...e depois, com bigodes de leite, pedem mais paciência e esforço ao povo, que a "vaca 'tá seca".
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quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

EXCALIBUR

É oficial, a espada original de Afonso Henriques está no Porto.
Então, é assim: o rei morre em 1185 e é enterrado no adro da igreja de Santa Cruz de Coimbra. Em 1190, com medo da invasão almóada, os cónegos regrantes de santo agostinho conseguem autorização de Sancho I para transladarem o corpo para o átrio da igreja. A espada de Afonso Henriques estaria então dentro do caixão de cedro e, sobre a pétrea sepultura, estaria colocado o seu pavês (escudo grande) que, conta a lenda, caía ao chão sempre que um monarca morria e o trono ficava vacante.
Em 1513 (ou 1518) Manuel I resolve dar outra dignidade às sepulturas de Afonso Henriques e Sancho I, e manda construir os belos túmulos no estilo manuelino que conhecemos hoje, terminados no reinado de João III. As armas de Afonso Henriques ficam então expostas, a espada e o pavês.
Em carta de 14 de Março de 1578, depois duma peregrinação aos mosteiros da batalha e de santa cruz, visitando os túmulos dos ancestrais, e tendo ficado fascinado com a espada do fundador (surpreso por tão pequena espada ter sido sempre vitoriosa), Sebastião pede aos monges que lhe emprestem as armas do fundador para a sua expedição em África ('pedido' aceite, contra a promessa de meter uma cunha ao papa, no processo de canonização do primeiro monarca). A 24 de Agosto de 1578, a frota atraca em Lisboa, com a funesta notícia, não só o Desejado não venceu a mourama, como morreu em batalha.
Em 1609, surpresa!, a relíquia reaparece exposta na sepultura do monarca. Conta-se que teria regressado ao reino após a derrota lusitana em Alcácer-Quibir - na azáfama do desembarque em Marrocos, o impetuoso rei esquecera a espada no barco... - e o rei-cardeal D. Henrique devolvera-a ao mosteiro.
Depois da guerra civil de 1828-34, Pedro IV resolveu dar provas de gratidão ao Porto, pelo seu sacrifício durante o cerco (além do coração, que legou à cidade, e da ordem de torre e espada, concedida pela filha, Maria II) - em 1833, aproveitando a recente dissolução das ordens religiosas, oferece a espada de Afonso Henriques ao Museu Portuense, que fundara enquanto estivera sitiado na Invicta, título que deu à cidade.
Em 1987, o agora chamado Museu Nacional Soares dos Reis, colocou a espada em depósito no Museu Militar do Porto.
Uma história feliz, fosse a espada do fundador. Não é, porque não é do século XII: é demasiado leve (pouco mais de 1,1 kg), o pomo circular (em cobre e com folha de ouro, incomum para a época) não é suficiente para servir de contrapeso à lâmina, que é de ferro (e não de aço, como seria de supor), o punho é curto e bojudo, quase impossível de manejar numa batalha (os da época eram rectos) e as guardas são helicoidais e não rectas. De facto, a 'relíquia' parece-se mais com as espadas de guarda portuguesas do século XVI - um estilo já arcaico para quem mandasse fazer uma espada 'antiga' no início de seiscentos.
Verdade verdadinha, o reaparecimento da espada de Afonso Henriques dava um jeitaço, em pleno domínio filipino, para exaltar o brio nacional.
Nada que uma novena não tenha expiado o pecado desses cónegos que, num conspirativo passeio pelos claustros, durante umas sonolentas Completas ou numa reunião do Capítulo sem assunto, congeminaram o renascimento da nossa Excalibur.

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

SERÁ FADO?


   'O Governo português anda mendigando em Londres um novo empréstimo.
   Os nossos charlatães financeiros não sabem senão estes dois método de governo:
- Empréstimos e impostos.
   Por um lado, o governo mandou para as cortes um carregação de propostas tendentes todas a aumentar de tributos; por outro lado, o governo vai negociar um empréstimo no estrangeiro.
   É dinheiro emprestado e dinheiro espoliado.
   Pede-se dinheiro aos agiotas para pagar às camarilhas; depois tira-se ao povo para pagar as agiotas!
   E ao passo que se trata de um empréstimo em Londres, negoceia-se outro empréstimo com os bancos nacionais.
   Este tem carácter de dívida flutuante* interna e é para pagamento da dívida consolidada** externa!
   Este empréstimo que nos está às costas para pagamento no fim de três meses, sai na razão de 13/2%!
   E no fim não é dinheiro aplicado em nenhum melhoramento público; é só dinheiro para pagar juros da dívida!
   É a dívida a endividar-nos cada vez mais! É a dívida a crescer para pagar as sinecuras do estado! É a dívida a multiplicar-se para não faltarem à corte banquetes, festas, caçadas, folias!
   Esta situação é terrível e tanto mais que ela exige para não se agravar, de sacrifícios que o país não pode e que de mais não deve fazer, quando eles são apenas destinados às extravagâncias da corte e ao devorismo do poder, no qual se inscreve agora o novo subsidio aos pais da pátria!'
em A Lanterna, 17.12.1870
Fica a pergunta, não se aprendeu nada?

* dívida pública a curto prazo; ** dívida pública sem prazo de reembolso

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

GANDHI E O PROFESSOR PETERS

 
Enquanto Gandhi estudava Direito no Colégio Universitário de Londres, um professor de nome Peters tinha-lhe aversão, mas o estudante nunca baixou a cabeça e os seus 'encontrões' eram frequentes.
Um dia, Peters estava a almoçar na sala de jantar da Universidade, o aluno vem com a bandeja e senta-se ao lado do professor. O Professor, altivo, disse "Sr. Gandhi, você não entende... Um porco e um pássaro não se sentam juntos para comer.", ao que Gandhi respondeu "Fique o professor tranquilo... Eu vou voando", e mudou-se para outra mesa.

Peters ficou cheio de raiva e decidiu vingar-se no teste seguinte, mas o aluno respondeu de forma brilhante a cada pergunta. Então o professor fez mais uma pergunta: "Mr. Gandhi, você está a andar na rua e encontra um saco, dentro dele está a sabedoria e uma grande quantidade de dinheiro, qual dos dois tira?"
Gandhi respondeu sem hesitar: - "É claro, professor, que tiro o dinheiro!"
O Professor, sorrindo, retorquiu "Eu, ao contrário, tinha agarrado a sabedoria, você não acha?". "Cada um tira o que não tem", respondeu o aluno.
Peters ficou histérico e escreveu no papel da pergunta: "Idiota!"
O jovem Gandhi recebeu a folha e leu atentamente. Depois de alguns minutos, dirigiu-se ao professor e disse "Mr. Peters, reparo que assinou a minha folha, mas não colocou a nota".

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

ENTREVISTAS DE FERRO A SALAZAR



Não há livro sobre a ditadura que não tenha como referência bibliográfica as entrevistas de Salazar a António Ferro – 5 em 1932 e 2 em 1938 – publicadas no Diário de Notícias, como folhetim. Embora realizadas no início do seu longo consulado, são o testemunho político de Salazar – ali o ditador diz ao que veio.
Chamar-lhes entrevistas talvez não seja o mais correcto, Ferro é mais uma espécie de mediador entre um governante desconhecido e o povo (como escreveu em O Ditador e Multidão, embora uma ditadura não possa passar a vida a narcisar-se, o ditador deve contactar com o povo, galvanizá-lo, coando a supressão de liberdades e direitos através da alegria e entusiasmo, apresentando-lhe uma bandeira – porque ‘os povos não gostam de ser arrastados: gostam de ser levados…’). Com adulação e algum romance, termo que Ferro usa como analogia para o seu inquérito, no mesmo parágrafo onde fala em ‘peça’, ‘último acto’ e ‘o pano vai subir’. O ditador na boca de cena, portanto.
Acresce o detalhe das embevecidas* entrevistas – mesmo as perguntas teoricamente mais assertivas servem de passadeira vermelha para Salazar explanar o seu argumentário - terem sido submetidas à apreciação prévia do lente coimbrão e terem sido redigidas de memória (Ferro guardou o bloco, em detrimento duma conversa mais fluída) - como escreve Salazar no prefácio, as respostas passaram pela pena do jornalista, ganhando uma beleza literária que de seu natural não tinham.
O objectivo? Como justifica na Introdução, Ferro pretende saber quem é o novo presidente do Conselho (‘Talvez um teimoso, talvez um visionário, talvez um orgulhoso, talvez um insensível, um inadaptado dentro da sua raça, mas um homem indiscutivelmente honesto e inteligente.’) e saber se ele pretendia aplicar o bem-sucedido método aplicado na pasta das finanças – cuja descrição parece actual (ver caixa) -, ‘ao orçamento errado, desequilibrado, da própria alma da raça, às suas verbas excessivas e às suas verbas insuficientes, valorizando aqui certas qualidades, reduzindo taras e defeitos acolá. Impostos, imposições, sobre certas reacções individuais… O combate metódico, mas tenaz, a um défice de virtudes e os esforços consequentes para chegar a superavit…’  

E hei-lo, sozinho, e frente da crise, desprezando a sua grande cultura financeira, armando-se temporariamente com as quatro operações aritméticas: somar, diminuir, multiplicar e dividir… O primeiro movimento foi de incredulidade perante este critério simples de dona de casa. (…) Como resistir ao cautério, ao peso das contribuições, ao arrumo forçado, violento, das contas do Estado? (…) Foi o momento, a hora difícil do dr. Oliveira Salazar, como ministro das Finanças. Por toda a parte, nos cafés, nos eléctricos, nas lojas, nos Bancos, nas casas burguesas, à hora do jantar, a campainha de alarme, o verdadeiro pânico: «Mas este homem é um louco!... Mas este homem tira-nos a pele!... Mas este homem leva-nos à ruína!...», O dr, Oliveira Salazar teria soçobrado, nesse momento, se tivesse dado o flanco, se tivesse discutido, se tivesse saído da sua terrível e admirável serenidade. (…) Os que tinham sentido o seu país *a beira da ruína foram-se levantando, hoje um, amanhã outro, confusos, feridos, amachucados, apalpando-se a si próprios, espantados pelo milagre: «Pois será possível? Ainda estamos vivos?» Alguns, é certo, nunca mais puderam erguer-se, mas foram aqueles, talvez, que tinham os seus dias contados…

Quem ler o livro, ou este resumé (leva o tempo de fazer uma tosta, é favor ligar a torradeira) conclui que Salazar era um homem do seu tempo, com os preconceitos naturais à época, apóstolo dum governo musculado (no rescaldo duma 1ª república caótica e pouco democrática) e descrente no parlamentarismo e dos seus debates estéreis, visando apenas o poder. Era um homem do seu tempo em 1932, mas, senão antes, em 45 já o seu tempo passara.
 
ANTI-PARLAMENTARISMO, UM SINAL DOS TEMPOS
A primeira entrevista parte do seu discurso de 23 de Novembro, onde Salazar dá ordem de desmobilização às direitas conservadoras, católicos e monárquicos, atacando a lógica de facções, pois é hora da união nacional - só falta o grito de batalha, por São Jorge, a mim!

´Nós temos uma doutrina e somos uma força. (…) Nestas circunstâncias não há acordos, nem transições nem transigências possíveis. Os que concordam com o nosso programa fazem um acto patriótico, declarando a sua concordância e trabalhando abertamente a nosso lado; os que não concordam podem ser igualmente sinceros e dignos confessando a sua discordância, são mesmo livres de proclamá-la mas, no que respeita a uma actuação política efectiva, levá-los-emos pelo melhor modo possível a que não nos incomodem demasiadamente. (…) Não estão connosco os que preferem à obediência a sua liberdade de acção nem os que sobrepõem às directrizes superiormente traçadas as indicações da sua inteligência, ainda que esclarecida, ou os impulsos, ainda que nobres, da sua vontade.’ (discurso)

Salazar afirma que a Ditadura se fez contra o espírito partidário, que a Constituição não facilitará a ressurreição dos partidos e que não deixará formar até agrupamentos dentro da Situação. A sua opinião é linear, ‘Os partidos – não o esqueçamos – eram em geral grandes agências de colocações onde se entrava, como se entra nas bichas, para esperar vez, para aguardar a fatal distribuição de benesses na hora do Poder.’
Na 5ª entrevista, volta à carga: ‘Eu não tenho horror aos partidos, dum modo geral, tenho horror ao partidarismo em Portugal. A Inglaterra vive, pode dizer-se, há séculos com os seus dois partidos alternando-se no poder, e até ao presente têm-se dado bem com isso. (…) A terapêutica da Nação doente, retalhada, exige-nos uma imobilização, que pode ser definitiva ou demorada, de toda a acção política fragmentária. (…) eu sou, de facto, profundamente anti-parlamentar porque detesto os discursos ocos, palavrosos, as interpelações vistosas, e vazias, a exploração das paixões não à volta duma grande ideia, mas de futilidades, de vaidades, de nadas sob o ponto de vista do interesse nacional.’
Na derradeira conversa, Salazar volta a advogar a governação em petit comité, ‘Há certas leis que se tornariam perigosas ou se prestariam a especulações inconvenientes se não fossem elaboradas em silêncio, como, por exemplo, aquelas que dizem respeito a direitos’, embora reconheça que ‘todo o poder sem fiscalização, até quando se trata de um bom governo, tem tendência para exorbitar’.
 
A AUTORIDADE E A LIBERDADE
Salazar é peremptório, na 2ª entrevista, ‘Autoridade e liberdade são conceitos incompatíveis… Onde existe uma não existe a outra…’, recorrendo a um argumento simiesco: ‘A liberdade vai diminuindo à medida que o homem vai progredindo, que se vai civilizando. Desde o homem primitivo, absolutamente livre no mundo da sua floresta, ao homem de hoje, que obedece a sinais, obrigado a seguir, nas ruas duma cidade, pela direita ou pela esquerda, quanta distância percorrida, quantos progressos realizados. Entreguemos, pois, a liberdade à autoridade, porque só ela a pode administrar… e defender. (…) A liberdade garantida pelo Estado, condicionada pela autoridade, é a única possível, aquela que nos pode conduzir, não digo à felicidade do homem, mas à felicidade dos homens.’
Na última entrevista, 6 anos depois, Salazar insiste, ‘Não pode haver liberdade contra a verdade; não pode haver liberdade contra o interesse comum’ – a sua verdade e o interesse comum visto por si, devia acrescentar-se.
 
 A CENSURA, UM MAL NECESSÁRIO
‘Chego a pensar que a censura é uma instituição defeituosa, injusta, por vezes, sujeita ao livre arbítrio dos censores, às variantes do seu temperamento, às consequências do seu mau humor. Uma digestão laboriosa, uma simples discussão familiar, podem influir, por exemplo, no corte intempestivo duma notícia ou da passagem dum artigo. Eu próprio já fui em tempos vítima da censura e confesso-lhe que magoei, que me irritei, que cheguei a ter pensamentos revolucionários…’
Na 2ª entrevista, assim começa Salazar a sua prédica sobre a censura, pretendendo ‘reduzir a sua acção ao indispensável’, mas que crê necessária: para evitar ‘que se deturpem os factos, por ignorância ou má-fé, para fundamentar ataques injustificados à obra dum governo’; como instrumento moralizador, já que alguma imprensa oferecia ‘uma imagem de saguão: intrigas, insultos, insinuações, pessoalismos, provincianismos, baixa intelectualidade. Ora o jornal é o alimento espiritual do povo e deve ser fiscalizado como todos os alimentos; para impedir, não a boa doutrina, sem acinte e com boa fé, mas a ‘doutrina subversiva, demasiado habilidosa’.
Na 7ª entrevista, respondendo às críticas dos liberais franceses e ingleses acerca do analfabetismo lusitano, e trazendo à baila a ofensiva do comunismo internacional, Salazar encontra mais uma razão para amordaçar o povo: ‘A censura, hoje, por muito paradoxal que a afirmação lhe pareça, constitui a legítima defesa dos Estados livres, independentes, contra a grande desorientação do pensamento moderno, a revolução internacional da desordem. Eu não temo o grande jornalismo desde que seja português e o demonstre. O que temo são os pequenos jornalistas que se desnacionalizam sem dar por isso, talvez por não estarem suficientemente armados para se defenderem de sedutoras e fáceis teorias’.
 
OS ISMOS
Nessa 2ª entrevista, há espaço para Salazar se demarcar do capitalismo, ‘É evidente que o capital precisa de ser transformado, disciplinado, educado, de molde a beneficiar mais a colectividade, no sentido dum maior rendimento social’, mas também para morder no Estado XXL a que se cola boa parte da nação: ‘Esse Socialismo de Estado, que muitos apregoam e aconselham como um regime avançado, seria, na verdade, o sistema ideal para lisonjear o comodismo nato e o delírio burocrático do comum dos portugueses. Nada mais cómodo, mais garantido, mais tranquilo, do que viver à custa do Estado, com a certeza do ordenado ao fim do mês e da reforma no fim da vida, sem a preocupação da ruína ou da falência. O Socialismo do Estado é o regime burguês por excelência. A tendência para esse regime, entre nós, deve, portanto, procurar-se mais no fundo, falho de iniciativa da nossa raça do que noutras preocupações do ordem social. O Estado não paga mal e paga sempre. É-se desonesto, além disso, com maior segurança, com segura esperança de que ninguém repare. As próprias falências, os desfalques, as irregularidades, se há compadres na governação, são facilmente abafados e os défices cobertos – regalia única! – pelos orçamentos do Estado. As iniciativas, por outro lado, não surgem, não progridem, porque o patrão é imaterial, quase uma imagem. As coisas marcham com lentidão, com indolência, com sono.’
 
A BRANDA VIOLÊNCIA
Na inquirição seguinte, Salazar procura afastar-se de Mussolini, a quem chama de admirável oportunista da acção, e do fascismo, que considera um caso nacional irrepetível, cuja violência constante não se adapta aos nossos brandos costumes: ‘Há que governar, portanto, tendo sempre em conta esse sentimentalismo doentio a que nós estamos habituados a chamar bondade. A Ditadura para realizar a sua obra tem de ser calma, generosa, um tudo nada transigente, vagarosa até. Ela perderá em tempo mas ganhará em eficácia e solidez: uma Ditadura de direito sem dar grandes asas ao poder pessoal. (…) Há problemas de interesse nacional, de interesse colectivo, que se resolveriam facilmente com duas penadas, passando por cima de tudo, de todas as leis, de todas as normas, de todos os obstáculos individuais. Mas o bem que uma vez se faz, pode ser inutilizado pelo muito mal que outras vezes se poderia fazer. Um poder sem limites, rápido, decisivo, tem suas seduções, suas vantagens e seus perigos.’
Salazar, ‘o primeiro a reconhecer que há, talvez, maior saúde, maior justiça, maior claridade, num poder pessoal largo, bem compreendido e dirigido. Simplesmente, para usar desse poder pessoal, é preciso encontrar homens raros, homens moralmente excepcionais, com uma grande disciplina interior, uma vontade firme e uma inteligência clara’, vê-se como um príncipe iluminado: à pergunta de Ferro, se não estará ele nessas condições, Salazar sorri e responde um singelo muito obrigado. 
Às notícias de maus tratos a presos políticos, Salazar começa por sublinhar que alguns casos tinham fundamento, tendo sido tomadas imediatas providências, mas que ‘os presos maltratados eram sempre, ou quase sempre, temíveis bombistas que se recusavam a confessar (…) Só depois de empregar esses meios violentos é que eles se decidiam a dizer a verdade. E eu pergunto-me a mim próprio, continuando a reprimir tai abusos, se a vida de algumas crianças e de algumas pessoas indefesas não vale bem, não justifica largamente, meia dúzia de safanões a tempo nessas criaturas sinistras… Sinistro.
 
A MISÉRIA, SECREÇÃO DO PROGRESSO (subtítulo da 7ª entrevista)
Ao 3º dia, o Estado social: ‘O subsídio sem o trabalho compensador desmoraliza os indivíduos, torna-os indolentes, comodistas, completamente inúteis à vida duma sociedade. O subsídio a troco de trabalho, pelo contrário, não desabitua os homens da sua função natural dentro da vida e enriquece o País com o acabamento e a iniciação das obras públicas (…)’ Faz lembrar o RSI, não faz?

Na mesma prosa, Salazar considera a mendicidade um falso problema, que induz estrangeiros e nacionais em erro, facilmente resolúvel - varra-se para baixo do tapete: ‘Essa mendicidade não é um índice de miséria porque é antes um vício, porque a maioria dos que pedem não precisam de pedir. O caso mão tem, portanto, a gravidade que se lhe atribui, salvo a sua teatralidade explorável, e pode ser resolvido, se houver boa vontade, castigando, severamente, os falsos mendigos, devolvendo à procedência, à sua terra natal, os pobres que não são de Lisboa e metendo os restantes, os autênticos, nos asilos existentes e noutros que se improvisem para acudir, urgentemente, a esse mal.’
Em suma, a mendicidade é anti-patriótica.
 
O MÍSTICO DAS CIFRAS
Na 4ª entrevista, Ferro ousa uma crítica que ainda hoje se lhe faz, ‘Há quem diga – com aparente razão, pelo menos – que o Estado português pode ter enriquecido, através da obra notável do seu ministro das Finanças, mas que o indivíduo está pobre, quase na miséria…’, e Salazar justifica a austeridade: ‘Nesses períodos de cura, pode reduzir-se, efectivamente, o poder de compra do indivíduo, mas essa redução é sempre compensada pelos benefícios duma administração severa e honesta’.
Mais adiante, considera-se partidário ‘duma certa severidade fiscal, tendente não ao imposto esmagador da economia individual, mas ao imposto forte, estímulo daquela, condição de progresso pelas vantagens colectivas que pode criar. (…) A solução, portanto, é arrancar ao indivíduo essas contribuições, que, no fundo, não lhe adiantam nem atrasam e que podem ser, convenientemente orçamentadas, uma fonte de riqueza e prosperidade…’
A forma, aliás, como o ditador vê os críticos, é curiosa: na 6ª entrevista, um freudiano Salazar justifica o descontentamento ‘de certos sectores’ com a nova prática política, que não atende a interesses individuais, e com a natureza dos portugueses, que os torna um pouco tristes, descontentes, um tudo-nada revoltados: ‘Há um abismo entre a nossa inteligência, viva e pronta, de meridionais, e a nossa débil vontade, pouco paciente, pouco tenaz. Este abismo provoca, no meu entender, um verdadeiro desequilíbrio psíquico.’
 
A MULHER
‘Nos países ou nos lugares onde a mulher casada concorre com o trabalho do homem (…) a instituição da família, pela qual nos batemos como pedra fundamental duma sociedade organizada, ameaça ruína… Deixemos, portanto, o homem a lutar com a vida no exterior, na rua… E a mulher a defendê-la, a razê.la nos seus braços, no interior da casa… não sei, afinal, qual dos dois terá o papel mais belo, mais alto e mais útil. (…) De resto, as mulheres portuguesas não têm que se queixar de nós. O nosso estatuto constitucional marca-lhes uma conquista: reconhece-lhes, com as possíveis restrições, igualdade de direitos e até, em certas condições, o direito ao voto…’ (5ª entrevista)
E não se queixem, parece pensar.
 
A VANGUARDA DO POVO
Os extremos tocam-se. As palavras lidas na 7ª entrevista poderiam ser escritas por Estaline, só que em cirílico: ‘A opinião pública é indispensável à vida de qualquer regime. Os governos por mais apoios de que disponham, não se mantêm usando a força, mas mantendo-a (…) Simplesmente essa opinião pública pode viver abandonada a si própria ou ser convenientemente dirigida…’
Ferro pergunta se Eugénio d’Ors não terá razão ao defender a necessidade, em certas épocas históricas, da política de missão, aquela que procura salvar o povo contra si próprio, e Salazar responde que ‘os governos nunca se devem escravizar a opinião das massas, sempre inferior e muito diferente da opinião pública da Nação. Em resumo, a opinião pública é indispensável ao governo dos povos, constitui, por vezes, um grande estimulante, mas nunca se deve perder, a bem da sua própria saúde, o controlo da sua formação.’ Um verdadeiro engenheiro de almas.
Mais adiante, uma confissão, ‘A verdade é que não poderia adular o povo sem trair a minha consciência. Nós constituímos um regime popular, mas não um governo de massas, influenciado ou gerido por elas.’ Afinal, quem é que manda aqui?
 
POBRES E HONRADOS
Nessa última conversa, como vê Salazar o seu povo? ‘Bondoso, inteligente, dócil, hospitaleiro, trabalhador, facilmente educável, culto…’, mesmo que com fraca instrução, e ‘Excessivamente temperamental, com horror à disciplina, individualista sem dar por isso, falho de espírito de continuidade e de tenacidade na acção. A própria facilidade de compreensão, diminuindo-lhe a necessidade de esforço, leva-o a estudar todos os assuntos pela rama, a confiar demasiado na espontaneidade e brilho da sua inteligência. Mas quando enquadrado, convenientemente dirigido, o português dá tudo quanto se quer.’ Esses defeitos são resolúveis com a formação de elites que eduquem e dirijam a Nação, considerando Salazar ‘mais urgente a constituição de vastas elites do que ensinar toda a gente a ler. É que os grandes problemas nacionais têm de ser resolvidos, não pelo povo, mas pelas elites enquadrando as massas.’
‘Quero levar os portugueses a viver habitualmente’, disse Salazar a Henri Massis. ‘É mais humano e mais cristão procurar antes aquela mediania colectiva em que não são possíveis nem os miseráveis nem os arquimilionários’. Quem pode ficar satisfeito com a mediania, é a questão. 
 

No prefácio do livro publicado à época, um pouco ambicioso Salazar vê a Pátria como ‘uma casa branca, cheia de sol, num quintal cuidado, em que a vida é pacífica, alegre, operosa e digna.’ Só falta mesmo o cheirinho a alecrim...
No mesmo texto, um assomo de lucidez, Contra uma consciência pública esclarecida e generalizada não há possibilidade de os Governos se manterem duradoiramente, ao menos sem um certo desenvolvimento de força, nem sempre legítimo’ e um misto de mito e profecia, quando analisa a imagem que as entrevistas lhe conferem, alguém que ‘tem todo o ar de lhe ser indiferente estar ou ir; em todo o caso, está. Está e está há tanto tempo e tão tranquilamente como se ameaçasse nunca mais deixar de estar’.
A rematar o prefácio, uma prova de que o anti-político era um Maquiavel encartado: ‘Peço desculpa de ter escrito este Prefácio. Não é que me envergonhe de o haver feito; é que me roubou tempo de que precisava para outras coisas’. Haverá demagogia maior? 

* No remate das 5 entrevistas de 1932, Ferro compara Salazar a D. Henrique (excesso de entusiasmo) e vê-o como o grande Chefe moral duma nação, um reformador singular ‘através duma sufocação dolorosa, por vezes, mas talvez benéfica e redentora…’. O texto termina com um conselho, ‘E agora, que já o ouvimos, vamos cada qual para a nossa vida… Não façamos barulho… deixemo-lo trabalhar…’
Passam 6 anos e Ferro volta à carga, com mais duas entrevistas. Já não é o jornalista ao serviço das palavras, mas o político ao serviço das ideias, dirigente do Secretariado da Propaganda Nacional desde a sua criação, em 1933 (cargo que ocupou até 1949, no renomeado Secretariado Nacional de Informação). A paixão por Salazar, a mesma de sempre: ‘Quanto tempo perdido, afinal, antes de Salazar, antes de encontrar a verdade’, escreve Ferro sobre o tempo decorrido.
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quinta-feira, 22 de agosto de 2013

MODERNICES


[em 1968] Já o homem ideal, segundo as crónicas femininas, deve telefonar à mulher quando se atrasa no escritório. «Escangalha-se uma torneira, entope-se um cano» e ele deve arranjar. Tem de estar disponível para «pegar num esfregão e num balde» e não arvorar «ar de mártir» nessas tarefas. Não pode ainda esquecer o aniversário de casamento, de elogiar o novo penteado ou o vestido da consorte. E isso «sem fazer alusão a quanto possa ter custado», pois o «homem ideal» sabe que «a mulher precisa de dinheiro para gastos pessoais e estabelece o orçamento para que não haja discussões». Se há mulheres que não conseguem encontrar a sua cara-metade com esses predicados, «é por sua própria culpa».

Em A Última Criada de Salazar, Miguel Carvalho

sábado, 1 de junho de 2013

PANTEÕES RÉGIOS *

Sé de Braga
     Henrique de Borgonha (1066 - Astorga 1112)
     Teresa de Leão (1080 - Montederramo 1130) 

Mosteiro de Santa Cruz, Coimbra
     1 Afonso Henriques, o conquistador (Guimarães, Coimbra ou Viseu 1109 - Coimbra 1185)
     2 Sancho I, o povoador (Coimbra 1154 - Coimbra 1211)

Mosteiro de Alcobaça
     3 Afonso II, o gordo (Coimbra 1185 - Santarém 1223)
     5 Afonso III, o bolonhês (Coimbra 1210 - Coimbra 1279)
     8 Pedro, o justo (Coimbra 1320 - Estremoz 1367)

Catedral de Toledo
     4 Sancho II, o capelo (Coimbra 1209 - Toledo 1248)

Mosteiro de Odivelas
     6 Dinis, o lavrador (Lisboa? 1261 - Santarém 1325)

Sé de Lisboa
     7 Afonso IV, o bravo (Coimbra 1291 - Lisboa 1357)

Convento do Carmo, lisboa
     9 Fernando, o formoso (Coimbra ou Lisboa 1345 - Lisboa 1383)**

Mosteiro da Batalha
     10 João I, o de boa memória (Lisboa 1357 - Lisboa 1433)
     11 Duarte, o eloquente (Viseu 1391 - Tomar 1438)
     12 Afonso V, o africano (Sintra 1432 - Sintra 1481)
     13 João II, o príncipe perfeito (Lisboa 1455 - Alvor 1495)

Mosteiro dos Jerónimos, Lisboa
     14 Manuel I, o venturoso (Alcochete 1469 - Lisboa 1521)
     15 João III, o colonizador (Lisboa 1502 - Lisboa 1557)
     16 Sebastião, o desejado (Lisboa 1554 - Alcácer-Quibir 1578) (?)
     17 Henrique, o casto (Lisboa 1512 - Almeirim 1580)

Mosteiro do Escorial, Madrid
     18 Filipe I (Valladolid 1527 - El Escorial, 1598)
     19 Filipe II (Madrid 1578 - Madrid 1621)
     20 Filipe III (Valladolid 1605 - Madrid 1665)

Mosteiro de S. Vicente de Fora, Lisboa
     21 João IV, o restaurador (Vila Viçosa 1604 - Sintra 1656)
     22 Afonso VI, o vitorioso (Lisboa 1643 - Sintra 1683)
     23 Pedro II, o pacífico (Lisboa 1648 - Alcântara 1706)
     24 João V, o magnânimo (Lisboa 1689 - Lisboa 1750)
     25 José, o reformador (Lisboa 1714 - Lisboa 1777)
     cs. Pedro III (Lisboa 1717 - Queluz 1786)
     27 João VI, o clemente (Lisboa 1767 - Lisboa 1826)
     29 Miguel, o absolutista (Queluz 1802 - Grão-ducado de Baden, 1866)
     30 Maria II, a educadora (Rio de Janeiro 1819 - Lisboa 1853)
     31 Pedro V, o esperançoso (Lisboa 1837 - Lisboa 1861)
     32 Luís, o popular (Lisboa 1838 - Cascais 1889)
     33 Carlos, o diplomata (Lisboa 1863 - Lisboa 1908)
     34 Manuel II, o desventurado (Lisboa 1889 - Twickenham 1932)

Basílica da Estrela, Lisboa
     26 Maria I, a piedosa (Lisboa 1734 - Rio de Janeiro 1816)

Capela Imperial, S. Paulo
     28 Pedro IV, o libertador (Queluz 1798 - Queluz 1834)

* O título panteão nacional foi atribuído apenas ao mosteiro de Santa Cruz (em 2003), e à igreja de Santa Engrácia (em 1916), onde estão enterrados 4 escritores, 1 fadista, 4 PR e 1 candidato a PR.
** Por decisão própria, Fernando foi enterrado no convento de S. Francisco, em Santarém, para onde já levara as ossadas da mãe, Constança Manuel; foi a ruína do convento que levou à sua transladação... para outras ruínas.


Mesmo quem não conheça nada da história da Portugal, o roteiro das 'últimas moradas' diz muito: a variedade duma 1ª dinastia em conquista territorial; a dinastia de Avis dividida em duas partes, uma virada para a independência e outra para as descobertas - e a clivagem passa por uma sucessão entre primos; a constância dos Braganças (precedida em Vila Viçosa, enquanto duques). 
Até as excepções são elucidativas: um Sancho II exilado pelo irmão e um Pedro IV que quis ser brasileiro.
Ao rigor 'pedagógico' só escapam Afonso VI, encarcerado em Sintra e a quem o irmão tomou o trono e a mulher, e Miguel, que perdeu a guerra civil, vindo a morrer na Alemanha.     
 
Mosteiro de Santa Cruz

Mosteiro de Alcobaça

Mosteiro de Odivelas
Sé de Lisboa

Covento do Carmo

Mosteiro da Batalha

Mosteiro dos Jerónimos

Mosteiro de São Vicente de Fora

Basílica da Estrela

domingo, 12 de maio de 2013

A VENDER CARNE HÁ MAIS DE 100 ANOS (II)

BUTCHERING FOR OVER 100 YEARS AGO
  
São talhos, senhor, são talhos. Com carcaças perfeitamente alinhadas e simétricas, aventais imaculados e poses sérias, pois tirar uma 'chapa' era um evento, e a imagem contava, hoje como ontem: come-se com os olhos. Poder-se-ia pensar que a carne foi quase toda trazida para a rua, de propósito para a ocasião, mas o facto é que a mercadoria era habitualmente 'exposta' aos fregueses... e às varejeiras.  
 
PORTUGAL
1908, Praça da Figueira (foto Joshua Benoliel)
 
UNITED KINGDOM
 'temos miolos frescos todos os dias', diz a tabuleta
 1888, John Eaton and his traditional Christmas show, Montgomery
 1897 (prov.), butcher's shop at the Pantiles, Tinbridge Wells
Barkaway butchers, Frank Cuningham at left 
 butcher Frank Rogers, Riverhead
 Fraser brothers., Dingwall-Scotland
c. 1900, Barwell's butcher shop, Bury St Edmunds, Suffolk
 c. 1900, Bett's butcher shop, Eastry
 c. 1900, Stevens brothers butcher shop, Cambridge street, London
 c. 1900, butcher shop, Gabalfa road, Llandaff north (Cardiff)
 c. 1900, George Edward Lear Hillier, Guernsey island
 c. 1900. Tolson & co., Kent
 1905, Cambridge st, London
 1905, Collard's butchers, Redcliffe Hill, Bristol
1906, Hammond butchers, Peterborough
1908. Tunbridge Wells butcher shop
 1909, John Hampshire Nettleton's butcher shop, in Ossett
 1910, butcher shop at Camden Road, Tunbridge Wells
 1910, Durrants butcher, Lower Edmonton
 c. 1910, Barcombe
c. 1910, Castle street, Glascow
c. 1920. Brown & co. butcher, Northampton
 
AUSTRALIA
 1878, the butcher, his wife, their twin daughters
and a friend in front of the shop, Victoria
c. 1895, butcher's shop and residence, Caboolture-Queensland
 c. 1910, James Knight's butcher shop in Christchurch (prov. High Street)

NEW ZEALAND
 
 USA e Canadá aqui