...e depois, com bigodes de leite, pedem mais paciência e esforço ao povo, que a "vaca 'tá seca".
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domingo, 19 de maio de 2013

TUDO BEM, SE NÃO FOR COMIGO


A ELITE DO PAÍS 'NIMBY'
Henrique Monteiro, Expresso online, 17.05.2013

Vi ontem uma pequena reportagem com a Comunidade Vida e Paz, uma associação generosa, voluntária e desprendida que todas as noites distribui alimentos. Há muito que o faz, muito antes da crise, sem esperar qualquer reconhecimento, com poucas palavras, pouco protagonismo e muitas ações. Qual a novidade? Cada vez mais pessoas recorrem à ajuda alimentar levando os seus filhos, apesar de noite cerrada, porque são os pequenos quem mais necessita urgentemente de comida.
Penso que nem uma pedra fica indiferente a uma situação destas. E se a trago aqui é porque tenho a sensação de que a elite deste país é especialista no que em inglês se chama NIMBY (de Not In My Back Yard, ou não no meu quintal). Ou seja, a nossa elite, que tem acesso à comunicação, raramente fala do problema dos outros, preferindo falar dos seus. Sendo uma elite que largamente vive de reformas, fala de reformas; sendo uma elite que largamente vive do setor público, fala do setor público. Sendo uma elite que vive largamente à sombra do Estado, fala do Estado. É, por isso também largamente favorável a todo o tipo de reformas, desde que elas não atinjam o seu quintal - não no meu quintal, NIMBY.
Mas o maior problema do país não é se 10% dos reformados vai ganhar menos, ou se os professores vão trabalhar mais cinco horas. Se olharmos para estes dramas concretos que se vivem à volta de organizações como a Comunidade Vida e Paz, se recordarmos os 19, 20, ou mais por cento de desempregados, os velhos com reformas miseráveis (daquelas que não foram sequer cortadas), as famílias desestruturadas pela crise, rapidamente vemos o ridículo de um país que nunca discute estes casos no concreto, mas apenas em esquemas macroeconómicos tão manhosos como as folhas de Excel.
A questão que se coloca a cada um é o que faremos por este país? Estamos dispostos a dar? Queremos ajudar? Como podemos ajudar? Partamos deste ponto para todos os debates. O 'NIMBY' é a marca da imobilidade que nos conduziu até onde estamos.

terça-feira, 2 de abril de 2013

MITOS URBANOS: KEYNES VS. HAYEK


Revisitando Keynes, na zona euro
por João Carlos Espada (Público, 1/4/2013)
Nos dias que correm, há muitas coisas confusas, sobretudo na zona euro. Uma delas, que aqui tenho vindo a partilhar, reside em saber porque é que políticas alegadamente neoliberais sobem impostos a níveis sem precedentes. Outra reside em saber porque não é possível na zona euro uma drástica redução dos impostos como forma de relançar a economia, diminuir o desemprego e aumentar a receita fiscal.
Com estas perguntas em mente, pode ser útil revisitar o debate entre Keynes e Hayek, que dominou o século XX.
Em primeiro lugar, deve ser recordado que Keynes e Hayek se admiravam mutuamente e testemunharam-no várias vezes. Nicholas Wapshott, no excelente livro (Norton, 2011) não deixa dúvidas sobre esse ponto.
Em segundo lugar, Hayek nunca apresentou uma crítica global à de Keynes (1936). Na sua obra-prima (1960), Hayek dedica ao keynesianismo menos de meia dúzia de páginas (280-284). A sua principal crítica é que o keynesianismo conduz à inflação.
Em terceiro lugar, Hayek esclarece naquela obra que só pode haver razões de princípio contra a intervenção do Estado quando esta infringe (pp. 220-233). Em todos os outros casos, trata-se apenas de avaliar custos e benefícios e optar democraticamente pelo que parecer mais vantajoso, podendo em seguida o Parlamento corrigir escolhas anteriores com base nos resultados produzidos.
Indiscutivelmente, as políticas de Keynes estavam nesta segunda categoria, de acordo com o argumento de Hayek. Quer dizer, devem ser ponderadas na base dos custos e benefícios. (Não faz por isso sentido impor limites aos défices orçamentais na Constituição, uma moda actual na zona euro que colocaria as políticas keynesianas fora dos limites constitucionais.)
Ora bem, resta agora saber o que defendeu Keynes. Hoje diz-se que ele defendeu permanentes défices orçamentais e permanente despesa pública. Não é exacto.
Keynes simplesmente defendeu que “numa recessão o défice orçamental nunca será reduzido por medidas que reduzam o rendimento nacional”. Alertou para que essas medidas irão inadvertidamente prolongar a recessão, em vez de reequilibrar o orçamento.
Muitas pessoas pensam que, por estas razões, Keynes simplesmente defendeu o aumento da despesa pública durante as recessões, com vista a estimular a procura. Mas também não é exacto.
Keynes, na verdade, defendeu também cortes nos impostos durante as recessões, de forma a estimular a oferta. Isto mesmo ficou claro no seu texto de 1933, em que defendeu a redução dos impostos como forma de relançar a economia.
Em 1962, o Presidente Kennedy anunciou um ambicioso corte keynesiano nos impostos de 10 mil milhões de dólares com vista a combater o desemprego. Ao fim de quatro anos, a receita fiscal aumentou em 40 mil milhões de dólares. O desemprego baixou de 5,8% para 3,8%. O crescimento da economia subiu para 5,1%.
Vinte anos mais tarde, o Presidente Reagan fez exactamente o mesmo, ou ainda mais. Cortou os impostos em 25%. A economia cresceu 4,8% ao ano entre 1983 e 1986, contra 0,9% entre 1978 e 1982. O desemprego baixou para 5,3%.
Arthur Laffer, um dos grandes inspiradores da reaganomics, reconheceu que a sua política de cortes nos impostos para relançar a economia e aumentar a receita fiscal era inspirada em Keynes.
Por outras palavras, não é exacto que Keynes tenha defendido simplesmente o aumento da despesa pública. Ele também defendeu a redução dos impostos. Basicamente, Keynes defendeu que, numa recessão, a prioridade deve ser relançar o crescimento económico, não equilibrar o orçamento. E, como disse na BBC em 1933: “Tomemos conta do desemprego, pois a seguir o défice tomará conta de si próprio.” Ronald Reagan parafraseou-o no seu estilo singular: “Não me importo com o défice. Ele é suficientemente grande para tomar conta de si próprio.”
Keynes certamente incorreu no erro de fornecer aos políticos uma desculpa para agravarem o défice público mesmo em períodos de crescimento económico — quando o próprio Keynes defendia que, nessas épocas, o défice devia ser reduzido ou mesmo eliminado. Também incorreu no erro de enfatizar mais a sustentação da procura, em vez do corte nos impostos e o estímulo pela oferta. É também verdade que, no médio prazo, o keynesianismo sem limites produziu a estagflação de 1970, como Hayek previra.
Mas não é menos verdade que Keynes enfrentou a depressão de 1930. E talvez seja oportuno recordar que os países de língua inglesa, cujos parlamentos puderam nessa época adoptar políticas keynesianas, foram também aqueles que nunca sofreram as revoluções comunista ou nazi. Talvez valha a pena pensar nisso, hoje, na zona euro.

segunda-feira, 18 de março de 2013

CHIPRE E A BARCA DOS LOUCOS

Hieronymus Bosch, The ship of fools. 1490-1500 (Louvre)
 
De surpresa, sexta à noite, o eurogrupo concordou emprestar 10.000 M€ ao Chipre, com uma condição: o 'confisco' de parte dos depósitos bancários dos cipriotas, de 6.75 ou 9.9% (depois alterados para 3.5 e 12.5%, com uma proposta de isenção até 20 ou 25 mil euros), consoante a 'poupança' fosse inferior ou maior que 100.000€.
Até aprovação no parlamento (amanhã), onde o governo tem uma minoria, os bancos estão fechados, não vá o pessoal querer levantar o que é(ra) seu.
 
Isto é um bocadinho idade média, quando os camponeses tinham tanto receio dos fora-da-lei como dos senhores feudais: uns e outros podiam chegar um dia e levar-lhes a cevada e os bácoros. Com a desvantagem, no segundo caso, de não poderem queixar-se ao xerife.
A seguir, voltam os direitos de prima nocte?

terça-feira, 27 de novembro de 2012

PATRÃO DE VÃO-DE-ESCADA


Se formos governo, posso garantir que não vamos
despedir pessoas nem cortar mais salários
para sanear o sistema português.
Passos Coelho, twitter 2/5/2011

Dizem que eu sou um privilegiado. De facto, não tenho um patrão qualquer - para começar é mais forte que os outros, porque é ele que faz a lei: exemplo, os outros patrões não podem diminuir salários, o meu pode, e fê-lo; os outros têm que respeitar os acordos e convenções colectivos, o meu apresenta propostas inegociáveis.
Ora bem, o meu patrão decidiu: pagar menos um quinto do salário (numa estimativa bem conservadora); reduzir em 50% o pagamento de feriados e horas extraordinárias; reduzir subsídios de alojamento e ajudas de custo por deslocações (pagas apenas se a distância é superior a 20km, ou 50km em dias sucessivos); manter a suspensão de progressões; aumentar o nº de horas de trabalho, daqui a um tempo; reduzir o nº de colaboradores (trabalhando mais os que ficam, naturalmente); deixar de pagar baixas por doença nos primeiros 3 dias, e reduzir em 10% o pagamento dos restantes dias; apressar a subida da idade da reforma (e pagar menos por ela), aumentar várias vezes as contribuições para a segurança social (adse+cga) e os impostos (a 2ª maior subida do mundo, nos últimos 3 anos).
Deu cavaco a alguém?
Uma coisa é aproximar o regime da FP do sector privado - tudo bem! -, outra é torná-lo ainda pior. É de esperar que o Estado seja um exemplo de decência com os seus trabalhadores - pormenor, também seus accionistas.

post scriptum: o meu patrão diz que a sua prioridade é o desemprego, mas rescinde com contratados que têm a particularidade de não terem direito a subsídio de desemprego - o governo começou a explicação com "como em qualquer empresa...", pois há empresas que agem com menor ligeireza (bem a propósito, os desempregados vão passar a pagar taxa social a partir dos €419).

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

É A ECONOMIA, ESTÚPIDO


- A coisa já estava tremida. E com a subida do IVA de 6 para 23% (já devem ter percebido que a colecta não subiu, desceu), foi mais uma cajadada nas vendas: os cafés vendem menos e os restaurantes usam os funcionários para fazer os rissóis, ou compram a desempregadas biscateiras que os fazem em casa, depois encomendam-nos alguns para ter facturas e justificar a mercadoria. E são umas atrás das outras, agora ando a ver se resolvo uma multa da segurança social, que recebi sem saber ler - 10.008€.
- ...?
- No início do ano, tivemos que mandar 3 pessoas embora. Mas o trabalho está quase parado e, no fim do verão, conversei com a nossa funcionária mais velha, já sem filhos a cargo, que aceitou ir para o desemprego. Não sabíamos, mas a lei proíbe despedir mais que 3 pessoas ou 1/4 do pessoal - recebi uma carta com uma multa à conta dum artigo qualquer [63º do decreto-lei 220/2006], porque criei à senhora a falsa expectativa de que tinha direito ao subsídio, e agora pago eu esse valor.
- Foi à segurança social?
- Fui, perguntei se não é preferível despedir uma pessoa a fechar a empresa e irmos as 8 para o desemprego. Responderam que a única coisa a fazer era recontratar a pessoa com a data do dia seguinte ao despedimento - ainda fui a casa da senhora, tentar convencê-la a voltar, mas ela habituou-se depressa a ficar em casa, e entrou de baixa, já não dá.
- E agora?
- Não sei, eu quero resolver, mas o Estado não parece interessado em ajudar, parece que faz de propósito para nos afundar. Há mais: recebi uma carta das finanças a dizer que devia 5000€ de IVA. Fui pedir para pagar em prestações, mas tive que esperar 30 dias e depois outros 30 após o prazo de pagamento, só para meter o requerimento - resultado, fiquei a dever 6500€ com a multa e os juros agiotas. Mas não acaba assim: só aceitam prestações se eu apresentar uma garantia bancária. Pois, então, se eu tivesse dinheiro no banco, pagava, não é?
- Claro.
- Andei um tempão a caminho do banco (e os juros a crescer), até me passarem um papel a dizer que, no momento, a empresa não tinha liquidez. Voltei às finanças e propus dar os bens da empresa como garantia, mas não querem bens, querem dinheiro vivo. Agora exigiram um seguro-caução!!!
- E como? Qualquer seguradora vai-lhe tirar o couro e o cabelo, para assumir o risco.
- Eu nem sei o que é um seguro-caução. 
- Bem, de qualquer forma, o IVA que deve também o recebeu de outros, não é?
- Parte, é que também estou a dever IVA (mais juros) que ainda não recebi, tenho uma pilha de cobranças em atraso, algumas há 6 meses e de valores ridículos, de empresas maiores que a minha.
- Desconfio que, no próximo ano, vamos ouvir várias conversa assim, o comércio vai piorar ainda mais e vai ser um dominó.
- Não duvide. Mas isto são apartes, vieram cá verificar se eu já tinha reparado o chão. Olhem, eu quero, mas não tenho dinheiro. Essa parte do piso tem 2 anos e está pior que o resto que é antigo, mas não posso reclamar os 2500€ ao empreiteiro. Faliu e não vale a pena ir para tribunal, já existe uma fila de credores à minha frente...

Esta conversa aconteceu mesmo, é real o Estado cego, o fisco voraz e a economia em ocaso - é real este país em quarto minguante.  
Com sorte, o crente Victor Gaspar acerta e a seguir vem a lua nova. Ou acertam os outros todos, e o ministro o que está a fazer, com o 'custe o que custar', é terraplanagem - e, quando regressar à sua carreira em Bruxelas, Portugal será uma paisagem lunar

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

UE FORA DE PRAZO

Ich bin ein athenischer

'Grécia permite venda de alimentos fora do prazo de validade mais baratos', titula o Jornal i de ontem.
Ao que isto chegou, numa Europa que proíbe colheres de pau.
Ao que os gregos chegaram... que triste sina ver-te assim, que sorte vil degradante... cantaria o Vasco.
Caso os outros países-membros da União europeia, repito União, aceitem isto impávidos, podem tocar os sinos: é oficial, a União morreu, R.I.P.
Na melhor das hipóteses, a Europa esfarelou, não passando dum alvo e frágil castelo com as claras a deslaçar.

E nós? Pelo caminho que isto leva, a expressão 'eu sou um eteniense' deixa de ser uma metáfora solidária. O que parece é que vai TODO o país num autocarro desgovernado pela ribanceira abaixo - lá em baixo, o Egeu! -, agarrado ao banco e a protestar (incluindo ministros), e os motoristas Passos/Gaspar aceleram, dizendo 'estejam quietos, o caminho é estreito'.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

LOGO, ESPIRAL RECESSIVA

Mais 4.322.000.000€ em impostos (irs 2810MM, irc 225MM, CGA 143MM,...) e menos 1.400.000.000€ em prestações sociais (salários 726MM, pensões 421MM,...). Insistem...
Lagarde diz que FMI se enganou (ups!) e que as coisas afinal estão a correr pior do que pensavam*, Pilatos Durão diz que a troika não tem nada a ver com as medidas de Passos. Mas insistem...
É difícil explicar ao meu gaiato de 8 anos o que o Gaspar está a fazer, ele perguntou-me se não é suposto o senhor perceber de economia: está na cara (como uma bofetada) o que é que está a acontecer. E está tão na cara, que nem dentro do governo estão convencidos, partiram pedra em reuniões de 20 horas.
Pois imaginem o reclame daquela seguradora, a do LOGO:
* por cada 1€ retirado pelo Estado (via receita ou despesa), o efeito
recessivo é de 0.9 a 1.7€ e não o (sub)estimado 0.5, porque o crescimento
é frouxo, os juros já não podem descer muito mais e os países estão
a ajustar ao mesmo tempo. (FMI) E não há moeda própria, já agora.

Enfim, em medicina chama-se a isto sobredose. A receita não está a funcionar mas, teimosos, insistem. Não é surpresa nenhuma, Ramalho Ortigão já o explicou n' As Farpas, em 1882.

p.s.: liberal, um governo que o que está a fazer é nacionalizar bancos (em necessidade), arrendar a casa aos donos (o IMI vai crescer 8 vezes desde 2003, é uma renda) e colectivizar a economia, apropriando-se vorazmente do dinheiro que circula. Mais Estado, pior Estado?

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

A CURVA DE LAFFER POR VICTOR GASPAR

A Curva de Laffer é tão simples que Arthur Laffer a explicou no guardanapo dum restaurante, em 1974: com a subida dos impostos vai aumentando a receita, até um momento de equilíbrio ou saturação (variável com o país), e a partir a receita vai descendo, à conta da evasão fiscal ou porque não há estímulo a sobre-esforço.


O ministro das finanças, Victor Gaspar, ficou surpreso com a evolução da receita entre Janeiro e Julho de 2012: o IVA não subiu 10% como previsto no orçamento rectificativo (feito há meses), caiu 1.1%; o total dos impostos não subiu 2.8%, desceu 3.5%; o imposto sobre o tabaco não subiu 10%, desceu 12.7%.
Não satisfeito, subiu a parada e tirou do seu excel o maior aumento de impostos que há memória, a ver se é desta que a receita cresce.
Está explicado: o monetarista teórico, fanático por equações e modelos econométricos, faltou a essa aula ou tem o PC marado – eis a sua Curva de Laffer:

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

FILHOS E ENTEADOS


Disse o Secretário de Estado Rosalino sobre o 'corte impiedoso' nas chamadas gorduras 'Foi a [redução] que foi possível fazer dentro do equilíbrio que se queria conseguir entre reduzir a despesa mas não criar problemas que viessem a inviabilizar o funcionamento de algumas fundações relevantes'.

Sobre as PPP, já se sabe que não se podem rasgar contratos, não é legal.
Mas já podem criar-se problemas que inviabilizem o funcionamento das famílias e rasgar-se contratos sociais e laborais com as pessoas (essas, presumo que irrelevantes, e que afinal eram as gorduras do Estado), uns empecilhos à genial obra de regeneração do país.

Não houvesse meninos saídos da faculdade como assessores a ganhar 5000€ (mais 2 subsídios 'suplementares'), dessem verdadeiras machadadas na EDP e nas PPP, o corte nas fundações não fosse pífio (mantendo a fundação do Magalhães), não excluíssem os professores universitários do congelamento de progressões na FP, ou o pessoal da TAP, CGD ou Banco de Portugal da redução de salários, fossem buscar o dinheiro que evaporou no BPN, ousassem reduzir uma câmara como assinaram com a troika, em suma, dessem o exemplo e calhasse a todos, e então apertávamos o cinto com menos ira.
E, já agora, se tivesse descido o défice, era sinal que o aperto serviu para alguma coisa.
Que mais terá que acontecer para lá chegarmos?

p.s.: a propósito de justiça fiscal, em 2010 só pagaram IRS/IRC 43% das famílias e 29% das empresas, em 2011 estava estimada em 40.000 milhões de euros a economia paralela.

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

NOTAS DE ESCUDO

Destas ainda me lembro. 20 escudos davam então para 4 bolas-de-berlim, e agora 10 'contos de réis' não enchem um depósito de gasóleo... 

€0,10
 Santo António. 1965-1986
 Garcia da Horta. 1965-1986
Gago Coutinho. 1978-1986 

€0,25
 Rainha Santa Isabel. 1965-1987
 Infanta D.Maria. 1979-1987 

€0,50
 Camilo Castelo Branco. 1968-1987
 Barbosa de Bocage. 1980-1990
Fernando Pessoa. 1987-1992

€2,5
 D. João II. 1966-1988
 Francisco Sanches. 1981-1990
 Mouzinho da Silveira. 1988-1998
 João de Barros. 1997-2002

€5

 D. Maria II. 1967-1987
 D. Pedro IV. 1979-1991
Teófilo Braga. 1988-1997 
Pedro Álvares Cabral. 1996-2002  

€10
Bartolomeu Dias. 1991-1997 
 Bartolomeu Dias. 1996-2002

€25
     
António Sérgio. 1981-1992
Antero de Quental. 1987-1997 
 
Vasco da Gama. 1996-2002

€50
Egas Moniz. 1989-1997 
Infante D. Henrique. 1996-2002  

e as últimas moedas

mais em
http://notasrepublica.blogs.sapo.pt/
http://clientebancario.bportugal.pt/PT-PT/NOTASEMOEDAS/NOTASEMOEDASNACIONAIS/Paginas/Escudo.aspx?pagenr=1

segunda-feira, 23 de julho de 2012

BANKSTERS


Durante a grande depressão foi crismada uma palavra, um híbrido de banqueiros e bandidos - BANKSTERS.
O trocadilho orça agora em 80 anos, mas parece novinho em folha, tão actual que é.

.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

BOM GASTADOR

As conversas com o Saraiva, dê por onde der, vão ter a dois assuntos, a sua reforma e as mães solteiras. 
A última vez não foi excepção.
Depois dum extenso relambório acerca da sua falta de pachorra para as chefias e para a decadência do serviço, perguntei:
- Então, sempre vai avançar com o pedido da reforma?
- Fui buscar os papeis há umas 2 semanas.
- E então, tanta pressa e não os mete?
- Acontece que peguei neles e o título era pensão de velhice. Deu-me cá uma alergia que nem consegui preenchê-los. Não estou preparado para ser oficialmente velho.
Realmente, podiam chamar-lhe qualquer outra coisa, prestação retributiva ficava melhor.

Cumprindo o guião, a seguir veio a crise: 'Parece que nada muda: quando era criança, pedia um brinquedo e a minha avó dizia agora não posso, os tempos não estão para isso. Passaram 50 anos e voltámos ao mesmo'.
Não vale a pena explicar que mudou e muito - os avós não tinham esgotos, água canalizada, telemóveis, máquina de lavar e de secar, 3 televisões e 2 carros.
Mas o que enerva mesmo o Saraiva são as pessoas que, não só não poupam, como desbaratam o dinheiro. Então as mulheres solteiras que saem à noite, vão a discotecas (não entram de borla) e gastam dinheiro em tabaco e cervejas... O problema maior é serem do género feminino, desconfio.
O busílis é que o Saraiva conhece umas mulheres desempregadas que deixam as crianças em casa e vão divertir-se (um pecado!!!), e no dia seguinte vão buscar comida ao banco alimentar - uma questionável administração do parco rendimento, talvez.

A situação fez-me recordar um caso paradoxal, dum par alfacinha, que tem estado a recorrer às reservas que têm no banco, desde que ele ficou desempregado. Acontece que ele tem um escape, é leitor-barra-comprador compulsivo de livros e arranja pechinchas todas as semanas.
Um dilema, alguém imagina ser censurável a leitura?  


LER É SONHAR PELA MÃO DE OUTREM.
Fernando Pessoa

quarta-feira, 30 de maio de 2012

EU NÃO LUDIBRIO!


‘Parece que é, mas não é’ era o slogan da Brasa, a bebida que aquece o coração.
Esse podia ser o chavão dos governos por essa Europa fora, que usam todas as suas capacidades de prestidigitação para suavizar a realidade: 
nada de cortes, 
só poupanças; 
austeridade é depressiva, 
consolidação é virtuosa.

Não, a crise não leva a baixas nos salários, cortes orçamentais e aumentos de impostos, que isso são castanhas a estalar na boca dos governantes. 
O que se passa mesmo é que uma desaceleração severa da economia é resolvida com a desvalorização competitiva dos salários, reformas e uma majoração temporária (?) de solidariedade.

Não, a recessão não atinge os mais fracos nem provoca desemprego, que isso é puxar para baixo. 
O que acontece mesmo é que o crescimento negativo (antítese poética) tem um impacto assimétrico e obriga à racionalização laboral.

Ó carpideiras, basta um pouco de honestidade intelectual para se ver que, tal como o ‘coiso’ (termo usado pelo ministro da Economia, bem melhor que a palavra desemprego, essa dá prurido) não aumenta, a nossa vida não anda para trás – desacelera. 
E, a propósito, o coiso tem vantagens: é uma oportunidade e, mesmo não havendo, é-se mais livre, pois há menos a perder.
No fundo, é tudo uma questão de ajustamentos, económicos e semânticos.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

ESTE PAÍS É PARA MEIA-DÚZIA


O despacho conjunto 774/2012 das SE ensino superior e da ciência, de 11/1/2012 (mas com efeitos a partir de 28/6/2011), nomeia Helena Isabel Roque Mendes, para funções de apoio e de interface. Além do salário, aufere 'Nos meses de Junho e ...Novembro, outra mensalidade igual, a título de abono suplementar'. São uns criativos a conceder aos filhos  o 13º e o subsídio de férias que tiram aos enteados.
Por ajuste directo, Relvas contratou, para o seu gabinete, o motorista do grupo parlamentar do PSD, por €73.446 - mas esqueceu-se de publicá-lo na prometida página de nomeações do governo.


Este país não é para velhos era o título dum filme. Este país é para meia-dúzia, disse-me um colega zangado com estas chico-espertices e com mais uma intenção do governo, poder mandar funcionários públicos (escolhidos a dedo pelo chefe) para outro ponto do país.
A juntar à redução da 'mesada' em 5% (obrigado Sócrates), a perda ad eternum de 2 dos 14 salários, a perda de feriados e do Carnaval (peanuts, comparado com o resto), a pretensão de reduzir o custo de cada hora extra (a quem as recebe), é uma espécie de bullying reiterado, seguindo a táctica de apresentar primeiro uma medida insultuosa e depois moderá-la com uma versão mais soft - 3 passos de caranguejo, 1 passinho de bebé...
E quem não gostar, a porta é a serventia da casa. Como disse o centrista João Almeida, se os funcionários públicos 'não estiverem disponíveis têm sempre como alternativa a hipótese de negociarem a sua situação contratual'... Pode dizê-lo, pois aceitou a mobilidade especial: ora deputado por Lisboa, ora deputado pelo Porto - presumo que com direito a simpáticas ajudas de custo, mesmo continuando a viver na capital.

Mas o cisma não é só com os FP. É dar tempo e anda tudo à batatada: trabalhadores contra desempregados, velhos contra novos, públicos e privados, nacionais e imigrantes. E está instalada a SCHADENFREUDE,  um termo alemão (claro!) sem tradução, como a nossa saudade - a alegria sentida com a infelicidade alheia*.
A schadenfreude explica como as medidas que afectam os 'malandros' dos FP são ovacionadas. Foi engraçado ver uma senhora telefonar para um forum da SIC, apoiando exaltadamente a mobilidade dos FP, pois são pagos 'pelos nossos impostos', o que até podia ser verdade, mas o rodapé dizia Maria Reis - desempregada, Oeiras. Ironia, se calhar o seu merecido subsídio é também pago com os impostos (até ao último cêntimo) dos FP.

Na China, sê chinês. E como isto não tarda é tudo chinês - e o interruptor da luz já é deles -, o governo vai desregulando o trabalho (seja privado, seja público), reduzindo salários, cortando em coisas tão irrelevantes como transporte de doentes. Apenas na receita é socialista, arrecada o que pode.
Antes da eleição, Passos elogiou os orçamentos de base zero, à Porto Alegre, mas o que pretende agora é direitos de base zero (obviamente que os direitos não são vitalícios por si só, mas é indesmentível que estamos a andar para trás).
Não foi isso que Passos prometeu (cortar o 13º era um disparate, disse), e agora impõe uma agenda yuppie - não por obrigação, mas por convicção, como fez questão de afirmar.
Razão tinha a Ferreira Leite, quando riscou o Passos da lista de candidatos a deputados, em 2009: era pôr a raposa no galinheiro, disse.

* Não é esse o sentimento da formiga sobre a cigarra, ou dum nórdico sobre os gregos, fizeste a cama para te deitares?

quinta-feira, 3 de maio de 2012

COSTELINHA DE ESQUERDA


DIREITOS NÃO SÃO REGALIAS.

Há para aí muita gente que faz essa confusão, mais ainda por estes dias, porque ambos são prerrogativas. A maioria das pessoas (a começar pelo chairman da EDP, Eduardo Catroga) até usam os termos conforme a pessoa verbal: eu tenho direitos, tu tens regalias, ele tem privilégios.
Para os mais distraídos, vai uma ajudinha.

DIREITO
1. aquilo que é reto, justo ou conforme a lei

2.  poder moral ou legal de fazer, de possuir ou de exigir alguma coisa
3.  poder legítimo, faculdade
4.  prerrogativa
5.  conjunto de normas gerais, abstratas, dotadas de coercitividade, que regem os comportamentos e as relações numa sociedade

REGALIA
1. privilégio de rei

2.  prerrogativa; vantagem, benefício
3.  privilégio que resulta de determinada atividade profissional
4.  imunidade

PRIVILÉGIO
1.  direito ou vantagem exclusiva concedida a alguém
2.  diploma que confere essa vantagem
3.  regalia
4.  prerrogativa; imunidade
5.  condão

BENEFÍCIO
1. serviço ou bem que se faz generosamente a outrém; favor; mercê; graça
2. beneficiação; benfeitoria
3. o que se ganha com algum negócio ou troca; lucro  
4.  pessoa jurídica constituída por certos bens materiais destinados à manutenção do seu titular

BENESSE
1.  favor
2.  lucro obtido sem esforço
3.  auxílio; ajuda

fonte: infopédia, enciclopédia e dicionários Porto Editora

terça-feira, 1 de maio de 2012

PROVISÓRIO AD ETERNUM


Primeiro reduziram o salário.
O Tribunal Constitucional autorizou, considerando a medida como temporária: as reduções justificaram-se com base no interesse público, mas a regra é provisória, pelo quadro contabilístico do orçamento em que se insere e pela natureza do próprio diploma, de vigência anual.
O TC não deu como inconstitucional a redução dos salários (desde que acima dum valor mínimo), mas considerou que as reduções, para mais significativas, põem em causa as expectativas fundadas dos trabalhadores - sendo essas um dos requisitos que enformam a protecção da confiança dos trabalhadores, princípio 'de contornos fluídos' plasmado no art. 2º da Constituição.
Contudo, aos interesses particulares desfavoravelmente afectados, o TC sobrepôs a absoluta excepcionalidade das contas públicas: enquanto durar o memorando da troika (até 2014), a redução salarial terá uma duração plurianual, sem pôr em causa o seu carácter provisório.
O acórdão 396/2011 não obteve unanimidade.

No orçamento seguinte, manteve-se a redução. Ganhado balanço, ainda se cortaram 2 de 14 salários no sector público (a bem-dizer, parte do sector público, pois houve várias excepções). Até quando?
Primeira versão, cortes até 2013.
Segunda versão, até 2014.
Terceira versão, reposição faseada dos subsídios de férias e natal a partir de 2015.
Update de ontem, reposição total só em 2018, sem compromisso (sic). Hão-de ser devolvidos - é o termo mais apropriado - lá para as calendas gregas (para quem não saiba porque se usa esta expressão, o calendário grego, ao contrário do romano, não tem calendas).
Denominador comum, o corte é temporário, até porque a constituição não o permite.

Em versão código da estrada, é a diferença entre um risco ou uma cruz, entre parar e estacionar.
"Ó sô guarda, é só por um bocadinho!", diz o Passos, e o carro por lá fica, ganha ferrugem, os pneus esvaziam e alguém escreve no vidro vai-te lavar porco.

segunda-feira, 12 de março de 2012

SE HÁ-DE IR PRÓS PORCOS...


O Torres escorregou no trabalho, apoiou-se mal no corrimão e torceu o ombro.
O Torres foi de baixa.
O Torres foi a uma junta médica. A lesão é antiga (os anos de andebol não são para aqui chamados!), mas não é possível excluir que o acidente de trabalho tenha agravado o problema.
Foi-lhe atribuída uma percentagem de invalidez e o Torres recebeu 17000€ de indemnização.
O Torres não fez nada de ilegal, só é filho dum ortopedista e conhece bem a lei.
O Torres diz que apenas usou um direito (verdade!), parvo seria se não o fizesse, antes para ele que para essa cambada que anda aí a mamar - na proverbial expressão do Torres, ‘se há-de ir para os porcos…
De acordo com o Torres, nos próximos 10 anos, se a lesão for reactivada, podem-lhe aumentar o grau de invalidez e voltar a receber outra indemnização.
O Torres está no Peru, a gozar uma merecidas férias a contas da compensação pelos danos causados. Faço figas que ele não escorregue na encosta de Machu Picchu, ou lá temos que ressarci-lo.

sexta-feira, 2 de março de 2012

NÃO DEVE, OFERECE


Ora bem: a CM de Matosinhos pôs a Cepsa em tribunal por falta de pagamento de 17M€ de taxas correspondentes a 10 anos, o tribunal mandou reavaliar o valor - por decisão das partes, o calote desceu para pouco mais de 7M€.
Mas o acordo extrajudicial não fala em dívida: a Cepsa paga 8.1M€ durante 4 anos, ao abrigo da lei do mecenato - não estou a mentir!!!
A empresa castelhana ainda ganha 10,5M€ de isenções fiscais e pode, sem qualquer penalidade, suspender os 'donativos' se houver alterações substanciais das circunstâncias em que labora em Matosinhos - diz o protocolo.
Depois a culpa é do povão (piegas) que vive acima das suas possibilidades.

P.s.: Exmo. Sr. Presidente da CMM, este humilde cidadão pede que o seu IMI (que vai ser opado este ano) seja considerado mecenato, dá jeito no IRS e até é pago no prazo. Ou há moralidade, ou comem todos.

domingo, 19 de fevereiro de 2012

EXPERIMENTALISMOS

A Lição de Anatomia do Dr. Tulp, Rembrandt 1632

Conhecem a velha anedota que narra a experiência de Samora Machel com uma rã? Passos Coelho não conhece, e está a aprender fisiopatologia, com a sua artrítica rã chamada Economia.
Primeiro, PC cortou com o machado do IVA uma perna à rã, e ordenou - Economia, mexe. - e o bicho andou.
A seguir, PC usou um estilete e cortou duas pernas ao animal, o 13º e o subsídio de férias. Voltou a ordenar à rã - Anda, Economia! - e a rã lá se arrastou.
Por fim, PC cortou a última perna, atrofiada, do investimento. Insistiu várias vezes com a rã - Move-te, Economia! - mas o anfíbio, nada.
PC escreveu na sua sebenta: A ECONOMIA SEM PERNAS É SURDA!    

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

AS VIÚVAS


Não é que escute conversas alheias. Não faz o meu feitio. Mas a casa de chá do Siza Vieira estava às moscas, só eu e duas senhoras entradotas, com penteado à Manuela Eanes, cimentado a laca.
Quando 'entrei' na conversa, falavam no Francisco-Deus-o-tenha. Rezou mais ou menos assim:
- A Mafalda não fica mal, tem a reforma dela e a do marido.
- Não lhe digas nada, mas devia haver um limite: a pensão dela é p'aí 2500 euros, e ainda ganha outra reforma igual do Francisco (Deus o guarde). Era aí que o Estado devia poupar.
- Há pior. A irmã dela - a Rosário, lembras-te dela -, também recebe a reforma do marido.
- Mas eles não estavam separados?
- Pois, o Manel até já tinha casado e descasado com outra. Mas como nunca mudou a morada nas finanças, foi fácil 'provar' que ainda viviam juntos.
- Agora ia-me engasgando! Um roubo a prestações mensais - a nós todos - e, se calhar, ainda chama gatunos ao governo.
- É. Ela que me venha com essa conversa alguma vez. Quando pediu a pensão, disse-me que era para a sogra, agora diz que é para o filho, só fica pá sogra quando ela for para um lar...
- Há quem não tenha vergonha nenhuma. Bem, eu também andei a ver se havia maneira de ficar com a pensão do Pedro, mas não dá.
- Tu??? Há quanto tempo te separaste?
A senhora roeu o seu scone com vagar, como quem faz contas mentalmente.
- Faz 19 anos em Março.
- Olha lá, e então não é a mesma coisa?
- Não. A Rosário ganha bem, eu tenho uma pensão de miséria.

Ficaram as duas caladas, a sorver o chá e a olhar para o mar revolto - uma pausa para digestão da compota de tomate verde, ou da conversa.
Fiz o mesmo. Afinal, a questão não é de princípio, é ou não roubo conforme o tamanho da prestação social - honestidade variável. 
O pior é o à-vontade de quem faz ou tente fazer (chamemos-lhe) jigajogas destas, em partilhar a façanha. Por obséquio, nem às paredes as confesse - um pouquinho de decoro nunca fez mal a ninguém.