantado cedo e ido do Cartaxo a Braga arranjar o meu primeiro trabalho, na minha politraumatizada R4, ‘tava cansado.
À tarde, passei no Porto e fui ver o filme do Manuel de Oliveira com o Malcovich e La Deneuve. Bem, aquele leeeeeento passeio no convento da Arrábida, sem falas, a ouvir o vento e o roçar das folhagens das árvores, foi tiro e queda.
Fui com o nosso Pedro. À saída, perguntei-lhe o que achara da película: “Hum, deixa-me digerir o filme”.

Eu sou mais básico, não mastigo os filmes ou os livros, gosto ou não.
Também não sou daqueles que choram a ler livros ou a ver filmes – como o mundo é feito de compensações, a minha mulher até chora no Bamby, verte uma lágrima em qualquer fim de filme com um draminha e música a acompanhar.
Eu não me envolvo nos filmes ou nos livros a esse ponto, consigo distanciar-me q.b. e não esquecer que é uma história apenas, e que qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência – claro, quando não é baseado uma história real.

O intróito serve para Vos dizer, se tiverem chegado aqui, que há 3 livros que me enervaram, o que só credita os seus autores.
A Desgraça (do mais tarde nobelizado J. M. Coetzee) foca um professor desempregado e a sua filha, na África do Sul, e traça um retrato ácido das tensões pós-apartheid, da nova hierarquia instaurada e da apatia das personagens perante a violência e humilhação a que são submetidos: Lucy é violada na própria casa e torna-se uma escrava impotente do seu violador negro. Irritou-me profundamente a prepotência de uns e a fraqueza de outros. Recomendo apenas a estômagos fortes – o livro devia trazer uma bolinha vermelha.
A Catedral do Mar (Ildefonso Falcones) tem como cenário a construção da Catedral de Santa Maria del Mar, no séc. XIV - erigida pelo povo e para o povo, num bairro de pescadores em Barcelona (caso raro, demorou apenas umas dezenas de anos a construir e é monoestilística). O livro segue a ascensão de Arnau de Estanyol, de servo a barão, num carrossel de tristezas e sucessos, permanentemente sabotado. O primeiro leitor descontente que se acuse.
Por fim, confesso envergonhado que fui alertado para Os Pilares da Terra (Ken Follett) pelo entusiasmo da Júlia Pinheiro de Chicago, a Oprah. É uma saga de 2 tomos, tendo como fio condutor a construção de outra Catedral, Kingsbridge, no séc. XII. Há várias personagens centrais, há clero corrupto, nobreza prepotente, prima-nocte, traição, morte, amor, inveja, sabotagem. Uma epopeia (caso gostem, Até ao fim do mundo pega na descendência, 200 depois). Façam-me o favor, leiam.
Ou ponham no sapatinho de alguém, são os 2 livros prendas seguras.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

IMAGINEM


Imaginem um país solarengo – para facilitar, chamemos-lhe Papua.
Imaginem agora que uma lei exige há QUINZE-anos-QUINZE que os, digamos, brinquedos sejam TODOS testados para detectar materiais perigosos.
Imaginem lá que a lei nunca foi cumprida, apesar das “recomendações” da aliança de países onde a Papua está integrada (organização de cooperação económica Ásia-Pacífico?) e que, na primavera de 2007, a autoridade nacional competente (AC) decidiu que a pesquisa sistemática nos tais brinquedos deveria começar obrigatoriamente nos meses seguintes.
Imaginem ainda que (como o tempo passa depressa) a aquisição do equipamento teve o seu calendário burocrático e a data para o início dos testes diários arrastou-se, sendo adiada para 1/11 (impreterivelmente!) e depois para 1/12/2009 – o mês com mais vendas no sector dos, digamos, brinquedos...
Imaginem que a AC enviou com tempo faxes para as indústrias, relembrando o prazo e recomendando que efectuassem testes experimentais, para as indústrias ganharem rotina, antes do arranque a sério da testagem.
Agora imaginem que, chegados a Dezembro, um industrial diz “este mês ainda é à experiência, há mais produção de (digamos) action men, e ainda calham 3 feriados”.
É para, finalmente, começar, mas devagarinho… É mesmo à papuense.

Por fim, imaginem que a AC generosamente forneceu o equipamento, parte dele avariado, e reagentes cuja validade expirou em Fevereiro de 2008.
Imaginem lá.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

CONJURADOS


Em 870 anos de Portucale enquanto Estado-nação, há 3 datas maiores, uma espécie de trindade:

1. A fundação do reino, dividida em 3 fases, a auto-proclamação de Afonso Henriques em Bragança a 1/11/1139 (após a batalha de Ourique em Agosto), o reconhecimento pelo Primo Afonso VII de Leão e Castela em Zamora, a 5/10/1143 (o nosso 1º cinco de Outubro), e o reconhecimento internacional da altura, via papado, em 23/5/1179, com a bula Manifestis Probatum dum tal Alexandre III.

2. A batalha de Aljubarrota a 14/8/1385, que não foi uma novidade militar, repetindo tácticas antigas de Alexandre magno e decalcando Crécy e Poitiers, 30 anos antes, quando a infantaria dum exército pequeno venceu a cavalaria dum exército muito maior (Inglaterra 2-França 0). 6500 lusoingleses venceram 30000 francocastelhanos, à conta duma frente de batalha estreita, covas-de-lobo e paliçadas romanas. No rescaldo, firmou-se a aliança luso-inglesa, João I desposou Filipa de Lencastre e nasceu a ínclita geração, que iniciou a gesta dos descobrimentos ou, à brazileira, dos achamentos.

3. A RESTAURAÇÃO, a 1 de Dezembro de 1640.
Denominador comum, poucos fizeram a história e o destino de muitos.

A Espanha estava envolvida na guerra dos 30 anos, que opôs Suécia, Holanda, França e alemães reformistas à Espanha e sacro-império. Filipe IV tentava segurar a Flandres, territórios italianos e o ultramar luso.
A Portugal, “herdado” em 1580, foi imposta uma enorme carga tributária e intensificado o recrutamento militar, para financiar o esforço de guerra de Filipe IV.
A 12 de Outubro de 1640, no palácio de D. Antão Vaz de Almada, reuniram-se 40 conjurados, entre os quais o octagenário D. Miguel de Almeida (que, como José Relvas, fez a proclamação na varanda), Jorge e Francisco de Melo, António Saldanha, Estêvão da Cunha, Carlos de Noronha, Francisco de Melo, João de Sá de Meneses, Tristão da Cunha de Ataíde, Luís Godinho Benavente, padre Nicolau da Maia e o Dr. João Pinto Ribeiro (intendente da casa de Bragança).
A Fidalguia decidiu enviar Pedro de Mendonça a Vila Viçosa, propondo ao Duque de Bragança que aceitasse a coroa após a declaração da Independência de Castela, ao fim de 60 anos de Filipes.
João estava indeciso. Questionado pelo secretário António Pais Viegas se tomaria o partido do país ou dos castelhanos, respondeu “hei-de acostar-me ao que seguir o comum do País” (mariavaicomasoutras). A sua mulher espanhola, Luísa de Gusmão, invectivou-o, julgando “mais acertado, ainda que a morte fosse consequência da coroa, morrer reinando que viver servindo”, mais tarde transformado em mais vale rainha uma hora que duquesa toda a vida.
João aceitou, mas disse que negaria a participação, caso a intentona falhasse…*

Houve novas reuniões a partir de 21 de Novembro, com hesitações e planos, terminando a 30 com a decisão de avançar, a redacção de testamentos e encomendas de missas.
Às 9 da manhã dum sábado, os conjurados e arregimentados, num total de 120-150 pessoas, juntaram-se na praça do comércio. João Pinto Ribeiro terá respondido a um amigo, que lhe perguntou onde ia, “vamos ali abaixo à sala real, e num instante tiramos um rei e pomos outro…”.

Não houve quase resistência no Palácio da Ribeira. O Secretário de estado, Miguel de Vasconcelos (que soubera da conjura, mas não acreditara nela), foi morto no pequeno armário onde se escondera e defenestrado (atirado pela fenétre, a bem-dizer).
À vice-Rainha e Duquesa de Mântua (Margarida da Áustria), foi negado falar ao povo - “se não quiser utilizar aquela porta, (será forçada) a sair por aquela janela” - e obrigada a ordenar a rendição das guarnições.
Durou 2 horas e 3 mortos, 6000 soldados espanhóis incrédulos e estuporados e 2 ou 3 galeões na zona de Lisboa capitularam sem resistir. Ao início da tarde a justiça fazia-se em nome doutro rei, sem qualquer sobressalto. A vida continuava (e o povo é sereno, já dizia o Pinheiro de Azevedo).
Como um rastilho, todas as cidades e vilas aclamaram D. João IV**, assim como todos os territórios ultramarinos – excepto Ceuta, que ainda continua espanhola...
Os espanhóis fugiram todos: alguém escreveu que “em menos de 15 dias não sobrava cá nenhum, que não estivesse preso”.
Seguiram-se ainda 28 anos de escaramuças (entretanto, a aliança luso-inglesa foi renovada e mandámos a Infanta Catarina de Bragança, a do chá das 5, a Carlos II de Inglaterra) e, se Espanha não estivesse ocupada com a França de Richelieu-Mazarino até 1659, e com a sedição da Catalunha, que precedeu a nossa alguns meses, a história podia ter sido diferente. Viva Barcelona.

* Hábito seu, fazer de morto: adiou enquanto pode o périplo pelas praças-fortes, suspeitando de cárcere itinerante, alegou contratempos para participar na guerra franco-espanhola, resistiu a mudar-se para a corte de Madrid e assobiou para o ar quando lhe propuseram o vice-reino de Milão.
** Consta que João IV ainda teve que prometer que, caso D. Sebastião (desaparecido mais de 60 anos antes em Álcacer-Quibir…) voltasse do nevoeiro e aparecesse, lhe devolvia o trono…

A LISTA DOS VALENTES, FORAM ELES:


D. Antão Vaz de Almada, D. Luiz de Almada
D. Álvaro Abranches da Câmara
D. Miguel de Almeida
D. Francisco Coutinho, D. Jerónimo de Atayde (armados pela mãe Filipa de Vilhena)
D. António de Alcáçovas Carneiro
D. António da Costa, D. João da Costa
D. Gastão Coutinho
D. António Álvares da Cunha, D. Luiz da Cunha de Atayde, D. Nuno da Cunha de Atayde, D. Rodrigo da Cunha, D. Tristão da Cunha de Atayde, Estevam da Cunha
Rodrigo de Rui de Figueiredo Alarcão
Gomes Freire de Andrade
D. António de Mascarenhas
Francisco de Mello, Jorge de Mello, Luiz de Mello
António de Mello e Castro
Martim Affonso de Mello
Pedro de Mendóça Furtado, Tristão de Mendóça
D. Afonso de Menezes,
João de Saldanha da Gama
D. António Luiz de Menezes
D. António Tello
D. Manuel Childe Rolim
D. Carlos de Noronha, D. Francisco de Noronha, D. Thomaz de Noronha
Dr. João Pinto Ribeiro (intendente de João de Bragança)
Luís Godinho Benavente
D. João Rodrigues de Sá e Menezes,
Ayres de Saldanha, António de Saldanha, Sancho Dias de Saldanha
João de Saldanha e Souza
Francisco de São Payo
D. Francisco de Souza, Tomé de Souza
António Telles da Silva, Fernão Telles da Silva,
D. Francisco de Mello e Torres
Padre Nicolau da Maia
E ainda outros bravos da restauração… Luiz da Cunha, Luiz Alvares da Cunha, D. Paulo da Gama, Gaspar de Brito Freire, Miguel Maldonado, D. Rodrigo de Menezes, Rodrigo de Rezende Nogueira de Novais, D. João Pereira, João Rodrigues de Sá Gonçalo Tavares de Távora, D. Fernando Telles de Faro.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

vinte cinco barra onze

Estávamos em 1975. Chegara o mês de Novembro e a confusão mantinha-se com o espectro da guerra civil a pairar. Era o tempo de Pinheiro de Azevedo (o “bardamerda-para-isto-tudo”) e do sequestro da Assembleia da Republica. Um país partido ao meio, dividido entre o Norte e o Sul. Em cima, os "tradicionalistas", e em baixo os “progressistas”. Rio Maior e as suas mocas, faziam a fronteira. Um dia o governo decide cortar o pio à Rádio Renascença (a rádio mais vermelha e a emitir em roda livre!), como não tinha militares do seu lado para o fazer (tal era a balbúrdia!) pede a um pequeno grupo operacional que opta por dinamitar a antena emissora. Entretanto, os Paraquedistas que controlavam aquela rádio, decidem ocupar as bases aéreas expulsando todos os oficiais, enquanto Otelo (o romântico) distribui G3’s por toda a extrema-esquerda (incluindo civis). E aqui começa o contar de espingardas. De um lado, Paraquedistas, Policia do Exercito e Fuzileiros estavam com a esquerda, apadrinhados por Otelo que ainda comandava o COPCON. A direita militar tinha Eanes (o homem dos óculos escuros que nunca ria) e os Comandos de Jaime Neves (o valente). No dia 25 de Novembro, Jaime Neves e os Comandos atacam e neutralizam a Policia do Exército na Calçada da Ajuda, onde morreram duas pessoas. As outras bases militares foram sendo ocupadas e controladas pelos Comandos, sem violência. Na RTP-Lisboa, um oficial barbudo ainda anunciava a vitória e a grandeza do poder popular, até começar a esbracejar indignado, sendo “substituído” no ecrã por um filme emitido a partir do Porto. Tinha acabado a revolução, o PREC e com isso toda uma época de rebaldaria. E começou um novo ciclo em Portugal, a democracia, que permitiu até que o PCP continuasse a existir (Melo Antunes, o iluminado). Por tudo isto e muito mais, 25 de Novembro sempre!


Entretanto, Otelo abandonava a tropa e abraçava uma carreira no terrorismo, em prol da classe operária. Mas isso já é outra conversa...

Nuno V. Leal

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

PRETO E BRANCO


"O mundo moderno está dividido entre conservadores e progressistas. O negócio dos progressistas é insistir em cometer erros, o negócio dos conservadores é evitar que os erros sejam corrigidos." G. K. Chesterton

O MANIQUEÍSMO é a doutrina religiosa pregada por Maniqueu (ou Menes, ou Mani) na Pérsia, no séc. III. É uma filosofia dualística que divide o mundo entre bem, ou Deus, e mal, ou o Diabo. Advoga a fusão entre espírito (intrinsecamente bom) e matéria (intrinsecamente má). Originalmente, trazia uma mensagem de tolerância e conciliação.
Hoje, o maniqueísmo significa uma divisão entre dois campos, opostos e exclusivos - o do bem e o do mal –, uma visão redutora e protofanática: parafraseando, é o Narciso que acha feio o que não é espelho.
O maniqueísmo vê um mundo bipolar. Quer a direita católica americana, quer a esquerda caseira fazem uma divisão infantil do mundo e das pessoas, atirando para a outra banda todos que tiverem outra escala de valores morais. Não só vêem o mundo a preto-e-branco como, em qualquer posição que tomem, estão arrogante e absolutamente certos de detêm a razão: a esquerda defende a liberdade, os oprimidos e os pobres, a direita os opressores e os ricos (li há dias num blogue “qualquer ditadura é de Direita, a do Pinochet, a do Fidel, a do Kim Il Sung…” e ouvi só meio a brincar, “no CDS não há pessoas boas”, pois).
Infelizmente, não há um risco entre o bem e o mal, o mundo é mais complicado. Não é a preto-e-branco, tem muitos cinzentos.
Em quase todas as questões, seja no posicionamento político, seja de costumes, há argumentos válidos, ou pelo menos a considerar, nos dois lados da barricada. A esquerda tem bons argumentos e a direita as suas incongruências, e vice-versa – todos temos as nossas incoerências, menos Álvaro Cunhal. Pretender o contrário é simplista e prepotente; como aqui escrevi, não há os elucidados e a canga retrógrada, como não há os defensores da vida e assassinos de bébés. And so on.
O mais curioso é que, sendo a esquerda que enche a boca com a palavra tolerância, tenha tão pouco respeito pela opinião diversa, ou de quem não assina logo por baixo.
E então quando precedido de “isso nem parece duma pessoa de bem”…

terça-feira, 17 de novembro de 2009

+ opinião


O país foi a votos em Outubro, cerca de 55% dos portugueses votaram em partidos que claramente disseram ser favoráveis a casamentos entre pessoas do mesmo sexo. Os deputados estão claramente mandatados para decidirem esta questão.

A questão da igualdade perante a lei parece já não ser questionada, ah e tal, podia-se chamar nhac em vez de casamento, dizem alguns, mas a verdade é que parece que desta vez a igualdade perante a lei e a separação entre césar e deus está quase a chegar. Os argumentos contra já só passam pelo nome jurídico do contrato... aconselho a pesquisarem os argumentos esgrimidos aquando do passo que se deu ao permitir casamentos apenas no civil. É que no virar do século XIX para o XX os argumentos foram os mesmos... a malta até aceita um casamento sem padre, mas chamem-lhe outra coisa, ok?.

Levanta-se agora a questão que ainda não o é, pois o PS é pela igualdade mas, todos somos azuis, mas há uns mais azuis que outros, pelo que descansem as alminhas de deus, que virá uma cláusula a proibir a adopção.

A questão é pois a adopção e sobre ela tenho a seguinte opinião:

Estamos a falar de crianças institucionalizadas, sem pai nem mãe (ambos têm 3 letrinhas apenas). Acaso alguém pode dizer que são educadas mais equilibradamente num orfanato que com apenas uma mãe, apenas um pai, dois pais ou duas mães? É que sobre a questão das referências é falada como se os seres humanos fossem uma ilha, sem familia, relações sociais, como se vivessem isolados do mundo e que a familia nuclear fosse a única referência no crescimento de uma criança.

A criança vai sentir-se diferente das outras e isso vai afectá-la para sempre, ou será gay ou traumatizada! Eis o regresso do velho argumento que já conhecemos e que foi usado no passado contra os pais divorciados, contra os casamento interraciais e contra as mães solteiras. Neste argumento trata-se de descriminar para salvar da discriminação... como sabemos, os filhos de divorciados, solteiras e pais de étnias diferentes são ou gente sem sentido de familia, ou traumatizados ou vítimas destes progressismos que ninguém sabe onde vai parar.

Por mim, reforço que somos todos iguais perante a lei e que não existe nenhum estudo que diga que uma criança é mais feliz e mais equilibrada numa instituição que com um pai, uma mãe ou um casal que a ame, proteja e prepare para a vida.

Pedro Mendonça

OPINIÃO


Fátima, era um assunto que já se estava à espera.
Pois bem, eu tenho a dizer:

No meu segundo post, sobre a tourada, escrevi que poucos assuntos me levam a tomar uma posição apaixonada ou “bélica”. O casamento gay não é um deles, EU NÃO QUERO SABER, façam o que entenderem.
Eu não lhe chamava casamento – igual o que é igual, diferente o que é diferente -, mas não insisto muito, tudo bem por mim. Devo afirmar que não tenho nada a dizer sobre a homossexualidade, não é doença nem peçonha.
Quanto à adopção, tenho alguma dúvida, apenas no que diz respeito às crianças. Se há tantos que não saem do armário, por opção própria, vão levar as crianças a sair do aparador, numa sociedade fechada? E acho pessoalmente que uma mãe faz sempre falta, "com 3 letrinhas apenas se escreve a palavra, que é das mais pequenas, a melhor qu eo mundo tem", era a lengalenga. Pelo outro lado, é preferível isso a fazê-las crescer num lar público, ou deixá-las num lar disfuncional, dizem com razão os progressistas.

Mas não posso acabar sem uma grande provocação aos caros combatentes, desculpem.
Levemos à frente o raciocínio e quebremos todas as convenções: quaisquer 2 pessoas, adultas, de forma consciente e voluntária, podem casar. Concordam?
Então, porque é que um pai não pode casar com uma filha adulta, se ambos quiserem de plena vontade? Ou irmãos, como os faraós? Mãe e filha? E um homem e três mulheres, se todos estiverem de acordo?
Digam lá porque não - qual é o argumento (e não venham com a genética)? É com eles.
É um problema, quem decide e qual o limite, porque inevitavelmente há um.

Adenda: Johanna Siguidardottir é primeira-ministra da Islândia, por acaso lésbica. A parada gay de 2008 juntou 70.000 pessoas, 23% do país, e transformou-se numa festa das famílias.
Lá, este assunto já não é assunto, porque há anos muitas pessoas deram a cara e a situação tornou-se natural.

domingo, 15 de novembro de 2009

DEJA VU

Peço a V. atenção para alguns NÚMEROS:
9.2% de Desemprego (média OCDE 8.6%),
63.7% de Taxa de cobertura das importações pelas exportações (défice anual de 9.2% do PIB),
Défice público acima dos 8% no triénio 2009-2001.
Previsão para 2011: dívida pública a crescer até 91% (14% em 1974, 58% em 85, 50% em 2000, 64% em 2008), défice externo acima dos 10% do PIB, endividamento externo de 120% do PIB (97% em 2008, o maior da UE27).
A cada hora, mais pobres e endividados. ALEGREMENTE, A CAMINHO DA FALÊNCIA.
Bem, nem todos: em 2008, Fernando Gomes ganhou 4.000.000€ na GALP (mais 90000€ de PPR); Silva Lopes, aquele que propõe congelamento de salários, tem reforma de governador do Banco de Portugal, saiu do Montepio com 400.000€ de indemnização e é agora administrador da EDP renováveis. De ramo em ramo...

Escrevi aqui que, dos 17 PM da N. democracia, este é o que tem o curriculum mais nebuloso. Foi o Sócrates-Independente, o Sócrates-mamarrachos, o Sócrates-TVI, o Sócrates-Freeport, agora é o Sócrates-escutas. Um jornal já chegou ao ponto de escrever na 1ª página “Sócrates mentiu” - um patamar acima do usual e prudente faltou-à-verdade-que ou da é-uma-inverdade. Esta legislatura promete…
Um Juiz determina escutas ao telefone de Vara e apanha conversas com o PM, que justificam o envio de 11 certidões para a PGR, por indícios de “atentado contra o Estado de Direiro” por Sócrates, punível até 8 anos de prisão. O STJ já mandou destruir as primeiras 6 escutas, para cumprir a lei que impede escutas do PM (mesmo sendo outro o alvo da escuta, perguntam muitos?). Paradoxo, o Estado de Direito protege quem atenta contra o próprio.
As mesmas garantias do cidadão (compreensíveis no rescaldo duma ditadura, mas que levam à prescrição de processos…) impedem o PS de aceitar a CRIMINALIZAÇÃO DO ENRIQUECIMENTO ILÍCITO, para não inverter o ónus da prova e manter o princípio constitucional de presunção de inocência - esses senhores “tudo fará para que o Estado democrático vigore em Portugal”. Dixit.
Ah, a administração do BCP decidiu manter o salário do auto-suspenso Vara, enquanto não esclarecer o seu envolvimento no processo de corrupção sucatagate.

A presidente da única câmara do BE era arguida relativamente a funções camarárias. Agora é o vereador de Olhão do BE, envolvido em queixas-crime, transacção de terrenos alheios, dívidas ao fisco, falsificação de cheques, burla. Assim de cabeça, o moralista e justiceiro BE talvez seja o partido com maior proporção de edis a contas com a justiça.
Azar, o BE é como os outros.

A IGAI tem 7 carros, mas só 4 estão ao serviço dos inspectores, para efectuar diligências em todo o país, os outros 3 estão afectos ao trio dirigente.

SERÁ KARMA? Vá lá, não esperem muito de um país que começou com um gajo que batia na mãe, ainda por cima bastarda.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

A POSTERIDADE E O ANONIMATO

Ouvi alguém dizer que permanecemos vivos enquanto se lembrarem de nós.
Pois tenho em casa uma série de fotografias de antepassados a que nem consigo atribuir um nome (para evitar outras “mortes”, cravei a minha irmã para saber os nomes das pessoas emolduradas na casa da minha tia-avó e escrevê-los no verso, antes da última fonte da informação desaparecer).
Daqui a 100 anos, é possível que ninguém saiba que existimos (tirando uns trinetos, que guardarão alguma lembrança nossa) ou quem fomos, o que fizemos, rimos e chorámos. Talvez fique um nome e 2 datas - quem sabe o nome próprio dum dos 32 tetravós?, digam lá.
Eu cá já me dava por satisfeito se me associassem o nome à cara.

Soube hoje (eis a razão do post) que Mozart vendeu as suas obras para pagar os remédios da sua mãe, e foi enterrado numa vala comum para indigentes (conta a lenda que a mulher descobriu a vala porque o cão de Mozart morreu congelado sobre a campa).
Muitas personagens célebres tiveram vidas miseráveis. Camões e Pessoa passaram as passas do Algarve, e acho que não trocava o sucesso pela cegueira ou até pela surdez de Beethoven.
Valerá a pena haver posteridade, pagando na hora, com uma vida f…anhosa?, pensei. Cá p’a mim, "vai-se a ver" e se calhar é melhor uma vida anónima, mas satisfeita.

terça-feira, 10 de novembro de 2009


O fim do Muro de Berlim representou simbolicamente o fim da Guerra Fria. Com a derrota das cruéis ditaduras comunistas através também das revoluções de rua os cidadãos de Leste enterraram regimes que não quiseram um socialismo livre, com liberdade além de igualdade, com representatividade, respeito pelas minorias, pelo direito à greve, ao sindicalismo, à liberdade de expressão e obviamente ao multipartidarismo. Com o fim do Muro, parecíamos assistir também ao "fim da história" onde o capitalismo liberal vencia e arrastava consigo a democracia parlamentar para o bem de todos, esta recente crise do capital prova que não é bem assim...

Há vinte anos foi o começo de um mundo novo. É possível ser comunista depois da queda do muro? Sim, claro que sim, se um comunista considerar a sua ideologia como uma religião dogmática, afinal séculos depois da Inquisição ainda existe Igreja católica.
É possível ser capitalista depois da crise sistémica actual? Sim, claro que sim, não só pela razão do comunista continuar comunista, como pela razão de o capitalismo ser mais mutável, adaptável a novas realidades, mas a questão não deveria ser mitigar os problemas destes sistemas que controlaram o século XX, deveria ser o bem geral, sem proteger os dogmas que o afectam.

Considero que a queda do muro da vergonha, representa um oportunidade para o Socialismo e não mais o Comunismo se apresentar como contraponto ao Capitalismo. Só em Liberdade com Igualdade, só respeitando as diferenças e os direitos humanos se pode tentar transformar a sociedade e não administrar uns analgésicos às dores que o capitalismo e o Comunismo provocam ou provocaram nas sociedades.

Do lado da Esquerda não soviética e anti-estalinista, há uma mudança que se vai construindo em Portugal com o BE, em França com a Liga anti-capitalista, na Alemanha com o Die Linke, na Grécia e em vários países de Leste da Europa... e do lado da Direita há algo novo ou continuam a dar-nos os valores católico com uma mão e os cifrões da bolsa com a outra?

Ontem festejei o fim daquela aberração histórica, festejei porque sou de Esquerda e para mim nada se constrói contra a Liberdade, a Igualdade e a Fraternidade.

Pedro Mendonça

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

O POVO SOMOS NÓS

Caiu o muro há 20 anos. Na verdade, foi uma CORTINA DE FERRO que cedeu, não num dia, mas durante o ano de 1989: em Fevereiro, o governo polaco aceita negociar com o sindicato Solidariedade de Lech Walesa; em Maio, a Hungria abre a fronteira com a RFA, permitindo o êxodo dos alemães de leste, os ossies; em Junho, o Solidarnosc ganha as eleições na Polónia; em Outubro, o homem que acreditava num socialismo com democracia (Gorbatchov, sem o qual o muro não cairia) visita a RDA e diz a Honecker que as tropas soviéticas não o apoiam em nova repressão, como fizeram na Hungria (1956) e Checoslováquia (1968); em Novembro, cai o regime de Praga, crescem as manifs na RDA; um porta-voz do governo de Berlim diz que as fronteiras leste-oeste serão abertas, e por gaffe diz que tal entra em vigor imediatamente (viram as caras desconcertadas dos guardas fronteiriços, ao deixarem passar o povo?); em Dezembro, na única revolução violenta, é a vez da Roménia.

É óptimo que a rapaziada mai’ nova, atraída pelo colectivismo dos meios de produção, veja os bons comentários que têm passado na TV e saiba como foi*, pois não caíram só ditaduras, mas todo um sistema económico. Saberão que gémeos são a melhor amostra para estatística, pois eliminam-se muitos viezes: a comparação entre as duas alemanhas até 89 (cujas diferenças tardarão a desaparecer) uma viçosa, outra anémica, é prova do efeito do domínio do Estado na economia.
O POVO SOMOS NÓS foi o slogan de Leipzig, e diz tudo sobre o falhanço dos totalitarismos de esquerda, quando uma vanguarda pretende representar o povo mas não o deixa escolher, ou sequer falar - governo do povo, pelo povo, contra o povo.
O que mais me impressiona é como proliferavam os informadores das secretas, como os mais de 100.000 bufos da Stasi alemã, por uma miríade de motivos: cobardia, chantagem, inveja, dinheiro, carreira, … podia ser o vizinho insuspeito, o colega, o cunhado, o irmão.

O caso mais esquizofrénico é o da ROMÉNIA, onde Nicolae e Elena Ceauşescu atingiam o delírio, com ordens para a espionagem dos próprios filhos e para a destruição do cocó do secretário-geral (para espiões não descobrirem as suas doenças), a limpeza de mãos com toalhetes após cumprimentar dirigentes africanos, o envenenamento, tortura e internamento em hospícios dos pseudo-inimigos de Estado, a construção do 2º edifício maior do mundo, a seguir ao pentágono (1100 salas, sobre os escombros de 28 igrejas e 30.000 casas). Isto num país onde as patas de porco eram as “patriotas”, porque toda a restante carne era exportada, para minorar as necessidades de caixa.
Eu, contra a pena de morte, assisti contente ao julgamento sumário e fuzilamento subsequente deste casal. A ser alguma coisa, foi tarde.

* Uma deputada nova do PCP respondeu, em entrevista, nunca ter ouvido falar em GULAG... sinto-me bem representado, e vocês?

domingo, 8 de novembro de 2009

A SEMANADA

Ouvi na TV o discurso do Teixeira dos Santos na AR, a propósito do programa de Governo. Preparado para ouvir disparates, emudeci, a verborreia foi irrepreensível.
Mas parecia mesmo dum governo NOVO: serão alargadas as condições de acesso ao subsídio de desemprego (proposta vetada pelo PS na anterior legislatura), vai haver consolidação orçamental sem aumentar impostos, vai haver reconciliação fiscal (o contribuinte não precisa pagar 1º ao Estado, para receber dele, acertam-se logo as contas), o IVA vai ser devolvido a 30 dias...
Só agora, não tiveram 4,5 anos para fazê-lo? É que não há governo anterior para deitar as culpas, são os mesmos.

Ernâni Lopes afirma que Portugal está a definhar, que a última década é esvaziada e sem substância, “uma predominância de banais tentativas de ilusionismo na política, de incapacidade da visão estratégica, e de fantasia na leitura de realidades económico-financeira”. Tão lúcido como demolidor, para Sócrates e Cª.
Vítor bento prevê que seremos os Trás-os-Montes da Europa e que "gastámos a herança, tudo o que produzimos e ainda retirámos um ano de rendimentos ao nosso filho"…
El matador Medina Carreira dixit: cepa torta; o lodo em que estamos metidos, gente incapaz de tomar conta disto, o ensino é uma farsa e os programas são feitos por semianalfabetos, o país não pode ser dirigido por trafulhas, fraude, isto é um enjoo, há verdadeiros criminosos à solta, os políticos usam ao país como manjedoura, transformou-se o 25/4 nesta piolheira política; quando o Sócrates aparece na TV, mudo de canal, para espectáculo, vou ao circo.
As previsões para 2011 são boas… défice orçamental de 8.7% (2.7% em 2008), o pior nos últimos 24 anos, dívida pública de 91% do PIB (66% em 2008). Para o abismo, marchar, marchar.

Paulo Bento, um dia depois de afirmar que tem resistência para suportar a crítica dos sócios, bate com a porta, dizendo que devia ter saído há 4 meses. Concordo. Antes do jogo com o qualquer-coisa-pils, cheguei a torcer para que o Sporting perdesse, para forçar o homem a sair. Estávamos fartos da “tranquilidade”, que quer dizer continuar a perder serenamente.

Nunca mais esqueci o nome, desde que era deputado nos anos 90: Chocolate Contradanças. Está envolvido na operação “face oculta” (eu chamava-lhe operação vara, versão zootécnica), suspeito de tráfico de influências em prol do homem do lixo, um tal Godinho. O engraçado é que, à volta dos políticos que dão a cara e são escrutinados, há centenas de gajos da tribo infiltrados nas EP e centros de decisão, um meio opaco com mais poder que a face visível do Estado, que se conhecem todos e dão uma ajudinha, pois uma mão lava a outra. Muitos deles já foram deputados, como é o caso, e receberam subsídio de reintegração, pois os coitados saem do hemiciclo com uma mão à frente e outra atrás. Por vezes, a mão da frente está estendida.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

ANGÚSTIAS

Chegou hoje o Natal. Pelo menos assim o dizem as luzinhas já colocadas na CGD e os pinheiros chineses e respectivas toneladas de adereços à venda no Continente. Bem, a estrela cadente já tinha chegado, com o aumento na TV dos anúncios encadeados de brinquedos. Simpáticos, avisam com antecedência que é época de compras.

Sempre sofri de grande ansiedade pré-natal.
Em miúdo, era a expectativa durante semanas, em contagem decrescente para o melhor dia do ano, como um ladrão que risca a parede à espera do fim da pena.
Era a espera à janela da casa dos meus avós, ou o medo de me cruzar com o Pai Natal numa das esquinas dos seus 40 metros de corredor. Era palpar os embrulhos e tentar adivinhar o conteúdo, ou tentar espreitar à socapa sem rasgar o papel.
Curiosamente, as únicas prendas que me lembro são um fato de cowboy amarelo, aos 6 anos, e o Natal de 87, em que recebi um pullover Paul&Shark verde que ainda está como novo e um casaco à clown, que se usava na altura (anos mais tarde, partiram-me o vidro do carro no Porto para roubarem 2 casacos de ganga, mas deixaram esse - ainda me chamaram piroso!).
A última é pièce de résistance: em 92, namorados de fresco, dei à Susana 5 ou 6 prendas, ganhei em troca uma pistolinha isqueiro... Como lembrança, foi uma prenda bem sucedida.

Agora o Natal é a repetição, a cada 12 meses, duma correria em contra-relógio, numa mole de pessoas agitadas, a picar a lista de 33 pessoas a presentear (impressa a do ano anterior, com uma ou outra alteração), tentando encontrar um objecto que agrade minimamente ao destinatário. Confessem, a obrigação do ritual retira qualquer espírito fraterno ao gesto de oferecer algo de especial, pessoal e intransmissível. Balelas, é como ir ao supermercado, com um corredor bom para encher parte do carrinho (livros na FNAC).
Bem, recuso por agora pensar na despesa que será mais uma vez.

Mas o Natal é também sinónimo de falta de espaço, com as pilhas de brinquedos que terei que arrumar no quarto dos miúdos, sem que os mais antigos desapareçam.
A foto mostra um brinquedo de 1930 do meu tio-avô, um bocado de folha-de-flandres laranja, amolgada na forma dum chassis dum carro, com buracos no lugar dos vidros. Para chegar à minha mão, devia ser especial. Ainda que fosse normal, não tem nada a haver com os jipes telecomandados de hoje.
Mesmo há 30 anos, um forte de madeira do farwest, ou um jogo informático muito básico com um ponto branco e duas barras laterais (ténis pré-histórico, lembram-se?) era para uns poucos afortunados; agora, NÃO ter uma Playstation é quase violência doméstica, pois todas as crianças têm que ter o mesmo que os amigos, sob pena de desarranjo emocional.
Consequência, agora qualquer quarto de criança está pejado de plástico e pelúcia coloridos. Metros e metros cúbicos - e os miúdos ainda têm a lata de dizer “não sei a que hei-de brincar…” Que tal uma bola feita de meias ou umas tábuas e uns rolamentos, para montarem um carrinho?

A todos, feliz temporada.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

É SEMPRE A FAVOR DA BANCA


Numa altura longínqua em que poupava de forma sincopada, o BCP ofereceu-me uma proposta fantástica: 6 meses de taxa 2x acima do mercado, e 5 anos com a guita aplicada na bolsa, sem limite de descida, mas limite de subida de 4%. Conclusão, com as oscilações, houve um rendimento final de 24%, a banca ficou com 20% e eu com o resto, abaixo da inflação.

O BPI mandou-me ontem pela 2ª vez uma proposta para eu aplicar parte do meu porquinho em 5 lotes de acções de empresas energéticas durante 4 anos. Em cada ano, ganho se todas subirem (1% no 1º ano, 2% no 2º, 3% no 3º e 4% no último), basta uma não subir e não recebo nada.
A minha filha tem 8 anos e não percebeu as contas: 1000€ em cada lote, se 4 subirem 20% e 1 descer 1€, a banca ganha 799€ e o dono do dinheiro fica em branco.
Hum, acho que vou repetir a resposta que dei pessoalmente à senhora que me atendeu na primeira tentativa, é uma proposta indecente. Avisem se houver algo menos desigual, ou mais subtil, eu espero.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

1/2. A MINHA AVÓ RECICLAVA

A campanha da Optimus neste verão era “Troca o teu telemóvel pré-histórico”. Eu nem sou de ecosermões, e vou no 7º telemóvel em 14 anos, mas o soundbite é o apelo mais descarado ao consumismo: deita fora o telemóvel que ganhaste no natal e serve para telefonar, por um novo (com GPS, banda larga, ecrã táctil e ainda vai buscar os miúdos à escola) que será velho no próximo natal! I.e., deixa-te consumir pelo consumo.
É por isso que a poupança dos portugueses definhou em 30 anos com a mesma rapidez com que o crédito bancário se multiplicou: na altura, o povo era FRUGAL, gastava os escudos no que precisava, e por vezes tinha uns pequenos luxos, agora gastamos os euros em coisas menos básicas, nem que se peça emprestado. Bem, mesmo dentro das nossa posses, não haja dúvidas que agora qualquer um de nós vive muito melhor que a própria Rainha Vitória.

E para ter um equipamento novo, há que dar destino ao anterior. Nos EUA são “trocados” anualmente 150 milhões de PC e um valor parecido de telemóveis - parte dos quais é reciclado em fundições medievais na China, por cidadãos que preferem um cancro, se for pago a um dólar/dia.

Pois a minha avó reciclava e não sabia o que era uma pegada ecológica: as meias rotas eram serzidas, as compras eram carregadas num carrinho de lona axadrezada e as batatas vinham para casa em sacos de nylon entrançado; as máquinas eram consertadas, pois a reparação era muito mais barata que um aparelho novo; os sacos de pão e as fraldas eram de pano, os iogurtes e o leite vendiam-se todos em frascos de vidro e as caixas de lápis eram de madeira com tampa corredia… mas o meu símbolo preferido da reciclagem é a AÇORDA, que não se fazia só por gastronomia.
Agora é tudo descartável, e de plástico, curiosamente um material que a Terra não consegue descartar (conceda-se, como a globalização, o plástico é também responsável pelo baixo custo dos produtos).